domingo, 31 de outubro de 2004

Fragmentos

Do murmúrio de mar no teu corpo
soltando-se
em clamorosas vagas

Dos olhos o Sol
em chama castanha
na escuridão da sala

Do cheiro
que não sai dos meus dedos
e que levo comigo

Do abraço que guardo
fechado por um tempo
suspenso de ti

Música de Fundo
"Bohemian Like You" - The Dandy Warhols


sábado, 30 de outubro de 2004

Sorriso

Gostaria
de fazer chegar o meu sorriso ao horizonte
para que daí o visses

De um modo
que não deixasse dúvidas…
sobre este farol de luminosos impulsos

Do que sinto
mas que nunca lá chegará
pois criou raízes em mim

Como uma sequóia
cravada no meu coração
cujos ramos se elevam

Tentando fazer
com que o meu sorriso
consiga aínda assim alcançar o horizonte

Música de Fundo
Gimme All Your Lovin’ ” – ZZTop


sexta-feira, 29 de outubro de 2004

A Tasca Dos Canalizadores (1ª Semana)
- Os Infortúnios da Virtude –

Nesta primeira semana de isolamento descobrimos imensas coisas sobre os reclusos… perdão! Os residentes.

A produção ontem decidiu dar para reflexão a seguinte frase – “A distância entre o humor e o ridículo são apenas dois dedos” – que suscitou os mais sensatos reparos por parte dos elementos da tasca. Reparos que infelizmente não ficaram para publicação à hora desta emissão.

Mas ficámos por exemplo informados sobre a enorme capacidade de processamento de resíduos que tem o “Pereirinha”, quase e apenas comparável à da ETAR de Cacilhas.

Pois além de ter resistido heroicamente ao “Bacalhau à Braz” da Dona Odete, ainda o conseguiu transformar em metano com um elevado grau de pureza, e em quantidade suficiente para fazer funcionar um gerador de tamanho médio durante três dias.

Iniciámos uma parceria com o LNETI para explorar as potencialidades do “Pereirinha”, quer no domínio da reciclagem, como na produção de energias alternativas.

Existe apenas o inconveniente de parecer que vivemos perto de uma fábrica de curtumes; mas uma subsidiária da Honeywell está neste momento a estudar a aplicação militar desse fenómeno, podendo até a médio prazo substituir o gás lacrimogéneo usado pelas tropas anti-motim.

Ficámos a saber igualmente que o Emílio desde muito novo tinha inclinação pela a “passerelle”. Pois inesperadamente começou a andar com passinhos curtos, e pondo um pé imediatamente em frente ao outro como se fosse uma modelo de alta-costura.

Entre outras coisas, durante esta semana pediu que lhe enviassem fio dental e vaselina. Espero que ele tenha sentido de humor, pois os rapazes do aprovisionamento decidiram fazer-lhe uma partida, e substituíram esta última por Calicida S. João.

Deve ter sido uma risota…

Outra grande revelação desta semana foi Madame Olga. Ontem foi vez da “noite temática” em que todos se mascararam de personagens das Mil e Uma Noites; é claro que calhou à simpática taróloga o papel de Scherazade.

Tudo correu bem até ter começado a dança dos sete véus. Ora quem faz este tipo de performance, deve ter cuidado em evitar lugares frequentados por canalizadores ou metalúrgicos em geral; pois é certo e sabido que se passa num instante das Mil e Uma Noites ao Rapto das Sabinas (esta é para os mais eruditos).

De qualquer modo poderia ter sido pior, pois o Pereirinha viu os seus intuitos gorados. Quando ela ia aí pelo quarto véu, este que já tinha bebido quase uma grade de Super Bock, saltou para cima da mesa das refeições disposto a abreviar o processo e quiçá a passar a uma mais estreita interacção.

Contaram-me depois (que eu não estava na régie, nessa altura) que o atacante após arrancar os restantes véus com um gesto másculo e competente, vacilou e caiu para trás como se tivesse sido atingido entre os olhos com um maço de carpinteiro.

Após soltar um medonho estertor, entrou em paragem respiratória e ficou no chão a debater-se fracamente como uma alforreca na maré vaza.

Mais tarde o “Chinoca” testemunhou que lhe parecia algo que tinha lido num livro da “Europa-América”, onde se falava de uns alienígenas de Rigel-5 cuja vida era baseada na amónia. Dizia-se que as suas emanações urticantes e de propriedades narcóticas eram nocivas para todos os terráqueos.

Bem. Pelo menos foi a descrição que ele deu. Mas eu pessoalmente suspeito que se encontrava sob o efeito de uns cogumelos, que a Dona Odete pusera ás cegas dentro da omeleta do jantar dessa noite.

O que é certo é que Madame Olga não é “flor que se cheire”; pelo que deve ser um dos primeiros a ser votada a saída.

Ao fim da tarde recebemos um telefonema do pai de Meu Amo. Tinha que se ausentar e não queria deixar as ovelhas à solta na Charneca. Pelo que tivemos de acomodá-las no armazém das tubagens.

É muita lã virgem e malcheirosa para ter junta. Mas daí adveio o facto de agora termos mais um ocupante na tasca, a nossa mascote. É uma ovelha branquinha de ar muito meigo que os canalizadores escolheram, sabe-se lá porquê?

O Pereirinha já recomposto do “Efeito Olga” tomou a seu cargo as acomodações da “Branquinha”, a quem trata como uma princesa. O que já despertou alguns gracejos da parte dos outros residentes; que chamam a esta Mrs. Pereirinha, ao que ela responde com dóceis e embaraçados balidos.

Agora tenho que ir. Acho que vou mandar colocar mais uma câmara…

Música de Fundo
Walk Like a Man” – Divine

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Este Blog está a ficar obtuso
- E há que dizê-lo com frontalidade… -

Estamos na última semana do mês, e é um “frisson” desgraçado cá na tasca. É necessário realizar liquidez, processar salários e iludir fornecedores esperançosos (um dia falarei aqui da típica ingenuidade de fornecedor).

Talvez devido a toda essa pressão só ontem o meu sentido crítico emergiu, e após apontar o periscópio em direcção à página azul declarou – Pá… Este blog tá uma merda!

E sem dúvida que tem razão, pois após uma segunda leitura nota-se que os posts são desconexos, escritos a correr; e que os assuntos são do mais foleiro que se pode imaginar. Sim! Quem é que se lembraria de colocar um grupo de mentecaptos dentro de uma quinta e filmar as suas reacções e interacções?

Só mesmo um monstro tipo Dr. Moreau, ou então um idiota chapado. E logo agora que tanta coisa interessante acontece pelo mundo…

Ele é o velho Arafat a patinar no gelo fininho, ou George Bush a introduzir na Casa Branca a mentalidade retrógrada e beata dos Sulistas. É o Fidel de Castro que esteve quase a dar-nos uma grande alegria… Sei lá. Passa-se tanta coisa de que não falei (e escusam de contar agora com isso).

O que talvez me tenha dado mais gozo nos últimos tempos (e que possa descrever aqui, claro), foi a choramingueira em pleno tribunal por parte do sargento da GNR de Albufeira que levou nove anos. Aquele a quem tiraram o jipe e o restantes sinais exteriores de riqueza; e tudo isto só porque “fazia uns favores a umas pessoas”.

É uma pena que cá na terra não se cultive o hábito de colocar os polícias corruptos juntamente com os antigos “clientes”. Iria ser muito mais interessante que filmar sete canalizadores e uma taróloga de aspecto pouco comestível.

Que querem? Ás vezes também sou mesquinho.

Não que eu venha para aqui pedir desculpa pela baixa qualidade do “produto”. Mas a missão deste blog não era esta. Era sim, falar de mim e do meu querido “eguinho”, dos meus problemas, frustrações, momentos felizes…

Digamos que seria uma espécie de novela da vida real, mas altamente falsificada (aliás como todas o são).

Mas as implicações não me agradaram nada, pois a frase que seguidamente me veio à mente foi “um programa vulgar para gente vulgar”. O que seria altamente depreciativo tanto para mim como para a “freguesia”, e que na escala da abjecção nos iria colocar a todos quase tão baixo quanto a TVI.

Felizmente não me deu para esse lado. Talvez porque à semelhança de outros colegas bloggers, já sou conhecido e identificado por alguns leitores (altamente inconveniente quando saio à rua incógnito); o que prova serem a franqueza e a fraqueza apenas permitidas aos anónimos e aos loucos.

O que quer dizer que este monólogo não vem acrescentar nada de novo, e que continuarei a debitar as tretas do costume em vez de vos desnudar o meu coração sensível e/ou amargurado (apenas quando aplicável).

Por esta altura já o meu trabalho se atrasou imenso, e vou ter mesmo que dar este post por findo. De qualquer modo só tinha aqui vindo dizer olá…

Música de Fundo
Walking in My Shoes” – Depeche Mode

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

No Reino da Magia
- Dos canos para os arcanos… ou vice-versa -

A minha relação com a magia sempre foi de estreita intimidade.

Já em miúdo fazia desaparecer imensas coisas, para grande admiração da minha avó; que não poucas vezes premiou as minhas actividades tautológicas sobre a lata das bolachas, com injustas bolachadas neste pobre Merlim em formação.

Durante a minha adolescência, especializei-me em relações externas e contactos com o Além. Invocávamos os espíritos durante longos e opressivos minutos; enquanto o neófito que tinha encomendado a “chamada”, enleado nas invocações fazia evolucionar uma vela acesa sob um prato.

Quando após os gestos rituais (esfregar a face e a testa em sinal de purificação da mente) o espírito não comparecia, normalmente eu alegava problemas nas linhas do destino e despedia-me do desiludido amante do oculto, que abandonava o místico recinto de ar cabisbaixo e cara mascarrada pela fuligem da vela.

Um pouco mais tarde deixei pender o meu coração para as artes negras, mas foi apenas porque namorei uma mulata diabólica, cuja especialidade era a adivinhação do futuro nas rugas dos lençóis. Método assaz cansativo, mas que fazia antever um futuro de uma gratificante beatitude.

Acabei por abandonar a magia negra devido à sua instabilidade (e também porque visto de lado me começava a parecer com um etíope, embora mais claro).

Durante anos a magia permaneceu adormecida para mim, até que ontem uma chamada de emergência devido ao entupimento de uma sanita, me pôs de novo em contacto com os arcanos. Sim, porque quem tratou dos canos foi o canalizador de piquete…

E foi este que me alertou para a natureza mágica do cliente; pois o que extraiu do sifão da sanita era algo inominável, como que saído de um pesadelo de H. P. Lovecraft. Desloquei-me a casa do cliente, preparado para enfrentar o desconhecido e sentir o frio musgoso dos tentáculos do mal.

E senti! Mas tratava-se apenas de um cortinado de gaze que separava o pequeno hall da sala comum. Apesar de tudo, isto serviu-me de preparação para a recepção que me foi feita; evitando a ocorrência de um acidente cardiovascular.

Era um Avatar. Perfeitamente reconhecível pelo roupão de ramagens e pelos rolos que lhe infestavam o cabelo como surrealísticos vermes extraterrestres.

Quando abriu a boca ainda pensei que iria declamar algo como – “namas te halagraha, namas te musalayudha, namas te revati-kanta, namas te bhakta-vatsala - Mas aparentemente foi apenas para protestar por o canalizador ter alegadamente mandado debitar duas horas a mais.

Tive que lhe explicar que devido à natureza particular do serviço, cobrávamos uma sobretaxa; o que eu tinha considerado perfeitamente justo após contemplar o resultado da sondagem.

Ela (penso que se tratava de um Avatar fêmea, mas a máscara de argila verde não deixava transparecer sequer a expressão do seu rosto) sorriu num esgar que lhe alastrou pela face, como uma fissura provocada por um abalo sísmico.

– Não era nada demais… trata-se apenas de uma boneca voudou que caiu por acidente. – Proferiu em tom casual, como se fosse vulgar qualquer um de nós em vez de levar o Público ou o Expresso para ler na casa de banho, se fizesse antes acompanhar por uma boneca voudou e aproveitasse o tempo livre para ir espetando uns alfinetes.

Olhei em volta. Para onde quer que me virasse viam-se sinais de uma actividade ligada ao oculto; desde um exemplar do livro de S. Cipriano deixado ao acaso sobre um naperon com pentagrama tricotado à mão; à tradicional vela negra que deixava correr lágrimas sobre um crânio (que por ser de plástico, tirava um pouco do impacto dramático à decoração).

Fui chamado à realidade pela dor que senti no polegar. Pois ela para melhor poder observar a palma da minha mão, acabara de o torcer destramente. Apoiou sobre ela o seu indicador húmido e grosso como uma salsicha de Viena, dizendo com ar compenetrado. – Hummm… Você é aquele que tudo vê e só conta o que quer…

Senti um arrepio premonitório (ou talvez fosse apenas devido a alguma corrente de ar) pois algo do que ela dizia acabara finalmente por fazer sentido para mim. Olhei-a nos olhinhos negros e minúsculos como caganitas de ovelha, e utilizando o meu sorriso mais insinuante (o Nº 3) perguntei. – Madame Olga, gostaria de fazer parte de um “reality show” rodeada por sete simpáticos canalizadores?...

Música de Fundo
Everybody’s Changing” – Keane

terça-feira, 26 de outubro de 2004

Merdas Clássicas
- O que faz um gajo ter sido educado, em tempos… -

Estava hoje a arengar ás massas sobre a mulher de César (uma canalização não só deve estar perfeita, como deve parecer igualmente perfeita…), quando tive uma ideia interessante sobre a chamada cultura clássica.

E essa ideia é que, a cultura clássica é uma farsa porque se baseia em coisas vulgares ditas por tipos famosos e não em coisas fabulosas ditas por tipos vulgares; o que seria muito mais interessante.

Se a Madame Rosita dissesse ás suas Ucranianas – Uma boa massagista além de estar sempre bem lavadinha, convém que o pareça também… - duvido que 1800 anos depois ainda fosse citada em tudo o que é salão e tertúlia de enfatuados.

Mas voltemos à mulher de César. Na verdade era uma tipa completamente enfadonha e entediante, como qualquer patrícia de boas famílias. E como devem calcular alguém que se chamava Calpúrnia (ou Cinha, ou Babá, ou uma treta qualquer no género), nunca poderia trazer nada de bom.

Terceira e última esposa (ás três é de vez…) do pobre Júlio, fazia tão mau ambiente em casa que o infeliz não raras vezes teve que passar a noite na escadaria do Fórum. Onde mais tarde acabou por ser anaifado até à morte por um gang dos subúrbios.

Não há dúvida que merece ser citada, pois mal César apagou o maçarico nos “idos de Março”, logo ela aproveitou para arranjar espaço para mais umas túnicas no imperial roupeiro; e desfez-se de toda a papelada que o homem tinha acumulado. Tendo despachado tudo para Marco António, que fez uma fortuna dos diabos com os direitos de autor.

Como bónus, Marco além do império herdou também Cleópatra que ainda estava em bom estado; apesar dos problemas hepáticos que esta tinha, causados pelo mau hábito de beber vinagre com pérolas dissolvidas. Embora amante de César, acabou por ser muito mais famosa do que a esposa deste (talvez por ter o nariz um pouco mais bonito também, pois um nariz romano nunca convenceu ninguém…).

Que posso mais dizer eu aos meus canalizadores sobre a mulher de César? Traçar um paralelismo com a era actual para me fazer entender? Ou pura e simplesmente gozar à brava com tudo isto?...

Na verdade, acho que ficaria pelo meio-termo. Qualquer coisa como…

– Canalizadores! Operários! Cidadãos! Emprestem-me os vossos ouvidos… Estou aqui para enterrar Santana Lopes e não para fazer o seu elogio…

Não está mal, pois não? Mas querem mesmo que vos fale da mulher de César?

Música de Fundo
Laura” - Scissor Sisters

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

A Tasca dos Canalizadores
- Episódio Piloto –

A “Tasca” esteve bem agitada durante o fim-de-semana.

Não sei se já vos tinha contado, mas como o pessoal da casa é composto exclusivamente de homens, alguém teria que cozinhar.

Para evitar conflitos sobre quem iria ficar como escravo de serviço, nomeámos a D. Odete fornecedora oficial do programe, tendo ficado encarregue do catering. E finalmente ficámos a saber porque lhe chamam “Lady Salmonela”.

O pessoal residente sobreviveu a esta primeira provação, mas andam tão olheirentos e amarelados que até parece uma espécie de Big Brother Chinês. Só o Pereirinha não pareceu ser afectado pelo Bacalhau à Braz; antes pelo contrário, repetiu duas vezes e disse que tinha um sabor muito exótico.

Resultante de tudo isso, o restante pessoal teve que trazer os cobertores e acampar no telheiro do armazém durante o resto da noite. É que talvez por reacção ao jantar, formou-se inexplicavelmente uma nuvem de metano no dormitório; o que ia causando um princípio de incêndio, quando o “Chinoca” acendeu inadvertidamente um berlaite antes de se deitar.

Entretanto mandámos uma equipa técnica para desmontar a câmara do dormitório. É que a atmosfera hostil, tinha já começado a corroer o isolamento plástico dos cabos coaxiais. Mas temo que não tenham tido grande sucesso, pois no meio da neblina esverdeada que invadiu o aposento, conseguimos apenas ouvir alguns gemidos abafados e ruído de queda de corpos.

Resta-nos esperar que seja manhã, e que o Pereirinha ao levantar-se abra a janela para arejar.

O Emílio continua (já assinou contrato) a fazer o seu papel de homossexual residente. Aparentemente vamos ter que lhe dar subsídio de risco, pois como não há mulheres na tasca o ambiente começa a ser de cortar à faca. E ele já foi alvo de longas e sugestivas miradas, por parte de alguns dos colegas.

Acho que a vida dele se vai complicar um bocado. Especialmente à noite.

Tivemos a nossa primeira baixa na tasca. Após a visualização do DVD “Free Willy 2”, o “Chinoca” talvez influenciado pela humanidade e pieguice do argumento pegou no Henry (sim, Henry, o meu peixinho vermelho favorito que tantos posts me proporcionou) e “libertou-o”, colocando-o no “Túnel de Porcelana”.

Com o impulso que lhe deu a descarga dupla do Kariba 2002 (autoclismo de mochila com descarga ecológica), por esta altura já deve ter passado o Forte de S. Julião da Barra; mas como é um peixe de água doce, acho que as águas salgadas lhe vão causar problemas com a tensão arterial.

Mercê deste prematuro desaparecimento, tivemos que arregimentar outra mascote para o programa. E a escolha acabou por cair sobre Piloto, o Pitbull do Pereirinha; aproveitámos, é claro, para dar o título a este episódio em sua homenagem.

Com tanto problema para resolver aqui na “régie”, nem sei como ainda me sobra tempo para fazer orçamentos e medir projecto. Mas neste momento a minha grande preocupação é pela segurança e bem-estar dos residentes.

Só espero que o Emílio tenha o sono leve…

Música de Fundo
Zombie Woof” – Frank Zappa

sábado, 23 de outubro de 2004

Todos os Meus Dias São Estranhos

Acho que faço a partir de hoje oficialmente parte do “Eixo do Mal”. O Tenente Figueiredo, talvez devido à minha maléfica influência decidiu criar um blog; e somos agora uma espécie de “Irmãos Catita” da Construção Civil.

Por via das dúvidas, ele ficou com a responsabilidade de apresentar as notícias sobre o mundo da construção, enquanto eu me mantenho como redactor supranumerário para o que der e vier.

Desde que ele não decida copiar os meus outros hábitos, a coisa vai. Ou então vai ser complicado para o serviço.

Iniciámos hoje a “Operação Entropia”, em que inundamos a empresa de lixo informático a partir de todas as tralhas que acumulámos em casa. Toda a divisão terá um monitor ligado ao computador central.

Meu amo devido ao acréscimo de despesas que isso irá acarretar (cerca de 432 Euros), decidiu rentabilizar os equipamentos através da produção de um “reality show”; que será transmitido das nossas instalações no Monte de Caparica, para uma estação privada ainda à escolha.

O único senão, é que a apresentadora do programa terá que ser Miss Entropia (a minha assistente).

Será uma espécie de Quinta das Celebridades mas com canalizadores, o que dará piadas com muito mais interesse embora menos cenas melosas, como é óbvio. Em cerca de uma semana, toda a empresa ficará informatizada desde o balcão aos urinóis.

Estive há pouco a testar o nosso equipamento de monitorização, e consegui vislumbrar um casal de “ratus norvegicus” esgueirando-se para trás de uma pilha de tubo no armazém Nº 2.

É claro que escolheram um ângulo morto onde a câmara não os poderá filmar, mas já dá matéria para redigir um artigo para o nosso site com o respectivo “clip”, em que nada se verá mas podem ouvir-se os beijos trocados no escuro.

Aliciámos um dos operários para fingir ser homossexual. Sempre daria um ar mais leve à produção; mas o tipo diz que para fazer de maricas, só muito bem bebido. E eu acho que vai sair mais caro do que esperávamos pois ele aguenta bem o álcool e não bebe nada abaixo de aguardente velha.

Só nos falta arranjar uma mascote para acompanhar Miss Entropia na apresentação do programa. Mas desistimos, pois por mais que escolhêssemos o animalejo iria sempre ofuscar a actuação da apresentadora. E acabámos por nos decidir por uma válvula de macho esférico de polegada e meia.

Acho que ficará bem acompanhada.

Por hoje é o que há a dizer sobre o novo programa “A Tasca dos Canalizadores”. E tenho que ir andando, pois eles já andam a mexer em tudo e o melhor é recambiá-los já para as obras; que isto de programas da treta não dá lucro nenhum.

Música de Fundo
Do You Know Me” – Fingertips

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Cadernos de Sexologia
- Na cama com TheOldMan (salvo seja…) –

Há quem diga que o caminho para o coração de um homem passa pelo estômago; e até estão relativamente perto da verdade. Na maioria dos casos, quase todos os acessos estão situados mais ou menos por ali…

No caso das mulheres é um pouco mais complicado. Mas como na guerra e no amor vale tudo, sempre podemos fazer uma pesquisa e achar algo como “A Teoria do Ataque de Frente Múltipla” do Generalfeldmarschall Erwin Rommel; que sem dúvida será um estudo bastante útil o presente caso.

Antes de iniciarmos as hostilidades propriamente ditas, vamo-nos debruçar meigamente (para não perder o jeito) sobre alguns outros caminhos e atalhos para o coração das mulheres; embora uma boa parte deles como é sabido, acabem na maioria dos casos em becos sem saída ou passagens de nível sem guarda.

A Via da Conversa Fiada – a conversa fiada é barata não só porque é fiada, claro, mas porque apenas exige um esforço mínimo da parte do ofertante; isto quando ele usa o seu próprio “material”, não recorrendo a cábulas ou mnemónicas para se lembrar das frases.

É claro que no caso de um bronco a tentar passar por espirituoso, o resultado será igualmente uma gargalhada, só que seguida de um esgar de desprezo ou piedade. Como devem calcular a piedade é contraproducente, pois é muito pouco afrodisíaca; apenas aconselhável de despertar se o espécime masculino estiver realmente ferido ou doente (um bom par de cornos também costuma servir).

Ao utilizador do sistema de “conversa fiada”, convém ser versado nalguns assuntos de interesse corrente; poder falar de Damien Rice ou Dead Can Dance sem se enganar nos nomes das músicas, e principalmente, saber sorrir na altura certa. Neste caso específico, aconselha-se a lavagem dos dentes três vezes por dia, pelo menos.

A Via da Libido – Esta é um bocado mais complicada que a anterior… ou achavam que se podiam safar apenas com conversa fiada?...

É que convém ter alguma coisa que se veja. Não interessa o quê, mas algo que possa servir de ponto de referência á atenção feminina.

O handicap da maioria das mulheres neste ponto, é que se lhes for dado um ponto de referência de intensidade média, abstraem-se do resto do conjunto e você passa a ser para elas “o meu demónio de lábios carnudos”, mesmo que ande num carrinho de rolamentos a impulsionar-se com dois ferros de engomar e só tome banho nos feriados Ismaelitas.

Por isso, na Via da Libido temos que ter em consideração uma importante componente do desejo feminino… o TOMBO.

TOMBO é o acrónimo para “traseiro, olhos, mãos, boca e ombros”, que segundo Wilhelm Reich são as cinco zonas erógenas que a mulher possui no exterior, pois estão situadas no corpo do homem.

Homem que se queira safar pela Via da Libido, tem apenas que ter sido favorecido pela natureza num destes cinco pontos-chave. Embora alguns especialistas clamem que no caso das mais materialistas e desesperadas, um membro de razoáveis dimensões resolva bem o problema, e apenas com metade dos preliminares.

Em todo o caso são estes os pontos (segundo uma pesquisa exaustiva que já se prolonga há alguns anos) que de início mais interesse despertam nas mulheres. Pelo que convém apurar a sua apresentação.

Mesmo que a sua vantagem num desses domínios seja muito ténue; como por exemplo uns olhos de cor banal e de formato mais que normal, vale sempre a pena tentar.

Tente apresentá-los sempre iluminados pelo sol ou um qualquer raio de luz. É claro que começará a ter que usar óculos muito mais cedo, mas dará resultado.

Segundo os chineses “até o vidro mais ordinário brilha como um diamante, se iluminado pela luz certa…”; só é pena que a especialidade deles tivesse sido a porcelana e não o vidro.

Em relação ao traseiro, o caso pode tornar-se um tanto ou quanto problemático. Sem dúvida que os exercícios indicados para o endurecer e configurar a um nível médio, são simples de executar e produzem bons resultados.

Infelizmente um dos perigos do “butt-fitting”, é a tendência que se adquire para executar os exercícios em todas as horas vagas mesmo a nível inconsciente. E isso provoca inúmeros dissabores, especialmente se nos lembrarmos de o fazer na fila para o autocarro ou durante uma auditoria das Finanças.

Quanto ás mãos, evitar os trabalhos manuais não resolve nada para as tornar mais apelativas. Quanto muito melhora o aspecto das unhas.

Mas para que possa apresentar umas mãos belas e ao mesmo tempo fortes, daquelas que nas imortais palavras de Mae West - “apetecia que me amassassem como barro, e me dessem a forma que eu iria ditando com os meus gemidos…” – posso aconselhar a “bola de poliuretano” á venda em qualquer farmácia, normalmente indicada para os convalescentes de operações aos tendões da mão e intervenções similares.

É claro que em substituição disso, acariciar e apertar seios regularmente pode igualmente provocar o efeito desejado nas suas mãos; além do que lhe dará uma prática preciosa para um dia em que tenha que arranjar emprego numa frutaria.

Quanto á boca não há muito a fazer. É como a classe, ou se tem ou não; e utilizar colagénio é o mesmo que frequentar aulas de boas maneiras, pois acaba por se notar que não é natural.

Para ilustrar bem o meu ponto de vista, e sem esforçar muito a imaginação das minhas leitoras (que decerto me estão a ler curiosíssimas), especialmente as mais louras; basta que observem primeiro os lábios do Brad Pitt e seguidamente os do José Castelo Branco.

É essa exactamente a diferença entre “the real thing” e o atamancamento do colagénio.

Por isso, caros leitores masculinos, evitai esse maldito produto. Nem que isso vos obrigue a fazer “boquinhas” permanentemente; embora segundo a pesquisa que me referi há pouco, não haja grande procura para bocas em formato de “cú de galinha”.

Quanto aos ombros é fácil. Trabalhem, façam remo, ou pura e simplesmente ajudem a aspirar a casa ao fim de semana.

Basta que estes fiquem com um formato que sugira força e protecção; não é preciso ficar a parecer-se com um louceiro do século XIX. A não ser, é claro, que queira iniciar por conta própria um negócio de mudanças e fretes de carga.

Se qualquer um destes requisitos for bem preenchido, é claro que vos podereis considerar no bom caminho; e um dia ainda podereis ouvir aquela frase, que é um dos maiores desejos de um macho que se preze – És um amante extraordinário!...

Nessa altura, podereis então encará-la e com um sorriso meigo (não esquecer que os olhos devem começar a sorrir antes dos lábios) e perguntar – Posso citar-te no meu currículo?...

Música de Fundo
Word Up” - Korn


quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Peregrinação à Capital do Reino
- Ou, a influência dos Campos Magnéticos na indução do sono… -

Não sou um crítico musical. Para mim, uma clave de sol dava uma bela grelha para lareira, ou motivo para um corrimão em ferro forjado.

Nesta fase da vida que eu atravesso, confesso que a minha musicalidade está resumida ao ronronar que emito quando estou satisfeito; ou quanto muito um arrojado cantarolar no duche. Por isso quando me convidaram para o concerto dos Magnetic Fields, a minha alma exultou como se tivesse sido esfregada com benzina.

Eu gosto dos Magnetic Fields. E fiquei a gostar ainda mais, quando descobri que o vocalista é careca como eu. Mas comecemos pelo princípio…

Aceitando a sugestão que me foi dada, começámos por jantar num delicioso restaurante Argentino ali para o lado das Escadinhas do Duque. Soubesse eu, e teria levado os meus sapatos de tango a duas cores.

Ao som de “Caminito” (possivelmente a única canção argentina que conheço), encomendámos o jantar e uma garrafa de um Cabernet Sauvignon com ou nome germânico. Para desanuviar o ambiente, ainda perguntei à empregada se o vinho era produzido por algum antigo Nazi, refugiado da 2ª Guerra Mundial.

Sem dúvida que a partir de agora, já se pode falar de “sentido de humor Argentino”. A avaliar pela resposta da empregada (que levou a minha pergunta muito a sério), tem imensas parecenças com o Humor Belga; mas apenas e após um grande almoço de chucrute.

Jurou-me por todas as santinhas e mais a Evita, que Herr Schultz era um vinhateiro humanitário e que gostava tão pouco de oprimir Judeus, que nem sequer lhes dava emprego só para não ter que os explorar.

Após lhe ter exaustivamente explicado o conceito de “dito de espírito”, lá consegui que me trouxesse o vinho, sem ter que esperar por um certificado emitido por Simon Wiesenthal ou no mínimo autenticado pela Sinagoga Shaaré Tikvá de Lisboa.

Fiquei a saber que na Argentina não há loiras naturais. Vêm todas para Lisboa trabalhar em restaurantes regionais.

Lá jantámos sem mais incidentes, após o que tomámos o Metro; esse manancial de experiências e personagens interessantes. E mais uma vez não me desiludi.

Apesar da minha companhia teimar no contrário, tenho a certeza que vi Jesus Cristo. Vestia um blazer azul-escuro, e reconheci-o pelo longo cabelo seboso e pelos ray-ban cheios de dedadas. Ao sair na estação dos Restauradores abençoou-nos com um gesto amplo, o que acabou com as poucas dúvidas que eu pudesse ter quanto à sua identidade.

Quando nos aproximávamos da Aula Magna logo fui identificado no âmbito do passatempo do post anterior, mas tive que desclassificar o concorrente pois este já me conhecia e isso seria batota. Tive no entanto, muito gosto em rever a Helena VastuleC e o Puto Paradoxo, embora não conseguisse identificar mais nenhum blogger no recinto.

Acomodámo-nos… Bem, acomodar não é o termo adequado para quem se senta naqueles lugares; mas mais tarde tive que admitir haver uma forte razão para que as cadeiras da Aula magna sejam tão desconfortáveis.

Evitam (ou apenas quase) que adormeçamos.

As luzes diminuíram de intensidade e começou o espectáculo. O simpático quarteto iniciou a actuação com uma composição que eu conhecia; só não me peçam os nomes das músicas, pois eu tenho péssima memória para o que se passa enquanto durmo.

Aguentei estoicamente as três primeiras músicas, mas eles (apesar de muito bons executantes) utilizavam técnicas de Mesmerização avançada; pelo que mal conseguia manter os olhos abertos, embora conseguisse fixar alguns pormenores interessantes sobre o concerto.

Logo de início se constatou quem mandava ali. Cláudia Gonson apesar de usar na altura, uns sapatos que não envergonhariam nenhum palhaço do Circo de Moscovo; toca piano muito bem e não deixou os outros distraírem-se, tomando sempre as rédeas da actuação e iniciando sempre ela o tradicional “one, two, three…”

Stephin Merrit tentou recuperar um pouco do protagonismo, mas o esforço de tentar cantar sem acordar uma boa parte do público, mobilizava-lhe todos os recursos. Pelo que se limitou a uma ligeira troca de impressões com a sua colega, que logo o esclareceu sobre quem ali usava calças.

Comecei a sentir uma certa dificuldade em distinguir a realidade no meio de todas as imagens oníricas que invadiam o meu espírito. Não sabia o ar de “nerd” ostentado por John Woo seria mesmo real, mas não tenho dúvidas que quando teve que trocar a viola pelo bandolim, passou a tocar com a língua de fora enquanto abanava no ar os seus pezões calçados com sapatos de pala.

A certa altura Merrit actuou em solo. Sam Davol aproveitou para largar o violoncelo e limpar-se com uma toalhinha branca, após o que se recostou adormecendo de imediato agarrado a esta enquanto chupava o polegar.

Eu próprio só poderia estar a dormir. Pois lembro-me de abrir os olhos após uma pequena pausa, e ver novamente Davol . Só que desta vez afagava carinhosamente um magnífico atum com 50Kg, ao qual extraía gemidos de prazer com que ia acompanhando a música.

Musica esta que se tornara um pouco mais animada mercê da secção de percussão. Na verdade eu não conseguia localizar quem produzia o ruído rítmico que acompanhava a música; só quando me abanaram constatei que era eu – Estás a ressonar há um monte de tempo, se calhar é melhor irmo-nos embora… - propôs amavelmente a minha companhia.

Deve ter sido talvez a melhor ideia da noite; porque regressámos numa carruagem desafogada e sem o constrangimento da multidão. Por outro lado o poder narcótico dos “campos magnéticos” tinha-se esvaído, deixando a minha mente límpida e cristalina como uma taça de gelado bem lambida.

Encontrava-me a meio do rio e a caminho de casa fazendo mentalmente o balanço da noite, quando me veio mais uma vez à memória o concerto dos Magnetic Fields. Tentei analisar a origem dessa ideia, pois o que eu me encontrava a pensar de momento não tinha mesmo nada a ver.

E então descobri porquê. É que tal como a música dessa noite, o monótono matraquear do motor do Cacilheiro começava igualmente a dar-me sono…

Música de Fundo
Walking In The Sun” – Travis

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

Onde Está TheOldMan?

Venho convidar todos/as os/as fiéis leitores/as a participar neste jogo que à semelhança do famoso “Onde Está o Wally?” consiste em identificar o personagem no meio da multidão.

As respostas devem ser deixadas nos comentários deste post. Quanto ao cenário será a Aula Magna, pois este vosso amigo vai logo ver o concerto dos…

Magnetic Fields

Dancing In Your Eyes

The summer came and passed us by
We didn't care
We just let it die

But when we dance, just you and I
When we walk hand in hand in the rain
When we're young and in love once again

We will dance in the autumn with the leaves in our hair
When I look I'll be dancing in your eyes
When I look I'll be dancing in your eyes

You've gone away over the sea
You will return
It's meant to be
Never regret your time with me.

*

Preenchimento

É à noite
que me salta o desejo mais urgente
no que chamo
de ausência

Onde estás sempre
um pouco…

Mas é à noite
que me lembro de como bem preenches
aquilo a que teimo chamar
de ausência

E então, espero…

Música de Fundo
“Accidentally in Love”Counting Crows


terça-feira, 19 de outubro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Da simplicidade e aborrecimento nocturnos –

Lembraram-me hoje das virtudes e propriedades do sal; e uma delas é a simplicidade.

Já foram contados 14 mil usos de sal, sem incluir o seu papel simbólico no inconsciente colectivo. Até na criação de lendas e episódios religiosos e profanos, como o que vos vou contar hoje sobre um rei e duas filhas.

Mas isto apenas mais tarde, e se eu ainda tiver paciência. Porque agora o que se tratava era mesmo a simplicidade.

Mas pronto, havia um rei que tinha duas filhas. E um dia chegou a altura de casar uma delas, tendo mandado arautos por todo o reino em busca de candidatos.

Apareceram imensos pretendentes, e com eles traziam imensas cunhas e cartas de recomendação; mas a princesa não se decidia por nenhum, pois até nem eram nada de especial.

E conta a lenda que um dia um deles se encontrava a beber shots de tequilla num bar, quando a princesa se acercou e lhe perguntou porque antes de beber lambia sempre o sal.

E respondeu-lhe o pretendente – Lambo o sal porque me lembra a simplicidade da vida, e a seguir mato-a com tequilla.

A princesa achou aquela frase de uma tão franca e poética simplicidade, que logo se enamorou dele. Tendo casado ambos na Abadia com grande pompa e circunstância, e partido numa longa lua-de-mel a expensas da corte.

Daqui se vê, que falar das coisas simples apenas as complica; pois já não se pode tomar um shot de tequilla descansado. E a lenda era mesmo sobre a simplicidade, e não sobre a simplicidade do sal.

Que é tão complicado quanto um simples cloreto pode ser.

Ou o facto de me ter esquecido de falar da outra filha do rei; mas isso fica para outra fábula qualquer.

Música de Fundo
Daydreaming” – Massive Attack

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Olhó Teste Fresquinho!
gry
You are Form 7, Gryphon: The Wyrm.
"And The Gryphon displaced the balance of
the world in his favor. With grace and
control, Gryphon deceived mankind and ruled
over civillization. But even he realized that
all good things must come to an end."

Some examples of the Gryphon Form are Satan
(Christian) and Baphomet (Assyrian).The Gryphon is associated with the concept of
control, the number 7, and the element of wind.His sign is the gibbous moon.
As a member of Form 7, you are a very in control
individual. You maintain your coolness in most
situations and always seem to be prepared.
Though some may say you are a bit of a control
freak, you know that you really do make the
best leader even if others can't see it.
Gryphons are the best friends to have because
they have a positive influence on people.

Which Mythological Form Are You?
brought to you by Quizilla
Música de Fundo
"Triple Trouble" - Beastie Boys
A Estalagem dos Malditos
- Alegres fins-de-semana com TheOldMan -

Inclinei a cabeça para trás e li novamente o letreiro da pousada. Na realidade não havia engano, era ali que tinha marcado quarto. Um edifício de aspecto soturno numa antiga casa acastelada, como era hábito edificá-las na zona fronteiriça em meados do século XV.

Talvez movido pelo meu aspecto pálido e sonolento (que me fazia ter um ar razoavelmente gótico), o empregado da recepção confidenciou-me que acabara de me registar numa das poucas Pousadas de Portugal genuinamente assombrada.

Na realidade estava a dar-lhe tanta atenção como daria à Júlia Pinheiro ou ao Manuel Luís Goucha. Mas ainda deu para apanhar o essencial da lenda (que acho ser um franchising das Pousadas).

Um amor amaldiçoado pela família da noiva, que traiçoeiramente conduz o jovem apaixonado à morte mastigado pelos cães de guerra; e a pobre donzela que cai nas malhas da loucura, após presenciar o acto, errando eternamente pela pousada à noite e soltando gemidos arrepiantes.

Por esta altura já eu tinha examinado todo o expositor dos postais, e tinha passado para um detalhado mapa-múndi em “projecção Mercator”, acabando por descobrir a que a terra além de ser oval foi construída a partir de um modelo de cartolina (acho que o criador se dedicava à bricolage).

Achando que eu talvez não estivesse muito atento ao relato, o funcionário ainda perguntou se eu estaria interessado nas ruínas.

Mas após eu ter retorquido – Ah!.. Entulho histórico… - afivelou uma expressão ofendida e passou-me a chave desdenhosamente, como se estivesse a dar pérolas a porcos.

Era tarde e tinha sido um dia cansativo. Por isso nem sequer liguei a televisão, esperando apenas que viesse o sono enquanto escutava os ruídos da noite. As luzes tremeluziram um pouco, e comecei a ouvir alguns ruídos estranhos.

Não que eu acredite em aparições, mas o certo é que quer se acredite ou não, os factos devem ser relatados. E eu começava na realidade a ouvir ruídos que me levavam a começar a acreditar na lenda.

Comecei por ouvir um guinchar de madeiras como se as portas do inferno se abrissem, ou Drácula tivesse ficado entalado no caixão, tentando libertar-se à força de empurrões. Os arrepiantes rangidos ecoavam pela vetusta construção, como um vento de desgraça antecedendo qualquer acontecimento fatídico.

Tinha-me passado o sono. Só o facto de não conseguir identificar a origem do som, já me complicava com os nervos; mesmo sem recorrer à imaginação para interpretar o seu significado.

De um modo cada vez mais audível, começaram a soar rosnidos como de um cão enfurecido, enquanto um lamento agudo e lancinante ecoava como o choro de uma “banshee”. Um som que se foi tornando cada vez mais forte e encheu todo o vazio da noite, ao qual apenas se sobrepunham os rugidos que o pareciam acompanhar.

Quase que consegui ver, com os olhos da minha imaginação, o pobre varão trucidado pelos ferozes mastins; enquanto horrorizada a donzela enlouquecia de dor, gritando o seu lamento ao mundo.

Só o ranger da madeira não se enquadrava muito na lenda; mas na altura eu também não estava muito preocupado com o rigor literário.

Durou imenso a horrível provação. Quando os gemidos da pobre alucinada se tornavam mais agudos, ouviam-se igualmente pancadas nas paredes, como se alguém nelas se encontrasse prisioneiro e dali tentasse escapar.

Pancadas rítmicas, sempre acompanhadas pelo horrível rangido de madeiras.

Quando baixava a intensidade dos gemidos, ouviam-se murmúrios conspiratórios. E por três longas horas se foi alternando o arrastar de coisas, o ranger de madeiras e os rugidos acompanhados dos gemidos; numa arrepiante sucessão capaz de gelar o sangue a um Dominicano.

Acabei por adormecer de exaustão, um sono sobressaltado por pesadelos de donzelas gritantes que passeavam descalças nas ameias da pousada, e jovens escudeiros devorados vivos por cruéis criaturas.

Acordei ainda cedo, tão estoirado como se não tivesse pregado olho. Olhei-me ao espelho enquanto fazia a barba, e o meu aspecto cansado em nada tinha melhorado. O melhor que teria a fazer, seria sair quanto antes daquele local maldito e ir dormir para um hotel de beira de estrada. Um que não tivesse tanta tradição de assombrações.

Enquanto saía, deparei com os ocupantes do quarto ao lado. Um casal de faces pálidas e enormes olheiras; sem dúvida que também mal tinham pregado olho.

Ainda pensei perguntar-lhes se tinham ouvido as fantasmagóricas manifestações, mas iam tão sorridentes e embevecidos um com o outro apesar da noite mal dormida, que não tive coragem para os incomodar.

Enquanto liquidava a conta na recepção, ouvi na outra ponta do balcão uma mulher de avançada idade a protestar por causa do barulho, que era uma vergonha, etc.

Realmente não me admira que o turismo esteja em tão más condições. As pessoas já não têm respeito pelas tradições nem pela aura de grandeza que banha alguns dos nossos locais históricos. Querem é dormir, e pronto…

Música de Fundo
Same Direction” – Hoobastank

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

Sobre o Nada e o Tudo
- E se houver tempo… também sobre o mais ou menos –

Estou aqui a escrever-vos este post aldrabado (pela experiência que tenho a ler blogs, e isso inclui por vezes o meu; a maioria dos posts de teor profundo são aldrabados), enquanto preparo o saco de viagem para me pirar por uns dias.

Ainda pensei em entreter-vos com considerações sobre a teoria da tara perdida (Não. Não estou curado), seguidas de algumas reminiscências da minha infância, em que vos contaria como obtínhamos garrafas vazias que vendíamos ao Avelino da drogaria (era o nosso receptador), que por sua vez as ia vender à mercearia da D. Adelaide.

Apesar de o fazer por dinheiro e não por amor ao conceito de reciclagem, posso afirmar que era uma limpeza. E não me lembro de alguma vez durante esses anos ter visto um monte de garrafas, cartão, ou outro tipo de lixo que não fosse orgânico a ser deixado para recolha. De onde se prova que não há como um bom incentivo.

Mas como já disse antes, eu não ia falar sobre isto porque estou a fazer as malas para me ausentar; e essa é uma tarefa que exige toda a minha concentração.

Não que leve tanta bagagem como o Sultão do Bornéu quando sai de passeio; sou mais como Phineas Fog, mas com uma mala enorme cheia de compartimentos.

Isto acrescido do mau hábito que tenho de levar CD’s, canivete suíço, lanterna, o “manual de sobrevivência em condições extremas” e outras tralhas. Já me deu uma certa fama de lunático.

Tinha preparado uma imagem da mira técnica para ficar ali em cima durante a minha ausência, mas aparentemente alguém gostou tanto da gravura actual, que decidi mantê-la. Aliás, coaduna-se muito melhor com o meu estado de espírito.

Por isso desejo-vos um bom fim-de-semana. E já sabem. Até Domingo à noite escusam de vir aqui perder tempo.

Música de Fundo
“Train”Goldfrapp

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Não, Não sou o único…
- Fico assim cada vez que leio um jornal desportivo -

Cada vez que leio um jornal desportivo aprendo sempre qualquer coisa sobre mim próprio. E hoje reiterei apenas o meu mau feitio no que toca a gente incompetente ou descuidada.

É claro que me refiro à Selecção Nacional. Aquele agrupamento de portugueses, em que o meu filho há meses tinha investido tanta fé e confiança. E escusam de alegar que eu nada percebo (é verdade, e também não gosto.) de futebol… Uma das coisas em que me especializei e que consigo detectar a enorme distância é a eficiência.

Pois é. Não vi nenhuma.

Em contrapartida, tenho uma teoria muito interessante em relação ao abandono da selecção por parte de Figo. Basta-me tirar um paralelo com a minha própria vida profissional, e torna-se simples.

Eu sou bom naquilo que faço (sou mesmo, e muito modesto, eu sei…), e nunca me passaria pela cabeça baixar a qualidade daquilo que faço rodeando-me de bestas, ou incompetentes, ou preguiçosos e afins.

É na realidade muito mais dignificante fazer anúncios ao gás natural, do que ir para um país que quase ninguém consegue apontar no mapa, e perder com uma equipa que seria derrotada por cinco a zero se tivesse jogado com o “Estrelas do Feijó”.

É claro que Nossa Senhora poderia ter intervido. Mas o Paulo Portas já tinha gasto todo o nosso crédito junto da Santa Sé com o caso do crude; e ainda estamos em dívida com cerca de meio milhão de velinhas, e trezentas e vinte voltas de joelhos ao sagrado recinto de Fátima.

É este descalabro que vem ensombrar a inauguração da nova sede da F.P.F., que tinha começado muito bem até que Gilberto Madail ao encarar com a fotografia da selecção, teve um chilique e ia-se ficando em cima da travessa dos rissóis.

É claro que para desdramatizar a situação, os meios de informação acabaram por atribuir o acontecido a uma crise de hipoglicémia.

Bem… Pelo menos nisso não sou o único…

Música de Fundo
“Cada Homem”Bizarra Locomotiva

terça-feira, 12 de outubro de 2004

A Invasão
- Teorias de Conspiração… ou então apenas falta de descanso –

Devia ter estranhado quando reparei que o autocarro seguia quase vazio. Mas ia um pouco ensonado, e o hemisfério do meu cérebro que se encontrava de turno nessa altura, estava muito ocupado a processar a minha agenda diária para que eu associasse o facto.

Àquela hora os autocarros vão SEMPRE cheios…

Durante alguns minutos aproveitei a paisagem. As manhãs frescas de Outono têm o condão de despertar em mim um optimismo irracional, bem como um certo sentido poético.

Senti que alguém se sentava a meu lado.

Era uma mulher… grávida. Nova, de aspecto limpo, diria mesmo bonita. Ostentava um alto em forma de esferóide regular, como se tivesse acabado de roubar uma bola de Baskett na Sport Zone.

Veio-me à memória o vídeo-clip dos Jane’s Addiction “Been Caught Stealing”, em que uma falsa grávida rouba um ananás num supermercado, e o esconde “por ali acima”. Varri de imediato essa imagem da minha mente, não fosse começar para ali a rir-me, e com isso despertar a justificada ira da futura mãe.

O autocarro ia já um pouco mais lotado. Reparei porém que apesar de existirem lugares vagos, uma outra grávida viajava de pé firmemente agarrada a duas alças de segurança (talvez a treinar para o grande lançamento).

Estranhei um pouco. As grávidas são (e com toda a razão) irredutíveis no que diz respeito à aquisição de lugar sentado em autocarros; conseguindo até em alguns casos transformarem-se em combatentes bastante viciosas.

Sei de um estudo publicado durante a guerra-fria por um cientista da RDA, em que se considerava a hipótese de isolar a enzima que o cérebro das grávidas produz quando não obtêm lugar sentado nos transportes, e injectá-lo a título experimental nas tropas especiais Soviéticas; as Spetznatz.

Aparentemente não deu resultado. Segundo um relatório do MI6, o hospital psiquiátrico de Ninji-Novgorod ainda tem neste momento uma companhia de Caçadores Siberianos, que passam o dia todo em roupão e chinelos, enquanto vão tricotando botinhas de lã.

Entretanto detivemo-nos numa paragem em que subiram apenas três pessoas; nenhuma delas estava grávida. Embora um tipo com ar de polícia reformado tivesse a ideal configuração corporal. Mas achei que se tratava apenas de boa mesa e falta de exercício.

O autocarro pôs-se em movimento, passando por um grupo de pedestres que aguardavam o “verde” para atravessar. Entre eles, duas mulheres grávidas estudavam atentamente uma camisolinha de lã cor-de-rosa, enquanto uma outra que se encontrava mais ao lado as olhava com alguma inveja.

Interroguei-me se não haveria alguma altura especial do ano em que quase todas as mulheres engravidassem. Mas depois calculei que talvez meses atrás tivesse havido um corte de corrente ao anoitecer.

Ou quem sabe tenha havido alguma operação terrorista perpetrada pelo Vaticano, em que piedosos cardeais fardados a rigor e munidos de alfinetes, tivessem invadido os supermercados e furado todas as embalagens de Durex e Harmony.

Para ir passando o tempo enquanto não chegava ao meu destino, tentei imaginar como seria estar grávido. Mas apanhei um cagaço enorme, pois só me lembrava do filme Alien, e do John Hurt em cima da mesa do refeitório a ser esgaçado de dentro para fora.

Desisti, pois acho que a gravidez deve ser algo destinado a não ser compreendido pelos homens. Ou talvez apenas pelos ginecologistas … embora já me tenham dado algumas preciosas dicas sobre o assunto.

Uma amiga disse-me há muito que a sensação do parto, era similar a “tentar cagar um melão” (SIC). Realmente não me pareceu muito animador.

Estava quase a chegar a minha paragem, pelo que me levantei ficando perto da porta. Senti na minha nuca o olhar fixo da grávida que viajava de pé, mas fiz um esforço para não me virar; e saí do autocarro caminhando apressadamente em direcção à cafetaria da Dona Odete.

Esta confidenciou-me que a nora estava novamente grávida. E enquanto eu comia a torrada, ia vendo através da montra as pessoas que passavam na rua; algumas delas grávidas… aliás, muitas delas. E isso começou a bulir-me com os nervos.

Acabei apressadamente o pequeno-almoço; e pagando precipitadamente, corri a refugiar-me no escritório da empresa fechando arfante a porta atrás de mim.

Ao fundo vi uma luz acesa.

Sentado na ponta da mesa de reuniões, meu amo afagava carinhosamente o seu rotundo ventre. Virando-se para mim, perguntou com um ar desconcertado. – Ouve lá… achas que ganhei muito peso ultimamente?

Música de Fundo
“Cish Cash”Basement Jaxx

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Bowling For Birthday
- Um documentário sobre muitas coisas, e entre elas, Bowling –

O meu filho completou mais um aniversário. Já lá vão doze, e todos eles históricos pelas peripécias acontecidas, ou estonteantes revelações sobre o sentido da vida.

Desta vez estava aparentemente destinado a ser um evento calmo, pois todos tinham ir decidido jogar Bowling, e eu tinha solicitado a colaboração do meu irmão para fazer a vigilância do perímetro.

O meu irmão é uma espécie de guarda-fato, só que com mais uma porta que eu. Mas desde que lhe dêem um programa para cumprir, não costuma haver problema e cinge-se fielmente ao “script”.

No início foi apenas o verbo… mais propriamente o verbo “querer”, Pois o meu sobrinho mais novo, que tem apenas três anos, fez um berreiro desgraçado quando lhe disseram não haver sapatos de Bowling para o número dele, pois era muito novo.

Após rebolar raivosamente por metade do pavimento gritando “quéu xapatos!”, lá o convencemos a calar-se mediante a promessa de ser o primeiro a jogar. E deu um certo resultado. Pois logo descobriu que poderia lançar a bola e deixar-se arrastar por esta, através do pavimento polido até aos pinos.

Fez “strike” logo à primeira; para grande aborrecimento de todos os outros miúdos, que sendo bem mais velhos, o consideram uma espécie de “entrave epistemológico” das festas.

Mas a coisa acalmou, e eu aproveitei para ir comprar cigarrilhas ao piso inferior. Deixando o meu irmão de vigia à porta para que nenhum deles tivesse a veleidade de desaparecer, e nos transformar numa espécie de maluquinhos a correr por um centro comercial em busca de crianças desaparecidas.

Quando regressei ao Fun Center tudo parecia decorrer com normalidade. Aproximei-me dos jogadores que conferiam as pontuações no marcador electrónico, mesmo a tempo de ouvir o meu filho dizer a um amigo que “rifara a Rita Inês.

Tive pena. Apesar de esta se parecer bastante com a “Ângela Anaconda” que costuma dar no Canal Panda é uma miúda simpática; mas estas coisas do coração são imprevisíveis, e ela nem telefonara a dar os parabéns. O que me fez concluir, que talvez tivesse sido ele a ser “rifado” e estivesse apenas a tentar “salvar a face”.

Olhando em volta reparei que faltava algo. Com o olhar procurei o meu irmão, que se encontrava a jogar “flippers” na máquina do “Senhor dos Anéis” como se tivesse regressado à adolescência, enquanto era observado por um grupo de miúdos impacientes que estavam à espera que ele saísse dali.

Fez-me sinal que estava tudo bem, mas não estava. Faltava alguém!

Uma observação mais cuidadosa acompanhada por uma contagem das cabeças, informou-me que faltava o André. Era grave.

O André é um tipo muito confiante e independente. Se o largarem na Ásia Central, acabará por um dia aparecer em casa vestido de tibetano. Mas eu tinha que o entregar aos pais antes do jantar, e não poderia esperar tanto.

Larguei o copo de cerveja sobre a mesa, e comecei uma busca sistemática por todo o recinto.

Não estava na máquina de electrocussão. Aliás perguntei a dois trémulos adolescentes se o tinham visto, mas eles estavam muito ocupados a resistir à pressão dos manípulos vibratórios que simulavam descargas eléctricas.

Mais adiante deparei com um tipo de meia-idade acompanhado do seu filho, que passavam juntos algum “tempo de qualidade”, estoirando Zombies a tiro na máquina do “Resident Evil”. Informaram-me que o André estivera ali; tendo saído após obter uma boa pontuação e quase ter partido os óculos no processo.

Quase fui atingido por um disco de baquelite do “Pneumatic Hockey”, mas não era ele. Apenas um tipo mais empolgado que aplicara a força no ângulo errado. Saí dali seguido por um coro de desculpas em voz adolescente (grave/agudo).

Fui finalmente encontrá-lo quase ao fundo da sala, a jogar “Fifa 2004” com um pacato casal que me assegurou estar tudo bem, e que era um miúdo bem simpático. Mas já tinha deixado os outros sozinhos durante demasiado tempo (o meu irmão continuava a jogar flippers, e os adolescentes tinham desistido de esperar), e conduzi um aborrecido André até à pista de bowling, onde os outros continuavam a divertir-se.

Especialmente o meu sobrinho mais novo, cuja última descoberta fora o ser muito mais divertido abdicar da bola, e mergulhar ele próprio sobre os pinos.

Tive que manter um diálogo muito argumentativo com um funcionário do recinto, que levava muito a peito as regras do local e me convidou a sair. De qualquer modo os miúdos já tinham acabado a partida.

- Extou xeio de fómi! – Disse o meu sobrinho mais novo, cuja camisola da Nike se parecia agora com uma esfergona Vileda a três dias da reforma. – Não vamus ó Mácudonálde?

Dirigimo-nos em formação irregular na direcção ao templo da comida de plástico. Desta vez não me preocupei com retardatários ou ovelhas tresmalhadas; a simples menção do local bastara para implantar em todos eles uma vontade férrea de lá chegarem o mais breve possível.

Em poucos minutos já eu presidia a uma ruidosa mesa de jovens comensais prontos a fazerem os pedidos. Arrependi-me de não ter levado um portátil com o Excel instalado, pois os pedidos eram de tal modo complicados, que quase me obrigaram a recorrer a um estenógrafo para os anotar.

Acho que ninguém com menos de vinte anos pede uma “Happy Meal” ou um “MacMenu” apenas; têm sempre que introduzir variantes em nome da criatividade. Ou são as batatas que devem ser maiores, ou ice tea em vez da cola; ou então acompanham o “Menu Natura” com batatas grandes e cola gigante (não sei porque escolhem natura, mas deixá-los…).

A etapa seguinte teve um grau de dificuldade um pouco mais elevado, pois tive que lidar com um adolescente borbulhento, espartilhado numa farda azul que lhe deixava escapara os excedentes por todos os limites visíveis. Obviamente devia ter herdado a fatiota de alguém mais magro, ou trabalhava ali já há muito tempo, tendo engordado.

Não vou reproduzir aqui o diálogo que tivemos, pois parecia uma conversa entre alquimistas esquizofrénicos. Mas lá lhe consegui fazer entender que me estava nas tintas para as promoções, e que desejava apenas e exactamente o que estava escrito no papel que lhe dera, excepto o endereço da tipografia e o número de exemplares.

Após alguns minutos em que fui empurrado e besuntado, pelos dedos pegajosos de uma miúda que na fila atrás de mim comia um gelado de aspecto ameaçador; consegui finalmente sair do balcão, ostentando em cada mão um tabuleiro repleto de embalagens de cartão. Uma autêntica refeição futurista, como poderão constatar todos os que tenham já visto “2001 – Odisseia no Espaço”.

Cheguei à mesa mesmo a tempo para presenciar uma exibição de masculinidade pré-adolescente. Encontravam-se a tirar meças aos respectivos telemóveis, debatendo quais as funções e o jogos mais “cool” de cada um. É mau sinal, pois após cada sessão deste género, o meu filho costuma perguntar-me se pode ficar com o meu quando eu morrer.

Mas desta vez os hambúrgueres mudaram o rumo da conversa, para um salutar silêncio ocasionalmente sulcado por murmúrios e exclamações abafadas em carne picada, acompanhados pelo gorgolejar das palhinhas de refrigerante.

Durante a acalmia planeei mentalmente a devolução de todos os infantes aos seus lares. E frente a duas cervejas bem frescas (em copo de plástico), delineei com o meu irmão o plano de entrega e as voltas a dar; após o que me recostei beatificamente, com a agradável sensação de um dever cumprido.

Felizmente desta vez não tinha havido nenhuma cena de pugilato, nem bolo pelas paredes. Apenas a questão do meu sobrinho “human-bowler”, mas isso era coisa fraca relativamente ao que ao longo dos últimos doze anos me tem acontecido.

Senti-me na paz de Blog. Ali calmamente sentado no meio de uma mastigante multidão, e em perfeita sintonia com o cosmos… Foi nessa altura que o Fábio deu um enorme arroto, e aproveitando o mote todos os outros o acompanharam, numa versão aerofágica de “The Real Slim Shady”…

Música de Fundo
“Amused to Death”Roger Waters

domingo, 10 de outubro de 2004

O Kiwi a Pilhas
- Eles “andem” aí… –

Saía eu calmamente do escritório na sexta-feira, quando fui flanqueado por dois tipos parecidos com cómodas estilo regência; excepto no que diz respeito ao espelho, claro.

Lá no bairro, a “carne para canhão” não costuma utilizar sofisticados aparelhos de comunicação pessoal ou gravatas de seda em tons discretos; pelo que achei melhor não fazer ondas, pois as armas de fogo poderiam ser igualmente de boa qualidade.

- Ora vejam senão é o nosso velho amigo OldMan… - proferiu um deles em voz monocórdica. Talvez uma vítima do excesso de televisão, ou de drogas experimentais. – Então? A preparar-se para ir para casa ver a “Quinta das Celebridades”?

Tentei dizer-lhes que não era coisa que apreciasse, apesar de não ter nada contra mas calculei que não iria demovê-los com argumentos. E colaborei então com o inevitável, entrando no automóvel escuro e de linhas caras, que se encontrava estacionado de portas abertas.

Foram muito amáveis em me terem logo colocado o cinto de segurança, porque arrancámos de modo brusco; seguindo a alta velocidade pela A2 em direcção ao interior.

Digo interior, porque nessa altura ainda não sabia onde me conduziriam; do mesmo modo que não o consegui saber, pois senti uma picada no braço. Alguns momentos depois, vogava em direcção a um foco de luz enquanto percorria um túnel; depois apaguei-me.

Quando acordei, encontrava-me sentado numa cadeira de dentista. Ou talvez fosse outra coisa, pois ninguém pareceu interessado na minha higiene dentária.

Encontravam-se todos (pelo menos os que eu via) ocupados com monitores, que mostravam diversas cenas passadas em locais diferentes; embora não parecessem estar fisicamente muito longe uns dos outros.

Um dos técnicos de bata branca aproximou-se. – Não devia ter irritado tanto o Professor. – disse com um ar divertido – Essa ideia de lhe dar um pontapé nas miudezas enquanto ele ajudava a tirá-lo do carro, foi mesmo de mestre. Só que agora está na hora do tratamento.

Calculei logo que não se preparavam para efectuar uma milagrosa cura para os triglicéridos. E ainda perguntei – Vou ser eleito “A Cobaia do Ano” ou coisa assim?

O tipo sorriu. Começando a bloquear-me as pálpebras com um aparelho metálico, uma espécie de grampos. – Isto é só para evitar que feche os olhos durante o visionamento. Não queremos que perca nada, pois são umas gravações interessantes.

Lembro-me que se ouvia uma música qualquer dos Eminem, que alguém tinha posto a tocar numa aparelhagem sonora. Um a um, os monitores foram-se enchendo de imagens móveis.

E ali estava eu, oh meus irmãos, imobilizado e sem poder fechar os olhos, frente a trinta e seis monitores com diversas cenas da “Quinta das Celebridades”. O cenário não podia ser pior.

No monitor que se encontrava directamente à minha frente, encontravam-se todos sentados à mesa, a discutir por causa da comida. Pensei que tinham chegado já ao fim de todas as provisões e o caso fosse desesperado; mas tratava-se apenas de um pouco de “febre de cabina”.

No ecrã ao lado, um personagem qualquer saltitava efeminadamente de pedrinha em pedrinha, enquanto se dirigia a um anexo em madeira. Fazia lembrar uma gaivota com reumático, mas que usasse também uma peruca de cores fulvas. Uma espécie muito bizarra de pássaro.

Esta apreciação talvez se devesse já, ao facto de me estarem a injectar uma coisa qualquer. Uma enfermeira curvava-se para mim; enquanto ia gotejando algo sobre os meus olhos para os manter húmidos.

Acho que já tinha visto uma cena assim algures, mas não estava com cabeça para grandes reminiscências. Sempre sobre o fundo da música dos Eminem, ia ouvindo os diálogos, que eram transmitidos pelos múltiplos altifalantes.

Digo múltiplos, porque já não me encontrava em estado de os contar. Num dos monitores, uma porca com as suas crias era importunada por um bando de energúmenos. Noutro estavam todos deitados em camas, enquanto se ouvia um rugido ameaçador. Embora um dos técnicos jurasse que se tratava de um dos personagens que ressonava.

O aborrecimento invadia-me, juntamente com uma certa lassidão provocada pelas drogas. Aquilo dava-me mesmo era sono; mas não podia fechar os olhos. Mesmo que o conseguisse, aquele ronco perseguia-me. Deve ser difícil dormir, quando alguém ressona daquela maneira.

O veneno do tédio percorria-me. Mas eu não conseguia adormecer para o combater, e isso causava-me náusea. Foi então que um deles perguntou – Então já te está a dar vontade de vomitar? Imagina nós que tivemos que testar as câmaras durante três dias!...

Tentei desviar a cabeça, mas esta encontrava-se presa por um arnês de couro. Todas aquelas cenas começavam a enjoar-me realmente; e tudo isto com o mesmo fundo musical de Eminem, que já me começava a irritar. Nunca me tinha sentido tão mal na minha vida.

A pouco e pouco tudo o que me rodeava começou a esbater-se, integrando-me no que me era metido pelos olhos a dentro como uma realidade alternativa, cada vez mais e aflitivamente efectiva. Perdi o controlo sobre os meus sentidos.

Dei por mim a ser interpelado por uma loura com ar de tia, que me admoestava por ter comido três fatias de bolo. Fiquei em pânico, pois estou a dieta e três fatias seriam realmente demasiadas. Tentei responder, mas da minha garganta apenas saíam sons inarticulados.

Tinha perdido toda a visão periférica, como se tivesse bebido demasiado e não me conseguisse concentrar em mais que uma coisa ao mesmo tempo. Pelo meio da névoa, dei por mim a tentar baratinar alguém chamado Paula Coelho.

Rezo para que não tivesse sido Paulo Coelho, porque na altura já não controlava bem a visão. E de qualquer modo o tipo escreve uns livros detestáveis.

Mas as cenas sucediam-se caóticas com o mesmo fundo musical. E a tortura durou por intermináveis horas, em que fui apresentado a todos os personagens; ouvindo confidências e dando opiniões idiotas como se fosse um deles.

Lembro-me de ter aconselhado o Alexandre Frota, a injectar no cérebro o Botox que o José Castelo Branco lhe dera, e ele tornou-se um génio. Chateando todos os companheiros com a explicação da sua nova e original abordagem à física quântica.

Colaborei num arranjo coral do hino Nacional com Mónica Sofia e Pedro Camilo, enquanto Avelino Ferreira Torres tocava percussão num alguidar azul, e Ana Maria Lucas fazia uma arrepiante dança do ventre sobre a mesa da sala.

A anarquia estava instalada! O veterinário entrou a correr empunhando uma seringa, enquanto eu ouvia sirenes de alarme, e Pedro Ramos e Ramos me segredava ao ouvido que o fucsia era a cor do ano indicada para as cortinas de sala.

O veterinário debruçou-se sobre mim, mas tinha a cara do Prof. Marcelo e sorria com ar vingativo. Senti uma picada no braço e fui engolido pelas trevas.

Enquanto desfalecia, consegui ouvir ainda a voz de Júlia Pinheiro, que cantava “Eu Não Vou Chorar” de Sandro G. Senti algo quebrar-se no meu espírito, como uma lâmpada caída de grande altura.

Acordei há algumas horas em casa e frente ao televisor, com uma enorme dor de cabeça e a boca a saber como um trem de cozinha em alumínio.

Recordei finalmente onde vira uma cena análoga a tudo isto. E percebi que alguém me criara artificialmente um mecanismo de aversão, que daqui em diante me impediria de ver fosse o que fosse da “Quinta das Celebridades”.

Sem saber, talvez as pessoas que me raptaram tivessem acabado por me fazer um favor. De qualquer modo, nunca gostei muito de Eminem.

Graças ao “Método Marcelo” estou finalmente curado…

Música de Fundo
“American Idiot”Green Day

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Parábola da namorada fora de prazo –

Irmãos! Cabe-me como bom pastor, a tarefa de limpar o pó à vossa caixa dos pirolitos e pôr-vos a pensar. O que como devem ter reparado é exclusivo da nossa igreja, não sendo este salutar hábito seguido por nenhuma das seitas da concorrência.

Ora aqui vai a parábola…

O Diogo era um sonso. Além de ir à missa todos os domingos, passava imenso tempo nas aulas de catequese, dando conselhos e esclarecendo dúvidas sobre as sagradas escrituras.

Na verdade tratava-se mais de caça à febra que propriamente ecumenismo (não confundir com comunismo), pois a menina dos seus olhos era a Maria da Luz, uma jovem catequista um pouco pálida e mofada mas ainda em bom estado.

E o Diogo, tanta novena rezou e tanto santinho distribuiu, que lá convenceu a pia donzela que seria o redentor do seu coração e quiçá do seu hímen (não confundir com o Iémen, que é muito mais seco); começando desde aí a dar doutrina aos mais novos, contando-lhes das maravilhas do Senhor, de como este afundara o Titanic por o projectista se ter armado em fresco, e dito que o navio era inafundável.

E assim passaram alguns meses em sagrada harmonia. Mas um dia, Diogo que era um dos mais atentos ouvintes dos sermões do pastor (que era conhecido pela alcunha de “cenoura”), foi presa dos demónios da soberba e da inveja; tendo chegado à conclusão que se um dia ocupasse o lugar deste, seria muito mais admirado pela congregação do que a contar tretas aos infantes.

Foi então que o seu espírito perdeu o rumo da Luz, e se virou para a conquista do púlpito. E a partir desse dia, quando dava catequese a sua mente já não se encontrava concentrada nas benesses da fé, congeminando modos de se livrar da namorada e passar à conquista da filha do pregador; o que seria meio caminho para um dia ocupar o lugar do pai.

Nunca mais olhou para a pobre Maria da Luz com a expressão morna e tolerante do futuro esponsal. Pondo defeitos em tudo, até nos fracos “adiantamentos ao casamento” que esta lhe ia proporcionando de um modo um tanto ou quanto “artesanal”.

Até que um Domingo surgiu a oportunidade tão esperada, e esta veio pela mão de um idiota (segundo alguns especialistas, os idiotas são a melhor via para certas oportunidades).

Um dos rapazolas do coro, que tinha sido namorado de Maria da Luz, decidiu espalhar o boato que Marcelo (perdão… Diogo) só ensinava impiedades distorcendo as Sagradas Escrituras; e que à noite tinha visto a prometida deste em atitudes pouco próprias com o chefe dos escuteiros, ambos encostados ao muro do quintal.

Numa comunidade tão religiosa e esmoler (sempre gostei deste termo), era uma acusação grave; que não só feria a honra de um homem de fé, como também maculava a reputação de qualquer moça casadoira.

Diogo aproveitando o pretexto da calúnia, encheu-se de falsos brios e abandonou a aula de catequese com um ar ofendidíssimo. Prometendo não mais voltar a dar doutrina, e renegando a pobre Maria da Luz cuja castidade apenas fora maculada digitalmente.

Mas a confusão já se tinha instaurado. Os escuteiros começaram a ficar muito mal cotados no meio da congregação, que também já rosnava rancorosos comentários aos meninos de coro, acusando-os de cuspir lá de cima sobre os fiéis e de darem traques a meio das actuações.

Nem o facto de o regente do coro, o Irmão Lopes, ter vindo à ribalta dizer que o outro tipo era um idiota e não sabia o que dizia, conseguiu trazer a paz àquela pequena igreja. O mal estava feito.

No domingo seguinte, Diogo entrou na igreja sem falar a Maria da luz, e foi sentar-se longe desta num dos bancos da frente; por coincidência mesmo ao lado da filha do “cenoura” (o pregador); que sorrindo lhe pegou na mão compartilhando com ele o seu missal para a leitura dos cânticos.

Quando as suas vozes acompanharam o coro na cerimónia da elevação, ficou no ar uma promessa e a ideia que aquele rapaz aprumado e bem-falante, ainda um dia seria pregador naquela igreja.

Moral da história – esta história não tem moral nenhuma, mas pelo menos ratice não lhe falta (especialmente na variedade “de sacristia”).

Nota Final – Esta fábula é dedicada àquele brilhante catequista, cuja aula dominical era a única coisa que eu via num miserável canal de televisão.

Música de Fundo
“Messa a Quatro Voci” - Cláudio Monteverdi

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Olhó Teste!
Música de Fundo
"Slave to Love" - Bryan Ferry

Cor

Rodeei-me de azul

Nas palavras e nos gestos
como se pintasse um auto-retrato

Quase tudo o que gosto é azul

O céu, o mar
as roupas que visto
este sítio onde escrevo

Sou um homem de uma só cor

E experimentei várias
regressando sempre
ao azul

Por isso achei estranho

Alguma vez gostar de outras cores
vestir de negro
gostar de olhos castanhos

Desconcertou-me a princípio

Mas compreendi finalmente
que muito lá no fundo
tu também és azul

Música de Fundo
“True Colors”Cyndi Lauper


terça-feira, 5 de outubro de 2004

Peludo e Azul
- Mais fofo é impossível! -

Nem todas as coisas fofas são boas. E a provar isso, vive a meu lado um lulu da Pomerânia chamado Rex, há muito alcunhado por mim e pelo Apóstolo como “O Resíduo Tóxico”.

Na verdade a alcunha é apenas um eufemismo, pois mais indicado seria “Flagelo de Deus” ou “Mão Esquerda das Trevas”; aquela diabólica entidade tem um único objectivo na vida… ladrar.

O seu proprietário é um velho médico parecido com um gnomo, mas muito simpático. Isto se sorrir com um ar aparvalhado for sinónimo de simpatia, claro. Mas tirando isso, até parece ser um tipo divertido.

Tem um metro e quarenta de altura. E o facto de se encontrar coberto de uma pelagem hirsuta, faz lembrar o simpático Toni Ramos após ter sido lavado na máquina a sessenta graus. Como característica adicional, saem-lhe pêlos das orelhas como ervas daninhas de um beiral.

E detesta o cão (ao contrário de mim que apenas odeio o ruído), tendo já tentado inclusive pontapeá-lo em público, com muito maus resultados diga-se de passagem; pois o manhoso lulu desviou-se mesmo atempo, fazendo-o dar em seco um “pontapé de bicicleta” que o impulsionou até à “terra mãe”.

Se eu estivesse bem disposto, diria que o “resíduo” é uma espécie de Elvis da raça canina; pois cada vez que termina uma das suas sessões de latidos, abana a franja, quase me parecendo ouvi-lo dizer em voz ciciante e grave “Thank you very much, ladies and gentlemen. Thank you very much…”.

O diabinho tinha a certa altura o mau hábito de se escapar ruidosamente a meio da noite para a varanda, obrigando-me a acordar dos meus maravilhosos sonhos e a perder parte do meu sono de beleza (a provar isto está o meu aspecto actual. Estou um caco…).

Durante um tempo consegui dissuadi-lo desse mau hábito, utilizando elásticos de escritório e clips partidos ao meio que guardava sobre a mesa-de-cabeceira. Atingindo-o com certeiras fisgadas, que lhe provocavam enormes fífias a meio das tardias actuações.

Mas a situação não se podia perpetuar, pois a minha mesa-de-cabeceira começava a parecer-se com a bancada de trabalho de um fabricante de gaiolas e ratoeiras. Isto mercê da profusão de alicates; tendo incluído até em todo este aparato um pequeno torno de bancada.

Na empresa onde trabalho, começavam já a pôr-se em campo para tentar saber para onde ia tanta caixa de clips. Estando eu em vias de ser acusado de lenocídio (ou clipocídio, não sei…) por desvio de material de escritório.

Tinha que tomar uma atitude, mas a ocasião nunca se tinha proporcionado. Até hoje…

Cheguei do meu habitual passeio de bicicleta com uma disposição nada prazenteira. Uma daquelas rampas para deficientes que se encontram na Praça S. João Batista, ia-me transformando hoje em mais um cliente dos velocípedes manuais.

Ao descer a rampa e dar a curva, o pneu da bicicleta resvalou no granito polido, e proporcionou ao meu cotovelo esquerdo uma experiência que ele não tinha desde há muito tempo. Em suma, caí.

Mas fora a choraminguice do “tem dói-dói” e etc., acabei por me levantar e rumar a casa, com uma disposição capaz de me permitir dar sem medo um clister a um Rotweiller.

Entrei na minha rua, para constatar que a pestinha já se encontrava em plena actuação. Pelos uivos, dava-me a impressão de se tratar do “Love Me Tender”, mas na versão Jugoslava.

Entrei em casa, guardei o velocípede e coloquei um CD na aparelhagem enquanto tomava banho. Mas vocês sabem, mesmo gostando muito, há um limite para a quantidade de músicas dos Rammstein que conseguimos ouvir de seguida.

Por essa altura já eu rangia os dentes, enquanto o canídeo na varanda ao lado ladrava os primeiros acordes de “Blue Suede Shoes”. E eu tive uma inspiração divina. Felizmente que Blog não serve apenas para fazer posts e mandar dilúvios; desta vez foi uma ideia daquelas saídas do Apocalipse de S. João, ou por aí…

Era o meu destino (e ainda está de pé) para este feriado, ter que pintar o interior da varanda, para que as invernias não lhe injectassem mais humidade. Aliás o meu miúdo há anos que não faz presépio, e por isso o musgo deixou de ter qualquer utilidade.

Montei o meu escadote manhoso (É tipo puro sangue. O único que o consegue montar sem cair sou eu. Isto talvez porque me conheça…), e peguei na trincha e numa lata de tinta azul para dar um retoque no friso por cima da janela.

Na varanda ao lado, a bola de pelo ladrava aos automóveis que passavam, ao que parecia a última versão de “Jailhouse Blues”.

Visto de cima parecia o alvo perfeito. Branquinho, razoavelmente quieto e a uma distância não muito grande. Era altura de dar vazão a anos de noites perdidas, e outras frustrantes ocasiões similares (há alturas em que nos pode ser muito prejudicial e inibidor, ouvir um cão a ladrar quase ao nosso lado…).

Peguei na lata de tinta, e despejei o seu conteúdo em direcção ao pequeno e agitado “Resíduo Tóxico”. Foi nessa altura que o Doutor teve um rebate de consciência, e decidiu vir à varanda para pôr término à arrepiante sessão de latidos.

Mas a tinta ia já a caminho…

Para encurtar tudo isto, posso afirmar que o doutor está agora tal e qual o meu personagem favorito. Peludo e azul…

P.S. – Informamos que não foram magoadas ou prejudicadas quaisquer marionetas durante a redacção deste post.

Música de Fundo
“Elevation”U2

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

A Natureza das Coisas
- Que se não são assim… é porque imitam muito bem –

Pela fraca afluência a este Blog durante a manhã de hoje, deu para perceber que a maioria dos meus leitores estarão de folga.

Por isso e à semelhança de qualquer zeloso funcionário público, que apenas protesta não quando as coisas estão mal, mas sim quando isso o afecta; declaro que (apesar de me encontrar a trabalhar) este Blog está a partir de agora em regime de tolerância de ponto.

Ou seja, antes de dia seis, só se não tiver mesmo nada que fazer.

Quanto aos que não se enquadram neste último padrão, só os posso aconselhar a trabalhar. Ao fim e ao cabo, alguém tem que pagar todas estas folgas…

- Este post não seria possível sem a colaboração (pela ausência) das seguintes pessoas e entidades: professores e administrativos da Escola António Gedeão (o meu filho agradece), Câmara Municipal de Almada (um autêntico sacrifício colectivo), Segurança Social (a velha de há uns posts atrás, agradece), e todos aqueles anónimos que heroicamente permitiram esta poupança de energia; bem como ao nosso governo que foi o maior obreiro deste grandioso evento, um grande bem-haja…

Música de Fundo
“Slash Dot Com”Fatboy Slim


domingo, 3 de outubro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Nós também somos “fofinhos à brava” –

Irmãos! Foi ao nos sentirmos submergidos por esta onda de “fofice” que por aí grassa, que decidimos abrir mão de um dos mais bem guardados segredos da nossa fé. Um dos nossos fundadores, o Irmão Grigori Rasputin era também um “fofinho”.

E não há-de ser agora por falta de boa vontade, que alguém poderá dizer que a nossa igreja não acompanha as tendências do momento.

O irmão Grigori nasceu em 1872 na aldeia de Rasputje, e foi baptizado como Grigori Iefimovitch Novykh, logo na sua juventude decidiu mudar o seu apelido para Rasputin. Não só em homenagem à sua aldeia natal, mas principalmente porque quando se anunciava, as pessoas tinham tendência a dizer “Santinho! Deus o abençoe…”.

Ainda bem jovem abraçou a vida religiosa mas cedo abandonou o hábito, pois este fazia-lhe uma alergia deveras incómoda nas virilhas; e porque durante o Inverno polar característico da Sibéria, o vento subia-lhe pela batina mantendo-lhe as “sagradas relíquias” geladas por mais de seis meses, por vezes ainda para além do degelo.

Mais tarde tornou-se “starets” (não confundir com “starlet”, embora alguns invejosos dissessem que ele tinha um “piquinho” a azedo) da seita dos Khlysty ou "flagelantes", o que lhe deu imenso jeito para lidar com a Tzarina Aleksandra (Xana, para os amigos), que adorava brincar ás “criaditas indefesas”.

Desenvolveu um notável dom de magnetizar e impressionar as pessoas, a ponto de uma noite em que a família imperial deu um jantar de homenagem ao embaixador japonês, ter conseguido sair com o faqueiro de prata completamente agarrado a si, e sem que ninguém tivesse dado por coisa alguma.

Camponês rude e semi-analfabeto, era visto no palácio real como uma força viva da natureza, ou pelo menos era a opinião das damas da corte. Que adoravam fazer-lhe trancinhas e vesti-lo de cossaco, fazendo fila e digladiando-se pelo privilégio de lhe poderem dar banho.

Em Setembro de 1915, Nicholas II após eficientemente endrominado pela mulher, que estava doidinha por o ver pelas costas, assumiu o comando supremo do Exército Russo que lutava na Frente Leste, ao lado da Tríplice Aliança (França, Itália e Grã-Bretanha, os principais).
A decisão fora motivada por sugestões de Rasputin e da Tzarina Aleksandra, que sendo de origem alemã, queria partir quanto antes com o seu querido Grigori, para a Oktoberfest em Munique (uma espécie de Festa do Avante, mas com muito mais piada).
Nicolau II acedeu à orientação, mesmo com os protestos do Governo Imperial. O Grão Duque Nicholas Nikolaievich, seu parente, foi afastado do comando e mandado para a Sibéria em “Missão de Estudo” e Nicolau II partiu para a frente de batalha. Essa decisão fatal acabou por lhe custar a vida e a dos seus. Mas mais tarde, claro…

Com a partida de Nicolau II, o país passou a ser governado pela Tzarina Alexandra e por Rasputin que, após regressados de Munique com uma enorme ressaca, puseram S. Petesburgo a ferro e fogo quase esgotando o stock imperial de Vodka Stolitchnaya, e aparecendo juntos em todas as festas da cidade; encontrando-se ainda hoje alguns ícones em que são retratados na companhia dos DJ’s.
Em pouco tempo toda a Santa Rússia tomou conhecimento da importância do "profeta". Ministros, generais, os grandes do império, aventureiros, bajuladores e oportunistas de todos os calibres enfileiravam-se atrás de Grigori para conseguir algum favor real.
Nunca se soube ao certo qual era o critério das escolhas de Rasputin. Embora dissessem as más-línguas, que ele nunca conseguia dizer “não” a uma senhora. Os relatórios que a Okrana recebia narravam intermináveis aventuras amorosas e um sem fim de bebedeiras, mas isso em nada afectava o prestígio do Santo homem.
Mas acabou por criar uma enorme inveja entre todos os agentes que liam os relatórios, criando uma onda de descontentamento contra Grigori, que aparentemente era o único tipo que andava a curtir bem naquela época.
O príncipe Félix Youssoupov era um tipo ciumento e de maus fígados, que devido ao defeito que tinha de cuspinhar enquanto falava, se fartava de levar “tampas” na corte; vivendo permanentemente em extrema frustração.
Uma bela manhã procurou o deputado da extrema-direita Purishkevitch que era do PP lá do sítio, para participar num plano. Além deles, havia ainda um oficial de nome Sukhotin que não era promovido há dez anos, e um médico, o doutor Lazovert que trabalhava na segurança Social Imperial.
Mas a figura mais impressionante era o grão-duque Dmitri, da própria família real. Um tipo efeminado que por diversas vezes se tentara “fazer” ao Santo Grigori, mas que estivera à beira de um mergulho no Neva, acompanhado de toda a discografia de Gloria Gaynor.
Os conspiradores imaginaram então um ardil. O príncipe Félix Youssoupov era casado com a sensual Irene Alexandrovna, uma boazona da corte e sobrinha de Nicolau II. Para atrair Rasputin ao seu palácio, situado sobre o canal do Mojka, um dos diversos caminhos que levavam ao Rio Neva; Youssoupov prometeu que lha apresentaria.
Grigori não se admirou, pois segundo as más-línguas Youssoupov tinha sempre armazenada “lenha para dez Invernos rigorosos”; e Irene era tão conhecida que aparecia em destaque no Guia Michelin da época.
Nessa noite um pouco antes de o conduzir aos aposentos da dama, Félix (o príncipe) levou-o à cave a pretexto de o convidar para um aperitivo de esturjão. Nada daquilo pareceu estranho a Rasputin. Foram incontáveis as vezes que homens poderosos lhe ofereceram as esposas em troca de benesses e cargos.
Só que desta vez os seus doces favoritos que Youssoupov lhe ofereceu numa bandeja, estavam impregnados de cianeto.
Depois de uma série de brindes com vinho também envenenado, Grigori foi-se abaixo (tinha jantado mal). Caiu sobre um sofá, resvalando para o chão. Youssoupov achando que ele estava morto, comunicou o resultado aos conjurados que o aguardavam no andar de cima do palácio.
Repentinamente ecoou um grito histérico. Era o próprio Youssoupov assustado ao deparar-se com Rasputin que se erguia do chão e discretamente procurava o W.C. para fazer uma mijinha (o vinho russo é muito diurético). Havia nos doces veneno suficiente para abater um cavalo.
Calculou-se depois que as quantidades colossais de Vodka que ele ingeria regularmente, neutralizaram em parte a acção do veneno. Atendendo ao chamamento do príncipe, que chegou a disparar por duas vezes em Rasputin; mas falhou porque era vesgo e não tinha levado os óculos.
Vladimir Purishkevitch desceu com o revolver em punho e, de imediato, descarregou-o sobre o corpo martirizado do santo Homem, que naquela altura estava a um canto urinando calmamente contra um reposteiro de veludo.
Descuidados como todos os amadores, os conjurados quando se desfizeram do presumível cadáver lançaram-no num buraco feito na crosta enregelada do rio Neva, esquecendo-se contra todas as regras de lhe colocar uns pesos aos pés.
Em resultado disso, três dias depois a polícia encontrou Rasputin a nadar de costas enquanto trincava uma tosta com caviar. A Tzarina fez questão na véspera do Natal, dia 24 de Dezembro, de lhe prestar uma homenagem fúnebre em completo segredo. Dando o óbito como morte acidental.
Mas é claro que ele não estava morto.
Recolhido por algumas freiras ortodoxas, que mais tarde agradeceriam ao Senhor ter-lhes dado tal inspiração; recuperou rapidamente. Regressando anos mais tarde para se vingar ao mais puro estilo de Sérgio Leone, sob o nome falso de Vladimir Ilich Lenin.
Tendo derrotado todos os maus, e fundado o império Soviético; que como se sabe acabou por cair devido ás dúvidas de Gorbachev sobre a masculinidade de Estaline.
Mas isso fica para outra altura, pois chegou agora um camarada da Concelhia para me convidar a beber um copo. Acho que me querem reintegrar no “agit-prop”…
Música de Fundo
“Moskau”Rammstein


sábado, 2 de outubro de 2004

Ezzelino di Acciughe - A Renascença não é apenas uma Rádio
- “Fofinhos” famosos. Ou então… não –

Ezzelino di Acciughe e Vermicelli nasceu em Florença no Anno Domini 1469. Filho da ama de leite de Niccolò Machiavelli e de (dizia-se) um prestamista judeu, cedo demonstrou apreço pelas belas artes e o belo sexo.

Apesar de se ter dito na altura, que através de uma manobra da ama teria sido trocado com Niccolò, durante uma refeição em comum nos seios desta, custa-nos a acreditar que “O Príncipe” tivesse sido na realidade escrito por Vermicelli, e não por Machiavelli.

Isto daria agora uma confusão enorme em toda a literatura de referência (caso viesse a ser provado), pois as editoras teriam que substituir em todos os livros o termo “Maquiavélico” por “Vermicélico”; o que convenhamos não seria nada cómodo, nem soaria bem.

Aos cinco anos, enquanto o seu amiguinho Niccolò se entretinha no pátio a atirar os cães uns contra os outros ou a fomentar intrigas entre os criados de quarto; Ezzelino cultivava amizade com as meninas da vizinhança, colaborando em “cházinhos de bonecas” e desenhando para as suas amigas, floridos diagramas para jogar à macaca. Pelo que nunca elas se negavam a “brincar aos físicos” (os médicos da época), cada vez que este lhes pedia.

E assim ia decorrendo a infância do nosso herói florentino, enquanto o Doge ia enriquecendo e a cidade florescendo; tendo sido anos mais tarde muito apreciada por turistas e amantes em “retiro espiritual”.

A sua adolescência decorreu com normalidade. Tendo aos dezassete anos fundado juntamente com Filippo Brunelleschi um grupo de trovadores, “Lei Clash” que arrebataram as noites de Florença e os corações das florentinas; tendo sido até convidados por Lorenzo di Medici a actuar no Palazzo Pitti. Uma danceteria muito famosa na altura, que tinha “Ladies Night” ás quintas-feiras.

Infelizmente, logo na primeira noite no fim da actuação e ao regressar ao camarim, encontrou à sua espera uma patrulha de Carabinieri que lhe agitaram em frente aos olhos, um pacotinho com algumas ervas dentro.

Ezzelino “bateu-se” que aquilo era tabaco dos Países-Baixos mas ninguém acreditou; principalmente porque o tabaco ainda não tinha sido descoberto. E também porque por infeliz coincidência, ele vinha com os olhos muito avermelhados devido aos projectores.

Condenado a “servir” cinco anos no famoso Carcere di Gramsci. Foi lá que reencontrou Niccolò, com quem compartilhou a cela até terem discutido, por este lhe ter roubado a maior parte das ideias e as ter introduzido no seu livro (o que não lhe serviu de nada, pois passou a maior parte da vida “dentro”).

Alguns eruditos, conseguiram nos últimos anos identificar algumas das ideias de Ezzelino nos escritos de Machiavelli. Como é o caso da famosa – “Portanto, um príncipe não deve ter outro objectivo nem outro pensamento, nem tomar a peito outra matéria, que não seja a arte da guerra e a organização e a disciplina militares, pois trata-se da única arte que pertence aos que comandam e têm tão grande poder que mantém não só os que de estirpe são príncipes, como também, não raro, permite alcançar tal dignidade a homens de condição simples.”

Este trecho, segundo os manuscritos encontrados recentemente em poder de Hugh Hefner, durante uma rusga efectuada à Mansão Playboy em busca de menores, seria no original algo como – “Portanto, um Fofinho não deve ter outro objectivo nem outro pensamento, nem tomar a peito outra matéria, que não seja a arte do amor e a subtileza da poesia, pois trata-se da única arte que pertence aos que se safam nas festas, e que delas sempre saem acompanhados, e não só aos fisicamente belos, como também, não raro, permite alcançar tal ventura aos que tem falta de cabelo e mesmo aos que tenham um pouco de acne (desde que não em demasia).”

Daqui se vê claramente a razão para a sua rotura com Niccolò, que ficou a apodrecer na “prisa” após a sua libertação, e a quem nunca mandou sequer um postal. Apesar de há dez anos terem aparecido publicadas algumas cartas a ele atribuídas, que mais tarde se provou não serem autênticas, pois estavam escritas em alemão e se descobriu mais tarde, fazerem parte da correspondência de Hitler com o seu contabilista.

Desiludido com a amizade dos homens, Ezzelino voltou-se para a sua verdadeira vocação. Abrindo anos mais tarde em Bologna uma loja de artigos esotéricos, onde vendia estatuetas da astrologia oriental, incenso, pedras semi-preciosas de propriedades curativas e poções de amor. Mantendo em paralelo um consultório de Reiki, onde as clientes iam para equilibrar a sua (delas) energia e libertar a tensão.

Assassinado no leito aos setenta e dois anos por um marido ciumento. O seu corpo descansa na Basilica di San Petronio, num belo túmulo de mármore de Carrara onde se lê a inscrição “Nihil mortalium tam instabile ac fluxum est quam fama potentiae non sua vi nixae”. Frase esta bem apoiada pelo alto-relevo que a meio do túmulo ainda sobressai, apesar de gasta por séculos de esfregadelas por parte das devotas que visitam o santo local.

Deixou-nos, além de alguns ensinamentos que compartilharia convosco se tivesse mais tempo, esta famosa receita:

Pizza Con Funghi e Acciughe

Uma base para pizza (grande)
Meio pacote de polpa de tomate (Compal)
200gr de cogumelos
Uma colher de sopa de manteiga
Uma colher de sopa com salsa finamente picada
56gr de anchovas de lata
6dl de queijo ralado
Azeite a gosto

“Espalha-se a polpa desfeita de tomate sobre a base da pizza. Lavam-se e cortam-se os cogumelos ás fatias. Salteiam-se ligeiramente os cogumelos na manteiga, juntando-lhes a salsa picada. Distribuem-se os cogumelos e as anchovas sobre a camada de tomate, polvilhando então com o queijo ralado; juntam-se alguns pingos de azeite e leva-se ao forno (no micro-ondas de 900W deve-se calcular cerca de vinte minutos)”

E será hoje este o meu jantar em homenagem a Ezzelino di Acciughe e Vermicelli, um “Fofinho” da Renascença. Que como devem calcular, não é apenas o nome de uma rádio…

Bom apetite!

Música de Fundo
“Abattoir Blues - (Álbum)”Nick Cave
(Audição Integral)

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