quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- O balanço é uma coisa enjoativa –

Devia ser por esta altura, caríssimos irmãos, que eu iria começar a fazer o balanço de tudo o que se passou no último ano; tentando talvez demonstrar que este teria sido bom apesar de tudo, ou que vale sempre a pena se blá, blá, blá…

Pois temos pena. Temos mesmo muita pena que os poucos (felizmente) de vós apreciadores da Santa Pieguice, fiquem a seco assim sem mais nem menos (ou como diria a Dona Odete, sem ver o padeiro).

È que se fizesse o balanço teria que vos aldrabar, pois tanto as melhores como as piores coisas que me aconteceram este ano não são publicáveis; pelo menos não neste blog.

De qualquer modo, o balanço é sempre algo que faz lembrar o contar de trocos. Faz-se balanço neste tipo de situação, quando se tem pouco ou quando se tem demasiado; por isso encontro-me dispensado dessa enfadonha tarefa.

Se me perguntarem o que desejo para 2005 a minha resposta é fácil – Tudo! Quero, pura e simplesmente tudo. Não me sinto nem com paciência nem espírito para ser razoável e pedir algo como a paz mundial. A paz mundial é tão impossível como termos um Governo decente; são ambos óptimos desejos para se manifestar quando se ganha o título de Miss Portugal, ou por aí.

Se tiver mesmo que expressar um desejo para o ano que vem, é que este seja como o puto da foto lá em cima – Irreverente, novo, cheio de surpresas e sempre com as goelas abertas em protesto. Não se pode pedir muito mais para o que é novo.

De qualquer modo, é apenas mais um ano. Mais uma figura para colar na enorme caderneta de cromos que é o Mundo de Blog; apenas mais tempo… e mais alguns posts…

Música de Fundo
Monkey To Man” – Elvis Costello

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

O Aniversário

Nunca fui muito de ligar ao meu próprio aniversário. Primeiro porque sendo este junto ao Natal, acabava por invariavelmente ser aldrabado com a história do “depois recebes as prendas juntas”.

Não que me importasse, mas prendas são prendas; e desde aí que eu não gosto de perder nem ao monopólio.

Há quem diga que os aniversários nos fazem mais velhos; que eu note, não.

Faço-me realmente velho mas não é a viver; é o tempo em que esperamos que nos cria rugas. E vão por mim… Não esperem seja pelo que for, pois nada vale a pena se não for conquistado… E eu também nunca fui muito do género de esperar.

Mas eu tinha começado a falar do aniversário.

Aniversário é como carimbar um passaporte. É a altura em que registamos o tempo que até aí gastámos, o qual já ninguém nos poderá tirar.

É quando olhamos em volta por breves momentos, antes de continuar; como quem passa mais um marco quilométrico numa estrada da qual não se vislumbra o fim.

Aniversário é estar vivo agora. E não há nada melhor do que estar verdadeiramente vivo; excepto talvez, amar; ou ser amado.

Mas os parabéns que aqui deixo são pelo aniversário que a jovem Vanus de Blog comemora hoje.

Apenas mais um marco para ti, nada demais… Parabéns miúda!

Música de Fundo
Come On Eileen” – Dexys Midnight Runners

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Grandes Pensadores –

Irmãos! Como vedes, a glória de Blog estende-se até ás bárbaras e alagadas terras dos Países Baixos; como demonstra a foto acima, enviada pelo nosso irmão Sniper que anda lá fora a lutar pela vida (como diria a saudosa Hermínia Silva).

Mas uma vez que a preguiça está a fazer estragos entre os blogs vizinhos, e pouco falta também para que nos rendamos a esse delicioso pecado; venho aqui dar-vos a conhecer uma frase de um grande pensador, que me foi revelada ao ler hoje uma revista durante o intervalo para almoço.

“Uma das coisas que torna mais ridícula a pessoa humana é a vaidade. A vaidade é, de facto, muito traiçoeira. Veste-se de louvor reluzente e inebria aquele que não teve a capacidade de se auto-criticar ao receber o elogio da sua beleza, da sua inteligência, do acto praticado ou daquela ponta de ironia, por causa da qual se julgou herói daquela roda de amigos. Procure ser inteligente, sobretudo para não incorrer no ridículo a que estão sujeitos todos os vaidosos do Mundo”.

Peço-vos pois, irmãos, reflexão sobre esta pérola do pensamento moderno; que poderá ser encontrada no livro “Um Pensamento Para Cada Dia” da autoria de José Castelo Branco, e á venda dia 10 de Janeiro em conjunto com a TV Guia.

Para os que por algum motivo não consigam comprar um exemplar, iremos a partir dessa data começar a publicar algumas das frases mais marcantes, e cuja profundidade justifique que as compartilhemos convosco.

Para o filósofo José (que a esta hora deve estar a rezar o terço, ou a verificar a temperatura com o seu termómetro rectal), os nossos votos de felicidades e que consiga a sua demanda de prevalecer sobre a gentinha, conquistando assim a sua independência financeira.

Louvado seja Chanel… Perdão. Blog!

PS: Prevê-se para a revelação seguinte – Máximas da “Matilde Cabeleireira” – a publicar quando houver verba.

Música de Fundo
Queer” – Garbage

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

As nossas palavras escondem-se na multidão
como que perseguidas
cobertas por um véu de imensitude.

Que é uma palavra nova
não reconhecida
pelo meu corrector ortográfico

Música de Fundo
Kiss From a Rose” – Seal


quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Mensagem de Natal de sua Eminência TheOldMan, Cardeal Patriarca e Guardião das Sagradas Relíquias de Blog bem como de outras Miudezas –

Irmãos e Irmãs (Merry Christmas, Girls!) em Blog. É nesta época em que tudo mirra com o frio, que vos venho falar com o coração intumescido de bondade.

E como tantos pedidos me foram feitos para que colocasse uma imagem natalícia para as senhoras, decidi postar aqui o “Natal da Esfinge” (descaradamente plagiado de um clássico, mas agora é moda) que como podem constatar, tem tudo o necessário para agradar a uma verdadeira apreciadora de arte.

Eu sei que o mocinho até parece um campino, mas qual de vocês não aprecia um pouco de brusquidão e até boçalidade na altura certa?

É evidente que a perna direita não está em grandes condições, pois se fosse um indivíduo real, mal se apoiasse nela iria abaixo como um saca-rolhas em pudim-flan. Mas para o efeito também não faz grande diferença, pois dizem que no Natal a intenção é que conta (saloios…).

A esfinge também não está grande coisa; só escapando porque está à sombra. Isto já descontando o facto de para poder esticar a pata, ter tido que a partir pela articulação; pois é a única causa que me ocorre para a estranha posição da mesma.

Já do outro senhor que está lá ao fundo, aos pulos nu como veio ao mundo e com ar depravado, não falaremos. Mas a nossa Igreja acha que é uma alegoria ao espírito do Natal (forte, feio e sempre aos saltos), ou não fosse ter a árvore logo atrás.

Aqui na Igreja as coisas têm corrido como em todos os Natais passados. Meu Amo está um chato, o Tenente Figueiredo não tem mãos a medir com as entregas e Miss Entropia tem feito embrulhos em quantidades inimagináveis; mas o espírito do Natal está vivo (e aos saltinhos) em todos nós.

Quanto ás nossas fiéis, desculpem lá o rapaz ser um pouco a dar para o mal feito, mas foi o que se conseguiu arranjar; e no Google era ou isso ou nu integral (nem os barretes tinham postos, vejam lá…).

É pouco, mas de boa vontade.

Por isso aproveito enquanto a coisa está a dar, para vos vir aqui desejar um Feliz Natal; porque a seguir vou fechar os taipais, e só devo escrever algo de novo lá para a tarde de dia 25 (isto, se gostar dos presentes).

Até lá, Ho, Ho, Ho… e que Blog vos proteja…

Música de Fundo
"Driving You Slow” – The Gift

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

Fantasias de Natal (Segunda Tentativa)
- O Sapatinho –

Era uma vez um pobre velho que passava o tempo todo a embirrar com toda a gente; não só porque era velho e chato, mas também porque as coisas raramente corriam como ele queria (o que convenhamos, pode induzir casos de extrema frustração).

Ás vezes as outras pessoas diziam, que talvez lhe faltasse um pouco do espírito de Natal. Aquela sensação de euforia que nos faz sentir melhor, sem que para tal haja uma razão palpável ou minimamente lógica.

E estava-se no Natal. Numa gélida manhã de 25 de Dezembro; em que todos os meninos cumprem a tradição de correr para a árvore em busca de presentes. A manhã mãe de todas as surpresas.

Mas aquele dia tinha amanhecido mais claro. Talvez fosse apenas as cortinas estarem mal fechadas, mas o quarto parecia mais claro e espaçoso como se tudo se abrisse diante de si numa promessa. Levantou-se e lentamente encaminhou-se para a cozinha.

Meio a dormir encheu um copo com sumo de laranja, e regressou ao quarto; sentando-se na beira da cama enquanto tentava identificar a sensação de estranheza que o assaltava. Sentia-se um pouco cansado, mas ao mesmo tempo revigorado como depois de uma tarde no ginásio.

Pela janela vislumbravam-se ramadas de árvore, que oscilavam no ritmo do vento. Era a primeira vez que reparava nelas; como se nunca tivesse ali estado, ou tivessem crescido durante a noite. A noite era outra recordação estranha, pois na verdade não se recordava de nada.

Mas não se sentia rabugento; o que era facto assaz estranho dada a sua índole.

Aproveitou para um “reality check”. Ao seu lado, umas costas harmoniosas continuavam na curva pronunciada de uma anca onde depositou um beijo.

Sentindo-se particularmente maroto, passou-lhe rapidamente a língua pela coluna vertebral até à nuca; mordendo-a ligeiramente abaixo da linha do cabelo enquanto lhe encostava o peito ás costas quentes.

O corpo dela correspondeu com um estremecimento de surpresa agradada.

Com a mão esquerda começou a afastar-lhe o cabelo da face, e mordiscou-lhe a orelha esquerda. O seu olhar desceu da reprodução de Degas (Degas? Pensava que era Marc Chagall…), pelo aparador e até ao tapete. Até que viu o sapatinho…

Um sapato pequeno de salto alto e afiado, de onde correias douradas se escapam para o chão como fitas de um presente festivo.

Com os joelhos entreabriu-lhe um pouco as pernas, e acabou de afastar com a mão o resto do cabelo que lhe cobria a cara.

Subitamente recordou-se. Lembrava-se finalmente de onde estava … e do que tinha pedido para o Natal…

Música de Fundo
You’re Gorgeous” – Babybird


terça-feira, 21 de dezembro de 2004

Fantasias de Natal (1ª Tentativa)
- Na tal é quando um homem quiser. -

Se há uma coisa que me chateie a sério, é cortarem-me a onda…

Demorei um tempão a seleccionar a imagem lá para cima; e acreditem-me que foi difícil. Pois isto é um blog para famílias, e em algumas das fotos quase não se conseguia distinguir o barrete da Mãe Natal. Para dizer a verdade, piores eram aquelas em que não se lhe distinguia a cara.

A ideia subjacente para acompanhar a ilustração também não era má; apesar de a única relação que tinha com o título, ser apenas o fato. Mas era uma linda fantasia e eu tinha trabalhado nela a noite toda, a ponto de quando me sentei para tomar o pequeno-almoço, estar tão cansado que mais parecia ter-se tornado realidade.

Foi aí que realmente me estragaram a ideia para o post do dia.

QUINHENTOS E CINQUENTA E SEIS MILHÕES? Que merda é esta, pá? – Como hoje (para variar) em vez de ler o Correio da Manhã estava embrenhado na “Bit”, nem sabia o que se estava a passar. Mas o “Grau Negativo” que é um grande defensor das causas nobres não se calava.

Até a Dona Odete já o tinha alvejado com meio pastel de bacalhau a ver se o demovia, mas com resultados nulos; e eu fui obrigado a gramar a versão integral da notícia, que por si só (ou “per se” para os mais cagões) nem sequer é muito original.

Pelo meio de uma chuva de migalhas (estava já um pouco atrasado), lá lhe consegui explicar (bem como ao restante auditório, que seguia maravilhado a trajectória dos meus perdigotos) que este tipo de actuação é vulgaríssimo entre certo tipo de empresas.

Tendo até lembrado o caso da Soares da Costa, que há uns anos vendeu todo o parque de máquinas e viaturas, apenas para poder apresentar resultados positivos aos accionistas.

Talvez o mais importante e que possivelmente ainda ninguém se terá lembrado, será fazer uma listagem de todos os bens preparados para venda, e conferir se o valor base de negociação está conforme o que seria atribuível pela consulta aos índices habituais.

Os seja, em linguagem de gente, quantas dessas vendas não estariam combinadas já à partida, para beneficiar não os cofres do Estado mas um ou outro funcionário/político mais empreendedor.

É claro que toda esta conversa me cortou a onda para descrever as minhas fantasias. Mas vou fazer um pequeno intervalo, e talvez com um esforço adicional, logo mais para a noitinha me lembre dos pormenores…

Música de Fundo
Great Balls Of Fire” – Jerry Lee Lewis

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

A Grande Farra (Final Imprevisto)
- É uma decepção quando as coisas correm bem demais –

Ontem foi um dia sem história. Após um prometedor início em que alguém furou inadvertidamente o Pai Natal insuflável, fazendo com que este percorresse o recinto soltando sons deveras suspeitos, acabou por nada acontecer digno de nota.

Isto não se deveu à falta de imaginação por parte dos convivas no sentido de animar a festa; mas sim à segurança que este ano rodeou o evento, não permitindo que se passasse nada de invulgar.

Com base em experiências anteriores foi-lhes possível debelar perigosas situações, como a tentativa de iniciar um campeonato de tiro ao alvo com as figurinhas de louça no jardim; fazer “cliff climbing” nas famosas grades Manuelinas ou atirar o anfitrião à piscina a título de comemoração.

A festa começou a tornar-se sucessivamente agradável, normalizada e aborrecida; termos que nunca me passariam pela cabeça utilizar para classificar eventos organizados por meu amo.

Estava em sérios problemas, pois tinha contado com a confusão habitual para ter assunto para o post de hoje, mas eles não estavam a colaborar. E assim foram passando as horas até me ter vindo embora para casa, amaldiçoando o acaso, o Governo, ou quem pudesse ter tido alguma influência no bom andamento das comemorações.

Nem dormi bem. O meu post de hoje estava comprometido; e principalmente, iniciara um relato que não conseguiria terminar por falta de assunto. Como se unicamente por uma vez e apenas para fins de contradição sistemática, o destino tivesse decidido intervir numa já tão longa tradição de catástrofes.

O meu sono foi povoado de cenas horripilantes, em que tipos vestindo fatos da MacModa me obrigavam a autenticar uma declaração, em que certificava tudo ter corrido bem na festa de Natal deste ano; após o que a publicavam em todos os jornais diários.

De manhã, saí de casa cabisbaixo.

Faltava-me algo, talvez a sensação de imponderabilidade que é comum em todos os meus dias. Talvez finalmente Blog tivesse decidido abandonar-me a uma vida banal e sem interesse… Quem sabe, se é esse o Inferno de Blog…

Não poderia estar mais desalentado, quando me sentei no banco de pé alto ao balcão da cafetaria.

A Dona Odete escancarou um sorriso que a fez parecer um “Steinway & Sons” mal estimado, e espetou-me na torrada dois paus de fósforo que acendeu de seguida.

Nesse preciso momento, o coro dos Bêbados Matinais sob a batuta do “Grau Negativo” iniciou uma variação sobre o tema “Parabéns a Você”, que conseguiram terminar desencontrados vários minutos após a hora prevista.

Encarei-os com gratidão por entre a humidade que me toldava a vista.

Estava um ano mais velho, mas continuavam a acontecer-me cenas idiotas. Blog amava-me…

Música de Fundo
I Believe In You” – Kylie Minogue

domingo, 19 de dezembro de 2004

A Grande Farra (Parte 1)
- A nossa empresa é uma festa permanente –

Sem dúvida que meu amo sabe receber. Quando franqueei os portões do seu domínio, não me encontrava preparado para tal pompa e ostentação.

A receber-nos quando entrávamos pelo carreiro atapetado a retalhos de mármore de Estremoz, além da bonecada que normalmente faz com que tudo aquilo se assemelhe a um mini-golf, tínhamos desta vez o Pai Natal.

Uma monstruosidade insuflável, um Adamastor de polietileno, eu sei lá… felizmente para aligeirar o dramatismo da aparição, alguém lhe juntara uma boneca (Mae Wong Mark III) insuflável de fabrico malaio.

E embora uma parte dos adultos se sentisse um pouco desconfortável com a visão, para a maioria dos miúdos foi giríssimo e alguns até pensaram tratar-se da Mãe Natal.

Luzes de natal piscavam com um ar malandreco, pelo caminho que conduzia ao pavilhão de caça. Na verdade não é bem de caça; e se pensarmos bem não será também um pavilhão. Porque originariamente se tratava de uma garagem bem espaçosa.

Por entre as mesas, inúmeros lacaios arregimentados nas unidades agrícolas das redondezas, passavam atarefados carregando travessas de rissóis, chamuças e pequenas tapas.

De serviço à arca frigorífica o “Avô Cantigas” (um dos nossos canalizadores, igualmente especialista em apresentações multimédia), ia observando os recém chegados enquanto sorria e enfiava os polegares nos suspensórios.

Não é possível pormenorizar o decorrer desta matinée. Todos os acontecimentos dignos de nota (e muitos eles foram) sucederam-se em catadupa como num filme de Tarantino. Desde a entrada dos tachos com a feijoada de choco, até à distribuição das prendas natalícias oferecidas pela empresa.

Espantosamente e para grande tristeza minha, desta vez ninguém caiu na piscina; embora mais tarde fosse disso compensado, quando o Emílio aterrou sobre uma travessa de leitão da Bairrada que o transportou ainda durante mais dois metros.

Na verdade nem posso contar-vos sequer como acabou a festa, pois isso ainda não aconteceu. Fizemos apenas um pequeno intervalo para vir dormir a casa, e regressaremos à uma da tarde para terminar o que começámos. E que Blog nos ajude nessa demanda, porque é difícil.

Na realidade a primeira parte (ou seja ontem) não tem normalmente acontecimentos dignos de nota; porque tirando algumas bebedeiras que não produziram grande espectáculo, apenas a apresentação das montagens fotográficas deste ano (feita pelo Avô Cantigas) se revestiu de um certo relevo.

Mas hoje… sim hoje é que vai ser. Não só porque terei nova oportunidade de obter um melhor ângulo da grade Manuelina (é linda. Não é?), como os convidados para o segundo dia são do mais elevado gabarito. Técnicos, engenheiros, construtores e respectivas acompanhantes.

O que espero nos irá proporcionar uma tarde de boa conversa num ambiente refinado. Isto se o verniz não começar a estalar, porque esta malta, em estando com os copos são ainda piores que os canalizadores.

Mas não me vou adiantar mais neste relato, porque desta vez vai ser “black tie” e ainda tenho que ir passar brilho aos sapatos.

Música de Fundo
Le Carnaval Romain” – Hector Berlioz

sábado, 18 de dezembro de 2004

Enquanto estás longe

Apetecia-me escrever alguma coisa
que tocasse
apenas
por um momento só…

Música de Fundo
Everybody’s Changing” – Keane


sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

Mon Dieu!... Mon Dieu!...
(E outras interjeições Albicastrenses)

Sinto-me hoje um autêntico príncipe da renascença; até já mandei Miss Entropia à drogaria comprar Solarine, para puxar o lustro à minha cigarreira de prata.

É que amanhã se realiza o almoço anual da empresa. E desta vez (pasmai ó gentes!) vai ter lugar na mansão de meu amo.

Um evento de proporções gigantescas, para o qual se espera a comparência da fina-flor do nosso meio artístico; como é o caso de Natalina (a jovem revelação da “Noite do Fado da Cooperativa Pragalense) e de “José Maria e o seu Órgão Mágico” (muito gabado pelo sentimento com que toca do dito).

Mas desta vez, e como se trata de um local de grande luxo e refinamento, não me limitarei a fazer o relato do evento. Tal como já prometi a uma amiga vizinha de blog, tirarei algumas fotos das quais tenciono seleccionar uma, para encabeçar o relato de todas as peripécias da grandiosa matinée.

Talvez vos proporcione um vislumbre das maravilhosas grades Manuelinas (foi o Sr. Manuel que as soldou), que protegem todas as janelas da mansão de meu amo. Uma autêntica filigrana em ferro forjado, que sempre me faz lembrar com saudade, a cabeceira de uma cama onde eu dormia em criança.

Na verdade um dos meus passatempos favoritos é atirar pedrinhas ás janelas. Pois quando alguém se assoma e agarra as grades com as mãos, parece na verdade estar de gatas numa cama, e com a cabeça enfiada entre os ferros da cabeceira.

“Honni soit qui mal y pense…”

Bem… Mas o tempo urge, e não posso mesmo ficar por aqui à conversa, pois ainda tenho que ir empoar a cabeleira e decidir de que lado é que hei-de colar o meu sinal falso.

Á bientôt…

Música de Fundo
Prélude à l'après-midi d'un faune“ - Claude Debussy

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Crónicas do Bairro Amarelo
- Um novo dia… mais um pequeno-almoço… -

A Dona Odete está-se nas tintas para os jornais. Na verdade só os compra para os clientes lerem, e principalmente devido ás colecções de coisas inúteis e sem valor que estes publicitam amiúde.

No tempo em que os jornais serviam para forrar o caixote do lixo ou a gaiola do periquito, talvez comprasse o Diário de Notícias (o saudoso formato “jumbo”, que os sem-abrigo tanto apreciavam para se taparem).

Mas hoje em dia o caixote é profilacticamente forrado com sacos de supermercado, e para a gaiola do periquito inventou-se a TV-Guia que é muito mais resistente e de formato mais manuseável.

Estamos pois a atravessar mais um ciclo de Correio da Manhã, que calmamente leio todas as manhãs de trás para a frente (literalmente) enquanto como a minha torrada sem manteiga. E posso garantir-vos que todos os dias me proporciona momentos de boa disposição.

Hoje, é claro que não constituiu excepção.

Logo a seguir (ou seja, antes) à programação da TV, que infrutiferamente vasculho em busca de filmes decentes, encontrei uma coluna dedicada ao reality show da TVI; da autoria de um tal Eduardo Beauté.

Longe de mim fazer troça com o nome do homem (Blog sabe como o meu nome também é esquisito…). Mas alguém que use o nome Beauté nunca deveria acompanhar a sua coluna com uma foto, pois tal constitui invariavelmente uma decepção por mais apresentável que seja.

Tal não era o caso. Pois pelo que deu para perceber no meio selo de correio que lhe cabia, o tipo estava mascarado de Shirley Temple, mas com o capachinho deitado à banda; como se tivesse vindo a correr até à “Photomaton”.

Mas eu não vim aqui para malhar em falsos gadelhudos. O que me fez alargar o sorriso até deixar cair pedaços de torrada dentro do chá, foi a frase de abertura.

Uma frase que condensa toda a amargura de alguém que se sente impotente frente à crise que atravessamos, e que demonstra também porque é que uma grande percentagem dos colunistas portugueses, seriam muito mais úteis nesta época festiva a fazer embrulhos ao balcão da Toys-R-Us.

Na verdade até me engasguei. E talvez não sobrevivesse para escrever este post, se o “grau negativo” (é o marido da Dona Odete, e chamamos-lhe assim por ser baixinho) não me tivesse batido com toda a força nas costas.

Quando a minha respiração atingiu um ritmo normal, e me perguntaram qual fora a causa do incidente, pude então ler-lhes o que considero uma das frases mais importantes dos últimos meses - “Como é que o povo português reclama tanto dos nossos governantes, se quando está nas suas mãos fazer justiça põe Pedro Reis fora da Quinta?”

É claro que para Eduardo Beauté, Pedro Reis seria o Primeiro-Ministro ideal. Talvez porque use aquele ridículo terço ao peito, ou porque se faz ingénuo. Talvez ele queira comparar uma comédia de vaidades com o destino da terra onde vive; e usar nos dois casos o mesmo tipo de valores (o que não me admira nada).

Ou melhor (e ainda mais difícil), talvez consiga ser mais obtuso que aquela gentinha que vive em função de um programa feito por ociosos pagos a peso de ouro.

Pedro Homem de Melo tinha razão, quando afirmava que o povo diz sempre a verdade por mais estranhos que sejam os seus modos. Pois a Dona Odete ajeitou as cangalhas em cima do nariz e disse-me em tom de consolação – Deixe lá. Esses gajos que escrevem isso, é tudo uma paneleiragem …

Abençoada seja a Dona Odete. Porque é a voz e a alma do povo português.

Música de Fundo
Mongoloid” – Devo

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Ilha Por Um Dia

Como um sopro morno na geada dos vidros, a manhã abriu uma clareira no Inverno. E nasceu um daqueles dias impossíveis, em que o céu se limpa e a temperatura sobe quase ao nível da Primavera; aquilo a que eu costumo chamar a “Ilha no Inverno”.

Uma daquelas manhãs prodigiosas em que apetece largar tudo, e rumar à beira-mar para passear no paredão ou ficar apenas a olhar o oceano.

Com o tempo escasso e medido em minutos; em vez disso saí do barbeiro e fui até ao miradouro do castelo. Era o que poderia encontrar mais perto, parecido com um verdadeiro horizonte; porque é horizonte o que nos falta quando estamos na cidade.

Tal como alguém já me disse, Lisboa só é verdadeiramente bela quando vista de fora. E não há melhor lugar para isso que o Castelo de Almada.

Em baixo no rio, um navio cortava as águas como uma tesoura pelo meio de seda, deixando atrás de si uma ferida que se fechava lentamente; como acontece sempre que algo perturba o azul do rio.

Para lá dele, a maioria das minhas memórias espalham-se pelos telhados daquela cidade, escondendo-se nos beirais avermelhados como pombos friorentos; um cenário quase imutável que me dá sempre uma ilusão de eternidade.

Inspirei demoradamente o ar fresco que vinha do rio, e saí dali perfeitamente em paz.

Há que aproveitar todos os bons momentos, ainda que seja apenas… ilha por um dia.

Música de Fundo
Mary” – Scissor Sisters

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

14h 20m – Status Report
Ou estou armado em hiper-sensível ou houve mesmo um tremor de terra.

Tive a mais estranha sensação em mais de vinte anos agora mesmo. O couro cabeludo arrepiou-se-me (a parte “cabeluda” que é pequena, claro); e um estremecimento percorreu todo o edifício, fazendo abanar a secretária (que é enorme) e ranger o vidro que cobre o aquário.

Os peixes (comprei há tempos, quatro, vermelhos) escondem-se a um canto como se estivessem à espera de mais chatices. Eu não estou; pois sou um optimista incorrigível.

De qualquer modo, se não fosse o estremeção que o prédio levou, talvez nem escrevesse nada hoje. É segunda-feira, e existe uma conspiração mundial que se dedica a estragar o dia a toda a gente.

Comprovei-o plenamente no autocarro hoje de manhã. Uma tipa com pinta de relaxada, passou toda a viagem a embirrar com o filho, proferindo “merda” em cada duas frases; acabando por lhe dar dois estalos perfeitamente dispensáveis (aliás, dispensou-lhos de boa vontade).

Talvez esteja realmente para acontecer o terramoto mas não me parece. Resta apenas tentar não me contaminar com o espírito de segunda-feira e voltar aos papéis, até que algo de bom aconteça.

Música de Fundo
Alright Now” – Free

domingo, 12 de dezembro de 2004

Conto de Natal
- Com a colaboração do meu sobrinho Rodrigo –

É nos dias anteriores ao Natal, que é tradição os miúdos fazerem a sua ronda de relações públicas pelas casas de parentes e amigos, para que na altura devida não venham a ser esquecidos.

Foi nesse âmbito que dois dos meus sobrinhos (13 e 5 anos) aproveitaram ter ido a Lisboa ao circo com os pais, e de regresso vieram visitar o seu velho tio.

O mais velho não faz ondas, logo de início atracou-se à PS2 juntamente com o meu filho, e ficaram calmamente a estoirar extra-terrestres durante todo o tempo que durou a visita.

O mais novo é um pouco diferente. De personalidade inquieta, faz até o pino só para captar as atenções; e se tal não acontecer, pode até tentar escalar a árvore de natal como já fez no ano passado.

- Tens bombons? – Perguntou-me, franzindo os olhinhos azuis

- Tenho – respondi aliviado por um pedido tão razoável – daqueles que são conchinhas e búzios. Gostas?

- Isso não presta. É para meninas. – Afirmou ele, que ainda está na idade do desprezo pelos gostos femininos – Quero os outros, os que têm recheio.

- Desculpa lá, pá; mas esses não podem ser. Dão-te uma “pedra” enorme, e depois andas por aí aos pinotes. – Justifiquei eu, com base em experiências anteriores com os bombons de ginja.

- Então não vou respirar, e vou morrer aqui se não me deres. Quero esses e quero esses e quero esses. – Declarou o diabólico anjinho louro entrando de imediato em apneia controlada.

Eu sei que ele não morre. Mas da última vez que tentou essa proeza, acabou por ter um ataque de tosse e vomitou o tapete todo; pelo que só para não ter mais chatices acabei por ceder. – Ok. Mas só um.

- Cinco! – Disse ele interrompendo a “performance” para negociar (pragmático a esse ponto, só mesmo sendo meu sobrinho).

- Então tens que contar uma história. – Propus, para ver se o demovia – E tem que ser uma história boa. De Natal.

- Está bem. – Concordou o infante, esticando o braço em direcção à caixa dos bombons – Pode ser a do Menino Jesus?

- Pode. Mas tem que ser boa, senão acaba-se a festa e vais lanchar cereais como os outros. – Ameacei calmamente. Pois o diabinho é especialista em fazer batota.

- Aqui vai – Disse, começando a mastigar o primeiro – Os pais do Menino Jesus estavam de férias e não encontravam casa para ficar.

- S. José não estava de férias – Contrapus eu – Era carpinteiro e trabalhava por conta própria.

- Cala-te! A história é minha e eu é que sei – Ordenou ele continuando a mastigar – Estavam de férias em Lisboa e não encontravam casa. A mãe dele tinha uma barriga grande, porque ele não queria sair sem estar em casa, e tinham que encontrar casa depressa porque ele era pesado.

- Então andaram muito, mas ninguém queria saber deles. Porque se via gente a dormir no chão e também ninguém ligava, porque eram todos muito pobres. Passaram pelo Rossio e continuaram a andar. As luzes eram bonitas e tinham anjinhos e tudo, mas as lojas estavam todas fechadas porque há muitos assaltos à noite.

- Havia muitos assaltos na Galileia? – Perguntei eu a gozar. – Deviam ser os romanos. Eram todos uns malandros.

- Não! – Corrigiu ele convicto – Os romanos eram polícias e andavam atrás do Asterix. Os ladrões eram de Chelas e dali perto. Por isso a Virgem Maria tapou-se bem com uns panos e continuaram depressa, senão roubavam-lhes o burro.

- Andaram muito e muito, e chegaram a um sítio ao pé do aeroporto cheio de casas velhas de pobrezinhos. O burro estava cansado porque a mãe do Jesus era pesada pois tinha ele lá dentro; e ele só saía quando chegassem. Por isso ficaram numa casa velha ao pé do circo Cardinali.

A coisa prometia. Pelo que decidi manter-me calado, e ir apenas controlando o fluxo de bombons para evitar que ele apanhasse uma overdose.

- Dá-me mais um. E então fizeram uma fogueira num bidon à porta, e o pai dele foi roubar palha para fazer uma cama. E ele então saiu da mãe e deitou-se na cama para dormir porque também estava cansado. E ficaram ali.

- Os reis magos andavam ás compras no Colombo, quando viram o avião com as luzes a piscar e disseram uns para os outros. Este avião vai levar-nos ao Deus Menino. Mas o avião não parava ali, e tiveram que se montar nos camelos e correr atrás dele porque ia muito depressa.

Aqui, comecei a rir-me. Porque já estava a ver os reis magos a galope nos camelos pela 2ª Circular. Mas ele olhou-me com um ar escandalizado, continuando a sua narrativa enquanto soltava perdigotos acastanhados para cima do sofá.

- Quando chegaram ao sítio, o avião parou por cima da barraca para mostrar onde era, e depois aterrou. Porque era de noite e não podia ficar lá em cima. E então eles viram a casa e foram oferecer os presentes que tinham comprado.

- Que eram… – Comecei eu esperançado num retorno à normalidade

- Era um fio de ouro aceso e mitra. – Continuou ele convencido que era o que ensinavam na catequese – E o Jesus pôs o fio aceso e mitra e ficou deitado com a pila no ar, porque queria fazer chichi; mas não podia porque tinham visitas.

- E estava… e dá-me mais um bombom. E estava muito frio, por isso vieram os leões do circo para aquecer o menino; mas comeram um rei mago (não disse qual) e veio o anjo que era o domador e bateu-lhes com um chicote e levou-os outra vez. Mas deu bilhetes ao menino para não ficar triste. E foram todos ao circo.

- O Menino gostou muito dos palhaços que atiravam água uns aos outros, e da senhora despida que andava lá em cima no baloiço. E a Virgem Maria comprou-lhe pipocas e uma corneta que se sopra e desenrola. E viveram muito felizes.

- Então acaba assim? – Perguntei um pouco desiludido – Acho que a história do Menino Jesus acabava de modo diferente…

- Não! – Respondeu ele, enquanto tentava lembrar-se de mais alguma coisa – Quando chegaram a casa, tinham-lhes roubado o burro.

E dizendo isto, abocanhou o último bombom e correu para a casa de banho, enquanto chamava pela minha cunhada – Mããããe… quero fazer chichi…

Música de Fundo
Ask The Angels” – Patti Smith

sábado, 11 de dezembro de 2004

A Ceia dos Canibais

Quando chegámos ao Café do Santos, já o Manel da Lisnave e o “Animador Cultural” se encontravam sentados a uma das mesas, em aprofundada pesquisa pela secção de necrologia do Correio da Manhã.

Depois de chegarem à triste conclusão de que não tinha morrido nenhum político famoso, passaram a comentar o aspecto saudável da Marisa Cruz que nesse momento apresentava o sorteio Euromilhões.

E a conversa esmoreceu um pouco a partir daí, principalmente porque o “assunto” era mais visual que passível de discussão filosófica.

Só quem é cliente do café do Santos compreende verdadeiramente a natureza dolorosa do silêncio. Não porque o mesmo arranhe ou dê estalos, mas devido ao hábito que o proprietário tem, de iniciar as conversas mais estapafúrdias apenas para passar o tempo.

Hoje não foi excepção. Mal nos apanhou um momento calados, apareceu a limpar as mãos ao avental, e assentou as baterias no Apóstolo que como nós sabemos tem pelo Primeiro-ministro uma fixação tão forte como pelo Sporting.

- Então? Parece que afinal o Santana sempre vai à vida…

O Apóstolo aguentou estoicamente a provocação, fixando a vista no decote da Marisa Cruz e fazendo ouvidos de mercador.

- E logo o único sportinguista de quem em gosto… – Continuou o tipo, que é fanático do Benfica – Esse até era eu capaz de convidar para almoçar aqui.

Notando que a tez do Apóstolo começava a atingir a coloração de uma beterraba bem cozida, e temendo pelo seu estado cardiovascular, o Manel decidiu intervir – É pá, ó Santos. Se você o trouxer para o almoço até eu venho; desde que seja no forno, pois o tipo até nem tem muita carne.

A oscilar precáriamente encostado ao balcão, o “Comandante Dudu” balbuciou algo sobre uma vez em Moçâmedes terem comido um impedido, por estarem cercados há duas semanas pela Frelimo. Mas ninguém lhe deu corda, pois o tipo é uma matraca quando se põe a falar do Ultramar a meio das bebedeiras monumentais que apanha.

O “Animador Cultural” que também é apreciador da boa mesa ainda acrescentou – Ao menos podia escolher alguma coisita de jeito, com um pouco mais de carne. Sei lá… o Mário Soares.

- Isso só de chanfana – Disse o Apóstolo abandonando o seu mutismo – E mesmo assim tinha que ser empurrado com um tinto bem forte, pois deve ser uma peça muito amarga. O melhor talvez fosse assá-lo no forno com aquela receita do limão…

- Essa do limão é boa – disse o Santos – mas este podia-se substituir pela Ferreira Leite que é azeda à brava, e sempre se evitava sujar outro tabuleiro.

- Bem então não vamos estar aqui com coisas – respondeu o “Animador Cultural” – se é para almoçar como deve ser, comia-se antes a Marisa Cruz.

O Santos olhou para mim, possivelmente à espera que eu me pronunciasse sobre o caso. Mas como não obtinha resposta piscou o olho à assistência, e continuou a fitar-me insistentemente.

- Que é? – Perguntei agastado – Está à espera que eu diga alguma coisa?

- Não me diga que não comia a Marisa Cruz? – Perguntou o tipo, desafiador – Você que está sempre aí caladinho, e depois vai para casa escrever coisas sobre nós. Diga lá que não comia a Marisa Cruz.

Acendi uma cigarrilha pensativamente. Não ia pôr-me ali a dissertar sobre a analogia entre a comida e o sexo, nem a alinhar naquele festim canibalesco, mesmo que virtual.

- Sabe o que os Suecos usam para acompanhar as aves peitudas? – Perguntei ao jeito de introdução.

Avisado por um sexto-sentido apenas possuído pelos proprietários de cafés, o Santos olhou-me suspeitosamente e mandou imediatamente as filhas para a cozinha, com a desculpa de irem ajudar a mãe a limpar a louça.

- Geleia de framboesa – Continuei com ar sonhador – Espalha-se pelo peito da ave, começando por saborear um pouco com pequenas dentadas. Pode lamber-se um pouco para tirar o excesso, enquanto se aperta ligeiramente para a pele revelar os pedaços escondidos. É claro que neste caso não se come tudo de uma vez. Este tipo de aves deve-se fazer render…

Subitamente a mulher do Santos veio da cozinha com as filhas à arreata, e destramente utilizou o comando para sintonizar a SporTV enquanto nos lançava um olhar assassino.

Acabei de beber o descafeinado e interpelei o Apóstolo – Vamos embora Zé António. Estes senhores querem ir-se deitar.

Já não há conversas de café como antigamente…

Música de Fundo
Tainted Love” – Marilyn Manson

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

Alô… Avarias?
- Crises laborais -

Descobri hoje de manhã que tenho o pacientómetro avariado. Quando olhei há pouco o mostrador, o meu nível de tolerância tinha descido de 4 Mp (MegaPatrões) para uns míseros 5Kc (KiloClientes); na verdade tem sido um dia terrível.

A última vez que tive que processar mentalmente tantos números, foi há já uns anos, quando tivemos uma auditoria das finanças. Felizmente conseguimos resolver o caso cerca de dois dias depois, com um presunto de Lamego e uma garrafa de Martell V.S.O.P.

Só que hoje não há mesmo hipótese, pois trata-se do fluxo periódico e característico da quadra. Mas felizmente encontrei algo em que posso descansar a vista para acalmar o stress; trata-se de uma paisagem campestre.

Hoje pela manhã e no âmbito das ofertas natalícias por parte de fornecedores (abençoadas sejam as suas negras e corruptas alminhas…), recebi uma aguarela que representa um grupo de camponesas do Rego, ou Riachos. Francamente não sei, porque está escrito por detrás.

Mas acho que devem ser do Rego. Pelo menos estão inclinadas para a frente, deixando apenas ver um monte de traseiros em forma de coração; o que no meu entender é uma visão deveras repousante. Direi mesmo, o ideal para aliviar o stress da vida moderna.

Não preciso de fazer um grande esforço imaginativo, para as ouvir cantar enquanto ceifam, ou mondam, ou sei lá…. enquanto abanam o… bem. Isso agora não interessa aqui para nada.

O facto é que com tudo isto, o meu pacientómetro parece que já regista níveis perto do normal; o que me permitirá talvez chegar ao fim da tarde sem ter que me chatear com ninguém.

Mas acho que vou levar a aguarela para casa e pendurá-la no escritório. Não há dúvida que é mesmo repousante…

Música de Fundo
California Girls” – David Lee Roth

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

Clepsidra
- Marcos históricos no percurso do tempo –

Quem me conhece, sabe que nem sou um tipo muito culto; mas disfarço tão bem que talvez um dia venha a ser citado nos livros da especialidade (os que falam dos tipos que fingem ser cultos).

E é nesse contexto que vos venho falar de um tema clássico. Não só porque tudo o que é clássico beneficia a vossa cultura; mas também porque esta história identifica talvez, um ponto onde o tempo parou por momentos para dar início à Idade Moderna.

Estava-se na época AC. O que quer dizer que ainda Jesus Cristo não tinha nascido; e consequentemente não havia pares de testemunhas de Jeová a tocar à campainha, para nos estragar os domingos e feriados.

Roma dominava o mundo conhecido; e o seu poderio só seria comparável mais tarde com o dos Estados Unidos.

Tinham ambos em comum o facto de comerem o frango à mão e falar com a boca cheia. Tendo começado com a melhor das intenções, acabando por roubar toda a gente com a desculpa de andar a manter a paz (como vêem, nem sequer é uma desculpa muito original).

Mas adiante, que eu não vim para aqui perder tempo com americanos.

Clepsidra era uma prostituta. Não daquelas que andam por aí a abanar a mala ao pé do IST, mas uma verdadeira hetaira; uma profissional que pagava impostos, com sede própria e certificada pelo IRQ (Instituto Romano para a Qualidade) para servir os três pratos, bem como todas as entradas possíveis.

Á porta do seu estabelecimento eram exibidos todos os certificados, bem como as sacramentais placas do Rotary’s e do Lion’s Club (aceitamos Visa). O que demonstrava sobejamente o gabarito e qualidade do atendimento ali proporcionado.

Porém, havia algo que impedia o negócio de desabrochar e dar os merecidos frutos; Não existia ainda um modo de rentabilizar o tempo e normalizar o tipo de serviço. Esta limitação colocava o domínio da prestação do lado do cliente, que desde que fosse dos duros ou estivesse razoavelmente bebido, poderia estar por ali o tempo que quisesse desde que se fosse contendo.

Admitamos que por cinco sestércios (ou “un duro” como diziam os Hispânicos) valia bem a pena.

Certa vez por altura das calendas, tinham chegado do Egipto as tropas de Pompílio “o porco” (como afectuosamente lhe chamavam as legiões de admiradores) e o porto estava cheio de trirremes e galeras carregadas de despojos. Para Clepsidra e as suas “meninas” era um pouco como a época dos saldos, e não tinham mãos (e os consequentes complementos) a medir.

Segundo os oráculos, previa-se um acréscimo nas vendas de permanganato de potássio e de Tantum Verde.

Por volta da segunda noite o estabelecimento estava à cunha com legionários e amanuenses endinheirados, e Clepsidra estava de serviço ás toalhas e à gaveta do dinheiro devido a uma momentânea crise de herpes; quando uma das raparigas se veio queixar.

Caius Glaucus um dos decuriões estava sem cheta porque tinha perdido tudo aos dados, e tinha solicitado a abertura de uma linha de crédito. Ora como se sabe no negócio de bens perecíveis e serviços, dar fiado é muito mau negócio pois não há nada para recuperar em caso de incumprimento.

Clepsidra suspirou. Ia ser complicado, pois o eunuco que fazia a segurança estava com baixa e tinha ido a uma consulta de urologia; e como estava retirada do “circuito” cabia-lhe a ela o papel de mediadora neste tipo de situações.

Ao entrar no “cubiculum”, constatou que talvez não fosse assim tão difícil resolver o problema.

Caius Glaucus além de estar já um bocado entaramelado devido a algumas doses de vinho de Samos (feito de figos doces), carregava consigo um saco com despojos de guerra que tinham escapado à voracidade do jogo, e que ainda não tinha conseguido converter em numerário.

Convidada a escolher o que lhe aprouvesse para pagamento dos serviços, recusou a máscara funerária de Amenófis II (que era parecida com Ferro Rodrigues) e mais algumas tralhas sem valor, até que o seu olhar treinado para formas invulgares pousou sobre um artefacto deveras estranho.

O decurião não lhe conseguiu explicar bem do que se tratava, aliás porque para ingressar na legião bastava saber contar pelos dedos e declamar “rosa, rosae, etc”; mas lá conseguiu transmitir a ideia base de que servia para medir o tempo. Pelo que não lhe achava utilidade alguma, pois segundo a propaganda oficial o Império iria durar até ao fim dos tempos.

Com um apurado faro comercial (ou não fosse ela uma prostituta), Clepsidra escolheu algumas pulseiras de lápis-lazúli e deitou a mão ao aparelho com toda a calma, dizendo que embora este fosse inútil ficaria bem na sua câmara, pois ligava com as cortinas e os bibelots.

Embora não viesse com manual de utilização, o aparelho tinha um funcionamento bastante elementar.

Bastava encher o reservatório superior com a quantidade de líquido necessária para a meia horita da praxe, e esperar que este se escoasse enquanto comia tremoços e contava as tábuas do tecto, ou reflectia sobre a cor da próxima túnica que iria comprar; enquanto o cliente fazia pela vida como se não houvesse amanhã.

E não havia mesmo, pois a partir desse momento o tempo passava a estar contado. Dando origem também a alguns problemas dos tempos modernos, como a pressa, o stress e a ejaculação precoce…

Devido ao seu novo sistema o negócio floresceu, e todas as patroas de casas de passe adoptaram a “clepsidra” (nome pelo qual ficou a ser conhecido o relógio de água, em honra da primeira mulher que lhe deu alguma utilidade) nos seus estabelecimentos.

Outros tipos de casas de prostituição como fábricas e escritórios, adoptaram igualmente o sistema refinando-o ao ponto de incluir um mecanismo de registo, mais tarde conhecido como “relógio de ponto”; mas isso já é outra história, e hoje já não posso escrever mais.

Desculpem lá, mas acabou-se a meia horita…

Agradecimento – Este post não seria possível sem a prestimosa colaboração dos especialistas em cultura clássica de que a nossa Igreja (A do Imaculado Blog) tanto se orgulha. A todos eles(as), um grande bem-haja.

Música de Fundo
I Want Your Love” – Transvision Vamp

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Dia de Santa Rosa (A da Língua Venenosa)
- Feriados religiosos da religião de Blog –

Finalmente chegou o meu feriado favorito desde que abracei a Fé de Blog. O dia da Sagrada Maledicência.

Há muito tempo que não via um “verdadeiro macho” a portar-se como uma ajudante de cabeleireira; mas chegou finalmente o dia. A Zezé Camarinha hoje na TVI só faltou a voz aflautada, porque as insinuações e acusações que endereçou a Cinha Jardim (outra verdadeira peça de joalharia) foram dignas do “Salão Suzette”.

Caso se encontrassem frente a frente, acho que se arranhariam mutuamente e iriam arrancar muito cabelo; o que seria péssimo para os implantes do predador algarvio.

Mais circunspecto foi Mister Gay que estava sentado à mesma mesa; e apesar de não ser propriamente um Séneca, lá consegui fazer melhor figura. É claro que mal começou a cantar estragou logo tudo; e eu mudei de canal para o National Geographic, onde dois orangotangos se catavam mutuamente. Sempre era mais digno.

Enquanto fazia tempo para o almoço dei uma olhada ao jornal, e em boa hora o fiz; pois conscientes do nosso feriado religioso, tinham-nos preparado várias iguarias.

Para entrada o aniversário de Mário Soares até nem estava mal. Mas como estou a dieta não como entradas; e o homem apesar de ser culpado de imensas coisas, não incorre em pena alguma por fazer anos. Finalmente encontrei algo de que está inocente…

E fiquei muito contente, pois não perdeu qualidades com a idade. Continua a dizer as mesmas enormidades que antes (também, seria difícil piorar…).

O mesmo já não posso dizer de Stevie Wonder (os que me conhecem pessoalmente, ainda se devem lembrar da minha célebre imitação de Stevie Wonder), que cascou em EMINEM só porque este disse mal de outro preto; Michael Jackson.

E vou esclarecer já. Apresento o caso nestes termos, porque foi exactamente o que ele (Stevie) fez.

Normalmente não ando a chatear toda a gente dizendo a despropósito que sou branco. Na realidade sou até um pouco escuro em certos locais, mas não reclamo herança alguma ao abrigo desse escurecimento.

Para quem não sabe, EMINEM lançou um videoclip “Just Lose It” em que troça de Michael Jackson, mimando alguns episódios deveras publicitados como é o caso do incêndio capilar, a perda do nariz e a sua predilecção por companhias infantis.

Nada demais. Alguém se lembra de ir chatear o Herman, por ter proposto para uma medalha de bravura o tipo que engravidou Simara?

Mas não. Sua alteza o rei dos sorridentes (Stevie), em vez de dizer que o outro é um puto mal-educado (o que é mesmo, apesar de genial) saiu-se com algumas pérolas retóricas; entre as quais o ser de mau gosto insinuar que “Jacko” ser interessava por crianças, e que EMINEM se devia lembrar ser a sua fama maioritariamente devida ao público negro.

Há que dizê-lo com frontalidade (parafraseando o tipo do laço ridículo). Tinha que ser cego para dar ainda pior fama aos pretos.

E agora antes que me veja obrigado a apagar centenas de mails irados, enviados por leitores de almas mais sensíveis ás conveniências e ao politicamente correcto, passo a informar o seguinte.

Não sou racista. Uma das minhas fantasias preferidas até envolve duas gémeas japonesas.

Julgo as pessoas (sim, julgo. Não me vou agora armar aqui em santinho.) pelos seus actos, e não pelas suas palavras, cor de pele ou filiação seja em que tipo de clubzeco for.

Escolho (sim, eu escolho) os meus amigos, pela afinidade que tenham comigo em relação à sua maneira de encarar o mundo; e um deles (sim, apenas um; foi o único que provou sê-lo. Isto não é uma campanha da UNICEF) é preto.

Felizmente não é estúpido como o Stevie Wonder; ou tê-lo-ia rifado como faço a todos os amigos que juram sê-lo mas acabam por provar o contrário.

Ah, lá estou eu a desviar-me novamente do assunto; pois isto era o nosso feriado religioso - Dia de Santa Rosa (A da Língua Venenosa). Mas também não me apetece dizer mais nada, excepto dar-vos uma boa notícia.

Aquele tipo que usa a barba meio crescida porque pensa que tem cara de menina, e do qual nunca me lembro o nome, aprendeu uma nova palavra – Surrealista – Só espero que saiba o que na verdade significa…

Música de Fundo
Happy Pills" – Blunder

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Comunicado

A administração (interina) deste Blog, vem pela presente informar que devido ao acréscimo de actividade nos outros sectores da vida (nomeadamente a profissional) do escrevinhador, não lhe será possível escrever nada de jeito hoje (e talvez amanhã) neste espaço pretensamente literário.

Pedindo pois desculpas a todos os comentadores, leitores, “lurkers” e “trolls”; informamos ainda que o desgraçado além de uma falta de inspiração digna de um Paulo Portas, está enterrado em papelada até à tatuagem que diz “Armada” (não é aí onde estão a pensar, e sim mais acima).

Para completar o ramalhete, já lhe andam a acenar com a lista de presentes da empresa; coisa que o irá transformar por alguns dias num gnomo enraivecido, com o sentido de humor de um Bagão Félix.

Para agravar a situação, esta administração também não ficou incólume à vaga de estranheza que alastra pelo blog adentro, como se o natal fosse uma espécie de infecção que a pouco e pouco está a dar cabo de toda a nossa organização e estruturas de base. Pois como devem ter reparado, todas as comparações apresentadas são de índole política.

O que denota uma confrangedora falta de imaginação.

E é devido a esta falta de imaginação (derivada principalmente do excesso de trabalho) que hoje nos despedimos com um conto tradicional de natal.

A Lenda do Anjinho Anselmo

Era uma vez um anjinho sorridente chamado Anselmo. Fora baptizado Anselmo por insistência do padrinho, e estava sempre sorridente porque era um anjinho. Na verdade era um pouco bronco; mas como a maioria das pessoas confunde bondade com estupidez, não havia problema…

Como não era suficientemente expedito para controlador de voo celeste, fora destacado para a Lapónia, pois ali enquanto colaborava com o Pai Natal, não atrapalhava nem provocava desastres no céu.

Mas nesse ano as coisas estavam muito complicadas no sector de distribuição. Apesar da crise o volume das encomendas tinha aumentado, e não havia gente suficiente para processar todas aquelas prendas.

Até o Pai Natal fora obrigado a ir para o armazém dar ao cabedal, o que fazia de muito má vontade e praguejando como um camionista. (Dos que praguejam, claro. Porque eu sei que anda aí um que é blogger e nunca o faz; sendo um rapaz temente a Deus).

Estava-se então a meio da tarde do dia 24 de Dezembro, e ainda faltava carregar cerca de seis semi-reboques de 18 rodas.

O simpático velhinho estava em brasa. E ainda por cima o anjinho Anselmo não ajudava nada, passando o tempo a fazer perguntas idiotas, e a atrapalhar os diligentes gnomos com as suas bem intencionadas tentativas para colaborar na distribuição das prendas.

Por volta das seis da tarde o Pai Natal estava desesperado, pois além de não conseguir ver o fim de toda aquela azáfama; já tinham entrado no regime de horas extraordinárias, e aquela quadra ia-lhe ficar por um balúrdio.

Ainda por cima já era a terceira vez que tropeçava no anjinho; não contando com o facto deste em vez de ler os rótulos das caixas, passar o tempo a perguntar onde haveria de as colocar. Em suma, um completo emplastro.

Até que a coisa deu para o torto, pois o velho S. Nicolau estava farto de ir à cervejaria ao lado molhar o bico.

Regressava mais uma vez, quando tropeçou numa árvore de natal que o anjinho arrastava diligentemente, e este sem se dignar a ler a etiqueta presa ao tronco, interrogou mais uma vez o saturado velhote – Pai Natal! Pai Natal! Onde quer que meta este pinheirinho?...

Como qualquer um de nós faria dadas as circunstâncias, o venerável ancião virou-se para ele e respondeu agastado – Olha, anjinho… Mete-a no cu!...

É por isso que a maioria das árvores de natal tem agora um anjinho no topo. E se repararem bem na foto acima deste texto, poderão ver o anjinho Anselmo confortavelmente sentado no meu pinheiro de natal.

Música de Fundo
Jump” – Van Halen


domingo, 5 de dezembro de 2004

A Árvore de Natal
- Sessões privadas de bricolage -

Nunca fui muito bom em decorações minuciosas. O meu gosto (ou a sua falta) tem como base a disposição assimétrica de objectos, formando sistemas caóticos em que a vista salte de um para o outro talvez incomodada pelo anterior.

Em suma, é um pouco oriental.

Ora a árvore de natal, além da sua herança nórdica (dizem que nasceu de uma mija que Odin fez ao acaso no meio da tundra) tem uma componente que interfere com a minha noção de arrumação. Parece uma loja dos 300.

Como podem ver pela foto acima, e embora os pormenores não sejam perceptíveis para um olhar não treinado, a árvore é de plástico. Mais concretamente de fitas em polipropileno presas a uma armação tipo guarda-chuva, que com o tempo vai perdendo pêlo como se fosse uma espécie de gato idoso e verde.

Ainda me lembro dos natais de antigamente, em que tudo era muito menos complicado e não tínhamos que salvar a floresta. Dava-se um passeio discreto pela mata durante o dia (podia-se até aproveitar para acumular com outras actividades ao ar livre) a assobiar descontraidamente, marcava-se um local com um bom pinheiro e pronto.

Pela calada da noite, era só regressar ao mesmo local munido de um bom serrote. Tínhamos então uma maravilhosa, ecológica, verdadeira e pegajosa árvore de natal. Que em vez de pedaços de material sintético, espalhava caruma e gotejava resina para cima das prendas. E era mais divertido.

Recapitulando. Peguei então no referido artefacto, e desempacotei todas as tralhas natalícias que se encontravam no fundo do armário. É incrível a quantidade de bugigangas que se consegue acumular em meia dúzia de anos.

Coloquei na aparelhagem um CD de Natal para me inspirar, mas aparentemente era preciso mais que isso, pois algumas das lâmpadas estavam fundidas e desarrumei metade do escritório à procura de algumas sobresselentes que tinha guardado. E estavam bem guardadas, pois fui encontrá-las meia hora depois, entre as disquetes de jogos dos anos noventa que já não uso.

A partir daí foi estender fitas coloridas, e colocar bonecos e bolas ao acaso enquanto pensava noutra coisa qualquer. Isso fez com que me concentrasse apenas num dos lados da “árvore”, o que lhe provocou uma inclinação perigosa para a frente, como se estivesse a soçobrar sob uma carga de neve.

Tive que recomeçar, mas na verdade aquilo não tem método nenhum. E o resultado ficou a parecer-se um pouco com uma montanha verde salpicada de branco, pejada de minas terrestres multicoloridas, em que minúsculos alpinistas tentam atingir o cume alvejados por rockets luminosos.

Uma espécie de Apocalipse Now natalício.

Espero que com a adição dos presentes a coisa melhore. Mas ficou tudo tão amalgamado, que por via das dúvidas vou colocar um extintor por perto. Pelo menos é vermelho, e sempre posso disfarçá-lo de Pai Natal.

Música de Fundo
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!” – Bing Crosby

sábado, 4 de dezembro de 2004

A Maldição do Doutor Fu Manchu
- Um inquietante odor de mistério… -

Hoje tinha sido um dia mediano, mesmo nada demais.

Depois de um almoço de negócios (eu e meu amo temos o hábito de fechar negócios a meio do arroz de pato) desloquei-me a uma das nossas obras, onde me demorei algum tempo a admirar um dos trabalhos de Marcel Duchamp que lá se encontrava em exposição.

Mal o canalizador reparou a rotura no urinol e demos o trabalho como concluído, aproveitei para começar o fim-de-semana um pouco mais cedo e rumei a casa.

Assim que entrei fiz uma auditoria aos TPC do meu filho e fui mimar o computador, que finalmente se encontra restabelecido da sua recente enfermidade. Finalmente um véu de beatífica paz desceu sobre o meu espírito, e senti-me então preparado para gozar os dois dias de merecido descanso que se aproximam.

Mas algo não estava certo.

Pairava no ar um misterioso odor, como se tivesse entrado numa estação de serviço; ou tivesse um poço de petróleo nas traseiras do meu prédio. Após um inquérito preliminar, não cheguei a quaisquer dados conclusivos pois ninguém fazia ideia do que se tratava.

Ao jantar o incómodo odor acompanhou todo o repasto. A ponto de a dourada grelhada me saber a tainha do Tejo, e os brócolos se começarem a parecer com pequenos enfeites natalícios feitos em plástico; mesmo o pão comprado minutos antes tinha o sabor de um tupperware muito antigo, que tivesse sido achado numa pirâmide egípcia.

Tinha que tirar o caso a limpo. Mas como estava atrasado para o meu encontro semanal com o Apóstolo e os “cromos da bola” no Café do Santos, arquivei o problema a um canto no meu espírito e só voltei a pensar nele quando regressei a casa.

Aliás, era impossível ignorá-lo.

Ainda não tirara o casaco, e já me sentia como se morasse dentro da refinaria de Sines ou numa fábrica de papel. Perdi realmente as estribeiras.

Quem me conhece sabe que a única diferença entre mim e Job, é que eu sou mais alto alguns centímetros. Porque a minha paciência é gabada, e conhecida mesmo em locais longínquos como Pequim ou a Baixa da Banheira. Mas o caso ultrapassava tudo o que é suportável.

Desta vez ajuramentei o miúdo como meu ajudante, e pus-me em campo usando o meu faro; mas este por alguma razão estava a falhar-me. Pois cada vez que o odor parecia estar mais próximo, eu olhava em redor tentando localizar a sua origem, e só me deparava com os objectos habituais totalmente insuspeitos.

Após entrar na despensa pela terceira vez decidi desistir, e virei-me para o miúdo a fim de o libertar das suas obrigações judiciais; pois já há dez minutos que me moía o juízo para o deixar ir ver o Canal Panda.

Foi quando me virei para trás e fiquei a cerca de dez centímetros dele, que o infernal odor atacou com mais intensidade; a ponto de quase me trazer lágrimas aos olhos. Agarrei o assustado Cybergon (é o “nick” dele) por um ombro, e farejei-o como um gourmet a um queijo de Castelo Branco.

Era ele a origem de todas as minhas inquietações.

Após uma detalhada análise, reparei que usava uns chinelos que nunca tinha visto lá em casa. Obriguei-o a descalçar-se, e pegando nos maléficos artefactos que libertavam os petrolíferos eflúvios; consegui ler por entre as lágrimas o dístico “Made in China”.

Num acesso de raiva (talvez induzida pelos inflamáveis vapores) peguei nos chinelos e arremessei-os pela janela com tal força, que foram cair no pátio da escola ao lado. E dando o assunto por encerrado, fui-me sentar frente ao PC para ler os mails do dia e actualizar o blog.

Mas não contava com a insidiosa perfídia cantonesa, que transformara aqueles chinelos na verdadeira encarnação do Mal.

Minutos depois, os cães que fazem guarda à escola começaram a uivar como se adivinhassem uma enorme desgraça. Uivos lancinantes de gelar o sangue, que fizeram toda a vizinhança assomar-se à janela e iniciar um coro de protestos.

Neste momento a minha rua parece um bazar. Os cães da escola uivam, os vizinhos protestam, e um carro-patrulha está estacionado frente ao Café do Santos para recolha de depoimentos.

Para me refugiar de toda aquela barafunda, fechei-me no escritório e estou a ouvir música pelos auscultadores; mas não sei a que horas poderei ir dormir. Ou mesmo se conseguirei dormir esta noite.

Ninguém me consegue tirar a ideia, que esta deve ser a verdadeira Maldição do Doutor Fu Manchu…

Música de Fundo
Fishing Junks At Sunset” – Jean Michel Jarre

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

Entristece-me

a noite
que ás vezes cai sobre ti

meu amor

quando a pele me arde
das tuas lágrimas

gotas
de concentrada dor

Entristece-me

que as mais belas flores
tenham que nascer de cinzas

regadas com lágrimas
nascidas da noite

que ás vezes cai sobre ti

Música de Fundo
Fogo e Noite” - Toranja


quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

A Tasca Dos Canalizadores (Especial)
- O Imenso Adeus –

Foi com espanto que hoje recebi um SMS do Emílio chamando-me à tasca com carácter de urgência.

Larguei os embrulhos das compras à toa na sala, e chamei um táxi que me levou ás nossas instalações onde reinava o maior rebuliço. Cheguei mesmo a tempo de ver à porta um Volkswagen amarelo e um tipo todo janota a levar sopapos do Pereirinha, que berrava a plenos pulmões – Não me levas a Branquinha, cabrão. Nem que te mate!

É claro que isso é péssimo para o negócio, e tive que os ir separar. O que consegui; apesar de ter que me desviar de dois “directos” e um “uppercut”, do choroso operário que inconsolável se debatia como um ministro a quem tivessem tirado o tapete.

Após acalmados os ânimos, fiquei a saber que o janota (agora um pouco amarrotado) era o representante do proprietário da bichinha que o mandara recolhê-la, devido a queixas da “Sociedade dos Amigos dos Animais”.

A bronca tinha estoirado, porque alguém pusera a circular na Internet um filme em que entravam a Branquinha e o Pereirinha. Fiquei estarrecido quando me contaram (sim, que eu nem vi).

E compreendi o dilema do proprietário do animal, pois embora Branquinha não pudesse ser processada judicialmente; o facto de estar a fazer “aquilo” com o Pereirinha iria marcá-la para sempre pois seria a primeira ovelha a ser acusada de bestialidade.

A Dona Odete ainda me tentou acalmar. Dizendo-me que tivesse cuidado, pois o colesterol poderia subir-me à cabeça e ter um ACP (juro que foi o que ela disse). Eu como não conduzo estava à vontade, mas lá acalmei e deixei o tipo levar o animal enquanto tentava animar um Pereirinha louco de dor.

Enquanto o automóvel se afastava, ela ficou a olhar para trás e a balir como o Ministro Paulinho pela queda do governo. Mas nós temos é que tratar dos nossos, e lá fomos comprar uma grade de Super Bock para enfrascar o inconsolável Romeu.

Não sei porque é que ela fez aquilo. Talvez pensasse que entraria na vida artística, ou talvez que ele a levaria quando acabasse a “saison”. O certo é que afinal é uma ovelha malvada, que destroçou o coração de um bom canalizador; que ainda por cima amanhã ia começar uma obra de responsabilidade, e assim vai estar com uma ressaca medonha.

Estas ovelhas são diabólicas…
Música de Fundo
Artists Only” – Talking Heads

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