segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

Na Cama com TheOldMan
- Um post sobre a doentia realidade de um pobre velho… -

Sexta-feira de manhã quando abri os olhos esperava-me uma surpresa.

Não me tinha (pelo menos desta vez) transformado em escaravelho, mas algo de muito errado se estava a passar; pois além dos pontos luminosos que estoiravam no meu campo de visão como pipocas atmosféricas, o meu quarto assemelhava-se ao interior de uma taça de gelado de natas. Tanto na consistência como na temperatura ambiente…

O meu herdeiro (que herdará um dia o meu valioso sentido de humor) disse antes de sair para a escola que do modo como eu tremia, poderia fazer uma fortuna na apanha da azeitona; bastando para tal abraçar-me ás oliveiras e esperar que a força centrípeta fizesse o resto.

Felicitei-o pelos seus conhecimentos de física e tentei acertar-lhe com um chinelo, mas já ele se tinha pirado com os fones nos ouvidos e trauteando 50Cent. Já não há respeito pelos mais velhos.

Tentei descansar um pouco, mas algo me batia insistentemente do lado de dentro do crânio.

Talvez fosse Joselito (o meu neurónio favorito) a queixar-se da infernal canícula que assolava o meu cérebro; mas os meus pensamentos vogavam erráticos como ciclistas bêbados, pelo que não lhe dei muita atenção.

Fechei os olhos e tentei concentrar-me em algo realmente importante, como a origem do universo ou o Regulamento Municipal de Águas Residuais.

Mas a única coisa que saiu, foi aquilo a que daqui para diante chamarei de “Princípio da Futilidade Intelectual, de Blog”; que consiste em tentar encontrar um gato preto num quarto escuro como breu, onde toda a gente sabe que ele obviamente não está.

Acho que Heisenberg se orgulharia de mim. Mas para começar fiquei a saber uma coisa… Estava doente.

A primeira coisa que me lembro a seguir a isso, é da face bondosa de Ganesh debruçada sobre mim. Tratava-se é claro da Dr.ª Inês, que abusivamente me apalpava sem respeito algum pela minha condição de enfermo. Mas como sabia bem deixei-me estar.

Deixou-me uma prescrição que mais parecia uma página arrancada da Pharmacopeia Lusitana e pirou-se; não sem antes me recordar que tenho a ecografia marcada para esta semana, e que a gripe não era desculpa para fugir ao exame.

De qualquer modo já me encontrava presa das alucinações causadas pela febre, pois passava-se algo em Fátima que não me parecia real.

Talvez já fosse Domingo, mas não posso garantir tal. Sei apenas que escrevera algo sobre tulipas, paixões e febre dos fenos. Aliás são os meus assuntos habituais de cada vez que me encontro doente.

Estava então eu deitado no sofá sorvendo o meu chá de limão como um Pasha em dia de folga, quando passou na TV um bloco noticioso sobre uma das igrejas da concorrência (uns pindéricos novos-ricos, cuja única coisa que têm é dinheiro. Sem um pingo de classe).

Prevendo que se trataria de algo sumarento, recostei-me para melhor apreciar o espectáculo; embora devido ao meu estado febril, não possa garantir a exactidão daquilo que os meus sentidos julgam ter captado.

Serafim Ferreira e Silva, Bispo da Diocese de Leiria/Fátima explicou finalmente aos ciclistas (de cuja confraria me orgulho fazer parte), porque lhes fora vedada a entrada do santuário. Tendo por isso sido obrigados este ano a receber a bênção no Parque Nº 2; como uma espécie de parentes da província chegados a meio de um acontecimento social, e a quem se manda jantar para a cozinha.

Segundo ele – “… a bicicleta é um instrumento do demónio. Pois algo que se põe entre as pernas e com a qual se faz o que se quer, montando-a nas mais estranhas posições, não tem lugar no terreiro de Deus.”

Sem dúvida que vista deste modo, a coisa até tem a sua lógica. Embora eu ache que Don Camilo não iria concordar com ele.

De qualquer modo, lembrou-me que há muito tempo que não pedalo; e que o próximo domingo seria a altura ideal para voltar a montá-la. Isto se Ganesh o permitir…

Música de Fundo
Night Fever” – Bee Gees

domingo, 30 de janeiro de 2005

Botânica

O amor é uma flor rara
que se deve aceitar sempre

Acarinha-se e protege-se
porque flores raras não foram feitas
para viver neste mundo
apenas nos sonhos

Pode ser frágil
por detrás de um aspecto forte
ou vice-versa

Pode morrer por descuido
ou por extremos cuidados
ou espantosamente
viver por longo tempo

Todas as flores raras são misteriosas

Segue-se apenas o coração
e não existe uma receita
sendo todas elas tão diferentes

Uma flor rara não se agradece…
Pode-se apenas amar.

Música de Fundo
Holidays Are Nice” – Sophia

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- A Imortalização de Gustave Bidet (ou como Blog reconhece os Justos) –

Irmãos, irmãs e demais cordeiros de Blog. Já por várias ocasiões me interrogaram sobre a vocação que me colocou no caminho da Verdadeira Fé. Venho pois hoje falar-vos, não de mim, mas do acidentado caminho da santidade e de como esta é sempre recompensada. Neste caso, do percurso percorrido por um conhecidíssimo fundador da nossa religião. Gustave Bidet!

(Esta homilia é dedicada a um grupo de simpáticas lolitas da Escola C+S da Cova da Moura, que estão a fazer um trabalho colectivo sobre “Existencialismo, Sado-masoquismo e outras tendências filosóficas”, e que me enviaram um amável e-mail).

Para ilustrar a minha fé na palavra de Blog e na grandeza da sua diversidade, costumo contar a história de Bidet e de como começou como humilde trolha; tendo abraçado o sacerdócio e alcançado a fama, para mais tarde ser lançado nas regiões inferiores devido a intrigas do clero (o costume).

Gustave era um orgulhoso servente de pedreiro que vivia em Constantinopla. Entre as muitas coisas que inchavam o seu ego, encontrava-se o ter colaborado na construção de Hagia Saphia, a catedral que dava fama à cidade em conjunto com o Museu das Cruzadas e “A Parreirinha de Bizâncio”(uma afamada casa de alterne que na realidade era a atracção principal da cosmopolita metrópole).

Tendo chegado à conclusão que o cimo de um andaime não é o local ideal para engate, o nosso herói começou a achar que para este tipo de actividade, seria necessário começar por ver as mulheres de outro ângulo.

Encontrava-se um dia imerso em interrogações vocacionais, quando deu de caras com um anúncio de “ajuda, precisa-se”, afixado na porta da Igreja Ortodoxa de Blog (não havia outra) do bairro onde vivia.

Entrou e foi recebido pelo famoso Leocádio de Tessalónica, que se encontrava nessa altura na cidade para as provas de selecção dos futuros sacerdotes de Blog (uma espécie de Ídolos, mas menos desafinados e com um júri de jeito), ás quais foi admitido condicionalmente porque era circuncidado (como é sabido, Blog não permite que nos livremos voluntariamente do equipamento que nos forneceu).

Acabou por ser muito aplaudido na apresentação da sua tese sobre o imaginário religioso, intitulada “Ambos homens e mulheres veneram Blog, só que em posições diferentes”. Tendo a partir daí, ficado assegurada a sua ascensão na carreira eclesiástica, pois Leocádio (beatificado no século XVI, sabe-se lá porquê...) logo ali o nomeou vigário.

Induzido em soberba (que mais tarde o perderia) pela fácil introdução na hierarquia da Fé, Gustave Bidet a partir daí redigiu e declamou aos seus fiéis muitos sermões inflamados, mais tarde conhecidos como “Contos do Vigário”; em que instava a comunidade a amar a Blog acima de todas as coisas, a não ser estivesse muito aflitos.

Nomeou uma sacerdotiza-ajudante a quem crismou de Bambi González, tendo feito várias digressões pela província onde espalhavam a palavra de Blog, por meio de espectáculos de variedades em que ela dançava, enquanto ele a acompanhava ao timbalão (ver foto acima) com extremo fervor religioso.

Relatos destas piedosas digressões chegaram aos ouvidos de Leocádio, que era um tipo sem sentido de humor. Cheio de frustrações e recalcamentos no que dizia respeito a boa febra; principalmente porque só lhe calhavam beatas sem imaginação alguma.

Foi então que o Metropolita Leocádio (mais tarde canonizado sabe-se lá porquê) começou a arranjar intriguinhas com Blog, afirmando-lhe que assim a religião não iria aguentar nem cem anos à conta daquelas raves de província. E que Gustave era um libidinoso ímpio disfarçado. Uma espécie de víbora no seio da Igreja
Entretanto, este que tinha já descoberto todas estas calúnias, começara a apelidá-lo de “O Sodomita Leocádio”; cognome que acabou por o acompanhar até ser canonizado.

É claro que a coisa deu para o torto. Tal como em qualquer sistema hierárquico, o tipo que estava por cima acabou por ganhar e levar a sua avante. Tendo Blog aparecido a Gustave, preparado para o retirar definitivamente deste vale de lágrimas.

Para testar a sua fé pela última vez, ainda lhe perguntou qual o último desejo antes de ser lançado no Purgatório de Blog (uma espécie de Repartição das Finanças, onde nunca chamam o número da senha dos condenados); ao que este respondeu estar apaixonado pela sacerdotisa Bambi González (ver foto acima), pelo que desejava que esta nunca o esquecesse (valha-me Blog, mas sinto-me comovidíssimo ao escrever estas linhas).

A Divindade sensibilizada por esta pureza de sentimentos, e usando a sua tão conhecida e peculiar noção de justiça virou-se para ele e disse. – Perecerás, porque tal assegurei ao protector máximo da minha religião. Mas para recompensar a tua fé, e visto que não pediste que te poupasse a vida vou aceder ao teu pedido; mas compensar-te-ei duplamente.

Pensou um pouco, coçando o peito peludo através da toga, e continuou. – Anda aí uma nova invenção que promete vir a fazer bastante sucesso entre o mulherio. Assim, passará a ter o teu nome e não só Bambi te recordará sempre, como o teu nome ficará ligado a um momento íntimo da vida de todas as mulheres… Pelo menos as mais asseadas…

E foi assim que Bidet viu o seu nome imortalizado, continuando a sua memória a perdurar através de séculos numa posição que qualquer homem invejaria. Entre as pernas de todas as mulheres… (agora só lhe falta ser canonizado).

Música de Fundo
She Wants To Move” – N.E.R.D.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

O Dildo
(Por favor não confundir com aquela cantora piegas, favorita de 90% das solitárias)

Eu bem me tentei escapar, mas fui atacado simultaneamente por dois depravados blogueiros que me enviaram o Dildo (felizmente neste caso é de pequenas dimensões e resume-se a cinco perguntas).

Mas como vingança (e também porque estou cheio de trabalho, e a Fundação Oriente não me perdoaria se atrasasse este orçamento) não vou colocar-lhes os links, nem “passar a brasa” em frente; apesar de ter acedido a responder ao questionário com a máxima honestidade.

Questionário Maldoso enviado por dois (pelo menos que desse por isso) blogueiros, sem qualquer respeito pela minha provecta idade

1. Have you ever used toys or other things during sex?

Esta primeira questão é fácil de responder, pois eu sempre tive um sentido de humor muito especial. Uma das brincadeiras que eu costumava fazer durante o sexo quando era adolescente, era conhecida por “com o freio nos dentes” (não, não era nada oral) e consistia em durante o acto me virar para a minha parceira e dizer – Acho que ouvi o teu pai meter a chave à porta… - Depois era só tentar manter-me em cima dela o máximo de tempo até quebrar o recorde.

Agora brinquedos mesmo… só se contar com o jornal enrolado. Mas raras vezes foi necessário usá-lo para manter a disciplina; na maioria dos casos, eram umas raparigas muito dedicadas.

2. Would you consider using dildos or other sexual toys in the future?

Não sei bem. Isto de entrar pelo futuro adentro de dildo em punho parece-me pouco correcto. Especialmente se tivermos em conta que “o futuro a Deus pertence”, o que iria arrastar consigo anátema, excomunhão e muita gritaria em latim com voz fininha.

Mas como há muitos anos, utilizei o massajador facial de uma amiga para tratar um pé dormente com muitos bons resultados; deixo em aberto (mas não muito aberto) essa hipótese.

3. What is your kinkiest fantasy you have yet to realize?

Após ter tido sexo com uma contorcionista coreana, ao som de um realejo tocado por um macaquinho chinês, acho que vou parar por um tempo com as fantasias (pois o reumático também não ajuda nada com aquelas posições todas).

Mas acho que talvez mais tarde me venha a lembrar de algo, que possa envolver uma “body-builder”, dois fatos de mergulhador de grande profundidade e um viveiro de enguias eléctricas…

4. Who gave you this dildo?

Não digo! Um dos princípios básicos da filosofia que sempre me tem guiado, é não dar esse tipo de pormenores. Posso dizer onde foi, se foi bom, em que posição e se utilizámos KY®. Agora nomes não. Não seria correcto.

5. Who are the ones to receive this dildo from you?
5.1 - Este dildo é meu e não o dou a ninguém

5.2 - Sou conhecido por nunca oferecer bugigangas. Comigo é “the real thing” ou nada; por isso o artefacto não vai a lado nenhum (literalmente)

5.3 – Apesar da ameaça dos sete anos de azar, não o vou passar à frente (nem atrás). Para já porque não acredito no azar, e depois porque mesmo que acreditasse já tenho imenso…

5.4 – Por último, e mais importante. Nunca poderia passar este dildo a ninguém porque tenho uma tradição de qualidade a manter; para o dar a alguém teria que ter “pilhas de graça”…

Música de Fundo
Celebration” – Loto

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

O Meu Amargurado Ser é Apenas um Pilar no Templo Deserto que é o Teu Coração
- Clichés idiotas para a época baixa do engate, transformados num lindo poema ao amor virtual; que até parece que é feito a sério mas não é (acho que para introdução já escrevi bastante) –

Ferem-te os ouvidos

O silêncio ensurdecedor dos gritos bem calados
O estilhaçar cristalino de outros corações
O motor desafinado de carros alugados

Exprimes-te assim

Nessa paixão de um rugir mal contido
Nesse dar de ti quando não podes dar
Ou apenas com a cantiga do bandido

Tens no olhar

Promessas de crianças não nascidas
O brilho que a todos faz sonhar
E as ramelas das noites mal dormidas

És assim

Um sonho lindo nunca realizado
Um horizonte ao qual nunca se chega
E tal como tudo em ti, é inventado

Música de Fundo
My Sharona” – The Knack


domingo, 23 de janeiro de 2005

Sócrates
- Explicado ás criancinhas analfabetas por um velho cínico… -

- Vieste cedo, Críton – Disse o mestre ajeitando o penteado enquanto se levantava do sofá – Sê um amor e traz-me uma Sprite. E de caminho vê se já saíram as projecções para os resultados.

- Valha-me Santa Terezinha, Sócrates – Respondeu o discípulo, estendendo-lhe algumas folhas de papel contínuo – Já saíram há um tempo, mas estava aqui a admirar como dormias, e não te acordei para aproveitares melhor este tempo. Já te felicitei antes pelo teu carácter, mas é sobretudo este momento de aflição que me faz admirar a facilidade e a calma com que o suportas.

- Porquê? Perdemos? Estou desgraçado… Logo eu que tinha investido tanto nestas eleições – Pegando nas fatídicas folhas das mãos do discípulo, o mestre lê-as pesaroso – de qualquer modo traz-me qualquer coisa que se beba; este whisky barato das conferências de imprensa dá-me dores de cabeça.

Críton sai, deixando Sócrates a sós com os prints das primeiras projecções eleitorais. Este, começando a tomar consciência de que o seu destino se poderá alterar, invoca a divindade; prometendo mentalmente uma novena ao Padre Cruz (o genuíno) se se safar desta.

Enquanto lê, vem-lhe à memória um dos seus famosos discursos… “…ouvir-me-eis falar naturalmente, com as primeiras palavras que me ocorrerem. Certo como estou, de que o que vou dizer é justo, nenhum de vós pode esperar mais nada de mim…”

E mesmo assim negaram-me a maioria absoluta – Labregos! – Pensou – Um homem sacrifica uma parte da sua vida para os livrar do obscurantismo e da crise, e é assim que agradecem…

- Está lá fora o Paulinho. – Informou Críton, entrando com uma bandeja na mão – Diz que vem manifestar o seu apoio, e oferecer-se para fazer parte de uma coligação para a saída da crise.

- O tipo não tem mesmo vergonha nenhuma… - Comentou Sócrates compondo a franja – Parece aquelas tipas que se oferecem logo ao primeiro mânfio que aparece de BMW. Na volta está a pensar que o vou nomear ministro, ou coisa assim… Pensando bem ainda são bastantes votos, que aquela beataria já está habituada a levantar-se cedo e ir para a igreja. Foi só fazerem agulha para as assembleias de voto…

- Cuidado, Sócrates. – Avisou o efebo – Anda tudo em polvorosa com os boatos. E se agora vais juntar-te a essa anomalia genética, arriscas-te a que comecem a conspirar contra ti. Lembra-te que podem ter gente infiltrada no nosso grupo.

- Que se lixem, meu caro Críton. – Disse o interlocutor filosoficamente – Não andei todos estes meses, a dar cabo dos lombares em poses e a beijar velhas pestilentas em mercados, para agora perder a maioria absoluta por uns pruridos de consciência. Afinal o que trazes aí?

- É chá. Não havia Sprite – Disse o discípulo desconsolado – Mas está quentinho e ajuda a limpar a tripa…

- Isso da tripa é piada por causa do Paulinho? – Perguntou socráticamente o mestre – Olha que esses boatos sobre o Diogo, foram inventados por aquele maldito avôzinho do PC. Mas passa lá a merda do chá. É de quê?

- Francamente não sei, Sócrates. Mas a velhota do catering, disse que iria ajudar a fazer história…

Música de Fundo
Galvanize” – Chemical Brothers

sábado, 22 de janeiro de 2005

Cromo-Aromaterapia

É ás vezes um pensamento, uma imagem, ou apenas um cheiro que nos faz parar subitamente como se fosse uma parede de tijolos.

Ar fresco, terra, pinheiro seco, sal marinho, azul… O input químico de um odor, que nos faz aceder a memórias velhas de décadas; como num arquivo de velhos filmes.

Tenho o meu passado arquivado nos cheiros, sabores e cores deste país.

Nas árvores do Pinhal do Rei, no mar, no fumo das cidades, no azul do céu, nos olhos das mulheres com quem me cruzo. O meu passado rodeia-me como uma atmosfera, da qual basta apenas respirar para me reconhecer.

Sinto-me assim tão natural como o aroma de um prato de búzios cozidos, o vento no pinhal ou o azul do céu; e pensando bem, talvez então eu seja apenas um cheiro indistinto na memória de alguém.

Mas também, se assim fosse… Seria apenas uma recordação, e não ficaria ninguém para escrever este post…

Música de Fundo
Gravity” – Embrace


quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

Emergency Room
- Hoje sem o George Clooney… -

Para mim (que já fui igualmente cliente) os hospitais são locais de armazenamento de bens deteriorados.

Quando tinha quatro ou cinco anos, costumava acompanhar o meu avô ao Hospital de S. José (onde ele trabalhava), e lá passava o dia entre os suportes do soro e as macas com rodas (divertidíssimas) enquanto deambulava livremente pelas enfermarias. É um pouco por isso, que para mim a morte por doença não é mais que a consequência lógica de um sem-número de anomalias.

E foi nisso que pensei, quando hoje entrei no Hospital S. Bernardo para efectuar uma visita.

É claro que não foi só isso que pensei. Outra ideia que logo me assaltou, foi que se tivesse acabado os estudos poderia ser hoje médico naquele hospital; e dedicar-me a assediar aquela médica autoritária, que passou a tarde a saracotear o traseiro pelo corredor adiante.

Não se queixem! Se o George Clooney o pode fazer, porque seria isso criticável no meu caso?

Mas aparte isso o hospital tem um ambiente inibidor, que transforma a maior parte dos visitantes em temerosos roedores. Talvez por superstição e medo que lhes possa vir a acontecer algo que os transporte àquela espécie de purgatório.

Aquele não me pareceu que funcionasse melhor ou pior que os outros. É um hospital público, e por tal limita-se a tentar evitar que as pessoas morram; pelo menos enquanto lá estão.

É claro que após saídos dali, a garantia expira e tudo poderá acontecer.

O mais engraçado de tudo é que uma hora depois de ter saído de lá, comecei a ser atacado por arrepios de frio, ao mesmo tempo que sentia os olhos pesados e uma sensação idiota de auto-piedade me invadia, fazendo-me sentir fraco, só e abandonado.

Em resumo, fora ao hospital para adoecer. E até tem a sua lógica; pois é o sítio onde se encontram mais germes e vírus por cm².

Como um penitente amargurado, percorri os poucos metros de passeio que separam a minha casa da clínica, e esperei que a Dr.ª Inês me observasse detalhadamente. O que fez tão competentemente, que em primeira análise o meu problema ficaria resolvido com meia dúzia de pílulas sortidas.

Enquanto eu me vestia praguejando entre dentes devido ao estetoscópio gelado, ela virou-se para mim com aquele aspecto de Ganesh bondoso, e proferiu com entoação pesarosa – Sabe?... Acho que está na altura de você “ir ao castigo”…

Com a atrapalhação fiquei por momentos com a cabeça presa na gola da camisola; parecendo-me um pouco com Medusa ao ter problemas com a sua peruca de serpentes.

- Lembra-se das análises do ano passado? – Continuou ela – Pois está na altura de fazer a ecografia; apenas para nos certificarmos de que está tudo bem.

Durante alguns segundos imaginei-me cercado por um grupo de extra-terrestres parecidos com o Gil da EXP’O 98, que manuseavam brilhantes sondas metálicas de dimensões exageradas; e fui percorrido por um arrepio de terror.

- Mas, Dr.ª … - Supliquei ainda esperançoso – Não há mesmo outra hipótese? vi uma vez um episódio do Emergency Room, em que o George Clooney se safa de uma parecida porque decidem utilizar ultra-sons, ou uma coisa assim parecida…

Pela primeira vez em vários anos vi a expressão da Dr.ª Inês transformar-se num esgar de profissional frieza – Oiça lá… – Disse ela abanando os caracóis e apontando para o próprio peito – O único de nós que usa estetoscópio aqui sou eu, e por isso eu é que sei se vai com som ou com sonda. Não se preocupe, que não é lá por isso que irá mudar de preferências…

- Sempre queria ver… - Insisti eu – Se eu fosse o George Clooney…

- Se você fosse o George Clooney… - Disse ela com um sorriso deliciado – Era eu própria que lhe fazia a ecografia…

Música de Fundo
Baby (Off The Wall)” – Sirens

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

O Último Dia do Universo
- Apenas mais um… -

Os Orthon eram dos seres mais antigos que habitavam o extremo da galáxia em espiral, a que chamavam “O Corno de Asphat”.

Há eons que se dedicavam a cartografar o espaço, sector por sector. Transformando os dados numa projecção holográfica, que lentamente lhes ia dando a percepção de inúmeros mundos encerrados no casulo lógico a que chamavam universo.

Mas estava a acabar…

Á medida que se ia completando a tarefa de reconhecimento, todos os dados recolhidos apontavam na mesma direcção. O Universo estava a caminho do seu fim; desde a sua formação que se expandia acelerando exponencialmente, e encontrava-se já em níveis de velocidade críticos segundo a física quântica.

Segundo alguns teóricos o fim já se dera. Mas devido à distância, só teriam informação perceptível ao alcance dos sensores pouco antes de serem atingidos pela onda de aniquilação que tudo submergiria.

A aurora mortal prevista pelas lendas aproximava-se, e a apatia sucedera ao caos e destruição que inicialmente tinham varrido a civilização. Mas não haveria fuga possível ou refúgio em segurança.

Em passos lentos, ele dirigiu-se ao extremo do pontão onde as ondas lambiam os rochedos cravados de salitre. Toda a sua vida vira o momento aproximar-se, mas por mais que racionalizasse o facto nunca se encontraria preparado.

Como físico sabia da inutilidade da fuga e da inevitabilidade do fim. Calculava também que noutra dimensão um pouco mais vasta, milhares (ou mesmo milhões) de universos semelhantes ao seu se encaminhavam igualmente para a aniquilação; sendo apenas uma questão de tempo a destruição do espaço.

Tentou pensar em algo alegre, mas todas as coisas alegres iriam morrer consigo e isso nada tinha de bom. Quando se morre o mundo acaba e tudo desaparece. Mas sabe-se de certo modo que algo resta, outros continuarão a viver o mundo completará os seus ciclos e continuará em frente ainda que sem nós.

Mas neste caso sabia-se que a aniquilação seria total. Não ficaria ninguém, nem sequer lugar para que a vida tentasse brotar novamente após algum tempo; seria um vazio eterno. Pelo menos no eterno relativo…

Optara por ficar sozinho, pois não quisera ter como última visão a morte de alguém que amava. O nascimento e a morte são os momentos em que se está verdadeiramente só, pois ninguém nos pode acompanhar em qualquer dos sentidos dessa viagem.

Olhou de frente o sol alaranjado que começava a erguer-se do oceano. Tentou imaginar todo o seu mundo como uma enorme gota de água, onde aquele enorme sol seria apenas um reflexo, e ele próprio apenas um conceito demasiado ínfimo para ser representado.

Por detrás da aurora, o espaço enrugou-se ligeiramente como uma cortina transparente soprada pelo vento; deixando ver milhões de explosões de estrelas em colapso, numa onda de luz intermitente que se espalhava rapidamente pelo horizonte.

As águas recuaram, deixando á vista quilómetros de fundo onde repousavam destroços antigos de mistura com vegetação aquática. E foi nessa altura que toda a matéria do espaço cedeu como que esmagada por um peso indescritível…

- Temos que sair daqui imediatamente – Disse a mulher colocando a mala a proteger o cabelo castanho, enquanto corria para se abrigar debaixo de uma árvore – A chuva está a começar a engrossar e daqui a pouco estamos ensopados.

- Deixa! – Disse ele em tom de brincadeira, lambendo uma gota de água que se esmagara no pescoço dela – também não é propriamente o fim do mundo…

Música de Fundo
Enjoy The Silence 04” – Depeche Mode (Remixes)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

Bater no Desgraçadinho (Take 2)
- Vamos lá esclarecer isto de uma vez por todas… -

Para que conste, a minha opinião sobre “Le Petit Prince” é que se trata de uma enorme cantiga do bandido, que durante os últimos sessenta anos beneficiou do estatuto de livro infantil; classificação esta tão falsa como uma nota de quinze Euros.

Aparentemente trata-se de um sonho húmido, em que tudo o que é “cliché” sobre relacionamento é debitado com tal velocidade, que nem valeria a pena separar os capítulos.

É porém o melhor livro do autor; isto porque “Vol de Nuit” é comparável apenas ao enorme bocejo com que o mundo acabará, quando o universo finalmente colapsar sobre si próprio…

Como personagem o Principezinho anda apenas ali, sendo uma espécie de ouvinte perfeito a quem toda a gente diz coisas (especialmente sobre eles próprios). Em suma, o arquétipo do objecto sexual que na realidade nunca diz não; e que se vai embora na altura certa quando deixa de ser preciso.

Ou imaginam melhor sentido de oportunidade que morrer e se dissolver no ar, exactamente no fim do livro?

Entre o seu inesperado aparecimento e o final trágico (mas limpinho), o insípido rapazinho (que na verdade se trata de um avatar do autor) dá azo à emissão de uma das maiores colecções de lugares-comuns, conhecidos desde os tempos imemoriais em que se começou a utilizar a conversa da treta. Ou seja, desde a invenção da linguagem.

Não vou sequer tentar parecer mais cínico do que na verdade sou; mas há uma idade limite a partir da qual a maturidade exige o abandono de artifícios toscos e pouco elaborados.

Para ajuizar sobre isso fiz uma busca no google pelo nome do livro, escolhi ao acaso numa editora alguém que classificou a obra com a pontuação máxima; e fui finalmente tentar saber que tipo de pessoa continua (após a infância) a ser admirador indefectível desta famosa “tanga”.

É claro que não vou pôr aqui os links mas por via das dúvidas guardei-os, apenas para o caso de mais tarde ter que documentar este parecer.

O indivíduo tem 36 anos, mora em Cascais e o seu “nick” é Lobinho-Sagrado (juro pela minha saúde, malta. É verdade!); e para começar, as frases que escolheu para se auto-definir no site da editora foram:

“Há amizades que nunca chegam a acontecer!”
e
”Dispamo-nos e demo-nos como quem partilha...”

Para apreciar melhor a idoneidade de quem recomenda esta obra a “todos os adultos de coração aberto”, segui o link para a sua página particular (tem duas, em níveis diferentes) e finalmente descobri o que faz um tipo daquela idade idolatrar um livro para miúdos.

Fica aqui o seu poema “Até Amanhecer…”, com o qual penso que fique encerrado aquilo a que chamarei a partir de hoje “O Incidente Principezinho”:

Até Amanhecer

Já passaste a noite e estiveste só?
Já dormiste sem sonhar?
Mas o Universo está sempre aqui......Contigo!!!
Amanhece também...
Estou aqui: (e-mail)
Solta lá essas amarras.
Já reparaste que há amigos que nunca chegamos a fazer?
...E se te identificares,
se para ti a Emoção a Partilha
a Ternura e o Afecto
o Riso e o Prazer das coisas simples da vida te dizem algo...
então escreve!
Pode ser que tenhamos um caminho a percorrer...
e um mundo a descobrir :)

Palavras para quê? É um artista português e adora ler “O Principezinho”… Agora um bom conselho.

Leitor amigo, se um dia estiveres calmamente sentado na sala de espera do dentista, e o tipo ao teu lado te perguntar – Você sabia que o que é importante é invisível ao olhar? – Levanta-te calmamente e sai dali; não há nada escondido que precises assim tanto ver…

Música de Fundo
Play That Funky Music” – Wild Cherry


domingo, 16 de janeiro de 2005

Sans Culotte
- Reminiscências surrealistas de um velho depravado -

Devia ter utilizado outro título para este post, porque o assunto não tem a ver com Marat; e tampouco já terá a ver com os “sans culotte”.

Mas foi este o termo pelo qual fiz a minha busca inicial no Google, sobre a ilustração para hoje. Infelizmente a maior parte das imagens que encontrei, embora talvez ajudassem a aumentar a afluência a este blog, não se enquadravam de modo algum na linha editorial.

Se bem que a partir de hoje, sentirei algo muito especial cada vez que vier à conversa o termo “sans culotte”.

Mas adiante que se faz tarde, e o Marat lá em cima está a começar a ficar engelhado. O post de hoje seria sobre mim, e sobre as minhas desventuras na demanda de umas miseráveis calças de fato de treino.

A este texto poderia chamar “Á espera do Lelo” ou “As calças de Bernarda Alba”; mas esta história das fotos, tirou-me toda a vontade de comparar a minha ida ás compras com qualquer episódio épico da literatura universal. E foi aí que decidi bater no ceguinho, abandonando totalmente a ideia inicial.

Não costumo utilizar muitas vezes este método. Mas o desgraçado estava ali à minha frente na estante a olhar com uma expressão tão patética, que não resisti e fui buscá-lo com um sorriso perverso estampado no rosto, trata-se de “O Principezinho”.

Em conjunto com “A Invenção do Amor” de Daniel Filipe, foram estas as duas obras das quais já comprei (e ofereci) mais exemplares. Sendo “O Principezinho” o meu favorito, por o ter decorado em tempos idos para poder participar numa peça de teatro.

Por Blog!... Aquele livro era um manancial de gajas.

Não quero com isto ofender as minhas colegas bloggers (e os colegas, embora sejam menos), que ainda aproveitam de vez em quando partes do texto para fins ternurentos; mas este livro se for bem usado, consegue ser mais perigoso ainda que o Livro de S. Cipriano ou o lendário Necronomicon.

- Por favor… desenha-me uma ovelha… -

Leitor/a se um dia ouvires esta frase, corre com todas as tuas forças e não olhes para trás. Pois estarás a ser perseguido por um/a predador/a implacável; um/a caçador/a impiedoso/a que se banqueteará deliciado na tua carne. O que até é possível que te venha a agradar imenso.

Começará por te dizer, que todos temos um principezinho dentro de nós. Olhar-te-á com uma expressão inocente nos seus olhos enormes e brilhantes, e falará sobre como é bom cativar, e é por essa altura que te será finalmente explicado – Se tivermos intimidade, precisaremos um do outro. Tu serás para mim único/a no mundo; e eu serei para ti único/a no mundo…

Tecnicamente tudo isto é rigorosamente verdadeiro (principalmente a parte da intimidade), embora faça parte integrante do que em certos círculos se chama um “Smooth Takeover”.

Realmente, as coisas de que eu me lembro… Tudo isto porque ia contar as minhas desventuras em busca das malditas calças de fato de treino (que não encontrei), e tencionava ilustrar isso com a imagem de um “sans culotte”.

Mas há imenso tempo que não leio aquele livro. Talvez seja melhor dar mais algum tempo, para que a surpresa resultante do esquecimento seja um pouco maior. Ou quem sabe, talvez guardar essa ocasião para um dia ainda mais tarde, em que me possa vir a fazer falta no lar da 3ª idade para dar a volta a alguma pensionista mais indecisa.

Parece que me estou a ver, falando-lhe pausadamente (por causa da surdez) de como é totalmente diferente a nossa flor em comparação com todas as outras; porque o importante é invisível ao olhar…

E será, sem dúvida. Não só por causa da miopia mas também devido a não haver muito para ver.

- Interrogo-me – direi eu – se as estrelas brilham para que, um dia cada um possa encontrar a sua… A propósito, alguma vez leste “O Principezinho”?...

Afinal, talvez o título não esteja assim tão mal aplicado…

Música de Fundo
Walk on By” – Seal

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

Quero

O teu corpo
a tua alma
e aquela tatuagem que um dia disseste querer
naquele sítio
que só nós sabemos

Quero

Os teus gemidos e os lençóis
rasgados
pelos quais quase fomos corridos
daquele hotel

Quero

Ver-me nos teus olhos
Como sempre me imaginaste
e as tuas recordações de infância
de quando brincavas aos médicos
com o vizinho do andar debaixo

Quero tudo o que tiveres para dar

E o que não tiveres…
dou-te eu!

Música de Fundo
Gimme All Your Lovin’” – ZZ Top

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

A Cartilha Paternal do Estratega de Alcova
- Crítica Literária -

Quiçá no seguimento da falta de imaginação que impulsionou a publicação de “A Arte da Guerra – de Sun Tzu – Para Executivos”, recebi há dias o livro cuja capa está ali em cima, e que me despertou não só a curiosidade como a libido; pois se há coisa que eu não dispenso nas Sextas à noite é a minha fantasia de Adolfo Hitler.

Desde tenra idade que sempre me acicatou a curiosidade tudo o que concerne à vida intima dos personagens históricos; e como poderão calcular o Fuhrer não seria excepção, principalmente devido à potencialidade que a figura tem para o jogo “Master and Servant”.

Direccionado para o público leitor anglo-saxónico, diz-se que o livro foi escrito originalmente em inglês pelo próprio Adolfo; sendo talvez por isso que o título original era algo como “How to plize di wimin of di opozite sex”. Título este que o editor teve que corrigir, especialmente devido ás conclusões erradas que dele poderiam ser tiradas em relação à masculinidade deste germânico pilar da sexualidade.

Com precisão teutónica, o autor inicia a obra com um prólogo (ou preliminares, como ele muito bem o classifica) em que confessa ter iniciado a sua vida sexual na tenra idade de 11 anos, durante a última regata da “Semana de Kiel”; exactamente quando Lars Petersen cortava a meta em segundo lugar no seu “cutter” Physalia, devido a ter içado o “spinaker” demasiado tarde.

É claro que a sua modéstia de “gentleman” o impediu de declinar a identidade da sua acompanhante, mas presumimos que já naquela altura tivesse escolhido uma ariana.

Conclusão esta que tiramos com base no facto de ele declarar mais tarde no Mein Kampf (citamos) – “Nunca contaminei a pureza do meu knockwurst!” – Embora segundo alguns estudiosos, se possa estar a referir ao Terceiro Piquenique da Juventude Hitleriana, durante o qual foi visto a sair dos arbustos demasiadas vezes para as poucas limonadas consumidas.

A seguir aos Preliminares (Prólogo) segue-se uma breve introdução tal como seria de esperar numa obra deste género; em que o autor fala da sua juventude e do seu trabalho na construção civil. Recordando com saudade o tempo em que mandava bocas ás “fraulein”, agarrado à broxa no cimo de um andaime.

E é então no primeiro capítulo, que nos é dado a saber como se deve lidar com o desviacionismo comportamental. Sendo para tal apresentado o exemplo de Ernst Röem, de quem o Fuhrer diz nunca ter suspeitado a homossexualidade, apesar do sugestivo tom acastanhado das camisas dos SA.

O problema é resolvido facilmente uma bela noite em que os SA são passados a fio de sabre, ficando tão esburacados que a partir daí passam a ser conhecidos por “rotos”, aliás como posteriormente todos os seus congéneres, ainda que em vida e com menos buracos…

É mais para o meio do livro que a obra se começa a tornar sumarenta. Isto deve-se principalmente ao aparecimento de Eva Braun, que como se sabe inventou (embora não detenha a patente actual) a “depiladora Braun”, com que se entretinha a jardinar o seu “canteiro de edelweiss” nas longas noites do Bunker; enquanto aguardava a chegada do ditador do seu coração.

Quando estamos a afiar o dente para episódios mais extravagantes, o autor infelizmente trava a nossa imaginação ao passar para a descrição das suas noites no Bunker. E para as insípidas “festas de pijama” que fazia amiúde com Goering e Himmler. Diz-se até que Rudolph Hess fugiu para a Inglaterra, devido a não conseguir dormir com a gritaria e gargalhadas dos três amigos nos seus folguedos.

É claro que se nos cingirmos ao que é prometido na capa o livro é uma fraude completa. Para já porque é do conhecimento geral que Adolfo Hitler, ao contrário do que nos quer fazer crer nesta obra, nunca chegou a perder verdadeiramente a virgindade.

Isto devia-se ao seu bigode em formato de selo dos correios, que não só fazia imensas cócegas como era por si só hilariante. E como todos sabemos a actividade sexual não é compatível com o gargalhar. Excepto no caso de Teté, a mulher-palhaço; ou da esposa de Durão Barroso se lhe estiver a olhar para o nariz.

Aparte meia dúzia de considerações insípidas sobre posições de combate, ataques pela retaguarda e sobre a capacidade do soldado alemão para suportar a dor (qualidade muito útil, atendendo à posição em que a maioria deles morreu na batalha de Moscovo), o livro é uma estucha. Não se aproveitando sequer as frases de engate com que o Fuhrer tenta animar o último capítulo.

Destas pérolas do cabotinismo germânico, salienta-se por exemplo – “A frente russa é tão fria, que o melhor é ir atrás…” ou “Blitzkrieg é bom, mas convém aguentar sempre mais que cinco minutos…”

É claro que tal como o Reich de mil anos, este livro também não vale o trabalho que dá sequer roubá-lo na FNAC; pelo que recomendo em substituição banda desenhada. Embora seja mais difícil de roubar (devido ao formato), pelo menos é mais divertida.

Como consolação pela estopada que é este desperdício de papel, deixo-vos com uma das minhas frases de engate favoritas; que faz parte de uma monografia sobre o tema e em preparação há já alguns meses…

Vendedor de Automóveis – Até agora só teve uma dona. Era a minha mulher e usava-o muito pouco…

Música de Fundo
Too Sexy” – Right Said Fred

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

A Expedição ao Amaldiçoado Reino do Gelo
- E da esforçada demanda de meu amo em busca das naturais da Lapónia, as famosas laputas… -

Longe de mim querer diminuir a importância do tubo de polietileno reticulado; mas sempre achei que isto de oferecer viagens a partir do volume de compras, tinha que dar resultados estranhos. E foi o que aconteceu, quando meu amo mercê do enorme gasto no já citado tubo (que é também exturdido), foi convidado a visitar a Suécia.

Alimentado pela mística dos anos setenta, e principalmente (diga-se em abono da verdade) por imensas curtas-metragens pornográficas em “super 8”, ao ser convidado para conhecer a Suécia pensou que iria subir ao céu; ou pelo menos uma boa parte do caminho.

É claro que logo constatou que não há subidas fáceis; pois a primeira notícia que lhe deram imediatamente a seguir a essa, é que a oferta era para duas pessoas e assim ele não teria outra hipótese senão levar a “legítima”.

Embora transportar a esposa para a “terra do amor livre” fosse o mesmo que levar “ovos-moles” para Aveiro, lá se conformou; consolando-se com a ideia de poder fazer algumas surtidas à noite, e assim arrebanhar a primeira sueca que encontrasse. Pois como toda a gente sabe as suecas deambulam à noite sem destino pelas ruas, loucas de desejo.

Após me fazer varrer a Net em busca de tudo o que era informação útil sobre o país, desde o Instituto do Turismo ao “Sweedish Teen Dorm”; alguns dias depois numa luminosa sexta-feira pagou o excesso de bagagem e embarcou no avião. Deixando em terra este humilde servo, que o viu partir com a expressão animada de quem acabou de se curar de uma doença grave.

Ao fim da tarde quando fechava o escritório, reparei casualmente na cópia do convite que lhe fora enviado. E em boa hora o fiz, pois permitiu-me desligar o telemóvel antes que fosse assolado por uma vaga de pedidos de socorro. No convite constava o nome da localidade onde ele ficaria alojado… era Jukkasjârvi!

Passei um fim-de-semana perfeitamente agradável, e só na segunda-feira liguei o telemóvel ás nove da manhã; tinha 85 mensagens e todas elas do meu infeliz amo, desterrado nos gelos eternos da Lapónia do Norte.

Por volta do meio-dia e com ele a chegar ao aeroporto da Portela, já tinha reconstituído a maioria das etapas da sua epopeia que deixo aqui em letra de forma, para que outros desprevenidos viajantes não venham a ser vítimas de iguais percalços.

Em Jukkasjârvi a 200 quilómetros do Círculo Polar Árctico perto do rio Torne, ergue-se o Icehotel onde meu amo fez o check-in após passada a surpresa inicial (ele já se imaginava a ser perseguido por magotes de suecas “doidinhas pela coisa”).

Apesar de o dia ir em meio o céu apresentava uma tonalidade plúmbea, talvez em antecipação de um fim-de-semana passado no interior de um hotel totalmente escavado no gelo. Ou talvez se tratasse apenas da longa noite Árctica…

Infelizmente meu amo constipou-se logo de início, o que é natural naquele tipo de local. Ainda assinava ele o livro de registo, e já uma estalagmite se formava no balcão; criada pelo pingo contínuo que lhe escorria do nariz, que começara a ganhar semelhanças com o de qualquer bebedor inveterado (inchado, vermelho e em formato de torneira).

Ao notar o fenómeno o recepcionista ofereceu-lhe uma caixa de lenços de papel, e avisou-o para que evitasse a todo o custo espirrar. Pois Michael Jackson ao ter ali passado alguns dias em convalescença de uma operação plástica teria espirrado; o que segundo o pessoal do hotel, provocou o seu actual problema de aderência do nariz ao seu substrato.

Apesar de prevenido, o nosso herói acabou por mais tarde ter alguns problemas de outro tipo. Como foi o caso do incidente da sanita, em que ao se ter sentado na mesma ignorou por descuido o folheto explicativo; e assim não utilizou o resguardo de pelúcia.

Á semelhança do episódio em que o turista fica com o lábio preso ao glaciar, meu amo começou a sentir uma suave dormência nas suas partes pudibundas, pelo que se tentou levantar de imediato. Mas era tarde demais, pois uma parte de si devido ao frio extremo aderira à tampa da sanita, obrigando-o a clamar desesperadamente por auxílio especializado.

Valeu-lhe a imediata intervenção da camareira, que chamou o recepcionista, que por sua vez chamou o funcionário da manutenção.

Aparentemente a simples presença deste bastou para resolver o assunto, pois o imobilizado ao ver que este transportava um reluzente maçarico a petróleo (o famoso Hipólito de fabrico português), fez das fraquezas forças e saltou da sua prisão embora no acto tenha deixado para trás alguns centímetros quadrados de pele que lhe faziam imensa falta.

Nem o jantar no restaurante do hotel (galardoado com a famosa Werner Vögeli Statuette) o consolou do anterior percalço. Tendo sido visto a sair após a sobremesa com um ar desconsolado, e coxeando ainda um pouco devido à provação sofrida pelas suas partes inferiores…

Regressou porém a uma velocidade espantosa e atacado por vómitos. Explicou depois que lhe escapara igualmente na leitura do folheto, a secção em que se advertiam os hóspedes contra a ingestão de “neve amarela”, produzida por renas que ocasionalmente se aproximavam da unidade hoteleira.

A partir daí a viagem estava estragada (tal como o apetite). Após uma horripilante noite percorrida por pesadelos, nos quais espirrava até perder o nariz que procurava de novo colar à cara infrutiferamente; fez um berreiro enorme que só passou quando o evacuaram num tractor semi-lagarta.

Passou o resto do fim-de-semana no Arcadia Hotel em Estocolmo. Jantou no McDonald’s e foi ver um espectáculo de Striptease ás escondidas; infelizmente como não sabe sueco, só ao fim reparou que se tratava de um bar gay…



Posto isto só saiu do quarto na 2ª de manhã, e apenas após lhe terem garantido que era para entrar no táxi que o conduziria ao aeroporto.

Entrou no avião como que perseguido por milhares de morsas enfurecidas, não tendo sequer espreitado pela janela uma única vez. E foi quase em lágrimas, que ao chegar me relatou as suas desventuras.

Mas foi quando nos sentámos em frente a duas minis e um pires de presunto, que vi no seu olhar sofredor as profundas saudades que tinha do nosso cantinho lusitano. Ou então era da falta de pele nas miudezas…

Música de Fundo
Nanook Rubs It” – Frank Zappa

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

“História”

Vagarosamente coçou o olho esquerdo com as costas da mão. Este começava a ficar avermelhado; um sintoma de desgaste já antigo, resultante do esforço em fixar a vista durante muito tempo.

Há já alguns anos que optara pela escrita manual. O trabalho que dava acabava por criar uma espécie de triagem para as ideias; apenas ficava o que valia a pena ser descrito. Não existe lugar na escrita manual para floreados; especialmente se os dedos doerem quando se escreve e os olhos se recusarem a focar convenientemente.

Era a última vez. Tal como todas as outras vezes teriam sido as últimas a dada altura; pontos no tempo em que se consegue ver simultaneamente o passado e o futuro. O fio da navalha transformado em cume de montanha.

Não tinha dificuldade alguma em deixar sair as emoções. Na verdade era-lhe difícil não o fazer; pois a idade nada lhe dera da artrítica filosofia dos que de tudo se isolam. E quanto mais para a frente avançava, mais certeza tinha sobre si próprio.

Nunca seria apenas uma pessoa, mas a eterna metade de algo.

E era sobre isso que sempre escrevia. Embora parecesse descrever pessoas e situações diferentes, no fundo, exprimia a busca interminável de cada um pela metade sempre em falta.

Não a mítica alma gémea ou outra patranha do género; mas a eterna busca pelo interlocutor perfeito a quem nada tem que se explicar, pois tudo já sabe sobre nós.

Largou a caneta e por uns momentos flectiu o pescoço, ajudando os músculos a relaxarem-se. A hora era já adiantada mas não sentia sono. O corpo parecia retirar reservas da escrita; como que se alimentando das emoções que transmitia ao papel. Era sempre assim cada vez que decidia exprimir a busca, a descoberta…

Começava a sentir-se revigorado à medida que ia completando o texto. Todas as situações se encaixavam, acordando em si a vontade de sair e se confundir com o mundo; na completa harmonia de quem está bem com tudo e todos.

Como de todas as outras vezes, já quase acabara de escrever e ainda lhe faltava o título. Não que este carecesse de importância, mas antes pelo contrário. Só após terminado saberia o nome do texto… Que chamar a algo que não está completo?

Cada vez mais urgente, a vontade de sair, de respirar o ar da manhã e ouvir os ruídos do mundo; cada vez mais forte, a sensação de estar completo, inteiro. Amava…

Releu o texto pela última vez, sentindo que por mais que escrevesse nada de definitivo conseguiria ser transmitido. Nada ali começara ou terminara, apenas continuava. Por isso antes de se levantar pensou apenas por um breve momento, e escreveu no topo da página - “História”

Música de Fundo
Sweet Child of Mine” – Bon Jovi

domingo, 9 de janeiro de 2005

Ausência (curta)

Despertei hoje
nos teus lábios
como uma lágrima
que para lá tivesse escorrido

Saboreaste-a
sentindo-me ainda
e eu escondi-me
no teu sorriso

Uma única
pérola de ausência…

Guardada

Música de Fundo
Crazy Love” – Colder

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

O Clube dos Poetas da Treta

- Há muito tempo que não o víamos por cá. Vai ser o habitual?

- Sim. O costume, Mendonça. Mas carregue um pouco mais no gin, que o quinino no Inverno faz-me arrepios. Não há meio de arranjarem água tónica de jeito… -

Lentamente passou o olhar pelas paredes enquanto aguardava. Retratos de obscuros fundadores alinhavam-se pacientemente lado a lado; velados pelo tempo e por sucessivas gerações de irreverentes moscas domésticas.

Pela atmosfera difundia-se discretamente “Nocturnes” de Eric Satie, enquanto alguns dos sócios se agrupavam conversando em voz baixa, debruçando-se atentamente sobre papéis que iam passando apreciativamente em redor.

- Então, de volta ao redil? – Interrogou-o o tipo louro, enquanto batia o cachimbo no cinzeiro sobre a mesa – Ainda me lembro da última vez que o tivemos entre nós. E sem dúvida que essa tendência para as frases de impacto, já lhe assegurou a notoriedade no nosso pequeno meio.

- Não é assim tanto… - Defendeu-se o visitante – Na verdade nem me considero digno de aqui estar. Veja por exemplo Maiakovski; teria sido um maravilhoso publicitário, e no entanto toda a gente teima em chamar-lhe poeta.

- Ora… - Insistiu o outro, enchendo meticulosamente o cachimbo – Claro que era um poeta. Apesar de empregar a linguagem do dia-a-dia e não considerar a divisão entre a fraseologia “poética” e “não-poética”, numa constante elaboração que ia desde a invenção vocabular até ao extremo arrojo nas rimas; o tipo até se safava bem.

- Pois. Mas eu não sou poeta. Ou então talvez seja como ele. – Justificou-se ele enquanto provava o “gin & tonic” recém-chegado – Temos talvez em comum o gosto pelo desmesurado e o hiperbólico; mas eu não me comprometo politicamente. Não empenho as minhas palavras por grupos ou partidos.

Entretanto a conversa atraíra alguns ociosos literatos, que se foram sentando enquanto escutavam o diálogo. – É Parnasiano, você? – Interrogou um deles – Os parnasianos andam a ter muita saída com as gajas; basta misturarem à escrita anjos ou unicórnios… É garantido…

- Ultimamente acho que me tornei pragmático… - Retorquiu o “poeta-pragmático” mordiscando a rodela de limão com afinco – Tento imprimir a realidade no que escrevo, como se fosse interpretar o mundo e reformulá-lo em meia dúzia de frases. Com um pouco de sorte, um dia conseguirei condensar toda a minha vida em três sonetos e um alexandrino.

Os outros riram-se, incrédulos. Enquanto o tipo do cachimbo ia fumando pensativamente, como que reflectindo conceitos deveras complicados. – Então nesse caso… - Disse ele finalmente, parecendo ter chegado a alguma conclusão – Áreas importantes da nossa existência, como a adolescência, a idade adulta ou a meia-idade poderão ser condensadas em uma ou duas frases cada. Não é um pouco pretensioso da sua parte?

- O poeta (se lhe podemos chamar assim) – Explicou o visitante – não é um classificador. Expondo em vez disso a sua opinião ou a sensação que lhe provoca qualquer acontecimento; estando para a realidade, como um pintor para a fotografia.

- Tudo isso é muito bonito – Atalhou um dos poetas assistentes, um tipo de meia-idade, chegando-se à frente para o debate – Mas eu gostaria que nos desse uma amostra desse estilo. Algo que fosse marcante e ao mesmo tempo descomprometido; uma espécie de definição categórica, mas que nos aliciasse a reflectir sobre determinado ponto da vida. Fosse ele qual fosse.

- Ok – Assentiu o “poeta-pragmático” – Você que parece ser um tipo com uma certa experiência, diga-me: acredita no amor?

- Bem – Começou o interlocutor – Apesar da minha idade e de já ter tido algumas desilusões… Sim. Acredito! Como define você isso?

- Para mim – Esclareceu finalmente o outro – Você está a atravessar uma idade em que se reinventa, e em que tudo o que aprendeu e sentiu até aqui, é visto por um prisma totalmente novo. – Acabando o “gin & tonic” levantou-se e preparou-se para sair, dizendo – É que é aos 40 anos que os homens querem verdadeiramente amar, enquanto as mulheres querem é foder…

Música de Fundo
Say Hello” – Fonzie

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

Born To Be Wild

Em certo aspecto, a nossa prole por mais que nos esforcemos constituirá sempre um enigma. O que os move, se singrarão ou não na vida, etc. No caso do meu sucessor, penso que tenha herdado parte do meu mau feitio, embora complementado com uma razoável capacidade para subtilmente o disfarçar.

É sabido que o sentido de humor dos pré-adolescentes é retorcido e cruel, devido ás ligações que nessa altura ainda mantêm com a sua origem selvagem. Só quem já presenciou uma disputa entre dois miúdos num infantário, saberá do que estou a falar.

Mas não venho aqui hoje para falar do nosso passado de selvajaria. É que ontem finalmente para gáudio do Cybergon, decidi estrear a prenda de Natal que me ofereceu; uns chinelos de quarto.

Até aqui nada de especial. Isto se nos abstrairmos das implicações adjacentes à oferta; como a sugestão de um certo envelhecimento e decadência (isto se me comparar com o ofertante, claro), ou até mesmo a possibilidade de ser uma tentativa para herdar os meus bens antes de tempo (os malditos chinelos escorregam tanto, que até parece de propósito) …

O que realmente me tira do sério, é que se trata de um par de chinelos perfeitamente vulgares, mas que apresentam um bordado muito parecido com a imagem que podem ver acima. – Um motão e o símbolo “Route 66”.

Á indignidade que é usar chinelos de quarto (paranóia da meia-idade), soma-se a vulgaridade da simbologia somente comparável à daqueles tipos que colam o dístico “Turbo” no triciclo das hortaliças.

Mas por outro lado é um inesgotável manancial de “merchandising” que se revela, numa cornucópia de ideias lucrativas aplicáveis ao enorme nicho de mercado constituído pelo grupo etário 40-60.

Talvez não me conseguissem convencer a utilizar a algália “Easy Rider”; mas quem consegue resistir a um confortável e discreto roupão de flanela, em cujas costas se lê “Hell’s Angels” escrito com tachas cromadas. Sem dúvida que o maior sucesso comercial, serão as fraldas para incontinentes decoradas com um alfinete-de-ama e o slogan “Punk Never Dies”.

Eu até tenho um bom sentido de humor, mas acho que desta vez o estupor do miúdo vai mesmo pagá-las… Na verdade eu preferia o roupão que é mais quentinho.

Música de Fundo
Real Wild Child” – Iggy Pop

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

O Momento de Vazio

Há pouco dei por mim, ao pé da máquina de café e com o olhar perdido na folhagem da árvore em frente. Por momentos fui livre mas não me lembro de nada; o que não abona muito em favor da liberdade de pensamento.

Tentei repetir a experiência mas desta vez no controlo das operações. Nada feito. O mais que consegui foi entortar os olhos, e fazer a paisagem adoptar um aspecto surrealista; mas o espírito não se quis soltar. Talvez por se sentir empurrado, ou apenas porque sou teimoso por natureza.

Tentei extrair de mim uma resposta. Interroguei-me sobre a vida, o destino, o amor, sítios bons para almoçar… Mas nada disso preenchia o espaço vazio que ocupava lugar dentro de mim; um espaço tão fácil de preencher como o da última peça de um puzzle. Mas sem a peça, claro…

Fiquei ali, com a mão a apoiar a cara enquanto contemplava a árvore e o céu; sentindo o frio e o vazio avançarem dentro de mim. Espalhando-se como névoa através de uma estepe, preenchendo cada recanto.

Mecanicamente, liguei a máquina e tomei um café.

Dizem, e com razão, que as melhores soluções estão quase sempre ao nosso alcance; e sem dúvida que o meu mal era sono (e sobretudo preguiça).

O dia continuou sem problemas…

Música de Fundo
In Demand” – Texas

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

A Grande Corrida de S. Silvestre
- Actividades Olímpicas do Bairro Amarelo -

São Silvestre I nasceu em Roma, e o seu longo pontificado decorreu paralelamente ao reinado do imperador Constantino, que como toda a gente sabe já vinha de longe.

Este (o Imperador) herdeiro da grande tradição imperial romana, considerava-se o legítimo representante de Deus na terra, não tendo nunca renunciado ao título de Pontífex Máximus (que significava “exímio bordador em ponto-cruz & bilros”).São Silvestre estabeleceu as bases doutrinais e disciplinares, que recolocaram a Igreja num novo contexto social e político em que o cristianismo se tornava a religião oficial do Império Romano; acabando assim com a perseguição movida aos cristãos. Podendo estes professar a sua crença abertamente, desde que baixassem o volume da música a partir das 22h 30m.

A recordar o tempo da clandestinidade e as perseguições, ficou a tradição da corrida de S. Silvestre; em que se relembra as inúmeras vezes que os cristãos tiveram que “dar corda ás sandálias”, devido à incursão de uma centúria qualquer em busca de breviários, hóstias, água benta e outras substâncias proibidas.

Foi São Silvestre que organizou a primeira corrida (com o seu nome) da história da Igreja, em Nicéia no ano 325, onde se definiu a divindade de Cristo e o número de vezes que é correcto abanar o incensório durante a missa…

No Bairro Amarelo esta corrida já é tradição, embora como diz o ditado a tradição já não seja o que era (é um ditado estúpido, mas não me lembrei de mais nenhum). Isto porque a corrida de S. Silvestre era disputada à noite, mas de há uns anos a esta parte começou a realizar-se à tarde. Pois a maior parte dos concorrentes desaparecia misteriosamente sem deixar rasto, aparecendo ás vezes alguns deles mais tarde no posto da GNR da Trafaria apenas para apresentar queixa.

Mais uma vez o bairro manteve-se fiel à tradição, pois a prova foi ganha por um atleta estrangeiro Vladimir Andropov, servente na Metalúrgica Caparicana (Marquises e Fenétres – Vamos a casa…); que logrou chegar ao final da corrida em primeiro lugar, talvez por ter sido o único que cortou a meta.

A tendência que existe para a vitória de forasteiros, talvez seja causada para o mau hábito que os atletas “da casa” têm de se meter em sarilhos.

Este ano entre as penalizações conhecidas encontra-se a desclassificação do filho da Madeirense (em representação da equipa do Asilo 28 de Maio), que foi apanhado a utilizar um meio de transporte proibido para terminar mais cedo a corrida.

A PSP de Almada tem em vídeo a prova da irregularidade. Em que se vê o rapaz a abrir lestamente um Honda Civic com a vareta do óleo; e posteriormente a prova de desacato à autoridade, em que ao lhe ser dada voz de prisão pelo agente Faustino reagiu de modo deveras malcriado, demonstrando uma enorme falta de espírito desportivo.

Outro dos favoritos o atleta Eusébio Seidi-Bá, foi detido por uma patrulha da GNR. Os representantes da autoridade estranharam um ajuntamento de vários negros em fato de treino, e como nenhum deles tinha ar de atleta procederam a uma revista sumária; acabando assim por encontrar na posse do atleta de origem guineense vários “panfletos”, duas colheres de café e uma seringa hipodérmica.

Segundo as últimas informações, terá sido desclassificado por doping…

Há ainda a lamentar o desaparecimento de outro prometedor atleta. Lello Maia de etnia cigana (mais conhecido por “Lello leva-o o vento”), que foi visto pela última vez a descer velozmente a estrada para o Porto Brandão perseguido por uma pick-up cheia de pescadores irados.

Sem dúvida que esta situação terá sido causada pela inexplicável falta de gasóleo, que se tem dado sistematicamente todas as noites na piscatória vila. Mas segundo uma fonte bem informada não só o fenómeno não se repetirá tão cedo, como também durante uns tempos não irá faltar isco para a navalheira (razão tenho eu para não apreciar marisco).

Resta-me dizer que ao ser cortada a meta pelo único atleta, se iniciou o espectáculo de fogo de artifício. Mas o pessoal de apoio ás equipas estava de tal modo com os nervos em franja, que se envolveram em tiroteio cerrado sem ter conseguido apreciar o espectáculo pirotécnico que se desenrolava acima das suas cabeças.

Em relação ao padroeiro da prova, sabe-se que São Silvestre morreu no ano 335 tendo sido um dos primeiros santos não-mártires canonizados pela Igreja; o que abriu um péssimo precedente, no que diz respeito ao duro caminho a percorrer para alcançar a santidade.

Mas fico-me por aqui. Pois a Igreja do Imaculado Blog não tem por hábito criticar os Santos da concorrência; por mais farsolas ou pindéricos que estes sejam.

Música de Fundo
Atomic” – Blondie

domingo, 2 de janeiro de 2005

Ano Novo
- The day after… -

Acho que vou estar muito zangado em 2005.

Talvez devesse ter ido passear ao sol, como me aconselharam. Mas realmente a vontade não era nenhuma, e iniciei o ano da forma mais preguiçosa possível, a escrever.

Tinha já adiantado bastante um texto sobre a imutabilidade do tempo e em como todas as passagens de ano as coisas continuam iguais, quando Blog decidiu dar-me uma amostra da sua mesquinhez, vingando-se do meu tédio.

Para me reforçar a fé enviou-me mais provação; e tive assim que permanecer parte da noite de ontem nas urgências do HGO para acompanhar um familiar que não aguentou a dieta enriquecida tão característica desta época, tendo desmaiado enquanto pedia um alka-seltzer.

Não há como a sala de espera de um hospital para termos um vislumbre de toda a humanidade. Infelizmente, neste caso estava muito mal representada. Pois a maior parte da Animação Cultural estava a cargo de uma família cigana, a qual nunca chegámos a saber o que estava a fazer ali; dado que nenhum deles parecia doente ou minimamente preocupado.

Durante quatro horas e meia fomos brindados com uma rapsódia de variedades, desde o clássico “Ó Aniceto Olhómnino”, até ao dueto “Pai Natal… Pai Natal!...” executado por duas minúsculas gémeas de ar perverso.

Estas ao serem admoestadas por uma senhora que se sentiu incomodada com o barulho, mostraram-lhe “O Dedo” num gesto elegante que fez rir as respectivas mães, que se encontravam na altura a tentar desbastar em voz alta a reputação de uma ausente.

A máquina das águas encontrava-se avariada. E para culminar esse monte de desgraças, a televisão encontrava-se sintonizada na RTP1; que transmitia um concurso infantil qualquer. Daqueles que dão a impressão de serem patrocinados pelos babosos pais dos concorrentes; felizmente encontrava-se sem som.

Foi o meu início de ano. Não que seja o melhor para nos dar uma disposição prazenteira, mas tal como disse o Cybergon momentos depois – Bem, a partir de agora só pode melhorar… Não é?

Música de Fundo
Bleeding Me” – Metallica

sábado, 1 de janeiro de 2005

Novo Ano

Escrevo em silêncio
nesta folha em branco
o novo ano


Acho que agora já posso ir dormir…

Música de Fundo
"Burn It Down" - Dexys Midnight Runners


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