quinta-feira, 31 de março de 2005

O Uniforme
- Considerações gerais sobre fatiotas padronizadas, para reflectir enquanto se aguarda a chegada do “room service”… -

Sempre admirei os frades. Um tipo que se arrisca a que lhe aconteça o mesmo que à Marilyn Monroe por cima da “boca de Metro”, tem que ser um homem de fé; especialmente se não usar roupa interior.

Mas todos os uniformes têm uma utilidade específica. Neste caso a questão dos frades explicar-se-á facilmente, se tivermos em conta que na Igreja Católica tudo se passa (como dizem os brasileiros) “por debaixo dos panos”. Embora no caso de alguns cardeais mais velhotes, pouco se possa já passar.

Há fatiotas que embora não sejam propriamente uniformes (como a dos pauliteiros de Miranda) têm a sua piada. A dos Guardas Gregos por exemplo, é reminiscente de um tempo em que os homens faziam parar o trânsito; especialmente ao baixarem-se para apanhar algo. Tempos perigosos, em que só se conseguia um mínimo de segurança, com as costas defendidas por uma sólida parede de pedra.

Mas existem também casos divertidos.

Sabe-se agora (e graças a um discípulo de Levi-Strauss) que o famoso boné de dois andares que se usava na Guarda Republicana e na extinta Guarda-fiscal, era um dos responsáveis não só pela elevada taxa de criminalidade em zonas rurais, como pela enorme quantidade de contrabando que iludia as nossas fronteiras.

Aparentemente, a partir de uma certa velocidade era difícil mantê-lo no alto da cabeça; pelo que não era raro ver um agente da autoridade com uma mão a segurar o boné que lhe caía, e com a outra a puxar para cima as calças que a barriga lhe empurrava para baixo. Sem dúvida algo deveras limitativo para uma vulgar perseguição a pé…

Agora um dos uniformes em que cada um dos componentes por si só o identifica, é sem dúvida o da “criada de servir”. Ou “french maid”, como teimam os americanos em lhe chamar nos sites sobre “roupa para ocasiões especiais”. Apenas comparável ao uniforme de enfermeira ou ao de estudante do Davidson CE High School for Girls (agora abolido por demasiado arrojado).

Por exemplo a touca… ou o espanador. A touca é um pouco como um nariz de palhaço mas melhor. Nenhum de nós que veja um tipo todo nu à excepção do nariz vermelho, irá prematuramente assumir que ele é um palhaço. Mas se nos aparecer uma jovem envergando apenas uma touca de renda e empunhando um espanador, a primeira coisa que esperamos ouvi-la dizer, será – “Je vous en prie monsieur. Je suis une pauvre fille du pays…”.

É este um dos uniformes cuja forma mais se apurou através dos tempos. Por exemplo, porque pensais vós que o cinto do avental é feito em algodão reforçado? Ou melhor ainda… Porque é que o mini-vestido é mais curto atrás que à frente?...

Infelizmente não posso aprofundar hoje este tema tanto como desejaria; e vou ter que vos deixar com estas inquietantes dúvidas, pois acabou de chegar o “room service”.

- Entrez

Música de Fundo
Cream” – Prince

terça-feira, 29 de março de 2005

Aerodinâmica
- Reflexões poéticas de quem tem mais que fazer… -

Anjo
que tem asas e não voa
é uma galinha

Ave de cu grande
e mente miudinha

Um ser alado
que vive no medo

Algo que se depena
e a quem se mete o dedo

Anjo que não voa
é um anjinho

Recebe apenas
pena
e não carinho

Música de Fundo
Alive” – Pearl Jam

segunda-feira, 28 de março de 2005

O Ajuste de Contas
- We have just made him an offer he couldn’t refuse… -
(Gunther “Santa” Klaus)

Há muito tempo que trabalho para o Klaus. E talvez esta lealdade se deva a uma infância passada entre vestígios de toda a sua obra; apenas sei dizer que nos sentíamos parte de algo, uma espécie de “omertá” entre duendes, elfos, controladores aéreos e escritores de ficção.

Apesar de velho e rabugento nunca o vi fraquejar. E para os que julgam que a idade o amoleceu, vou contar-vos como despachámos o Jack. Não o Jack Daniel’s (que esse despacha-se sem grandes problemas), mas sim Jack Easter “Bunny”; um ranhoso sem um pingo de dignidade que se infiltrou na nossa organização, e tentou aproveitar-se disso para enriquecer depressa.

Há já várias gerações que controlávamos o negócio da distribuição. De início a nossa percentagem no “racket” dos presentes era insignificante; mas o Menino Jesus (chamavam-lhe assim porque tinha as faces rosadas e bolachudas) não conseguiu aguentar a concorrência, e um belo dia suicidou-se com uma “overdose” de chocolate laxante (que por acaso se encontrava dentro de uma caixa de bombons).

Não foi espectáculo que se recomendasse a estômagos fracos; o próprio cangalheiro tirou-lhe as medidas para o caixão com um teodolito, e a cerca de 20 metros de distância. Restou-lhe a consolação de que as flores mais viçosas daquele cemitério, são as que crescem sobre a sua campa.

Mas adiante.

Os nossos problemas começaram numa altura em que ainda pouco se oferecia na Páscoa. Numa tentativa de expandir o nosso nicho de mercado, Klaus apareceu com a ideia de uma oferta onde imperasse o simbolismo, e que fosse minimamente apelativa pelos padrões actuais do consumo.

Criámos então os ovos de Páscoa. A redenção da Semana Santa era representada através de uma oferta de delicioso chocolate; e que mais indicado seria para uma alegoria ao sofrimento de Cristo que a própria forma de um ovo? Sim! Tentem lá pôr um ovo, e depois venham-me falar de sofrimento.

Mas o Natal era o “mainstream” das nossas receitas e não podíamos desviar recursos para a nova operação; pelo que um dia a meio de uma reunião de produção dei a ideia do “outsorcing”. Poderíamos contratar alguém que conduzisse independentemente a operação em sistema de “franchising”; e utilizando a nossa estrutura actual bem como a imagem de marca, distribuir os ovos de Páscoa em nome da organização.

O primeiro nome que tirámos do chapéu foi Jack Easter “Bunny”, que já tinha dado provas de grande capacidade; apesar do lamentável episódio com a tartaruga. Mas tudo isso tinha sido já resolvido com uma deliciosa sopa logo a seguir. Os nossos profissionais estavam sempre preparados para todas as eventualidades.

O Duende desconfiado como sempre, coçou a cabeça através do barrete verde e ainda me perguntou – Tens a certeza, Rudy? O único coelho de confiança é “à caçadora”, e o meu estômago já não se dá muito bem com o pão frito…

Na altura eu era muito jovem e ainda não tinha este nariz vermelho. Assegurei-lhe que Jack era a única escolha lógica, e Klaus naturalmente apoiou-me visto que eu era o seu principal colaborador e com uma lealdade mais que provada.

Os negócios melhoraram visivelmente, e a época da Páscoa acabou por se revelar uma boa aposta, visto que o dinheiro não parava de entrar e os ovos vendiam-se sem qualquer problema apesar de serem ocos para poupar matéria-prima.

Mas todos os esquemas têm uma falha. Neste caso o problema acabou por se revelar como sendo a sede de poder do nosso associado. Que começou a fazer constar entre os consumidores, ser ele quem controlava aquele novo negócio, deixando inesperadamente de pagar a percentagem que nos era devida.

Klaus teve um ataque de fúria quando soube. Partiu a pontapé um presépio e uma palette de embalagens de Barbies, e virando-se para mim exigiu que pusesse termo àquela usurpação, de modo a que nunca mais ninguém tivesse a veleidade de repetir a gracinha.

“Bunny” traíra a minha confiança, e colocara em causa a minha honra e credibilidade dentro da organização.

Lembro-me bem; era noite de Sábado de Aleluia. Após o jantar mandei os miúdos para a cama, vesti o sobretudo de pele de camelo e despedi-me da minha corça com um beijo. Já na rua verifiquei a “artilharia”, estava tudo como devia ser. Embrenhei-me na noite…

Sabia o que havia de fazer para que parecesse um acidente. A meio do trajecto que sabia ser o habitual, deixei-me ficar estacionado na berma e mantive os faróis apagados para que não me fizesse desnecessariamente notado.

Passados cerca de quarenta minutos, vi-o aproximar-se pelo retrovisor no seu passo elástico e saltitante, acabando por me ultrapassar sem ter reparado em nada (apesar do meu veículo ser um pouco fora do vulgar).

Pus-me discretamente em marcha, e acelerei até me colocar imediatamente atrás dele. Tão perto que quase conseguia ver cada pêlo daquela cauda ridícula em formato de borla de pó de arroz.

Sem levantar suspeitas coloquei-me quase a par com ele, e quando íamos a passar por um semáforo guinei o trenó e dei-lhe um “encosto” que o fez ir bater directamente com as orelhas no poste. Ouviu-se um ruído seco como o de uma amêndoa tipo francês a ser trincada, e o traidor foi cair na berma espalhando todo o conteúdo do cesto.

Parei apenas o tempo suficiente para tirar uma foto que provasse ter o serviço ficado bem executado. Finalmente Jack Easter “Bunny” saldara as suas contas, e “Santa” iria ficar contente; talvez até me desse um bónus de Páscoa. Regressei a casa e dormi descansadamente o resto da noite.

Ninguém trai impunemente a nossa organização! Ou eu não me chame Rudolph Rain “Dear”…

Música de Fundo
I Just Wanna Live” – Good Charlotte

sexta-feira, 25 de março de 2005

O Trono do Espiritual Reumático

- Num futuro provável e numa galáxia aqui ao lado, a indústria automóvel decide tomar o céu de assalto. A única coisa que poderá salvar a divindade e o seu Paraíso, é a intervenção de um escritor de textos reles mas que porém se transformam em factos reais. Infelizmente para o destino do universo, ele está-se nas tintas para toda essa treta e ninguém o consegue encontrar a tempo de vencer as forças digitais que já metem o dedo pelo céu adentro… -
(se consegue ler isto, é porque não precisa de óculos)

Boa tarde espectadores. Fala-vos o enviado especial Emanuel Baião, directamente da Praça de S. Pedro no Vaticano para a TVI.

Como sabem, na semana passada João Paulo II foi passado à reserva com todas as honras, tendo-se retirado para uma pequena quinta que Lech Walesa lhe ofereceu no voivodato de Kujawsko-Pomorskie

Esta reforma sem precedentes (Pois como sabem os Papas morrem, poupando ao Vaticano imenso dinheiro em pensões de reforma), deve-se ao facto de Sua Santidade ser um pouco badocha, não permitindo a utilização de fio de pesca para lhe mover os braços e a cabeça. Pelo que mesmo o crente mais pitosga 50 metros abaixo dele, conseguia ver os cordéis que o moviam enquanto discursava da varanda.

Este conclave dura já há cinco dias. E à semelhança do seu antecessor D. António Ribeiro, D. José Policarpo tem empatado a eleição com questões de pormenor; tais como se o candidato é contra o preservativo ou apenas contra os que têm sabores de frutas. Pelo que Sua Eminência Giovanni Battista lhe pediu que saísse e fosse à Trattoria Lombarda da Peppino, para trazer algumas sandes de presunto e uma garrafa de valpolicella.

Neste momento e aproveitando a ausência do lusitano empata-votos, as portas foram trancadas e procede-se no interior à votação que indicará qual o próximo Pontifex Maximus, bem como se terá direito a aumento nas ajudas de custo tal como vem a ser reivindicado desde Pio XII.

Na Praça os fiéis aguardam o rolo de fumo que anunciará a decisão. Tal como é tradição se a votação for inconclusiva, deitar-se-ão orégãos húmidos sobre a pizza, o que produzirá uma coluna de fumo negro. Já o fumo branco que anuncia o novo Papa, é produzido pela adição de anchovas do adriático, que ardem muito bem e com um aroma divinal (especialmente em combinação com pimento morrone).

A identidade do candidato normalmente permanece secreta, mas desta vez conseguimos infiltrar José Castelo Branco disfarçado de freira, e ficámos a saber que se trata de um robot ASIMO no qual foi implantado um chip com a identidade do defunto cardeal Funio Hamao, falecido há um mês durante uma noitada numa casa de gueixas.

Apesar das preferências ecléticas do cardeal quando em vida (pois tanto apreciava o tradicionalismo em quimono, como o modernismo em uniforme de colégio), a eleição da sua memória em ROM não suscitou grande celeuma, pois o ASIMO apesar de bem equipado faltam-lhe ainda algumas peças para que se possa equiparar a um papa com cinquenta e cinco anos e no limiar da andropausa.

Chegado da Trattoria, D. José Policarpo descobre que foi deixado de fora, e pousando no chão o embrulho das sandes e a garrafa esmurra repetidamente a sólida porta perante o discreto sorriso dos guardas Suíços (que como todos sabemos, são neutros e não se metem nestas coisas).

Do meio da multidão, um engraçadinho (possível apreciador dos Flintstones) grita - “Wilmaaaaa! Abra a porta, Wilmaaaa!” – e a multidão de crentes manifesta a sua boa disposição com sonoras gargalhadas. Na verdade o nosso Cardeal sempre teve o condão de provocar uma risada saudável onde quer que vá…

Mas esperem! Estou a sentir um aroma divinal de massa estaladiça, mozzarella e anchovas do Adriático. Por cima da praça uma nuvem de imaculado fumo branco, semeia lágrimas de comoção nos olhos dos fiéis que tossem respeitosamente; agradecendo aos céus este resultado (e também porque os orégãos húmidos deitam um fedor enorme a bafio, e irritam mais a garganta).

A Pizzeria Vaticano acaba de eleger uma nova gerência. E o decano dos diáconos anuncia ao povo que a eleição está terminada, com a conhecida fórmula - "Annuntio vobis gaudium magnum. Habemus papam dominum cardinalem ASIMO qui sibi nomem imposuit PacMan V2.1"

Salve ASIMO! Conhecido agora pelo nome religioso de PacMan V2.1.

Acaba assim a transmissão em directo da Praça de S. Pedro no Vaticano para a TVI. Despeço-me pois em nome da equipa técnica, e vamos desligar a câmara antes que D. José Policarpo queira dizer alguma coisa pois parece-me vê-lo a dirigir-se para nós.

De qualquer modo está quase na altura de o novo Papa vir à varanda para a sua primeira bênção Bukkake (uma tradição nipónica), e ainda ontem limpámos o equipamento.

Atenção estúdio…

Música de Fundo
I’ll Be Your Mirror” – The Velvet Underground

quinta-feira, 24 de março de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- Mais uma do Aborto… ou para os anais (não sei bem) –

D. José Policarpo (para quem não conhece, é um senhor que usa saias, chapéu bicudo e diz imensas incoerências) mais uma vez veio a público dar-nos o benefício das suas reflexões dignas de um Groucho Marx, ou mesmo do saudoso Popov.

Como não poderia deixar de ser, veio manifestar-se em relação ao aborto; e realmente é peculiar esta tendência que o tipo tem para se repetir nos temas. Ou os seus discursos são escritos pelas Produções Fictícias, ou então é como diz o provérbio – “quem fala no barco…” – enfim, no fundo um confessionário não passa de um armário dourado…

Que o digam os miúdos do coro da diocese de Bóston.

Na realidade, desta última vez nem se manifestou contra o aborto propriamente dito, mas sim contra o próprio referendo, o que já é muito mais apropriado à filosofia e tendências da Igreja Católica.

Segundo o Correio da Manhã (que é um pouco mais credível que o 24 Horas), sua Eminência diz que “é uma questão de cultura e ética fundamental”(SIC), o que nos conduz ás justas perseguições feitas a Judeus, Cristãos Novos, cientistas metediços como Galileu, autos de fé, e outras acções disciplinares tão ao gosto desta organização que teve como primeiro Papa o homem que renegou Cristo três vezes.

Termina finalmente dizendo, que quem envereda pelo aborto é porque não quer enfrentar dificuldades. E realmente até é fácil de perceber, pois desde tempos imemoriais que o Vaticano é famoso por nos pôr a todos em maus lençóis. Tendo ele próprio em várias épocas difíceis “sacudido a água do capote”, como foi no caso do Holocausto, e isto só para aflorar o assunto.

Venham lá agora dizer-me quem é que não quer enfrentar as dificuldades.

Embora não o possa afirmar categoricamente, poderá haver uma outra razão para este encarniçamento contra a contracepção por parte da Igreja. E essa seria o tentar impelir os católicos para a “terceira via”. O que pela parte que me toca e caso se viesse a provar ser verdade, faria com que em contrição eu pedisse desculpas ao ridículo personagem e talvez até o convidasse para um gin & tonic.

Mas não me parece… Como diz alguém que eu conheço – “Não há cu nem paciência…”.

Musica de Fundo
Fuck The People” – The Kills

terça-feira, 22 de março de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- O Defeso –

Dirijo-me hoje á congregação para dar uma breve palavra sobre O Defeso; ou aquilo a que a concorrência pomposamente chama de Semana Santa.

Chamamos-lhe O Defeso porque para não ferirmos susceptibilidades, é nesta época que a Nossa Igreja decide abandonar temporariamente a linguagem e temas profanos para se entregar á reflexão; ou mesmo para “passar pelas brasas”.

Não que a altura signifique algo para nós, mas apenas porque temos respeito pela fé do nosso vizinho (especialmente se este for um barbudo que ande armado e nos acorde á noite com gritos de “Alah al Akbar”).

É por isso que não subscrevemos as opiniões de meia dúzia de tansos, que andam aqui pela blogosfera a desejar que desse um “treco” a Sua Santidade.

Sua Santidade é uma imagem de marca, e está para a Igreja Católica como o boneco da Michelin está para os ditos pneus ou os glutões para o Presto; e o facto de não dizer coisa com coisa nem sequer é importante. Alguém se importa com o que terá para dizer o simpático palhaço da McDonald’s?

Tirar Sua Santidade da Igreja Católica seria o mesmo que privar Noddy da companhia do seu amigo Orelhas Grandes. Pois sem ele nada daquilo teria a mesma piada, tal como os teletubbies sem o simpático e apaneleirado Tinky Winky.

Mas chega de liturgia.

Serve esta pequena homilia para vos informar, que dificilmente esta semana lerão neste blog algo de menos próprio. Apenas histórias morais, ou pelo menos com uma moral no fim se não se arranjar melhor.

Por isso vos desejo uma Páscoa Feliz, e que Blog vos acrescente… onde queirais.

Música de Fundo
Dakota” – Stereophonics

*

Voaria
se desejasse uma estrela

e talvez mergulhasse
se quisesse
um coral raro e belo

Mas
em vez disso
parei

E fiz o destino tropeçar em mim

Música de Fundo
Little Spacey” – Cocteau Twins

domingo, 20 de março de 2005

Pela Sua Saúde
- Blog is riding again… -

Voltei a pedalar pela primeira vez após o incidente Loch Ness (a minha queda na piscina), e aproveitei para ir tomar o pequeno-almoço à Praça de Blog em Almada.

Estava eu então muito descansadinho sentado na esplanada e a tentar imaginar o que escreveria hoje, quando um distribuidor de publicidade me entregou reverentemente uma publicação chamada “A Família Portuguesa”; em cuja capa pontificava uma sorridente Helena Isabel que prometia revelar “A minha arma secreta para manter a pele jovem”.

Soou-me logo a rebaixolice. Principalmente porque um casal idoso e sorridente, afirmavam em rodapé “As dores nos joelhos desapareceram”. Interroguei-me se teria acontecido o mesmo ás do pescoço e maxilares, e decidi finalmente embrenhar-me nos meandros da ficção especulativa.

É que uma última legenda afirmava “Sinto-me atraente de novo”. E pela foto que a encimava deduzi que só poderia ser causada por drogas… A afirmação, claro.

Desfolhei a primeira página.

Entretanto, a dona do estabelecimento trouxe-me a torrada e a bica dupla. Esta mulher tem o inquietante hábito de me tratar por “meu senhor”, o que ás vezes me arrepia um pouco; mas talvez seja apenas o vento através dos calções.

Não me admirei ao constatar que o folheto teria sido emitido por uma rede internacional de traficantes de drogas inúteis (ou quase). Editado na Dinamarca ( a capital do porno, tal como Paços de Ferreira é a capital do móvel) Pela House of Trends para a AD-Sales que por sua vez é propriedade da Burda GmbH e da tabsandmore.com.

Finalmente chegávamos a algum lado, tratava-se de drogas inúteis para gente entediada ocupar os tempos livres. Intrigante no mínimo; pois que eu saiba, quase nada do que é legal dá grande “stone”.

Dei uma dentada na torrada sem manteiga e debrucei-me sobre a página 2, onde uma quarentona elegante passava a perna por detrás do pescoço informando a título de introdução – “As minhas pernas estão muito mais tonificadas…”.

Tal não me admirou, pois é sabido que aquele tipo de posição além de tornar o sexo mais interessante, contribui também para a melhoria do tónus muscular.

Nalgumas linhas judiciosamente introduzidas no meio desta enorme treta, asseguravam-me que tudo se devia ás milagrosas propriedades do CLA (ácido linoleico conjugado); coisa que não acreditei, pois em conjunção com o linóleo (do CLA ou outro) a única coisa que ficaria bem, seriam talvez as costas de alguém.

Na página 8 a Cristina (nome possivelmente falso) que tinha perdido 30Kg de gordura e ficara óptima (embora apenas se visse a cara), não explicara o que fizera à pele. Pois das duas uma, ou tinha sofrido uma intervenção de cirurgia plástica, ou a mão que eu não via estaria nas costas a segurar a pele excedente.

Além de utilizar o nosso já conhecido CLA, utilizara também crómio (um oligoelemento vital, também utilizado para evitar a oxidação de pára-choques em automóveis). O que talvez fosse a causa de ela ter uma cara parecida com a frente de um Cadillac…

Ou talvez fosse do BioActivo®. Uma marca registada que designa algo que não explicaram nas 38 páginas do folheto, mas que constava em quase todos os anúncios.

A página 12 esclarecia-nos que a Carolina (de 37 anos) está muito feliz com os resultados observados na utilização do coenzima Q10. Resultados estes que seriam a cura de uma anemia e a recuperação de toda a sua vitalidade, incluindo a sexual (talvez não fosse casada…).

Infelizmente algo deve ter corrido mal durante o processo, pois a foto que eu contemplava tinha uma mulher que aparentando cerca 60 anos abraçava uma menina que devia ser a sua netinha.

Talvez não fosse assim tão boa ideia incluir o coenzima Quinona Q10 no meu regime alimentar. Mesmo que afirmassem ter igualmente melhorado a pele a as unhas, penso que o preço a pagar seria demasiado elevado…

As declarações dramáticas da Nilza Lopes, reformada e com 59 anos comoveram-me logo que cheguei à página 14 – “Fiquei realmente aliviada quando o sangramento das minhas gengivas parou…” – afirmava enquanto sorria para a câmara e mostrava uma reluzente “cremalheira” apenas possível graças à utilização da conhecida coenzima.

Contou-nos ainda outro drama que a afligia. Os seus joelhos estalavam sempre que os dobrava, o que era deveras incómodo e denunciador, especialmente se tudo estivesse em silêncio e quisesse ser discreta (admitimos que num pinhal e a meio da noite, soa como um tiro de pistola). Felizmente a glucosamida, igualmente comercializada pela tabsandmore.com resolvera o assunto com toda a limpeza.

Foi aqui que comecei a pensar, que talvez fosse uma boa ideia incorporar as propriedades milagrosas dos suplementos alimentares na religião de Blog. A atestá-lo lá estavam muitas mais declarações, como – “A dor do meu joelho desapareceu. Aplicar chão, agora, é mais fácil”. – Resultante do uso de Sulfato de Glucosamina.

Nem cheguei a ler o artigo sobre a Helena Isabel. Pois logo a seguir ao anúncio de “comprimidos de beleza” Evelle, um pequeno artigo de fundo anunciava que o selénio pode prevenir o cancro.

Fiquei muito mais contente. Pois pelo menos havia alguém que eu conhecia, que teria tido as suas probabilidades de ter cancro bastante diminuídas. Isto se pensarmos que a maior parte do leque da radiação emitida por uma fotocopiadora é devido ao selénio, e que se sentarmos alguém em cima dela…

Não sei se terei ficado igualmente imunizado; mas valeu a pena. Também já foi há imenso tempo. Mas, adiante.

Na página 36 anunciava-se - “Agora, pode recuperar a sua memória perdida” – sobre a foto de uma avozinha com uma expressão tão alegre, que eventualmente teria começado a recordar os prazeres do sexo. Com aquela cara, só podia.

As maravilhas do Ginkgo Biloba (capilária) eram inúmeras; desde neutralizar os zumbidos nos ouvidos, até limpar a “canalização”. Esta última era anunciada em relação ao sistema cardiovascular. Embora no caso da avozinha me parecessem haver igualmente outras canalizações a precisar de desentupimento.

Acabando o café, dei o último pedaço de torrada ao pombo do costume, e pensei que talvez fosse uma boa ideia a Igreja do Imaculado Blog, propalar a salvação pelo Omega3, ou talvez mesmo prometer a vida eterna aos utilizadores de Óleo de Yombine.

Aparentemente Blog não gostou da ideia, pois começou de imediato a chover, e tive que aproveitar o folheto para tapar a cabeça a caminho de casa.

Há males que vêm por bem. Pelo menos choveu.

Música de Fundo
I Feel Free” – Cream

sábado, 19 de março de 2005

Palavras

Há palavras que se fizeram
para serem rasgadas em momentos de fúria
caladas num momento de emoção
ou gritadas do topo de um penhasco

Há palavras físicas
que nos cravam os dedos frios
por dentro da garganta
ou nos aquecem como se emergissem de um vulcão

Mas são apenas isso
palavras
feitas para serem gastas
usadas até nada significarem

E então nessa altura
não precisaremos mais de palavras…

Música de Fundo
Crazy” – Seal

sexta-feira, 18 de março de 2005

Declaração
- I declare… -

Agora que já me devem desculpar não escrever hoje só por ter posto lá em cima aquela foto tão ternurenta, vou compartilhar convosco mais uma pérola de sabedoria que a idade me proporcionou:

“Nas mulheres a idade adulta manifesta-se quando deixam de gritar pela mãe para passarem a gritar por mais”.

E agora meus queridos amiguinhos, deixo-vos com esta frase para que nela possais reflectir durante o fim-de-semana, e se possível também, fazer trabalho de campo.

(Isto é só porque não me apetecia escrever)

Música de Fundo
Beautiful Stranger” – Madonna

quarta-feira, 16 de março de 2005

O Fruto

O homem olhou a estrela com uma expressão cansada atravessando-lhe o rosto.

Pensativamente, sentiu com os dedos a última laranja que guardava no bolso; de algum modo não se decidia a comê-la. Era a última peça das provisões frescas, antes de passar a concentrados e ração de emergência; mas também a última ligação com o seu passado. E quem é que consegue viver sem um passado?

Reflectiu longamente na sucessão de infelizes acontecimentos que o tinham conduzido até ali. Tudo tinha corrido mal desde o princípio; e se as coisas começam mal raramente acabam bem.

Tentou imaginar como continuaria o seu curso a vida no planeta que orbitava a estrela. Mas uma das coisas que o espaço tem em comum com o tempo, é o esquecimento. Ou como se diria na preparação da missão, um atenuamento de realidades ultrapassadas.

Interrogou-se se um dia alguém compreenderia porque tinha aceitado aquela incumbência, e se os vestígios da sua presença imprimiriam no espírito de quem descobrisse, algo mais que uma piedade residual por um cadáver resultante de uma catástrofe com milhares de anos.

Estava ferido, mas nada disso o preocupava já. Deixara de se preocupar com esse tipo de coisas mal embarcara; era algo do qual nunca voltaria. Não sentia nada e nada queria excepto dormir, nem que fosse apenas por uns minutos… e esquecer-se de si.

Mas não queria ser encarado como um achado arqueológico. Um monte de ossos para estudiosos futuros, ou uma nuvem de pó a ser dispersa pela deslocação de ar dos jactos de aterragem.

Sentiu novamente a laranja; e a textura da casca fez-lhe subitamente lembrar um mamilo de mulher. Uma sensação que não voltaria a sentir. Pelo menos não nesta vida. E na outra, se a houvesse, duvidosamente…

Comprimindo com a mão direita a ferida que lhe perfurava o peito e dificultava a respiração, contemplou o veículo destroçado e sentou-se no chão.

Mais uma vez examinou detalhadamente o cintilante e longínquo foco de luz. Acabou por fechar os olhos enquanto se sentia invadir pelo frio, e o sono começava a chegar numa bruma azulada… Lentamente, deixou pender a cabeça sobre o peito.

Encontraram-no longo tempo após, e tal como ele imaginara.

Os primeiros a desembarcar ficaram um pouco surpreendidos, mas tiraram os capacetes mal o avistaram porque souberam de imediato que estes não seriam necessários.

No centro de uma clareira desenhada na vegetação local, uma frondosa laranjeira crescia em direcção ao céu; através do fato espacial esfarrapado onde uma luva descansava sobre o peito.

No exacto local onde o tronco da árvore atravessara o corpo, onde outrora pulsara um coração…

Música de Fundo
You Got To Love What You Do” – The Divine Comedy

Importante
- Se digo que é importante, é porque é mesmo -

A BlueC pede para que na medida do possível divulguem ou ajudem esta iniciativa.

terça-feira, 15 de março de 2005

Bus Stop
- There’s no business like show business… -

Quando entrei hoje no autocarro sentia-me um pouco apreensivo.

Talvez causada pelo atraso na chegada da Primavera, sentia que se começava a instalar em mim uma preguiça enorme e uma notória falta de vontade para escrever. Também, escrever sobre o quê?

Enquanto me debatia nestas existenciais interrogações, comecei a ouvir “sotto voce“ algo que se parecia com uma actuação do Grupo Coral da Associação dos Agentes Funerários do Sul e Ilhas. Mas antes que atribuísse o fenómeno ás celestes hostes de Blog, descobri que se tratava apenas do tipo ao meu lado que ouvia Evanescense com o Discman no máximo.

Ora aí estava alguém interessante sobre quem escrever. Com o sebo que ele tinha no cabelo, acho que conseguiria abastecer de velas um mosteiro de Franciscanos durante um mês. Mas acabei por concordar que era muito melhor empregue onde estava; pois proporcionava suporte a um imponente “risco-ao-meio”, que visto de frente se assemelhava deveras à armação de um búfalo de água.

Talvez não fosse assim tão original, pois já o tipo do vetusto anúncio da Macieira se penteava assim. Mas acho que foi logo a seguir a isto que tive finalmente a ideia….

Ainda não me recompusera da constatação de estar acompanhado pela antropomorfização de um búfalo, quando os meus globos oculares quase saltaram em direcção a uma passageira que acabara de entrar. Era gira, mas nem fora isso que despertara a minha atenção (Almada está cheia de mulheres giras…).

Na verdade foi o seu excêntrico modo de vestir que a tornou notada. Calçava umas botas de cabedal até ao joelho, após o que se seguia (alguns palmos acima) uma generosamente minúscula mini-saia quase tapada por um impermeável reversível daqueles com forro “tartan”.

A rematar o conjunto, usava um panamá impermeável empoleirado na nuca; dando todo o conjunto um bom efeito de estilo. Fez-me logo lembrar umas senhoras que nos anos 70, costumavam andar na Avenida da Liberdade para cima e para baixo a abanar a mala…

Foi então aí (como já disse antes) que tive a tal ideia.

Poderia ser um concurso. Dois concorrentes receberiam cada um seu autocarro, e tentariam mediante todos os recursos ao seu alcance adquirir o maior número de passageiros excêntricos, evitando é claro, que estes saíssem antes de chegar ao terminal rodoviário para atribuição da classificação.

Para melhor alcançar o objectivo desde concurso, ser-lhes-ia permitido recolher apenas quem quisessem ou recusarem-se a parar para largar passageiros. Estes seriam então levados por esta espécie de “Holandês Voador” da Carris, e haveriam igualmente prémios para os que tivessem a conduta mais invulgar ou bem comportada.

Assim, o concurso decorreria em duas frentes. Ou seja, entre os dois condutores ambos em busca dos passageiros mais excêntricos; e dentro de cada autocarro entre estes, que para as câmaras de vigilância tentariam tornar-se mais interessantes que o vizinho do lado.

Realmente esta última parte, é apenas o aproveitamento de uma tendência natural, comum à maioria dos utentes dos transportes públicos.

Radiante com esta nova ideia, entrei na Cafetaria da Dona Odete e sentei-me como é hábito no banco de pé alto, para beber o meu Earl Grey e destroçar a minha torrada sem manteiga.

Enquanto com a mão esquerda introduzia o pão alentejano na torradeira, ela virou-se para mim e com a outra mão passou-me o Correio da Manhã inquirindo – Já viu a seita que vai desta vez para a casa?

- Ora, Dona Odete – respondi desdenhoso – Não queria nenhum deles no meu autocarro. Disso pode ter a certeza.

E perante o seu ar espantado, sorvi ruidosamente o chá. Não sei porquê… mas sentia-me irreverente…

Música de Fundo
King of Rock’n Roll” – Prefab Sprout

domingo, 13 de março de 2005

A Igreja do Imaculado Blog (Nº 65)
- Apenas alguns versículos antes… -

Ainda existem tarefas simples que se podem realizar para limpar o espírito. Tais como recortar capas para CD’s ou ouvir um puto a bater bola contra uma porta.

Há uma crença que afirma ser possível continuarmos como somos se nos dedicarmos a coisas simples amiúde. Infelizmente em toda a nossa Igreja, não se consegue arranjar nem metade da fé necessária para esse tipo de realização.

É uma espécie de igreja dos últimos dias; que como sabem, é o tipo de religião que dura mais tempo. Pois ninguém quer ver chegar os últimos dias.

Chamem-lhe antes um truque de marketing…

Toda a religião deve ter música de fundo

Música de Fundo
The Road I’m on” – 3 Doors Down

quinta-feira, 10 de março de 2005

*
Sabes que ouço
o rio que corre dentro de ti?

Sabes que o sinto correr?

E o estremecer da tua pele
ainda de encontro a mim
a provocar-me
um tórrido arrepio

Só não sei explicar
porque ás vezes sinto
que sentes também tudo isto…

Sabes?...

Música de Fundo
To the Moon and Back” – Savage Garden

A Nomeação

Se não fosse uma amiga, talvez não desse por isso nos próximos dias. Pois não tenho tido ultimamente muito tempo para ler os meus blogs favoritos.

Um pouco como na festa de San Fermín não se trata bem de ganhar, mas sim de correr mais um ano com os melhores. Obrigado, Miguel!

.

quarta-feira, 9 de março de 2005

A Evolução do Pensamento Civilizado
- Onde aplicável… -

Quem não conheça o Bairro Amarelo, há-de pensar que é habitado por seres boçais que comem com as mãos e se coçam como os chimpanzés. E terá acertado em cheio!

Mas algo de que os referidos habitantes não podem ser acusados, é de ignorar a efeméride que ontem se comemorou. E a prová-lo, está o número de vezes que hoje ouvi a frase – Ouve lá! O “dia internacional da mulher” foi ontem; ouviste?

Foi com enorme comoção que ouvi hoje na Cafetaria da Dona Odete, a irmã da Tininha (a tal do traseiro “Cordon Bleu”) contar como o seu Arlindo esteve a “isto assim” (mostrando a ponta do indicador) de lhe espetar com o alguidar da roupa na fronha; e como se conteve quando ela lhe disse que era o dia da mulher.

É claro que mais tarde ouviu algumas alusões ordinárias à origem e utilidade da efeméride. Mas a irmã da Tininha é assim; não se interessa pelo que apenas lhe chega aos ouvidos, pois está sempre preocupada com algo mais substancial (lacuna que aparentemente o Arlindo não preenche).

Já noutra vertente do imaginário feminino (bem, é mais do masculino em relação ao feminino, mas “prontes”), ouvi o último trabalho de Paulo de Carvalho dedicado a todas as mulheres. Sem dúvida que já não chorava assim (de riso), desde o famoso “Mulher, Companheira, Camarada…”, com o qual eu e o resto da malta da pesada fazíamos espirituosos trocadilhos.

Mas realmente… Paulo de Carvalho deve ser a prenda ideal para aquela gaja odiosa que passa o tempo a arranjar-nos intrigas no escritório, ou para uma velha tia rica que não se decide a falecer oportunamente. Digamos que oferecer o disco de Paulo de Carvalho (que o meu velho curtia à brava), é como convidá-la para jantar e vomitar-lhe no colo. No mínimo é uma desagradável inconveniência.

Por isso, e analisando os acontecimentos de ontem, proponho que em vez de oferecerem CD’s do Paulo de Carvalho, protelar cargas de porrada ou oferecer flores (Sim, malta. É uma flor) como aquela ali em cima. Basta que durante o próximo ano quando chegarem a casa vindos do emprego, e perguntarem – O que é que se come? – Acrescentem meigamente no final – Querida…

Acho que comparativamente já será um progresso.

Música de Fundo
Perfect Skin” – Lloyd Cole and the Commotions

segunda-feira, 7 de março de 2005

Das Espécies Raras e sua Época de Acasalamento
- A componente recreativa da Etologia -

Embora o vulgar “blogger” não recorra a sistemas de captação de atenção muito complicados, tipo leque de penas ou traseiro azul saído em forma de abóbora chila, consegue-se com pouca margem de erro delimitar a sua época de acasalamento.

Usualmente acontece entre o fim do Inverno e o meio do Verão (altura em que os nossos espécimes se encontram mais susceptíveis), começando a notar-se pelo aumento de posts românticos, reminiscências de tempos idos e belas paisagens em tons suaves; de preferência com a silhueta de um par abraçado lá mais para o fundo.

O macho da espécie quando surpreendido no seu habitat natural, é cordato e de índole pacífica, chegando mesmo a ser sensível. Quando provocado por outros machos tende a justificar-se intelectualmente; embora em alguns dos casos possa mandar as conveniências ás urtigas, e ameaçar directamente o seu antagonista (nestes casos costuma justificar-se com o excesso de hormonas, e de como o outro tipo “o tirou do sério”).

Mas normalmente mantém o seu aspecto pacífico, o que reforça a tendência de quem o estude “in situ”, a considerá-lo moderadamente civilizado.

Já a fêmea da espécie tem um comportamento um pouco mais sofisticado, pelo que merece um pouco mais de atenção neste estudo (e também porque fêmea “per se” merece sempre um pouco mais de atenção). É nesta época que as cores garridas se começam a destacar na sua plumagem. Quer seja uma “corzinha” loura no cabelo, um top com poucos microns de espessura vestido sobre a pele, ou mesmo umas cuecas de cetim vermelho.

Dizem que nesta altura a sua imaginação é tão fértil, que algumas chegam mesmo a deixar-se tatuar em locais íntimos com desenhos sugestivos acompanhados por frases-chave como – “Arranque de Emergência – Carregue num botão qualquer”, “Naughty Girl” e “Alfredo esteve aqui…” (esta é a minha favorita). Demonstrando assim a imaginação que pressupostamente tenham.

Embora pareça o contrário, quem na realidade caça é a fêmea e não o macho (como algumas pobres almas já me tentaram fazer acreditar…), embora este sirva amiúde de chamariz. Função a que se presta de bom modo, pois após conquistado fica sob o poder da fêmea (tal como nas outras espécies superiores) que daí tenta retirar os dividendos inicialmente pretendido, bem como a barriga de misérias.

Os bloggers não se reproduzem tanto como se tem espalhado pela comunidade científica. A maior parte dá origem a Dreads, Betinhos e Nerds, subespécies estas que poderiam servir como objecto de estudo. Mas a tarde vai adiantada, e eu acabei por não ter trabalhado nada de jeito ainda hoje…

Música de Fundo
Misfit” – Curiosity Killed the Cat

domingo, 6 de março de 2005

Dia de Blog - Dia de Teste
.
entrancing
You have an entrancing kiss~ the kind that leaves
your partner bedazzled and maybe even feeling
he/she is dreaming. Quite effective; the kiss
that never lessens and always blows your
partner away like the first time.

What kind of kiss are you?
brought to you by Quizilla
.
.
Sinto
um beijo recordado
repetido

esqueço-me de mim
e sem fechar os olhos
Perco-me…
.
.
Música de Fundo
"Waiting For You" - Seal

sábado, 5 de março de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- Como são idiotas as parábolas da concorrência… -

Estava há pouco a pensar no que haveria de vos dizer. Se explicar como é importante para mim a poesia, ou apenas debitar a habitual conversa fiada; e não consegui decidir-me. Talvez porque todos gostamos de ouvir o que nos agrada, e eu não gosto de desiludir.

Estive quase para contar uma parábola budista. Mas era tão idiota que só a sinopse já me fazia atirar para o chão a rir. Mas serei breve a contá-la.

Duas divindades (com nomes estranhíssimos) discutem qual o mais piedoso e amante da vida poderia ser escolhido entre todos os príncipes. E chegados a um nome final, repararam que este nunca tinha sido testado e decidem fazê-lo; enviando-lhe um pombo que exausto lhe cai aos pés.

Logo atrás chega um falcão esfomeado que reclama a presa em nome da lei da natureza. O príncipe, para salvar o pombo decide cortar da sua carne o equivalente ao peso do animal para mitigar a fome ao seu perseguidor e assim lhe salvar a vida.

É claro que sendo calculista como todos os budistas, espera que as divindades atentem no seu gesto e lhe restituam a matéria perdida, bem como a saúde; mas estes estão entretidos a observar o Festival de Cinema Musical de Eichnapur, e não lhe ligam nenhuma. Pelo que se esvai em sangue, estragando a parábola budista e inviabilizando toda a posterior conversa fiada à roda do tema.

Moral da história. Em parábolas budistas ou as divindades estão mesmo atentas, ou temos o caldo entornado.

Uma moral mais próxima do que eu acho, dirá que quem é herói em parábolas para se tornar visto, corre o risco de ser vítima de alguma falta de atenção deveras grave. Mas adiante.

Reflecti ainda se seria asisado falar do Freitas, essa Irmã Lúcia da Democracia Cristã; esse ícone das catequistas fundamentalistas, esse John Travolta da comunhão dominical.

E Blog disse-me que sim; que era bom, que seria giro e eventualmente cómico. Porque alguém que usa fato com colete e cabelo à Marco Paulo com aquela idade, merece a nossa alegria e o nosso riso. Merece até alguns aplausos e apupos.

Bem. O Feitas, eu conheci-o.

Quando comecei a distinguir entre outras a sua voz maviosa e ciciante, debitava inferno e azeite fervente para os não crentes. Tão aterrorizante como um misto de preceptora e velha criada, que nos manda lavar as orelhas antes de jantar.

Era um chato.

Aparentemente o seu estatuto de parasita urticante não se modificou. Porque as dezenas de anos que separam essa mágica altura, dos dias actuais em que vivemos, correram sem história ou relatos de monta. O que politicamente quer dizer que ele nada fez; pelo menos que pudéssemos aprovar…

E então chega o PS (que é outra nulidade) com o seu 1º Ministro de plástico. Uma espécie de Ken cuja Barbie ainda é mais estranha. E vai colocar aquele atavismo político no cargo onde ele poderia fazer mais estrago sem ser corrido; no MNE.

E tudo isto porquê? Porque ele é viajado e tem bom ar. E é também porque é um velhote muito limpo.

Mas quem sou eu para poder falar de Freitas do Amaral? O homem realizou feitos importantes; como ter saído do CDS deixando-o mais fraco. Em certo aspecto fez mais pela esquerda enfraquecendo o CDS, que a maioria dos tipos que estão no governo do PS. Talvez por isso ele mereça a pasta; ou talvez já não houvesse mais ninguém.

Um pouco à semelhança do príncipe da fábula budista, Sócrates começa a agarrar-se ás aparências. Um pouco à semelhança da mesma poderá dar-se mal, se ninguém estiver a dar a devida atenção ao seu “número”.

Se querem mesmo saber a minha opinião… Ele vai mesmo esvair-se em sangue.

Musica de Fundo
Elegantly Wasted” – INXS

quarta-feira, 2 de março de 2005

A 5ª Pata do Cavalo de D. José
- Reminiscências… -

Não costumo ler o Barnabé (do qual não ponho o link, porque também não me linka) mas das poucas vezes que alguém me consegue convencer a fazê-lo, acabo sempre por dar por bem empregue o meu tempo. Principalmente porque me serve de inspiração para um ou outro post mais crítico.

Também gosto do Gato Fedorento (apesar de também não pôr aqui o link, mas desta vez por preguiça), e se algum dos membros dessa prestimosa agremiação decidiu fazer parte do Bloco de Esquerda, é porque será eventualmente o local mais indicado para recolher material para sketches. Como é o caso do famoso “falam, falam…”, inspirado naquele tipo de óculos que está lá à frente da banda.

Outra coisa boa no Bloco são as gajas. Segundo as directivas internas do partido, comunicado a ser lido na Assembleia da República, terá sempre que sair de uns lábios carnudos e bem desenhados. Pensando bem já que são idiotices, antes seja uma gaja jeitosa a dizê-las que aquele puto parvo que aterrou no Barnabé.

É até bastante gratificante notar que o Bloco reconhece a condição feminina como uma das suas prioridades. Livrando essas prometedoras jovens de terem que subir na vida sacrificando os joelhos como qualquer vulgar mulher-a-dias (ou pelo menos não durante tanto tempo).

Ainda há uns dias estava uma delas a ler “não-sei-quê” (A sua missão é exactamente evitar que possamos dar demasiada atenção aos comunicados), quando mercê de um particular ângulo do qual a sua face era iluminada, me lembrei instantaneamente da “Fada Sininho”

A Fada Sininho a que me refiro nada tem a ver com a história infantil, excepto talvez o som que produzia e que consequentemente lhe proporcionara a alcunha. Acrescente-se que na altura era um pouco mais velha que a média dos meus amigos.

Ela tinha aí 25 anos enquanto nós tínhamos 19; e os nossos caminhos apenas se tinham cruzado porque ao sair de um namoro de cinco anos com as mãos (e o resto) a abanar, decidira bruscamente que primeiro iria viver um bom pedaço em vez de se meter logo noutra. Mas era consenso entre o reduzido grupo de eleitos, que ela era uma boa fada…

O nome “Sininho” tinha origem numa enorme quantidade de pulseiras distribuídas pelos dois braços. Pulseiras estas que raramente tirava. O que fazia com que no momento em que atingia o orgasmo, se ouvisse um insistente tilintar como a aproximação da fada Sininho (embora o meu irmão me tivesse garantido, um dia em que chegou mais cedo a casa, que mais parecia a carroça do “petrolino”).

Mas lá estou eu a divagar…

Hoje mais uma vez o Bloco de Esquerda foi notícia. Mas como o texto não foi lido por uma das “comunicadoras” habituais, acabei por conseguir atentar no conteúdo; e a minha opinião sobre a fraca capacidade cerebral daquele verdadeiro conglomerado de idiotas, acabou por sair reforçada.

Não faço ideia se algum deles percebe alguma coisa de construção civil e obras públicas, economia ou organização autárquica. Na verdade estou-me nas tintas para isso, pois mais uma vez acabaram por demonstrar, porque é que não se encontra LSD à venda no mercado paralelo. Aparentemente têm-no açambarcado todo, que aquilo só pode ser mesmo dos ácidos…

Uma obra pública (O Buraco do Marquês) que tem contratos assinados, que se encontra praticamente a meio da fase de execução e que dará quase tanta despesa a anular como a concluir; e aquelas alimárias querem chegar por esta altura, e começar a perguntar a toda a gente se querem continuar o túnel ou atulhá-lo.

Eu estou quase capaz de jurar que aquela malta se droga. E com coisas bem mais fortes que uma inofensiva “ganzazita”. Ou então estão convencidos que são as únicas pessoas verdadeiramente inteligentes nesta terreola; e decidiram troçar das almas simples que os vão elegendo e tolerando (apenas porque é democrático e devemos dar as mesmas oportunidades a todos, inclusive aos deficientes mentais).

Em busca de uma designação tipicamente lisboeta que pudesse utilizar para me referir a este simpático grupo de azémolas, acabei por me deparar com D. José I (um tipo que fez muito pela construção civil, e que segundo os historiadores até bebia o seu copito) que por acaso estava montado na fonte da minha inspiração.

O Bloco de Esquerda é como a 5ª pata do cavalo de D. José. - Muita gente não sabe o que é, muitos outros não sabem onde fica, e na verdade só serve para sobre ela se fazerem anedotas.

Mas agora que me lembro… Realmente a “Sininho” era uma rica fada…

Música de Fundo
The Sign” – Ace of Base

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