sábado, 30 de abril de 2005

Pré-Post
- Em que se refina o acto pela sua antecipação –

O próximo post será de resposta a um desafio da Maria, embora eu prefira chamar-lhe “uma nova experiência”.

Desafio talvez fosse subir o Orinoco munido apenas de seis minis e um tuperware com moelas. Coisas como essas engrandecem o imaginário masculino, e são considerados desafios que honram qualquer um, sendo contados ás novas gerações durante anos.

Mas no que diz respeito à literatura masculina/feminina, penso que tem mais a ver com o escritor/a do que propriamente com a actividade.

A diferença que os sexos fazem na escrita é comparável a um filme que seja realizado de dois ângulos diferentes. No fim os factos são os mesmos; apenas o espectador é colocado num lugar diferente. O que existe na realidade (e não é algo que eu sancione) é uma escrita dedicada ás mulheres, do mesmo modo que tal existe dedicado para um público masculino.

Se tal é literatura ou não, é coisa que teria que ser estudada em outro post. Ou como se diz entre homens – Isso são outros “quinhentos paus”…

Escrever é como falar alto. Enquanto de uns se diz que discursam e são fluentes, de outros diz-se que são vulgares e barulhentos. Em parte pelo modo como o fazem, mas principalmente devido ao que querem transmitir.

Ambos mulheres e homens falam alto. Qualquer um deles pode ser um labrego a gritar ao telemóvel no meio de um restaurante, ou cativar-nos com as suas palavras a ponto de querermos saber mais sobre aquela pessoa que fala. E quando sentimos este tipo de coisa, é porque estamos na presença de um escritor/a.

Literatura talvez seja em parte algo que nos faz sair de nós e nos transporta para outras vidas e outros universos, mas é principalmente alguém que nos dá um pouco de si; e que nos deixa espreitar a sua alma, mesmo que por breves momentos.

Eu próprio não sei se estou a incomodar toda a gente ou a enrolá-los com a cantiga do bandido; não consigo ter essa percepção.

Por isso em vez de tentar discursar, vou cantar… talvez um pouco desafinado. Mas se me tornar chato, têm bom remédio. Mandem-me calar.

Esperem pela pancada.

Música de Fundo
Yes, The River Knows" – The Doors

quinta-feira, 28 de abril de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- A Chegada da Primavera e a consequente mudança de hábitos por parte dos Bloggers e outros Santos Homens (ou Mulheres) … -

Irmãos, não sei como é com vocês mas o meu telemóvel tem duas capinhas; uma preta, e outra azul. A primeira, uso-a durante o Inverno enquanto me visto de escuro; mas quando chega a Primavera, começo a vestir-me de cores claras e troco-a pela azul.

E um Zippo? Haverá algum mal em um Zippo ser de cor a condizer com o céu, pousado numa mesa de esplanada junto ao mar? (em princípio acho que não, a não ser que nos esqueçamos dele…) Estará errado ele ser azul?

Estava eu mergulhado nestas reflexões quase metrosexuais, quando compreendi que a Primavera é época de mudança de hábitos.

Para começar mudança de hábitos de higiene, tal como pude constatar agradado hoje de manhã ao entrar no autocarro do costume e farejar em redor. Um dos passageiros fora até ao ponto de vestir uma camisa lavada e branca, com um impecável vinco que parecia a lâmina de uma “ponta-e-mola”.

Mas então os óculos… Os óculos… Senhor…

Decerto segundo alguma religião oriental teremos entrado no ano da mosca. É a única razão plausível que consigo encontrar, para que toda a gente ande com óculos tipo “mosca varejeira”. É claro que existe a remota hipótese de se tratar de extra-terrestres; mas isto é um blog sério, e aqui não inventamos notícias como na TVI.

Onde ia eu? Ah, os óculos…

Bem isso até nem é assim muito grave. Mas acabei hoje por reflectir no desaparecimento gradual do simbolismo que povoava o nosso modo de vestir, caracterizando cada um segundo pormenores subtis que se acrescentavam ao conjunto.

É claro que chegados a este ponto da “conversa fiada”, quase todos os leitores devem ter tido a (correcta) impressão que estou apenas a tentar evitar o assunto.

É verdade! Mas eu explico.

A estrada militar que liga a Fonte da Telha ás instalações da NATO, era em tempos idos local de eleição para amantes, namorados e outros aficionados dos desportos de ar livre; Para gáudio dos guarda-florestais, entusiastas de fotografia e ornitólogos amadores que pululavam nas redondezas.

A vida era simples, e nada faria imaginar que tal paz viesse a ser quebrada. O certo é que se começaram a ver paradas na berma viaturas de tipo comercial e curiosamente apenas com um ocupante.

Mas há mais…

Após breve consulta a alguns utilizadores (ou usuários) dos serviços de prostituição disponíveis na área (ou em bom português, tipos que conheço e que costumam “ir ás putas”), fui informado que não se “faz a berma” naquela zona desde os anos setenta; altura em que a base tinha uma guarnição mais elevada.

Posto isto, fui obrigado a concluir que o facto de aqueles senhores se embrenhavam na mata aos pares, não seria o de fazer uma “vaquinha” para alguma profissional da caruma, mas sim com outros fins inconfessáveis.

Mas o mais chocante. E – queridos leitores – digo-vos isto sob a mais genuína das comoções… O mais chocante é que a maioria deles tinham carrinhas de empresas de construção civil, ou usavam à cintura o “tool-belt” característico dos biscateiros; o que fazia com que o local se parecesse um pouco com uma espécie de congresso de admiradores dos Village People.

E é esta última parte que realmente me preocupa. Eu trabalho numa empresa de construção civil, e nunca mais me sentirei à vontade no meio do pessoal das obras a proferir ordinarices, dando palmadas nas costas uns dos outros.

Isso foi-me tirado. Levaram a inocência que me permitia acreditar, que os gajos das obras não dão as mãos uns aos outros nem se embrenham na mata aos saltinhos, como se fossem figurantes no “Música no Coração”

Pois este post, serve pelo menos para vos garantir uma coisa. - Sejam quais forem as tendências para este ano, quem não vai mudar de hábito sou eu!

E posto isto o melhor é eu ir para casa, pois não estou a gostar nada do ambiente aqui…

Música de Fundo
Lucky Man” – The Verve

terça-feira, 26 de abril de 2005

Like a Virgin (ou parecido)

We've had a server failure. We are working to get everything running again. Regards,The CommentThis admin.

Foi-me esta a missiva endereçada pelo applet de comentários gratuitos, que no início da manhã (tal como ontem o dia todo) não me deixava saber se este blog está a ser detestado ou pura e simplesmente ignorado.

É claro que isto iria acabar por me estragar o dia, e tirar toda a vontade de postar o fabuloso relato da “Voyage Surprise”, que por este andar ficaria reservado para melhor altura.

“E os comentários não são assim tão essenciais, para que eu tenha que mudar de applet apenas por causa de um ou dois dias de mutismo.” - Esta última frase utilizei-a cerca de quatro vezes apenas para me habituar à ideia e não tomar nenhuma decisão precipitada, quando me ocorreu estar a enganar-me a mim próprio.

Não tenho pachorra para falhas e avarias, mesmo que por parte de serviços gratuitos (“serviço gratuito” é um paradoxo; facto que facilmente constataremos se nos dermos ao trabalho de investigar a motivação e origem dos fundos que pagam o “sistema gratuito”).

É claro que mais tarde irei ao CommentThis tentar recuperar quase dois anos de comentários. Mas isso é mais tarde… Por agora vou gozar a minha recém-adquirida virgindade.

Música de Fundo
Señorita” – Justin Timberlake

segunda-feira, 25 de abril de 2005

Finalmente, liberdade…
- O meu sonho de 24 para 25 de Abril -

Se a Revolução não tivesse sido feita na época dos cravos, tinha sido uma merda por causa dos cartazes. Até para ser revolucionário é preciso sorte…
(Aniceto Vanzeler – Ex-SNI)

Há muito que a nossa pátria se encontrava à beira da aniquilação. Restava-nos porém a convicção de que se aproximava o momento a partir do qual nunca mais as coisas seriam como dantes; e a esperança de que isso viesse finalmente libertar as massas oprimidas. - “… e todas as vozes que do fundo das trevas, clamam por justiça… ou por uma arrastadeira” – como tão bem o retratara o nosso último panfleto distribuído clandestinamente é população.

Nessa noite, encontrava-me de serviço ao “Rancho”. E o despenseiro Jordão já me piscara o olho ao dizer para “carregar no picante”; era a primeira senha indicando que o momento se aproximava..

Soube que se iniciara o Movimento no próprio momento em que tal aconteceu. Um camarada veio informar-me que a rádio “Voz da Arrentela” estava a difundir a discografia completa do famoso cantor Leonel Nunes, e que tinham anunciado uma retrospectiva de todas as entrevistas com o filósofo existencialista, Tino de Rans.

Era o sinal há tanto tempo esperado.

- A revolução estava finalmente em marcha – Pensei, enquanto as lágrimas me corriam pela cara pois o vento tinha mudado, e o fumo dos frangos que estava a assar vinha todo para cima de mim.

Vesti o blusão de cabedal negro, agarrei o rádio a pilhas e embrenhei-me na noite. Os meus camaradas deviam estar a sair de suas casas, despedindo-se das suas família e embarcando numa jornada rumo ao futuro. Um futuro que nos reservaria um lugar nos livros de história, e que se rescreveria passo a passo como uma espécie de guião de uma telenovela nacional.

Na minha jornada pela noite ainda se ouviam os últimos acordes do hino da revolução:

Se o feijão verde tem fio, porque é que não tem talo o nabo
Se a banana tem cacho, toda a uva tem de tê-lo

Só Leonel Nunes soubera condensar a angústia de um povo oprimido, e tão bem a representar no seu último disco. A censura tinha apreendido quase todos os exemplares, e os poucos que tinham escapado a essa voragem de barbárie, circulavam entre os camaradas que à noite na clandestinidade das suas casas ouviam em surdina os versos de “O Pau da Roupa da Minha Mulher” (DGEDA RT3523831 – € 4,50).

Quando passava a ponte, noticiaram a captura da família real que fora sumariamente julgada e condenada ao ridículo. Aparentemente isso não abalou D. Duarte Pio, que arengou sobre a sua longa tradição de monárquico burlesco, e a todos exortou que resistissem ao novo regime; embarcando de seguida no comboio com destino ao seu exílio em Badajoz.

Vieram-me ao espírito todos estes anos de luta clandestina. As acusações de irrealismo ideológico; de que comíamos criancinhas, etc. Quanto ao irrealismo até não seria muito grave, porque toda a ideologia política é composta por uma boa dose disso… mas as criancinhas até era bastante injusto. Não passara de um erro de identidade, e todas as miúdas tinham mais de 18.

Lembrei-me da minha companheira prisioneira das forças do regime, e obrigada ás maiores indignidades; sempre sob influência de drogas aniquiladoras da vontade. Uma mártir da causa…

Noticiaram na telefonia que as nossas forças tinham tomado Engenharia 1, Caçadores 5 e o 17 para Sapadores; após o que todas as comunicações tinham sido interrompidas (soube-se mais tarde que o revisor mandara apagar o rádio).

Passei pelo edifício do Parlamento mas tudo estava calmo. O GNR de sentinela escarafunchava o nariz com a ponta da baioneta, fazendo rodar a espingarda com o pé, como se fosse um taco de bilhar.

Ainda muita coisa teria que ser feita para trazer ao povo todos os elementos das forças militares e militarizadas. Ou quanto mais não fosse, pelo menos proporcionar-lhes cortes de cabelo decentes.

Cheguei à fortaleza ainda a meio da noite. Todos os projectores se encontravam ligados e apontados para a multidão, que esperava a libertação dos prisioneiros políticos. Alguns deles, para manter o moral cantavam “O Meu Dinossauro” de Quim Barreiros, e esticavam o punho erguido e fechado em direcção ás muralhas opressoras; que agora já nem pareciam tão altas assim…

Subitamente ouvimos um ruído crescente de vozes, e ordens de comando foram dadas para que se abrissem os portões. Corremos de rompante para a abertura escancarada nas muralhas da fortaleza, de onde começavam a sair os nossos camaradas de armas, de ar abatido mas vitorioso.

Vi-a. E gritei-lhe o nome que abrasou o meu peito ao sair em direcção à garganta. Ela começou a correr na minha direcção, mas foi detida por um jornalista que quis colher as suas primeiras impressões sobre a libertação. Quando a alcancei já este terminava – E foram estas as declarações de Elsa Raposo sobre a sua recente expulsão da “Quinta”…

Olhámo-nos, ofegantes. Ela ainda um pouco atordoada das drogas, beijou-me e farejando o ar em volta perguntou – Rico, que cheiro é este a frango assado?...

Foi mais ou menos por esta altura que acordei.

Música de Fundo
All The Pretty Girls Go To The City” - Spoon

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Voyage Surprise

Assim de repente como se nada fosse mais natural, propõe-se-me a jornada. Uma estrada aberta por entre árvores debruçadas sobre o viajante.

“Voyage Surprise” além de ser um filme francês de 1947, é um dos meus termos favoritos; pois significa um momento de liberdade imprevista que nos permite seguir para algo novo.

Tudo isto para dizer que me vou ausentar até perto das comemorações da Revolução. Coisa que não gostaria nada de perder nesta vizinhança; pois é sempre divertido assistir à lamechice e conversa da treta que são tão características dessa época.

Sinto desiludir os fiéis da Igreja do Imaculado Blog que esperavam um post, mas foi mesmo de surpresa. As minhas desculpas e até Domingo!

Música de Fundo
The Boys Are Back In Town” – Thin Lizzy

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Habemus Popó
- Alocução Latina que em tradução livre quer dizer “O táxi está lá fora à espera…” –

- Já de partida, eminência? E logo assim, sem se despedir do resto da malta…

- É verdade, Pirandello. Não tenho pachorra para festividades, especialmente se não for eu a ganhar – Respondeu o cardeal, embrulhando com a opa um cinzeiro de cristal com o escudo do Vaticano, e guardando-o na mala.

- Ora, eminência. Não tenha mau perder… E logo hoje que é dia do tradicional fondue oferecido pelos Guardas Suíços a Sua Santidade.

- Essa é outra! – Insurgiu-se o interlocutor – Que raio de nome é “Bento 16”? Parece um daqueles de aditivos inventados para os anúncios dos detergentes. “Compre o novo SKIP! Agora com Bento 16. A economia no dia-a-dia”.

- Para cardeal, você até dava um grande publicitário. – Disse Pirandello, apreciativo – Mas olhe que devia reconsiderar. Vai ser uma noite como não se viu outra desde Inocêncio 1º. Até o seu conterrâneo Pinto da Costa, prometeu que mandava algumas artistas de variedades para animar a soirée…

- Ó Pirandello, tenha dó! Se você quando se senta na pia, em vez de ler a Hustler pegasse antes no “L’Osservatore Romano”, já tinha descoberto que isso só dá maus resultados. Fique-se pelas Irmãs da Consolata ou pelos Pequenos Cantores de Viena, e já vai com sorte.

- Mas que feitio, eminência. – Suspirou pouco à vontade o prelado – E tudo isto apenas porque o apelidaram de “entrave epistemológico”. Leve o caso para a brincadeira e aproveite os festejos, que este papa ainda dura aí uns sete anos e tão cedo não haverá festa novamente…

Um camareiro entrou, anunciando que o táxi se encontra à espera no exterior. Sua eminência olha saudosamente um bando de pombos que sobrevoa a Praça de S. Pedro, e ajeita a túnica incomodado. – Este cinto de ligas dá cabo de mim! Bem, Pirandello. Dê cá um beijinho, que eu tenho que ir andando. Tenho que estar nas Caldas logo à noite, para a bênção das loiças…

Música de Fundo
Oh My God” – Kaiser Chiefs

terça-feira, 19 de abril de 2005

Seres Mitológicos
- Fadas, unicórnios e políticos competentes -

Aquela mocinha que vêem ali em cima é uma fada boa (pelo menos é o que as roupinhas querem dar a entender), e é também a prova viva de que se pode sair da mediocridade para a mediania sem perder uma lasquinha da sua verdadeira identidade.

Uma espécie de “Sonho Lusitano”, em que todas podem (se tiverem um mínimo de cabedal, claro) aparecer na página três de uma revista qualquer ou aviar copos ao balcão de um bar.

Quem não achou piada nenhuma a tudo isto foi o unicórnio; neste caso o primeiro ex-marido que é canalizador, e que durante toda a manhã de ontem ouviu bocas do género – “Se soubesse que ela era tão boa, quem te tinha metido os cornos era eu…” – e outras ainda mais criativas mas que não posso reproduzir aqui, sob pena de perder parte da minha já por si tão reduzida clientela.

Mas passando por cima de pormenores insignificantes; temos que admitir que esta ex-habitante do “Lazareto” conseguiu lançar-se no estrelato por mérito próprio, e mercê do seu esforço continuado e boas qualidades. Tendo tal como Dorothy, encontrado o seu caminho (um pouco ás apalpadelas) nesta estrada amarela que segue em direcção à “24 de Julho”.

Embora o artigo seja omisso em alguns pontos que se poderiam tornar interessantes, no fundo o que interessa é a foto. E todo o Plano Integrado de Almada se sente orgulhoso, por mais uma das suas filhas compartilhar o panteão das boas fadas que sobem na vida, onde se encontram nomes sonantes como Elsa Raposo e Carla Matadinho .

Quem a conheceu há uns anos com o pneu a sair das calças e cara de bolacha, não imaginaria que ela conseguiria abrir os olhos a ponto de se transformar nesta personagem que dá gosto observar. Sem dúvida um magnífico trabalho de transfiguração.

Daqui endereçamos os nossos parabéns à beldade do bairro amarelo, ao novo namorado que deixou enviar a foto (provando assim que não é ganancioso), aos ex-maridos que foram financiando a transformação e a todos os que tornaram possível que eu escrevesse mais um post, enquanto estou com tão pouca vontade de o fazer.

Nota da Redacção – À hora que este post acabou de ser redigido, e apesar de exaustivas buscas, ainda não tínhamos encontrado um político competente tal como prometêramos no subtítulo; pelo que apresentamos as nossas mais sinceras desculpas.

Música de Fundo
Hot For Teacher” – Van Halen

domingo, 17 de abril de 2005

Tempo

Como se eu fosse um relógio
o tempo foi-me enviando grãos de areia
através dos anos

Para me tolher o passo
desgastar as engrenagens
e por fim me parar

Fui assim adormecendo
prisioneiro das areias do tempo
que me tolhiam os passos

Um dia olhei em volta
mas era apenas areia
grãos finíssimos que até o vento podia dispersar

Acordei
e retirei-os a todos
um a um

Fiz uma ampulheta
que ás vezes contemplo
para me recordar a futilidade
do que nos mantém prisioneiros

Música de Fundo
Zeit” – Tangerine Dream

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Frase para Reflexão
- Com o patrocínio da Igreja do Imaculado Blog –

Vai começar mais um fim-de-semana. Altura em que os bem-aventurados servos de Blog estão mais disponíveis para se poderem entregar à luxúria, gula, preguiça e outras actividades lúdicas tão próprias da vida moderna.

Eu comecei já pela preguiça, pois não me apetecia escrever hoje. Mas quando me encontrava a meio do questionário abaixo, ocorreu-me que este tipo de coisas serve apenas para armar ao pingarelho (tal como já alguém muito bem o disse) e inflar o próprio ego.

Como todos vós sabeis, inflar o próprio ego faz imenso mal à coluna; além de ser pecado segundo os mandamentos de Blog (12º Mandamento – Não te inflarás a ti próprio ou ao teu ego, nem cometerás adultério com gado lanígero).

Por isso, aos que responderam com todos os livros da moda e outras publicações profundamente culturais (embora possam até na realidade ter respondido honestamente), deixo a seguinte frase para que nela possais reflectir durante o fim-de-semana:

- “Na maioria dos casos, uma plumagem demasiado bonita atrai mais a pontaria que a admiração…”

Música de Fundo
The Beat(en) Generation” – The The

Teste? Qual Teste?
- O gosto pessoal de cada um não se testa. Por isso, este post é meramente informativo -

A Ana enviou-me o seguinte questionário que vou preencher apenas porque mo pediu, e igualmente porque não tenho o que escrever para hoje. Mas não levem as respostas demasiado a sério; desde os tempos de escola que conheço a verdadeira utilidade destes questionários.

1 - Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro querias ser?

Para começar não gostaria de ser um livro dentro do Fahrenheit 451, pois todos eles foram destruídos na sua forma física (e eu sou muito cioso de todos os meus pertences e acessórios).

Se tivesse mesmo que ser um livro, e já que alguns deles acabaram por sobreviver ao serem memorizados, gostaria de ser “O Outono em Pequim” de Boris Vian. Pelo menos quem me memorizasse, havia de se divertir ao relembrá-lo para alguém.

2 - Já algumas vezes ficaste apanhadinho(a) por uma personagem de ficção?
Já! Mas a partir daí comecei a ter mais cuidado com as mulheres por quem me apaixonava…


3 - Qual o último livro que compraste?

“O Mundo Exterior” de Isidore Hailbum. Como seria de calcular, estava sem nada de novo para ler, mas mal o comprei apareceram logo mais e melhores para ler. É sempre assim…

4 - Qual o último livro que leste?

“Horizonte Perdido” de James Hilton.

5 - Que livro estás a ler?

“A Pegada” de Larry Niven e Jerry Pournelle.

6 - Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

A mania que esta malta tem de pensar que se vai para ilhas desertas para gozar o prazer da leitura…

E o apanhar sol, subir a coqueiros, fazer amor na rebentação e assar caranguejos numa fogueira à noite na praia?

Mas pronto. Já que isto é um inquérito à falta de imaginação, lá vai:

a) “Poesia Toda” de Herberto Hélder

b) “Ilhas na Corrente” de Ernest Hemingway

c) “Cândido” de Voltaire

d) “Pela Estrada Fora” de Jack Kerouac

e) “Trópico de Capricórnio” Henry Miller

7 - A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?

Na verdade, a ninguém (tal como da última vez).

Mantenho a minha tradição pessoal de ser aquele que quebra a corrente. Mas se alguém quiser soldar o elo… Be my guest.

Música de Fundo
“Killer”Adamsky

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Post para dois Bloggers

Não acredito em finais felizes, ou pelo menos não me habituei muito a que eles aconteçam; e quando tento animar alguém, é com a sensação que estou a mentir descaradamente por uma boa causa.

É assim que eu sou.

Talvez porque sinta as coisas intensamente, sou um tipo de vinganças. Por isso, quando vejo alguém derrotar o destino ainda que por breves momentos, regozijo-me como se isso se passasse comigo.

Este post não é para ser entendido, excepto pelas duas pessoas a quem é dedicado. Agora que ganharam, tentem manter a vantagem…

Música de Fundo
I Believe I Can Fly” - R. Kelly

terça-feira, 12 de abril de 2005

O Mestre do Eufemismo
- A utilização da língua em actividades recreativas … -

Chamaram-me ontem “Mestre do Eufemismo”. Nada mais errado…

Qualquer político, clérigo, ou outro tipo de hipócrita profissional faz isso bem melhor que eu; e talvez mesmo já sem dar por isso, como se fosse uma segunda natureza. Agora mestre mesmo, era o grande “Professor Santini”.

Embora para mim o eufemismo seja apenas um passatempo (ou um exercício de estilo), e eu prefira os duplos sentidos (assunto sobre o qual me debrucei durante anos, tendo estudado com alguns dos mais ilustres catedráticos) e frases dúbias, para ele era uma arte; tal como esculpir em gelo ou fazer argolinhas com fumo de cigarro.

Nesse domínio eu era apenas um curioso semi-interessado, que se encontrava ali só para acumular currículo académico. Tanto que a minha definição para o conceito de eufemismo, é e continua a ser “Fazer bolinhas de merda e servi-las como se fossem “brigadeiros”. Que me desculpem os apreciadores do celestial manjar…

Mas voltando a Santini…

O Professor Santini conseguiria convencer qualquer um, de que o barrete vermelho até fica bem a Kumba Ialá e não o faz parecer o idiota que é, mas sim o famoso Saci do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”.

Recorrendo a subtis eufemismos, Santini conseguia vender “massajadores faciais” acompanhados de creme lubrificante até numa reunião Tuperware; convencendo toda a gente, que ninguém iria suspeitar que este último serviria para algo mais que hidratar a pele da cara.

Em comum com Henry Miller, ele tinha a crença que tudo girava à volta de sexo; facto este bem atestado pelo seu eufemismo favorito – “O erotismo é como se fosse os faróis de nevoeiro do sexo! Um extra que tem que ser adquirido à parte (porque na maior parte dos casos não vem “de série”)”.

Tive o privilégio de beneficiar da sua escola de pensamento filosófico. E posso orgulhar-me de certa noite o ter ouvido dizer (após uma sessão de copos, mas sem perder a sua conhecida sobriedade) que em certo aspecto me invejava. Principalmente devido ás amplas aplicações que o duplo sentido tinha em contraponto ao eufemismo, que apenas anda ali a disfarçar.

Foi o melhor prémio que me poderiam ter dado após tantos anos de estudo.

Como todos os mestres, um dia atingiu o seu zénite e acabou por abandonar o ensino. Reformando-se com uma Geladaria à qual aplicou todo o seu potencial; tendo inclusivamente criado um cone clássico. O famoso eufemismo de duas bolas (pistácio e limão), com uma gotinha de hortelã-pimenta.

Visitei-o ainda uma vez após se retirar. E ele, em memória dos velhos tempos e também para me provar que ainda se lembrava da nossa conversa sobre o duplo sentido, virou-se para uma jovem cliente a quem entregava um cone de sorvete, e disse-lhe piscando-me o olho – Agarre lá no eufemismo… Mas cuidado! Quero essas bolas bem lambidas…

Ainda bem que ele nunca se dedicou verdadeiramente ao duplo sentido… pois teria acabado com a minha carreira.

Música de Fundo
Feel Good Inc.”Gorillaz

domingo, 10 de abril de 2005

O Mundo em Altos Berros
- Reminiscências de um tempo em que se gritava por “dá cá aquela palha”… -

Nasci na Catedral do Berro (e devo ter berrado imenso, também, ao fazê-lo).

Pode parecer incrível, mas aquela malta não podia passar sem meia dúzia de gritos diários; que ecoavam pelas pedras da calçada misturados com o tinir das campainhas dos eléctricos e o roncar dos automóveis.

Desde o clássico – “Ó Xiquinho, anda almoçaaaaar!” – da Odete do 1º Esqº. Ao comercial – “Olhá sardinhalindaaaa” – da Preciosa, que acabou por fazer o anúncio das Conservas Pitéu.

Dia sem gritos era talvez de luto, como aquele em que morreu o Salazar. Mas desde aí nunca mais compreendi muito bem o luto. Principalmente porque nesse dia eu só via caras alegres e iluminadas por sorrisos de esperança; é o suficiente para criar confusão ao espírito de qualquer puto.

Mas estava então era a falar dos berros…

Talvez fosse pela origem árabe do local, mas o certo é que cada vez que alguém aclarava a garganta, a primeira coisa que pensávamos era – Lá vem coisa… - E sem dúvida algo saía, nem que fosse apenas fado; mas aqui era fácil de prever, pois previamente enfiavam as mãos nos bolsos (no caso das mulheres era o ajeitar do xaile).

Todos nós tínhamos um grito de chamada. O do meu amigo Tomé era facilmente reconhecível; pois por mais variações que a mãe dele fizesse sobre o tema, chamava-lhe sempre “excomungado”. Era uma família muito religiosa.

Nós também éramos religiosos, mas da vertente “Cristão Pragmático”. Mandava-me aos domingos para a missa e catequese acompanhado por uma carcaça (no tempo em que as carcaças ainda tinham mamas… velhos tempos) com manteiga.

E eu abancava na igreja a ouvir os berros do padre que era surdo, enquanto em minha casa talvez oficiassem por essa altura a cerimónia da “elevação”; um dos mistérios reservados aos cristãos que mandam os filhos à missa de manhã.

Seguia-se catequese, em que os sagrados episódios de uma bíblica novela, eram muitas vezes interrompidos por gritos de ”herege” e “ímpio”, acompanhados de sonoros carolos aplicados no crânio dos juvenis pecadores.

No fim saíamos dali a correr, e os nossos gritos de alegria soavam no adro e pelas ruas empedradas até casa.

Foram bons tempos, tirando a gritaria é claro. E talvez seja por isso que raramente me ouvem gritar; porque sou um tipo de paradoxos.

Ou então porque sou de um local onde se gritava tanto, mas que criou a famosa frase – Silêncio! Que se vai cantar o fado…”

Música de Fundo
Holiday” - Green Day

sexta-feira, 8 de abril de 2005

The R-Files
- O primeiro (ou então, não…) contacto -

Não há como uma boa manhã de Primavera para trotar pelo campo. Pelo menos era o pensamento compartilhado pelos quatro elementos da patrulha da GNR (dois bípedes e dois quadrúpedes), de serviço à mata de Coina.

Mas demasiada perfeição não poderia perdurar, e repentinamente toda a quietude se esgaçou como uns collants de saldo.

Saindo da berma arborizada um homem completamente nu saltou gesticulante, gritando histericamente incoerências em voz aguda e acabando por se abraçar trémulo, aos botins reluzentes do cabo Sónia de Jesus.

Foi cerca de quarenta minutos após esta cena, que o balbuciante nudista revelou a terrível verdade na presença do Sargento Sidónio. – Fui raptado por extra-terrestres! – Disse com voz sumida, enquanto se coçava nervosamente por debaixo da toalha, emprestada em prol da decência e dos bons costumes.

A graduada soltou uma gargalhada descontraída e pensou para si própria – Será que eram do “Planeta Agostini”? – Mas perante o ar assustado do depoente, decidiu engolir a piada e esperou pelo relato da ocorrência.

- Andava eu ontem à noite a passear o meu cão… - Começou este com um soluço de comoção.

- O quê? Na mata de Coina? Você deve estar a reinar… - Atalhou o Soldado Etelvino, que até à altura mantivera um saudável mutismo.

- Juro! Eu seja ceguinho! – Garantiu o queixoso continuando o relato da sua aventura - Estava então eu a passear o Flash (é o meu cão), quando fui ofuscado por uma luz muito brilhante, começando a sentir uma impressão estranha na cabeça, e as pernas a perderem as forças.

- É pá! Isto promete! – proferiu o Sargento Sidónio, interrompendo a profilática actividade de limpar a cera dos ouvidos com a tampa da Bic. – Até parece o “ET”. – Após o que saiu para “ir mudar a água ás azeitonas”.

Sem ligar à interrupção, o infeliz passeante continuou o relato da sua epopeia – A nave parecia ser prateada. Mas não consegui ver bem, porque quase desfaleci caindo de joelhos. E foi quando olhei para o monstro… - Fez uma pequena pausa para normalizar a respiração e continuou – Tinha para aí 1,1m de altura e com um pescoço estreito e fibroso, e uma cabeça pequena em relação ao resto.

- Afinal até nem é muito parecido com o ET. - disse o Cabo Sónia – Mas faz-me lembrar alguém. Não reparou em mais nada?

- Não. – Disse o abduzido sufocado pela comoção – Desmaiei, e só acordei quando estava preso dentro da nave. Mesmo aí não reparei em grande coisa.

- O Senhor desculpe – interveio o Cabo Sónia – mas não acredito que não tenha fixado nada. Ainda por cima tendo acontecido tudo ontem à noite, e você só nos aparecer ás dez da manhã…

- Ouça! – Disse o queixoso já bastante irritado – Eu fui sondado. Ouviu? SONDADO!!! Sabe como isso é?

- Por acaso até sei – disse ela com um sorriso – Não costumo é fazer tanto alarido como você. Mas adiante… Conte lá o resto que está quase na hora do almoço.

- Bem… - Continuou o sondado, olhando-a de lado com uma expressão desconfiada – Quando despertei estava preso numa espécie de cadeira. E conseguia ver uma escrita estranha logo por cima da minha cabeça, porque o tecto ali era muito baixo…

- E o que é que dizia? – Perguntou o Soldado Etelvino – Conseguia ler alguma coisa, ou era daqueles rabiscos esquisitos que aparecem nos filmes?

- Não sei bem. – Respondia o outro – Parecia “Atchim” e mais qualquer coisa, mas não fazia sentido. E ainda por cima começaram a sondar-me e doía um bocado.

- Isso é porque você não está habituado. – Garantiu-lhe a Cabo Sónia de Jesus, que era uma rapariga muito prática – Mas diga-me lá… O tecto não era fofo e acinzentado?

- Sim. – Respondeu o queixoso – E as palavras estavam escritas num quadrado que parecia plástico transparente…

- Tou a ver… - Disse o Cabo Sónia – Olhe meu amigo, você ponha-se a andar daqui antes que eu lhe encha esse cu de pontapés e o arrecade por falsas declarações.

- Mas… Ó Sr.ª Guarda… - Ainda articulou o civil semi-nu, enquanto era empurrado em direcção à porta do posto; que se fechou sobre si e sobre os mistérios do universo.

- Mas ó Sónia… - Perguntou o Soldado Etelvino com admiração – Ele estava a mentir? Mas como é que foste a única a dar por isso?

- Primeiro… - Começou ela – é uma questão de inteligência. E é por isso que eu sou Cabo e tu apenas Soldado. Segundo… Depois, lembras-te daquele amigo meu que é construtor civil?

- O barrigudo careca? – Perguntou o colega

- Sim esse. – Continuou Sónia – Tem um Mercedes cinzento metalizado como há aí tantos. Só que o tecto é acinzentado, e na pala do espelho por cima do banco do pendura há um autocolante com um aviso em alemão que começa por “Achtung, etc., etc.

- Porra, pá! – Exclamou espantado o Soldado da GNR – Isso é que observação…

- Ah. Nada de especial – Respondeu ela – É que eu já estive na mesma posição que ele. Só que como já tinha dito, não faço é tanto alarido. Mas olha pega na ficha e arquiva essa merda que está na hora do rancho.

- Fixe! - Disse Etelvino – Em que letra é que o arquivo.

- Olha… - Disse ela virando-se para sair – Arquiva em “R” de rabeta – E colocando o bivaque na cabeça, saiu saracoteando o traseiro bem feito, moldado pelos calções de montar regulamentares.

Os terrestres podem continuar a dormir descansados…

Música de Fundo
Men In Black” – Will Smith

Pedimos desculpa por esta interrupção, este blog segue dentro de momentos (se o Blogger atinar, claro)
Esta merda é um teste

terça-feira, 5 de abril de 2005

Terra

Aqueço-me
no calor dos teus olhos
e caminho estradas no teu corpo

Lavro-te
e bebo
do poço dos teus lábios

Adormecendo aninhado
no solo ainda húmido
onde irei acordar
assim que o sol nascer em ti

Música de Fundo
I’m Easy” – Faith No More

segunda-feira, 4 de abril de 2005

No Encalço dos Velhos Mastodontes
- Cadernos de Paleontologia –

Quando nos trouxeram o espécime em questão, o seu estado não era dos melhores. Sem dúvida que o enigma a propósito da sua origem e antiguidade, era reforçado pela dificuldade que tínhamos em o datar com o “carbono 14”.

O problema é que tínhamos medo que ao chegar ali por volta do 5 ou do 6, tudo aquilo se desagregasse; e lá perderíamos então o subsídio do Smithsonian. O professor Hernandez apesar de passar a maior parte do tempo fechado na tenda com a sua aluna favorita e uma garrafa de mescal, acabou por nos proporcionar a solução ideal.

- Chamem o Dr. Jeremy! – Exclamou entre dois arrotos alucinados. – Nunca o vi fraquejar diante de um fóssil, por mais estragado que este estivesse.

Acabámos por ter que fazer o que ele dizia. Para mais o tipo fechou-se novamente na tenda, e quando o tentámos demover ameaçou pôr a tocar o “Best Of” dos Abba. É claro que não tivemos coragem para o contrariar…

Na verdade a minha primeira impressão é que o homem não tinha pinta de cientista. Aliás, era a cara chapada do Super Mário; e a camisa havaiana aberta quase até ao umbigo que deixava ver uma pelagem hirsuta, dava-lhe um ar de frequentador do “Estrelas das Torcatas”.

Mas uma das coisas que se aprende nesta actividade, é que não podemos avaliar nada nem ninguém pelo aspecto. Nem todos podem ser parecidos com o Sam Neil em Parque Jurássico; e os ossos que podemos pensar pertencerem a um “Coelophysis”, acabam por se revelar muitas vezes como sendo os restos de uma refeição de frango assado, de algum piquenique dos anos setenta.

Ele também não perdeu muito tempo com apresentações – Chamo-me Ronald. Mas o pessoal do ramo costuma tratar-me por “Ron”. Onde é que está esse saco de ossos?

Conduzimo-lo à tenda onde se encontrava o espécime, e preparávamo-nos para entrar quando ele nos tolheu o passo – Desculpem lá, malta. Mas a identificação e a datação são assuntos muito melindrosos. E não quero que devido à vossa presença, possa haver algo que comprometa toda a operação.

Esperámos cá fora durante duas intermináveis horas. De quando em quando ouviam-se ruídos estranhos provenientes do interior, mas as instruções tinham sido bastante claras e não nos aventurámos a entrar.

Finalmente o Dr. Ron Jeremy emergiu da tenda com um ar exausto, mas ostentando uma expressão de satisfação; sem duvida devido ao sucesso da experiência. Sem conseguirmos conter a curiosidade corremos para ele, esperando ansiosamente a comunicação dos resultados.

Limpando o suor da testa com a manga do roupão, virou-se para nós e proferiu com voz débil. – Tive que perfurar duas vezes mas finalmente o enigma está resolvido. Este velho fóssil chama-se Lili Caneças, e faz exactamente hoje sessenta e um anos. – Acrescentando aparte com ar maroto – Mas está tão seco e engelhado, que quem merecia os parabéns era eu…

Música de Fundo
Oh My Gosh” – Basement Jaxx

domingo, 3 de abril de 2005

Bocejo na Hesitante Primavera
- Apenas um Domingo -

Aos domingos nunca me preocupo muito com o que escrever. Além de não ser uma obrigação, normalmente as ideias saltam como pipocas à saída do micro-ondas. Hoje tinha em mente fazer um texto sobre Feng Shui para Bloggers.

Nada que fosse muito complicado; talvez indicações sobre a orientação do computador (com a cama atrás, a garrafeira à direita e o frigorífico à esquerda) ou como revitalizar o seu eu interior (ou exterior, conforme a preferência pessoal) durante a redacção de um post.

Todos estes pensamentos me passavam céleres pela mente, enquanto desmanchava meticulosamente seis PC’s velhos (nada de piadas políticas) na sala de jantar, que se começava a parecer com o cenário de um filme futurista.

Com a mão esquerda accionava o remoto da TV, numa fuga sistemática ás exéquias de JP2 (que talvez fosse bom tipo, mas não me “dizia” nada) quando encalhei na SIC Radical.

Alguém já tivera essa ideia antes, mas aplicada à técnica de pedir boleia. E o pior é que tinham pegado numa ideia formidável, e tinham-na transformado numa rábula ridícula. Era uma ideia estragada que eu já não podia usar; não gosto muito de ideias em segunda mão.

Enchi-me de raiva, montei-me na bicicleta estática e fiz cinco quilómetros até me transformar num mais calmo “Mister T-shirt molhada”. Entretanto e apesar daquela bicicleta ser das que não vão a lado nenhum, deixara para trás todas as boas ideias perdendo o meu post de hoje.

Por isso desculpem-me, mas tenho que ir tomar duche.

Música de Fundo
The Weekend” – Michael Gray

sábado, 2 de abril de 2005

Amizade
- Onde o nosso herói explica que existe uma grande diferença entre a palavra e o seu próprio significado –

Tenho poucos amigos, do mesmo modo que tenho poucas jóias; Porque o que é valioso e verdadeiro não abunda. E eu nunca perco demasiado tempo com imitações.

Quando há dois anos publiquei aqui a primeira folha azul, já sabia qual era o tipo de mundo a que tinha chegado. Tal como os Newsgroups e anteriormente as BBS’s (nunca fui tipo de Chat’s), é um mundo virtual em que se encontram outras pessoas.

Mas eu não tenho amigos virtuais; tenho apenas amigos. Já não tenho idade nem paciência para “amiguinhos imaginários”, e ou estes se tornam reais ou são devolvidos aos meandros do Ciberespaço; onde podem exercer livremente o seu direito à virtualidade.

Os amigos têm que existir no mundo real, porque a amizade é um compromisso que se assume em pleno.

Curiosamente, um dos meus maiores amigos começou por ser virtual. E mais curioso ainda… é uma mulher.

É alguém que nunca me desiludiu, tendo sempre sido autêntica e igual à imagem de si própria.

Alguém a quem conto coisas que não diria a ninguém, e que comigo faz o mesmo.

Alguém que nada pede em troca da sua amizade, porque sabe que tal não seria necessário. Porque a amizade se verdadeira é sempre recíproca.

Por tudo isso, e porque sei que hoje é para ela uma data especial, venho aqui dizer:

Parabéns Catarina!

Música de Fundo
Livin’ On The Edge” – Aerosmith

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