segunda-feira, 30 de maio de 2005

A Educação de um Jovem Cavalheiro – “Bed and Breakfast”
- Tomo 1 – Cozinho sempre que possível -

Servirão talvez estas impressões que hoje passo ao papel, para que algum dia um jovem aprendiz que tente melhorar a sua educação, o possa fazer com a sensatez com que a idade me agraciou.

Pois após chegado à provecta idade em que me vêem, é-me amiúde pedido que colabore no acompanhamento moral e educação das novas gerações de jovens cavalheiros; quer criando calendários no âmbito da formação social, quer na elaboração de directrizes que os possam acompanhar através das suas vidas.

Sou pois um mentor ocasional, cujos conselhos são escutados com a mesma atenção que um relato para a Taça; embora nem sempre haja fibra moral para que estes sejam seguidos com a exactidão necessária.

Um dos predicados que costumo aconselhar vivamente, é um conhecimento mínimo de culinária. Pelo menos para que se consiga elaborar um pequeno-almoço satisfatório. É claro que os menos atentos perguntarão se não haverá outrem que o faça movido/a (quanto mais não seja) pela alegria e/ou gratidão.

A esses apenas posso garantir que a capacidade para elaboração de um pequeno-almoço decente, é tão importante como o conhecimento e desenvoltura necessários para fazer um bom minete.

Embora neste último caso não se possa publicitar por aí além, pois vivemos uma época tão conturbada, que não se pode mostrar a ponta da língua sem que apareça um monte de gente já de selo preparado.

Poderá a alguns parecer que este ponto relativo ao pequeno-almoço seja um golpe um pouco baixo. Mas nunca é demais lembrar, que isso em nada se compara com o logro em que muitos caem no que diz respeito ao test-drive.

Por isso meu caro aprendiz, um dia (passados alguns anos) em que a tua companheira fale com saudade nos pequenos-almoços com que a costumavas mimar; e deixe escapar subtilmente que “há muito que tal não se repete”. Bastará que respondas – O pequeno-almoço é como o céu… tem que ser ganho…

Música de Fundo
Pour Some Sugar on Me” – Deff Leppard

sexta-feira, 27 de maio de 2005

O Post Para-Simpático
- O sistema nervoso para-simpático é o contrapeso do sistema simpático. Quando as fibras para-simpáticas se tornam activas elas diminuem os batimentos cardíacos, a taxa da respiração diminui, e aumenta a digestão e o peristaltismo. Este é o sistema nervoso do descanso e do rejuvenescimento, e a massagem ou outras técnicas ou terapias aumentam a sua actividade. -

Por tradição bloguística eu não sou um tipo simpático. O melhor que se pode dizer de mim, é que sou justo e gosto de uma boa gargalhada (entre outras coisas); e que apesar de tudo isto não foi por embirração que não escrevi nos últimos dias.

Mas tenho sido um tipo muito para-simpático.

Não sei quanto ao meu peristaltismo (Não ficaria bem gabar-me aqui disso; e muito menos sabendo o que é…), mas como estou a uma semana do 1º período de férias, a minha respiração anda muito mais acelerada e o que me corre nas veias poderia vir a ser proibido pela Convenção de Genebra se usado contra populações indefesas.

A verdade é que nestes últimos dias e devido ao excesso de trabalho, tenho sido uma péssima companhia. Até o meu pobre Amo levou hoje por tabela, quando lhe disse que se trabalhasse para mim já o teria despedido há muito tempo. Ele mereceu, mas era totalmente desnecessário ter dito isso pois apesar de toda a gente o saber, não é coisa que melhore o ambiente laboral.

E é por isso que não tenho escrito.

Apesar de tudo sinto que tenho poesia guardada em algum canto dentro de mim. Vou deixá-la descansar e amadurecer por um tempo, para que a possa colher na sua plenitude durante as férias.

Por uns dias este blog vai ficar a meio gás. Eu sei que da minha parte até pode não parecer muito simpático.

Mas eu avisei-vos… Isto agora é mais para-simpático…

Música de Fundo
Femme Fatale” – Velvet Underground

segunda-feira, 23 de maio de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- Virtudes de Blog. A Tolerância -

Irmãos. Sabeis decerto pelos posts anteriores, que a minha disposição não será das melhores. Estado este, causado principalmente pela insana tarefa de criar um miserável boneco de cartão que não faça chorar as crianças de um certo infantário.

Um homem não é de ferro (eu sei que é uma frase idiota, mas gosto muito dela). E ontem ao testemunhar a violenta reacção das claques portistas na Avenida dos Aliados, a minha tendência inicial foi a de os insultar de “filho da puta” para cima; e atribuir a sua actuação a mau feitio, mau vinho, ou mesmo em alguns casos a danos genéticos provocados pela consanguinidade.

Logo a vergonha me invadiu, pois estava a caluniar os meus bons irmãos do norte. Alguns deles tão piedosos e santos, que só assim podem sobreviver no meio da barbárie que grassa naquelas nobres terras, que abrigaram em tempos o berço da nação.

Berço esse do qual caímos desamparados, no momento em que viemos para o sul, deixando o vinho do Porto nas mãos dos Ingleses e o futebol nos bolsos de Pinto da Costa.

Eu tinha escrito um post anterior a este (que nunca será publicado) no qual apelidava as nobres gentes do norte, de labregos e trogloditas. Mas isso seria injusto da minha parte, pois não foi em representação da Cidade do Porto que algumas centenas de trolhas e sovaqueiras decidiram queimar tudo o que fosse benfiquista; tentando assim antecipar o S. João e conjugar os festejos com a perda da taça.

Ao contrário do que possam dizer alguns puristas, saber perder não é uma virtude. Eu próprio não gosto de perder sequer feijões ao poker… Mas uma coisa é certa, as manifestações de desagrado não necessitam de ser violentas a ponto de serem retribuídas com justas chouriçadas por parte das forças da ordem.

Na verdade isso até é bastante estúpido, e pode dar uma ideia errada sobre os outros adeptos que após o jogo se retiraram ordeiramente, para empurrar a derrota goela abaixo com um fino e uma francesinha.

A estes apresento as minhas desculpas por de certo modo os ter incluído na categoria geral de portistas. Aos outros (e mercê da tolerância inerente a qualquer seguidor de Blog), chamarei apenas… Palhaços!

Música de Fundo
Living In América” – James Brown

domingo, 22 de maio de 2005

Neste brinde de parabéns, ergo bem alto a minha limonada.
O Não Post

Este é o post que eu não escrevi hoje; porque não me apeteceu, e porque não tive igualmente tempo.

Ao seu modo imprevisto, o destino proporcionou que dez crianças esperem de mim um impulso criativo. O objectivo é criar uma figura que possa ser oferecida a cada um desses dez exigentes consumidores no Dia Mundial da Criança.

Já tive desafios maiores. Mas todos eles envolviam perigo de danos corporais, ou teriam uma influência directa sobre mim. Este é mais subtil, na medida que me coloca como responsável por dez sorrisos ou por outro lado dez caretas de desagrado.

E ao fim de várias horas, o resultado obtido limita-se a um palhaço articulado (ao qual ainda falta colocar o cordel), que a ser clonado produzirá um exército destes seres tristonhos, para serem oferecidos daqui a alguns dias.

Eu sei. Estou metido num grande sarilho!
Vou voltar ao estirador…

Música de Fundo
These Are The Days” – Jamie Cullum

sexta-feira, 20 de maio de 2005

O Trabalho é Sagrado
- E é por isso que pela religião não se vai a lado nenhum -

Só o significado da palavra que deriva do Latim (tripalium [três paus] - instrumento utilizado para subjugar os animais e forçar os escravos a aumentar a produção.) já é suficiente para me deixar chateado. Mas quando se refere a uma actividade cuja finalidade sendo o benefício, este acaba por não se concretizar, então deixa-me mesmo em brasa.

E gerir Links dá trabalho.

Nestes quase dois anos acumulei largas dezenas de contactos diversos. Desde amigos (alguns), até pessoas que me linkavam apenas para que eu ao retribuir os beneficiasse. É por isso que a política de Linkagem, é bastante similar ao conceito de popularidade utilizado entre a juventude escolar.

Uma espécie de “sistema de encosto”, em que é mais importante o ter que o ser.

Pois para mim esse tipo de coisas não serve. Principalmente porque o que me estava a dar tanto trabalho, era uma lista enorme de locais dos quais apenas cerca de uma dúzia contribui (tanto em visitas como com comentários) para este blog.

E seria injusto para estes poucos, receberem o mesmo tratamento e atenção que aqueles que apenas me linkaram para “compartilhar” o resultado destes dois anos de escrita.

A todos os que me têm verdadeiramente acompanhado, agradeço do fundo do coração e sei que os poderei encontrar sempre na coluna da direita. Aos outros… Amigos como dantes. Ou então, apenas “como dantes” basta, que eu nem sou esquisito…

Música de Fundo
Spellbound” – Siouxie And The Banshees

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Parabéns, 100nada!

Sempre são dois anos...

Música de Fundo
"Big Sur" - The Thrills

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Tonsura Onírica
(Ou “A Barbearia que cheirava a Parmesão”)

Estava a tentar concentrar-me na mancha de ferrugem no centro do espelho para cair no sono, quando subitamente vindo do lado esquerdo, um tipo vestindo fato amarelo se sentou na pequena banqueta à minha frente apresentando-se – Olá! Eu sou o teu colesterol!...

A minha primeira reacção foi a de tentar dar-lhe um estalo (apenas por uma questão de “reality check”), mas o penteador que eu envergava não me permitia essa liberdade de movimentos; pelo que tive que me limitar ao domínio verbal. – Desculpa lá rapaz, mas há algo de errado aqui. Se fosses uma gaja como aquela que representa a menstruação nos anúncios, ainda vá. Apesar de essa não ser grande coisa, pelo menos faz parte do leque das coisas que eu aprecio.

O tipo pareceu um pouco incomodado. A certa altura pareceu-me que devido à posição instável que o mantinha sentado ao lado dos apetrechos, iria talvez baldar para um dos lados. Mas recuperando com um golpe de rins, agarrou-se ao pincel da barba e pareceu deveras interessado no funcionamento do borrifador cromado. – Mas estou aqui para te dizer porque sou tão importante para ti…

- Pois, pois… - Atalhei eu. – Também o meu prepúcio e as rugas do riso, mas nenhum deles me aparecem a meio do corte de cabelo, vestidos de amarelo e com tiques amaricados…

Entretanto vinda algures dos céus, uma voz tonitruante que bem podia ser a de Blog, ordenou – Quieto! – Assustado pela súbita interrupção, abri os olhos para encarar um ressentido “Tremidinho” que me olhava desaprovadoramente, enquanto mantinha a tesoura em riste. – Se você não pára de se contorcer acabo por lhe aparar as orelhas…

Desculpei-me atabalhoadamente, e fingi que me interessava pelo calendário onde Romão & Filhos publicitavam o seu virtuosismo na arte de manufacturar massas lácteas; e das milagrosas curas a que submetiam os seus queijos.

Aqui para nós, acho que cortar o cabelo me faz mal. Tem a modos como que propriedades alucinogénias. Pois enquanto admirava as imagens que povoavam o calendário, lembrei-me subitamente dos textos sagrados, e do que neles diz sobre “O Edam de Blog”.



Primeiro Blog criou o maravilhoso Edam onde todos os primeiros pais (e mães) iriam viver como bichos num queijo. Chamou-se assim, porque quando ELE contemplou pela primeira vez a sua criação, disse – “That’s no Gouda!

Embora alguns teólogos fanáticos franceses, tivessem começado a chamar-lhe “Mimolette” nos seus escritos, o livro de Blog é categórico nesse ponto. Ao obter aquele resultado singular, ELE decidiu também criar o nome. E “maravilhoso Edam” foi a primeira coisa que lhe ocorreu; embora tal não abone muito a seu favor. Diga-se de passagem…

Apesar de viver no maravilhoso Edam, Adão sentia-se um verme. O que não seria mau se o maravilhoso Edam fosse um queijo (Não sabemos se o seria, mas o certo é que tinha bolor).



- Quer que lhe apare as patilhas?

Abri novamente os olhos, e concordei com um discreto aceno. Não fosse a tesoura do “Tremidinho” andar ainda por ali a patrulhar a área.

De volta ao meu mundo privado, descobri que me esquecera do restante da história, mas não me importei muito. Concentrei-me mais um pouco e gritei bem lá para o fundo – Agora vejam lá se não se distraem pois ainda faltam uns dez minutos. Eu sei que é o colesterol, mas ao menos mandem-me uma gaja de amarelo! Tenham dó!...

Música de Fundo
Elevation” – U2

segunda-feira, 16 de maio de 2005

A Igreja do Imaculado Blog

- Versículos satânicos (2) -

A Criação

No princípio era o verbo. O processo fora porém interrompido por problemas de conjugação, e no meio das trevas apenas se ouvia um ligeiro ressonar; indicação de que o universo parara de se expandir.

Acordando após um fim-de-semana complicado, Blog abriu os olhos e reparando que nada via, proferiu – Que se faça luz!

Foi um erro! Não há ressaca que permita fazer uma coisa dessas impunemente. Mas notando que até já conseguia ver o caminho dali para fora, Blog achou que isso era bom. E embora ainda lhe dançassem pequenos flashes em frente aos olhos, decidiu chamar-lhe luz e que se poderia cobrar por ela.

Entrou no W.C. e viu-se ao espelho. Para quem se criara a si próprio até nem estava mal. Mas tinha que se livrar daquelas olheiras e fazer a barba mais vezes.

E disse ELE – Ajuntem-se num só lugar todas as águas debaixo do céu e apareça o elemento seco. – Após o que entrou na banheira, deixando pendurado o toalhão de banho, enquanto reflectia num bom nome para o elemento seco. Talvez lhe chamasse terra… Mas tapete também soava bem.

Enquanto se ensaboava, pensou que seria bom ter bandos de aves cruzando os céus, e do dinheirão que se poderia ganhar com os caçadores. E para quê ficar por aí, se existia bicharada por tudo o que era sítio… Mas achou melhor ideia deixar isso para depois. A criação ainda estava a meio, e já teria que rever os custos de exploração.

Ligou o televisor, mas não se passava nada de novo debaixo do Sol. O tempo talvez viesse a melhorar mais tarde, mas as notícias indicavam a aproximação de uma crista de baixas pressões, que em conjugação com uma massa de ar frio vinda do mar iria formar nuvens altas e provocar chuvas torrenciais.

Vinha mesmo a calhar, pois Noé estava quase a fazer seiscentos anos, e Blog ainda não lhe mandara o prometido dilúvio.

Olhou para o receptor e reparou que a fila de trânsito o iria fazer perder mais duas horas. Pegou no portátil que em cima da mesa ficara toda a noite a correr a simulação de terraformação, e desligando-o fechou-lhe a tampa.

Noé nunca chegou a ver o tão desejado dilúvio, pois as trevas engoliram o Mundo; tendo posteriormente sido engolidas pelo nada.

Poisando o portátil no banco a seu lado, Blog girou a chave na ignição e pensou – Segunda-feira é um dia péssimo para começar seja o que for…

Música de Fundo
Krafty” – New Order

domingo, 15 de maio de 2005

"Contra-corrente Cinematográfica"
- Pelo menos esta não tem um fermento borbulhante e assustador -

Mais um questionário com o tamanho ideal para ocupar o espaço de um post (Desculpa, Catarina. Mas se isto fosse livro, era decerto um “calço para mesa”)

1. Qual o último filme que viste no cinema?

Não me lembro bem... deve ter sido um Harry Potter ou assim...
As minhas idas ao cinema são sempre na qualidade de tesoureiro, e acabo por perder metade do filme por ter que ir procurar algum delinquente juvenil que se perdeu do nosso grupo entre a bilheteira e a sala. Mas deve ter sido giro...

2. Qual a tua sessão preferida?

As minhas sessões eram um pouco parecidas com as que a Catarina frequentava. Mas na actualidade prefiro defraudar a indústria cinematográfica, e ver filmes que saco da net. É mais cómodo, e lá em casa têm a marca que eu bebo.

3. Qual o primeiro filme que te fascinou?

"A Espada Era A Lei". Espantei-me que para poder ser monarca bastasse ser uma espécie de saloio despassarado; só mais tarde conheci D. Duarte Pio.


4. Para que filme gostarias de te ver transportado(a)?

Sleeper (O Herói do ano 2000). Quando for mais velhinho, quero ser como o Woody Allen. Quem sabe, até talvez adopte uma coreana...


5. E já agora, qual a personagem de filme que gostarias de conhecer um dia?

A princesa Amígdala. Gostaria de saber se é verdade o rumor que corre para aí, sobre o modo como arranjou aquele nome.

6. E que actor(actriz)/realizador(a)/argumentista/produtor(a) gostarias de convidar para jantar?

Paris Hilton (adoro a espontaneidade com que desempenha aqueles papéis complicados…)

7. A quem vou passar isto?

Como é costume vai para a estratosfera. Talvez um dia em que alguém consiga criar um destes testes que não pareça uma completa estucha, eu então veja a luz e decida passá-lo adiante.

Música de Fundo
"Turning Japanese" - Vapors

sábado, 14 de maio de 2005

Benfica-Sporting
- Histórias num passado remoto -

Naquela noite jogava o Benfica. Eu sei que jogava mais alguém, mas é tudo uma questão de ponto de vista; e naquela altura o meu era um pouco limitado pois tinha menos que 70cm de altura.

Embora não achasse piada nenhuma ao futebol (o meu passatempo favorito era espalmar caricas na linha do eléctrico), uma das coisas que eu realmente adorava eram aquelas noites passadas na taberna do Barata.

A taberna do Barata era uma espécie de panteão de mármore, onde se prestava homenagem aos pastéis de bacalhau, ovos cozidos e pataniscas; guardados numa espécie de sacrário em rede, a que prosaicamente chamavam mosquiteiro.

Por entre as mesas o gato amarelo patrulhava o estabelecimento, de cauda erecta e levantando alto as patas como se calçasse galochas.

O cheiro da serradura fresca espalhada pelo chão, com o dos fritos e fumo de tabaco, forneciam o que faltava para em conjunto com as vozes dar um ambiente de bazar (ou mercado Persa, como costumava dizer a minha avó, que era letrada e não frequentava o local).

Eu adorava os jogos do Benfica porque podia brincar com o gato e beber limonada; enquanto o meu avô e os outros “maluquinhos da bola” se levantavam simultaneamente mercê de uma jogada mais arrojada, ou lançavam algum palavrão relativo à filiação do árbitro.

Era nos dias de jogo que eu aprendia do que era composto o mundo. Conversas estranhas com tipos de fala entaramelada e com a cara apoiada nas mãos, fizeram-me saber que os culpados de toda a maldade no mundo eram o Salazar, os árbitros e um tal Lacerda que nunca cheguei a conhecer.

Á medida que a hora se adiantava, o gato cansava-se de mim e ia dormir para cima das sacas do carvão. Eu cabeceava pausadamente, e nem a gritaria com que incitavam o Eusébio e o Coluna, ou os ais soltados a um quase-frango do Costa Pereira me tiravam do caminho para o sono.

Naquela noite, após dolorosos minutos de sofrimento o Benfica acabara por marcar um golo de empate. A gritaria aumentava de volume ecoando como a rebentação das ondas em dia de tempestade; e o meu avô pediu ao Barata – “Avia lá mais uma Lixívia ao miúdo! Hoje vamos ganhar”.

Tal como das outras vezes adormeci. E acabaram por ter que me carregar escada acima até ás águas-furtadas no 6º andar. Só no dia seguinte eu ficaria a saber quem ganhara, bastando para tal reparar na antena de TSF onde o velho içava a bandeira nos dias de jogo.

Se estivesse a meia-haste é porque tínhamos perdido. Mas isso não me interessava na altura, do mesmo modo que ainda agora não me faz diferença alguma.

Mas hoje, nem sei porquê, apeteceu-me limonada…

Música de Fundo
Too Young To Fall In Love” – Motley Crue

quinta-feira, 12 de maio de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- Versículos satânicos (1) -

A felicidade é um luxo.

E para a manutenção de um ser feliz há que evitar as invejas. “Ergo”, um luxo não deve ser tornado público, nem alardeado de qualquer modo. Os ensinamentos de Blog, dizem-nos que há que manter alguma circunspecção.

O alardeamento é também falta de modéstia, e conduz a deslizes que se podem tornar desastrosos.

É claro que isto é dito por alguém que tem algumas visitas e meia dúzia de comentários. Mas isto é uma Igreja. E a nossa especialidade é pregar para os abismos. Que como toda a gente sabe além de um grande poder de encaixe, têm a virtude de não chatear ninguém; a não ser que lá se caia.

Mas já me desviei do assunto (tal como é costume) e estava a falar sobre o valor da felicidade.

A felicidade é feita de coisas complicadíssimas, que diferem conforme cada um de nós. Mas uma coisa é garantida; nunca será simples!

É um luxo. Isso, vos garanto!
Mas há que pagar por ele…

Música de Fundo
Space” – The Beta Band

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Existem pores-do-sol de todas as cores

Foi esta a frase que me acompanhou há uns dias desde o fim da tarde, como se fosse uma espécie de canção que me ecoasse na mente. Era algo no que pegar e escrever em volta, mas por alguma razão não me apeteceu.

Parece-me uma frase suficientemente rica para precisar de complemento.

Esta última frase pareceu-me - a certa altura nessa noite – que poria um fim ao assunto; mas não era tão simples assim. A primeira frase fora a expressão de um conceito interiorizado, que escapara de alguma maneira e merecia ser aprofundado.

Seria dos olhos em que cada um vê o pôr-do-sol?

Era uma questão de curiosidade; mas ás vezes para esta ficar satisfeita, tem que ser um pouco refreada antes. Decidi dar um tempo e fui ver um filme. Alguma coisa haveria de me ocorrer.

Como não ocorreu, fui-me deitar embalado pela suave ondulação que a minha curiosidade insatisfeita provocava, ao se debater na calma superfície do sono.

Já passaram entretanto alguns dias, e continuo sem saber o que queria ao certo dizer. Talvez porque cada um devesse procurar um pôr-do-sol e pintá-lo com as suas próprias cores; ou porque - quem sabe – seja ao pôr-do-sol que as cores se mostram mais límpidas…

Seja como for, o meu é azul.

Música de Fundo
Dry The Rain” – The Beta Band

segunda-feira, 9 de maio de 2005

O Bolo da Fortuna

Foi por alturas da Páscoa que a simpática esposa do Apóstolo nos apareceu com aquele bolo de aspecto delicioso. Junto à receita vinha uma indicação para que após a feitura do mesmo esta fosse distribuída a outras três pessoas.

Passar-se-ia igualmente para os seguintes parte da massa fermentada. Massa esta que era um dos ingredientes base do bolo e que apesar da sua importância, apenas fermentava; aumentando constantemente de volume.

De início não dei muita importância ao bolo, mas acabei por me interrogar sobre quantas ocasiões iguais àquela teriam havido no passado. Quantas pessoas teriam compartilhado aquele mesmo fungo, e quantas mais o fariam no futuro.

A contas com estas algébricas conjecturas fui descascar nozes para seguir a receita. Esta informava que o processo requeria dez dias, tendo especificamente que se iniciar a um Domingo.

No Domingo seguinte, a todos pareceu natural que se aproveitasse para começar a seguir a receita. Não se poderia (segundo as especificações) usar batedeira ou frigorífico. O tempo atmosférico tinha aparentemente um papel predominante em tudo isto; esperei que ao menos o bolo crescesse.

A partir dessa altura os acontecimentos tornaram-se um pouco nebulosos e difíceis de recordar. Lembro-me apenas de episódios dispersos, flashes que ainda teimam em emergir das trevas para se desfazerem imediatamente a seguir.

Sem dúvida que nada daquilo tinha começado por acaso. Pois a oferta do pedaço de massa fermentada é essencial para a feitura do bolo, uma espécie de legado que se passa em frente; missão para a qual somos designados pelos nossos antecessores. Por alguma estranha razão eu fora escolhido.

Para não desapontar a esposa do Apóstolo, encomendei a minha alma a Blog e deitando o preparado oferecido numa taça grande, juntei-lhe um copo de açúcar e farinha; deixando tudo em repouso para o dia seguinte.

Durante essa noite reflecti sobre as possíveis vantagens de adaptar a receita segundo os princípios de Alice B. Toklas, mas resisti ao pérfido impulso; e no dia seguinte tal como indicado na receita apenas mexi a massa com uma colher de pau.

Nessa noite deve ter havido um acréscimo de manchas solares pois o meu televisor fartou-se de apanhar estática, assim como transmissões entre o Space Shuttle e Houston.

Os dois dias seguintes foram passados em contemplação da massa que fermentava lentamente num silencioso borbulhar. Segundo as instruções, esta deveria permanecer intocada no 3º e 4º dias.

Interroguei-me se (à semelhança das velhas regras Alquímicas) o operador iria ser objecto de transformação à medida que o produto a sofresse igualmente no interior do seu crisol.

Um pouco inquieto com estas justas interrogações, fui deitar-me acompanhado por uma cópia da “Tábula Smaragdina” de Hermes Trimegisto. Caí num sono inquieto, enquanto repetidamente soava nos meus ouvidos a frase inicial – “quod est inferius es sicut quod est superius, et quod es superius es sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius”.

No quinto dia destapei o recipiente, apenas para acrescentar (sem mexer) um copo de açúcar, um de farinha e outro de leite. A massa continuava a borbulhar inocentemente como se no seu interior abrigasse uma colónia de amêijoas. Quando me retirava da cozinha, reparei num carreiro de formigas que vinha da varanda e terminava abruptamente no meio do aposento.

Estavam todas mortas.

Á semelhança das moscas, também prefiro as formigas mortas (mas por razões diferentes) pelo que não me importei e fui à minha vida. Estava com uma enxaqueca enorme e a única maneira de a fazer passar foi ir ver dez minutos da Quinta das Celebridades.

Apesar de me ter queimado vários neurónios e feito baixar o meu QI em cerca de 7 pontos, deu resultado pois a enxaqueca desapareceu subitamente. Sei que foi um truque baixo, mas era ela ou eu…

No sexto dia foi tempo de mexer a massa novamente. Enquanto fazia girar a colher de pau pela viscosa substância, admirava os efeitos visuais que a luz provocava nos pedaços que se agarravam à colher, como gavinhas que ali se tentassem agarrar e penetrar mais profundamente em busca de abrigo ou algo para devorar.

Após isso tive um interregno de mais três dias em que nada se podia fazer, e que eu aproveitei para arejar as ideias e afastar do espírito a obsessiva tarefa. Tarefa da qual eu só ainda não desistira devido a uma enorme teimosia e à tendência que tenho de embirrar com tudo o que pareça demasiado misterioso.

O décimo dia amanheceu já atrasado, pois eu levantara-me bastante cedo. Estava impaciente por terminar a receita para me livrar de tudo aquilo após cumprido o ritual. Por uma questão de experimentalismo teimava em seguir todas as indicações, de modo a que nada fizesse atrasar o término daquele episódio.

Levantei o pano que cobria o recipiente e constatei que a massa crescera até ao rebordo do mesmo, não tendo sobrado espaço algum entre a superfície da borbulhante substância e o topo da taça.

Peguei em três pequenos frascos guardando em cada um três colheres de sopa da massa obtida, após o que os fechei cuidadosamente. Era neles que estava a conclusão de todo este processo, e ao passá-los adiante terminava a minha intervenção.

Precipitadamente juntei dois copos de farinha, meio copo de óleo, duas pitadas de canela, uma maçã aos cubos e todos os restantes ingredientes, e enfiei tudo no forno a 180º durante 40 minutos.

O resultado foi um imponente bolo acastanhado com um cheiro divinal, que se erguia altaneiro no prato de vidro como um castelo invicto. Dividi-o em três, e embrulhei os pedaços juntando-os aos frascos, apressando-me a terminar a incómoda tarefa.

Aqueles a quem ofereci o bolo e o frasco da massa gabaram imenso o sabor e o aroma, espantando-se que eu (contra todos os meus princípios) não tivesse quebrado a cadeia.

É claro que eu não lhes disse que nunca chegara a provar o referido bolo, ou a deixar sequer que o fungo tivesse tido qualquer contacto comigo.

Sorridente, dei o último pedaço da massa a Miss Entropia.

Quando esta se afastava, deu-me a impressão que dentro do frasco o fungo borbulhava de modo mais audível; e as esferas de ar que se formavam na superfície como negros olhos, pareciam fitar-me de modo acusador…

Música de Fundo
Cake” – B-52’s

sexta-feira, 6 de maio de 2005


Recebi hoje o primeiro sinal quando ao sair de casa o sol se esgueirou por entre a gola do blusão, poisando com um toque suave na base do meu pescoço. E o facto de o ar que respirava me começar a parecer mais fresco, nada tinha a ver com a temperatura.

Tratava-se de um daqueles momentos em que todos os sentidos se aguçam. Como se alguém tivesse na nossa vida girado o botão do contraste; dando ás árvores um verde mais nítido ou fazendo o ar do mar voar durante quilómetros, para nos desafiar o espírito.

Só havia uma coisa a fazer. Recostei-me no assento e só me levantei quando chegámos à praia. Pelo caminho ficara o meu destino habitual; e acreditem, não há como abandonar o nosso destino, nem que seja por uns momentos.

Durante duas horas mergulhei, rasguei sulcos com os pés na areia molhada e respirei fundo o ar oceânico enchendo-me de azul e de mar.

Regressei ao meu mundo habitual, lambendo dos lábios o sabor do sal que trouxera comigo. Um prazer renovado que vem todos os anos.

Mais uma vez, chegou o tempo de estar desperto

Música de Fundo
Color Blind” – Darius

quarta-feira, 4 de maio de 2005

O Bufão
- Tradições do Teatro Português –

Beneficiei de uma infância ilustrada. É claro que tal não me livrou de alguns equívocos causados por termos que não conhecia, mas que acabei por resolver antes que se transformassem mais tarde em gaffes; como foi o caso da “Ópera Bufa”.

A primeira vez que li isso algures, talvez pela minha jovem idade, achei hilariante o conceito de uma Ópera em que a flatulência tivesse um papel importante.

Quando finalmente vi “As Bodas de Fígaro”e “Falstaff”, concluí que qualquer uma delas ficaria bem sem quaisquer efeitos especiais. E apesar de um pouco desiludido com o verdadeiro significado do termo, achei que a minha primeira ideia também tinha bastante potencial, pelo que decidi guardá-la para mais tarde.

Hoje lembrei-me novamente. E tudo porque em conversa com alguém, veio à baila o episódio memorável, em que um mui conhecido marialva, saltou corajosamente os torniquetes do Castelo de S. Jorge tendo-se comparado em entrevista posterior, com o próprio Martim Moniz aí entalado 800 anos antes.

Estávamos pois a 7 de Novembro do ano passado, quando o heróico fadista após desafiar a ordem estabelecida (que na altura, curiosamente ainda não se encontrava em vigor) se virou para o repórter da Agência Lusa e proferiu bombásticamente – “O Castelo de S. Jorge foi conquistado para os portugueses há 800 anos por Martim Moniz, que morreu entalado nas suas portas. [Os portugueses] Não podem sentir-se agora entalados por alguém que pretende franquiar a sua entrada”.

Esta pequena jóia da “revista à portuguesa” quase digna de um Fernando Mendes, ou mesmo uma Marina Mota, comoveu-me tanto que decidi acompanhar este processo em que o castelo seria então recuperado para todo o povo português; que finalmente poderia ir ali “picar” ou dar uma “queca” atrás da gaiola dos corvos.

É claro que compreendi logo de início, que a conquista só fora atribuída a Martim Moniz e não a D. Afonso Henriques porque era com ele e não com o monarca, que o conhecido monárquico se estava a tentar misturar.

Entretanto esperei algum tempo (seis meses para ser mais exacto), mas o libertador das ameias de Lisboa manteve-se estranhamente em silêncio.

É claro que se tentasse agora saltar o torniquete, além de pagar multa seria “filado” e talvez entregue à PSP. E embora possa parecer um pouco cruel da minha parte, até teria uma certa piada (à semelhança de Martim Moniz) ele acabar por se ver entalado entre dois reclusos no chuveiro comunal de um estabelecimento prisional qualquer.

Podia-se até criar um reality show baseado nas suas peripécias enquanto hóspede do Estado. E como ele após uma súbita mudança de voz, se dedicaria ao fado de Coimbra (muito mais adequado a vozes “caprinas”) morrendo finalmente como um mártir da causa…

É claro que nada disso irá acontecer.

O homem é um palhaço, mas também não será um completo idiota.

Depois destes quinze minutos de fama, e após também terem finalmente implantado o sistema de pagamento das entradas, o tipo saiu de fininho tendo esquecido de vez o castelo do qual dizia na altura – “Apelo à consciência nacional para que o maior número de portugueses compareça no castelo e o invada”.

Estive lá há pouco tempo. Um dos lojistas confidenciou-me que tudo corre como antigamente; excepto no que toca ao famoso fadista e marialva que não mais apareceu. É uma pena, pois eu contava com ele e com a sua flatulência nata, para finalmente iniciar a Bela Arte da Ópera Verdadeiramente Bufa.

Acho que ficaria bem à cabeça do cartaz:

Nuno da Câmara Pereira – O Rei da Ópera Bufa
(todos os nossos camarotes estão providos de Haze Ambientador)”.

Música de Fundo
Hey Stoopid” – Alice Cooper

segunda-feira, 2 de maio de 2005

A escrita pode ser feminina ou masculina. A escrita pode ser o que quisermos dela, senão porque lhe chamaríamos…

Criação

EV4 não sabia o que era um orgasmo. Ou talvez o soubesse de um certo modo empírico, o que para o caso iria dar ao mesmo.

As gravações tinham-lhe explicado o que a conjunção dos factores necessários faria ao seu sistema. A mistura química que fluía através de si seria alterada, e o fluxo tornar-se-ia mais rápido.

A permuta de informação com o módulo explorador iria aumentar a rapidez do processo, o que arrastaria todo o ciclo numa espiral desenfreada em que a mistura de fluidos dos dois módulos se culminaria numa única explosão geradora de vida.

As gravações eram já antigas mas nada do que transmitiam se tinha tornado obsoleto; tratava-se apenas de um conjunto de sensações preparadas para servirem de veículo a meia dúzia de instruções básicas. Como estas últimas implicavam auto-destruição, o processo tinha sido obrigatoriamente objecto de uma alteração cosmética.

Mas apesar de tudo EV4 tinha dúvidas. Pois nem mesmo as máquinas se encontram alguma vez preparadas para de morrer.

No seu princípio base o processo era simples. O módulo AD (exploração) era lançado num sistema estrelar que se considerasse prometedor, e ao ser encontrado um astro que reunisse as condições necessárias, colocar-se-ia numa órbita estacionária iniciando via rádio a transmissão das coordenadas.

O módulo EV (laboratório/reactor) que se encontrasse mais próximo, acorreria de imediato colocando-se igualmente em órbita, e ao confirmar a exactidão dos dados transmitidos realizaria a acoplagem com o módulo explorador. Após o que interligariam os sistemas em simultâneo para a permuta química. O que os levaria a atingir a massa crítica, transformando a estrela numa supernova e espalhando por todo o sistema os ingredientes criteriosamente reunidos no seu interior, de modo a que eventualmente estes pudessem ajudar a criar vida

Nenhuma das máquinas tinha na realidade consciência de si própria, embora se pudessem identificar como individualidade em relação aos outros; mas apenas por uma questão de localização e procedimento.

Na realidade nenhum deles estava vivo. Mas por alguma razão desconhecida, talvez causada por avaria ocasional ou deficiência nos circuitos lógicos, EV4 continuava a emitir mensagens de erro.

O chefe de turno consultou a estreita língua de papel que saía da consola, e por momentos pareceu pouco à vontade. O funcionamento dos módulos “Novo-Mundo” tinha nítidas semelhanças com o do cérebro humano. De um modo até um pouco exagerado, diria ele se lho perguntassem.

Mas para lidar com a miríade de variáveis envolvidas neste tipo de actividade, apenas esse modelo de programação poderia funcionar de um modo minimamente aceitável. Embora não fossem novos os casos de módulos que desapareciam em explorações não solicitadas, ou que inexplicavelmente se lançavam em “buracos negros”, todos os módulos eram providos do mesmo tipo de instruções base.

Ocasionalmente alguns deles solicitavam informação adicional a meio da programação; mas segundo os técnicos tratava-se apenas de manifestações de instabilidade electrónica. E todos os casos poderiam ser resolvidos, a partir de algumas respostas tipificadas

EV4 não via necessidade alguma para a sua eliminação física. E isso poderia constituir um problema, quando chegasse o momento correcto para a deflagração que iniciaria o bombardeamento de elementos-base sobre o núcleo da supernova.

Para colmatar a maioria das imperfeições do programa motivacional, a sub-rotina final era composta para além de instruções base, também por uma transcrição em símbolos matemáticos de todo o histórico e filosofia-base do projecto.

Largando a listagem o chefe de turno indicou ao computador que iniciasse o input da última fase, passando a verificar os mecanismos de lançamento; enquanto com um trinado subsónico, as instruções eram repetidas e codificadas em linguagem-máquina.

A quem cruzasse o caminho de qualquer um dos dispositivos, era possível ficar a saber que a missão a que estes se destinavam era exclusivamente pacífica. Era-lhes pedido que não interviessem, pois era limitado o número de módulos que poderiam ainda ser lançados. Explicando tratar-se de uma comunidade de máquinas, que tentava perpetuar o legado dos seus criadores após o seu desaparecimento.

Munidos de gravações sensoriais encontradas nos arquivos, tinham iniciado um projecto para semear vida onde tal fosse viável. Tinham criado a maquinaria necessária a partir do modelo dualista humano, em que apenas pela união das duas metades se poderia completar o processo.

Além de servir para diminuir a margem de erro na avaliação das situações, isso evitava que se dessem explosões não controladas; pois era necessária a acoplagem dos dois módulos, e a consequente mistura de elementos armazenados em ambos para que tal acontecesse.

Era igualmente explicado, que a criação de vida mesmo que por métodos naturais, se tratava de um processo dependente de variáveis tão estranhas e indefiníveis como espontaneidade e amor.

Este tipo de explicação dificilmente seria entendido por quem deparasse com a mensagem. Tratava-se apenas da repetição de instruções muito antigas que os operadores actuais não compreendiam, mas que por uma questão de procedimento continuavam a fazer parte do projecto.

Pouco preocupado com o facto de ignorar o que fosse espontaneidade ou amor, o autómato chefe de turno parou a transmissão e desligou o sistema, deixando apenas a impressora a emitir o relatório de operação numa enorme língua de papel. Os módulos “Novo-Mundo” estavam finalmente prontos.

No meio de todos os outros e com a sua programação completa, EV4 aguardava em "sleep mode" enquanto recapitulava em background todos os procedimentos base. Sem dúvida que iria dar uma boa mãe… O que quer que isso significasse…

Música de Fundo
Wonderful Life” - Black

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