quinta-feira, 30 de junho de 2005

A vida imita a arte
- Onde se prova que a realidade é por vezes bem mais estranha que a ficção -

Estou quase a chegar à conclusão que afinal não fui de férias. Um pouco à semelhança daquelas paixões das quais se sai tão esfarrapado que parece não ter havido um único momento bom; começo a achar que nunca fui de férias em toda a minha vida.

Possivelmente o único membro da minha família que gozará verdadeiras férias, será o meu filho e talvez apenas num futuro longínquo.

Decerto ressentido do tom de pele acobreado e aspecto saudável com que vim das férias, meu amo aproveitou para pedir com voz lamentosa um pequeno sacrifício na forma de serões quase todos os dias até daqui a duas semanas.

É claro que nada disto teve grande impacto. Os industriais de construção civil se não nascem iguais perante Deus, pelo menos no seu trajecto em direcção à fama e fortuna acabam invariavelmente por adquirir como bagagem cultural a mesma mala de cartão cheia de tijolos. Mediante isto, podemos sempre contar com um razoável coeficiente de previsibilidade nas suas acções.

O que não me tinha sido possível prever foi a visita de outro industrial (parece que desde a revolução industrial, não nos podemos virar para lado nenhum sem tropeçar num deles), este do ramo dos transportes e por tal possuidor de um Mercedes topo de gama; de longe bem melhor que a humilde viatura de meu amo (um pobre “E” qualquer coisa).

Fomos jantar ao restaurante do costume (que para evitar publicidade desnecessária, chamarei apenas de “O Manhoso do Monte”) mas a refeição acabou por se prolongar para além do que eu tinha previsto.

Estávamos já no início do digestivo e a meio da segunda hora de repasto, e nenhum deles dava qualquer indício de se querer levantar nos próximos tempos; antes pelo contrário.

Quando regressei dos lavabos tinham-se recostado nas cadeiras e iniciado uma “desgarrada” de chamadas de telemóvel, ostentando ambos no canto da boca os famosos “palitos da casa”; e contemplando em simultâneo o televisor com uma atenção digna de alunos de 20 valores.

No bom interesse da empresa que represento (e apesar de o CEO se estar nas tintas) fiz sinal ao “manhoso” para que mudasse de canal, pensando assim que ao perder o jogo de futebol se lembrassem dos seus afazeres, e pudéssemos enfim ir terminar o trabalho deixado a meio.

Tudo indicava que sim; para mais o zapping tinha calhado numa reportagem sobre jogos tradicionais.

Infelizmente os dois industriais já tinham ultrapassado a barreira da razão; e sem se importarem com o objectivo da noite, comentavam com bonomia as diversas actividades descritas por um apresentador de bigode nietzschiano.

Comecei a achar aquela noite um enorme desperdício de tempo (tal como outras em que ali já tinha estado) e decidi colaborar com o inevitável. Virando-me para o visitante sugeri ao mais puro estilo “Construção Civil” – Esses gajos têm mesmo falta de imaginação! Então não tinha muito mais piada em vez de perseguirem um porco ensebado, largarem ali uma estrela pop bem untada com KY; tipo Britney Spears ou assim?...

Fez-se um profundo silêncio durante quase um minuto, enquanto a informação lutava desesperadamente para lhes percorrer a distância dos ouvidos ao cérebro; após o que soltando uma sonora gargalhada, o visitante se pôs a discorrer sobre o tema enquanto meu amo ia propondo variantes, tanto para a identidade da estrela em questão como no tipo de actividades a adoptar.

É claro que o “Manhoso” não gostou nada do ambiente informal que se tinha instalado na sala, e apareceu oportunamente com a conta; pelo que aproveitei para os pastorear até aos respectivos automóveis, esperançoso num breve regresso.

Mas os industriais quiçá contagiados pelo espírito desportivo do documentário, recusaram-se ambos a deixar-me na empresa; tendo solicitado a minha presença para testemunhar uma demonstração das capacidades dos respectivos automóveis.

A última cena deste burlesco episódio passou-se na rua onde moro já tarde na noite (cerca da uma da manhã).

Após um quase interminável calvário em que ambos gritaram, buzinaram, travaram e soltaram diversos impropérios em voz estrondosa, quase fui agraciado com um manjerico envasado que falhou a minha pessoa por escassos centímetros.

Decidi recolher a casa quer eles se fossem embora ou não. E enquanto abria a porta do prédio fiz um último apelo ao bom senso – É pá, por favor não façam corridas de Mercedes na minha rua. Queria ver se por enquanto não ficava muito mal visto…

Música de Fundo
Hellraiser” – The Sweet

terça-feira, 28 de junho de 2005

As Alegrias do Regresso
- Ou, como a saudade só fica bem em fado… -

- Perdeste peso? – Perguntou meu amo, deixando transparecer na voz cerca de € 1,50 de inveja, enquanto se desviava para me deixar entrar no gabinete.

Olhei para a minha secretária praticamente voltada do avesso, continuei pela papelada equivalente a dois eucaliptos de bom tamanho e após subir com os olhos pela enorme colina com que ele esconde o cinto, fixei-o bem nos olhos e retorqui – Deves estar a gozar! Quer dizer que ninguém tocou num único papel durante a minha ausência?

Bem… sabes?... – continuou ele um pouco embaraçado – Começaram a surgir muitas dúvidas, e não te quisemos incomodar. De qualquer modo, temos andado pelos cabelos com trabalho.

Se calhar é por isso que és careca… - Sugeri vingativo, enquanto dava descontraídos pontapés na fotocopiadora – E não me consegues fazer acreditar, que esta malta esteja toda à espera que eu vá de férias para entupirem o fax. Aposto que metade disso é lixo, e vocês nem se deram ao trabalho de ler o que chegou.

Vá, lá… - disse ele conciliador – Não vale a pena chateares-te logo no primeiro dia. Não me digas que não tiveste nem uma pontinha de saudade?

Ergui os olhos ao céu, mas não se deu nenhuma manifestação de ira divina (Blog deve achar que só chego para a semana). Por alguns momentos estive para iniciar uma das minhas famosas diatribes, mas as férias tinham corrido bem e não seria de bom-tom massacrá-lo logo para começar a semana. – Saudades?... Queres saber se eu tive saudades? Pois vou mostrar-te uma fotografia de algo que decerto me faria ter saudades.

E para que vocês o saibam também, afixei-a lá em cima.

Música de Fundo
Sunshine” – Aerosmith

domingo, 26 de junho de 2005

Últimos Dias
- Sol, ondas e uma toalha azul -

Ninguém vai à praia para se descobrir a si próprio.

Principalmente porque é local onde se perdem imensas coisas. Tive até um conhecido a quem desapareceu a namorada em plena praia; mas esse caso não conta porque também alguém a achou, o que acabou por equilibrar as coisas.

Eu vou pelo sol, a frescura da água, e pela salada de pimentos no bar dos surfistas acompanhada com um fundo de música alternativa. Estão já quase no fim estas primeiras férias; período morno em que uma poderosa preguiça tem evitado a publicação regular deste blog.

Mas estou mentalmente repousado e em paz. O que me permitirá continuar daqui a uns dias a minha vida profissional, sem que me salte subitamente a tampa a meio de um problema técnico qualquer.

Na verdade estes últimos dias têm sido tão calmos e relaxantes, que pouca vontade me tem sobrado para escrever. E para quê escrever quando tudo corre bem?

Ninguém quer ler sobre as maravilhosas manhãs em que a brisa traz até nós o canto das gaivotas, ou sobre a espuma desfeita que navega no vento e nos salga os lábios. Não aconteceram desgraças, percalços ou contratempos; foi um tempo tão perfeito que acabou por vos privar de algo interessante para ler.

Pode parecer um pouco zen, mas quando passo com os pés por dentro da água nada espero, e nada penso quando me deito sob o sol. Na realidade nada penso apenas porque já o fiz anteriormente, e tudo está organizado…

Tenho tempo para me começar a chatear na terça-feira. Por enquanto, acho que o tempo começou a melhorar…

Vou bronzear o blog.

Música de Fundo
No Other Way” – Jack Johnson

quarta-feira, 22 de junho de 2005

O Dia das Mães

Nem eu nem o Apóstolo fazíamos a mínima ideia, mas ontem na chegada à praia aguardava-nos uma surpresa.

O areal estava apinhado de mães com os seus miúdos, como se tivesse sido decretado “O Dia Internacional da Maternidade Balnear”; tudo isto talvez devido à greve dos professores.

Enquanto as outras mulheres levam para a praia uma solitária garrafa de água e uma ocasional peça de fruta, as mães seguem o velho lema dos escuteiros – “Sempre Pronto” – e munem-se de sandes, barras de cereais e águas de litro e meio; isto quando não transportam uma verdadeira panóplia da “Chicco” para efectuar manutenção à respectiva prole.

É das mães que se ouvem comoventes testemunhos – “O meu, aos oito meses de idade devorou a “Montanha Mágica” de Tomas Mann. Passámos quase uma semana a correr para o Hospital da Estefânia.

As mães não confiam muito no Sol. Quando a minha cometia o erro de me barrar com “Copertone”, eu rebolavam-me na areia até adquirir a textura de um croquete e começava a correr em direcção à água.

Deve ser estimulante ser mãe numa altura dessas.

E continuámos a caminhar pelo areal, o Apóstolo e eu; enquanto divagávamos pelo mistério da maternidade balnear. Recordámos o tempo do “Teatro Dom “Roberto” e da mulher que vendia bolas de Berlim; regressando a casa ainda a contas com reminiscências da Costa nos anos 60. Como se tivéssemos tido um vislumbre das nossas próprias infâncias.

Hoje o areal voltara à normalidade. A incidência de mães por metro quadrado estabilizara, e a jovem mãe que no dia anterior se afadigara à volta do filho, voltou a ser a morena dos mamilos arrebitados.

Bem, como diria D. João V – “Nem sempre galinha, nem sempre rainha…”

Música de Fundo
Lovin’, Touchin’, Squeezin” – Journey

domingo, 19 de junho de 2005

Uma Soirée na Cidade Luz
- Onde as estrelas saem à noite… -

Daqui a algumas décadas é possível que escritores, filósofos e ensaístas acabem por confessar ter passado parte da sua juventude por estas paragens.

Não que o ambiente boémio seja fora do vulgar, nem porque a cultura se manifeste de forma exuberante. Mas por aqui o melhor material é o humano, pois temos representantes de tudo o que é deformação de personalidade ou desviacionismo comportamental.

Um pouco como a Paris dos anos 30 esta terra é uma caderneta cheia de cromos, apenas à espera de ser desfolhada.

Seria uma falta de respeito da minha parte não começar pelo “Comandante Dudu”.

O “Comandante” (como carinhosamente lhe chamamos em memória do Che) sofre de stress pós-traumático. Causado não pela sua ida à guerra colonial mas por ter sido dispensado do serviço militar, e ter assim ficado incapacitado de usar isso como atestado de veracidade para as suas ficções.

Quando já está um pouco entornado esquece-se porém que todos nós o conhecemos, e acaba por afirmar que esteve em “Caçadores 5” ou “Pescadores 7”, conforme a quantidade de “penaltys” e taças de branco que tenha ingurgitado.

A sua coroa de glória é ter pertencido ao em tempos famoso “Grupo dos Bêbados”, agora extinto por morte de alguns dos membros e desistência de outros; que à semelhança dos arrependidos no caso das FP25 ganhariam mais se mantivessem uma certa coerência com a linha original.

O grupo reunia-se habitualmente na churrasqueira do “mudo”. Este ganhara a alcunha, mercê da sua incapacidade de dizer uma única palavra quando se encontrava “sob influência”.

Ao princípio a família desconfiou que ele fosse “médium”, mas os únicos fenómenos testemunhados envolviam invariavelmente aparecimento e desaparecimento de garrafas; pelo que, passado um tempo deixaram de lhe ligar. Excepto para fugirem dele em caso de fúria súbita (este sim, tinha ido à guerra e regressara com imensos “bugs” no sistema operativo).

Além de outros membros incaracterísticos, usados normalmente como figurantes para adormecerem na mesa do canto, ou se estatelarem de vez em quando sobre uma mesa cheia de minis, tínhamos ainda o “Orelhas”.

O “Orelhas”como devem calcular tem uns abanos à Príncipe Carlos, mas na realidade não é essa a sua característica mais marcante. É um tipo jovem (cerca de 30 anos) com dois metros de altura, e tem uma inquietante semelhança com o “Nosferatu” de Murnau (e igualmente com o de Herzog, mas o outro é um clássico).

Pelo que quando oscila devido ao álcool e também pela sua altura desmesurada, parece um personagem da “Guerra dos Mundos” de Wells. Desengonçado e assustador, espalhando do alto um bafo venenoso sobre todos nós; deixando à sua passagem uma estranha névoa com cheiro a Macieira.

Por isso não raras vezes imagino que algum famoso escritor daqui a anos ao editar as suas memórias, recorde com saudade o tempo em que escrevia solitariamente no café do Santos; e de como estes personagens influenciaram a sua preferência pelo romance gótico.

Mas aparentemente não há lá nenhum candidato a este papel.

Houve uma altura em que nutri algumas suspeitas sobre um tipo vestido de preto e com um ar “despassarado comó camandro”. Mas o seu objectivo era uma das filhas do Santos, e nunca o vi escrever nada.

Em contrapartida vi-o uma vez descrever uma parábola impecável para aterrar de costas sobre a arca dos gelados, num dia em que distraidamente gabou ao Santos a qualidade do material genético que este produzira; comentário este acompanhado por apreciações antropométricas, com alusões tangenciais ao funcionamento das mucosas e suas secreções.

Nesse dia o Santos provou que os Transmontanos (mesmo os que têm sotaque) também podem aprender judo. E por outro lado, nós ficámos a saber onde é que ele refresca as garrafas de Moscatel. Acho que nenhuma das filhas do Santos vale assim tanto.

Bem… Talvez a do meio…

Ontem foi uma bela noite na “Cidade Luz”. Não só porque a elevada temperatura era atenuada por uma suave brisa, mas também pelo estranho ambiente que nos envolveu como uma aurora boreal.

Os UHF tocaram em Almada. Se calhar é um pouco de exagero da minha parte; nem aquilo é propriamente tocar, nem a sua influência sonora se limitou à área administrativa da freguesia de Almada.

Já viram um daqueles filmes sobre a 1ª Guerra Mundial em que os pobres soldados de infantaria são atacados por gás? Pois foi assim tal e qual ontem à noite. Estávamos eu e o Apóstolo no Laranjeiro, a beber calmamente o nosso descafeinado na esplanada, quando soou o grito de alarme.

São os UHF!

Á falta de queijo, miolo de pão ou salsa com que se costuma tapar os ouvidos nos livros do Asterix; tivemos que nos recolher ao Café do Santos, onde reinava uma atmosfera intimista e até um pouco literária.

Durante alguns minutos mantivemo-nos ali refugiados, enquanto ouvíamos o “Comandante” dissertar sobre Valentim Loureiro ao estilo de Hemingway. Mas a voz de António Manuel Ribeiro continuava a investir contra as portas de vidro do café do Santos; ampliada no seu percurso pelas fachadas dos prédios e transformada numa torrente de fluxo piroclástico de origem sonora.

Não conheço ninguém que goste dos UHF (excepto talvez uma minoria, devido áquela canção idiota sobre o Benfica), mas o certo é que eles continuam a actuar e ninguém faz nada contra isso.

Segundo uma das minhas teorias de conspiração favoritas, eles são o resto de uma invasão extraterrestre falhada; e há vinte e cinco anos que gritam aos astros para que alguém os venha buscar.

Infelizmente sem sucesso algum.

Restou-me ir para casa e colocar os auscultadores. Através do vidro da janela, as luzes da cidade brilhavam com uma vida renovada. Entre mim e elas apenas o som dos Aerosmith se destacava; enquanto algures em Almada um grupo de náufragos espaciais gritava por socorro.

Quem sabe se… enquanto não os vêm buscar, poderiam ser “postos a dormir”…

Música de Fundo
Jaded” – Aerosmith

sábado, 18 de junho de 2005

Nomenklatura e Intelligenzija
- Os últimos canibais –

Quando coloquei ali em cima aquela foto, estava disposto a vir para aqui arrasar com imensa gente que se chegou ao cadáver de Álvaro Cunhal apenas para capitalizar algum mediatismo.

Mas está muito calor, e isso não dá mesmo paciência nenhuma para vir barafustar sobre injustiça, mentiras descaradas, compadrios e um sistema partidário virado para a futilidade e minado pelo “tachismo”.

Em suma, foi naquilo que o que o PCP alegadamente combateu desde o início, que acabou finalmente por se transformar. Algo a que me dá imenso gozo chamar o “Corporativismo de Esquerda”. Este sim, o verdadeiro legado de Álvaro Cunhal.

Antes que apareça a velha acusação de “anticomunismo primário”, aviso já os mais incautos (especialmente aqueles que pensam saber tudo sobre mim) que de um certo modo continuo a ser comunista.

A única diferença, é que há cerca de vinte anos atrás abandonei a convivência de outras pessoas que afirmavam sê-lo igualmente, embora na prática sancionassem actuações dignas de Hitler ou Estaline (que como muitos devem saber era uma espécie de alma gémea de Hitler, embora não me pareça que fosse homossexual).

O que na altura me “encheu as medidas” foi a “ajuda militar” pedida pelo general Wojciech Jaruzelski nos anos 80 (famoso por ter liderado a invasão da Checoslováquia em 1970) à União Soviética, que resultou no aumento da densidade de tanques soviéticos por m² na capital polaca.

Para os que não estão dentro do assunto aconselho a leitura do “nineteen eighty-four” de Orwell, pois uma das coisas que na altura se cultivava vivamente por aquelas paragens era o “double-talk”. E mercê disso foi-me dito que não se tratava de uma invasão, mas sim de ajuda prestada a um país amigo em hora de necessidade.

Esta afirmação delirante foi-me fornecida por alguém com grandes responsabilidades na organização.

Na altura considerei-me insultado.

Mandei à merda anos de dedicação a uma causa que afinal nunca existira, e retirei-me convicto que um dia seriam desmascarados todos aqueles que em nome da liberdade apenas a tentavam atrasar ou destruir, com o fim exclusivo de manterem uma confortável situação alicerçada em palavras cujo significado lhes merecia o mais puro desprezo.

Liberdade, democracia, solidariedade, etc.

Alguns de vocês insurgiram-se (e são livres de o fazer) contra o facto de eu não alinhar naquela xaropada em que transformaram a morte de Cunhal, especialmente devido aos serviços prestados à causa da “revolução”.

De nada serve a alguém construir um edifício, para a seguir o destruir. E quer queiram ou não, o legado de Álvaro Cunhal não é a liberdade (que respeitava, desde que fosse a de alguém da sua cor partidária) ou a revolução (que foi feita pelos militares e na qual apanhou boleia), mas sim o PCP.

Por isso, se realmente lhe querem prestar uma boa homenagem. Basta para isso fazerem uma análise apurada de tudo o que foi o PCP nos últimos trinta anos, e então poderão ir agradecê-lo a Álvaro Cunhal.

Sem dúvida que a malta do CDS e do PSD lhe deve estar profundamente grata. Álvaro Cunhal criou o maior partido da esquerda portuguesa (sim, meus caros. O PS não é de esquerda) e depois transformou-o numa triste mostra de "quadros" burguesinhos de duvidosa integridade, sempre temerosos pelos seus pequenos tachos. Uma espécie de comissão liquidatária da liberdade e da democracia.

A foto lá em cima é de uma revista anarquista com 98 anos. Do mesmo modo que hoje poucos sabem quem foi José Bacelar, daqui a outros tantos 98 anos Álvaro Cunhal constará nas enciclopédias como sendo fundador do PCP tendo colaborado no “processo revolucionário” pós 25 de Abril.

Tudo o resto será peneirado pelo tempo, e restarão finalmente apenas os factos.

Música de Fundo
Cão Raivoso” – Sérgio Godinho

sexta-feira, 17 de junho de 2005

Dás-me

Milhões de pensamentos como areia
revolvidos a vento

Pelos quais caminho
de pés nus

Sob o beijo cálido do Sol
no abraço das águas

Tenho-te

Música de Fundo
Meng Tian” – Tangerine Dream

quarta-feira, 15 de junho de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- O culto dos mortos… -

É sempre mau quando morre gente válida; pessoas que contribuíram para o progresso deste país (ou das artes e letras). É sempre triste perder bons elementos.

Infelizmente, na ânsia de ampliar ocorrências deste género ás proporções de verdadeiros happenings, os media caem frequentemente no ridículo do exagero. Tarefa para a qual encontram sempre colaboração entre os personagens da vida pública nacional.

Longe de mim vir para aqui “bater em mortos” mas a mostarda começou a subir-me ao nariz logo que ouvi as primeiras considerações de Saramago sobre o desaparecimento de Eugénio de Andrade. Foi uma tirada um tanto ou quanto acinzentada, em que se contorceu habilmente para não dizer nada de negativo.

Eu não gostava do homem e também não adoro o Saramago, confesso. Ambos constituem para mim uma desilusão, cada um há sua maneira.

Seja ou não politicamente correcto afirmá-lo, o certo é que cada uma daquelas três personalidades mortas acabou em última análise se revelar uma desilusão. É claro que se trata apenas da minha opinião, mas não abdico dela.

No caso de Eugénio de Andrade, a afirmação por parte de uma jornalista (?) de que ele seria “um dos maiores” poetas portugueses, provocou-me um arrepio.

Era um bom poeta; é o melhor que posso dizer dele. Mas era um tipo irascível, e da sua morte talvez tenha alegrado alguns dos seus vizinhos na Ribeira. Nomeadamente os donos de bares com quem teve litígio, que sempre venceu especialmente por exibir os seus galões de poeta laureado.

Um chato, na verdade. E (tudo me leva a crer isso) grande utilizador do “kit magnético de rimas”, com o qual idealizou e compôs muitos poemas na porta do seu frigorífico.

Por favor não o venham emparceirar com Pessoa e Sá-Carneiro; haja ao menos um pouco de decência.

Já Vasco Gonçalves suscitou comentários estranhos e muito elásticos, pois há mais de vinte cinco anos que diziam mal dele, e foi bastante difícil inverter essa tendência apenas para o funeral.

Caído em desgraça porque na realidade acreditava naquilo que dizia, o homem era um autêntico perigo pois não só se julgava Lenine, como nos achava a todos com cara de mujiks.

Nunca gostei de gente histérica…

O caso de Álvaro Cunhal é um pouco mais complicado. O tipo foi daqueles políticos que nunca foram apanhados a venderem-se, e embora tivesse uma tendência inata para transformar derrotas políticas em vitórias no papel, o pessoal até achava piada e via-o como uma espécie de avô que está lá em casa na cadeira de rodas a disparatar com a televisão.

Como será fácil provar, este homem foi uma preciosa ajuda para o Centro e a Direita Portugueses nos últimos 25 anos.

No início dos anos 80 em que se impunha uma mudança de estratégia por parte da Esquerda, para se lidar com uma futura integração na Europa. O homem mandou cerrar fileiras e transformou o PC numa espécie de colectividade para gente com tendências delirantes de esquerda ( talvez tenha sido essa a fonte em que o BE bebeu a sua inspiração).

Mais de dez anos após isso, e mercê da verdadeira sangria efectuada aos quadros do partido pela debandada de alguns elementos mais prometedores, tentou diversificar optando pela estratégia de Salazar ao parir para a vida pública o seu “Marcelo Caetano”. Uma espécie de Golem com costela de seminarista, que por lá se manteve até ser substituído pelo “Avozinho do Século XXI”.

No fundo Álvaro Cunhal foi um dos melhores políticos portugueses até há vinte anos atrás. Depois, a inflexibilidade que toda a gente lhe gaba (e que beneficiou o Centro e a Direita durante os últimos vinte anos) como virtude, começou a minar tudo o que o rodeava; felizmente também já não havia nada que valesse a pena salvar.

O irónico de tudo isto, é que o seu epitáfio vai ser a frase que o tem acompanhado nos últimos anos. “Um homem que sempre manteve irredutivelmente as suas convicções”. E eu poderia acrescentar “…mesmo que isso tenha significado a derrocada do sonho húmido comunista.”

Mas agora a sério, pá. Se querem mesmo homenagear um bom poeta, esperem que morra Herberto Hélder (pois parece que isso é que dá “visibilidade”); que muito bem nos adverte na seguinte frase.

“As palavras não fazem o homem compreender, é preciso fazer-se homem para entender as palavras”.

Música de Fundo
Variações em Si Menor” – Carlos Paredes

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Perdoem a minha indolência, mas só vos posso escrever quarta-feira.

Tenho sol para apanhar...

;-)

sexta-feira, 10 de junho de 2005

Sol, sal e bivalves
- Onde a acção se passa, imediatamente antes da Segunda Cruzada de TheOldMan -

Passeando no areal com o Apóstolo, discorria ele sobre as vantagens do “lacado de piano” na manufactura de colunas de som, quando me lembrei que nada tinha escrito para hoje. Na altura isso não me preocupou muito.

Aliás esqueci-me logo a seguir, pois telefonei a meu amo para lhe dar os parabéns; acabei por ter que fazer um pouco de tele-trabalho e finalmente fui ver “Kung-fu Hustle”.

Se tivesse que fazer uma crítica cinematográfica diria que é um misto de ópera chinesa e filme de kung-fu dos anos setenta, com o Pátio das Cantigas. Não admira que se diga que o intelecto oriental é imperscrutável .

Mesmo que o não fosse, é ás vezes suficientemente desinteressante para que o melhor do filme fossem os personagens.

A senhoria e dona do pátio era a cara chapada de Adolf Hitler mas sem bigode, sendo afinal possuidora de uma voz portentosa ( parecida com a da dona Odete) conhecida no “milieu” do Kung-fu como “o rugido do leão”.

Finalmente ser monge de Shaolin está ao alcance de qualquer dona de casa.

O marido, que se parecia estranhamente com Raul Júlia (ou com o Gomez da Família Adams) era um talentoso dançarino de tango à moda de Xangai, e tal como ela fumava que nem uma besta.

Aliás o melhor truque da matrona, era inspirar uma passa que lhe consumia um cigarro inteiro de uma só vez e lhe inflava os seios ás proporções dos da Pamela Anderson (nos bons tempos, claro); e seguidamente expirar num berro de rachar paredes que arrasava os seus inimigos. Que tal como vocês devem calcular eram muitos.

Mais tarde falei do filme ao Apóstolo. Dizendo-lhe que parecia uma versão de “O Que Diz Molero” filmada no Beco de Santa Ingrácia e falado em Cantonês (que ao contrário do que alguns possam pensar, não é o calão dos cantoneiros). Ele desaconselhou-me a publicação das minhas notas cinematográficas, especialmente no que tocava (salvo seja…) aos seios.

O seu ponto de vista é que algumas das minhas leitoras poderiam levar a mal o facto de eu gabar a pneumática voluptuosidade desta heroína do Celeste Império.

Sosseguei-o garantindo que incluiria uma nota afirmando preferir as formas harmoniosas à volumetria, se bem que pense que o tamanho não é o mais importante; e por tal podem ficar descansadas, pois o principal é o que se faz com elas (end of disclaimer).

Mas deixem-me apanhar o fio à meada, senão parece que foi o meu sobrinho Rodrigo a escrever este texto (eu até já o tenho apalavrado para o “review” do último filme da Guerra das Estrelas).

Os maus da fita são representados pelo Bando do Machado. Uma cambada de tristes com ar de empregados de restaurante, e com uma péssima técnica de luta pois apesar de totalizarem centenas de machados, quase não se consegue ver sangue em todo o filme.

Desiludidos com a péssima prestação dos seus operacionais, decidem contratar dois tocadores de Harpa Mágica (sendo assim émulos de “José Maria e o seu Órgão Mágico” que percorre as feiras e romarias) que podem materializar com música todas as armas de arremesso; desde afiadíssimas adagas até a um vendedor de choco seco muito chateado.

Afinal três dos hóspedes eram heróis reformados, e um deles tinha um ar tão nitidamente efeminado, que fiquei com a clara impressão que 30% dos actores chineses são Gay. Mas isso talvez seja apenas culpa da ópera tradicional, com todas aquelas exigências maricas.

Pelo meio do argumento passa diversas vezes uma vendedora ambulante de gelados, cujos únicos predicados são o ser muito bonita e ter um ar infeliz. Truques estes que já ajudaram no passado a vender no ocidente montes de películas orientais que gastavam muito menos em guarda-roupa.

Apesar de roubada e injustiçada por um dos gangsters (o mais pindérico deles todos) do Bando do Machado, este mais para o fim modifica-se totalmente ao perceber ser ele o “escolhido” (ou o que quer que isso signifique), e vai acolhê-la de braços abertos à porta da sua recém inaugurada sorveteria. É claro que na sua candura oriental ela nem se lembra de lhe partir o nariz com um pontapé. Chineses…

O filme é pois uma espécie de Matrix versão caseira, e admira-me que ao fim não abram a meias uma lavandaria industrial.

Entretanto cheguei a este ponto do texto e li tudo o que tinha escrito para trás. Não fosse ter uma travessa de cadelinhas à minha espera no Café do Santos, e apagava tudo para escrever uma outra coisa qualquer. Mas quem está em paz não costuma ter uma vida muito agitada; e eu estou de férias e em paz.

Começa pois aqui a minha Segunda Cruzada. Desta vez em busca do que se possa passar no mundo que não me aborreça mortalmente. Talvez tenha sorte, a festa de meu amo é já no Domingo…

Música de Fundo
Coma” – Stone Temple Pilots

terça-feira, 7 de junho de 2005

O Metro-Velhote
(Now, more crispy & salty!…)

Longe de mim, vir aqui incomodar-vos com as minhas desditas e peripécias enquanto ando ás compras no hiper.

Além de deixar esse tipo de relatos para especialistas do ramo, não me ficaria bem exibir uma falsa metrosexualidade. Homem que se preza compra sempre 50% de bebidas alcoólicas, 30% de inutilidades (desde queijos e enchidos de regiões remotas, até àquele milagroso descascador “hi-tech”) e 20% de géneros alimentícios, mas estes últimos normalmente sob protesto.

Por isso adoro ir ás compras no meu 1º período de férias, pois vou sozinho ou acompanhado do Apóstolo, que apenas se pronuncia sob assuntos importantes, como vinhos de boa cepa que acabou de descobrir a preços tentadores.

O dia de hoje não fugiu à regra. A ideia inicial era apenas a de comprar seis copos “merlot” para oferecer a meu amo que está quase a fazer anos; mas mal me assinalaram na secção dos cristais a apreciar as diversas formas e tamanhos dos ditos recipientes, logo um assistente bem intencionado se materializou à minha esquerda, desejoso de influir na escolha que eu faria.

Depois de me chagar com uma dissertação detalhada sobre a imagem de opulência emanada dos objectos de cristal, e sobre a importância de aparentar bom gosto; talvez tivesse pensado que a coisa ficara por ali.

Mas eu sou muito sensível ao modo como as pessoas tentam amiúde estragar-me as férias, e em retaliação contei-lhe a (supostamente verdadeira) lenda sobre a descoberta do vidro por parte dos Fenícios (ou dos vidraceiros de Odivelas, venha o diabo e escolha); seguida das minhas impressões sobre diversas viagens a fábricas da Marinha Grande durante os anos 80, em que apreciámos a boa qualidade do cristal lusitano, apesar dos ordenados em atraso.

Enquanto estava atordoado passei-o ao Apóstolo que o deliciou com várias descrições dos diversos cristais que conhecia (inclusive a cerveja Cristal), e do modo como achava que estes influíam no destino de todos nós através da calma induzida pela contemplação dos seus reflexos.

Por esta altura o pobre rapaz bocejava como um pargo mulato, deitando olhares desesperados em volta, na esperança que algum colega o viesse salvar de tão cruel destino (adormecer nos braços do Apóstolo a meio de uma história).

Entretanto eu tinha tido oportunidade de escolher descansadamente, pelo que pisquei o olho ao meu comparsa e nos retirámos, antes que este fosse preso por “exercício de hipnotismo com fins imorais”…

No piso de cima o ambiente era bem mais calmo. Ao entrar na Douglas para me abastecer de Hugo (aparentemente é o que melhor liga com o meu pH), a primeira coisa que vi foi a abominação.

Não, estou a mentir pois a primeira coisa que vi foi o anúncio de Moschino, Mas depois comecei a ouvir um suave murmúrio que vinha do lado da porta, onde na verdade se encontrava um tipo com farda de Segurança (e que produzia o tal suave murmúrio), com um corpanzil enorme e uma igualmente enorme cabeleira aos caracóis.

A minha primeira ideia foi a que alguém cruzara Homer Simpson e Dino Meira, mas contra a vontade deste último. E a característica mais interessante, é que enquanto murmurava o personagem oscilava um pouco numa espécie de dança introspectiva. Via-se que era uma pessoa que se sentia bem com o seu próprio corpo.

Reprimindo um pequeno arrepio contive a respiração (a “anomalia” podia ser causada pelo excesso de perfume no ar) e dirigi-me ao balcão, agarrando de passagem um frasco de entre os que se encontravam no local do costume.

A caixeira devolveu-me o cartão juntamente com uma amostra de Halloween e um creme. A única vantagem deste último era a pequenez da embalagem e o facto de ser hipo-alérgico, pelo que não é irritante para as mucosas.

Para que raio quero eu um “Multi-action face wash (gel nettoyant)”?

Porém agradeci-lhe, reparando tangencialmente que ela tinha bastante por onde espalhar creme. Reflexão esta que me acompanhou enquanto voguei pelo recinto em direcção ao bar da entrada para beber café.

Para finalizar o dia em beleza, apresentou-se-me o mais completo par de idiotas que quiçá em duas gerações nasce apenas um. E estavam ambos ao balcão.

Para remediar a sua insuficiência intelectual para esta actividade, faziam trabalho de equipa. Ou seja, em vez de cada um atender o seu respectivo cliente, concentravam-se ambos no mesmo; contando com isto para que o serviço fosse melhor desempenhado.

Quando eu era miúdo, ofereceram-me uma vez um livro de paleontologia em que se falava de gliptodontes e megatérios. Nunca pensei que um dia os poderia ver em toda a sua majestade, e empatando-se um ao outro para os lados da máquina de café.

Quase conseguiram transformar duas meias de leite e croissants com queijo num assunto de estado, com tantas voltas que lhes deram. E cerca de um monte de tempo depois quando chegou a nossa vez, o Apóstolo foi informado que o descafeinado não estava a sair bem.

É um eufemismo que eu nunca tinha ouvido. Lá que a imperial não esteja a sair bem, ou mesmo uma fornada de carcaças, ainda vá. Agora descafeinado, era mesmo demais para nós.

Ainda estive para proferir algumas palavras mordazes. Mas também o que se pode dizer a alguém de uma espécie já extinta há milhões de anos?

O melhor mesmo é fazer praia.

Música de Fundo
Shut Up” – Simple Plan

domingo, 5 de junho de 2005

Ashanti

Do profundo mar de areia do Sudão, ouvem-se ás vezes vozes sibilinas que contam histórias. Narrativas nunca confirmadas que qualquer viajante pode colher, e que são devolvidas ás areias quando este morre de sede ou o seu sangue é derramado por salteadores.

Uma destas histórias fala de guerreiros africanos de pele negra, e de como mereceram o seu canto no paraíso muçulmano.

Allah após criar o mundo retirou-se para repousar, tendo deixando porém atrás de si um povo de pele de ébano e cabelo entrançado em contas, famosos pela sua coragem e criados à sua imagem; os guerreiros Ashanti.

Um dia aproveitando a ausência da divindade, Al-Hutamah a Destruidora e o Ardente As-As’ir libertaram-se das profundezas de An-Nar o círculo de Fogo; semeando o caos e a destruição no paraíso de Allah.

O mundo seria presa fácil pois nunca conhecera o mal. Não estando preparado para a sede de destruição que brotara das portas do inferno, como uma língua cortante e ígnea que ceifava tudo ao seu alcance.

Os Ashanti fizeram-lhes frente, mas de modo algum conseguiriam igualar o poder dos seres infernais; e um a um foram sendo aniquilados pelas terríveis chamas que os reduziram a cinzas, deixando apenas ossos calcinados e as contas de cerâmica que lhes adornavam os cabelos.

No fim, só ficaram ruínas e corpos dos corajosos defensores espalhados pelo deserto.

Al-Hutamah e As-As’ir regressaram ao círculo de fogo deixando atrás de si a desolação que recebeu Allah. Este carpiu a perda do seu fiel povo, chorando sobre os seus corpos e dando assim vida a milhares de oásis que cresceram e floresceram sobre eles.

As contas de cerâmica, ficaram espalhadas pela areia e ás vezes após as tempestades, algumas delas ficam a descoberto faiscando ao sol reflexos multicores.

A lembrar este facto, todos os povos de Allah passaram a usar enfeites no cabelo. E os que vieram depois dos Ashanti para que os feitos destes fossem sempre recordados, passaram a nascer com o cabelo encarapinhado; para que mesmo aqueles que não pudessem possuir enfeites caminhassem de cabeça erguida, perpetuando a glória dos seus antepassados.

E é assim que comemoro o segundo aniversário deste blog, meus amigos. Com uma pequena história que poderia pertencer à tradição muçulmana; mas que inventei hoje, só para vos agradecer.

TheOldMan

Música de Fundo
Power In The Darkness” – Tom Robinson’s Band

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Ponto de Vista

Sempre que saio de férias é como se fosse para não mais voltar. Guardo na pasta a moldura com a fotografia do meu filho que costumo ter em cima da secretária, arrecado o calendário onde tenho todas as minhas anotações e limpo a secretária dos restantes objectos pessoais.

Serve isto normalmente para deixar atrás a mensagem de que as empresas são tão substituíveis como o mais subalterno dos seus elementos. Serve também para me recordar que as raízes que nos alimentam são as mesmas que nos prendem ou limitam os movimentos.

Por outro lado, sempre que parto é também como se fosse a primeira vez.

O sol e o mar estarão sempre diferentes do que eram no ano anterior; do mesmo modo que eu próprio apesar de ser o mesmo não sou aquele que lá esteve antes. Os Invernos lavam todas essas coisas, e encarregam-se de nos ensinar a importância da renovação.

É por isso que não compreendo a expressão de inveja dos colegas que me vêm partir; afinal de contas, é a primeira vez que vou de férias…

Música de Fundo
Everybody’s Changing” – Keane

quinta-feira, 2 de junho de 2005

Hoje não era dia de Post…
- Mas esta, vão ter que a ouvir! -

Uma das coisas que obtive por experiência, foi a certeza de que a grande maioria dos que se fazem chegados a causas nobres e disso se gabam, não passam de demagogos e seres reles que se tentam auto-promover à custa da desgraça alheia.

Ok. Exagerei. Não é a grande maioria mas ainda é um monte de gente, e com um bocadinho de prática conseguem-se distinguir facilmente, pela lamechice e pelo tom sentimentalóide com que tratam o assunto.

É claro e faço já aqui notar, que este post tem um destinatário colectivo (em oposição a particular) composto por todos aqueles a quem sirva a carapuça, pelo que, quem algo tenha feito em prol de alguma dessas causas, pode considerar-se excluído deste texto e ir jantar em paz. Do mesmo modo que aqueles que se considerarem alvo único, deverão procurar ajuda médica especializada.

Lembram-se do “Menino Azul”? Provavelmente não. Pois terá eventualmente passado de moda, dando lugar a outros seres necessitados considerados mais “in” no momento (pelo menos foi a conclusão a que cheguei, ao visitar alguns dos blogs onde tanto se choramingava em sua intenção).

Segundo Correio da Manhã de hoje (que se delicia com estes dramas), que é uma espécie de TVI em papel cuja utilidade principal é evitar que as migalhas da minha torrada caiam no balcão; a exposição que estava agendada para ontem foi um fiasco por falta de divulgação, a saúde do miúdo está a deteriorar-se a olhos vistos, e ambos mãe e filho estão financeiramente “nas lonas”.

Se me perguntarem se estou comovido ou chocado, posso afirmar-vos que não. Já vi desgraças suficientes para fazer chorar uns dez ou quinze bloggers que nem umas Madalenas, e o meu desinteresse pelo assunto é quase tão grande como o vosso.

Mas estou farto de ver a blogosfera como um gigantesco chá de caridade, onde se fala dos pobrezinhos, dos pretinhos e dos aleijadinhos (usando é claro, os respectivos eufemismos habituais), como componentes de marketing ou apenas para ocupar o espaço de um post.

Este local está a tornar-se uma espécie de sucursal do “Reino da Palmadinha nas Costas”. Mas isso é natural, pois a blogosfera não passa de um reflexo pálido (mas pesadamente maquilhado) do mundo real.

Esse mundo real que alguns pensam que pode ser escondido, com uns sorrisinhos e cinquenta cêntimos de conversa fiada.

O link é este. Agora, ajudem… ou não. Mas tenham a decência de não se gabarem.

Música de Fundo
Power Of The Blues” – Gary Moore

quarta-feira, 1 de junho de 2005

O Piano

Gostaria de ter sido um pequeno Mozart. Mas em criança queria ser astronauta (o que é incompatível) e Mozart não era para ali chamado. Excepto no piano da Dona Alice do terceiro andar.

Mas mesmo assim não me agradava muito na altura, pois o velho instrumento tinha um som que lembrava vagamente um colchão de arame com câmara de eco. As mais alegres cantigas soavam nele lúgubres como lamentos em missa de finados.

Eu não gostava daquele piano.

Um dia em que o dedilhava descontraidamente ao acaso durante uma visita, iria jurar que me tentou morder; quando a tampa se abateu a milímetros dos meus dedos que retirei a tempo.

Quando novamente o abri, encarou-me com um sorriso sardónico nas teclas amarelas de fumador.

Nas noites de trovoada em que o prédio estremecia com os abalos das descargas, o piano ressoava num tom cavo e lamentoso de laivos metálicos; acompanhando o silvar do vento nas folgas das velhas janelas de madeira.

O som espalhava-se pelo saguão sombrio, amplificando-se e difundindo-se na vertical. E quando chegava ao sexto andar, dir-se-ia que o rio lá fora ganhara vida e se juntara à chuva galgando as margens para submergir todos aqueles edifícios.

Interrogava-me ás vezes sobre a sua origem. Diziam que em tempos pertencera a uma tia da Dona Alice que segundo contavam se suicidara; mas na verdade o corpo nunca chegou a aparecer, e mais tarde suspeitou-se que fugira com um cocheiro de fiacre.

Realmente era o “pedigree” ideal para um piano que fazia todas aquelas coisas estranhas. Mas acho que nunca ninguém levantou a menor suspeita sobre ele. Excepto o estar um pouco desafinado. Mas isso era facto provado, e já todos se tinham resignado a ele.

Ás vezes, quando a Dona Alice tocava durante a noite. Eu ficava a ouvi-la sentado no telhado por fora das águas furtadas, sentindo as notas dissonantes passarem por mim em direcção ás estrelas, como numa mensagem codificada.

Um dia quando os alienígenas viessem eu seria já astronauta, claro. Mas antes que estivesse pronto para salvar o universo faltariam ainda uns anos, e até lá teria que lidar com aquele piano.

Mudámo-nos antes que algo acontecesse, e nunca mais ouvi aquele som.

Até hoje…

Música de Fundo
Safe European Home” – Clash

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