domingo, 31 de julho de 2005

*
Estarei aí
para onde quer que olhes

Nas caras dos outros
nas ondas do mar

No Sol que se põe
sobre o horizonte em que me escondo

Estarei aí, porque
no idioma em que te sinto
não há longe nem distância

Música de Fundo
Echoes (intro)” – Antigone

sexta-feira, 29 de julho de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- A historieta de entalar pelo meio –

Queridos fiéis e derivados. É verdade que o tempo arrefeceu um pouco, mas do cimo do púlpito é que se vêm bem as carecas assim como os decotes; e a minha impressão, é que as almas e restantes acessórios dos leitores habituais deste blog têm sofrido um sobreaquecimento invulgar nos últimos dias.

Pois para lançar um pouco de água na fervura, e também porque tenho que me ausentar por dois dias; deixo-vos com um pequeno texto intercalar, que espero cumpra a missão de “comic relief” e limpe das vossas libidinosas mentes as imagens dos Santos de Blog nas suas litúrgicas práticas (que reatarão sábado ou domingo se Blog o quiser…).

Deixo-vos pois com “O Stand de Usados”

- Boa tarde! Ia a passar, e não pude deixar de notar aquele modelo desportivo que tem em exposição.

- É uma maravilha, não é? – Perguntou o vendedor, esfregando as mãos ao estilo de um prestamista judeu – E são só nove mil e oitocentos euros. Uma pechincha. Pertenceu a uma milionária idosa que o usava muito pouco, a maior parte das vezes, apenas para ir ás compras. Muito em conta …

- E aceita o meu como retoma? – Perguntou a potencial cliente visivelmente interessada – Como deve calcular, não posso ficar com ele. Não é que não tenha onde o meter… Mas já não desenvolve como antigamente, e também ficar para ali parado seria um desperdício, pois ainda não está completamente nas lonas.

- Bem. Parece um bocadinho estafado. – Respondeu ele depreciativo – De que ano é?

- Veio para a minha mão em 92; e antes disso tinha circulado muito pouco. Fui eu praticamente quem lhe fez a rodagem. – Disse ela orgulhosa – E sempre fui muito cuidadosa a andar com ele, não tem vícios nenhuns.

- Noventa e dois? Isso é já um modelo antigo, minha senhora – Esclareceu o dono do stand – E olhe-me para aqueles pneus. Não pode dizer que esteja propriamente novo. Só lhe posso dar € 420,00 pela retoma e viva o velho.

- Bem, que remédio! – Disse ele conformada, mas olhando já cobiçosa para o novo modelo – A minha mãe quando me ensinou, bem me disse que devia trocar os homens de sete em sete anos.

- Pois é! – Concordou o tipo do stand – Devia dar mais atenção aos conselhos dos profissionais. – Depois gritando para dentro – Ó Chico, dá umas calças ao Nº 3 que a cliente quer levá-lo já!...

Música de Fundo
Venus” – Shocking Blue

quarta-feira, 27 de julho de 2005

O Passeio no Campo (Parte 2)
“A onda que passou entre os nossos olhos jamais voltará, tal como a hora decorrida.”
- Públio Ovídio -

- Estás a tentar fazer-me entornar o café? – Perguntou ele, sentindo algo quente e sedoso acariciar-lhe a perna através do tecido das calças. – Tens uma hora para tirar daí o pé…

- Não penses que te safas assim tão facilmente… - Troçou ela, fazendo mira através do copo com vinho branco quase vazio que segurava á sua frente – Ou achavas que iria deixar arrefecer a sobremesa? Acaba a bica, que quero ver esse rabinho mexer-se em direcção ao quarto.

- Meu Deus! Afinal só gostas de mim pelo meu corpo! Sinto-me como um pedaço de carne. - Proferiu o homem levantando-se, enquanto se fingia escandalizado – Ao menos deixa-me dar uma olhada aqui à volta…

- É melhor que te sintas como um pedaço de nervo também, porque as bolhinhas do vinho já me estão a passar o umbigo e continuam a descer – Disse-lhe ela levantando-se para o seguir; aproveitando para lhe meter a mão num dos bolsos traseiros das calças de ganga, apertando-lhe um pouco a nádega. – Amanhã temos muito tempo para passear! O tipo da recepção disse que existem imensos caminhos entre as aldeias, e podemos fazer um pouco de trekking.

Ele virou-se para trás subitamente e puxou-a por um braço para debaixo do caramanchão de onde pendiam cachos de uva branca, cujos enormes bagos pareciam prestes a estourar – Agora sempre quero ver se essa conversa toda dá alguma coisa, ou és mais uma “princesa do eufemismo” – Desafiou-a com ar zombeteiro; mantendo o ventre premido contra o dela num abraço pela cintura, enquanto lhe passava uma mão apreciadora por debaixo da saia.

Apoiando um pé sobre o murete que suportava a latada, ela abriu-lhe o fecho das calças; sentindo as mãos fortes de macho devassarem-lhe a intimidade por ambos os lados, até se encontrarem por baixo de si como uma sela viva feita de dedos – E como são essas princesas? – Articulou um pouco a custo, com as faces afogueadas.

- A Princesa do Eufemismo pega tudo com dois dedos. – Informou ele, afastando-lhe a parte fronteira das cuecas e colocando-a em posição favorável, enquanto lhe dardejava a boca com a ponta da língua. – Têm para tudo nomes ternurentos, e no primeiro momento livre correm a lavar-se. Estás a vê-lo? – Perguntou, fazendo um pequeno aceno para baixo. – Pega-lhe. É todo teu.

Sentada nas mãos dele, apertou-lhe o membro com uma das suas percorrendo-o assim até à base, de modo a que a cabeça deste fosse forçada para baixo pela pele esticada. O homem inspirou profundamente e apoiou-se melhor com as pernas afastadas, observando como ela passava a glande entre os lábios sumarentos e túrgidos, mas sem o deixar entrar em si.

- Não te apresses. – Disse ela com um sorriso na face corada – Vais ter que pagar essa da “princesa”, e se calhar com “língua de palmo”. Olha bem…

Deixou-o entrar um pouco até ser detido pela mão fechada entre ambos, voltando a fazê-lo sair e roçando-o pelo clitóris. Até que ele impacientando-se a pousou no chão, e virando-a fê-la deitar-se sobre o muro agarrando-lhe o cabelo com uma mão para a manter firme, a penetrou bruscamente fazendo bater a pélvis contra as nádegas que abria com a outra mão.

Enquanto se introduzia repetidamente cada vez mais fundo, ele molhou um dedo com saliva acariciando-lhe com este o botão de rosa que se revelava entre os dois hemisférios, e fazendo-o entrar um pouco. Ao que ela respondeu com um suspiro de agrado; abrindo-se mais com uma das mãos.

Como que presa num anzol de carne e osso, ela sentia o dedo nodoso entrar e sair tocando na estreita parede que o separava do pénis pulsante, que mais abaixo a preenchia quase até ao fundo.

- Afinal parece que não vale a pena comprar o sabonete - Disse ele segurando-a pelo ombro. E retirando-se de dentro dela, puxou a pele do membro para trás colocando-lho entre as nádegas, forçando um pouco.

A mulher por momentos conteve a respiração sentindo o esfíncter dilatar-se; e a sensação abrasadora da penetração lenta transformou-se a pouco e pouco, num vai-e-vem ritmado cada vez mais rápido, que lhe transmitia pela coluna vertebral arrepios como chamas geladas.

Dobrando-se para a frente, o homem começou a massajar-lhe o clitóris introduzindo-lhe a ponta dos dedos para a puxar contra si.

Olhando para trás ela levantou a perna direita, e segurando no joelho pousou-a sobre o muro para se colocar de lado e ter um pouco mais de apoio. Permitindo que ele entrasse ainda mais em si, e deixando à vista os lábios vaginais intumescidos pelos os quais ele introduziu o polegar; com o qual esfregou a parte rugosa do canal, provocando uma contracção involuntária por todos os músculos do abdómen.

Sentindo cada vez mais intensamente o pénis apertado no estreito anel, onde se afundava com impulsos bruscos das ancas; ele fechou os olhos e tentou alhear-se um pouco para atrasar a ejaculação. Movimentando o polegar dentro dela, enquanto o indicador e o médio apertavam entre si o pequeno caule rosado que espreitava entre os pelos encaracolados.

A língua dele percorreu-lhe as costas descobertas pela roupa em desalinho. E ela apesar de sentir a aspereza da pedra sob os braços e a perna, segurou-se com toda a força perante as bruscas investidas que a sacudiam; tentando ao mesmo tempo conter os gemidos que morriam na sua boca molhada.

Vinda bem do fundo de si, uma onda de espasmos fê-la contrair-se aprisionando o amante, que inspirou ruidosamente ao pressentir a torrente que o começava a percorrer como uma descarga eléctrica. A mão dele foi atingida por dois pequenos jactos curtos de líquido viscoso, mas a sua atenção estava toda nas ancas dela que sujeitava com força, puxando-as violentamente contra o seu corpo, enquanto fechava os olhos e se sentia a sair de si próprio estremecendo descontrolado.

Á distância de meia dúzia de passos, um coelho de orelhas felpudas observava atentamente os dois amantes, enquanto mascava uma folha de erva…

Á Suivre…

Música de Fundo
Sympathy For The Devil” – The Rolling Stones

segunda-feira, 25 de julho de 2005

O Passeio no Campo (Parte 1)
“Sou o mensageiro da perversidade. O meu olhar corrompe como o abismo atrai”
- Pierre-Jean de Béranger -

Um moderno automóvel para circuitos urbanos parou calmamente frente à imponente fachada de aspecto oitocentista. O pequeno caixote de plástico e vidro ficava tão deslocado na paisagem, como um ovo quadrado num galinheiro. Mas foi discretamente estacionado no pátio das traseiras, onde ficou impossibilitado de ferir os olhares mais susceptíveis.

Tirando a chave na ignição ele encarou-a um pouco embaraçado – Espero que não demos muito nas vistas… - e prendendo-lhe uma madeixa atrás da orelha, beijou-a ao de leve.

- Somos ambos casados… usamos aliança, qual é o problema? – Respondeu ela sorrindo com ar maroto; o que lhe provocava uma covinha no lado esquerdo da face – Aliás, isto é bem perto do fim do mundo. Mais uns quilómetros e caímos do extremo da terra para o espaço.

Estas considerações “letronnianas” foram interrompidas pelo dono da propriedade, que descendo a escadaria de granito os convidou a entrar e lhes proporcionou um porto, enquanto confirmava as reservas no PC do “front-office”.

Caminharam sob um caramanchão até um pequeno edifício totalmente construído em xisto. O interior desmentia bastante a impressão que teria quem apenas o observasse de fora.

Entrava-se para uma pequena antecâmara que servia de sala e dava para um quarto rústico, onde pontificava uma lareira apagada de aspecto imponente – A casa de banho é aquela porta ali! – Informou o anfitrião indicando uma porta a um canto. – A água para os banhos vem da caldeira no edifício principal, pelo que não têm que se preocupar. O almoço é daqui a uma hora – Acrescentou enquanto saía com um sorriso discreto.

- Realmente uma hora é uma eternidade para preencher – Disse ele sugestivamente – nestas paragens deve haver muita dificuldade em ocupar o tempo livre.

- Não comeces com ideias. – Começou ela olhando-o de esguelha – Estou toda transpirada e um banho fazia-me imenso jeito. Desabotoas-me o vestido?

Ele aproximou-se por detrás, e enlaçando-lhe a cintura com o braço esquerdo desabotoou-lhe o primeiro botão do vestido de algodão; aproveitando para colocar um beijo húmido sobre a última vértebra saliente do pescoço, que mordiscou levemente.

Agarrando-se à armação da velha cama de ferro com um arrepio a percorrer-lhe as costas no sentido descendente, ela sentiu uma mão forte insinuar-se entre as suas pernas; começando a subir do joelho pela parte interior da coxa direita, e acabando por lhe apanhar toda a virilha como quem agarra um tronco. Sentiu-se levantada e forçada a pôr-se em bicos de pés.

- Realmente é a isto que eu chamo transpiração a sério – brincou ele, passando-lhe a língua por debaixo da orelha enquanto lhe levantava a orla das cuecas; tacteando o caminho com os dedos que já sentia molhados.

Estreitou ainda mais o abraço agarrando-lhe um seio. E enquanto lhe procurava a boca com a língua, introduziu lentamente dois dedos dentro dela em paciente exploração, sentindo relevos sensíveis ao tacto que vibravam em pequenos espasmos e se repercutiam pelo corpo dela num suave abalo sísmico.

- Sabes que não posso garantir a tua segurança no banho? – Perguntou-lhe ele em voz rouca, enquanto para corroborar o que dizia se encostava bem a ela, de modo a fazer-lhe sentir o membro bem rijo através das calças. – Imagina que deixas cair algo que precises apanhar…

Ela deixou-se cair sobre a cama, e girando sobre si própria colocou-lhe os calcanhares nos ombros, forçando-o a inclinar-se sobre o seu peito onde lhe agarrou a cabeça com ambas as mãos. – Sabes o que acontece aos meninos com orelhas grandes? – Perguntou enquanto lhe dirigia a cabeça um pouco mais para baixo de modo sugestivo.

- Se calhar, algo parecido com o que mais tarde vai acontecer a uma menina de cabelo comprido que eu conheço – Respondeu ele, puxando-lhe as alças do vestido por fora dos ombros, e fazendo-o deslizar firmemente pelo corpo abaixo; o que a deixou apenas com as cuecas azul celeste.

Tirou a t-shirt e debruçou-se-lhe sobre um dos seios, lambendo-o demoradamente enquanto ela se debatia com o botão das suas jeans. Desceu com a língua em direcção ao umbigo, e aproveitou para se livrar do resto da roupa com um movimento rápido. Meteu-lhe as mãos por debaixo das nádegas e atirou-a literalmente para o meio do colchão, fazendo a cama protestar com um rangido metálico.

- Acho que vais ter acompanhamento instrumental – Disse-lhe em tom provocatório – Felizmente as paredes são grossas, e ninguém vos irá escutar ás duas.

- Sim? – Retorquiu ela – E quem é que faz aqueles ruídos como se estivesse a ser estrangulado? Anda cá! Meu presunçoso…

Ele saltando para cima da cama tirou-lhe as cuecas. Agarrou-lhe as pernas pela parte de trás dos joelhos, e empurrou-as fazendo com que ela se abrisse como uma anémona rosada e húmida, começando a beijar-lhe a parte interior das coxas.

Soprou os cabelos curtos e encaracolados da púbis. Passou a língua pelos lados da fenda semi-aberta, e soltou-lhe as pernas que ela abraçou para com as mãos se abrir um pouco mais. Afastando-lhe os lábios da vulva com os dedos, lambeu a entrada em movimentos circulares que se aproximavam inexoravelmente do pequeno botão saliente e hirto.

Ela soltou alguns gemidos abafados e impacientes, sentindo um rio de fogo percorrer-lhe todo o corpo. – Vem! – Disse-lhe. Mas ele sem ligar, ficou mais um pouco a brincar-lhe com o clítoris, apanhando-o com os lábios para o soltar de seguida, introduzindo repetidamente a língua pela fenda aberta até ela se enroscar de prazer.

Levantou-lhe a perna esquerda para a virar um pouco de lado, e colocando o calcanhar sobre o lado direito do pescoço, introduziu-se de uma só vez com um impulso forte das ancas; ficando por momentos a tacteá-la interiormente, e a sentir todas as pequenas rugosidades que lhe aprisionavam o membro.

Sorriu ao captar-lhe o olhar. Não gostava de mulheres que fechavam os olhos durante o sexo; era daquelas ocasiões em que achava necessário um contacto mais profundo que uma mera fricção de mucosas. Começou a mover-se lentamente a princípio, aumentando gradualmente o ritmo que era acompanhado pelo gemer da cama e pelas exclamações entrecortadas da companheira.

Esta puxou-o para baixo e rolando colocou-se em cima dele. Segurando-se à cabeceira da cama para se sentar firmemente, começou a saltitar cada vez com mais força fazendo oscilar os seios, e espalhando em volta o cabelo como uma chama negra.

Recostado nas almofadas, via-a empalar-se ferozmente em si com movimentos quase descontrolados. Ergueu-se um pouco. Pousou-lhe as mãos nas pernas massajando o clítoris com os polegares, e esticou o pescoço para lhe beijar os seios chupando os mamilos alternadamente.

Ela observou-lhe a expressão tensa do rosto, sentindo o sangue a pulsar nas virilhas com uma urgência incontida que a invadia pelo baixo-ventre em pequenas explosões cada vez mais profundas e intensas. Um gemido involuntário brotou subitamente de dentro de si, como um soluçar agudo, que se prolongou à medida que a vista se nublava. E deixou-se cair sobre ele percorrida por um estremecimento involuntário.

O homem abraçou-a sentindo todos os pequenos movimentos que o envolviam, com a cara coberta pela cabeleira escura que cheirava a lilases.

Soltando-se suavemente do abraço, ela deslizou por ele abaixo sentindo o pénis duro passar-lhe pela barriga e por entre os seios, ficando a oscilar ligeiramente em frente a si. Atravessou-se na cama, e puxando a pele para baixo com as duas mãos rodeou a glande com os lábios, chupando vagarosamente.

A sensação foi tão intensa, que ele se agarrou aos ferros da cabeceira com as duas mãos contorcendo-se um pouco. Encorajada pela reacção, ela engoliu-o até sentir alguma pressão contra a garganta; voltando a soltá-lo para repetir o movimento várias vezes combinado com sucção.

Ele semi-cerrou os olhos sem se conseguir conter por mais tempo, deixando-se ir num gemido rouco e abafado, enquanto apertava as barras de ferro até os nós dos dedos lhe ficarem brancos com o esforço.

A mulher sentiu os movimentos espasmódicos do membro passarem-lhe pela mão e pelos lábios em direcção à garganta, por onde algo quente se espraiou em jactos quentes. Levantou-se limpando a boca com as costas da mão, e sorriu para ele que jazia imóvel, percorrido apenas por pequenos estremecimentos involuntários. – Tão bonitinho! – Proferiu com ternura – Ainda não te tinha ouvido gemer assim.

Ele encarando-a, com um sorriso pálido mas satisfeito que lhe franzia os cantos dos olhos, atraiu-a para o seu peito beijando-a. – Sabes? – Disse - Eles devem ter aqui daqueles sabonetes pequeninos que não valem nada. Quando sairmos vou comprar um como deve ser, para poderes apanhar no banho…

Á suivre…

Musica de Fundo
No Ordinary Love” – Sade

sábado, 23 de julho de 2005

Na Tradição das Delícias Estivais
- Ou onde se aconselham os leitores a tapar os olhos ás crianças durante a leitura do próximo post… -

O Verão é uma época em que tudo se torna um tanto ou quanto borbulhante. Desde o vinho branco em copos de pé, até ao sangue que corre mais rápido pelos canais competentes cumprindo a sua missão irrigadora.

É um tempo de luxúria em que sensações intensas não dão descanso aos corpos que correm à desfilada com o freio (ou qualquer outra pele) nos dentes; arrastando consigo o cérebro que muitas vezes demasiado cansado para continuar no comando, desiste e vai de férias até ao Outono.

No ano passado escrevi um conto erótico em episódios. Não foi mau, atendendo a que a maior parte dos que o leram demonstraram o seu agrado, ou apresentaram críticas bem fundamentadas.

Houveram também algumas reacções negativas, mas como foram aparentemente causadas por inveja ou despeito, acabaram por não surtir efeito algum.

Destes últimos, alguns chegaram mesmo a ser cómicos na sua ânsia de causar algum impacto negativo. Tendo sido perseverantes, ao ponto de continuarem periódicamente a publicar comentários pejorativos nos seus próprios blogs; o que acabou por me dar um certo gozo (causa-me sempre prazer, ver um espertalhão consumir-se na sua própria raiva).

Mas este ano estou mais velho e quiçá mais sábio (é treta, mas serve para compor o texto). E tal como disse ontem a alguém, o facto de ter deixado de ler um ou dois blogs provocou-me o mesmo efeito benéfico que uma dieta rica em fibras; o que é óptimo para uma escrita activa e saudável.

Não sou um escritor; por isso não criem demasiadas expectativas e divirtam-se apenas. E já que não existe coisa mais saudável e divertida (pelo menos, que eu me lembre) do que o sexo… “Let’s do it”!

Música de Fundo
Ass Like That” – EMINEM

quinta-feira, 21 de julho de 2005

*
Renasço sempre em ti
como um lótus

no secreto oásis
em que me acolhes

e te ofereço apenas a sede

que nasceste para saciar
minha terna e doce kanwal.

Música de Fundo
Beautiful Way” - Beck

quarta-feira, 20 de julho de 2005

O Racismo!
- Esse flagelo da humanidade –

O racismo é, como todos sabem,um preconceito bastante difundido entre espíritos fracos, que têm assim um modo fácil de ganhar um pouco de auto-estima. Mas normalmente no exercício desse passatempo, a maioria quase sempre não repara que o ridículo que tenta atribuir aos outros, paira na verdade sobre si.

Não acredito na supremacia genética da raça branca. E o facto de pensar que a maioria dos ciganos, negros e paquistaneses que conheci não “interessam a ninguém”, é apenas baseado na minha experiência pessoal. Pelo que admito a hipótese de me terem calhado os piores.

Abro um parêntesis para ressalvar seis ou sete honrosas excepções, entre as centenas com quem convivi em todos estes anos; e que apesar de serem em número pouco representativo, valem pela qualidade e não pela quantidade.

Não sinto remorso algum do que os meus antepassados possam ter feito ou não. Pelo que me excluo daqueles que aparentemente se sentem culpados por serem caucasianos, e tentam mostrar-se liberais para com os “nossos irmãos”, fazendo tristes figuras quando falam com pessoas de outras raças.

Quanto aos direitos, liberdades e garantias de cada um (ou de cada raça), não tenho nada a dizer; pois são coisas que têm que ser conquistadas, e não oferecidas como se fossem leite em pó. Isto quanto a mim serve para todos; por mais branco e leitoso que seja o seu aspecto.

Talvez por tudo isto eu ache que não sou racista; o que faz com que raramente pense no assunto. Mas hoje fui pela primeira vez em que me lembre, vítima (tecnicamente) de racismo; nomeadamente alvo de termos pejorativos.

Apesar de me ter levantado bem mais tarde do que é hábito, encontrava-me esta manhã calmamente na paragem do autocarro em Cacilhas a contas com os meus pensamentos. Discorria na altura sobre a possibilidade de após o meu post sobre o folheto do PS, todos os outros partidos decidirem abandonar a campanha em Almada (e o certo é que não tem aparecido mais propaganda eleitoral), quando chegou o autocarro.

Enquanto subia para este, aproveitei a “Samsonite” para trancar contra o corrimão um espertalhão que tentou ultrapassar-me pela direita, e tive que aguardar mais algum tempo ainda antes de me sentar; pois uma família de negros (não lhes chamo africanos porque não posso garantir a veracidade dessa afirmação) acampou à minha frente para comprar bilhetes, apesar do letreiro que indicava ser aquela entrada apenas para quem tinha passe.

Era é claro, apenas para impedir que os restantes lhes ocupassem os assentos, mas não me preocupei; pois desta vez os passageiros eram poucos.

Sentei-me do lado direito tal como costumo fazer, e enquanto o autocarro não partia aproveitei para ir observando as pessoas (do sexo feminino, entenda-se) que passavam, atarefadas nos seus afazeres diários.

O sol entrava pela janela com o ávontade de um velho amigo, e eu sentia-me em paz com o mundo. Não que estivesse preocupado com ele, mas apenas porque já tomara o pequeno-almoço.

Mais ou menos pela altura em que seguia com os olhos uma transeunte um pouco mais interessante que a média, chegou-me aos ouvidos o seguinte diálogo em voz abafada mas perfeitamente audível – Olha! Foi pôr-se ao sol com tanto lugar deste lado. – Notou a mulher referindo-se a mim.

O tipo virou-se para ela e respondeu em tom jocoso – É p’ra queimar. Todos os brancos gostavam de ser pretos.

Era a primeira vez que me sentia alvo de racismo, mas não me causou uma impressão por aí além; pelo que continuei a seguir com os olhos a saltitante transeunte dos parágrafos anteriores.

O autocarro partiu finalmente fazendo a curva ao lado da Cervejaria Canecão, e tomando rumo em direcção à Caparica. A família de negros (se calhar eram mesmo africanos…), levantou-se dos seus lugares e foram-se sentar silenciosamente nos bancos à minha frente, para evitar apanhar com o sol que entretanto se deslocara para o lado oposto.

Por alguma razão que desconheço em absoluto, apenas o miúdo com cerca de oito anos ostentava uma expressão calma e divertida…

Música de Fundo
Baltazar” – Ena Pá 2000

segunda-feira, 18 de julho de 2005

O Pargo de Mário Soares (Mais de dez anos antes da tarte de Bill Gates)
- E de como à semelhança dos Lémures, todo o PS Almadense se lançará ao Tejo para terminar em beleza uma divertida e inesquecível campanha eleitoral –

Se há coisa que Blog aprecia, é uma boa piada. Aliás, os fiéis que LHE são mais queridos são os que têm sentido de humor; o que ao contrário do que possa dizer a Inês a que me referi uns posts atrás, não é uma coisa má.

Quem não tem sentido de humor não o tem também em relação ao ridículo, o que pode dar origem a situações deveras divertidas, mas que não serão gratificantes para o próprio. Pois na sua ignorância da figura que faz, não tem possibilidade de saber qual a melhor altura para acabar a palhaçada e ir passar o chapéu pela assistência em busca de uns trocos.

É um pouco o que se está a passar com o PS em Almada; mas eu explico.

Como já sublinhei algumas vezes (e não foram poucas, acho), Apesar de ser um ex-PC (muito ex mesmo) para mim a hipótese de os ver no poder central é-me quase tão grata como lá ter o Generalíssimo Franco ou o António Salazar. Isto porque os conheço bem por dentro e por fora, e um dos primeiros conceitos que lá me ensinaram foi que os fins justificam os meios (embora dêem um monte de desculpas esfarrapadas para mascarar isso).

Mas se há sítio em que são bem aplicados é na administração autárquica, onde a sua organização piramidal encaixa como uma cunha (isto sem piadas, porque os outros partidos funcionam igualmente no sistema de “famiglia”); e sendo controlados financeiramente pelo governo, nem farão muito estrago pois sendo bem “motivados”, os dirigentes até conseguem fazer trabalhar as bases que são bastante obedientes.

Em Almada existe um sistema equilibrado e as coisas nem funcionam mal. Só não se desenvolve um pouco mais, porque o governo quando começa a ver as coisas começarem a correr “bem demais”; enche-se de ciúmes e dá um pontapé no balde. Ou seja, corta subsídios e volta atrás com promessas, decidindo até muitas vezes apadrinhar a iniciativa para ficar com os louros.

“A César o que é de César”; o PC a nível de autarquia tem-se portado bem. Mas aproximam-se as Eleições Autárquicas, e consequentemente vai-se armar a tenda pelo que teremos palhaços (além dos habituais, claro).

Eu não conheço o candidato Alberto Antunes de lado nenhum. O que quer dizer que não poderei dizer mal do homem; e ser do PS não é defeito. É apenas uma má opção como ser do PC, do PSD ou do BE (neste último caso já é mais uma espécie de delírio febril); pois não existe em Portugal um único partido – incluindo o PPM-CP (Câmara Pereira) – que valha o levantarmo-nos um pouco mais cedo nesse domingo.

Agora deixar que a sua imagem apareça num folheto com o conteúdo ideológico equivalente aos anúncios do Professor Karamba, já é outra conversa.

Analisemos pois o dito panfleto. E peço que tenham a pachorra de o fazer comigo, pois prometo fazer o mesmo a todos os que enfiem pela minha caixa do correio adentro.

Analisemos então a fotografia apresentada em epígrafe.

Alberto Antunes além de ser um dos primeiros na lista telefónica devido ao seu nome, é também fotogénico. Este último atributo talvez seja resultante da sua actividade como Governador Civil do Distrito de Setúbal (da qual não conseguiram extrair nenhuma obra concreta para citar neste folheto) de 1995 a 2001; mas já lá iremos.

Segundo ele (ou quem fez o folheto, mas para o caso é exactamente o mesmo) “Almada está parada no tempo – É hora de ir em frente”.

Malta! É a melhor piada que me poderiam contar. Senão vejamos…

Os edifícios que se avistam estão realmente parados no tempo. Pertencem à Lisnave (onde segundo o folheto trabalhou em tempos o candidato) e estão ali naquele estado há uns quinze anos.

É claro que já há meses foi dado a saber há população, que se irá ali construir um condomínio com centro comercial e terminais de transportes. Eu não penso sequer que o Senhor Antunes se tenha apropriado de uma ideia já existente, mas talvez tenha algum plano para convencer Pedro de Mello a ceder o terreno do seu grupo para construir uns jardins, escolas, lares de terceira idade e mais algumas demagógicas construções.

É claro que isto não é confirmado, pois em todo o folheto não fazem uma única promessa concreta. Talvez tenham ficado honestos de repente... Náááááá!

Segundo ele próprio afirma no folheto, vive em Almada há trinta anos. Aparentemente isso não chegou para que conhecesse a terra onde vive; e já agora, por essa ordem de ideias eu sou cinco anos mais Almadense que ele. Mas como não venho aqui só para dormir, considero que me encontro em melhores condições para falar sobre o assunto.

Se atentarem bem na foto, poderei informar-vos que 500m à esquerda das “ruínas” se encontra o terminal fluvial de onde partem os velozes catamarans. 1000m à direita encontra-se a ETAR; em frente a esta o chamado “Pólo Tecnológico da Mutela”, logo ao lado da Escola Profissional, da piscina do Clube Lisnave e do Hospital Particular de Almada. Para uma zona “degradada” até nem está nada mal.

Aparentemente (e pelo ângulo em que aparece na fotografia) o candidato encontra-se com os pés no ar a cerca de 30m de altura, sobrevoando a Escola Anselmo de Andrade.

Ainda bem que tem os pés no ar porque estando apontado para aqueles edifícios, quem lhe seguir o conselho e for em frente vai cair directo no Tejo. Mas o PS tem razão; já é tempo de uma banhoca fresquinha que lhes restitua a lucidez (bem como algumas outras substâncias que lá se encontram em suspensão).

As recomendações de “figuras” conhecidas, então, são tocantes. O primeiro é logo Mário Soares, que se esquece não ser boa ideia apresentar-se como patrono seja do que for em Almada.

Esquece-se talvez daquela fresca manhã no início dos anos 80, em que já sendo conhecido como um dos coveiros de toda a Indústria Naval e Pescas, se pavoneava em sorridente campanha pelo Mercado Municipal de Almada. Esquece-se também daquela simpática peixeira que achou por bem demonstrar os seus sentimentos, dando-lhe com um peixe de tamanho médio pelas trombas adentro ao mais belo estilo dos livros de Asterix.

Eu sei porque estava lá. Fui aquele que gritou – A corvina! Dá-lhe com a corvina, porra… - Porque achei que um modesto pargo, nunca seria o suficiente para tão importante homem de estado.

Eu não sou de Almada; apenas moro aqui. Só que uma das coisas que tenho em comum com os nativos, é não me esquecer das coisas importantes que aqui têm acontecido. Mas chega de gratas recordações e adiante.

O segundo avalista é um escultor de nome Francisco Simões, que se auto-intitula “homem de cultura”. Nesta altura talvez fosse de bom-tom citar-vos Marco Aurélio sobre os que se auto-elogiam, mas não vou insultar a vossa inteligência.

O terceiro caso é triste porque apesar de se tratar de um combatente anti-fascista acima de dúvidas, estragam tudo quando escrevem – Edmundo Pedro, ex-prisioneiro do Tarrafal – Então o homem não fez mais nada? Ou é só para ter pena?

Realmente não há como esta gente para depreciar o que por eles fizeram os próprios camaradas.

Existem mais mas não tenho assim tanto tempo; por isso vou terminar com o meu favorito – Arnaldo de Matos, Advogado

É verdade pá! È o gajo! O grande dirigente e educador da classe operária que cansado de tanto batalhar pela revolução, vem agora recomendar o candidato do PS. Isto talvez por ter herdado o lugar de Acácio Barreiros (outro que virou o bico ao prego em menos tempo que demora a dizer “vira-casacas”).

E Arnaldo Matos diz então que o candidato se trata de um homem de grande dignidade. Até é possível que sim, mas vindo o elogio de onde vem acaba por se tornar num toque de finados.

A minha recomendação é que em Almada se vote em peso no PS, pois conforme se anuncia no folheto, todo o PS Almadense se reunirá junto à Lisnave avançando para o rio em ordeira manifestação; dando origem a um precedente. A primeira promessa cumprida em muito tempo.

E quem sabe? Talvez no meio dos peixes mortos, preservativos e outros detritos eles se sintam verdadeiramente no seu elemento natural…

Só mais uma coisa. Lembram-se daquela “mãozinha marota” que lhes servia de símbolo, e foi substituída pela rosa com o intuito de cativar o eleitorado mais medricas; parece que está de volta. Ou então é apenas para terem com que se agarrar, no caso de voltarem à superfície.

Música de Fundo
Maré Alta” – Sérgio Godinho

sábado, 16 de julho de 2005

Three Presents From Fate
- Um conto negro no seguimento do post de 11 de Julho

A primeira coisa que apareceu no meu campo de visão foi o velho televisor a válvulas transformado em aquário, de onde o peixe-dragão me fitava numa censura muda.

Esfreguei o pescoço dorido da má posição em que dormira, e levantando-me fui-lhe deitar na água alguns camarões liofilizados, encaminhando-me para o chuveiro em passo arrastado. É impossível acordar do lado errado quando se adormeceu sobre o tampo de uma secretária; mas eu hoje não aconselharia ninguém a discutir comigo esse tipo de assunto.

Entrei no duche com a gillette na mão, e enquanto a água caía sobre mim levando consigo a névoa de uma noite mal dormida, fiz a barba utilizando o meu reflexo no manípulo da torneira.

Saí fresco e retemperado, apesar de ter dois cortes na ponta do nariz por não ter dado o devido desconto à curvatura do que me servira de espelho. Peguei nas chaves e tomei o elevador enquanto pincelava o apêndice nasal com lápis hemostático. Quem me visse de relance pensaria que eu retocava o baton, mas nunca me importei muito com a opinião alheia.

Só assim se pode ter um trabalho que nos permite fazer as coisas mais estranhas; como cantar Madame Butterfly no banho ou espancar um Mórmon com uma chave de rodas (embora esta última, seja o desejo secreto de imensa gente).

Enquanto entrava no táxi, olhei para o sol que se elevava sobre a fila de tráfego a caminho da ponte. O alaranjado da luz matinal, emprestava um tom de apocalipse nuclear àquele aglomerado de carcaças metálicas… A visão ideal para começar um dia que talvez acabasse com uma explosão.

Felizmente o motorista conhecia-me e arrancou sem a conversa fiada do ofício. Pude assim pôr as ideias em ordem, enquanto a paisagem ia desfilando pela janela cheia de dedadas e marcas de encosto das cabeças oleosas de dezenas de ensonados. O carro cheirava a uma mistura de pinheiro e terra podre, como se fosse a sala de espera de uma agência funerária.

A imagem dos três volumes em meu nome reenviados para a estação dos CTT da Caparica, chocalhava-me no espírito impulsionada pelos solavancos da viatura; decidira afinal nada contar ás autoridades, não fosse tratar-se de um equívoco. Mas algo me dizia que tinham a ver com este último caso não solucionado.

Nada disso era surpresa para mim; pois a minha vida está cheia de casos não solucionados.

Quando a Dona Odete me viu entrar na cafetaria atentou na minha expressão ausente, e farejando sarilhos garantidos foi tirar o jornal ao paraplégico do costume, que ficou a protestar em direcção à apresentadora do programa da manhã, que parecia estar embrulhada em plásticos como um traficante retirado do Tejo.

Sem dúvida que algo se passava comigo. Mas eu estava demasiado embrenhado em dúvidas para que notasse o cariz mórbido de todas estas apreciações. Na minha profissão não se apanham depressões. Apenas uma ou outra cacetada ocasional; e com um pouco de sorte reformamo-nos com apenas algumas cicatrizes daquelas que se mostram em encontros amorosos para fazer ambiente.

O chá de menta e a torrada seca souberam-me a polipropileno; mas forcei-me a engolir tudo. Tinha um dia muito comprido à minha frente.

Passei pelo escritório para dar algumas indicações a Miss Entropia (a minha assistente), e recolher os três avisos que me permitiriam levantar os volumes nos correios. Sentia-me tenso como um toureiro numa manifestação de feministas, pelo que decidi caminhar até ao meu destino atravessando o bairro; alheado dos edifícios degradados e das poças formadas por líquidos suspeitos, que se escapavam das barracas que os ciganos tinham construído no baldio.

Cheguei ao centro da povoação ao mesmo tempo que a carreira para a Trafaria.

Retido por um carro mal estacionado, o motorista do autocarro ruminava apático uma pastilha elástica como um melancólico dromedário, enquanto os passageiros gesticulavam protestando ruidosamente. O que naquele ambiente fechado devia saturar a atmosfera de odores corporais e ruídos estridentes. Um dia típico para os utentes de transportes públicos.

Ao abrir a porta fui atacado por uma frente de ar frio. Pelo menos ali havia ar condicionado; o que talvez me evitasse uma morte violenta em troca de uma broncopneumonia.

- Vejo que continuas a vestir-te como um tipo das obras – Disse uma voz ligeiramente nasalada, vinda das minhas costas.

- Sabia que irias gostar. Foi pena não ter trazido o capacete – Respondi enquanto me virava para encarar a comissária Carminho; o traseiro mais bem feito que já vi ao serviço da lei e da ordem. Não fora o facto de estar acompanhada por um jovem carregador de pianos com farda de polícia, e eu teria aproveitado para lhe ajeitar o crachá.

Carminho é daquelas mulheres ideais para nos darem más notícias e nos consolarem de seguida. Beijava como quem mordia; e fazer sexo com ela era como apanhar em andamento um comboio expresso. Após subir, só se saía quando ela parasse…

Infelizmente não ligávamos em mais nada. Pois as suas ideias sobre o que era certo ou errado, estavam condicionadas a caprichos e interesses momentâneos, variando tanto como o preço da gasolina. Tivesse ela nascido uns séculos antes e seria queimada no poste. Um desperdício; se atentarmos na qualidade da performance.

- Estás aqui para enriquecer a tua colecção de selos, ou vais tentar convencer-me que ias a passar e achaste que cá dentro era mais fresco – Continuou irónica, interrompendo a sequência cinematográfica em que eu “apanhava o comboio”; filme este em exibição entre as minhas orelhas.

Tentei ignorar o inebriante aroma a Issey Miyake que se desprendia dela, e sem responder avancei para o balcão onde estendi ao funcionário os três avisos devidamente assinados. Decididamente estava em dia de prodígios, pois o tipo era todo ele uma espécie de repositório de clichés visuais.

Mas já habituado ao convívio forçado com cromos variados (é daquelas coisas que vêm com a profissão), aguardei pacientemente que me trouxesse os misteriosos embrulhos. O homenzinho voltou de mãos vazias e encarou-me com uma expressão odienta, característica de alguém frustrado com o seu emprego – Tem a certeza que é o destinatário? A fotografia do B.I. não está muito parecida…

Encarei-o bem, desta vez. Os seus olhinhos porcinos ampliados pelas lentes dos óculos, pareciam bactérias observadas através de um microscópio. – Está a ver este sinal aqui? – Perguntei-lhe apontando um ponto negro na minha foto, deixado segundos antes por uma mosca – É este aqui mesmo! – Terminei apontando o nariz onde me cortara pela manhã com a gillette.

O tipo não pareceu muito convencido mas lá anuiu, deslocando-se novamente à sala ao lado em busca dos volumes.

A um canto, um miúdo de aspecto compenetrado comia batatas fritas de pacote, enquanto olhava para a arma do polícia com ar cobiçoso. Aquele haveria de ir longe! O mais certo seria daqui a cinco anos já andar a sacar carros para operações nocturnas, ou a dar estalos em velhas para lhes roubar a reforma.

Subitamente, quando o miúdo metia à boca uma batata retorcida sobre a qual lhe pingava uma espécie de maionese esverdeada oriunda do nariz ranhoso; soou um “click” no meu cérebro, e entrou em funcionamento uma qualquer área dele que aparentemente se encontrava desligada até ao momento.

Mas não houve tempo para que a correspondente imagem se acabasse de formar na minha mente.

Mal o empregado dos correios apareceu com os três embrulhos unidos por fita gomada castanha, senti uma coisa fria tocar-me a coluna vertebral por debaixo da T-shirt. – Acho que passámos a ser sócios, querido! – Disse Carminho enquanto fazia sinal ao agente tipo “guarda-fato” (com espelho e tudo), para que se apropriasse dos embrulhos – Essa tua estratégia de mandar redireccionar a encomenda perdeu-te. – Acrescentou baixinho, passando-me os lábios húmidos pelo lóbulo da orelha.

Pelos vistos concluíra que eu finalmente me tinha dedicado ao tráfico, e estava disposta a capitalizar a situação em seu proveito. Ainda abri a boca para me justificar, mas a situação precipitou-se nesse momento.

Vistos à distância de algumas horas, os acontecimentos parecem na realidade ter sido coreografados e ensaiados exaustivamente. Mas o mundo é uma espécie de caixa de música que toca enquanto se desmancha peça a peça.

Estava o sócio calmeirão da minha amiga prestes a agarrar os embrulhos, quanto um tipo que era a cara chapada do Ray Manzarek mas todo “chupadinho das carochas”, que estava a lamber selos com um ar enjoado, talvez inspirado pelo que possa ter ouvido da conversa, deu um salto em frente e apropriando-se das encomendas postais iniciou um “sprint” que o fez passar a porta como um caroço de azeitona cuspido por um campeão.

Carminho soltou um palavrão “cabeludo”. E embora aquilo lhe tivesse já passado pelos lábios várias vezes, soou um pouco mal ali no meio dos utentes. Sacando da 7.63 lançou-se em perseguição do “junkie”, enquanto o outro cívico meio atarantado olhava para mim como que à espera de um conselho amigo.

- Vá! Corre que ainda o apanhas! – Gritei-lhe um pouco chateado por todo aquele teatro desnecessário. Os olhos cintilaram-lhe de compreensão, e impulsionando o corpanzil em direcção à saída baixou a cabeça e avançou como um rinoceronte, levando consigo o expositor dos postais comemorativos que se lhe atravessara à frente.

Peguei num dos avisos que tinha caído no meio da confusão, e saí com a sensação que se alguém me perguntasse as horas começaria a rir e só pararia após uns bons 10cc de “Sedormid”. Realmente esta vida dá cabo de um tipo… - Ainda bem que existem estes pequenos momentos de boa disposição – Pensei enquanto rasgava o cartão, onde a seguir ao meu nome se lia o número de cliente que eu conhecia de cor, pois estava numa velha base de dados que eu próprio tinha criado há alguns anos.

Dobrei a esquina mesmo a tempo de ver o “carocho” em correria desenfreada saltar sobre a capota de um carro, perseguido a curta distância pelo meu traseiro favorito e pelo guarda-fato vestido de azul, que lhe gritou uma intimação em voz gutural e ameaçadora.

O esquelético fugitivo virou-se endereçando-lhe um sorriso trocista, prontamente apagado pela Toyota Dyna da Padaria Zé da Quinta que fazia a curva e o atirou pelos ares como um papagaio de papel.

As caixas desfizeram-se com o embate espalhando em volta o conteúdo, que na realidade eram amostras de polietilendo exturdido em tiras, destinado a embalagens para transporte de componentes electrónicos. Provocando uma chuva do que pareciam ser batatas fritas multicores, que cobriram o chão como se estivéssemos em Campo Maior durante a Festa das Flores.

Não fiquei para ver as expressões surpreendidas dos perseguidores, pois Miss Entropia com um magnífico sentido de oportunidade parou nesse momento o monovolume perto de mim convidando-me a entrar.

Fizéramos quase metade do caminho de regresso quando finalmente se quebrou o silêncio – Então, chefe… - Disse ela em tom de circunstância - tá mesmo com mau aspecto.

- Dormi pouco. – Respondi – Estive até ás três da manhã a tentar escrever um conto policial.

- E deu alguma coisa de jeito?...

- Nem por isso. Acelere lá essa coisa, pois temos que enviar o orçamento da Marina de Sines ainda hoje…

Música de Fundo
Minor Swings” – Django Reinhardt

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Socialmente Expresso
- As origens da má-língua anónima na Blogosfera, bem como a minha modesta contribuição para esta causa tão nobre… -

Tendo sido em tempos um leitor regular do Expresso, há já algum tempo que tinha deixado de o comprar por razões de saúde.

Embora ainda não esteja no ocaso da vida, achei que deveria poupar-me a hérnias discais, espondilose ou outras doenças causadas pelo peso da enorme quantidade de papel que vem naquele saco de plástico.

Para mais, além de aquilo já ter sido melhor, os meus fins-de-semana só têm dois dias e gosto de fazer mais alguma coisa além de ler jornais. Mas no último Sábado estava a escolher cartolinas numa papelaria, quando distraidamente e talvez movido por um hábito que julgava perdido, comprei o dito cujo.

Não estava muito diferente da última vez que o lera. A secção de emprego estava mais magrinha, e tinha o habitual monte de publicidade disfarçada de “cadernos especiais”; mas as pessoas têm que viver de algo e isso nunca me fez muita confusão.

Para mim o Expresso é um jornal com um ponto de vista. Porque considero que quando se dá notícias ao fim de semana já estas perderam parte da frescura inicial, e o melhor é compensar os leitores com algo extra. Como uma boa análise, ou o destaque de pontos que tenham sido descurados pela concorrência.

Mas o que realmente gosto é de ler as colunas de opinião, pois a maioria tem não só uma certa originalidade como até estilo ao tratar de certos assuntos; como se fossem uma espécie de blogs, mas pagos e escritos apenas para o fim-de-semana.

Por considerar que esta é a minha “coluna de opinião”, sinto-me também na liberdade de me manifestar em relação ao que leio.

É claro que podia omitir o nome das pessoas a quem me vou referir, mas como vocês já devem ter constatado por outros exemplos anteriores, nunca tive problema em chamar os bois (assim como o seu equivalente feminino) pelo nome.

Inês Pedrosa na sua coluna “Crónica Feminina” insurge-se contra o anonimato da escrita, esquecendo que as figuras privadas são exactamente isso; privadas. Aproveitando para dar algumas bordoadas em redor, como se o facto de ter publicada a sua foto na revista “Única” legitime tudo o que ali decidir escrever.

“O “sentido de humor” é aquilo que qualquer diva da Caparica aprecia num homem” entre outras pérolas, fez-me rir. Tal como o pequeno exagero de tentar fazer passar José Vilhena (que se deve estar bem borrifando para isso) como o paradigma do escritor revolucionário.

“Trago-te no riso enterrado, nas lágrimas que me lançaste, escadas de incêndio para a sabedoria da felicidade, na pele escaldada pelo brilho da noite, depois do mar.” – Quem escreve coisas destas (utilizando possivelmente o famoso “kit magnético de literatura para utilização em frigoríficos AEG”), devia ter mais cuidado quando tenta julgar os outros tão duramente. Facto este apenas desculpável se não tiver sexo há mais de dois meses, ou se sofrer de menopausa precoce.

Quanto ao referir-se ás “divas da Caparica” (ou de Cascais, de Albufeira ou dos Tomates) e aos “Hércules dos Algarves”, dá-me a impressão que é resultante de uma certa falta de estimulação ao nível do períneo. Bem como alguma amargura de em certo aspecto não poder competir noutras modalidades com as pobres divas, que talvez não tendo possibilidades financeiras de frequentar mais selectas paragens, são assim consideradas fêmeas de segunda (ou qualquer outra coisa parecida que não chega a ser bem clarificada no seu texto).

Para terminar esta primeira metade da minha “contribuição anónima”, incluo aqui mais uma frase do enxofrado artigo - “O arquivo de Salazar está recheado de cartas anónimas cheias de denúncias, insultos, enxovalhos. Na democracia as cartas anónimas alojam-se no modelo pós-moderno da blogosfera ou nas secções ditas humorísticas dos jornais”

Bem, Inês… Posso tratar-te por Inês?... Presumo que haja mais gente com a minha opinião mas respondo apenas por mim. Como este espaço é meu, faço com ele o que quero. E como não sou um assalariado da “informação”, não sou pago para escrever coisas que tenham que passar pela aprovação de qualquer editor chefe.

Não sei em que praia passas férias (ou se tens vergonha de te despires em público), mas decerto não poderás ser considerada diva seja onde for; porque até prova em contrário apenas inspiras meio post num blog de esquina.

Fazendo 90º de viragem (180º também seria exagero) temos a Cláudia Ferreira Alves, cuja coluna sempre apreciei, e que além de ser feminina sem ter que usar o adjectivo no cabeçalho, parece que finalmente conheceu o Meu Amo esta semana. Tendo sem dúvida conseguido captar na sua escrita a alma do industrial atormentado por inquietantes dúvidas, tais como o preço de mão-de-obra não qualificada e o relaxe dos prazos de pagamento.

Faz além disso uma descrição fiel de como o típico empresário da construção usa o telemóvel, e pelos diálogos e expressões idiomáticas usadas acaba por me convencer que realmente sabe do que fala. Sem dúvida que fez trabalho de campo e merece as suas “plumas caprichosas”, mas também se estende um bocado.

“… Caparica (essa costa de cinco estrelas transformada em desaguadouro de terceiro mundo)…” – Esta frase não desperta o meu bairrismo, pois eu nem sou deste lado. Mas um pouco à semelhança da sua colega de revista sofre aparentemente do “Síndroma da Tendência do Momento”, afecção esta que se manifesta por bater no ceguinho (deveria eu ter dito invisual?) que estiver em moda na altura.

Há vinte anos todos os pelintras diziam mal do Algarve. Uns porque a água da torneira não era boa, outros apenas porque não tendo cheta para ali ir asilar, diziam “cobras e lagartos” preferindo as praias da Caparica que eram mais “autênticas” e “limpas” (apesar do barracame espalhado à beira da estrada).

É claro que entretanto a tendência se inverteu. E após os endinheirados se começarem a mostrar por lá, não se pode ir sequer à Praia de S. Rafael (por exemplo) sem tropeçar em dezenas de figurantes totalmente “produzidos”, que vindos dos apartamentos e quartos alugados perto de Albufeira se esgueiram para lá, talvez na esperança de serem fotografados perto do Tallon ou outro colunável qualquer que frequente aquelas paragens.

Por isso esta recente tendência para se referirem à Margem Sul como um viveiro de “grunhos”, ou à Caparica como uma espécie de “cloaca máxima” do pós-modernismo. Tem para mim tanto sentido como ir chatear o pessoal da Linha por causa dos habitantes dos bairros miseráveis que se escondem atrás das colinas, ou ir depreciar os que moram nos apartamentos do Campo Grande por causa das putas da Defensores de Chaves.

E até lhes faço aqui o favor de não os confundir uns com os outros… mas só para que não se sintam muito ofendidas.

É claro que vou comprar o próximo Expresso. Não para procurar referência a este blog ou à minha pessoa, mas na esperança que ambas juntem esforços para tentar dizer ao público onde moram e passam férias as pessoas decentes deste país.

E não me venham com merdas! Pois não vou acreditar que estejam todos hospedados nas residências da Inês Pedrosa e da Clara Ferreira Alves.

Talvez vivam no campo…

Música de Fundo
Country House” – Blur

terça-feira, 12 de julho de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- O Sagrado Zodíaco de Blog –

Apesar de não ser muito adepto das artes divinatórias, uma das coisas que se aprende mal se ganha a vestimenta de sacerdote de Blog (túnica marroquina e fio dental), é a distinguir as sagradas formações estrelares de Blog; que são iguais ás constelações do Zodíaco ortodoxo, mas com a adição de “Suzi a alternadora”, que é composta por oito estrelas e se encontra directamente por baixo da via láctea.

Como estamos em época estival em que todos querem descontrair e gozar os prazeres da vida, um pouco de aconselhamento vem sempre a calhar; e perante a indisponibilidade de Paulo Cardoso, aqui vai:

****

Aquário (21/01 a 19/02)


É nesta época que você se encontra no seu elemento, e embora a areia possa ser incómoda por vezes; basta que a mantenha longe da vaselina para que tudo corra bem.

Antes de ir de férias certifique-se que limpou os filtros e utilizou o algicida correcto. Trate de si! Se há coisa que dá cabo do ambiente num instante, é um aquário com cheiro a peixe morto.

Peixes (20/02 a 20/03)

Apesar desse seu olhar fixo e vítreo lá no fundo bate um coração mamífero. Este ano saia desse pântano de monotonia e lance-se na lota da vida; um “peixão” como você não deve deixar-se moer pela inércia e o aborrecimento.

Os nativos do seu signo são conhecidos pela sua apetência pelos desportos aquáticos, mas evite o excesso de sol, pois arrisca-se a escamar.

Carneiro (21/03 a 20/04)

Você é teimoso(a) como o raio; e ainda por cima retorcido(a). Mas não desespere, pois a teimosia pode ser transformada em perseverança, e ser retorcido(a) nunca fez mal a ninguém; dando até bastante jeito para fazer frente ás dificuldades.

Antes de ir para a praia, aproveite para ir à tosquia. Embora possa ser bastante “kinky” em privado, em público o excesso de lã pode condená-lo(a) ao anátema (e a ficar “a seco” também)

Touro (21/04 a 21/05)

Finalmente as merecidas férias após um ano inteiro de árduo labor. Não se deixe levar pelo stress ou pelo que possa ter a mais na cabeça; mande isso para trás das costas e arranje alguém que “marre” por si. De preferência com a mesma envergadura para manter o estilo.

Evite as águas turvas, isto se quiser chegar incólume à temporada das corridas.

Gémeos (22/05 a 22/06)

Os nativos deste signo têm uma simetria que os caracteriza. E embora no caso das mulheres seja óptimo para poupar nas operações aos seios, nos homens pode traduzir-se numa mania de querer estar em dois lados ao mesmo tempo.

Neste último caso aconselhamos uma certa calma e a utilização de ajuda mecânica ou electrónica. Dizem que o telemóvel é o ideal para juntar dois pontos opostos; mas será melhor desligá-lo. Férias são férias…

Caranguejo (22/06 a 22/07)

Estamos numa altura perigosa para os(as) nativos(as) de Caranguejo (bem como para os(as) de navalheira, santola e sapateira), especialmente para os mais cheiinhos(as) e corados(as). Mas não desespere. O que há mais para aí é quem queira ser comido e sem sucesso algum.

Lembre-se que não é uma cadelinha qualquer e não se deixe acompanhar com menos do que “Colares Chittas” ou um “Reisling” decente. Isso do “amor e uma cabana” só é bom enquanto não chove.

Leão (23/07 a 23/08)

Má altura para si e todos os relacionados com este signo (mesmo os sportinguistas), a não ser que seja leão-marinho; pois aí o caso muda completamente. A praia fez-se para o lazer e a descontracção.

Abandone esse ar sisudo. Já basta o handicap que é ter que andar com esse casaco de peles e cabeleira à Marco Paulo. Em vez de rugir aprenda a ronronar, e boas caçadas.

Virgem (24/08 a 23/09)

Este é um signo raro, e segundo as estatísticas há mais virgens no Fundão que em Coina; mas isso também é algo que se remedeia depressa caso se queira.

A praia não é propriamente o seu elemento. Mas entre a discoteca à noite e as areias banhadas pelas ondas rumorejantes (e mesmo com a ajuda de umas tequillas), é bem possível que venha a querer mudar de signo.

Não seria o primeiro(a) que lhe tomava o gosto…

Balança (24/09 a 23/10)

Essa dieta ainda vai dar cabo de si. Tem que se preocupar menos com o signo e mais com o que está por detrás disso tudo. Seja mentalmente equilibrado e quanto ao resto deixe a natureza actuar.

Quase toda a gente acaba por ter a possibilidade de ver o Cometa Halley pelo menos uma vez na vida (se é que me faço entender). Use roupas leves.

Escorpião (24/10 a 22/11)

Você é mauzinho(a)! Essa mania de andar sempre a picar os outros ainda lhe vai trazer dissabores. Mas quanto à praia não vemos problema algum, a não ser que um banhista mais míope o(a) confunda com um crustáceo.

Evite adormecer na toalha de barriga para baixo. Se esse ferrão cai, ficará com o traseiro mais furado que um queijo suíço.

Sagitário (23/11 a 21/12)

Você tem uma tendência inata para apontar essa coisa sempre para o local errado, o que só lhe dá dores de cabeça; e depois essa mania da espiritualidade não ajuda nada, pois a antiguidade clássica foi inventada por professoras octogenárias com a mania das grandezas.

Comece a pensar mais com o que tem entre os quartos traseiros e esqueça tudo o que lhe ensinaram sobre princesas. Como se diz no mundo do espectáculo – “Depois da tenda ás escuras, são todos artistas de circo”.

Capricórnio (22/12 a 20/01)

Isso de ser cabrito(a) montês(a) tem as suas vantagens, pois não há como uns bons pinotes para criar ambiente.

Para os nativos com ascendente “seagoat” a coisa ainda estará melhor, pois pinotes dentro de água são o máximo e dá sempre jeito para contentar um(a) namorado(a) surfista.

Não faça refeições pesadas. Pois com tanto movimento ainda apanha uma congestão.

****

E ficamos por aqui com a nossa rubrica astrológica. Avisando desde já que não aceitamos reclamações ou pedidos de indemnização por má utilização dos conselhos aqui dados.

Façam sexo seguro (os mais tímidos peçam que lho façam com jeitinho)

Música de Fundo
C’est La Vie” – Robbie Nevil

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Plágio é quando um homem quiser…
- Isto partindo do princípio que algum dos termos acima está bem atribuído –

Nem eu sonhava que o meu primeiro re-post de algo que escrevi há um ano, iria dar origem ao primeiro (pelo menos que eu saiba) plágio do que escrevo neste blog.

É engraçado que tal procedimento venha da parte de alguém que me linkou, e melhor ainda, teve a lata de assinar por baixo.

Mas também não é tão grave assim. Fica aqui o link para que quanto mais não seja, contribuir com um pouco de tráfego.

Qualquer dia (à semelhança de outros que por aí andam) ainda me começo a convencer que o mundo gira à minha volta. Realmente há gente que faz de tudo para chamar a atenção.

Música de Fundo
Hip Hop” – Boss AC
Um Mistério em Três Volumes
- Para variar, tudo o que se segue é rigorosamente verdadeiro -

Uma das milhentas coisas em que eu não acredito é o famoso “Almoço à Borla”. Todas as vezes que alguém me telefona para casa a comunicar uma oferta, recebe invariavelmente a mesma resposta “mande pelo correio”.

Porém estou prestes a quebrar esta já longa tradição, porque finalmente aconteceu; alguém decidiu oferecer-me algo que eu desconheço o que seja, mas sem dúvida que o saberei em breve (eu e um monte de gente, incluindo as forças policiais).

Passo a explicar. Esta sexta-feira, o carteiro deixou num endereço onde não moro há nove anos, três avisos de entrega correspondentes a outros tantos pacotes oriundos de um país da União Europeia e descritos todos eles como volumosos. É claro que para os CTT, volumoso é algo apenas um pouco maior que um envelope A4.

Uma busca rápida utilizando o nome do alegado remetente, revelou ser este um distribuidor internacional de material electrónico cuja sede se situa nos Estados Unidos. E mais peculiar ainda, a divisão que pressupostamente me enviou os três volumes só foi fundada em 1995; e eu não encomendo pelo correio componentes avulsos desde Fevereiro de 1993.

O mistério adensa-se.

Normalmente nestes casos de nada serve conjecturar, pois raramente os elementos disponíveis são suficientes para que se possa julgar de modo eficiente, e quase sempre a realidade está a milhas de todas as hipóteses estudadas. Mas há uma coisa que a maior parte de vocês não sabe, eu tenho o maior respeito por dispositivos deflagrantes.

E foi essa a minha primeira hipótese, pois entre os países da EU não existe alfândega e seria fácil a uma qualquer organização ou indivíduo, enviar três pacotes armadilhados para nos provar que somos tão importantes como os Britânicos.

Uma das primeiras coisas que se aprende na especialidade de Armas Submarinas (onde passei alguns momentos deveras interessantes), é a nunca facilitar a situação se suspeitarmos que esta envolve a utilização de explosivos.

É por isso (e assumindo a possibilidade de esta primeira versão ser a correcta) que logo pela manhã, em vez de conforme a típica mentalidade Lusitana correr para me apropriar de algo que não encomendei, pedirei o redireccionamento dos volumes para uma estação dos CTT mais próxima, e terei uma conversa informal com alguém da esquadra do Pragal para reportar a situação e solicitar aconselhamento.

Quanto à possibilidade de se tratar realmente de componentes enviados por engano (e três caixas ainda levam muita coisa) é quase nula, pois estes segundo a política comercial da empresa têm que ser pagos antecipadamente por cheque ou cartão de crédito. E a minha assinatura não é fácil de falsificar.

Segundo cenário plausível.

Uma rede internacional de tráfico de estupefacientes aproveitando a ausência de fronteiras, envia pelo correio as suas remessas ilegais para destinatários que se saiba já não habitarem nos endereços indicados.

Após o não levantamento dos volumes no prazo estabelecido pelos CTT, estes recolhem ao armazém para aguardar a sua devolução ao remetente, tal como milhares de outras cartas e encomendas extraviadas no meio das quais ficam calmamente depositados sem perigo de detecção.

A meio desse processo, alguém (possivelmente um funcionário) aproveita para antes do prazo estipulado para a devolução retirar sub-repticiamente a carga, bastando para tal rabiscar no aviso uma rubrica ilegível pelo que em caso de conferência do inventário, facilmente seria assumido que o destinatário teria acabado por recolher as embalagens.

Em qualquer dos casos acima descritos, o único procedimento a usar será o de alertar as autoridades. De qualquer modo já é tarde e não me ocorre mais nada.

É possível que não seja nada de especial, mas se alguém tiver alguma ideia para mais um cenário plausível, estou aberto a sugestões. Agora vou dormir, não quero que as mãos me tremam quando desatar o cordel (ou o que quer que tenham usado para atar aquilo)…

Música de Fundo
Ungarische Rhapsodien” - Franz Liszt

sábado, 9 de julho de 2005

A Vingança
- Doce e Fria… -

Tarde ou cedo teria que acontecer. Ontem quando franqueei a porta da barbearia do “Tremidinho” com o fito no “pente 3” habitual, esperava-me uma dolorosa surpresa. Um eslavo com fato-macaco da Lisnave (não sei como, mas roubaram tantos há uns anos, que ainda andam alguns por aí a circular) enquanto enchia uma lata com entulho esclareceu-me que o estabelecimento abriria no próximo mês com nova gerência.

Digamos que para mim o barbeiro tem quase o mesmo significado, que tem para algumas mulheres aquele velho ginecologista que as assiste desde a puberdade; não é coisa que se ande por aí a experimentar um novo de cada vez que é preciso.

Rebusquei nas minhas recordações algo que me sugerisse onde cortar o cabelo; mas além da Nela que tem umas mãos suaves e usa sempre blusas decotadas (infelizmente é um cataclismo tonsural; a mulher é a peste negra dos penteados), só me lembrei do Nando. E se o pensei melhor o fiz, pondo pernas a caminho do centro de Almada.

O Nando é engraçado. Além de usar um penteado que faz lembrar uma cúpula geodésica (parecidíssimo com o da vocalista dos B-52’s) para cobrir as áreas mais polidas do seu crânio, usa crescidas as unhas dos mindinhos. Mas toda a gente o desculpa porque ele toca guitarra de fado; e fingimos que as usa para dedilhar e não para escavar profundas galerias pelos abanos adentro.

É claro que eu estava em dia não, mas ainda não me tinha apercebido.

Quando entrei reparei logo que ele ainda não tinha chegado. No seu lugar encontrava-se um senhor parecido com o Vítor Espadinha, mas mais mirradinho (um dia se pedirdes com jeitinho, contar-vos-ei uma história engraçada passada com o V.E. no fim dos longínquos anos 70), que olhava com expressão sonhadora através da montra; expressão esta talvez causada por ter os testículos apoiados no braço da cadeira da profissão, enquanto os dois cotovelos se apoiavam sobre o encosto da mesma

Um dia em que saia uma edição da Playboy sobre barbeiros, esta pose seria uma das que eu aconselharia para as páginas centrais (ou “centerfold” para os entendidos).

Sentei-me e disse ao que vinha, após o que mergulhei nos meus pensamentos habituais em situações destas.

Vagueei o olhar sobre a bancada coberta de bugigangas e bonequinhos, como o “psiché” de uma prostituta dos anos cinquenta. O tipo tinha um gosto eclético que ia do “Maneken Pis” à “Little Mermaid”, passando por brindes dos pacotes de cereais e pequenos tarros em cortiça com a inscrição “Recordação de Baleizão”.

Estava eu quase no final do inventário à bonecada quando ele deu o trabalho por findo. Após pousar o espelho com que me dera a ver a minha própria nuca simetricamente ajardinada, virou-se para o lado; e com um rápido movimento ao estilo de Lucky Luke, sacou de um frasco de “Brut” e antes que eu pudesse reagir besuntou-me a linha do cabelo perto do pescoço (“para desinfectar” – disse com um ar competente).

Ia abrir a boca para protestar mas o mal já estava feito. Pelo que optei por pagar e sair para a rua, esperançado numa ventania que dissipasse os infernais eflúvios.

Mas o odor daquela mistela misturou-se com o do meu perfume habitual formando um composto agressivo; qualquer coisa entre o gato almiscarado com cio e um Iaque muito chateado. Tentei caminhar contra o vento, mas tinha que ir para o emprego e não podia fazer a circum-navegação terrestre apenas para fugir ao cheiro.

Estava já há uns minutos na paragem do autocarro, quando uma senhora que envergava luto carregado se virou para a amiga que ia ao lado, e de lágrimas nos olhos lhe confidenciou que tudo lhe lembrava o defunto marido. Até os cheiros da rua…

Cheguei-me um pouco mais para longe, e quando o autocarro chegou (cheio como sempre) entrei e encaminhei-me para o fundo deste.

Comecei a reparar que os outros passageiros se afastavam para me deixar passar. Mesmo os fedorentos empedernidos que habitualmente seguem comigo nessa viagem, me olhavam com um ar respeitoso e atemorizado; o mesmo olhar que um satanista devoto deitaria ao Príncipe das Trevas se este se materializasse e lhe pedisse lume.

Aproveitando a situação, fui abrindo caminho até ao último banco onde se encontrava sentado um negro enorme vestido com uma camisola de cavas onde se lia “Black Power”, e encarando-o inocentemente deixei-me ficar ali enquanto o autocarro continuava pela sua rota, e o vento que entrava pelas janelas precipitadamente abertas com carácter de urgência, empurrava sobre ele a atmosfera densa onde as moléculas de Hugo Boss e Brut de Fabergé continuavam a travar a sua encarniçada batalha pelo domínio da atmosfera.

Alguns minutos após, fingiu que ia descer na paragem seguinte (não ia, porque eu vi-o esconder-se lá à frente perto do motorista) e deixou livre o lugar que ocupei sem pressas; pois nenhum dos outros passageiros manifestou desejos de o fazer.

Os que iam sentados ao meu lado, comprimiram os seus corpos suados para que eu me pudesse acomodar confortavelmente. Farejei em redor mas nada senti. O tempo decorrido desde que saíra da barbearia embotara o meu olfacto, e tenho a impressão que mesmo que me apresentassem um rinoceronte morto no mês passado continuaria impassível.

Sorri numa satisfação discreta. Pelo menos o habitual cheiro a bedum (acho que alguns deles são mesmo beduínos) não se notava.

Pelo canto do olho reparei no tipo que se encontrava à minha direita. A camisa branca ostentava nos sovacos manchas amarelas do tamanho de pires, e por cima do colarinho ligeiramente guarnecido da mesma cor saía um pescoço de veias salientes e nervos tensos, que terminava numa cara cujo esgar sugeria que o tipo sofria de uma cárie particularmente dolorosa.

Reconheci-o, era um dos fedorentos do costume.

Recostei-me satisfeito. Tinha perdido o sentido do olfacto mas valera a pena. A vingança tinha o doce sabor de um Magnum Vision…

Música de Fundo
Demon Days” – Gorillaz

Manifesto Europeísta Antes do Post

- Vámonos a fumar un porro?

- Juro-te, pá! Que pela maneira como falas, nem me pareces Espanhol...

Música de Fundo
"Riding On The Wind" - Judas Priest

quinta-feira, 7 de julho de 2005

O Primeiro Re-Post
- Ou como dizem os “bifes” – There is a first time for everything -

Não sou apologista de editar posts já publicados. É uma situação que se assemelha à de servir aos convidados os restos do dia anterior, mas em contraponto muita gente gosta de empadão (eu sou um deles), o que desculpabiliza um pouco a coisa.

O texto que se segue foi postado em 29 de Julho do ano passado e continua actual. Do mesmo modo que é actual o problema dos incêndios, e o sacrifício dos Bombeiros Voluntários; que sucessivamente ano após ano travam uma batalha inglória contra o fogo, a falta de meios, e a inércia dos políticos.

Quando a época dos incêndios se intensificar, assistiremos ao habitual choradinho da classe política e ao aproveitamento mediático dos meios de informação; sem que algo se faça para resolver o problema.

Não posso realmente fazer mais que isto. Pelo que, nesta página azul como um céu sem fumo lhes deixo o meu agradecimento. O desejo que no início das primeiras chuvadas não falte um único tripulante nos camiões encarnados; e que no próximo 10 de Junho, nenhum filho tenha que subir à tribuna para receber a medalha do seu pai.

Não tenho a pretensão de fazer mais que prestar uma pequena homenagem a todos os que mais uma vez neste momento, enfrentam infernos para salvar as vidas e os haveres dos seus semelhantes que tenham a desgraça de se encontrar no caminho das chamas.

Dedico pois este (re)post, a todos os homens e mulheres (bombeiros e civis) que têm dentro de si um…

Coração de Fogo
- Uma história sem tempo –
Maria do Arco é uma mulher forte. As suas roupas negras de viúva impõem respeito, e um metro e cinquenta acima dela apoia-se o cântaro de plástico azul onde sempre transporta a água que vai buscar à fonte.

Maria do Arco tem água em casa há muito tempo, mas continua a ir à fonte. Não porque a água desta seja melhor, mas pelas lágrimas que sente caírem-lhe pela cara cada vez que passa pelo Barroco Grande. E todos os dias, desde há vinte e cinco anos que cumpre o mesmo trajecto.

Não chora o marido (um bom homem) porque já o fez quando foi altura, recorda-o ás vezes como quem vê fotografias.

Os seus olhos continuam fiéis e por isso choram. Principalmente no Outono quando as folhas amarelecem, e a encosta em frente tomada de uma vertigem doirada se desnuda ao Sol avermelhado; fazendo lembrar as primeiras chamas de um incêndio.

Os seus ouvidos guardam a voz, e a boca sente o sabor do sangue que lhe sussurra coisas estranhas; que datam do tempo em que ouvia o rapaz da cidade explicar junto à fonte, que o gravador lhe servia para registar as canções de trabalho e as histórias dos velhos.

Durante a vindima, ele desajeitado com a tesoura de podar golpeara um dedo. E ela tratou-o, mergulhando-lhe a mão num alguidar com vinho branco e açúcar para estancar o sangue.

Perdeu-se no fundo dos olhos claros que a contemplavam curiosos. E nos dias seguintes, onde quer que fosse ele estava; a gravar, a fotografar ou apenas encostado a uma árvore ao fim da tarde, escutando silencioso com o olhar perdido nas encostas da serra.

A sua alma guarda ainda os gritos de alarme, e o pânico dos homens que se precipitavam para o fogo que lambia as vinhas da encosta naquela noite.

Vira-o de relance no milheiral para além da eira. O blusão azul a destacar-se no meio da massa escura dos caules ainda verdes, correndo com os outros em direcção ás chamas, sem nada mais pensar como se fosse seu o que estava em perigo.

Maria do Arco esperou junto à capela a noite inteira. E à medida que iam chegando, reconhecia-lhes a todos as caras traçadas da fuligem e das rugas de cansaço com que o demónio os marcara.

Mas nenhum deles era ele…

Pela manhã quando chegaram os bombeiros, o chão da floresta enegrecida onde o procuraram, estava cinzento sulcado por traços vermelhos como se a própria terra tivesse sangrado. E de além da curva no fundo do Barroco grande, trouxeram um saco.

Um saco com ossos calcinados a que os botões do blusão tinham aderido, derretidos como lágrimas de ouro numa relíquia da capela.

A guarda levou os restos do rapaz da cidade, sob o olhar dorido dos homens que tiravam as boinas à sua passagem. Mas Maria do Arco não chorou porque estava prometida.

E durante anos guardou todas as lágrimas no seu peito, onde cresceu um mar capaz de apagar todos os fogos. Até que um dia ficou livre, e recomeçou a ir à fonte todos os dias.

O cântaro de vinte litros é pesado, mas Maria do Arco segue orgulhosa no seu metro e meio sem vacilar. Ao passar a curva do Barroco Grande, pára como se fosse descansar e olha em volta; depois despeja a água para o vazio em baixo.

Um dia, quando todo o fogo se apagar dentro de si, a sua alma ficará liberta; e acredita que então poderá dobrar o tempo, correndo para ajudar o rapaz da cidade e conduzi-lo para fora das chamas.

Um dia, quando as folhas das árvores brilharem doiradas pelo sol; deixando que outro fogo aqueça o seu coração…

Música de Fundo
Safe & Sound” – Azure Ray

With every word I live again
Through the eyes of another

We'll meet at night wet from the rain
And surprise each other
With how we take away the pain

Could you be the one to find me safe and sound
Love is how it's lost not how it's found

I don't know those eyes
But I see beauty there always
I know it's wrong to love you from afar
But it's a craze

You recognize my pain
Could you be the one to find me safe and sound
Love is how it's lost not how it's found

I'll take away your pain
Could you be the one to find me safe and sound
Love is how it's lost not how it's found

terça-feira, 5 de julho de 2005

That’s Entertainment
- Curto à brava o meu país! –

Eu não alinho no choradinho provinciano daqueles que tentando colocar-se a si próprios de fora, classificam o nosso país como sendo subdesenvolvido, o pior da Europa, etc. O que identifica de imediato um labrego, é a sua tendência para dizer mal da própria terra como se tivesse nascido no Principado do Mónaco, e não num quarto alugado com “serventias” na Rua Morais Soares.

Porque realmente é essa a minha opinião e também (antes que alguém o diga) para me “limpar” desse epíteto, declaro aqui formalmente que gosto muito de ter aqui nascido. Quanto mais não fosse, contribuiu para que adquirisse um sentido de humor que me consegue fazer rir de tudo e todos, inclusive de mim próprio.

Tinha acabado de escrever a frase anterior, quando tive uma ideia que talvez possa contribuir para livrar o país da pelintrice crónica, e devolver-nos o esplendor apenas igualado aquando da descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Portugal é todo ele uma enorme Cinecitá bem servida de clowns felinianos, optimistas compulsivos, comediantes de café e alguns verdadeiros bufões (designação esta que acarinho, porque me lembra o cheiro que as suas palavras me sugerem).

Vivemos pois no equivalente do século XXI, aos estúdios onde Mack Sennett, Harold Lloyd, Buster Keaton, Charlie Chaplin e os Keystone Cops enlatavam as gargalhadas para quase todo o mundo no início do século passado.

Então porque não fazer o mesmo? Pelo menos os direitos de transmissão para cadeias internacionais de televisão, talvez dessem para ajudar a equilibrar o défice.

É claro, que não basta a alguém ser uma anedota para poder fazer parte desta elite do mundo do espectáculo. Apesar de muito se esforçarem, ainda haveriam alguns que teriam que ficar nos bastidores a manobrar as alavancas, ou mesmo em casa frente à televisão a maldizer os seus confrades mais qualificados que ali actuariam.

Por exemplo, José Castelo Branco apesar dos seus maneirismos de bicha frequentadora do “Finalmente” ou do “Barbarella” (desculpem-me, mas há mais de vinte anos que não sei nomes de bares do terceiro sexo); e mesmo tendo ultimamente começado a pedir “cachet” para comparecer inaugurações de bares e discotecas, dificilmente se qualificaria. Principalmente porque desperta apenas uns sorrisos de troça, após os quais a assistência se começa a interrogar se será justo troçar de um diminuído mental.


Um pouco melhor classificado que o anterior candidato ao estrelato está o conhecido Artur “Aldraban”, que fez a 1ª invasão do Iraque nas traseiras do Hotel; enquanto transmitia os seus emocionados relatos envergando um belo traje de combate como se estivesse debaixo de fogo. Protagonizou desde aí algumas aventuras financeiras, e após um trajecto rocambolesco acaba por desaguar no estuário da justiça qual tainha enjoada com o gasóleo. O resto todos nós temos presenciado nos noticiários dos últimos dias.

Este personagem tem como handicap, o facto de se rir como se estivesse a sofrer um ataque de tétano, enquanto a sua voz lembra um pouco a caprina cantoria estilo Câmara Pereira. “Close, but no cigar…”

Por último, o meu favorito para protagonista desta futura “sitcom” é o soba Alberto João Jardim; o paradigma do populismo bacoco.

Este espécime, a quem a partir daqui referirei pela carinhosa alcunha de “Il Duce” (por razões que saltam à vista), fez o serviço militar na antiga secção de Guerra Psicológica do Exército Português; e a partir daí convenceu-se que as técnicas usadas para a “pacificação das colónias” seriam igualmente eficientes para lidar com o povo da sua ilha. Aparentemente até teve razão.

Conhecido pela sua alarvidade inúmeras vezes confundida com franqueza, não tem “o coração ligado à boca” (conforme o dito popular) mas sim o intestino, o que faz dele uma espécie de mestre do humorismo escatológico. Notável é o facto de perto dele qualquer outro tipo por pior que seja, parecer um príncipe da renascença.

O único senão no caso do nosso favorito, é que se decidir visitar o Paquistão ou a China (esta última seria ideal) poderá não voltar a ser visto; ou melhor ainda, ser devolvido à procedência dentro de diversos elegantes jarrões Fen Cai da dinastia Qing.

Apesar de ser um candidato de risco, é aquele que eu escolheria. E por isso aqui o agracio solenemente com a Ordem do Palhaço Triste, cujo símbolo é um nariz vermelho (apenas para os dias em que estiver sóbrio).

Podem vocês pensar que estou zangado, mas não. Estes tipos são quase tão divertidos (embora involuntariamente) como os Monty Python, e é por isso que volto a afirmar – Curto à brava o meu país.

Música de Fundo
Terminal Show” – Motörhead

domingo, 3 de julho de 2005

A Igreja do Imaculado Blog (Nº 69)
- A Quermesse Erótica –

Já no início da semana quando eu regressei de férias me tinha sido posto este problema; o ofício de domingo iria estar ás moscas por causa do “Salão Internacional Erótico”; que não sendo um acontecimento tão importante como a exposição de Juan Gris em Madrid, pelo menos é um evento ás proporções do nosso país.

E isto apenas no caso de as moscas não debandarem igualmente para lá, atraídas pelo odor a “crescido” da Noruega mal demolhado.

Não que eu considere os fiéis de blog um bando de onanistas obcecados por “febra & nervo”; mas a sua natural curiosidade aliada à eficiente campanha publicitária (que tenta apresentar como desinibição, o que afinal é apenas mais uma espécie de consumismo) que se fez nos últimos dias, decerto os iria levar a pelo menos ir dar uma espreitadela de fugida.

Foi então que Mademoiselle Babette (uma das nossa leigas) deu a brilhante ideia de organizarmos uma quermesse erótica, para não só fazer frente a esta invasão das multinacionais do sexo, mas também para esclarecer alguns conceitos dúbios que ultimamente querem fazer passar; como aquele de que as estrelas porno são apenas artistas e que aquilo não tem mesmo nada a ver com prostituição embora seja igualmente “sexo por dinheiro”.

Um pouco para contrariar esta tendência mercantilista, tentámos optar por uma solução que não se tornasse demasiado dispendiosa para os nossos fiéis; pelo que durante o último sermão lhes solicitei que em vez da habitual esmola para os pobres de Blog, contribuíssem com algo que tivessem a mais lá em casa e se inserisse (pelo menos) no espírito do evento.

Logo hoje de manhã tive a grata surpresa de constatar que respondendo ao meu apelo, nos tinham sido enviadas (anonimamente, pois os seguidores de Blog primam pela modéstia) centenas de revistas da especialidade. A saber: “Playboy”, “Hustler”, “Private”, “Weekend Sex”, “Gina”, “O Pedrinho” e “The Monthly Proctologist”.

Esta última parece ter sido enviada por engano, mas não quisemos desfeitear o piedoso ofertante.

Aproveito pois para agradecer aqui a essas boas almas – Que Blog vos acrescente… onde preferirdes. E agora não vos vou empatar mais, passando a enunciar o que um verdadeiro crente poderá encontrar para se divertir neste piedoso evento.

Para começar temos um púlpito non-stop, onde pregadores da nossa Fé dissertarão incansavelmente sobre os prodígios de Blog e como agradar a ELE. Serão distribuídos pelo público pequenos folhetos ilustrados indicando as diversas posições de oração, bem como pequenas bisnagas de Reumongel para os crentes mais atacados pelo reumatismo durante as preces.

Teremos também áreas temáticas dedicadas ao sado-masoquismo religioso (círios, flagelação e dominação de espíritos das trevas), passerelle para lingerie piedosa (aquela que até dá pena tirar), Wrestling no tanque de água benta entre noviças, etc.

Projecção de películas religiosas como “O Segredo de Fátima”, “Fátima e a Iniciação Sexual”, “Fátima e os Seis Fogosos Inquisidores” e “Fátima à Boleia para Vilar de Mouros num Camião TIR”.

Diversas mostras das últimas novidades em moinhos de oração a pilhas, cremes e unguentos para uso na cerimónia da “Elevação”, distribuição gratuita de revistas (as que tão caridosamente nos foram ofertadas), canais de TV (e outros), webpages temáticas e blogs.

Exposições de arte sacra e debates sobre liturgia.

Temos ainda a “Zona de Relax” ambientada com música sacra (Bach, Händel e Serge Gainsborough), onde os fiéis se poderão dedicar à oração em otomanas de veludo azul sob a orientação do famoso Sufi Ben Al-Frota, que tentará ensinar a sua famosa técnica de estimulação e potenciamento da prece em posições criativas.

Á saída todos receberão um pequeno presente simbólico.

Aos cavalheiros será oferecida uma edição brochada (capa mole) das poesias de Catulo, em conjunto com uma lamela de comprimidos da cor deste blog.

As senhoras receberão um insensório-ambientador em policloreto de vinilo e borracha virgem; o famoso Pirelli Mandrake, conhecido pelos seus mágicos resultados (pilhas não incluídas).

E é este o programa da Quermesse de Blog, que esperamos seja do agrado de todos os visitantes. Pelo que apenas me resta deixar-vos com as inspiradas palavras do Beato H. Miller – “Viver plenamente os seus desejos e, ao fazê-lo, modificar subtilmente a natureza destes, é o objectivo de todo o indivíduo que aspira a desenvolver-se”.

Música de Fundo
Marilu” – Enapá 2000

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