sexta-feira, 12 de agosto de 2005

A Segunda Ida

Finalmente vou entrar no segundo período das férias; o que significa que até perto do fim de Agosto o template vai ficar por aqui a acumular poeira.

Seria agora a altura ideal para debitar uma qualquer frase profunda, sobre como me sinto maravilhado pela diversidade da existência nos seus diferentes ângulos. Mas a verdade é que vim apenas para me despedir sem muita conversa.

Nestas férias talvez apareça por aqui uma ou outra vez; isso se achar um cyber-café e não estiver muito ocupado a fazer-me tostar pelo sol ou massajar pelas salsas ondas. Mas o mais certo é não fazer nada disso. Férias são uma alienação da rotina e da normalidade, e só assim se descomprime.

Deixo-vos pois com a foto que melhor representa o meu conceito de férias. Até dia 29, e “Blogspeed”…

Música de Fundo
Deeper Underground” – Jamiroquai

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Nikita ou a Grande Barafunda em Luzianes-Gare
- A revolução pára em todas as estações e apeadeiros –

Acho que a coisa se iniciou, quando estando eu ao banho na barragem como qualquer pacato turista, escorreguei numa pedra limosa e entalei o tornozelo entre duas outras o que me provocou um profundo golpe.

No meio de imensos protestos, pois temia que a coberto da referida lesão não me fosse permitido sair à noite (aquela zona está há anos sob o jugo do matriarcado) lá o mostrei ao meu amigo Jorge, que se virou para mim e disse como se tivesse que mandar abater todo o gado – Pois é, pá. Isto tem que ser bem desinfectado.

E não era caso para menos. O meu tornozelo ostentava uma boca obscena e escancarada, que sorria como a Manuela Moura Guedes; e à semelhança desta, talvez tivesse que levar um ou dois pontos para fechar como deve ser.

Logo ali alguns populares do sexo masculino se prestaram a transportar-nos ao Clube Desportivo, onde foi iniciada a cerimónia da desinfecção. Eram cinco da tarde, e por muito que eu goste de Lorca o suor de neve não apareceu; talvez porque estivéssemos a utilizar um desinfectante para uso interno.

A “raspadinha” que consiste apenas num “shot” de medronho, é o que se usa nestas paragens para o efeito, e igualmente durante o Inverno como anti-congelante para limpa pára-brisas. Segundo os xamanes desta região, as suas propriedades levemente alucinogénicas obrigam o espírito do paciente a alhear-se momentaneamente do corpo, permitindo a este que se cure sem que ninguém o atrapalhe.

Após os três “shots” indicados na psologia do medicamento, alimentámos os reactores com uma rodada de “mines” para a despedida e partimos em velocidade de cruzeiro por debaixo do sol. Juro que as lentes dos meus óculos escuros estavam moles! Mas também podia ser do medronho.

Fomos salvos desta “bad-trip” alentejana pelo prestável Campeão Nacional da Pesca ao Achigã, que nos saiu ao caminho para informar que haveria festa essa noite na aldeia ao lado, aproveitando para nos oferecer abrigo; e quem sabe, talvez mais uma “mine”.

Acabámos dentro de uma garagem a apreciar um barco para pesca ao achigã (o Achigãmobile), e maravilhando-nos com a variedade das “amostras” enquanto a “Esperança da Representação Portuguesa” enrolava um “bit”.

Fiquei a saber que o achigã além de ser feio como o raio, é também um daqueles tipos que abocanha tudo o que mexa um bocadinho (esta falta de selectividade, esfumou qualquer réstia de consideração que eu pudesse ter para com o “Micropterus Salmoides Floridanus”), pelo que não vale a pena estar com subtilezas no que toca ao isco. Usando-se de tudo para o atrair, desde um busto de Beethoven até a um preservativo cheio com creme de menta; convém é que tenha um anzol agarrado.

Havíamos já terminado a “Bass Fishing Workshop” e o sol parecia estar com intenção de se retirar. Como constatei mais tarde, naquela zona vai ainda uma certa distância da intenção ao movimento propriamente dito. Mas lá conseguimos chegar a casa, onde para castigo pela nossa demora fomos destacados para o assador; e a cujo clima insalubre apenas resistimos mercê de dois generosos “gin & tonic”, que nos forneceram o quinino necessário para aguentar as febres e os insectos até à hora de jantar.

Por altura da sobremesa, recusámos educadamente o melão “pele de sapo” e alegando afazeres inadiáveis e de interesse autárquico, escapulimo-nos o mais veloz que o tornozelo me permitiu ao encontro dos outros machos fugitivos que se começavam a concentrar perto da ribeira.

O que se segue é uma espécie de exercício de estatística. Apesar dos temas de conversa se terem revelado diferentes, o que basicamente fizemos foi experimentar as múltiplas combinações de acompanhantes que se podem utilizar para beber uma “mine” em Santa Clara a Velha.

E acreditem que apesar da tão falada desertificação do interior, não nos faltou companhia até o bandulho do Jorge começar a chocalhar como uma cama de água, e termos que interromper as libações para permitir que o seu sistema de drenagem eliminasse todo aquele líquido excedente.

Como os mais perspicazes de vós já devem ter reparado, isto é apenas a primeira parte desta homérica viagem que mal se tinha iniciado. Mas para encurtar um pouco, passo a informar que jogámos três jogos de Snooker (eight ball) e dois de matraquilhos. Até que finalmente por volta da meia-noite, alguém entrou no local onde nos encontrávamos e propôs – E que tal se fôssemos à festa de Luzianes?

Para os poucos que o desconhecem, informa-se que as armas de Luzianes-Gare são - Escudo de ouro, ramo de medronheiro verde com dois medronhos vermelhos e ramo de sobreiro verde, com duas landes de sua cor, passados em aspa; em chefe, dois perfis de carril de negro; ponta ondada de três tiras de azul e prata. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco com legenda de negro. – O que já deveria ter-me posto de sobreaviso contra uma incursão em tais paragens.

Judiciosamente distribuídos por diversas viaturas, os valentes elementos do nosso corpo expedicionário ganharam a estrada; mas não antes de terem recarregado as baterias mais uma vez. Eu por essa altura já desenvolvera um desinteresse budista por tudo o que dissesse respeito à expedição, pelo que não me mostrei surpreendido pela informação de que a noite seria abrilhantada pela famosa Nikita.

Não sei bem quanto paguei pela entrada, mas lembro-me que foi uma moeda; o que me leva a crer não ter sido muito caro. Mas o espectáculo valia a pena…

Uma cerca manufacturada com tábuas, mantinha firme o perímetro das arcas frigoríficas cujos defensores de ar diligente sorriam, talvez ignorando que a frágil barreira nunca conseguiria constituir defesa eficiente contra uma força de desembarque altamente motivada.

Perto deles, num guichet improvisado vendia-se as multicoloridas senhas que davam acesso aos bens de consumo (“mines”, bifanas, bagaços, etc.); e finalmente, após um mar de gente que se agitava à semelhança de um pacote de enguias para a pesca, encontrámos… Nikita.

Não era a Nikita de Jean-Luc Godard, mas sem dúvida que seria uma assassina empedernida. O seu treino na arte da aniquilação era internacional; o que quer dizer que ela poderia estar a cantar em qualquer língua (a mim pareceu-me Urdu) que o efeito seria o mesmo.

A sua pose era a de uma fêmea agressiva que tenta dar a impressão de ter um quebra-nozes por pélvis; e parece-me que dava resultado, pois a maioria da assistência nem conseguia distinguir os intervalos dos momentos em que ela cantava, tão interessados estavam nos seus atributos.

Depois de “Amor Mortal” (acompanhado por pélvis, pélvis, anca para o lado…), fomos brindados com “Desejo Ardente” (anca rodada, pélvis-nádega, pélvis, pélvis, etc.…), mas o nosso corpo expedicionário começava a dar mostras de um certo aborrecimento, pois nem protestaram quando se acabaram as “mines” e a Comissão passou a servir a imperial em copos de plástico.

Foi nessa altura que fui surpreendido pelo traiçoeiro ataque do político.

Como é do conhecimento geral, à semelhança do Ciclope este perigoso elemento tem apenas um olho (nem sempre aquele que devia ter, mas pronto), pelo que só olha em frente e de preferência para bem longe. Começou por me falar do futuro da região, da falta de infra-estruturas turísticas, e do impacto do turismo na debilitada economia local.

Aguentámos estoicamente o ataque, especialmente porque ele nos tinha trazido as últimas “mines” existentes no recinto da festa. Mas mal o líquido se escoou pelas nossas goelas, achei por bem persuadi-lo de que um político deve dançar com as eleitoras. Embora confesse que fiquei bastante surpreendido por ele se ter deixado convencer tão facilmente.

Entretanto, o facto de o nosso grupo se ter subdividido noutros mais pequenos em nada ajudou a nossa nobre causa, porque tornou mais difícil a coordenação de movimentos; e por volta das quatro da manhã já só conseguimos encontrar dois deles que ensaiavam alguns cantares alentejanos na periferia da festa.

Acabou por se tornar interessante, pois devido à minha mente citadina e sem qualquer barreira no que toca a preconceitos locais, compusemos belas quadras em que “a boa da tua irmã” rimava com “esfolar o achigã” (infelizmente, frases que nem sempre se apresentavam no contexto devido).

Alguns elementos da Comissão de Festas decidiram então convidar-nos a sair; mas no meio da confusão acabámos por nos perder uns dos outros, e dei por mim virado para uma estrada muito escura e com o Jorge a dizer-me em voz calma – Não tem problema que a distância não é assim tão grande.

Atenção! Se alguém vos vier com aquela piada alentejana do “é já ali”… Acreditai, ó gentes. Porque é pura realidade. Se o meu telemóvel tivesse GPS eu ficaria a saber que se tratava de doze quilómetros. Mas como não subscrevi esse serviço, acreditei (pela penúltima vez) na palavra do meu amigo e deitei-me à estrada.

Ele também se deitou à estrada mas, talvez por justiça poética ou castigo divino, ainda não tínhamos andado dois quilómetros quando desapareceu da minha vista.

Ao dar pela sua falta chamei-o em voz bem alta, a ponto de ter acordado os cães de um monte ao lado, que cheios de curiosidade aproveitaram para vir também implicar. Mas o magano estava perto só que a um nível inferior, pois tinha-se enfiado por um valado adentro dando-me mais ou menos com a cabeça pelo meio das pernas.

Após os comentários humorísticos da praxe continuámos o nosso caminho. Mas acho que ele ficou zangado, pois além de se deixar ficar para trás, de cada vez que passávamos por um sinal de trânsito batia-lhe com um pau. Hábito desagradável este que só abandonou quando teve que largar o pau para apanhar pedras e defender-se dos cães.

É um bocado difícil defendermo-nos de cães que não se vêm; mas lá nos safámos. A partir daí a situação deteriorou-se pois o cansaço começou a tornar-nos irascíveis, e nos últimos quilómetros estávamos já prestes a engalfinhar-nos independentemente da nossa velha amizade.

Salvou-nos o João que nos reconheceu (ou então foi por irmos pelo meio da estrada) e parou para oferecer boleia. Quase que não valeu a pena, pois oitocentos metros mais tarde avistámos a casa do Jorge..

Antes de nos separarmos para nos irmos deitar sorrateiramente, ainda o fiz prometer que não voltava a meter-me noutra igual. O que solenemente assim jurou.

No dia seguinte levou-me até à barragem de bicicleta e por um caminho mais fácil. Vocês querem tentar adivinhar qual era a distância?...

Música de Fundo
God Gave Me Everything” – Mick Jagger

sábado, 6 de agosto de 2005

A Viagem
- E de como este vosso escriba, se irá daqui a umas horas “pôr a milhas” em busca do sossego do campo (ou do seu equivalente na tabela periódica) -

Mais uma vez vou embarcar num comboio para atravessar a linha que cruza o nada. Uma viagem onde apenas o partir e o chegar existem. Porque todo o trajecto é feito pelo Desvio no Tempo.

O comboio é um veículo estranho; tanto pode aproximar como afastar as pessoas. Por isso é que as gares de comboios têm aquela mística da despedida. E também porque é lá que eles se despedem, claro. Aparte isso, viajar de comboio não me dá quaisquer ideias; especialmente se ainda não se embarcou.

Estarei por aqui na quarta-feira. Bom fim-de-semana!

Música de Fundo
Dynamite” – Jamiroquai

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

Te quiero, coño…
- La importancia de llamarse Ernesto -

Para mim a língua Castelhana sempre esteve ligada a episódios interessantes e divertidos. Apesar de ter quase desistido dos escritores espanhóis quando era miúdo, e tudo por culpa de “D. Quixote” que achava assaz deprimente, reconsiderei ao ler “O Chapéu de Três Bicos” de Pedro Antonio de Alarcón; e a honra de Castela ficou senão salva, pelo menos bem remendada.

Se nos abstrairmos da barreira linguística (para mim, a sonoridade da língua de Cervantes assemelha-se bastante ao Daffy Duck tentando falar português), até nem são maus tipos… arrogantes como adeptos do FCP, manhosos como “patos-bravos” da Reboleira e descarados como qualquer alternadora de Odemira (isto só para começar), os espanhóis fazem-me sentir em casa cada vez que os encontro.

É claro que estou a generalizar. Aliás, como qualquer bom espanhol.

Mas um espanhol campista?... Que Blog me acuda. Melhor que isto, só mesmo um casal de espanhóis campistas e com uma cadela. Para compor a coisa, pode exigir-se que um deles seja um completo nabo, e não saiba sequer como montar a tenda.

E Bingo! Foi exactamente isto que me saiu.

Tratava-se de um par com trinta e poucos anos cada, acompanhados “por la perra”, uma coisa mimada (Quem é a coisinha querida da mamã? Quem é?...) e arraçada de Labrador, que passava o tempo a meter-se entre as pernas de toda a gente como se fosse uma espécie de corista em Las Vegas.

Os espanhóis são civilizados, ou não tivessem inventado os touros de morte e a paella (já para não falar da Inquisição e do famoso garrote); por isso presumo que fosse normal o tipo de tratamento que mantinham entre os dois.

Logo de início me pareceu que a coisa iria acabar mal. Não que eu tenha alguma coisa contra o “Estilo Irmãos Marx”; mas decerto estes não se apalpavam nem beijavam durante os seus atribulados números de comédia.

Primeiro que tudo desdobraram a tenda. Uma espécie de meia-abóbora com aspecto futurista, que até ficaria bem como estação de retransmissão em Janus ou em Titã. Infelizmente parece que a elevada gravidade do nosso planeta, prejudicava bastante o processo de assemblagem. É claro que em nada ajudava o facto de ele não ter lido as instruções; ou de ela passar o tempo a distrai-lo com beliscões no traseiro. Espanhóis…

Uma das primeiras peças que ela descobriu foi o poste central em alumínio desdobrável, que pela sua configuração se parecia com uma bengala de cego. Só um cego é que não via para onde se destinava aquilo, e ela teve que fazer a rábula do invisual que aproveita para apalpar tudo em redor.

Mas realmente mais chata que o campista fêmea (espanhol, claro), só a cadela.

No início era tudo beijos e olhares inflamados, mas após o episódio da bengala e de outro em que ela guardou novamente as espias da tenda, fazendo com que ele passasse dez atribulados minutos em busca delas; a cadela decidiu completar a obra, e assim que ele conseguiu manter a tenda numa posição relativamente estável, foi instalar-se lá dentro sem querer sair.

- “Cariño me tienes loco” – Espumava já ele invectivando “la puta perra”, e dando pontapés ao acaso, para consternação dela que periódicamente lhe endereçava uns tímidos "calmate Ernesto", e gáudio de todos os lusitanos passantes, que entretanto por se ter passado palavra começavam a afluir ao local do acontecimento.

Não é em vão que lhes chamam “nuestros hermanos”. Os tipos têm igualmente a mania que no estrangeiro ninguém percebe nada do que dizem.

Debateram longamente o facto de “nosotros tios estarmos mirando”, e que a culpa era dela pois tinha trazido “la perra”, e que ele era “un idiota” que não sabia montar uma tenda, acabando na interessante proposta que ele lhe fez de ir “tomar por el culo”.

Neste ponto da conversa já se tinha conseguido reunir uma razoável assistência, quase equivalente a metade da população do baixo-alentejo. Pelo que os campistas decidiram recolher à respectiva tenda, estivesse bem montada ou não; acompanhados da cadela e sob o olhar desiludido de alguns dos assistentes que se tinham deslocado de longe propositadamente para o evento.

Algumas horas depois a calma tinha-se instalado nas redondezas. As aves dormiam, as melgas picavam os seus clientes habituais e os grilos davam cabo dos nervos aos citadinos que ainda não se tinham habituado aos ruídos do campo; quando começaram a soar alocuções latinas e interjeições tipo “puta madre”, “coño”, etc.

Alguns lusitanos em vigília nas suas tendas puderam testemunhar que os castelhanos arrastavam uma relutante cadela até ao automóvel, onde ficou confinada o resto da noite.

Regressaram finalmente à tenda onde sob os olhos de toda a comunidade campista lusitana do baixo-alentejo fizeram as pazes, com muitos beijos, muitos “cariño” e muitos “te quiero”. Acabando em beleza (especialmente porque não apagaram o “petromax”, o que proporcionou um inesquecível espectáculo de “sombras chinesas”), a ponto de o guarda dos balneários garantir – Até parecia o canal 18, codificado e tudo…

Música de Fundo
Dakota” – Stereophonics

terça-feira, 2 de agosto de 2005

O Passeio no Campo (Última Parte)
“Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.”

- Herberto Helder –

O estreito carreiro fora burilado na rocha viva pelas botas de gerações de caminhantes. Ao se olhar para baixo, dava a impressão que qualquer um poderia voar dali, bastando para tal abrir os braços e lançar-se no vazio como um gaio audaz de vistosa plumagem.

Vencendo lentamente a subida para manter calma a respiração, ele virou-se para trás – Quando te sentires cansada diz-me para parar. Ainda não chegámos a metade, e não é necessário estafarmo-nos pois temos muito tempo.

- Para gato de telhado pareces muito à vontade nestes sítios – Respondeu a mulher um pouco ofegante – Bem preferia que me faltasse o ar por outras razões; isto aqui só há poeira, erva e árvores. A pousada era bem mais confortável.

- Também há sítios agradáveis lá em cima – Disse ele – Costumava vir para aqui antes de comprarem a aldeia e construírem aquele mamarracho. Mas poupa o fôlego, que daqui a poucos minutos devemos estar a meia encosta onde te vou mostrar a minha piscina panorâmica…

Ela ia dizer algo mas decidiu esperar para ver. O tipo tinha jeito para surpresas, e seria óptimo dar um mergulho para se livrar da poeira que se soltava debaixo das botas pesadas e se agarrava a tudo.

Subiram em silêncio durante algum tempo, passando por “palheiras” de xisto meio arruinadas e leiras ao abandono invadidas pelas silvas. Os pássaros cantavam preguiçosamente, aturdidos pelo sol escaldante que assentava sobre a vegetação verde-escuro como um ferro de engomar.

Chegaram enfim a uma zona plana. Onde um tanque de pedra abastecido por uma fenda enorme escavada na rocha deixava escapar pelo rebordo, um fio de água que serpenteava pelo chão e se perdia pelo vazio, caindo para o rio algumas centenas de metros mais abaixo.

- Era aqui que vinha dantes tomar banho nos dias de calor… - Disse ele em tom de recordação – A água vem daquela mina que segue pelo monte adentro, e que capta toda a água infiltrada no terreno desde o cume até aqui.

A mulher olhou em volta. Viam-se aqui e além minúsculas casas incrustadas nos montes, que formavam uma parede esverdeada em redor deles terminando no azul pálido de um céu sem nuvens. – É lindo! – Exclamou – Valeu bem a subida…

Ele beijou-lhe o pescoço por onde descia uma gota de suor. – Queres refrescar-te? Não dá para mergulhar, mas podemos sentar-nos lá dentro com água pelo peito; ou brincar aos golfinhos - Propôs em jeito de troça.

- É melhor ficarmo-nos pelo refrescar. As brincadeiras por estes lados acabam sempre em cima de pedras e coisas ásperas. Ainda saio deste fim-de-semana toda arranhada… - Respondeu enquanto despia a camisola de algodão; fazendo balançar os seios cujos mamilos enrijaram a um toque da brisa.

Deixando a roupa em cima de uma pedra, entraram na água tépida onde flutuavam agulhas de pinheiro e algumas flores silvestres. Apoiados no fundo musgoso, beijaram-se longamente enquanto os corpos se tocavam na suave imponderabilidade provocada pelo líquido.

Ela sentou-se sobre ele; e segurando-lhe a cabeça com as duas mãos beijou-lhe os olhos cor das folhas das árvores, movendo-se muito devagar e sentindo-o despertar de encontro ao seu ventre. – És…

- Eu sei. Não digas nada. – Silenciou-a ele com um beijo, pegando-lhe os pulsos para colocar os braços à volta do seu pescoço. Cruzou a pernas debaixo dela e sentiu-a roçar-se por si com movimentos circulares da pélvis.

Deflagrara um incêndio na encosta em frente; e as chamas ameaçavam espalhar-se pela floresta, incensando já a atmosfera com um fumo que ali chegava muito ténue. – Não seria melhor regressarmos? – Perguntou a mulher em tom inquieto, mas sem deixar de lhe esfregar os seios pelo peito – Isto pode tornar-se perigoso.

- Não! – Sossegou-a ele – Estamos a favor do vento e as chamas correm em direcção ao rio; não temos que nos preocupar. Levanta-te um pouco. – Saindo de baixo dela, sentou-se na borda do tanque e encostado à parede de rocha, fê-la sentar-se de costas sobre si segurando-a bem por debaixo dos joelhos. – Mete-o!

Enquanto era erguida de pernas escancaradas, ela segurou-se-lhe ao pescoço com o braço direito e conduzindo o falo para dentro de si com a mão esquerda, recostou-se para trás de olhos semi-cerrados e narinas dilatadas e frementes.

Ele levantava-a tornando a baixar repetidamente; fazendo-a deslizar pelo seu peito molhado e sentindo-lhe o sexo húmido, que o sugava vibrante como uma planta carnívora. – Deixa-me ver a tua cara. – Pediu-lhe, sentindo que já não tinha muito tempo; aproveitando para lhe levantar uma perna e a fazer girar sobre si sem se desenfiar – Quero que te soltes… que te venhas para mim.

Soltando um “sim” quase inaudível ela apoiou bem as mãos nos ombros dele, dando início a uma série de movimentos bruscos que ecoavam em redor deles ampliados pela parede de pedra. Sentiu que ele lhe colocava os dedos por detrás na vulva, e os tentava introduzir aumentando a pressão do pénis contra as paredes de carne que o sujeitavam.

Pressentindo os espasmos que começavam a percorrê-la, o homem retirou uma das mãos e enlaçou-a pela cintura chupando-lhe os seios violentamente, deixando marcas rosadas por onde passava a sua boca.

Os gemidos abafados que já há algum tempo se ouviam, foram-se transformando em gritos agudos e entrecortados que ela deixara de reprimir; ecoando pela montanha como o lamento de uma “banshee”.

Sacudida por estremeções incontroláveis deixou-se cair para trás com um último grito agudo e prolongado, arrastando-o consigo para dentro do tanque onde ficaram abraçados, estremecendo ao ritmo dos soluços que não paravam de a assolar.

Passando a mão molhada pelos olhos, ela disfarçou algumas lágrimas que tinham brotado no entusiasmo da paixão. – Céus! – Suspirou exausta – Há muito que não tinha um orgasmo tão intenso.

Ele sorriu apenas com os cantos dos olhos e ficou uns momentos a olhá-la silenciosamente, após o que acabou por dizer – Lembras-te de me teres dito que eu quando me vinha te fazia lembrar Cocas o Sapo? Bem… Acho que estou vingado.

- És mesmo um canalha. Não sei como me fui apaixonar por ti. – Disse ela sorrindo e abraçando-se-lhe ao pescoço para o arrastar para debaixo de água.

Música de Fundo
Girls of Summer” – Aerosmith

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