segunda-feira, 31 de outubro de 2005

TheOldMan No País Dos Brinquedos
- Onde todos os meninos crescidos tarde ou cedo vão brincar… -

Eram seis e meia da manhã quando saí de casa. O tempo estava chuvoso e Meu Amo levava um enorme guarda-chuva atravessado no banco de trás da viatura.

Apesar deste início pouco auspicioso, a coisa nem teria seguido mal se após chegados ao local da concentração não nos tivessem enfiado num autocarro ranhoso ao mais puro estilo salazarista (e sem direito ao garrafão da praxe).

Senti-me como um daqueles tipos do interior, a quem traziam antigamente para as manifestações com a única missão de agitar uma bandeirinha, em conjunto com outros 79.999 durante cinco minutos.

Para piorar as coisas, dois dos convidados atrasaram-se uma hora; após a qual apareceram com um ar perfeitamente natural, e sem se justificarem ou desculparem ocuparam os respectivos lugares. Por esta altura pensei que as coisas iam animar, pois já se rosnava em surdina lá para o banco detrás, mas todos acabaram por se distrair com a paisagem.

Devido ao atraso caímos em plena hora de ponta na IC19 e CREL, pelo que conseguimos fazer o trajecto Alcoitão/Alverca no tempo recorde de duas horas. Quando saímos para tomar café na área de serviço seguinte, Meu Amo aproveitou para nos brindar com os seus dotes de comediante, tropeçando à entrada do bar e precipitando-se por ali adentro empunhando à sua frente o gigantesco guarda-chuva; que visto do interior parecia o nariz do Graff Zeppelin a tentar penetrar pelas portas.

Ficámos todos muito mais bem dispostos e seguimos viagem com mais animação, mandando-lhe uma piada ocasional ou tecendo considerações sobre “A influência dos guarda-chuva amarelos, no aumento de incidência da homossexualidade em homens de meia-idade”. Esta malta das obras sempre foi muito intelectual…

Mas a nossa alegria em breve se esfumou. Pois após contarmos cinco acidentes, era já meio-dia e todo o programa de actividades matinais se encontrava comprometido; especialmente se levássemos em conta o facto de estarmos nessa altura ainda a passar por aquele frigorífico gigante em aço inox que se encontra há anos abandonado no acesso a Coimbra.

É realmente incrível que ainda ninguém tivesse tido a ideia de remover dali aquele mono…

Vi nessa manhã a entrada da Exponor. Aliás a manhã já tinha passado e como eram 13h, fizemos agulha para o restaurante onde se tinha sido já marcado o almoço. Almoço este de boa qualidade mas incaracterístico, que teve como bons pontos um Esteva Reserva e um queijo regado com azeite a ferver tão perigoso para o meu colesterol, que mal o coloquei na boca logo recebi um SMS da Dr.ª Inês a perguntar se estava tudo bem comigo.

Chegámos finalmente à “Concreta”. E eu poderia aproveitar para vos chagar o juízo com aquela história do tipo que inventou o betão, lhe ter dado o nome de “concrete” por a sua filha se chamar Concretia; e já agora o monte de piadas que isso deve ter proporcionado à pobre rapariga após ter crescido, e tal… Mas não estou para aí virado.

Mal entrámos fomos logo atacados por um espanhol. Aparentemente tínhamos sido invadidos durante a hora de almoço, e um terço dos stands estavam ocupados por castelhanos ou seus testas de ferro. Mas também, se seria para estarem vazios antes assim.

Fui então obrigado a apreciar a performance da diabólica “Putzmeister Sika-PM500PC” que projectou reboco sobre quase toda a assistência; e digo quase, porque nessa altura já me estava a esgueirar para o Stand do nosso anfitrião, onde vira uma loura a distribuir cafés e sorrisos.

Sorri-lhe também e avancei de braço estendido para pegar na chávena, quando Meu Amo e mais dois energúmenos me manietaram levando-me a visitar o Stand da Markado onde durante vinte minutos apreciei contra gosto a textura das paredes em pinho nórdico, e os bons acabamentos das casas pré-fabricadas.

Aproveitei um momento em que todos escutavam um cuspinhoso “comercial” para sair rapidamente; meu amo ainda tentou dissuadir-me com um – “Vêm já com os tubos postos e tudo…” – mas eu encontrava-me sob influência dos meus instintos mais básicos, que me diziam ser altura de beber um café oferecido pela loura, e informar-me sobre as delícias dos sistemas de bombagem com protecção cerâmica.

Não foi ainda desta. Um tipo com quem eu já tinha trabalhado, interceptou-me quando eu passava pelo stand da M@gnisoft para dar uma mirada ao módulo de orçamentos e desviou-me do meu caminho. Aparentemente a Aquatherm GmbH estava a oferecer kits de termofusão, e segundo ele isso é uma oportunidade mais preciosa que o cometa Haley.

Á semelhança de Odysseu, eu estava condenado a ser distraído do meu objectivo pelas coisas mais insignificantes e comezinhas. Aguentei estoicamente as demonstrações do Fusiotherm, do Aquatherm Firestop e do Fusiolen, como se fossem algo mais importantes que miseráveis tubos em polipropileno. Um gajo tem a sua reputação a manter!...

Ao menos ali estava sentado. Mas a calma durou muito pouco tempo; pois vi pelo canto do olho que Meu Amo corria perigo de morte. Tendo sido apanhado pelos insidiosos sicários da Rothenberger, que não só ofereciam um presunto espanhol na compra de cada máquina de cravar (5.100,00€), como este era entregue pessoalmente por uma demonstradora (Uma morena de cabelo cor de azeviche e o porte de uma égua de tiro) envergando um conjunto de Lycra em vermelho, cor característica da marca.

Parti logo em seu auxílio, e em boa hora; pois já se encontrava a ler o catálogo enquanto simultaneamente estudava o traseiro da demonstradora, que se assemelhava a um tomate colhido na zona do Entroncamento, mercê das suas proporções avantajadas.

- Esta Supertronic 2000 fazia-nos bastante jeito, não achas? – Perguntou-me com uma expressão ausente, dirigindo-se ao copo de cerveja que tinha na mão. – Nunca se sabe quando será preciso fazer uma rosca e não haja mais nada à mão…

Respondi-lhe que haviam modos mais económicos de conseguir roscas bem feitas, e pegando-lhe pela aba do casaco, afastei-o daquele antro de perdição. Principalmente porque de vermelho apenas conseguiria a tal Supertronic 2000, e teria que a pagar bem paga.

Escapámo-nos à Infinitech, e conseguimos ultrapassar o stand da Hilti tendo recebido apenas um conjunto de porta-chaves; acabando por percorrer em pânico os últimos metros que nos separavam do stand do nosso anfitrião. Não sem antes termos sido assediados por uma representante do arquitecto Márcio Paiva, que desenhava candeeiros para cozinhas, e que gostaria imenso de ter a nossa opinião sobre os mesmos.

Foi quando eu a vi.

Confesso que nunca gostei da cor amarela; mas existem alturas em que temos que deixar para trás certos preconceitos. E ela era linda…

De formas esguias e elegantes, o seu único braço apontava para mim num convite sem palavras; com a pá aberta qual mão estendida numa oferta de proximidade. Chamava-se Caterpillar 385CL, embora convenhamos que é muito mais sexy a sonoridade do termo “retro-escavadora”.

Mal a montei transformei-me num animal. Todos os meus atavismos vieram à superfície e deixei-me arrastar pelos sentidos. Ela fazia tudo o que lhe pedia, conseguindo colocar-se nas posições mais inverosímeis devido aos seus conjuntos hidráulicos, comandados por controlador digital.

Acabei por ser delicada mas firmemente removido do cockpit para dar lugar a outro (era uma Caterpillar de aluguer), e de orelha murcha lá consegui finalmente chegar ao local aprazado onde me deram uma seca enorme sobre diâmetros de passagem de sólidos, caudais e alturas manométricas. De vez em quando suspirava ao recordar a sensação que era ter a 385CL debaixo de mim.

Quando estava quase a cair no sono, ofereceram-me um copo de cerveja tão alemã como os equipamentos de bombagem (era Sagres, que eu vi o barril da imperial arrumado a um canto), e a Sónia (é giro, mas eu acho que elas inventam sempre “nomes artísticos” para estes eventos) ofereceu-me alguns “pretzels” com um sorriso triste.

Após inquirida, confiou-me que os sapatos rasos que calçava a estavam a martirizar; pois estava habituada a saltos altos, mas tivera que usar aquelas chanatas para ligar com o conjunto saia/casaco e assim parecer uma mulher executiva que distribuía aperitivos.

Comecei a pensar para que teria que ser uma mulher de ar executivo a distribuir os aperitivos, mas calculei que a resposta não seria agradável, e pegando com uma mão em Meu Amo e com outra no saco dos catálogos inúteis dirigi-me para o autocarro.

Mesmo à saída, quais Testemunhas de Jeová, dois representantes do Pinhol Gomes & Gomes, Lda. entregaram-me um catálogo, e com a sua bênção lá seguimos viagem.

Era quase hora de jantar; e tal como eu calculava ficámos presos na VCI.

Depois de quase uma hora de claustrofóbico martírio, conseguimos sair do Grande Porto e entrar na auto-estrada onde após desligadas as luzes o autocarro se transformou num bólide. Não que andasse mais depressa; mas porque o ruído do motor era enriquecido por sonoros roncos de construtores adormecidos, o que dava ao ambiente um ar de pista de corridas.

As horas que se seguiram, foram passadas num sono inquieto percorrido por sonhos estranhos em que aparecia a 385CL, intervalado por breves e sobressaltados despertares.

Lembrei-me então porque já há muito tempo não me apanhavam num evento destes. Deve ser uma das maneiras mais idiotas de desperdiçar um dia inteiro; excepto para os arquitectos, que no dia seguinte têm uma visão totalmente diferente no que toca à estética de W.C.

E foi esta espécie de Barca de Caronte que chegou à Mealhada, tarde e a más horas, para se bater com o leitão assado.

Passado um jantar sem história, foram mais umas horas (francamente, já pensava que atravessar o Atlântico de avião fosse mais fácil) até casa; onde Meu Amo me deixou, levando consigo toda a tralha que tínhamos acumulado durante o dia.

Quando acordei no dia seguinte, olhei para o lado e ali estava ela em toda a sua elegância, sobre a mesa-de-cabeceira e mesmo ao lado do despertador. Estendi a mão para a acariciar quando ouvi a voz do meu filho no quarto ao lado. – Fogo, man!... Quem é que levou a minha retro-escavadora telecomandada?...

Música de Fundo
Links 2, 3, 4” – Rammstein

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Pequeno Intervalo para Anúncios
- Voyage Surprise -

Ao fim de quatro anos vou finalmente hoje rever a Cidade do Porto. O berço das melhores “francesinhas” e dos mais divertidos companheiros de tropa que um homem pode ter.

Terão que desculpar a minha recente tendência para aglutinar tudo sob o meu ponto de vista masculino, mas tenho levado uma injecção tal de mulheres fundamentalistas (isto é um eufemismo, tal como devem ter reparado), que já me interrogo se o sexo fraco será o feminino, ou antes o resultado da sua actuação sobre o oposto.

Pelo que tenho visto, aparentemente as mulheres (generalizei, mas sou um homem. E todos os homens, segundo algumas mulheres, generalizam) já não se conseguem impor por o serem, ou como seres humanos. Em vez disso, pegou moda uma atitude desiludida e belicosa, e que aparentemente fez escola.

Mas estou a desviar-me do assunto porque este post não é sobre outros blogs, mas sim a propósito do dia de amanhã em que vou ao Porto, em mais uma viagem-surpresa destinada a potenciais otários, patrocinada por um fabricante de equipamentos de bombagem.

Sem dúvida que podem esperar um post com a característica pronuncia do norte, sobre boa comida, bom vinho, boa companhia; e também sobre o cinismo de um gajo do sul que já ouviu quase tudo sobre bairrismo, supremacia baseada em exalações de anidrido carbónico e gabarolices construídas a partir de vapores etílicos.

Levo os meus charutos e o gravador digital. Só espero que a viagem inclua uma paragem no “Pérola Negra”…

Música de Fundo
Rock Me Amadeus” – Falco

terça-feira, 25 de outubro de 2005

(Bons) Bocados do Outono


*

- Sabes? Descobri que afinal não somos almas gémeas…

- Não? Então porquê?

- Bem, é que se fossemos almas gémeas estas andavam lado a lado, e aqui é mais um atrás do outro. Por isso acho que somos “almas atreladas”.

*

Ser pai de um adolescente e não ser chauvinista; não é ser companheiro… É ser gay!...

*

A consciência é um dispositivo lavável. Ou senão os adúlteros não a teriam tão aliviada após tomar duche.

*

A grande desvantagem para alguém que se porta como uma “marioneta”, é que para funcionar alguém tem que lhe enfiar o punho por algum lado.

*

Não sou grande coisa a engolir sapos; mas desta vez acho que vale a pena deglutir a Inês Pedrosa (como mandatária, claro) e ir na mesma votar em Manuel Alegre. Mas já que a tenho que engolir, ao menos que fosse alguma coisita de jeito…

*

A estupidez distingue-se da inteligência, pelo enorme alarido que normalmente faz ao tentar chamar a atenção sobre si própria.

*
Há blogues que são como poços de petróleo; só que em vez deste, produzem merda.

*

E para finalizar, uma poesia lamecha:

Os dias de Outono, são uma segunda oportunidade para a Primavera.

Estações de transição são apenas isso
aprazíveis patamares entre coisas importantes

Na verdade uma das melhores coisas que se pode ter
é uma primavera que nos desperte para o prazer dos dias

Ou quem sabe… até mesmo um Outono.

Música de Fundo
Power” – Blackalicious

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Meia-Noite
- “À meia-noite começa o sol a subir o nosso horizonte e portanto a repelir, levando de vencida, as trevas… o influxo maligno começa ao meio-dia em pino e termina das onze para a meia-noite, ou ao dar a meia-noite.”
(Teófilo Braga in o Povo Português nos seus costumes, crenças e tradições)

Estava a fumar na varanda, observando uma lua perfeitamente desenhada em papel de alumínio celeste, quando me lembrei de uma minha fase muito antiga em que tomei interesse pelo oculto e as artes negras.

Ainda não se utilizavam termos carnavalescos importados das colónias, como “olho grande”, “macumba” e outros que fazem lembrar vagamente acepipes de origem africana. Éramos estudiosos “sérios” que fossavam nos livros poeirentos em busca de receitas esquecidas.

Dizia-se nessa altura (andávamos em recolha etnográfica pelo interior) que quem lesse o Livro de São Cipriano à meia-noite num cemitério teria morte horrível.

Quase que comprovei essa teoria. Pois em consequência dessa experiência, contraí uma terrível constipação que quase resultou em bronquite e andei rouco uma semana. Esqueceram-se de acrescentar na lenda que seria bem mais efectivo se o lesse à chuva, pois aí seria pneumonia garantida.

Os que me rodeavam nessa temerária experiência sofreram episódios insólitos. Tal como o “El Gordo”, que ao confiar no seu pressuposto de que tudo nos jazigos se encontrava devidamente acondicionado, ao entrar num, se qualificou involuntariamente para ser mencionado no livro “Recordes Obtidos Por Pessoas Com Mais de 120Kg”.

Também nunca mais ninguém lhe chamou gordo; pois desenvolveu uma anorexia nervosa, e uma tendência para responder violentamente a tudo o que o sobressaltasse.

O “Sapatilhas” acabou médico legista, tendo descoberto a sua vocação para lidar com os invólucros das pessoas, como ele lhes chamava. Quanto aos restantes não é importante ficarem aqui registados, pois são mais importantes em recordações de um tempo posterior.

Talvez vítimas de uma maldição qualquer; alguns deles acabaram clientes do “Sapatilhas”.

Mas o mundo dos espíritos não existe nos rituais, e o livro serviu apenas para demonstrar a inutilidade da teoria. Nos dias que correm pouco olhamos para as estrelas; e pouco nos importamos com o nosso lado negro ou com o modo de melhor lidar com ele.

Hoje em dia, raros são os que conseguem reconhecer os seus próprios demónios; mas na altura estávamos muito imbuídos do espírito do oculto.

Lembro-me que eu e um amigo certa vez fizemos uma missa negra. O mais aproximado que arranjámos foram duas mulatas, mas mesmo assim a nossa sorte mudou substancialmente nessa noite. O que vem provar que as cerimónias simples são quase sempre as mais gratificantes; apesar da escassez de virgens e outros animais míticos…

E a alegria que proporcionava a nossa predilecção pelo oculto.

Rimos durante meia hora sem parar e até a Guida teve “uns pinguinhos”, durante a sessão de invocação em que os irmãos Resende utilizando velas e pratos de louça, conseguiram pintar toda a cara de preto sem que um único espírito interferisse.

Cheguei (muito tempo depois) à conclusão que embora nada exista de sobrenatural, nós modificamo-nos quando perseguimos um objectivo, tornando-nos em parte similares a ele mesmo. O que quer dizer em jeito de fim de post – “E preciso ter cuidado com o que se deseja, pois pode um dia realizar-se…”

Com isto tudo já passa da meia-noite; e as trevas recuaram mais uma vez.

Música de Fundo
Sympathy for the Devil” – Rolling Stones

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

O Post Plagiado
- Mas salvaguardando as devidas distâncias –

Não tenho por hábito publicar aqui textos de outrem ainda que assinalando a autoria.

Mas, face à boa qualidade jornalística do texto que se segue, abro uma excepção; embora tenha imensa pena de não vos poder dizer qual o autor, pois recebi isto por e-mail.

* Início de transcrição *

O que realmente aconteceu no dia 9 de Outubro de 2005
8h00 - Abrem as urnas.
8h01 - Santana Lopes vota vindo directamente da noite.
8h15 - Soares acorda e não sabe que dia é.
8h16 - Soares vai à casa de banho e perde-se no corredor.
8h30 - Sócrates vota e comenta para o "amigo" que hoje vai ser um grande dia.
8h32 - Maria Barroso descobre Soares na cozinha e leva-o para a cama.
8h45 - Carrilho acorda e telefona à Barbara para se juntarem para irem votar.
9h00 - Zézinha entra na missa antes de ir votar. 9h35 - Santana Lopes deita-se.
11h00 - É colocado um banco à frente da mesa de voto nº 2 da secção de voto 54.
11h01 - Marques Mendes vota na mesa 2 da secção 54.
11h02 - É retirado o banco.
11h30 - Jerónimo de Sousa chega à sede do PCP onde começa a ouvir cassetes de tempos antigos e músicas revolucionárias.
11h45 - Louça fuma o segundo charro do dia e já se está a borrifar para os resultados.
12h00 - Soares consegue finalmente se levantar e veste-se para ir votar.
12h05 - Maria Barroso volta a vestir Soares depois de lhe virar as calças para o direito.
12h30 - Soares Júnior vota e telefona ao pai a pedir ajuda.
13h00 - Seara vai votar aproveitando o intervalo do jogo da manha na Sport TV.
13h00 - Soares chega ao local de voto.
13h05 - Soares adormece na fila para votar.
13h06 - Soares acorda e não sabe onde está.
13h10 - Soares vota mas não sabe onde pôs a cruzinha.
13h15 - A caminho de casa Maria Barroso vê uma cruz desenhada na mão de Soares.
15h00 - Carrilho vota mas não cumprimenta o presidente da mesa.
15h30 - Carmona vota e mostra-se confiante perante os outros dois candidatos homens e as duas mulheres.
15h31 - Sá Fernandes vota e reafirma-se homem.
15h32 - Ruben de Carvalho mostra com orgulho a sua masculinidade num voto poderoso.
15h33 - Zézinha sai da missa e vai votar e diz não conhecer nenhum Carmona.
15h34 - Carrilho não se pronuncia e fecha-se no quarto a brincar com uma Barbie já antiga.
17h00 - Louça vota e manda uma marrada na porta de tão charrado que está. Embora com aparato no impacto o incidente é levado rir.
17h15 - Soares adormece.
19h00 - Carmona ganha Lisboa.
19h01 - Seara arrasa em Sintra.
19h02 - Rio esmaga no Porto.
19h30 - Soares acorda e telefona ao filho a dar-lhe os parabéns.
19h31 - Maria Barroso mete Soares na cama e pede-lhe para dormir.
20h00 - Carrilho discursa não assumindo a derrota e acusando Carmona de ser mau.
20h30 - Sócrates esconde-se numa sala no largo do Rato e faz beicinho.
20h45 - Jorge Coelho culpa a direita fascista.
21h30 - Mudam as pilhas ao Jerónimo de Sousa.
21h31 - Jerónimo de Sousa faz um discurso de vitória e exulta frases de 1917.
22h00 - Carmona abre uma garrafa de whisky mas esconde-a de Sá Fernandes e de Miguel Portas.
22h30 - Avelino Ferreira Torres foge para o Marco mas como não conhece a cidade perde-se e acaba aos pontapés aos caixotes do lixo.
22h45 - Em Gondomar o Major explode com a vitória e quer bater em tudo e todos.
23h00 - Fátima Felgueiras distribui pelouros por alguns presos e mete uma muda de roupa num saco azul em caso de ter de sair, só cabe uma muda de roupa porque o saco está cheio.
23h10 - Soares acorda e comemora a vitória como Presidente. Maria Barroso mete-o na cama e dá-lhe dois comprimidos.
23h15 - Barbara manda Carrilho para a cama sem jantar e tira-lhe o Ken durante uma semana por castigo.
23h30 - João Soares chora em Sintra e prepara candidatura a uma Junta na margem sul.
00h00 - Zézinha é eleita e comemora com um chá e umas torradas.
00h01 - Soares adormece sem perceber o que aconteceu.
00h02 - Santana Lopes acorda e vai para a noite.

* Fim de Transcrição *

Música de Fundo
Tango dos Pequenos Burgueses” – José Jorge Letria

Finalmente Cavaco quebra o silêncio

- Enfermeiro! Traga-me a arrastadeira…

… Manuel Alegre quebra a loiça

candidatando-se à Presidência

… e eu vou quebrar uma promessa

indo votar em Manuel Alegre nas Presidenciais

Por este andar, hoje ainda se quebra mais alguma coisa…

Música de Fundo
Tainted Love” – Marilyn Manson

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Cartas a Blog
- Sempre há algumas vozes que chegam aos céus… -

Recebi há pouco esta missiva de uma jovem devota de Blog, e que passo a transcrever pelo seu conteúdo perene (sempre curti à brava este termo) de inocência e humanidade; iniciando quiçá uma nova secção que se poderá chamar “No Cantinho da Oração”.


* Início de Transcrição *

Restelo (de Baixo), 19 de Outubro de 2005

Querido Mestre:

Sei que não sou digna, mas há algo que me empurra por detrás e que me força a vir diante de vós de alma nua. Sou uma rapariga simples que percorreu até agora o caminho pedregoso dos mártires.

Tive uma infância triste, pois os meus pais não tinham televisão e não pude assim ver as palhaçadas do Sr. Júlio Isidro, as visitas do Papa ou o Batatoon; por isso sou muitas vezes acusada pelas minhas amigas de ter falta de sentido de humor.

Mas desde que descobri a palavra de Blog a minha vida mudou, como se tivesse aparecido um príncipe encantado que me tomasse nos braços e me levasse para bem longe com intuitos libidinosos. A minha alma dilatou-se de tal modo, que sinto a santidade fluir em mim como uma corrente de ar.

Até o meu primo que é um labrego insensível, já notou a luz que brilha em mim; de tal modo que até me convida par ler com ele ás escuras. E diz que esta minha mudança nada tem a ver com Blog, mas com aquelas coisas que costumamos fazer na estufa das orquídeas do paizinho.

Revejo-me todinha na palavra de Blog. E quando a leio, toda a minha vida me passa à frente dos olhos como um filme; a tal ponto que já leio os posts da “Igreja do Imaculado Blog” com um pacote de pipocas sempre à mão.

Não sei como Blog me conhece, pois nunca O vi. Mas as suas descrições são tão vívidas, que nas cenas mais marotas, chego a sentir uma impressão aqui… no dedo com que carrego no botão direito do rato. Sinto-me uma nova mulher, e venho por isso agradecer a Graça recebida e entregar a minha alma dorida e sensível nas mãos da Sagrada IIB.

Só espero que ELE tenha umas mãos cabeludas e fortes…

Com um grande beijinho em Blog

Géninha


* Fim de Transcrição *

Querida Géninha

A tua missiva comoveu-nos muito a todos aqui na Igreja, pelo que aguardamos com fervor o dia em que virás a nós para ser recompensada pela tua fé.

Minha filha, o pedregoso caminho dos mártires além de provocar um ligeiro saltitar quando se caminha por ele, é mesmo assim muito mais confortável que a visão do senhor Júlio Isidro. Quanto ao Papa não me manifesto, porque seria injusto para com o palhaço Batatinha, a quem tanto admiramos.

Fica sabendo pois, que não existem príncipes encantados (nem princesas). Mas se a tua alma ficou assim tão dilatada, também já não precisas de um. Talvez precises mesmo é de um sentido de humor, ou talvez um cachecol.

Quanto a esse teu primo herege que tem os dedos tão pegajosos, ele que se acautele porque o nosso inferno só não tem ranger de dentes, porque normalmente os pecadores costumam perdê-los na descida. Ele que vá bochechando com Asseptal, que talvez ainda tenha que louvar a Blog.

Por outro lado, essa tendência que tens para te identificares com todas as passagens das nossas Sagradas Escrituras, só demonstra que não as conheces ainda muito bem.

Sim. Porque há episódios muito dolorosas que os nossos Santos Mártires não desejariam a ninguém, e que não conseguirás ler nem nos sagrados livros nem em blogs onde se inventam episódios da tanga, quase totalmente copiados da banda desenhada do Flash Gordon.

De qualquer modo, os braços de Blog estão sempre abertos para acolher qualquer uma das suas ovelhas (especialmente se esta se chamar Branquinha; mas adiante); por isso vem, minha filha. Vem a Blog, que ele to acrescentará.

Com um beijinho de Blog (por avença)

TheOldMan
(Mais conhecido por “Pontifex Maximus”)

Música de Fundo
Oh My Gosh” – Basement Jaxx

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- A conversão de Maria, Magda e Lena (ou MML, como nas “Grirl’s Bands”) –

Estava uma linda manhã na cidade de Blog. Não estava demasiado frio, os passarinhos cantavam nos ramos das árvores, e os namorados (os mais espertos) estariam possivelmente em casa a compartilhar pele e “tempo de qualidade”; pois a hora era ainda de um dígito apenas.

Para dar o exemplo aos seus representantes na terra Blog tinha ido pedalar, envergando um lindo conjunto de calções folgados de cor preta e sweat shirt mais clara com os narcisísticos dizeres “Blog is Beautiful”. Vinha encharcado em suor porque a subida era íngreme, e também por razões filosóficas.

Como é sabido, raras são as Graças que se conseguem sem algum sacrifício. E para ilustrar esta filosofia, ELE utilizava uma bicicleta com quadro em aço; que além de lhe servir para experimentar alguma humildade e fazer manter a forma, tinha sido também a mais barata que encontrara no antigo Pão de Açúcar da Cova da Piedade.

Pedalou-a pois energicamente até à Praça de S. João Baptista, que como todos sabem perdeu a cabeça por causa da tenra e viciosa Salomé, que adorava dançar frente a ele em trajes menores. Mas Blog não se importou.

A nossa religião permite a dança. Mesmo que esta não tenha finalidade definida.

Chegado à praça, sentou-se na esplanada. E logo um solícito empregado se materializou qual Arcanjo Eusébio (tratava-se de um indivíduo de “raça africana, calvo e de nacionalidade brasileira”) tomando nota do pedido d’ELE no seu terminal portátil Remanco, após o que se retirou para o interior do edifício.

Apesar de ser o Dia Mundial da Alimentação, e sem qualquer respeito pelos estômagos fracos, a autarquia tinha permitido no recinto um duelo de bandas. Infelizmente não eram de hip-hop, mas sim daquelas em que vêm quase todos fardados de guardas da PSP, até as mulheres (‘tadinhas, chuif…).

A meio da actuação da banda número dois, que interpretava um trecho do sempiterno Sousa (que foi do agrado de Blog, embora este prefira o famoso “Vêm Aí Os Palhaços”), entrou no recinto outro agrupamento que trazia algo de prodigioso e revolucionário.

Majorettes!!!

Blog pensou que tinha morrido e ido para o seu próprio céu. É bem conhecida a predilecção d’ELE por majorettes, guias de escuteiras, hospedeiras e mulheres-polícia (segundo alguns ímpios hereges, Blog tem uma costela de sopeira que o faz gostar de fardas; embora disfarce com um pouco de cultura de algibeira).

- Sem dúvida que esta é uma bela manhã – Pensava, ao despachar calmamente uma dietética torrada sem manteiga, acompanhada de um café duplo.

Estava ELE dividindo a sua atenção entre o pequeno-almoço e as pernas arrepiadas das majorettes, quando pararam subitamente frente a si três jovens mulheres que o interpelaram (e que também lhe taparam o acesso à musical paisagem).

– Mestre! – Clamou uma delas, tentando distrai-lo da visão de um elemento da banda, que se baixara para apanhar o bastão. – Somos tuas empenhadas seguidoras, e estamos perante ti para que nos concedas uma graça.

Blog é que não estava a achar graça nenhuma, pois aquelas três estavam a tirar ao espectáculo musical a pouca piada que podia ainda ter. Mas lembrando-se que não se deve desapontar um(a) crente, anuiu; convidando-as a se sentarem.

Chamavam-se Maria, Magda e Lena, respectivamente da direita para a esquerda; e disseram-LHE que iriam criar um blog colectivo sobre o imaginário feminino, para o qual contavam com a sua bênção.

Maria, que se sentara à sua direita, pegou-LHE na mão e colocando-a sobre o seu peito generoso, proferiu – Que esta mão - a mesma que escreve aquelas piadas ordinárias disfarçadas de ditos espirituosos - me guie na tarefa de escrever bons posts.

Magda, à sua frente, levantando-se depositou um piedoso ósculo nos lábios d’ELE – Que esta boca me abençoe, na tarefa insana de nunca deixar nada nem ninguém sem resposta pronta.

Blog um pouco atarantado por esta demonstração de fé, virou-se para Lena que se encontrava calmamente sentada à sua esquerda sem nada dizer, perguntando-lhe – E tu, minha filha… Não dizes nada?

Lena pensou um pouco e respondeu – Não. Eu vim só fazer-lhes companhia; pois pessoalmente acho que o que escrevo chega perfeitamente para preencher a linha editorial, sem ter que para isso rezar todos os dias – E passando distraidamente a mão pela fímbria dos calções do mestre, inquiriu – Bom tecido… Também há em turquesa?...

E é tudo, Sr. Dr. Juiz. Quanto à acusação de conduta indecente, tenho a certeza que foi aquele invejoso da mesa ao lado que inventou tudo…

Música de Fundo
Halo” – Texas

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

The Cynical Zen

*

Não se pode ser sábio e simultaneamente escrever um blog

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Chama-se “Primeiro Ministro” ao que é mais rápido a inventar desculpas…

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Pode dedicar-se ao Sudoku, quem não tem um portátil para jogar solitaire à mesa no McDonald’s.

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É obviamente fatalista um povo que tenha os olhos rasgados.

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Dividem-se as opiniões dos sábios sobre se o humor consiste em palavras sábias ditas de um modo estúpido, ou ideias estúpidas explicadas de modo inteligente.

(Pessoalmente, considero estas últimas como “discurso parlamentar”)

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Não se deve procurar a sabedoria nos livros, pois antes de ser sábio não se saberá escolhê-los.

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Se o amor não for entendimento, ao menos que seja bom sexo.

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Musica de Fundo
Govinda” – Kula Shaker

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

A Cromosfera ou O Post Inútil
- Por decreto-lei, o culto da personalidade só devia ser permitido a quem provasse tê-la…-

É claro que por “cromosfera” não me estou a referir à camada solar logo acima da fotosfera, mas sim a um pequeno segmento da blogosfera que é composto por cromos; malta do género do marido da Bárbara. O chamado “sapato de verniz, mas sem sapato”.

Se eu fosse anão (desculpem mas não conheço nenhum termo “politicamente correcto” para isto, excepto talvez “minorca”) provavelmente chamar-me-iam Resmungão. E eu sei… Sim, eu sei que tenho que começar a dominar a minha tendência para a crítica indiscriminada, reservando-a apenas para quem me chatear.

Mas é mais forte que eu.

E hoje foi um desses dias em que escrevi e apaguei diversos posts, não porque fossem falsos os factos expostos, mas apenas porque achei desnecessário incomodar quem pacificamente vive distraído a tirar (ou a meter, não sei bem) o cotão do umbigo.

Comecei por falar da pelintrice intelectual daqueles que vendo alguém ganhar crédito por algo que fez, aparecem invariavelmente de dedo no ar e aos saltinhos a clamar que isso não é nada pois eles próprios já o fizeram antes, mas que ninguém lhes ligou nenhuma.

Felizmente contive-me e apaguei este primeiro post. Seria desnecessário, pois não iria acrescentar nada ao que já quase todos sabemos.

Pensei em escrever um texto sobre o Outono e o seu paralelismo com as transições que regem as nossas vidas; mas era muito lamecha, e o que eu gosto mesmo é de andar à chuva bem agasalhado e pontapear montes de folhas castanhas sem pensar em mais nada.

Mais uma ideia desperdiçada…

Seguidamente ia-me insurgir contra outras personagens que periodicamente suspiram mês após mês a sua espiritualidade atormentada; escrevendo exaustivamente sobre as suas experiências pessoais de tal modo extensas, que todas elas juntas lhes dariam a avançada idade de cerca de duzentos anos.

Estava mal. Nunca se chama velha a uma senhora, especialmente se isso for mentira. Mais importante ainda… se ela não for uma senhora. É claro que apaguei o post.

Dei por mim a tentar analisar a razão pela qual escrevo cada vez menos sobre mim, e cada vez mais sobre os outros ou sobre assuntos que pouco têm a ver comigo.

A conclusão a que cheguei, é que dizemos mais sobre nós próprios se falarmos de outras coisas. Pois alguém que passe metade do seu tempo a apregoar a sua pureza de sentimentos, coragem, sensibilidade, força na verga, honestidade e outras virtudes, é no mínimo suspeito do contrário.

Afinal é por isso… Não vão vocês começar a pensar, que em vez de um velhote com mau feitio que escreve estas coisas, é afinal um jovem atlético de olhos verdes e com um mestrado em Astrofísica pelo MIT.

Agora se não se importam, vou beber um cházinho antes de ir dormir. Que esta gripe dá-me mesmo mau feitio.

Música de Fundo
L’air de la Bêtise” – Jacques Brel

domingo, 9 de outubro de 2005

A Política É Um Cu
- E é por isso que alguns políticos saltitam de um partido para outro… às vezes, já bastante partido também… -

O post de hoje é dissimulado, calculista e mal intencionado; podendo até não reflectir de modo algum a opinião do autor. É claro que seguindo a mesma tradição, o que eu acabei de escrever poderá ser totalmente falso, e servir apenas para me desresponsabilizar do que possam ler a seguir. Para mais, estou engripado e isso serve-me de desculpa.

Como já devem ter calculado pela introdução… É um post político.

A opulência merovíngia dos cargos, tachos e sinecuras sempre preencheu os sonhos de qualquer político. Como traseiros leitosos de jovens camponesas apanhando trevos, ou distraídas ceifeiras aparando as suas louras searas em sugestivas posições até que a eleição lhes caia em cima.

A política é um assunto de tal envergadura, que deve ser agarrado com ambas as mãos. Qual de nós não se sentiu já apenas uma molécula num enorme universo, em comparação com a imponência de algo que à nossa frente conseguia tapar todo o horizonte?

Temos para ilustrar este exemplo a dupla Jorge Coelho / João Soares, que colocando-se ambos frente ao astro rei, conseguiriam produzir um eclipse solar total que afectaria toda a Linha de Cascais (isto se ganhassem, claro).

Os políticos são como os cus.

Nunca podemos dizer tudo sobre eles; e na maior parte dos casos, apesar de todas as expectativas acabam por nos desiludir um pouco. As excepções, são igualmente raras, e mal empregues na mão do povo. Alguns deles mereciam até honras de museu. E agora já nem sequer estava a falar de política.

Hão-os de todos tipos. Desde os que parecem acessíveis e dispostos a acolher os nossos anseios, que fazem campanha pela simpatia e abertura à esquerda (normalmente é para esse lado que inclino os meus interesses); até àqueles que se parecem com buracos negros; não por causa da cor, mas pela sua capacidade de absorverem toda a nossa atenção talvez por terem uma personalidade cativante e um bom fundo.

Da mesma maneira que raros são os poetas que alguma vez souberam cantar as façanhas dos políticos; os que se dedicaram à apreciação de traseiros e neles apoiaram as mãos para se lançarem na criação poética foram bastante frouxos. Como é o caso de Eugénio de Andrade. Uma boa alma que sempre preferiu sacrificar o seu.

No caso de António Botto, penso que tratava apenas de tendências pedófilas; o que se fosse transposto para a política teria imensa piada, pois acabaríamos tarde ou cedo por o ver perseguir Marques Mendes por todo o Hemiciclo.

Resta-nos Bocage. Mas não me ocorre nada dele neste momento…

Cá na parvónia vão ganhar os do costume. Não que isso me chateie, porque até têm produzido bastantes mais-valias a nível de comodidade e qualidade de vida para a população; e nem sequer têm os inconvenientes do Isaltino, da Fátinha ou do gajo dos óculos do qual nunca consigo recordar o nome. Que apresentaram trabalho, mas recebiam comissão “à cabeça” (desculpem, mas com esta nem me arrisco a fazer trocadilho).

Estou de tal modo farto (garanto-vos que sei do que falo) de jogos, intrigas e traições, que se a política não tivesse esta vertente nua e fácil de ridicularizar, nem lhe teria dedicado este post. Mas estava com falta de assunto e apetecia-me falar de traseiros.

Algo me dá a impressão que voltarei pelo menos mais uma vez a este tema. Talvez por altura das presidenciais.

Sim. Ainda me lembro de um certo político cor-de-rosa do qual se dizia (há muitos anos) dentro do PCP – “A sua mulher é actriz, a sua política é atroz, e o sexo… atrás.”

Com políticos destes “não há cu que aguente”!

Música de Fundo
Marilú” – ENA PÁ 2000

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

A Igreja do Imaculado Blog
- A Esfera de Blog –
(…ou como a origem de inúmeras discussões tem um formato esférico…)

É no início do Outono que a religião de Blog comemora uma das suas Épocas de Mudança; neste caso a que simboliza a visão da verdadeira imagem. Ou por outras palavras, o fim da época das dietas de Verão e consequentemente, o início do tempo em que se começa a ver a humanidade tal como ela é.

Estava eu hoje em reflexão, enquanto passava revista aos estaminés sagrados para a feitura do ritual cozido à portuguesa, quando reparei que me faltava a Esfera de Blog. Fiquei estarrecido. È daquelas coisas capazes de arruinar uma cerimónia litúrgica, tão bem como uma invasão de nudistas suecas durante um eclipse.

Iniciei de imediato a minha busca, pois a tradição deve ser cumprida na íntegra, e o arroz nunca fica como eu gosto se não for feito dentro da esfera de alumínio; esse batíscafo gastronómico que tanto contribuiu para a nossa diferenciação na cultura ibérica.

Surpreso com a notícia de que esta se estragara e não pudera ser substituída, desci ao rés-do-chão e solicitei ao Apóstolo que me valesse; pois era feriado e dificilmente encontraria uma substituta fora duma loja da especialidade.

Para minha surpresa ele não fazia ideia do que se tratava. Segundo as suas próprias palavras “o arroz quando chegava à mesa vinha com aquele sabor delicioso, mas nunca ele vira bola alguma… nem tivera curiosidade para perguntar qual a proveniência daquele delicioso arroz”. É incrível o dano que a nossa indiferença pode causar, na preservação da cultura tradicional.

Felizmente a esposa deste (senhora de uma vasta cultura) tinha ouvido falar, mas nunca possuíra uma. Utilizando para a feitura do famoso arroz, um tacho de alumínio e água do cozido.

Era realmente uma solução de compromisso bastante tentadora, mas respondi-lhe que o primeiro cozido do ano era uma espécie de augúrio para os dias futuros; pelo que deveria confeccioná-lo com todo o equipamento prescrito nos cânones. Para mais tinha havido um eclipse dois dias antes, o que tornava a tarefa ainda mais difícil; pois todo o cozinhado se poderia estragar devido a alguma variação no campo magnético terrestre.

Voltei a casa de orelha murcha. A tradição já não é o que era, e ainda por cima poucos se recordavam da “Esfera de Blog”. É verdade que a que eu possuía era uma relíquia de família, amassada por milhares de combates contra chispes e morcelas dentro de tachos apertados; mas não esperava viver o suficiente para assistir à morte de uma tradição.

Encontrava-me imerso nestas negras reflexões quando tocaram à porta. Era uma pequena delegação do Bloco de Esquerda (que nos últimos folhetos já é apenas “Bloco”) composta por duas jovens de muito bom aspecto, que tinham apanhado boleia de duas igualmente simpáticas testemunhas de Jeová, andando de porta em porta a tentar impingir o seu candidato a título de suplemento da “Sentinela”.

A primeira testemunha que interroguei, jurou-me que ainda tinha em casa um artefacto igual ao meu, mas que fora benzido em Fátima pelo saudoso Arcebispo de Mitilene.

Ignorando a discrepância entre a fé e a sua aplicação sobre o cozido à portuguesa, fui informado que a dita esfera ostentava numa das faces os três pastorinhos em adoração, enquanto na outra se representava a família de Lot na sua fuga da cidade de Sodoma; carregando consigo um tacho ainda fumegante supostamente contendo cozido.

Logo uma das mocinhas do Bloco afirmou que o desaparecimento da “Esfera do Cozido” (este pessoal da esquerda “radical” tem muito pouco respeito pela nossa tradição gastro-religiosa) se devia aos “empreiteiros e especuladores, dirigentes de clubes e caciques locais. Cujo compadrio, desperdício e incompetência são inaceitáveis”.

Tentei fazer-lhe ver que esta se estragara pelo muito uso dado em dezenas de anos, pois já viera de casa de meus pais, e eu assistira na minha infância à sua compra no pavilhão dos tachos e alumínios, na antiga Feira Popular de Lisboa.

Mas foi inútil. Perante o ar surpreendido das testemunhas de Jeová que nunca tinham visto uma cassete tão bem reproduzida, despejou ali contra as paredes da escada o conteúdo do folheto, com tal exactidão que daria para eu corrigir a pontuação se para aí estivesse virado.

Quando acabou o texto, iniciou um improviso sobre o tema que durante dez minutos a transportou por Portugal de norte a sul, com grande ênfase no programa gastronómico do Bloco, que aparentemente se preparava para ressuscitar alguns hábitos tradicionais como tocar cavaquinho à noite e barrar o pão com banha de porco.

Vendo que esta se estava a desviar bastante do programa, e se preparava para enveredar pela opinião do Bloco sobre os jovens e o que deveriam estes fazer para bem aproveitar a vida nocturna nas cidades da civilização capitalista e consumista, a colega deu-lhe uma cotovelada no plexo e pegando-lhe pelo braço levou-a consigo. Deixando-me surpreso a olhar alternadamente para o folheto, as testemunhas de Jeová e os seus belos traseiros que desciam as escadas.

Mas de Bola, nicles…

Acompanhei cortesmente as “testemunhas” à rua (para ter a certeza que “bazavam” mesmo) e ia virar costas para subir novamente quando o Apóstolo que se encontrava à janela me chamou a atenção – Vêm aí os gajos do PC, pá… Porque não lhes perguntas a eles?

Precipitadamente ignorei o elevador e subi as escadas de dois em dois degraus, fechando bruscamente a porta atrás de mim. Não queria de modo algum atrasar-me. É que (à semelhança do “metro de superfície”) o mais certo era eles demorarem pelo menos mais um mandato só para decidir qual o formato da esfera; e eu quero ver se almoço antes de 2009.

Música de Fundo
Smooth“ - Santana & Rob Thomas

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Agradecimento

Ao blog que me linkou devido ao comentário que fiz sobre a traição do PS a Manuel Alegre, venho agradecer o aumento de tráfego e aproveitar para informar que só não lhe retribuo a cortesia, porque não tenho por hábito recomendar quem não saiba interpretar uma frase em português corrente.

Aproveito igualmente para informar que o termo escatologia só seria bem empregue se eu o tivesse mandado expressamente para o caralho; o que não foi o caso.

Música de Fundo
Hey Stoopid” – Alice Cooper

domingo, 2 de outubro de 2005

Maturidade (LoL)

Por sugestão e a exemplo da Agatha deveria falar hoje sobre maturidade, uma vez que a minha provecta idade me dá tarimba para tal.

Vai ser difícil. Mas como acho que nunca me hei-de sentir com maturidade suficiente para isso, hoje será um dia tão bom como qualquer outro.

Maturidade não tem tanto a ver com os anos que passaram sobre ou sob nós, mas mais com o modo como processamos a informação e lidamos com as situações.

Existem pessoas de sessenta anos que são extremamente imaturas e outras de vinte e cinco que os batem aos pontos em maturidade e ponderação. Qualquer um dos casos me deixa completamente indiferente, pois os extremos em termos de atitude nunca me convenceram; soando até bastante a “pose”.

Paradoxalmente à medida que os anos passam cada vez me sinto menos possuidor de certezas, e interrogo-me se será sensato assumir uma pose madura enquanto o tempo se vai tornando mais escasso.

Sempre fui adepto do - “Perdido por cem, perdido por mil…” – O que talvez me torne na escolha errada para dissertar sobre maturidade; mas ainda assim, aqui vai…

Maturidade é :

* Fazer algo sabendo que se será criticado. Não por desafio, mas porque o mundo não é tão importante assim...

* Ficar de olhos húmidos num casamento, com piedade pelo noivo.

* Desistir da insana tarefa de desmascarar todos os idiotas. Afinal, talvez sejam aquilo a que Deus chamaria uma piada.

* Levar uma repreensão do filho, por ser apanhado a apreciar a professora.

* Calar as suas vitórias (ninguém gosta de gabarolas).

* Saber que jamais aprenderá tudo.

* Ver para além das palavras (a não ser que esteja apaixonado).

* Ter cuidado com o que se come (há pessoas que se podem tornar muito indigestas…)

* Saber que o importante numa mulher é o modo como sorri, pois isso reflecte tudo o que ela tenciona fazer a seguir, e como o fará (Um belo sorriso horizontal, tem sempre outro vertical por detrás de si).

* Raramente aceitar conselhos. Pois estes são sempre o melhor para quem os dá.

* Apreciar o umbigo de uma miúda linda, e recordar que era perto do piercing que lhe costumava apertar o alfinete da fralda; vinte anos atrás.

Agora já devem saber porque eu acho não ser o tipo mais indicado para falar de maturidade…

Música de Fundo
Gasolina” – Daddy Yankee

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