segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

O Dilúvio
- Crónicas do futuro duvidoso –

O retinir da campainha que assinalava a mudança de marcha soou entre os gritos das gaivotas. O radarista Mendes saiu do refeitório dos praças com uma “sagres” na mão, e parando a meio da tolda viu à sua frente uma estrutura em ferro forjado – Nunca subi o elevador de Santa Justa… - disse a seu lado o “pastilhas” que era da Mealhada.

- E por este andar – respondeu-lhe ele – da próxima vez só o visitas de escafandro; que esta merda gelada tão cedo não deixa de subir. Com tanto satélite e tanta alta tecnologia, bem podiam ter notado que a parte interior do árctico estava liquefeita e só à espera que o gelo à volta se partisse.

O navio reduziu a marcha confundindo-se com as águas cinzentas, enquanto a seu lado desfilavam os telhados vermelhos.

Da “asa" da ponte a estibordo, o grumete Velez espreitou mais uma vez pelos binóculos e confirmou – Sr. Imediato, são seis e estão agarrados ao mastro da bandeira. Um deles está de “canadianas”…

O tenente Figueiredo, olhou aborrecido a estátua de D. Pedro IV que ia ficando para trás como um banhista com água pela cintura, e resmungou – Pavões do caralho! Tinham que continuar com as visitas oficiais mesmo em estado de emergência. – Voltou-se para dentro e ordenou – Parem a máquina e arreiem o escaler!

A campainha soou novamente, e o navio perdeu a pouca velocidade que levava, detendo-se a cerca de trinta metros do Teatro D. Maria II. O guincho de bombordo foi posto em funcionamento, enquanto a tripulação do escaler envergando os coletes de salvamento se perfilava empunhando os croques.

- Porque é que parámos? - Perguntou o comandante Noé, aparecendo na escotilha de meia-nau ainda a contas com uma tosta mista meio comida – Dei ordem para rumar à barra, e não para andar a brincar aos salvamentos pelo meio de Lisboa. Não temos espaço para bocas inúteis.

- Sr. Comandante – Explicou o imediato – Trata-se de uma delegação oficial que ficou encurralada no telhado do Teatro Nacional; temos que os resgatar.

- Isso é que era bom!... - contrapôs o comandante – Nem que fosse a Fernanda Serrano. Pensando bem; para ela ainda arranjava um espacinho no meu camarote. Agora esses tipos, não servem nem para lastro.

- Sr. Comandante! – gritou novamente o grumete Velez – Um deles está a agitar as “canadianas” e a tentar dizer qualquer coisa.

- Recolham o escaler! – ordenou o comandante Noé – Não podemos arriscar as nossas poucas embarcações nesta água cheia de destroços. Vamos dar meia volta, e eles que mergulhem e apanhem o Metro. Isto não é a Arca de Noé.

- Mas. Ó comandante… - tentou ainda o imediato – Um deles parece-me o Pri…

- Tás a ver se me chateias, Figueiredo? – Atalhou o Capitão-de-fragata deveras irritado – As ordens que me deram através da rádio, foi para não recolher ninguém e manter o navio de prontidão. – sorrindo, deu mais uma dentada na tosta – Todo o comandante deve manter-se com o seu navio. Eu sigo com o meu; e ele que se afunde com o dele. Máquina à ré, a toda a força!

O navio de guerra começou a afastar-se do edifício, enquanto os “encalhados” gesticulavam e emitiam brados que à distância soavam como guinchos de roedores enfurecidos.

- Rumem à barra e alcancem as doze milhas que eu vou “passar pelas brasas” até ao jantar. Quando chegarmos à Figueira da Foz virem à direita. Quero ver se estou em Gouveia amanhã por esta hora…

Música de Fundo
Sunday Morning” – Maroon Five

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Poeta?... LoL!
- Resposta pública a uma pergunta privada -

Poeta é ser exagerado e agradável aldrabão.

Alguém a quem não basta uma fita de seda, mas a transforma num laço; porque isso melhora a forma e visão do todo.

Talvez um dia eu seja assim; embora nada faça para isso.

Pois o ser nada tem com o ter, o fazer ou o falar… apenas ser, de um modo quase sempre inexplicável. Como alguém que um dia acorda e sendo o próprio, não mais se reconhece.

Poeta ainda assim, não é a pose, o dichote ou o rimar; ou mesmo o empilhar adjectivos sobre verbos, que esmagam substantivos com o seu peso. Não é soprar quente e frio no mesmo respirar.

Pensando bem, talvez nem saiba.

Pois se o soubesse ou se o sentisse, era certo nunca o ser. Como quem se mira ao espelho mas nunca sai de casa; ou se sair terá que andar de lado, para melhor mostrar o seu lado bom.

Poeta?
Sê-lo-ei um dia, talvez por ti… Mas tens que o querer.

Música de Fundo
Visionary Mountains
Manfred Mann’s Earth Band

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Parabéns Vanus de Blog – V 2.0 -

Não é todos os dias que se pode acusar alguém de melhorar gradualmente sem pontos “baixos”.

Para a melhor Sacerdotisa, os parabéns de Blog e do seu representante na terra.

Um grande beijo, miúda.

Música de Fundo
Playing The Angel” – Depeche Mode
(Audição Integral)

The Alpha Bitch
- Histórias do quotidiano imprevisto… -

Sobe o Pano

Manhã fria e nevoenta no Terminal Rodoviário de Cacilhas. Um tipo incaracterístico e de meia-idade, encontra-se encostado ao anúncio da Triumph abanando a pasta Samsonite, enquanto observa as gaivotas que iniciam nessa altura o seu treino matinal de bombardeamento em voo picado.

Mais ao lado, uma mulher consulta os horários que se encontram afixados dentro da vitrina.

Saído de uma cafetaria logo em frente, um casal encaminha-se para a bilheteira do “ferry”. Ela, de corpo seco e magro, tem uma cara quase bonita apesar da expressão azeda; enquanto ele conserva ainda uma certa elegância apesar dos cerca de quarenta anos, ostenta uma expressão de macho confiante.

Chegados a poucos passos da paragem de autocarro, o membro feminino do casal parece reconhecer a mulher que continua a ler distraidamente. Tenta disfarçadamente fazer o seu acompanhante mudar de direcção, mas a outra finalmente dá por eles e endereça ao homem um sorriso radiante. – Olá, Nelson. Há quanto tempo…

Ele reconhece-a, sorri também. Segurando-a pela cintura dá-lhe um sonoro beijo em cada face e pergunta para a mulher ao lado – Lembras-te da Ticha? Já não a viamos desde o nosso casamento, em 91… Não é?...

A esposa encarou a outra friamente, e a sua cara adquiriu a expressão de alguém que tivesse acabado de trincar um limão; mas conseguiu transformar o esgar num sorriso minimamente aceitável. – Claro que lembro! – Dirigindo-se seguidamente à outra – Engordaste muito, querida. Bem… pelo menos isso serviu para encher essa “copa B”.

Sem cerimónia puxou-lhe a orla do soutien que se notava através da camisola – Afinal não. – Sorriu sardónicamente, alternando o olhar entre o seu próprio peito e o da outra – Olha, foi pena teres ganho esses quilos e continuares a parecer um rapazinho da cintura para cima…

A outra mirou-a tranquilamente, e sem perder o sorriso, respondeu – Deixa, querida… Em contrapartida, com um bocadinho de aquecimento ainda consigo pôr os dois pés atrás da cabeça…

Após alguns silenciosos segundos em que um neurónio vogou sem destino pelo vazio do seu crânio, ela acabou finalmente por compreender. E agarrando bruscamente o marido pelo pulso, levou-o “a reboque” em direcção à bilheteira dos barcos. Este seguia calmamente; sorrindo como se lembrasse algo particularmente agradável…
Cai o pano (um pouco à pressa)

Música de Fundo
In Our Lifetime” – Texas

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Uma Campanha Alegre
- Friends, Romans, countrymen, lend me your ears; I come to bury Caesar, not to praise him. The evil that men do lives after them; the good is oft interred with their bones… -
(William Shakespeare - Julius Caesar 3/2)

Blog sabe como eu detesto levantar-me antes das nove a um fim-de-semana. Mas há vinte anos que tenho algo para retribuir; e caso não tenham tido oportunidade de o ler aqui, essa promessa consiste em ajudar um pobre ancião a conseguir a sua merecida reforma o mais depressa possível.

Devido a essa promessa (retribuição ou vingança, como lhe queiram chamar), levantei-me ás oito horas da manhã e dirigi-me à assembleia de voto da área correspondente ao meu número mecanográfico de eleitor.

A manhã estava nevoenta e lúgubre como uma cena tira de um mau filme de terror, à semelhança de toda a campanha que parece ter sido encenada por Ed Wood; ou pior ainda, pelo tipo que distribui os cafés na Endemol (pensando bem, e em relação ao que se vê na TVI, talvez ficássemos melhor servidos com o gajo do catering).

Entrei na escola onde se situava a assembleia de voto. Talvez devido a me apresentar àquela hora de óculos escuros, consegui despertar a atenção de todos os tipos que se encontravam encostados ás paredes fazendo não sei o quê (um por pavilhão); entrei então na assembleia de voto.

Era uma estreia. Não só porque já não votava há imensos anos, mas também porque fui o primeiro eleitor daquela mesa a dar-me ao incómodo de ali comparecer.

Mas eu tinha uma missão.

Não estava ali para eleger ninguém; mas para ajudar a derrotar um tipo arrogante e de língua bífida, a quem conhecia sobejamente de “outros carnavais”.

Talvez num gesto altruístico com o objectivo de recompensar os mais madrugadores, uma das delegadas decidira envergar um “wonderbra”, deixando desabotoados os últimos botões da camisa. Examinei atentamente o que me era mostrado em busca de propaganda eleitoral encapotada, mas o que havia estava quase todo em evidência. Pelo que peguei no meu boletim e fui cumprir o meu dever cívico.

O resto do dia decorreu quase sem história. Tendo convidado meu amo e sua esposa para almoçar lá em casa, conversámos sobre inocentes trivialidades e ele adormeceu durante a exibição do “Gladiador”.

Aguardei pela sondagem das 20h, e constatei o que já quase toda a gente previa. A vitória do sóbrio “Avô Cavaco”, e consequente cortejo de demonstrações de regozijo da parte de uns; enquanto outros emitiam declarações cheias das habituais desculpas esfarrapadas; bem como tentando atribuir a outrem a responsabilidade sobre aquilo a que pretensiosamente decidiram chamar “a derrota da esquerda”.

Esquerda, o PS? Não me gozem!

Tudo isto começava a atingir finalmente, as proporções de um gigantesco fiasco teatral. Os patrocinadores descontentes, e a assistência começa a “patear”…

Resta saber se à semelhança do seu homónimo, terá o encenador coragem para beber o seu cházinho de cicuta. Ou se apesar de perder a face se irá agarrar ás canadianas e alegar que não foi ele, mas sim um administrativo qualquer que se enganou nos nomes; propondo o candidato errado para aquilo a que tão comicamente chama de esquerda.

Embora eu represente apenas um voto, aparentemente não estou só.

"Nemo me impune lacessit!"

Música de Fundo
The Roof Is On Fire” – Bloodhound Gang

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Frase do Dia
- Apenas por mais umas horas -
Curiosamente, neste momento o que mais afecta a minha saúde, é a construção de um Health Club...
Música de Fundo
"Metal Health" - Quiet Riot
Short Post
- Foi uma semana cansativa… -

Não é no vazio que me guardo; mas na densidade das multidões onde me movo.

Não é na solidão que suspiro; mas no sufoco dos ares viciados mil vezes respirados.

Não é a forma que amo; mas o que se esconde, difícil de obter.

Não é poesia o que escrevo; apenas matemática cantada a crianças.

Música de Fundo
Juice Box” – The Strokes

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

The Samarkand Connection
- É o que dá um tipo ler o jornal ao pequeno-almoço… –

À semelhança de Pessanha, sempre nutri um certo carinho e consequente curiosidade pelo Oriente. A pintura, a filosofia, as mulheres…

Outra qualidade que reconheço a esses povos, é a capacidade de pegarem em algo já existente, e o colocarem no mercado a preços acessíveis (embora à custa de salários baixos, e muitas vezes matéria-prima de má qualidade). Por isso já devia estar habituado a alguns exageros que acabam por acontecer no meio deste processo; como é o caso do “Vinho do Porto” feito de arroz e ginseng, ou “Galos de Nanjing” (ambos casos verídicos).

O que eu não estava à espera era que tivessem adoptado o modelo cultural soviético dos anos 30, e que tal como os russos de então, se declarassem inventores e descobridores de 2ª via. Existem exemplares do Pravda religiosamente guardados, em que o estado contribuindo para a cultura popular afirmava que os heróis da revolução tinham inventado quase tudo; desde o motor de explosão ao fio para cortar manteiga.

A última revelação neste campo foi (espantai ó gentes) a descoberta do Brasil por Zheng He, ali por volta de 1418. Data esta que alegadamente é a de feitura de um mapa-mundo de origem chinesa, que representa todos os continentes e oceanos como os conhecemos hoje.

Até aí tudo bem, não fora este uma perfeita reprodução dos mapas actuais; o que nos leva a crer que ou os chineses há séculos que viajam no tempo, ou têm um satélite em órbita desde o princípio da Idade Média.

Liu Gang (cujo nome já por si é bastante sugestivo) afirma que comprou o referido mapa a um comerciante de arte em Xangai, que como toda a gente sabe, é uma cidade onde não se falsifica nada.

Um exame mais minucioso revelou que o mapa afinal foi desenhado em 1763 (SIC) “por Mo Yi Tong, a partir do original de 1418” (SIC). Original este que infelizmente ninguém sabe dizer onde está ou o que lhe aconteceu. Não havendo em escritos da época, qualquer menção ao famoso mapa.

Segundo o hilariante Liu Gang, os chineses teriam descoberto igualmente o caminho marítimo para a Índia e a América no século XIII; só não tendo estabelecido um laboratório na Antártida, possivelmente porque como são baixinhos, os seus testículos se encontravam perigosamente perto do solo e por tal, sujeitos a congelação.

Sem dúvida que o caso até tem a sua piada como hipótese de estudo.

Se os chineses tivessem descoberto o Brasil antes de nós, será que a maioria das donas de casa quando metessem a louça na máquina depois de jantar, iriam para a sala deliciar-se com mais um episódio da novela da Globo, em que Li Chung tentava defender a honra de Liang Chang Po?

E (só de pensar me arrepio) na praia de Copacabana, em vez das morenas em fio dental a apanhar sol, encontraríamos hoje um monte de mulheres em roupões multicores; protegidas por sombrinhas de papel de arroz e escoltadas por matulões de “rabicho”.

Ou melhor ainda… A famosa Cármen Miranda (transformada em Cármen Chung) filha de humildes agricultores de Cantão (cantoneiros), famosa pelas suas interpretações de belas canções das dinastias Tang e Song.

Pensando bem até não deveria ser muito mau, se abdicando do seu característico chapéu-fruteira, esta optasse pelo traje regional da sua província como se pode ver pela foto acima…

Música de Fundo
Ainda Esquento Barracão” – China

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Não é resultado, mas sim confirmação...
- Gamado à Hipatia -
The Movie Of Your Life Is Film Noir
So what if you're a little nihilistic at times?Life with meaning is highly over-rated.
Your best movie matches: Sin City, L. A. Confidential, Blade Runner
Música de Fundo
"Waltz in Black" - The Stranglers

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
(Relato da fundação de uma nova Igreja)
- Invisurum aliquem facilius quam imitaturum (Plínio) –

Fui informado por Vanus de Blog (uma das nossas “Sentinelas da Fé” e “Suprema Guardiã dos Copyrights”) que o senhorio mais colunável da blogosfera portuguesa, decidira fundar uma igreja a que chamou GIBUDDVPN (Grande Igreja Blogoesférica Unificada Das Direitas, a Velha e a Pretensamente Nova).

A princípio fiquei um pouco espantado. Para que quereria fundar um culto sobre blogs, alguém que alegadamente já não os lê desde que os compra e vende?

Fiquei alerta, pois isso do “Unificada” cheirava-me a “Anschluss”. E já imaginava uma horda de trolls encapuzados escolhidos entre os mais fiéis e engraxadores frequentadores do seu site, rumando à nossa paróquia munidos de archotes enquanto entoavam cânticos das telenovelas da TVI (nomeadamente a música do “Morangos com Açúcar”).

Entretanto a situação sofreu novos desenvolvimentos. Talvez a dita igreja afinal não fosse de direita, porque através de interposta pessoa ele acusava o Nikonman de ser apoiante de Cavaco Silva. O que logicamente o demarcava desse profeta (um cuspinhoso profeta, convenhamos. Mas mesmo assim com direito ao título), que se prepara para lançar Portugal em direcção ao futuro dando-lhe um pontapé no cu.

O mistério adensava-se, pois se não era bem de direita embora constasse na designação; então devia ser mesmo uma igreja a sério. Com sino, sacristão, beatas e tudo.

Fui ler mais um pouco, e valeu a pena. Afinal o Pastor da tal igreja afirmava-se um livre-pensador e bater-se-ia pelas suas convicções. Um pouco revolucionário para homem santo. Mas que diabo… nenhum de nós é perfeito e temos que ter alguma cortesia para com os colegas de negócio (a religião, claro).

Continuando a ler fiquei um pouco intrigado. O tipo até escreve uns textos porreiros, e afinal tinha múltipla personalidade. Logo três, e bem dissociadas umas das outras para que não se confundissem. Prosador, jornalista e fundador do weblog.com.pt.

Esta aqui fez-me rir (a dissociação). Lembrou-me uma reunião de condomínio que tive há dois anos, em que um dos intervenientes cuja esposa fazia a limpeza do imóvel, nos tentou convencer que a sua consorte e a “senhora da limpeza” seriam pessoas diferentes; talvez porque acarinhasse secretamente a ideia de dormir com duas mulheres simultaneamente.

Mas adiante…

Ainda a dita igreja não estava de pé, e já ele recusava a vassalagem dos seus inquilinos. Isso sem dúvida que lhe iria acarretar problemas. Principalmente porque, para quem não sabe, é assim que aquele sistema se aguenta (a chamada “catadela” mútua. Para quem não sabe do que falo basta tentar analisar toda a bajulação contida no referido post); e para os utilizadores de cartão de crédito, sempre existem outros sítios pagos onde ir arquivar a tralha.

Fiquei pelo menos a saber que aquilo não é a Função Pública (este homem é sem dúvida um grande humorista; pois por volta das 10h 42m já tinha dado a vitória a Cavaco Silva, talvez para acalmar um enfurecido inquilino).

O Re21 que apesar de apoiar o meu candidato não pertence à mesma diocese, tentou imaginar como seria se em vez de Aspirina ele estivesse numa de Viagra. Eu tentei também imaginar, e calculei que seria divertido especialmente se a sua (uma delas) personalidade de jornalista estivesse a entrevistar o Doutor Mário Soares nos seus poucos momentos de lucidez (de Mário Soares, claro).

Ouviram-se (neste caso, leram-se) “vivas” a Paulo Querido, incitados por uma leitora que considerou tudo aquilo uma experiência interessante. Logo secundada por outro, que também apoia o Doutor Soares mas não falou nessa história do Viagra.

O JPT apareceu justamente chateado, para se despedir e ir dedicar-se a coisas mais interessantes.

E depois disto tudo fiquei sem saber se a nova igreja sempre iria ser erigida, ou se ficaria em projecto até receber o “nihil obstat” da Fundação Mário Soares.

Mas pelo menos há duas coisas que tenho a certeza que ele nunca irá fazer. Uma delas é conseguir substituir o respeitável Manuel João Vieira; a outra é fundar a Igreja da Originalidade Literária (IOL).

Resta a ideia. E caso esta vá avante, sempre lhe podem chamar “Pastor Querido”…

Música de Fundo
Ursinho de Peluche” – Ena Pá 2000

domingo, 15 de janeiro de 2006

Aguardamos ligação ao satélite europeu de comunicações, para emitir em directo uma comunicação importante que diz respeito a todos os crentes, proprietários de blogs pagos e outras inocentes almas...

TheOldMan
(A rogo)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

O Gato Vista Alegre
- Vestígios Pré-Históricos –

Caso se estejam a interrogar sobre o que se trata, posso adiantar que é uma argola para guardanapo em porcelana representando um gato, pintada na minha cor favorita; e tal como quase todos os meus “tesouros” (como são chamados pelo meu cobiçoso herdeiro) tem uma história peculiar.

Nasci a 20 de Dezembro. Por isso, sempre que nos meus primeiros anos de existência chegava o dia de aniversário, alguém observava em tom casual que a “prenda de anos” seria entregue um pouco mais tarde em conjunto com a correspondente ao Natal.

Foi no meu quinto aniversário que me revoltei, enunciando (mercê de um precoce espírito analítico) entre soluços os argumentos que reunira durante alguns meses para apresentar em defesa do meu caso. Mas em vão. Na nossa família não se volta facilmente com a palavra atrás.

Os meus pais modestos proletários lisboetas, já que pouco tinham de material para passar adiante, decidiram que bons valores morais e uma educação sólida, constituem das melhores heranças que se possa deixar.

Tinham razão. Pois nunca me passou pela cabeça sentir vergonha por quem eles eram; ou renegá-los para parecer mais do que na realidade sou.

A minha avó quando me foi aconchegar à cama nessa noite, prometeu que apenas por aquela vez iria dar-me um presente mas sem direito a escolha, e que seria o único que alguma vez receberia dela no meu aniversário.

No dia seguinte quando me sentei à mesa para jantar, o meu guardanapo estava guardado por um gato de um azul incrível, que durante toda a refeição prendeu a minha atenção. Ninguém comentou o misterioso aparecimento, como se tacitamente todos tivessem acordado dar pouca importância ao assunto.

Usei-o durante anos, até que o guardei juntamente com outras recordações por o considerar demasiado precioso para o uso corrente. Constituía no meu imaginário, o primeiro marco do individualismo que me caracteriza; diferença esta conquistada em troca de todas as minhas futuras prendas de aniversário.

Tive muitos aniversários desde essa altura, mas nunca em mais nenhum deles me preocupei com presentes. Até que no trigésimo segundo, o meu pai me entregou um alfinete de ouro com uma ametista, que a minha avó (falecida meses antes) lhe pedira para me entregar nesse dia.

Quando ouço alguém falar dos “valores familiares”, lembro-me quase sempre destes dois objectos. Um gato de porcelana oferecido a um miúdo que o fez entender que a diferença tem que ser conquistada e paga; e o alfinete de chapéu de uma velha mulher que lhe ensinou mais tarde, que a palavra “nunca” pode apenas significar muito tempo.


Música de Fundo
Still” – Pete Sinfield

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Segunda adenda ao post anterior ao anterior
- Há posts que merecem sempre uma segunda adenda -

Fetichista é alguém a quem para se bronzear basta uma fotografia do sol…

Música de Fundo
Walking on the Sun” – Smash Mouth
Primeira adenda ao post anterior

Ele era um verdadeiro “Homem de Aço”. Não lhe escapava nada que tivesse hímen…

Música de Fundo
Cantiga do Bandido

Frases originais para uso de bloggers em crise de criatividade
- Mais um dos famosos posts Post-It… -

Estava este post para ser uma versão porno da canção “Rua do Carmo” dos UHF. Mas como não consigo suportar a voz do Tó Ribeiro, nem sequer com uma letra de jeito (como era o caso), optei pelo post rápido (o famoso Post-It).

Estas frases não foram recebidas por e-mail nem lidas na revista Maria; fui eu que as inventei, e aqui ofereço generosamente a quem delas possa precisar. E pelo que tenho lido ultimamente, ainda há aí muitos…

1 - Faziam amor de modo tão etéreo, que era como abastecer um F18 em pleno voo

2 - Hoje em dia fazer poesia é um pouco como rechear um peru; na maior parte dos casos o conteúdo pouco tem a ver com o invólucro

3 - Há que ter cautela ao atear um fogo na pele que se ama, às vezes este acaba por ser apagado por outra “agulheta” qualquer

4 - A sua paixão era fogo gelado, ou seja, apenas uma frase feita

5 - Eu nunca quis participar em blogs colectivos, porque em todos há invariavelmente um elemento que está sempre à espera que alguém escreva um post, para poder publicar o seu logo por cima

6 - Se quisermos saber algo, basta apenas tomar atenção àquilo que não nos querem contar

7 - Ele gostava tanto de pessoas, que não podia passar um momento sem tentar introduzir-se dentro de uma

8 - Ela sorvia a paixão como um licor raro; via-se bem que estava constipada

9 - Se eu tivesse um euro por cada vez que ouço essa pergunta, não me importaria que a fizessem tantas vezes

10 - Toda a música que se ouve é relativa. Não a quem a toca, mas porque quem a ouve na maior parte das vezes a avalia pelo som do seu próprio instrumento

11 - O incómodo em comprar preservativos com sabores, são os farmacêuticos humoristas que insistem em perguntar qual a nossa fruta favorita

12 - Seus olhos eram faróis de desejo que dardejavam as trevas; mas quem se aproximasse naufragava… Era estrábica.

Música de Fundo
A Pain That I’m Used To” – Depeche Mode

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

A Nobre Arte da Montaria
- Dos prazeres de um gentil-homem, contados pelo seu escudeiro morto de riso… e também um pouco constipado. -

Gostaria de começar por descrever a inefável sensação que é levantarmo-nos cedo e reparar que mais ninguém o fez.

É péssima! Pois dá a impressão que o mundo acabou e fomos os únicos sobreviventes. Mas quando se é um simples escudeiro ao serviço de um amo que se dedica à caça, há que levantar bem cedo para efectuar os preparativos para tal jornada.

Seis da manhã; Alentejo profundo (mais profundo do que eu desejaria, mas uma vez por outra nem chateia muito).

Após passar água pela cara como um prestamista judeu dando esmola (ou seja, contra-vontade e ás pinguinhas), saí e dei uma patada na porta do quarto de meu amo; dirigindo-me depois à cozinha da herdade, onde a tia Custódia pontificava já desde as cinco da manhã e se afadigava em torno da frigideira dos torresmos.

Barrei uma fatia de pão com manteiga e enchi uma caneca com o café de uma enfarruscada cafeteira, após o que me sentei à mesa de tábuas. Como ali não havia televisão, entretive-me a ouvir a senhora dissertar sobre as últimas novidades do sítio, e sobre todos os candidatos à Presidência. O que substituiu muito bem a SIC Notícias.

Estava já de saída quando meu amo abancou à mesa, começando a regalar-se com uma generosa quantidade de torresmos em cima de uma fatia de pão, e regados com vinho de Pias. Sem dúvida que não queria contrariar a minha profecia de que um dia morrerá de um enfarte.

Fui ao palheiro cumprimentar o maioral, que tratava já dos animais que iriam ser “largados”. – Bom dia! – Cumprimentei – Então quem é que temos esta semana? Da outra vez o Ferraz deu bastante luta…

Informou-me ele em tom compungido, que o Ferraz (um vigoroso javali, veterano de sete “largadas”) tinha fugido do cercado, sendo ingloriamente colhido pela camioneta da carreira. Falecendo exangue nos braços do Porfírio cobrador.

O seu substituto era um jovem animal acastanhado de aspecto imponente, que a um canto mascava uma palhinha com ar mafioso. – Este ainda não tem nome – Disse o maioral. – Se conseguir safar-se hoje vou chamar-lhe Mário, porque é destrambelhado e onde passa só arma confusão.

Deixei-o a contas com os “gladiadores” e fui ter com meu amo que já passava revista à sua arma, limpando-a com uma camurça e ungindo-a com óleo, talvez na esperança de melhorar a pontaria. Ajudei-o a apertar os arneses e recomendei-lhe cautela com os disparos dos outros caçadores.

Alguns deles tendo decidido fazer directa e para evitar os malefícios da ressaca, tinham continuado a festa pela madrugada adiante. Encontravam-se quase encostados uns aos outros como um grupo de suricates que tivesse assaltado uma destilaria. Tentavam porém manter a compostura, em prol do bom ambiente e também para que não fossem impedidos de participar.

Apanhei boleia com o maioral, numa camioneta que carregava as grades com os animais. Para combater a humidade da manhã tinha levado o meu frasco de bolso favorito. De qualquer modo não tencionava disparar tiro algum…

Deixámos a bicharada entregue aos homens que iriam, quando chegasse a hora, abrir as jaulas para iniciar a largada e voltámos para a herdade; onde a tia Custódia tendo já acabado de tratar dos preparativos para o almoço, nos esperava sentada à mesa e a baralhar as cartas.

Durante cerca de uma hora, apenas se ouviram resmungos relacionados com a actividade de jogar à “sueca coxa”, ou o estalejar de uns torresmos mais teimosos e difíceis de mastigar. Eu contribuía igualmente para este fundo musical com o meu fungar ritmado, pois o frio provocara-me um persistente “pingo no nariz”, que ameaçava aumentar o caudal caso o não medicasse imediatamente com algo bem alcoólico.

Por fim soaram os ruídos característicos do início da largada. O vozear de excitação, os primeiros disparos e os consequentes gritos de – “Por amor de Deus, não atirem para o lado. Atirem só em frente!” – de mistura com os grunhidos de algum animal mais azarado (soube mais tarde, que meu amo viu destruída a tiro por desconhecidos a capa da sua Browning que deixara encostada a um sobreiro).

Enquanto lá em baixo os caçadores dividiam entre si os despojos dos dois únicos animais que tinham tido o azar de passar ao seu alcance. Acabámos por nos dirigir à horta onde a tia Custódia cultivava uns “mimos”, e deparámos com os restantes bichos que pelos vistos costumavam reunir-se ali depois das largadas para petiscar.

A cozinheira contemplou tristemente o jovem javali que fora adicionado à equipa, e interpelou o maioral – Coitado do animal, ó Heitor. Lá a largada ainda vá. Mas agora chamar-lhe Mário… Acho que ainda vamos ter problemas com a “Protectora”…

Música de Fundo
Alcohol / High On The HogNirvana

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Viver plenamente é nascer e morrer todos os dias
- A não ser que se faça uma “directa”… -

Raramente visito os meus próprios arquivos.

Em parte, porque normalmente cultivo a ilusão de que o passado pouco nos pode oferecer além da experiência; por outro lado o passado não existe como uma realidade, sendo sim uma ficção plausível a ponto de admitirmos que se poderia ter passado connosco.

Mas fi-lo hoje, talvez movido pela preguiça que quase sempre é má conselheira.

Tal bastou, para que ficasse sem dúvida alguma de que o meu passado trata de vidas protagonizadas por outros que não eu. Um pouco parecidos talvez, como um tio-avô do qual tivesse herdado a curvatura do nariz ou a forma das orelhas; mas não fui eu quem escreveu aquilo (espero que ninguém aproveite esta última afirmação como justificação para plágio).

Li imensas (em vez de me dedicar a escrever este post) coisas do meu primeiro ano, ás quais achei imensa piada e algumas delas (vejam só a arrogância) até me pareciam estar bem escritas. Mas nada que justificasse fazer um repost, e trazer à luz do dia palavras já gastas, bem como a imensa quantidade de detritos que vai ficando pelo passado à medida que nos desgastamos e reformulamos.

Cheguei a esta hora sem ter escrito algo de novo que pudesse brilhar num “futuro possível”. Mas acho mesmo que não vou escrever hoje; pois se o passado não existe, o futuro possivelmente também não existirá.

E atendendo à fotografia que desenterrei no meio do resto da tralha (em exposição, como prova do enunciado), começo até a suspeitar seriamente que este blog nem sequer é meu…

Música de Fundo
It Wasn’t Me” – Shaggy

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

O Ano do Cão
- Onde a astrologia chinesa se encontra com a psiquiatria clínica, e como evitar ser levado por dois enfermeiros musculosos e com hálito a moscatel de Setúbal… -

Ainda o ano do cão não começou, e já começo a ser visitado por sinais e augúrios enviados pelas forças do oculto (Porque se não fossem do oculto eu vê-las-ia. As forças; e não o oculto ou o cão…); mas finalmente o Blogger dignou-se a deixar-me entrar na minha própria página, por isso, continuemos.

Como é da praxe convém começar por culpar alguém que não chateie muito, por isso passo já a informar que a culpa foi toda de Huang Ti (Imperador); que há cerca de dois mil e seiscentos anos (um pouco antes da Maya, como podem constatar) decidiu armar toda esta confusão ao soltar a bicharada pelo “continuum” espaço-tempo.

E tudo isto em memória de Gautama. Um grande chato, mas muito bem relacionado com os outros deuses; que sempre lhe apararam o jogo, tendo-o até deixado fundar uma religião (just like me…).

Conta-se que Buda (um dos pseudónimos do tal Gautama) quis um dia dar uma festa, mas como já era sobejamente conhecido por ser um péssimo anfitrião (diz-se até que depois de as visitas saírem, ia sempre virar as almofadas do sofá em busca de trocos), apenas compareceram alguns animais: o Rato, o Boi, o Tigre, o Coelho, o Dragão, a Cobra, o Cavalo, a Cabra, o Macaco, o Galo, o Cão e, finalmente, o Porco.

Como prémio por esta gentileza e à semelhança de Hugh Hefner, Buda decidiu fazer com todos eles um número especial da sua revista fotográfica, que lhes garantisse para a posteridade a fama e a fortuna no mundo dos animais.

Não só essa edição esgotou, como a partir daí foi um “vê se te avias” com edições temáticas (“como dominar uma cabra insensível”, “ratas selvagens”, “o coelho, esse herói obscuro” ou “macacas, porque não podemos viver sem elas”) praticamente até aos nossos dias.

Conta-se até (sim, que esta história não é minha. Tratando-se de uma conhecida fábula oriental) que durante essa festa a que compareceram os doze animais sagrados, Buda teve que se ausentar por alguns minutos, e ao regressar constatou surpreendido que na sua ausência os animais tinham começado um bacanal, e sem sequer terem esperado por ele.

Perante os seus escandalizados olhos (era budista mas ia pouco ao templo) a cabra tentava amarinhar pelo cavalo acima e o boi, que se encontrava a ruminar a um canto, reparara nele e começava já a fazer-lhe “olhinhos”.

Com boas palavras tentou chamá-los todos à razão mas ninguém lhe ligava (ao contrário dos católicos, mesmo os budistas mais acérrimos não desistem de uma boa “queca” por amor de Buda), chegando até a levar um empurrão do macaco que se preparava para penetrar uma bem-disposta dragona.

Não sabendo mais o que dizer ergueu os braços ao céu e gritou – Ao menos tenham cuidado com o contágio! A hepatite, a gonorreia e a SIDA existem. Façam como o burro e usem preservativo!...

Foi então que um ratinho se aproximou e disse na sua característica voz sumida – Aquilo não é preservativo, ó sagrado Buda. Trata-se da cobra que está a levar uma “esfrega” como nunca sonhou…

Sei perfeitamente que isto pouco tem a ver com o ano do cão, mas eu também não dou muito pelo budismo.

Música de Fundo
Don't Let Me Be Misunderstood” – The Animals
O Post Experimental
- É por isso que é curto. -

Mas é uma merda porque aínda não consegui publicar nada, que o Blogger não deixa.

Agora já deixa, mas eu não tenho tempo. Venho já (aínda este ano)

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