segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Máscaras

Gostaria de vir aqui falar do Entrudo, do desfile dos caretos ou das tropelias dos diabos de Vinhais, mas a minha tradição de Carnaval é demasiado urbana; alicerçada nas fiáveis bisnagas, no arremesso de farinha e ovos e no famoso truque do chapéu.

Desde que me conheço que considero o Carnaval uma completa pepineira; sendo daquelas coisas que primeiro se abdica, quando decidimos não pertencer a grupos ou clãs.

A tradição da miscigenação entre a massa anónima e consequente queda no comportamento gestáltico, são coisas para mim completamente estranhas. Como algo que se reserva apenas para as ocasiões em que vale a pena, não penso que se deva desperdiçar a animalidade com multidões.

É bem mais interessante a transgressão (ou seja, fazê-lo fora de época; em dias normais), pois quanto mais são os seres humanos apegados ás tradições, mais previsíveis se tornam. E quanto a mim, já me basta ser previsível QB para vir falar deste tema.

Para quem me leia há algum tempo, já se deve ter tornado claro que nada do que escrevi atrás tem a ver com o que na realidade venho dizer; e que tampouco venho falar das máscaras que se acumulam umas sobre as outras de cada vez que se escreve um novo post.

Como as camadas de uma cebola que se construísse de tempo.

Enquanto o espírito da época consiste em soltar todos os demónios no meio do anonimato; eu tenho uma ideia um pouco diferente sobre o modo como as coisas devem ser feitas. Aguardando assim, que o Carnaval passe como se fosse chuva miúda.

Naturalmente, o que escrevo aqui hoje pode fazer igualmente parte de uma máscara… E é por isso que insisto em vir dizer – Olá! O meu nome é… totalmente irrelevante para este assunto. Mas até o Carnaval tem fim…

Música de Fundo
I Bet You Look Good On The Dance Floor” – Arctic Monkeys

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Universo Sem Leis
- O mundo como folha de papel em branco. Ou um modo de não dizer quase nada, mas com um discurso professoral. -

Imaginem um arquipélago composto por centenas de milhar de ilhas, como seixos espalhados no leito de um rio. Em cada ilha instala-se um único habitante que cria um mundo à sua medida disposto a tornar-se único.

É assim que eu vejo o princípio básico do sistema blogosférico.

É também por isso que considero qualquer um habilitado, para inventar leis e princípios que se baseiam numa coisa tão subjectiva como o comportamento humano.

Num sistema baseado em premissas subjectivas, todas a leis são consideradas meras variáveis (princípio da desconfiança optimista).

O facto de figuras públicas de "2ª Linha" virem eventualmente para a blogosfera puxar lustro ao ego, dando origem a círculos de pessoas ansiosas de se identificarem com eles; não vem alterar o modo como o sistema interage.

Podem sim potenciar alguns efeitos que de outro modo poderiam passar despercebidos, e contar apenas para fins de estatística de tráfego.

No seu próprio blog cada um é deus, rei, legislador, juiz e carrasco; pois blogar é um acto solitário, pessoal, intransmissível… e também ás vezes um pouco masturbatório.

Nesta época que se adivinha carnavalesca, não só pelas lucubrações dos colunáveis em redor de leis, postulados e princípios, mas também pela cara séria com que o afirmam, venho aqui deixar-vos a minha pouco humilde opinião (que vale tanto como a do vizinho do lado); aproveitando para também botar palpite sobre o assunto.

- 1ª Lei de TheOldMan –
(Tendência da Física Especulativa)

Na blogosfera (e na Net em geral) não existem leis nem regras efectivas. As únicas verdadeiramente aplicáveis, concernem ás potencialidades e limitações físicas/virtuais do meio.

- 2ª Lei de TheOldMan –
(Princípio da Contenção Espacial)

Uma figura pública num meio restrito brilha sempre com o dobro da sua luz natural.

- Alínea 1ª à 2ª Lei –
(ou Teoria da Menor Perda de Massa)

Um blog de menor massa não precisa de se preocupar em manter um brilho constante; tendo assim menos contenção do que o de alguém que acalente a secreta esperança de daqui a uns anos vir a ser salvador da república.

- 3ª Lei de TheOldMan –
(Teorema da Identidade Incerta)

Um nome não significa nada se não for apoiado por um documento de identificação dentro da validade e com foto (BI ou passaporte).

- Alínea 1ª à 3ª Lei –
(ou Lei do Anonimato Público Redundante)

Exceptuando o Abrupto e mais meia dúzia, que encaram a blogosfera como uma espécie de exílio temporário, quase todos somos anónimos. Tendo esse anonimato um factor de estranheza paradoxalmente potenciador de notoriedade.

- Alínea 2ª à 3ª lei –
(Princípio da Desconfiança Saudável)

A primeira coisa que se deve considerar ao entrar num meio virtual, é a prática de "Engenharia Social" por parte da maioria dos "habitantes".

- 4ª Lei de TheOldMan –
(Afirmação em Generalidade)

Todas as leis da Net (inclusive estas) são totalmente idiotas, pois nada existe para as apoiar; e uma lei sem apoio não passa de conversa fiada.

- 5ª Lei de TheOldMan –
(Equação do Determinismo Gregário)

A blogosfera é ideal para conhecer pessoas, mas péssima para exercer política; pois segundo Rosa Luxemburgo, é mais fácil convencer alguém a fazer um minete do que a votar num candidato de quem não se goste (e acreditem-me que Rosa Luxemburgo não era nenhuma “flor”…).

- 6ª Lei de TheOldMan –
(O postulado “Open Space”)

Os comentários são uma espécie de experiência sociológica. Todos têm um papel atribuível a qualquer membro de uma organização administrativa mas em tempo de folga. A blogosfera é uma espécie de escritório onde ninguém trabalha; passando todos o tempo na galhofa ao pé da máquina de café, ou a aceder a conteúdos interditos através do PC da secção de Recursos Humanos.

- Primeira adenda à 6ª Lei –
(ou Lei Menor Qualitativa)

Figura pública que venha para a blogosfera, é sempre uma espécie de contabilista que já teve a sua empresa mas abriu falência; tendo agora que compartilhar o espaço com os amanuenses e contínuos.

- Segunda adenda à 6ª Lei –
(ou Princípio Determinista de Menezes)

Neste “Escritório” todos dizemos mal do patrão.

- 7ª e última Lei de TheOldMan / Carl Rosenberg -
(Também conhecida como “corolário dos 15 minutos”, em homenagem a Andy Warhol)

Todos os bloggers são importantes. Se não o fossem, a blogosfera seria apenas um enorme desperdício de meios informáticos.

- Adenda única à 7ª Lei –
(Princípio da Discussão Perpétua)

Nunca nenhuma última lei pode ser considerada a última palavra

Música de Fundo
My Friend” – Groove Armada

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

F(r)ases


Saturnal perversa
de faces dúbias.
Falsos sentidos
tarde ou cedo a nu
de ossos descarnados

Sinuoso monstro
de olhos vazados
e garras inúteis
crispadas no vácuo

Vereda aromática
de coloridas bermas
pétalas por lábios
de espinhosas línguas

Escultura
de olhares e gestos
na rocha de medos e desejos
do teu corpo
em mais uma f(r)ase
do meu amor crescente.

Música de Fundo
A Certain Romance” – Arctic Monkeys

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Vá lá, malta… Decidam-se! Somos tolerantes, ou somos democratas? De qualquer modo este púlpito é meu -

O mundo ocidental de hoje é governado pelo “parece mal” e pela ilusão das alianças comerciais. Como se o facto de um tipo ter por detrás dele dinheiro, petróleo ou uma mulher boa o fizesse parecer asseado ou o tornasse melhor do que aquilo que é; numa boa parte dos casos um burgesso de maus fígados.

Esquece-se que as regras da civilidade só têm validade quando são cumpridas pela maioria; e um mundo onde o termo “deficiente mental” é um insulto e assim substituído por designações de seis palavras em que obrigatoriamente tem que entrar a palavra cidadão, só pode andar a perder tempo enquanto lhe escalam as muralhas.

A democracia é apenas um modelo de gestão; mas foi isso que escolhemos ter e deveríamos estar orgulhosos por quase o ter conseguido. Claro que se a maioria for composta por labregos, é natural que um deputado democraticamente eleito vá para a TV afirmar que usa roupas com símbolos de “intolerância religiosa”. Mas isso faz também parte da democracia, e é uma das razões para a periodicidade das eleições.

Mas também não venho aqui falar da fé seja de quem for, e sim pregar a democracia como se fosse para “cidadãos vítimas de deficiência mental acentuada”.

A democracia nunca foi perfeita.

Pessoalmente eu prefiro uma tirania esclarecida em que eu pontificaria pela minha radiosa simpatia, dando a todos as mesmas possibilidades de fazerem pela vida, e utilizaria os transgressores para fertilizar os terrenos de onde se arrancariam os eucaliptos que aí foram plantados por erro (e onde “plantaria” também quem tomou tal decisão).

Mas já que escolhemos ser democratas, seria bom que seguíssemos o sistema que um dia elegemos como sendo o ideal.

Infelizmente o que na realidade se passa, é que são todos democratas até subitamente se encontrarem por alguma razão pertencendo a uma minoria; o que os vai tornar imediatamente em revolucionários que lutam contra uma “falsa democracia”.

Nem Moliére conseguiu lembrar-se de uma assim; e acreditem que ele até era um tipo muito inventivo.

Penso que a veracidade das declarações que se seguem poderá ser confirmada pelo INE.

A maioria dos portugueses, não é homossexual, não é muçulmana, é contra o aborto e tem pouco jeito para o desenho. Do mesmo modo que não nutrem especial simpatia para com os homossexuais, os muçulmanos, ou os políticos; e quanto a cartoons… só se realmente estes apelarem ao seu peculiar sentido de humor, e se basearem em temas que pertençam à sua esfera de interesses.

O que a maioria dos portugueses (inclusive eu) gosta realmente, é de dar opiniões, palpites, e desenvolver teorias que muitas vezes acabam como argumentos para filmes de baixo orçamento.

Daí que, embora a maioria das pessoas se manifeste pela liberdade de expressão, o que na realidade desejam é que os outros se calem para que apenas eles possam ser ouvidos. E apesar de publicamente arengarem o carácter sagrado das decisões da maioria; se tal for o caso, tentam corromper os sistema de modo a que este se possa moldar ás suas tendências e gostos particulares.

Ora, o facto de um dinamarquês ter o mau gosto de fazer cartoons sobre uma religião intolerante (Ressalvo. Cuja maioria dos representantes age de modo intolerável), não implica que eu vá deixar de comprar ao tio dele a saborosa manteiga dinamarquesa, ou que vá deitar fora as revistas “sobre fotografia” que acompanharam a minha adolescência.

Isto é democrático. E se o Carrefour decidiu deixar de ter produtos dinamarqueses, sem dúvida que irei comprar a minha manteiga (bem como o resto das coisas) a outra loja que não faça política, e que se limite a prestar o serviço para o qual foi inicialmente fundada.

Comercialmente não há coisa mais idiota que hostilizar um cliente, ou alguém de quem se precisa. E uma das coisas que os países em que a igreja domina o estado deviam ter em consideração, é o facto de a política externa ter grandes similaridades com o comércio.

Pois eu sou um cliente. Sou democrata, e socialmente aceito e respeito as decisões da maioria; mas a minha tolerância resume-se a “uma oportunidade igual para cada um”. Por isso só tenho uma exigência a fazer:

Se aquela “freirinha” lá em cima (a da direita) levar avante essa ideia microcéfala do campeonato de futebol euro-árabe, a nossa equipa terá que ser acompanhada pela claque do FCP. Pelo menos estaremos bem defendidos.

Já agora, professor. Aproveito para o esclarecer que os árabes são apenas uma parte dos povos muçulmanos…

Música de Fundo
Al-Mu’allim “ – Sami Yusuf

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Procura que encontrarás em Blog
- O post feito à conta de outrem -

Desde que instalei este último “referrers tracker”, tem sido uma risota à conta das pesquisas que conduzem pessoas a este local; a ponto de eu já ter considerado a hipótese de parar de escrever e manter o blog só com as pesquisas e seus resultados.

Embora se trate de uma opção bastante sedutora, penso que por agora basta publicar por aqui alguns deles, com respostas que penso irem satisfazer aos seus autores a curiosidade que aqui os transportou.

*****

• “Elsa Raposo” – Famosa pelos seus anúncios ao Prozac. Já viu melhores dias.

• “Pornografia com velhotes e raparigas” – In your dreams…

• “O palhaço e o nariz - historia infantil” - Baseado na comovente autobiografia de Durão Barroso.

• “Versículos Satânicos” – Close. But no cigar!...

• “Caso cavalo tostadinho” – Ou a história de um banhista a quem chamaram cavalo.

• “Tatuagem de anjinho” – Se fosse “no anjinho”, talvez pudéssemos ainda falar disso.

• “Brigada dos martires de Alá” – Combustível para foguetões.

• “Ches longe Le Corbusier” – O tipo não sabia soletrar “Chaise longue”. Safou-se o Le Corbusier.

• “Mulheres nuas nos balneários” – Sem dúvida a maneira ideal de estar num balneário; principalmente se for o das mulheres.

• “Boa acção” – Faço ás vezes, mas não é sem olhar a quem…

• “Teoria Big Bang” – Quase tudo o que faz muito barulho é caótico e desorganizado.

• “Cenário Ângela Anaconda" - Sem dúvida que conheço. A primeira namorada do meu filho era parecida com ela (principalmente na zona dos joelhos).

• “Leonel Nunes - porque não tem talo o nabo” - Francamente nem sei! Deixo essas importantes questões para que acha que percebe de horta.

• “Argola de guardanapo historia” - Já contei. E pelos vistos já se ouviu falar disso por essa Net afora.

• “TheOldMan” - Sou eu. E, ou sou muito procurado, ou há alguém que não me consegue adicionar aos favoritos no IE.

• “Almofadas ortopédicas” - Já alguém me disse que neste domínio não sou a solução, mas sim o problema...

• “Dedo preênsil” - Há sempre quem invista na sua própria evolução.

• “Homem sobrancelhas remover” - Por este andar, não tarda que me apareçam pesquisas por "Gloria Gaynor", "It's Raining Men" e "Village People".

• “Trombinhas” - Se é o que eu penso, é em Leiria. Senão, nem quero saber.

• “Métodos de treino de tiro” - Primeiro que tudo, conhece o teu “alvo" e o resto será fácil.

• “Trajes de Carnaval medieval” - Tenho que me lembrar de passar "solarine" na armadura.

• “Comunidade cyber flash amigo de Guilherme Junho” - Esta busca por me parecer assaz suspeita, nem a comento.

• “Galvanizado Mirandela” - Um possível método para conservar alheiras por mais tempo.

• “Sapatos biqueira aço” - Só os uso em ocasiões especiais.

• “Romenas putas” - Não temos cá nenhumas. Mas dava um certo jeito uma contorcionista oriental para abrilhantar este blog com os seus números (inteiros naturais e fraccionados).

• "Sapatos de tango São Paulo” - Tive uns em tempos mas a marca era "Tonis".

• “Fetiche com enfermeiras” - Ás vezes também me apetece um banho de esponja, ao melhor estilo de "O Detective Cantor".

• “Pavão depenado” - Há muito que não aparece cá nenhum; mas se isso acontecer, será assim que sairá daqui.

• “Mantra do domini do big brother" - Sem dúvida que para conseguir suportar aquilo, há que recitar um mantra bem forte (a não ser que se referissem a "manta do dominó").

• ”Estudo ler na casa de banho" - Provoca fístulas e hemorroides. Embora no caso de algumas pessoas, seja a única altura em que o cérebro funciona a uma velocidade aceitável.

• “Grigori Rasputin” - Era um gajo porreiro. Aguentava bebida à brava e comia imenso (especialmente arquiduquesas que o tratavam por querido e único amigo).

• “Blog romântico” - Onde? Onde?

• “Catita + orangotango” - Sem dúvida que andavam em busca do Manuel João Vieira.

• “Porno adolescentes em fúria” - No meu blog? Não acredito! ...

• “Música de fundo” - Há em todos os posts.

• “Pesquisa farda de enfermeira” - Eu começaria a pesquisa pelo cinto de ligas.

• “Noticias de doenças causadas pelo polipropileno” - Não existe perigo de contaminação alimentar embora possa ser irritante em contacto com mucosas sensíveis. É por isso que os "massajadores faciais" são construidos em ABS e não em polipropileno, poliestireno ou em PEAD.

• “Treta nariz vermelho” - Não, mas se quiserem uma rouquidão, dispenso a minha.

• “Tatuagem de tubarão” - Tenho (no antebraço direito) mas não empresto.

• “Andar com mulheres mais velhas” - Pode ser uma profissão de futuro.

• “Mordendo o clitóris” - É ir experimentando. Acho que as reacções diferem de uma mulher para outra.

• “O padre meteu-lhe dois dedos” - espero que tenha sido para desentupir a ranhura da caixa das esmolas...

• “yombine” - Planta vasodilatadora muito conhecida na América do Sul. Uma vez pensando que se tratava de "canabis" fumei um pouco, e todos os vasos que tinha em casa ficaram com o dobro do tamanho.

• “Jerry Pournelle” - É melhor articulista de informática que escritor de FC.

• “Grande Estrunfe” - Eu era mais pela Estrunfina.

• “Circo Vitor Hugo Cardinale” - Ás vezes temos palhaços, leões e macacos.

• “Análises química do cimento portland” - É um pó fininho comó caraças e que se mete em tudo (mas mesmo em tudo. E olhem que eu sei do que falo).

• “Homens tudo de bom” - Isto devia ser uma daquelas internautas seguidoras do neo-optimismo cibernético.

• “Fundo musical dos flinstones” - Sem dúvida música da pesada.

• “Fernanda Serrano” - Pois, também eu...

• “The evil that man do Shakespeare” - Talvez em perseguição de algum mau actor.

• "Carla Matadinho+namorado+fotos" - Por acaso eu até tenho. Não são nada de especial (muito "normalzecas").

• “Não tenho nada a ver com igrejas, penitências e rezas” - Juro que não fui eu quem escreveu isto.

• "Buster Keaton proctologist” - Aqui deve haver um engano. Acho que o filme era "The Machinist".

• “Cilindros vantagens esquentadores fórum” - Vão por mim. Os cilindros são melhores.

• “Búzios cozidos” - Eu é mais "burrié".

• “Enfermeiras boas de cama” - É ir experimentando...

• “São Valentim oportunismo” - Possivelmente alguém em busca de "emprego certo".

• “Beach Boys avião agente secreto” - Banda desenhada?

• “Tradição + bukkake” - É "kabuki" meu parvo. Tu não queres saber o que é "bukake"; acredita em mim.

• “Edgar Alan Poe the cask of amontillado” - Tenho (o livro, claro. Que o xerez já o bebi).

• "Bolachas de araruta” - São horrivelmente secas. E dão a sensação que sufocamos com a boca cheia de areia.

• “Regras de boas maneiras à mesa de um refeitório” - 1ª Regra - Utilizar os talheres para comer.

• “Febras recheadas” - Alguém de estômago forte.

• “Frases para os encalhados” - Cada um deve criar o seu estilo próprio. Apostem na leveza, no diálogo; saiam mais à noite...

• “Técnica de pontilismo” - Desde que tive que começar a usar óculos para ler que abandonei esta fascinante técnica de pintura.

• “Definição de erotismo” - É a sublimação do medo da morte em conjunção com o desejo de transgressão. O resto é mais ou menos corpinho e imaginação.

• “Estilo de época surrealismo” - Be original, c'mon...

• “Morangos com açúcar – patrocinadores” - Pela mensagem que tentam passar aos miúdos, acho que deve ser uma qualquer máfia de Leste.

• “Displasia da anca mulher” - É algo que inviabiliza algumas das minhas posições favoritas.

Música de Fundo
"Juicy Box" – The Strokes

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Valentine’s Day
- Mais um dia de deliciosas superficialidades… -

A primeira lembrança que posso relacionar agora com o dia dos namorados, data por volta dos meus cinco anos. Brincávamos no patamar da escada eu e a miúda do quinto andar, quando me atacou a curiosidade e decidi que haveria de ver o que se passava “por ali” de diferente.

Convenci-a a brincarmos aos médicos (eu sei que é falta de originalidade, mas foi o que me ocorreu). E eu devia trabalhar para a previdência, porque demorei imenso tempo a examiná-la e não encontrei nada de errado; apenas uma pequena fenda imberbe em forma de ranhura de mealheiro, e que à época me pareceu deveras insignificante.

É claro que ignorava ter encontrado aquela espécie de tesouro, que tantos cobiçam sem entenderem ao certo o que desejam… Intimidade.

Embora não tenha sido a 14 de Fevereiro (e por outro lado, não faça a mínima ideia sobre a data em que foi), penso que esse foi o meu primeiro dia dos namorados. Antes das comemorações, dos cartões, dos bombons e de todas as tralhas que se publicitam para esfolar os incautos.

Fui reeditando assim através dos anos esse precioso dia. Aos oito, tive uma breve aventura escaldante com uma vizinha mais nova (tinha sete), quando nos encontrávamos sós em casa dela e acabámos inevitavelmente por o comemorar. Lembro-me de estar com ela na cozinha perto do lava-loiça, e lhe pedir para afastar a cintura das calças do pijama para melhor observar.

Se nessa altura ela me pedisse bombons, caramelos, ou a minha colecção de soldados de plástico, ter-lhe-ia dado todos os que tinha; pois sem dúvida que estava apaixonado. Não a paixão calculista dos adultos. Mas a de um tipo em que nada se discute, e a que apenas se diz sim. Uma rara modalidade a que apenas as crianças e as pessoas de alma pura (quase extintas) têm acesso.

Nunca pensámos no que poderíamos obter um do outro. E talvez por isso eu pense que apesar das euforias momentâneas, nunca mais estive apaixonado como nessa altura.

Um pouco mais tarde (talvez aos 13) foi a minha fase de homem-objecto. Tinha uma prima que compartilhava comigo a cor dos olhos e o espírito analítico. Infelizmente tinha do seu lado a precocidade característica do seu sexo; e durante algum tempo fui exibido a amigas e conhecidas como troféu de caça.

Tarde ou cedo tudo isto acabaria por cristalizar. E passou-se desde então demasiado tempo, para que pudesse memorizar algo como verdadeiramente marcante nesse aspecto da minha vida.

Assinalo hoje esta data que não tem para mim um significado especial. Porque real mesmo, continua a ser aquela miúda que afastava as calças do pijama para se mostrar a mim; sem saber na altura, que ficaria para sempre como sendo a minha imagem eterna do dia dos namorados.

Música de Fundo
Always” – Bon Jovi

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Um banho com “Leitmotiv
- Ou como um simples banho de imersão pode ser prejudicial para a sanidade mental … -

Um pouco à semelhança dos rebates de consciência, é raro que me doa a cabeça; mas quando tal acontece, toma geralmente proporções exageradas.

Após um cansativo sábado a trabalhar, durante o qual incubei um microorganismo desconhecido que fez o meu tom de voz descer ao nível da vocalização de Dart Vader; preveni-me com mezinhas caseiras e deitei-me cedo. Talvez não devesse ter insistido em ler para adormecer, mas o certo é que quando acordei no domingo tinha uma dor de cabeça do tamanho da nossa dívida externa.

Achei que a melhor solução para este problema seria um banho de imersão.

Em minha casa, tomar banho de imersão é algo fora do comum. Pois há gerações e desde que um dos meus antepassados foi agraciado com a “Ordem do Duche”, que nos dedicámos de alma e coração a essa modalidade; pelo que os sais já tinham cerca de três anos de embalagem (analisando agora os acontecimentos em retrospectiva, penso que tudo possa ter acontecido devido aos sais).

Enchi então a banheira, e derramei nela o pó multicor que esforçadamente tirei do frasco, utilizando uma chave de fendas para desfazer os pedaços que tendo solidificado, se agarravam teimosamente ás paredes de vidro como cerâmica pré-colombiana.

Deitei-me com a água a dar-me pelo queixo.

Lembro-me que na altura ainda pensei colocar duas rodelas de pepino sobre os olhos. Mas veio-me à mente a imagem de Marat morto no banho, exactamente devido à sua mania de pôr rodelas de pepino sobre os olhos; e achei que não seria boa ideia. Não fossem os membros de algum blog rival, irromperem pela casa de banho empunhando armas automáticas.

O vapor de água que enchia a pequena divisão fazia-a parecer maior, e emprestava-lhe um pouco de ambiente sebastianista; no que era ajudado pela cortina da banheira decorada com motivos árabes. Deixei o meu espírito vogar sem destino; embalado pelo marulhar das águas e impulsionado pela morna carícia que se espalhava por todo o meu corpo (tenho que fazer isto mais vezes, mas com companhia).

Estava quase a mergulhar no sono induzido por todo este cálido ambiente, quando comecei a ouvir uma melodia sinuosa que chegava até mim através da parede onde está o bidé. Só podia vir do apartamento ao lado para onde se mudaram há uns meses três mulheres (mãe e duas filhas), e que ao fim de semana me obrigam a ouvir aquele tipo de música melosa, tão apreciada pelas adolescentes e mulheres mais velhas em fase de acasalamento.

Foi com horror que reconheci os primeiros acordes de “you're beautiful” de James Blunt, aparentemente emitidos pelo respiradouro metálico que fica ao nível do chão entre o bidé e a sanita. Sem dúvida que seria o sítio mais indicado para a origem daquela música, mas eu detesto a maneira como o tipo canta.

Encontrava-me pois confinado a uma banheira de água quente, como qualquer doente mental em tratamento, e o meu espírito era massacrado com enormes vagas de James Blunt. Só os prisioneiros da NKVD nos longínquos anos trinta deviam compreender aquilo pelo que eu estava a passar.

Um velho truque ensinado pelos monges tibetanos para resistir à tortura, é fantasiar a situação de modo alternativo, fazendo o espírito afastar-se lentamente da dolorosa realidade. E assim fiz.

Imaginei que me encontrava numa praia juntamente com a equipa que se encontrava a rodar o vídeo-clip para o single.

Estávamos todos chateados porque chovia como o raio. E o sacana do artista estava ali sentado no chão a despir-se meticulosamente enquanto cantava aquela melodia idiota, que se conseguia insinuar nos nossos ouvidos apesar dos lenços de papel, pedaços de miolo de pão, e manteiga de amendoim com que tentávamos insonorizar os nossos indefesos pavilhões auditivos de tão traiçoeira agressão.

Pelo canto do olho reparei que embora o tipo ainda não tivesse acabado a canção, já alguns assistentes se afadigavam a empacotar adereços, embora de um modo discreto. – Passa-se alguma coisa? – Perguntei à “script girl” que estava a meu lado, tirando-lhe para que me ouvisse, o cotonete que ela tinha enfiado no ouvido esquerdo e ao qual enrolara papel higiénico.

- Shiu! Deixa-os acabar de filmar que já vais ver. – Respondeu ela com um sorriso maroto – Prepara-te para bazar assim que eu te disser.

E assim foi.

A porra daquela chuva miudinha sempre a cair como se tivesse sido encomendada, e nós ali a ouvir o tipo a lamentar-se como um borrego mal desmamado… Finalmente chegou à parte em que ele se virou, e dizendo – “But it’s time to face the truth, I will never be with you.” – acabou por mergulhar do cais abaixo para a água gelada.

Agarrámos nas nossas trouxas e entrámos à pressa no autocarro, enquanto se ouvia o tipo protestar lá de baixo – Quem é que tirou a merda da escada? Está aí alguém? Malta?.. Vá lá. Não tem piada nenhuma e a água está gelada à brava…

Fechei os olhos e lentamente regressei ao meu tépido e matinal banho de imersão, soltando um suspiro deliciado.

Foi quando se fizeram ouvir novamente através da grelha metálica, os primeiros acordes da detestável cançoneta. Com a surpresa quase engoli um pirolito; o que poderia ser-me fatal devido aos sais de oriental proveniência (quem os tinha oferecido esquecera-se de tirar o autocolante “made in China”).

A música estava em “repeat” e pouco havia a fazer.

Saí do banho, e passando pela cozinha dirigi-me à porta que abri silenciosamente. Com passos lentos, atravessei o patamar deixando atrás de mim um rasto de água e espuma, que terminou no tapete de cor verde e com desenhos de gatinhos a brincar.

Passei o cutelo para a mão esquerda e toquei à campainha. Ouviu-se um ruído de chave a girar em fechadura, e eu compondo o meu melhor sorriso comecei a entoar em voz um pouco rouca - My life is brilliant. My love is pure…

Nota: A música de fundo é para ser ouvida durante o jogo do qual fica aqui o link.

Durante a redacção deste post não foram molestadas quaisquer vizinhas (maduras ou adolescentes), embora neste momento se desconheça ainda o paradeiro do patinho de borracha amarelo, que o meu filho me tinha emprestado.

Este texto é dedicado a todos os que tal como eu, já não podem ouvir James Blunt.

Música de Fundo
You're Beautiful” - James Blunt

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Todos os deuses são verdadeiros; incluindo eu e a Dona Odete da Cafetaria… -

Irmãos, irmãs e aderentes ao nosso novo sistema de “pay per pray”. Como qualquer religião que se preze, a Igreja do Imaculado Blog não poderá manter-se à margem, deste assunto de capital importância. A imagem de um deus.

Como já repararam não escrevi “a imagem de Deus”; mas isto deve-se ao facto de não irmos aqui tratar da saúde aos católicos, mas sim tentar abranger um pouco todas as religiões da concorrência. E como diria Erich Maria Remarque, o céu não tem favoritos.

Segundo diz Blog na sua “Epístola aos outros deuses e restantes condóminos”, descaradamente plagiada de “A Construção do Personagem” de Constantin Stanislavski – Deus que se preze deve cuidar da sua higiene pessoal, e manter um bom aspecto que faça os crentes desejar terem sido criados à sua imagem e semelhança… -

Mas os deuses no início não tinham aspecto algum, pois eram imateriais. Porém, cedo chegou o dia em que a imagem passou a valer mais que todas as rezas; e decidiram então inspirar no espírito humano a necessidade de cada um representar o seu deus.

Como se sabe sobejamente, não existe entidade alguma a salvo de fraquezas inerentes à imagem.

Cedo os deuses mais antigos e de primeira geração que viviam em grupos bem coesos, escolheram os melhores personagens. Odin então, estava muito mais magro do que na realidade era o seu espírito. E Reia, muito menos rabugenta… Alguns tinham tão boas imagens, que mais tarde viriam a encarnar em personagens de banda desenhada.

Logicamente, quando os três deuses independentes apareceram, era como ter entrado por último num guarda-roupa antes de um baile de máscaras; quase não havia nada para escolher. A coisa estava tão má de “fantasias”, que o último tinha sido o Boi Ápis com o aspecto deplorável que lhe conhecemos.

A partir daí, tinham degenerado para a tendência animista, e a coisa perdera a piada.

Na verdade nem eram bem três deuses, mas sim apenas um que sofria de distúrbios de personalidade e se julgava três. Infelizmente, a imagem do cão de três cabeças já estava ocupada e ele teve que se contentar em fingir ser Jeová, Allah e Deus (à vez, como um mau ventríloquo de feira).

Deus estava em brasa com aquela merda, e mantinha-se imaterial como se não estivesse ali. A sua segunda personalidade, Allah, não querendo dar uma de labrego recém-chegado tentou dar a volta por cima, alegando que a sua natureza divina não deveria ser representada de nenhuma maneira.

É claro que os outros riram-se um bocado, e acharam que era um belo truque para não ter que ser o deus Umpanzo do Congo, que era uma entidade inferior e vivia nas árvores. Mas era uma ideia tão boa como ter barbas enormes e mandar raios ou ter um Ferrari. E sem dúvida que iria resultar.

Deus (ou Jeová, ou Allah. Tanto faz, pois estava sempre a falar sozinho) acabou por ver aprovado o seu projecto de identidade, e passou a seguir o novo modelo. Mas o problema da múltipla personalidade interferia com tudo isto, e a entidade Allah acusou-o de falta de originalidade, invocando os mitológicos copyrights; dando início assim a uma rivalidade interna cheia de tricas e atritos (à escala cósmica, claro). Que desde aí cavou um enorme abismo entre os crentes das três religiões. Só era pena que o deus fosse o mesmo.

Mais ou menos pela altura em que deus (o da tripla personalidade) discutia consigo próprio sobre os direitos à imagem, ouviu-se tossicar a um canto um tipo de ar discreto que acabava de se levantar do sofá e já aguardava há bastante tempo. – Se não se importam, continuavam essa discussão da imagem em qualquer outro sítio. É que eu gostava de ser atendido antes do próximo dilúvio…

Thoth, patrono dos escribas e amanuenses, encavalitou os óculos (apenas com aros, mas usados por fidelidade ao script) na ponta do nariz e interpelou o recém-chegado – Nome, ocupação e proposta para personagem divino…

- Blog, deus digital, e a proposta é azul “quase celeste” – Respondeu o inquirido com ar de quem se queria despachar o mais depressa possível; o que se notava pelo seu tamborilar de dedos sobre o balcão de fórmica. – Se for preciso não me importo de pagar taxa de urgência. É que tenho a carrinha mal estacionada lá em baixo na Avª da Igreja, e só meti um Euro no parquímetro.

- Espere lá um bocado e deixe-me ver se entendo – pediu Thoth um pouco confuso – Você aparece aqui sem mais nem menos (mas se aparece é porque o pode fazer, e isso não está em causa), diz que é um deus digital e quer ser representado por uma cor? Isso não é um bocado vanguardista demais?

Não! E até é bastante elementar – respondeu-lhe Blog, que estava já a imaginar um tipo da EMEL a aproximar-se sorrateiramente da Ford Transit, de caderninho em punho – Ser digital é ser virtualmente tão imaterial como qualquer outra divindade; e quanto à imagem, o azul é perfeito. Não precisam de me representar porque me verão em quase todo o lado... Assim, sempre que os crentes olharem para o céu lembrar-se-ão do “Azul de Blog”.

Música de Fundo
Dirty Harry” – Gorillaz

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

A Guerra Santa
- Esse conhecido substituto das relações sexuais… -

As “guerras santas” só são possíveis em religiões intransigentes, especialmente nas épocas em que a autoridade espiritual esteja a cargo de indivíduos de fraca moral e duvidosa honestidade.

A civilização ocidental teve já alguns dissabores à conta da Igreja Católica, que parece ser uma entidade internacionalmente certificada segundo a norma ISO9001 para “concepção, organização e execução de massacres, perseguições e distorção da realidade com fins inconfessáveis” (isto apenas porque ninguém os obriga a confessar). Por outro lado, o Islão sofre do mesmo problema; e eu até sei quem são os culpados de tudo isso.

Trata-se da dupla composta pelos famosos, Deus (a.k.a. o “Único e Verdadeiro”, “Criador do Céu e da Terra”, etc.) e Allah (a.k.a. “O Compassivo”, “O Clemente”, “O Justo”, etc. Ao todo, noventa e nove identidades), que por incompetência das celestiais editoras, publicaram os respectivos livros sagrados com tanta lacuna e tão cheios de clichés e generalidades, que o que puder ser de lá extraído servirá igualmente para o fim contrário.

De insuspeita conduta durante a sua juventude, estes dois elementos pareciam destinados a enriquecer o Olimpo ou o Styx com a sua omnisciência, e assim emparceirar “primus inter pares” com Zeus, Thor e o Vespão Verde.

Sem dúvida que algo deve ter corrido mal a meio da sua ascensão à divindade, pois subitamente deixaram de acamaradar com os outros, e começaram a dar mostras de conduta pouco adequada à sua condição. Por várias vezes Deus foi encontrado a vaguear em trajes menores e a debitar incoerências, enquanto que de Allah então nem se fala… Diziam que costumava dar uns “bafos” em substâncias “controladas”.

E foi desta vergonhosa história de insucesso escolar que saiu o monoteísmo. Assim chamado, devido à monotonia que é ter um só deus.

Como já devem ter reparado os mais atentos, as religiões politeístas (que tendo mais deuses, conseguem assim saciar a alma dos fiéis com mais eficiência) não são propensas a situações embaraçosas tipo perseguição religiosa ou guerra santa; pois se sustentar um Olimpo a abarrotar de deuses já é difícil, imaginem quanto custa aparelhá-los para a guerra. Deve ser o mesmo que mandar à escola seis filhos com um ordenado mínimo.

É sabido que o monoteísmo está para a religião como o FCP para o futebol. Apesar de alegarem que um só deus em sistema laboral de polivalência é bem mais eficiente, e que evita o preenchimento de formulários diferentes (um modelo, mais um “A” e um “B” por cada deus); acaba por se arranjar uma confusão imensa, pois o tipo não contente por ser o único a chefiar aquela religião ainda se quer apropriar das outras, no que é um perfeito exemplo do pecado da inveja em proporções cósmicas.

Se há alguém a quem eu inveje em questões de religião, são os antigos gregos. Deuses pacholas (exceptuando Zeus que era um chato. Mas coitado, era da idade e a próstata também não ajudava.), deusas simpáticas e boas “comó milho” sempre dispostas a auxiliar um mortal mais desenrascado, ou mesmo a conceder-lhe uma “balda”; já não falando das grandes confusões que de vez em quando se armavam entre mortais e deuses, envolvendo touros, patos e artefactos com formatos estranhos (as ânforas, claro).

Estou aqui mesmo a imaginar Ulisses, apanhando sol em cima de uma rocha enquanto vigiava o camaroeiro e a coçar o peito cabeludo; quando surge Antenor em desordenada correria

– Odisseu (era a alcunha que lhe davam os gregos)! Os fogos de Vulcano abrasam o meu coração ao relatar-te a torpe ofensa…

- Ouve lá ó tenor. – Respondeu o dos mil estratagemas com estas palavras aladas (pelo menos segundo Homero) – Não estarás a exagerar um bocado nisso dos fogos de Vulcano? Tens é que deixar de pôr molho picante nos cogumelos, que assim já isso não te arde tanto.

Não foi isso, ó pai de Telémaco e marido de Penélope (era difícil discutir com os Gregos, pois um tipo perdia o assunto no meio de todo aquele palavreado, esquecendo sempre ao que ia). Ímpios entraram no templo de Afrodite, profanando as sagradas imagens e conspurcando a santidade do local. Devemos encontrá-los, separar-lhes a alma do corpo e dar este a comer ás aves de rapina.

- Antenor, filho… - Contemporizou o ardiloso Ulisses a ajeitar os calções de banho que o estavam a apertar num local maroto – Não terá sido o Minotauro que se soltou e entrou por ali adentro? Quem iria profanar o local de todos os prazeres? Só se fosse algum desses socráticos rabetas; e mesmo assim não me parece, pois ainda estão todos a chorar a morte do nobre pedófilo. Perdão! Filósofo…

- Foram ímpios, sim. Ó destruidor do ciclope e fornicador de Circe – garantiu Antenor…

- Espera aí, Antenor! – Ordenou Ulisses – Esse estilo declamatório além de não te ficar nada bem, também não ajuda a esconder o teu limitado vocabulário. Diz-me o que se passou em menos de cem palavras, e pira-te de uma vez que estás a assustar-me os crustáceos.

O infeliz portador das más novas fez o seu relato, terminando com voz entrecortada - … e desenharam um phallo enorme sobre a tapeçaria, de modo a que ficasse apontado para a boca da deusa…

- Enorme como, Antenor? – Perguntou Ulisses.

- Sei lá. Não ando por aí a medi-los. – Insurgiu-se o interlocutor - Talvez do tamanho do que tem a estátua de Apolo.

Espera aí que não estou a perceber bem, meu rapaz – Pediu Odisseu, que estava a começar a achar piada à situação – Então tu apareces-me aqui aos gritos, gesticulando até me espantares os caranguejos todos; e tudo isso por causa de alguém ter desenhado na sagrada tapeçaria uma coisinha do tamanho de uma moeda de dracma? Não reparaste ainda que as estátuas (tadinhas) são todas “mal aviadas” apenas por uma mera questão de estética? Imagino a corrente de ar que passa no fundo dessa túnica…

- Não é justo, Ulisses – Queixou-se Antenor em tom mimado – Venho eu aqui avisar que os troianos afrontam os nossos deuses, e tu ainda fazes troça dos meus atributos naturais. Devias pois lançar-te na senda da guerra e vingar esta afronta.

- Desculpa lá ó tenor (agora é que sei de onde vem o teu tom de voz) – Respondeu sabiamente o dos mil estratagemas – mas os deuses estão mais que defendidos tendo pelo seu lado Marte, Mercúrio e Betadine. E não precisam da assistência de uns mortais ranhosos.

De qualquer modo é melhor ires-te pondo a milhas, que eu topo-te muito bem. Já dizia Xenofonte – Guerras por deuses e ideias só trazem problemas desnecessários; e na maioria dos casos são iniciadas por oradores de “curtos argumentos”.

Música de Fundo
Hell, yes” – Beck

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Idiossincrasias
- Alguém que se considere sem defeitos tem pelo menos um… É um descarado mentiroso! -

Desafiado pelo Sniper para revelar cinco das minhas excentricidades, vou abrir uma excepção num dos meus princípios básicos que é não aceitar desafios à toa, e revelar algumas delas.

Os meus hábitos estranhos (pelo menos aqueles de que me consigo aperceber, e que não me irão proporcionar cama e mesa à conta do erário público) são os seguintes:

1 - Tenho os CD's de música ordenados alfabeticamente e os livros por assunto. Se me quiserem ver chateado, venham cá desarrumar-me as coisas e vão ver o que é a fúria de Blog. Também dobro meticulosamente a minha roupinha sempre que vou para a cama; a não ser que não vá dormir. Pois nesse caso passa-se exactamente o contrário, tendo já demorado uma vez cerca de meia hora em busca de uma peúga fugitiva.

2 - Na minha vida diária visto quase sempre a mesma coisa. Ganga no Verão e cabedal no Inverno; botas da tropa e blusão, casaco ou parka. Há quem diga que é um pouco arriscado devido à zona onde trabalho, pois parece que vou para um comício do PNR, mas em oito anos nunca ninguém se chegou (vá-se lá saber porquê...).

3 - Aos domingos, em vez de ficar no aconchego do leito como qualquer pacífico burguês, tenho o hábito de ir pedalar pela cidade e tomar o pequeno-almoço numa esplanada; o que nestes dias frios e devido a uns calções folgados se pode tornar bastante traumatizante (no caso dos calções folgados pode ser também traumatizante para alguns transeuntes mais curiosos).

4 - Mantenho sempre reserva de bens essenciais para casos imprevistos; e uma mochila com equipamento de emergência para quando a civilização tal como a conhecemos chegar ao seu fim, e eu tiver que abrir caminho por entre a turba até ao meu refúgio nas fragas da Serra do Açor.

5 – Enquanto as outras pessoas andam em “bicos de pés”, nomeadamente quando estão descalços em casa, eu ando em calcanhares; acabando por me assemelhar um pouco à “pantera cor-de-rosa” fugindo ao inspector Clouseau.


Como a última parte do desafio é “passar a brasa” a outros cinco bloggers para estes partilharem as suas excentricidades, segue então para:

a Vanus

a Agatha

o Predatado

o Terapia

o PiresF


Música de Fundo
Down At The Doctor’s” – Dr. Feelgood

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

*

“A Verdade funde-se como a neve na mão daquele cuja alma
não se funde como a neve na mão da Verdade.”

(Provérbio Sufi)

Não sei se és água
para a chama que abrasa
taça de onde bebo a minha alma

Não sei se és terra
jardim perfumado
em que colho prazeres

Curva de arco-iris
caminho ladeado de aromas
nave em que embarco se me perco
e que te traz a mim

És!

Música de Fundo
Golden Brown” – Stranglers

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

All About Me (ou o meu sonho incestuoso)
- O título é enganador… Aliás como já é hábito... –

Ontem à noite, apesar do esforço hercúleo que fazia para manter os olhos abertos e acabar o último livro que comprei (do qual omito o título e o autor, porque já tenho suficiente má fama), acabei por adormecer em má posição; o que sem dúvida foi a principal causa do sonho que a seguir relato.



Após atravessar em corrida desenfreada o átrio da Estação de Santa Apolónia apenas com uma toalha de banho à cintura, perseguido por uma freira de metro e meio que empunhava uma afiada faca de cozinha; entrei numa carruagem ao acaso, e escondi-me no compartimento das bagagens onde me mantive durante horas, recapitulando todos os elementos da tabela periódica para passar o tempo. É claro que adormeci.

Fui despertado por um choque abafado, e arrisquei espreitar para o exterior. Quando dei por mim estava sozinho num apeadeiro totalmente vestido (é a vantagem que tem isto dos sonhos; um tipo não precisa de perder tempo a vestir-se), e o vento trazia até mim cheiros bucólicos de pólen, estrume, pinheiros e outros aromas Brise®.

Pousei no chão uma mochila que não pedira a ninguém e olhei em volta. Sem dúvida que seria o sítio ideal para me esconder, pois ao longe via-se uma pequena aldeia composta por apenas uma trintena de casas. Como sou um tipo versátil, aproveitei a velha máxima “em Roma, sê romano”, e logo ali decidi fazer-me aldeão.

Arranjei emprego na mercearia de uma viúva ainda em muito bom estado (ambas; tanto a mercearia como a viúva), que tinha uma filha já crescida. Mercê do meu proverbial azar, ainda o sonho não ia a meio e tendo eu apenas vendido um pacote de velas e duas ratoeiras, já estava casado com ela (a viúva, infelizmente. Que a filha era bem mais jeitosa).

Passou-se uma semana (tenho a certeza disso, pois vi o sol pôr-se e nascer sete vezes sucessivamente em “fast motion”) sem qualquer interesse, pois estávamos no campo; que como toda a gente sabe é um local muito aborrecido.

Na manhã da segunda-feira seguinte, enquanto eu contava os feijões de uma saca para passar o tempo, entrou na mercearia totalmente esbaforido o meu pai, que me perguntou se tinha visto por ali alguma freira, ou mesmo um cão grande e preto com orelhas brancas. Ficou muito mais calmo quando lhe respondi negativamente, e sentou-se a descansar sobre o barril do toucinho salgado.

Pouco depois entrou a filha da viúva, minha enteada, que tomando-se de amores pelo meu pai o arrastou para a igreja. Tendo-se celebrado ali um casamento sumário, que transformou o meu pobre pai em meu genro, e colocando-o logo abaixo de mim no organograma da mercearia (é uma aldeia de pesadelo, eu sei).

Em acumulação de funções, a minha enteada tornara-se também minha madrasta, começando logo por me mandar trabalhar mais depressa.

Mal tinha eu acabado de contar os feijões e preparava-me para passar ás favas, quando a minha esposa (a ex-viúva) desceu do primeiro andar da mercearia com uma criança recém-nascida nos braços. Um rapaz, que além de meu filho era cunhado de meu pai, sendo assim também meu tio e irmão da filha da ex-viúva; que como já vimos era minha madrasta.

Entretanto o sol punha-se e nascia lá fora a uma velocidade de fazer inveja à hélice de um avião, o que dava um belo efeito de luzes como se estivéssemos numa rave. Abrimos uma garrafa de bagaço caseiro, e eu aproveitei para fazer contas à vida.

Constatei que a minha esposa era mãe da minha madrasta, o que a tornava em minha avó; sendo claro assim que eu era também seu neto. E que por ser casado com ela me tornara no meu próprio avô.

Fingi que ia à casa de banho e fugi no primeiro comboio para Lisboa.

Ao chegar a Santa Apolónia decidi que seria mais seguro optar pelo anonimato. Deixei então crescer a barba, arranjei um gorro de lã e fui arrumar carros. Dirigia-me muito descontraído para o parque de estacionamento, quando ouvi um burburinho logo atrás de mim; e ao voltar-me dei de caras com a freira que com um sorriso alvar empunhava uma afiada faca de cozinha…

Acho que nenhum dos meus vizinhos gostou de ser acordado a meio da noite. Resta-me agora saber se algum deles tem freiras na família…

Música de Fundo
Psycho Killer” – Talking Heads

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