sexta-feira, 31 de março de 2006

Post do Fim de Semana (Passado)

Este post só é verdadeiro se vocês gostarem…” – Provérbio Pós-Modernista das Avenidas Novas

O tamanho só conta se fores dançar sem cuecas” – Provérbio Escocês do Sec. XVI (em alternativa para os que não gostarem do primeiro provérbio)

Este era para ser um post apenas com provérbios inventados, mas como me faltou a imaginação preparei-me para vos oferecer um pouco da realidade. Embora uma parte dos que me lêem (felizmente, apenas uma pequena parte), não consiga diferençar a realidade de um anúncio de água gaseificada.

Era sexta-feira e lá estava eu à porta da discoteca (ou como é que se chama aquilo agora) a fazer tempo para entrar quando eles apanharam o puto.

O puto tinha um ar “ranhoso” não só no sentido metafórico, como fungava “de facto” como um viciado em “coca”. E apesar de logo à primeira análise parecer um adolescente perfeitamente tipificado, os membros da equipa de segurança acharam por bem fazer dele um exemplo.

Chamaram-no um pouco mais para o lado para deixar a fila avançar, e correram todas as opções do “Livro” como se estivesse na presença de um Abdul munido do seu folklórico cinto pirotécnico.

Eu avancei um pouco mais e fui mandado passar o cordão de acesso, ficando a aguardar que a porta se descongestionasse e pudesse finalmente entrar.

O puto foi passado ao detector de metais e este apitou. Logo um solícito segurança lhe pediu que esvaziasse os bolsos, enquanto se mantinha a uma distância confortável. O molho de chaves foi minuciosamente examinado como se fosse o “utility belt” do batman, e embora a lamela de cápsulas de antibiótico estivesse bem assinalada como tal, isso não evitou mais alguns olhares desconfiados.

Comprimidos são comprimidos (é uma frase idiota, não é?)…

Enquanto o primeiro “segurança” se dedicava a examinar o lenço onde uma elevada (dava para ver ao longe) concentração de ranho seco atestava a genuinidade do fungar, o seu colega executava mais um varrimento com o detector de metais, que ia emitindo preocupados “bips” como um diligente e electrónico galináceo.

Sem ligar ao facto de, desde o zipper da canadiana aos botões das calças ser tudo feito em metal, o segundo “segurança” encetou uma minuciosa revista ao miúdo; enquanto o primeiro tentava quiçá interpretar algum augúrio através do exame de diversos estratos de matéria verde que ocupava o lenço.

Finalmente deram-se por satisfeitos, mas depois de tanto exame inútil tinham-lhe ganho um certo rancor, pelo que se preparavam para lhe barrar a entrada.

Só para chatear, um deles ainda perguntou se ele conhecia ali alguém que se “responsabilizasse” por ele. Ele meio olhou em redor com desinteresse, e finalmente encarou comigo, fazendo uma expressão surpreendida e indicando-me ao segurança, que veio confirmar comigo se realmente conhecia.

Finalmente entrei no recinto, onde um pouco mais tarde ele tentava agradecer aos gritos por cima da música ensurdecedora. - Deixa! Não foi nada… - Disse-lhe eu – Como é que está o teu “velho”?

- Sempre na mesma. – Respondeu-me ele, enquanto olhava em volta como se já lá não estivesse – Tenho que bazar… estão à minha espera… - acrescentou despedindo-se atabalhoadamente, encaminhando-se na direcção de um grupo de miúdos iguais a ele.

Estes “seguranças” são uns tipos muito minuciosos – disse eu à minha acompanhante, tirando da cigarreira um “brelaite” muito bem enroladinho.

Música de Fundo
Hot For Teacher” – Van Halen

quarta-feira, 29 de março de 2006

A Redacção da Primavera
- Onde a estação é invadida pelo libertino de meia-idade, que lhe faz tudo menos comprar bilhete –

A Primavera é uma deliciosa confusão onde nada pára quieto; em que pelo ar vogam estranhos perfumes, como se montes de tias comichosas tivessem gasto várias embalagens de Brise.

E os poetas?

Os poetas, é vê-los a entrar e sair como marçanos afadigados com os seus cestos de compras… É uma estação inquieta em que tudo é permitido. Cheia de incertezas e promessas feitas, entre a frescura verde da relva recém-cortada e o morno toque do sol através de umas calças de ganga.

Primavera é corpo de flores e odores, como o Verão o é de frutos sumarentos.

A Primavera é uma rapariga de vestido ás flores, e não é preciso ser-se poeta para o dizer. Qualquer matrona por mais assexuada que seja, vê que se trata da altura em que o mundo borbulha como um tacho de “bouillabaisse”; é tempo de tirar a roupa e ficar um bom bocado sem a vestir.

É mesmo coisa de gajo comparar a Primavera a uma mulher. Sim, porque as mulheres não conseguem imaginar a Primavera, senão como a personificação delas próprias. É por isso que eu gosto da Primavera; e gosto tanto que já repeti a palavra três vezes neste parágrafo… São gostos…

A Primavera é facultativa, gratuita e completamente à borla, e só não a tem quem não quer. Mas devia ser permitido engarrafá-la. Assim, os mais desfavorecidos (os que nada conseguem sentir que os satisfaça) poderiam comprar um frasquinho dela, e à noite em casa, fazer uma festa com a primavera dos outros.

Começou hoje oficialmente a minha Primavera. E rio-me como um idiota nas trombas de tudo o que é aborrecido e bafiento, nas barbas de todos os pensadores sisudos que catalogam as ideias, as pessoas, a poesia e o amor… apenas para os tentar reduzir a uma miserável dimensão que é a sua.

Quando um tipo sente que todas as suas extremidades se rebelam como se tentassem alcançar a luz do sol, e os sentidos se aguçam a ponto de conseguir cheirar mudanças de humor… Bem, se não é a Primavera, então estou metido num lindo sarilho.

Música de Fundo
Feeling Good” – Muse

segunda-feira, 27 de março de 2006

LoveJam

Sabor que não esquece e não cansa
frasco a que não se coloca a tampa

Lugares carnudos
de frutos rubros
em texturas sôfregas de groselha

Magia conservada em corpos
doçura estudada
com que devora o sangue
canta a alma
em línguas vermelhas de vermute
morrendo repetidamente
em cada noite
com o som de milhões de guitarras eléctricas.

Música de Fundo
Heart In A Cage” – The Strokes

sexta-feira, 24 de março de 2006

É Hoje
- Onde se consegue no final ver o que é, quem é e porquê; mas mais importante de tudo… quando é! -

Não venho aqui fazer o elogio da amizade, mas apenas falar sobre relações blogosféricas.

Sou daquele género de tipos que ou se ama ou se detesta, e a quem é tão fácil fazer amigos como inimigos. Por isso tenho em grande consideração as qualidades que distinguem cada interlocutor como representante de um ou outro tipo.

As amizades deste meio que não se estendem ao mundo analógico são meramente virtuais (tal como é provado dia a dia), mas são ainda assim, relações ás quais devemos prestar atenção; ou correm o risco de morrer como qualquer outra coisa que se abandone.

Em quase três anos de blog já “conheci” imensa gente neste meio, mas a maioria passou e seguiu o seu caminho após dois dedos de conversa.

É por isso que tenho um certo apreço pelos que ficam. Os que continuam em contacto nem que seja para apenas trocar meia dúzia de palavras ou escrever um comentário rápido.

É por isso que hoje me lembro de ti, Hipatia. Porque ainda aqui estás.

E já agora, parabéns!

Música de Fundo
Firestarter” – Prodigy

quarta-feira, 22 de março de 2006

Lendas do Paraíso (2)
- Com o patrocínio da Igreja do Imaculado Blog -

Corria o período logo a seguir à criação do mundo; altura em que a tinta ainda não tinha secado bem, e o barro estava tão fresco que não se podiam dar uns “amassos” sem que ficasse marca. Era talvez o que se pode definir redundantemente como Primavera primeva.

Nesse tempo Blog andava pela terra armado em mestre-de-obras, a chatear os arcanjos com pormenores sem interesse, e a fazer o “test-drive” ás suas criações. A maioria das quais só tinha visto ainda em fase “blueprint”.

Já nessa era, os homens tinham o aspecto atípico e desinteressante que ainda hoje conservam. Mas Blog sendo um pouco machista tal como a maioria dos deuses, criara a mulher em múltiplas formas e modelos. Que embora mantendo um chassis de série se diversificava em características cosméticas, tal como plumas (por isso ainda há gente com tanta apetência por elas), escamas ou cores, padrões e texturas exóticas.

Embora as más-línguas dissessem que as mulheres teriam sido criadas à imagem e semelhança do periquito, a verdade é que era apenas um modo de estas poderem expressar a sua individualidade, pois tratava-se de características que se iam desenvolvendo consciente e selectivamente até à idade adulta.

Cedo se armou a confusão.

Embora parte do processo dependesse delas próprias, algumas das mulheres em vez de se contentarem com a sua aparência e (ou) tentar melhorá-la, optaram por fomentar intrigas e divulgar calúnias sobre as outras. Ora como se sabe a dor de corno não é exclusivo do sexo feminino, pelo que pouco tempo depois, já o problema tinha alastrado aos homens embora estes nada tivessem a ver com o assunto.

Paralelamente a isto, desenrolavam-se outro tipo de acontecimentos. Pois Blog, sem que ninguém tivesse dado por isso, tinha começado a relacionar-se com uma delas. Uma doce criatura de olhos cor de canela, cuja pele aveludada lhe provocava pelo simples toque, indescritíveis arrepios de luxúria.

Mas a discórdia começara já a reinar entre toda a gente; complicando-se com a formação de grupos tribais que não tardaram a iniciar entre si, uma prolongada guerra da qual não se adivinhava o fim.

Blog considerou que tinha falhado, vendo-se forçado a eliminar tudo o que criara para recomeçar do zero. Mas a única coisa que lhe custou, foi ter tido também que destruir a sua companheira de tez azul e olhos de canela; pela qual decidiu marcar todas as futuras criações.

Os homens por terem interferido e agravado todo o conflito, passaram a ficar impossibilitados de compreender realmente as mulheres.

Estas castigadas pela vaidade, perderam a maioria dos seus adornos naturais, ficando limitadas ás diferenças raciais como os homens. Mas Blog conservou-lhes o encanto e o veludo cor-de-rosa que as preenchia por dentro. Embora para ele, algumas delas fossem sempre diferentes das outras… pois tinham também olhos cor de canela.

Música de Fundo
Black Sweat” – Prince

segunda-feira, 20 de março de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Visite o Portugal desconhecido e habilite-se a o sorteio de uma cafeteira eléctrica com duas chávenas incluídas -

Irmãos, irmãs e restantes ovelhas tresmalhadas! Venho hoje falar-vos de uma outra igreja, que embora sendo da concorrência acabou por merecer o meu respeito, quiçá devido ao modo como conquista o coração dos fiéis.

A Igreja de Terra Nostra (a sua melhor companhia)!

Dando algum desconto para o piedoso exagero (sim, que isso da “melhor companhia” tem que ser avaliado com mais profundidade que a mera leitura de um folheto), esta organização faz pelos sedentos de espiritualidade o que os bares de strip fazem pelos solitários dos três sexos. Preenche-lhes o vazio que jaz escancarado no fundo dos seus seres.

E por se tratar de um serviço público que apenas custa a módica quantia de € 49,00 (para maiores de 25 anos, como indica o folheto), venho aqui publicitar esta piedosa peregrinação a Braga e outros santos locais do Norte.

Tal como é indicado pela piedosa organização, a viagem será efectuada em autocarro de turismo com seguro incluído, e ficarão alojados num hotel em regime de pensão completa; podendo após o almoço passear pelo Santuário do Bom Jesus, e talvez (com um pouco de sorte) tirar uma foto com Sua Eminência D. Jorge Urtiga.

Seguidamente os peregrinos rumarão a Balazar, onde lhes será contada a história da Beata Alexandrina que saltou de um rés-do-chão (alto) para salvar a sua virgindade, tendo ficado por isso paralítica sete anos depois.

Segundo o seu director espiritual Padre Mariano Pinho, durante os trinta anos que esteve acamada a beata manteve diálogos com Jesus, que a altas horas da noite lhe aparecia tendo dito (SIC) entre outras coisas:

- "Tu és o canal pelo qual quero fazer passar as graças..." – Facto que Alexandrina confidencia mais tarde ao Padre Mariano - "Senti Jesus inundar a minha alma com a sua presença real", como ele próprio me explicou - "Tu suspiravas por me teres em teu coração e EU suspirava por todo o teu possuir".

A Beata nos últimos treze anos da sua vida alimentou-se apenas da sagrada hóstia. Facto este atestado por imensa gente credenciada e que demonstra o poder da comunhão; como tão bem ela nos explica no seu diário - "Como ELE amou, como ELE ama! Os seus desejos de que vivêssemos d’ELE e para ELE. Recebemos Jesus inteiro; e ELE é sempre Jesus, desfeito em amor, um Céu de amor" – O que nos parece indicar não ser a Santa Hóstia assim tão alimentícia.

No fim do passeio por tão Santas paragens regressar-se-á ao hotel, onde após o jantar se organizará um divertido bingo (Que segundo o folheto não acarretará despesas algumas para os peregrinos).

No dia seguinte depois do pequeno-almoço, que além de outras iguarias incluirá também Alka-Seltzer e Guronsan, realizar-se-á uma agradável apresentação de piedosas relíquias para o Lar & Saúde, benzidas pela organização e com facilidades de pagamento.

A parte da tarde será preenchida após o delicioso almoço com uma visita ao Santuário da Penha e uma viagem de comboio pela região de Guimarães; após o que todos regressarão a casa na certeza de ter passado dias muito felizes em companhia da Terra Nostra.

Nota – Algumas figuras do folheto são meramente ilustrativas.

E assim se passarão dois dias de muita Fé no Minho, irmãos. Para demonstrar que a nossa igreja não é de rancores, quem o desejar poderá solicitar-me por e-mail uma cópia do folheto (apenas para maiores de 25 anos, segundo a organização).

Mas se quiserdes esperar mais um pouco, a Igreja Do Imaculado Blog está a preparar neste momento um encontro de bloggers (sem limite de idade), no qual serão apresentados alguns produtos de utilidade corrente como, contadores de visitas “customizáveis” e versões gratuitas do “Anonimizer”. Tendo cada um dos participantes direito (sem qualquer custo adicional) a uma réplica da famosa relíquia “O Membro de Frei Fialho”.

Que Blog vos acrescente.

Música de Fundo
Gold Lion” – Yeah Yeah Yeahs

sexta-feira, 17 de março de 2006

O Animador Desportivo
- Fábulas do Bairro Amarelo -

A acção social nunca foi o meu forte. Em parte porque os mais desfavorecidos, especialmente as minorias, têm uma grande tendência para se tornar desagradáveis quando os perturbam no seu habitat natural; já não contando com o seu fraco gosto para escolher “eau de toilette” ou acessórios de moda.

Mas quando se trabalha dentro do gheto, há que criar uma relação com as pessoas ou acabamos por ser considerados estranhos; e garanto-vos que é muito má ideia ser um estranho naquele sítio e ter que simultaneamente fazer serão até tarde.

Comecei pois a conviver com alguns dos habitantes que são pessoas como quaisquer outras (embora nem de longe isso sirva de recomendação), firmando um acordo tácito segundo o qual eu ao não meter o nariz nos seus assuntos, me é garantido poder mantê-lo e usá-lo sem dolorosas interferências.

Mas exceptuando o grupo que faz os acordos, negócios e prestação de diversos inestimáveis serviços; o resto são famílias com avós caquécticas e os inevitáveis miúdos ranhosos que um dia serão cantores de Hip-Hop, porteiros de bar, "street racers" ou (se tiverem azar) "hóspedes" do estado.

Tudo começou há alguns anos, quando blindámos as instalações colocando portas eléctricas em aço perfurado nas montras; o que dá um certo aspecto de masmorra ao escritório mas mantém longe os curiosos, com a mais-valia de se poder ver tudo o que acontece na rua sem que possam olhar para dentro.

Foi quando os putos adquiriram o hábito de, ao saírem da escola passarem sempre por lá para tocar à campainha.

De início eu ficava sentado a trabalhar enquanto via a MTV, e deixava-os fazer o gosto ao dedo até acabarem por desistir. Mas como todos sabem as crianças não desistem facilmente, e tive que adoptar outra atitude.

Em cada cinco ou sei vezes que tocavam à campainha, comecei a levantar-me da secretária e aparecer à porta empunhando algum objecto contundente, que brandia furiosamente como um ogre a quem tivessem despertado do sono. Ao princípio a coisa resultou; e era vê-los a correr velozmente pela rua abaixo com as mochilas ás costas, olhando ás para trás a verificar se eram perseguidos.

Com o tempo tomaram o gosto ao perigo e refinaram o sistema.

Passaram a agrupar-se ao fim da tarde em frente ao centro de formação profissional, para sortear qual deles iria carregar no botão correndo o risco de ser apanhado, e a sofrer as torturas horríveis que os outros diziam serem efectuadas no interior das nossas instalações; de onde, garantiam, se ouviam ás vezes gritos horripilantes a altas horas da madrugada.

Para manter uma certa imprevisibilidade passei a aparecer aleatoriamente à porta, de modo a que não pudessem construir um padrão que lhes permitisse avaliar com segurança se eu iria sair ou não.

Havia um deles que era o meu favorito. Um gorducho com aspecto trocista que logo da primeira vez perdeu o seu ar gozão, quando me viu empunhar o machado vermelho do serviço de incêndio. Ainda me lembro da expressão assustada com que fez em tempo record, os cem metros que o separavam da segurança da esquina.

A partir daí, cada vez em que lhe tocava a ele ficar para trás, eu refinava a minha actuação com esgares de raiva e um ou outro rugido gutural.

Hoje uma mulher de trinta e poucos anos tocou à campainha. E quando lhe abri a porta entregou-me uma caixa dizendo - Eu sou a mãe do Diogo. Aquele mocinho gorducho que você costuma assustar quando lhe toca à campainha; e vinha agradecer-lhe, porque em seis meses já conseguiu perder cinco quilos graças a si.

Ainda um pouco espantado, abri a caixa enquanto ela se afastava. Continha uma garrafa de Johnnie Walker embrulhada em papel vegetal.

Sentei-me à secretária, deitei um pouco de whisky na caneca do café; e encontrava-me a beber pensativamente quando entrou meu amo que reparou no embrulho e perguntou. - Não é ainda um bocado cedo para as prendas de Natal?

- Não é nada disso. - Respondi-lhe - Foi oferta da mãe de um miúdo que ando a treinar para a próxima meia-maratona da cidade de Almada.

Música de Fundo
"Jesus of Suburbia" - Greenday

quarta-feira, 15 de março de 2006

Canção de Sangue

Soprar o sol nos recantos do corpo
colher
no despertar
a resposta do desejo.

Acordar dias tensos de luz
em ânsia de orvalho e erva.

Sucumbir em pirotécnicos pores-do-sol
aninhados em noites dilaceradas
pelas risonhas feras do corpo.

O celebrar do sangue
nas línguas na carne,
a dobra do tempo…

Tempo de paixão!

Música de Fundo

Hot In The City” – Billy Idol

segunda-feira, 13 de março de 2006

Nós e as Mulheres
- Um post apenas para homens, pois se o dedicasse ás mulheres isso seria “chover no molhado”… -

Embora uma ou outra vez diga mal de algumas delas, se há coisa que eu goste é de mulheres.

Não no sentido da camarada, amiga e companheira prenhe de vida da qual ela é mãe, etc, etc.… ad nauseam. Uff!...

Porque isso não só é uma espécie de “conversa de ir ao cu” propositadamente inventada para valer a um sem número de tipos sem qualquer outro género de argumentação, como também é um dos principais trunfos de todos os que se querem delas aproveitar sem nada dar em troca (patrões, “abelhas-mestras”, partidos e um ou outro chulo mais politizado).

No fundo, uma mulher é alguém para quem nós fomos feitos e vice-versa; não passando tudo o resto de ociosas considerações, destinadas a nos fazerem perder o nosso precioso tempo (que como toda a gente sabe não estica, ao contrário de outras coisas).

É por isso que o “dia da mulher” é uma idiotice tão grande como o “dia dos cuidados intensivos”; que a ser comemorado daria um belo efeito. Pois quando chegasse a meia-noite, a organização desligaria todas as máquinas e monitores, deixando os pacientes a tentar descobrir que luz tão bonita era aquela de onde uma senhora lhes acenava.

Não sei como é ser mulher nem nunca o tentei ser. Acho porém que lá terá as suas vantagens e desvantagens tal como ser homem.

E se a maioria delas não pode ainda gozar a liberdade de morrer aos 45 anos de um enfarte, a comer uma secretária em cima de outra (o chamado “sanduíche administrativo”); nós nunca teremos a experiência da maternidade, sem a qual (julgo eu, que sou um tipo muito imaginativo), ficamos um pouco mais pobres a nível de sensações.

Não que eu seja um tipo assim tão sensitivo. Mas todas as mulheres que eu conheço saíram transformadas dessa experiência, com a excepção de uma ou duas vacas sem entranhas, que como é sobejamente conhecido servem apenas para estragar as estatísticas a um gajo.

Mas chega de maternidade. Um tipo que escreva sobre automóveis não vai passar o tempo todo a falar de mecânica.

Mulheres, há à dúzia” – É verdade, malta. Mas esta frase feita não passa disso, pois nenhum de vocês consegue entrar numa sapataria e calçar todos os números. O termo “como a forma para o seu sapato” diz-vos alguma coisa? Pois é verdade. Com a agravante de em caso de incompatibilidade serem previsíveis dores maiores que as de um simples joanete.

Mas o que eu penso mesmo é que isto das relações entre sexos diferentes é menos parecido com uma sapataria, e mais com as Nações Unidas. Uma pura questão de interesses comuns com uma base negociável.

Embora os acordos acabem por ser quebrados uma ou outra vez, ambos têm que ter algo que o outro queira. Quer seja o corpo, o olhar, o espírito inquieto, a disposição prazenteira para fazer judiarias ou pura e simplesmente aquele conforto material que dará tanto jeito para servir de ponto de partida para um outro acordo paralelo.

A diplomacia pode não ser já o que era. Mas é esta que se baseia no cortejamento e não o contrário; e este último, apesar da evolução social de séculos continua a ser o mesmo.

As mulheres que tiveram o estômago e a pachorra de ler até aqui, devem estar espantadas com a desfaçatez deste texto. Mas eu tenho acompanhado alguns blogues femininos, inclusive alguns colectivos. E constatei que quando se juntam em grupo, perdem o habitual recato e conseguem fazer sombra a qualquer grupo de montadores em cima de um andaime.

Porque bem lá no fundo e apesar das diferenças anatómicas, os homens e as mulheres não são assim tão diferentes nos seus interesses mais íntimos.

Dois conhecidos especialistas em cinética (Scheflen e Birdwhistell) afirmam que a importância das palavras para cativar um(a) possível parceiro(a) têm apenas 35% de importância no total do processo. O que atesta não ser este um post de “engate remoto”, mas apenas algo que me apetecia escrever desde o dia oito; acabando por o fazer agora porque não me lembrei de mais nada.

Para terminar (que ainda tenho mais coisas para fazer hoje) deixo-vos com algo que sem dúvida convidará à reflexão.

Quantos de vós já ouviram a famosa frase “por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”? Pois podem crer que é verdadeira. Mas se algum homem quiser ficar por detrás de uma grande mulher, sem dúvida que vai ter que se mexer bastante …

Música de Fundo
Dead Or Alive” – John Cale

sexta-feira, 10 de março de 2006

O Fair-Play do Candidato
- Há uma grande diferença entre instrução e educação -

Nunca conheci Mário Soares na sua juventude (e pouco me interessa a paleontologia). Quando ele regressou do estrangeiro em 1974 era já um “cota” que vestia “pullover” claro com fato escuro (nunca lhe vi as meias); mas eu também me vestia de modo estranho e por isso não me podia queixar muito.

Ao que parece no que toca à educação, o tipo nunca foi muito abençoado pelos deuses. Ou teve uma infância infeliz, ou não teve tias velhas que lhe dessem estaladas naquelas bochechas de buldogue para lhe dar algum polimento.

Mais uma vez, e talvez na última aparição importante antes do seu próprio funeral, cá venho eu malhar naquele arrogante e palavroso “artista”, que apesar de tanto bem se dizer dele, só me faz recordar coisas más.

Desta então, foi o seu comportamento na tomada de posse de Cavaco Silva (mau ou bom, foi a ele que a maioria escolheu), em que à semelhança daquelas gajas ressabiadas que apenas aguardam ser convidadas para uma festa, para depois poderem fazer birra, quis deixar uma última impressão indelével do seu “eu” verdadeiro na mente do povo português.

Já lhe conhecíamos a jactância, o mau perder e as trombas com que o ostentou à saída da sua sede de candidatura. Agora conhecemos igualmente o rancor e a falta de chá.

Para todos os que ainda tivessem dúvidas, ficou a imagem do candidato derrotado, que aceitando o convite para a tomada de posse do Presidente da República, porém, se recusou ostensivamente a cumprimentá-lo como se isso invalidasse o acto oficial.

Confirmando mais uma vez a velha máxima, que diz não ser a educação dependente da instrução.

Blog! Do que nós nos livrámos…

Música de Fundo
Richard III” – Supergrass

quarta-feira, 8 de março de 2006

O Laboratório do Sinistro TheOldMan
- Push that button, Igor… -

Os que me lêem há tempo suficiente, sabem que tenho um aquário no gabinete. Os peixes é que variam, pois cada vez que vou de férias alguém se lembra de uma qualquer inovação que invariavelmente os leva à morte e consequente substituição apressada antes que eu regresse.

Assim, os três primeiros chamavam-se Marx, Engels e Estaline; os seguintes também, mas acabei por descobrir que tinham os sexos trocados e passaram a Henry, June e Anais. Mas no ano passado quando cheguei do meu merecido segundo período de férias, o triângulo amoroso tinha-se passado com armas e bagagens para o além.

Só que desta vez a “pet-shop” lá da rua tinha falido, e ninguém se quis dar ao trabalho de ir mais longe para comprar outros em sua substituição.

Fiz um berreiro digno do meu sobrinho Rodrigo, pontapeei o “water-cooler”, dei duas palmadas na fotocopiadora e disse que não queria mais peixes, a não ser que trouxessem garantia contra idiotas.

Após me garantirem que tal não seria possível, exigi que me trouxessem os peixes mais ranhosos e de baixa classe que conseguissem encontrar; o tipo de animais habituados a provações e ambientes hostis. Uma espécie de “lumpen proletariat” da ictiologia.

Acabaram por me trazer quatro espécimes sortidos e com aspecto de terem sido apanhados num charco qualquer. Os primeiros tempos foram calmos. Desta vez não lhes dei nomes (talvez para não criar laços íntimos), e limitei-me a alimentá-los regularmente sem lhes dar muita atenção.

Mas um dia a bomba de circulação avariou-se e meu amo recusou-se a comprar outra. Como nos lagos naturais não existem bombas, optei por não gastar eu próprio os trinta euros e deixei as coisas assim.

A partir dessa altura, a água começou a adquirir uma bela tonalidade verde. Algumas algas de proveniência desconhecida instalaram-se no habitat, e de início até achei piada pois além de terem um belo efeito decorativo, serviam igualmente de alimento para os peixes; pois não raras vezes os vi a mordiscá-las com um ar satisfeito.

Foi então que a lâmpada deu o berro. A lâmpada era uma vulgar fluorescente de cor branca, mas como não tínhamos outra igual para a substituir, instalei uma de cor roxa daquelas usadas nos electrocutores de insectos. Acho que foi aí que o problema começou.

Talvez atraídos pela luz estranha emanada do cimo do aquário, os peixes começaram a comportar-se de modo estranho. Saltavam ruidosamente, como se começassem a sentir-se mais confortáveis fora de água que dentro dela. E começaram a desenvolver o hábito de vir apanhar a comida à superfície quando me viam aparecer.

Um dia, um deles aventurou-se um pouco mais e abocanhou a tampa da embalagem da ração, deixando-lhe a marca dos dentes. A partir daí, comecei a alimentá-los de uma distância mais segura, e avisei Miss Entropia para que não voltasse a mergulhar o dedo na água como costumava fazer.

Dois deles começaram a perder a sua característica pigmentação avermelhada, ficando até meio do corpo completamente brancos de uma palidez doentia. Um então, cuja cabeça se desenvolvera desmesuradamente, ficou de tal modo parecido com o Ben Kingsley que estive para o crismar de Ghandi; mas o caso tornava-se grave.

Hoje quando cheguei ao emprego e acendi as luzes, reparei que a água do aquário se encontrava mais verde e turva do que é hábito, como se tivesse sido revolvida por uma batedeira. Quando olhei melhor, reparei que apenas lá se encontravam os mutantes, que com ar satisfeito evolucionavam graciosamente como dois disformes e pálidos esqualos.

Mas logo tive que desviar a minha atenção, pois o telefone começou a tocar e tive que tratar de assuntos mais prementes, o que me fez esquecer o estranho acontecimento. E após mais um dia cansativo regressei a casa.

Estava há pouco aqui sentado a ver um filme, quando me telefonou meu amo para mais uma daquelas intermináveis conversas inúteis sobre serviço. Comecei a ficar chateado. O tipo estava no escritório, e não tendo mais nada para fazer decidira dar-me seca pelo telefone sem qualquer respeito pelas minhas horas de lazer.

Ao fim de vinte minutos de puro tédio, tive uma ideia que me pareceu interessante. Disse-lhe que estavam a tocar à campainha da porta e ao despedir-me pedi-lhe – Se não te importas e já que estás aí, antes de sair vai dar de comer aos peixes. – após o que desliguei o telefone e me preparei para apreciar o resto do filme.

Quem sabe… com um pouco de sorte, amanhã quando chegar encontrarei no chão um casaco aos quadrados ao lado do aquário; onde nadam os carnívoros albinos com o ar importante de quem tem o rei na barriga…

Música de Fundo
Hellraiser” – Ozzy Osbourne

segunda-feira, 6 de março de 2006

A História de Portugal Entre as Dez e o Meio-Dia
- Depois do “fast food” o “fast history” -

Eram dez da manhã de domingo, e eu encontrava-me a tomar o pequeno-almoço no meio de uma calma pequeno-burguesa, quando a televisão noticiou que finalmente alguém dera o golpe de misericórdia na fraca confiança que ainda tínhamos na indústria alimentar.

Centenas de frangos mortos já há semanas tinham sido encontrados numa ravina em Sever do Vouga, acondicionados em sacos de plástico.

As aves e seus derivados, já saíram da minha dieta há tempo suficiente para não me preocupar com o contágio. Mas enraiveceu-me que um xico-esperto qualquer tivesse aplicado um golpe deste género, podendo vir a safar-se impunemente. Pelo que acabei por desabafar – Deviam fazer-lhe o mesmo que ao sacana do Miguel de Vasconcelos! Levava-se para um edifício alto (no caso do Miguel não fizeram isso e tiveram que o “acabar” a pontapé), e defenestrava-se de modo a constituir um bom exemplo…

- Hããã? – articulou o meu único descendente directo, através de uma espessa camada de torradas barradas com “Loreto” (não consigo encontrar a dinamarquesa).

- O Miguel de Vasconcelos e Brito, pá! – lembrei-lhe eu - o Secretário de Estado morto pelos revoltosos no 1º. de Dezembro de 1640. Um tipo odioso que roubava aos seus compatriotas para financiar as guerras dos espanhóis.

- Não conheço – respondeu o adolescente, encarando-me como se eu fosse um cruzamento de Hermano Saraiva e José Sócrates (uma espécie de historiador aldrabão) - Nunca falaram disso na escola.

Aproveitei para lhe dar um breve resumo do episódio, e de como o tipo se tinha habilitado a um salto de “bungee jumping” sem elástico. Introduzindo ainda alguns elementos interessantes, como o facto de D. Gaspar de Guzman lhe ter recomendado que tentasse desacreditar as famílias da nobreza portuguesa; utilizando para tal a sedução e desonra das filhas de conhecidos nobres (não há como um pouco de “rebaixolice” para interessar os adolescentes pela História Pátria).

Embora pareça uma cena tirada do “Morangos com Açúcar”, é confirmada pela correspondência entre Miguel de Vasconcelos e Diogo Soares; que há poucos anos ainda se encontrava na Torre do Tombo.

Fiz uma leitura rápida do livro de história do 8º ano, e acabei por concluir que os livros de história se transformaram numa versão “Reader’s Digest” do que eram dantes, e nem por isso se tornaram mais interessantes.

Após um interrogatório cerrado, fiquei a saber que lhe escaparam as discussões de D. Afonso Henriques com a mãe, sem as quais ainda continuaríamos galegos (pensando bem, se calhar teríamos ficado a ganhar), e mais alguns episódios chave que me serviram para memorizar os acontecimentos importantes a que estavam ligados.

À semelhança do passageiro de um passageiro num TGV, que apenas lobriga a mancha verde da paisagem sem distinguir pormenores que o ajudem a conhecê-la. Os passageiros dos novos métodos de ensino estão assim, sujeitos à informação que lhes possa ser facultada (ou não) pelo maquinista.

Ou mais tarde ao sair do comboio, se quiserem conhecer verdadeiramente a paisagem vão ter que comprar postais.
Música de Fundo
Ruslan and Ludmila” – Mikhail Ivanovich Glinka

sexta-feira, 3 de março de 2006

Notícias do Mundo do Espectáculo
- Algo está podre e não é a manteiga da Dinamarca. -

Para os que não o conhecem, o respeitável ancião que aparece na foto acima chama-se Abu Hamza; e além de trabalhar para o Disney World personificando o simpático Capitão Gancho, faz nas horas vagas trabalho comunitário como fundamentalista islâmico.

Mas não venho aqui falar-vos do seu feitio bonacheirão, de como ajuda as velhinhas a atravessar a rua ou até do seu último álbum “Hooked on Hamza”; no qual faz dueto com Natalie Cole numa conhecida composição do pai desta, o famoso Nat King Kong.

Venho sim falar do seu filho. O emergente rapper MC Hamza, que além de ter as trombas chapadas do pai é também um dotado letrista tal como o seu “velhote”.

Mohamed Kamel (em homenagem aos “fumantes” preferidos da mãe) Mostafa de seu nome, tem vinte e quatro anos e declarou a dois espertalhões de um tablóide britânico, que a sua música iria fazer furor do Egipto à Palestina (o que dado o marasmo musical daquela zona até nem será muito difícil).

Sendo um partido muito disputado pelas mais belas “burkas” do Islão, o jovem artista teve uma educação esmerada nomeadamente na arte da confeitaria, tendo declarado ao repórter do “The Sun” – “Se for apanhado e quiser escapar posso fazer explodir qualquer coisa usando açúcar e outras coisas”.

Infelizmente não quis divulgar o resto da receita desse delicioso leite-creme de camela, que nos confidenciou ser um segredo de família passado de pais para filhos carinhosamente, como se fosse a primeira bomba construída pelo profeta.

Apresentamos seguidamente uma das suas letras que sem dúvida fará sucesso nos Estados Unidos, pois menciona os alicerces do “american way of life” – O serviço militar, Deus e a indústria de armamento.

I was born to be a soldier
Kalashnikov in my shoulder
Peace to Hamas and Hezbollah
That’s the way of the lord Allah…
We’re Jihad through
Defend my religion with
the holy sword


Como podem constatar, além de demonstrar um domínio perfeito da língua de Beavis and Butthead, Mc Hamza tem uma sensibilidade poética francamente desperdiçada no sórdido mundo do rap e do hip-hop.

Á hora a que este artigo vai ser publicado, aguardamos ainda a resposta de Freitas do Amaral à nossa pergunta sobre se irá ou não interceder junto à fundação Calouste Gulbenkian, no sentido de concederem a este dotado artista uma bolsa de estudo para o Vienna Konservatorium.

Mas o jovem artista não chega sequer ás barbas de Matisyahu, a nova revelação judaica que está a fazer furor entre o povo eleito e os gentios; tendo ele a honra de encerrar este post com a habitual música de fundo.

É este sem dúvida o nosso artista favorito do momento. Pois além de ter um melhor ouvido musical, é à semelhança de Woody Allen proprietário de um sentido de humor bastante apurado; coisa que o Islão parece ter perdido tal como o sentido da realidade. Se é que alguma vez os teve…

Música de Fundo
King Without a Crown” – Matisyahu

quarta-feira, 1 de março de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- A propósito de um pálido arco-íris -

Olá malta! Enquanto a Diácona Rosarinho (foto acima) limpa o pó à Igreja com a "Fluffy" - a nova toalhita anti-estática, que não só limpa o pó dos seus móveis como os deixa totalmente abençoados por Blog; e sem falhas ou farpas que se tornem incómodas para as suas costas e joelhos – aproveito para dar lustro ao púlpito com mais um sermão.

Irmãos! Todos vós sabeis que sou um tipo sensível, e que esta religião está aberta a toda a gente; desde fascistas a intelectuais (vírgula) de esquerda, passando por filatelistas esquizofrénicos, homossexuais e jogadores de hóquei em patins. E isso faz da Igreja do Imaculado Blog uma das mais habilitadas organizações para não só botar palpite sobre tudo, mas também para se safar com as maiores alarvidades desde que Mário Soares decidiu fechar o bico.

Como já devem ter reparado, tal como na indústria automóvel o mundo é movido por diversos tipos de motores; desde o “teológico de explosão” (Fundamentalismo Islâmico da Escola Pirotécnica) até ao ecológico sexo em que nada se perde (desde que se dê a volta completa ao “circuito”) e muitas vezes se transforma em rendimentos não colectáveis.

Outra coisa que move o mundo é o simples empurrão. Mas como o mundo é grande e uma parte dele até tem peso a mais, é preciso empurrar com muita força; e para isso tem que se contar com um grupo especialmente criado para desempenhar o papel de besta de carga. O “otariado”!

Assim chamado porque maioritariamente composto por otários, este importante grupo desempenha o papel daquele tipo simpático e sensível, que nos círculos femininos serve para confidente, mas que mulher alguma se deitaria com ele (especialmente por ser estúpido ao ponto de lhes ouvir as confidências).

Embora a apresentação deste grupo possa ser considerada um pouco depreciativa, volto a frisar que se trata de uma camada de importância crucial para a coesão do tecido social. Pois são eles que na maior parte dos casos, desembolsam o dinheiro para aquele tipo de coisas em que, nenhuma outra pessoa em seu juízo perfeito gastaria sequer um chavo.

Todo este intróito serve para declarar solenemente um dogma desta Igreja. Não acreditamos em críticos que recebam dinheiro por isso. Ou seja. Se ás motivações pessoais e de cariz cultural, que alguém possa ter para originar uma opinião sobre algo juntarmos também o dinheiro, podem acreditar que essa opinião será a melhor que se pode comprar.

O que quer dizer que não há como um crítico bem “motivado”, para ajudar o “otariado” a formar a sua opinião sobre algo. E a “sétima arte” não é excepção.

É por isso que vou pouco ao cinema; e quando o faço, vou apenas ver filmes que realmente fiquem bem num ecrã grande (e nem sequer são muitos). No que respeita aos restantes, aderi a um aliciante “pacote” de cinema gratuito, que me tem mantido em dia com as novidades. E se não estou mais culto por isso, é porque a maioria dos conteúdos nada traz de novo à minha cultura geral.

Eu sabia que iria ser um desperdício de largura de banda. Aliás, quando insistiram comigo para que fizesse download do filme, a justificação que apresentei contra, foi a minha falta de identificação com os personagens; mas foi-me respondido que alguém que já sacou filmes do Steven Segal, não tem moral para se recusar a sacar seja o que for (embora eu continue a jurar que isso do Steven Segal foi sem intenção).

Assim o fiz e em boa hora; pois foi-me dado a presenciar mais um exemplo do oportunismo cultural, que tantos dividendos têm rendido ás pessoas verdadeiramente inteligentes (os produtores, claro).

Tratava-se é claro, do tão badalado Brokeback Mountain; que é mais uma história de amor contrariado e maldito, com a única diferença de se passar entre dois homens. Posso dizer-vos que considerei muito mais autêntico e realista “Querelle” (1982) de Fassbinder, com base numa novela do já igualmente reciclado Jean Genet.

Em comparação com este último, Brokeback Mountain é uma espécie de “Sense and Sensibility”, mas com cowboys em vez daquelas gajas pirosas que a Jane Austen tanto gostava de retratar.

A primeira coisa que achei fazer falta no filme foi algo que o aproximasse da realidade do espectador lusitano. Em parte devido ao imaginário que construímos sobre os filmes americanos; a grande maioria de nós será tentada a pensar que tudo aquilo é uma enorme obra de arte, e que só nos “States” é possível acontecerem aquele tipo de coisas (todas elas).

A contrariar essa tendência, os espanhóis têm já um mecanismo de nacionalização bem implantado, e que consiste em dobrar o som de todos os filmes mesmo que isso signifique ouvirmos a meio coisas tipo – “Te gusta mi polla, cariño?” e outras preciosidades na língua de Cervantes.

No nosso caso particular, penso que o ideal seria refazer a película em sistema de franchising; e de preferência rodada ali para os lados de Almeirim.

Joaquim de Almeida e Diogo Infante fariam uma bela dupla, digna da produção nacional “Lezíria Sem Fim”. A história do garboso maioral Amílcar, que durante uma exibição de sapateado na feira da Golegã, se perde de amores pelo traseiro torneado de Manuel; um jovem campino e moço de forcados com prometedoras e saltitantes aptidões.

Voltando ao filme. O realizador trata a realidade de um modo “soft” e sem fluidos, aparecendo até o simpático Randy Quaid, que encarna o típico patrão benevolente e tolerante, e que os interpela a certa altura - "You guys sure found a way to make the time pass up there. You weren't getting paid to let the dogs guard the sheep while you stemmed the rose." – Sem dúvida o rei do eufemismo.

Vocês imaginam um cabo de forcados a dizer isso ao “1ª ajuda” e ao “rabejador”, apanhados na galhofa bem ao fundo do balneário? Ou mesmo um pato-bravo dirigindo-se a dois ladrilhadores apaixonados?

Considero este filme um herdeiro da velha tradição shakespeariana em que se representava Romeu & Julieta apenas com homens. Está bem feito, mas não me convence…

Porém, a visualização de Brokeback Mountain deixou duas coisas…

A primeira foi ter compreendido tratar-se apenas de mais uma história de amor, que poderia ter acontecido também entre duas mulheres ou entre heterossexuais de religiões ou mesmo clubes desportivos diferentes.

A segunda é achar que a grande maioria da comunidade gay vai passar a fumar Marlboro. Isto, se não o faziam já...

Música de Fundo
Cotton Eye Joe” – Rednex

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