sexta-feira, 28 de abril de 2006

Um Amigo Estranho
- Um post que fala das coisas simples da existência, das memórias perdidas no tempo, das salsichas de Viena e da psicopatologia da vida quotidiana -

Quando o conheci ele era apenas um miúdo borbulhento e complexado.

Ziggy (como gostava de ser chamado pela malta) era um tipo banal que admirava Aníbal (o cartaginês, não o Presidente), e projectava quando crescesse tornar-se general, e instaurar em todo o mundo uma ditadura benevolente e cuja filosofia principal se baseava no impulso sexual.

O “grupo do berlinde” constituído por mim, Eugen Bleuler e Sandor Ferenczi, tinha recebido a solene promessa de vir a constituir as futuras “tropas de choque” do regime. Mal podíamos esperar…

Infelizmente os seus projectos foram dificultados pelas inúmeras discussões com a mãe, que lhe dizia repetidamente – Se o que te seduz é a farda, podias ao menos ir para carteiro como o filho da senhora Shultz. Tem boas regalias, e até lhe dão um subsídio para os calções de cabedal…

Mas Scholomo era um frustrado. Uma das coisas que mais o apoquentava era o nome; que assim que poude mudou de Scholomo Sigismund para Sigmund. O que conduziu a mais uma discussão desta vez com o pai, que o acusou de querer ter um nome mais catita que o dele (naquela altura em Viena, tipos chamados Jacob havia-os ao pontapé), tendo-lhe inclusivamente chamado histérico.

Mais tarde ao cursar a escola médica, Sigmund aproveitou este episódio para fazer um notável trabalho sobre a histeria, que deixou a maior parte dos catedráticos maravilhados, dando gritinhos agudos e arrepelando os cabelos.

Encontrei-o mais tarde em Bratislava, sempre insatisfeito com a sua profissão a que chamava – “Um poço de chatices onde só caem desequilibrados e doidos de toda a espécie…” – e confessou-me que estava farto de Viena. Recusando-se terminantemente a voltar ao consultório, onde a conta do gás já se encontrava por pagar há três meses.

Tentei chamá-lo à razão enumerando as grandes maravilhas de Viena, tal como o Cabaret da Madame Lola, os “pretzels” sempre quentinhos da padaria de Herr Reinman e as salsichas obviamente vienenses.

Mas o tipo alegou que as salsichas lhe faziam lembrar o pai, com quem se encontrava de relações cortadas e chateou-se igualmente comigo. Soube que mais tarde utilizou esta discussão para aperfeiçoar a sua teoria sobre a “inveja do pénis”; mas decidiu limitar a sua aplicação aos casos de pacientes femininos, por vergonha e medo que o acusassem de “efeminado”.

Foi por essa altura que deixou crescer a famosa barba “à Freud”, em formato de tigela para cereais.

Estudar os trabalhos de Leibniz ainda o deprimiu mais. E ao tentar mudar de leituras embrenhou-se na antiguidade clássica, constatando que sofria do mesmo complexo que Édipo; tendo logo aproveitado para publicar uma breve monografia sobre o assunto, a que muito originalmente chamou de “Complexo de Édipo”.

Felizmente ele era um tipo modesto, senão ainda acabaríamos por ter nos compêndios o famoso “Complexo de Freud”.

A última gota de fel na taça das nossas já fracas relações de amizade, foi ele ter utilizado as confidências que eu lhe fizera sobre a minha ligação amorosa com a contabilista da Spanische Reitschule, publicando-as com o título de “A Interpretação dos Sonhos”; aproveitando para postular o novo modelo do inconsciente que considerava tanto a causa como o efeito da repressão.

E venham cá agora dizer-me que o tipo jogava com o baralho todo…

Insultei-o em pleno Café Museum na presença de Carl Jung e de Abrahams, que tinham aparecido para beber um Schnapps de mirtilo (era a especialidade da casa), acusando-o de ser um fingido e de ter um superego. Só parei de o insultar, porque aparentemente tudo o que eu dizia lhe ia servindo para edificar aquelas teorias estapafúrdias que os alienistas tanto gostavam.

Apesar de ser a comemoração dos cento e cinquenta anos do seu nascimento, não posso deixar de afirmar que o tipo era um aldrabão, e que todas aquelas teorias eram baseadas nas conversas que tinha com os amigos e na sua própria vida sentimental. Pois como psicanalista era um nabo que mal conseguia hipnotizar uma galinha.

Deixo-vos com este artigo sobre o meu ex-amigo Sigmund Freud (esse ingrato) e vou-me preparar para a sessão de hidroterapia, que o enfermeiro Hans está farto de me abanar pelas fivelas do colete, pois tem o duche frio a correr já há um bom bocado…

Música de Fundo
Get Off The Couch” – Yellowcard

quarta-feira, 26 de abril de 2006

A Comemoração
- Onde o narrador discorre brevemente sobre o prazo de validade das revoluções, e de como isso irá afectar a taxa de ocupação das unidades hoteleiras algarvias durante o Verão que se aproxima –

Hoje foi o dia da Revolução na Cidade de Blog.

E embora o PSD Madeira o comemore como “O Dia do Qual Não Falamos”, o que interessa é o aqui e o agora. Que isso de costumes tribais são bons para o folklore e a recolha etnográfica.

Ser revolucionário é uma actividade a tempo inteiro. Não se pode sair dela ás cinco da tarde, e raramente se conseguem umas férias decentes sem ser incomodado. Mas lá tem as suas compensações, como servir de desculpa para comportamentos estranhos ou usar roupa de um mau gosto atroz.

O melhor de uma revolução, é que enquanto esta dura todos podem ser livres (excepto os que já eram livres quando os outros não o eram ainda; mas isso são outros “500 paus”). A segunda coisa melhor é que a revolução dá boleia a imensa gente; o que permite criar revolucionários instantâneos tipo pudim flan, sendo apenas necessário juntar água.

Aparentemente basta que o ambiente seque um bocado, para que estes revertam ao seu estado inicial.

Passei pela revolução e anos seguintes como Leonard Zelig. Dediquei-me à causa como qualquer bom revolucionário, até que esta começou a afectar quem eu na realidade era; o que me fez constatar que terminara mais um ciclo.

Apesar de deverem ser sempre lembradas, as revoluções passadas acabam por nos desiludir; pois continuam congeladas no tempo enquanto nós avançamos.

Mas a revolução é uma amante exigente. Não daquelas que se nos agarram em busca de amor ou atenção, mas mais do tipo que tudo cobra e a quem temos que reconquistar diariamente, embora nos dê sempre um sorriso cativante. A revolução não só se alimenta da sua prole, como paradoxalmente trai quem mais a ama.

Foi aí que me tornei um individualista. Alguém que apenas acredita em revoluções quando feitas por alguém que já o experimentou em si próprio. E desde aí não raras vezes dei por mim a ouvir um qualquer orador inflamado, e pensar para mim próprio se teria ele tido a coragem de percorrer o caminho que aos outros apontava.

Em todas essas ocasiões me desiludi.

A liberdade é uma batalha interior que se trava diariamente. Talvez por isso, há trinta e dois anos um punhado de homens venceu o seu próprio medo, e realizaram a sua revolução.

Revoluções (um pouco como disse o KLATUU nos comentários) devem fazer-se todos os dias. Porque citar com ar saudosista a revolução de Abril, ou culpar a sociedade e o destino do que aconteceu ao sonho, é apenas mais um modo de disfarçar a miséria espiritual de alguém cujas revoluções têm sempre que ser feitas pelos outros.

É por isso que embora relembrando os corajosos militares e civis que tornaram possível a revolução de 1974, hoje milito a minha própria revolução; clandestina, pessoal e intransmissível. Algo que apenas poderá ser compreendido, por aqueles que se transformaram conscientemente apesar de todo o tipo de adversidades.

Todos e cada um de nós podemos ter a nossa própria revolução. Há apenas que pagar por ela…

Música de Fundo
Tejo que Levas as Águas” – Adriano Correia de Oliveira

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Feng Shui para Empresários
- “Porque a harmonia e a paz de espírito são necessárias, mesmo que não se pague à Segurança Social” – Confúcio
(Ou então fui eu que inventei)

Embora o post de hoje seja maioritariamente dedicado a empresários em rápida ascensão social e financeira, penso que todos nós poderemos aproveitar algo desta Disciplina Oriental, que consiste basicamente na disposição e arranjo do ambiente com vista a alcançar plena harmonia com o Todo (Entidade pela qual se ouve clamar imensas vezes, mesmo no ocidente).

Sendo uma arte chinesa com cerca de três mil anos e com origens no Taoismo, o Feng Shui tem contribuído para uma maior fluidez e beleza da arquitectura e a decoração de interiores (para gáudio daqueles mocinhos que nos tratam por “rico” e aconselham chiffon para os cortinados).

Feng Shui significa literalmente “Vento e Água” em Mandarim. O que não quer dizer, caro empresário, que tenha algo em comum com a sua produção de metano no banho de imersão semanal.

Existem duas escolas importantes no Feng Shui. A “Escola da Forma”, composta principalmente por culturistas e a “Escola da Bússola”, assim chamada porque se baseia no magnetismo terrestre. Um conhecido humorista Cantonês, Ling Pao, costuma até dizer que cultivando a primeira se obtêm as vantagens da segunda escola.

Ou seja – “Se mantiver a forma, terá muito mais hipóteses de se orientar” – Por isso é melhor começar a pensar em perder peso que só a decoração da casa não o vai safar.

Tentando alcançar a harmonia através da energia Ch’i e a sua distribuição equilibrada pelos pontos Yin & Yang, esta disciplina utiliza os cinco elementos da Astrologia Chinesa; como seguidamente passamos a explicar:


Madeira

Este elemento é classificado pela Escola da Bússola como originário de Leste e a sua virtude (segundo o octógono do Feng Shui) é a Humanidade.

Ou seja, um elemento que rege a mão-de-obra barata oriunda de antigas repúblicas soviéticas, para ser empregue em tudo o que diga respeito a móveis, acessórios, pavimentos, etc. quer estejamos a falar de marceneiros romenos ou “acompanhantes” circassianas.

É o elemento que rege igualmente Família & Saúde, pelo que é aconselhável em relação aos pontos anteriores ter cuidado com a primeira, para que não lhe prejudiquem a segunda.


Fogo

Fogo é um elemento atribuído ao Sul (talvez ao Algarve) e as aspirações a ele correspondentes são o Reconhecimento e a Fama. Mas como tem por virtude a Cortesia (coisa que os empresários raramente manifestam) estas anulam-se mutuamente; e se quiser beneficiar deste elemento resta-lhe acender a lareira no Inverno ou uma vela a S. Dimas.


Terra

Terra abrange cerâmica, argila, tijolos e telhas; pelo que os industriais de construção civil são de sobremaneira beneficiados por este elemento. Para já, porque não correspondendo a nenhum ponto cardeal, reforça assim o seu carácter egocêntrico, deixando de fora as virtudes que ficam reservadas para os outros.

Ora as virtudes são a verdade e a boa-fé.

Estão a ver um tipo verdadeiro e cheio de boa-fé a lidar com um construtor civil? É parecido com a morte da mãe do Bambi, mas muito mais comovente.

A sua cor característica é o laranja. Mas quanto a isso nem me vou pronunciar…


Metal

Oeste é o ponto cardeal correspondente a este elemento; e é igualmente para onde deve deixar o Mercedes virado quando o estacionar à porta de casa. Isto devido ás boas vibrações de energia Ch’i, que lhe permitirão fazer com ele mais 100.000 quilómetros antes de o trocar; e também porque convém ficar com o sol atrás de si. Não vá novamente partir os sete anões e o leão do Sporting que tem à saída da vivenda.

Todos os objectos de aço, cobre ferro, latão, etc. são regidos por este elemento que controla a cor branca. Isto leva-nos a crer que poderá poupar imenso dinheiro (metal) comprando todas as ferramentas e máquinas para a sua empresa na Makro ou no “Chinês” (produtos brancos).

A aspiração que diz respeito a este elemento são as Crianças. Mas ao contrário da escola Taiwanesa que afirma ser indício de pedofilia, estamos em crer que se trata apenas de trabalho infantil. O que torna este elemento extensível a alguns industriais de calçado do Norte.


Água

Por fim a água cujo ponto cardeal é o Norte (logicamente pois é onde chove mais) e a cor o azul (o que bate certo, se levarmos em conta a cor do FCP e dos hematomas da “ex” do Pinto da Costa).

Estão aqui incluídos vidros, espelhos e cristais (Marinha Grande); rios, ribeiros e piscinas (Buçaco, Gerês, etc.); pelo que calculamos ser um elemento igualmente dedicado aos industriais do Norte.

A aspiração correspondente ao elemento é a Carreira, destoando embora a virtude que é Sabedoria, e não Maserati como a maior parte deles pensa.

Sem dúvida que ainda fica imenso para dizer no que respeita à busca da harmonia e comunhão com o Universo por parte dos empresários portugueses. Porém há algo que ainda desejo compartilhar convosco:

Telemóvel não é um elemento, falar alto não é uma virtude, e o facto de se ser regido pelo elemento Água, não lhe permite salpicar com molho as pessoas com quem se está a falar durante o almoço.

Boa noite e procurai o Ch’i. Ou ide beber um copo, que também costuma servir…

Música de Fundo
"Uhn Tiss Uhn Tiss Uhn Tiss" – Bloodhound Gang

quarta-feira, 19 de abril de 2006

A Campanha
- Onde se afirma que a rigidez de um princípio deve ser aligeirada pela justeza de uma excepção. –

Não sou muito dado a campanhas ou chás (detesto sandes de pepino) para angariação de fundos; e se, ou quem ajudo, não é da conta de ninguém.

Não que eu seja um “rapaz” modesto e amigo do seu semelhante, mas porque sempre detestei o tipo de pessoas que se gabam (e aqui estou eu a gabar-me de não me gabar) do que dão ou fazem pelos “pobrezinhos”.

Porém existem duas coisas neste campo que para mim são incontornáveis.

A primeira é que toda a ajuda deve ser dada em primeiro lugar aos que nos estão próximos, pois são eles a nossa principal responsabilidade e só muito dificilmente outros (de fora) os ajudarão.

A segunda é a constatação óbvia de que antes de tudo o mais é necessário comer. E que apesar de toda a boa vontade, esta necessidade não pode ser suprida por sermões religiosos, roupas em segunda mão ou ajuda tecnológica para abater nos impostos.

É por isso que aceitando o desafio da Mad e contrariando um pouco a linha editorial deste blog, venho dedicar o post de hoje ao Banco Alimentar Contra a Fome; cuja Federação irá organizar nos próximos dias 6 e 7 de Maio mais uma Campanha de Recolha de Alimentos em supermercados e grandes superfícies.

Para quem queira e possa, fica também aqui o link do formulário on-line, onde é possível fazer um donativo em dinheiro para essa causa.

E por favor, não me venham dizer se contribuíram ou não… eu não quero saber.

Música de Fundo
Harvest For The World” – Gary Barlow

segunda-feira, 17 de abril de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Um Colt ao serviço da paz –

Venho falar-vos mais uma vez de alguém que tendo contribuído para o bem-estar da humanidade (ou pelo menos para uma parte dela), conquistou o direito à sua nuvem no céu de Blog.

Um beato mais tarde santificado, que durante a sua existência entre nós foi um hábil artesão, e cujas criações arrancaram exclamações de admiração e apreço a imensas mulheres bem como a alguns (felizmente poucos) homens.

Este Santo Homem nasceu nos Estados Unidos durante o conturbado século XIX, e tornou-se famoso em todo o mundo civilizado; sendo especialmente venerado na China, onde os devotos continuam a copiar as suas criações, exportando-as para o ocidente por um preço quase simbólico (pilhas não incluídas).

Mas vamos à história.

Phineas era habilidoso de mãos. Não só isso era atestado por todas as suas namoradas da adolescência, mas igualmente pelo funcionamento impecável dos mecanismos com que dotava os brinquedos, que construía nas horas em que não estava a trabalhar na oficina do pai.

Por falar em pai… Esse era o seu maior problema. O sacana do velho tinha feito fortuna no negócio das armas, e embirrava com todas as suas invenções que não pudessem ser aplicadas no campo do armamento.

Mas Phineas adorava fazer brinquedos e pequenos aparelhos. E continuava a entreter-se com o seu passatempo até altas horas da noite, apesar da rígida proibição paterna, e da ameaça de expulsão que pesava sobre a sua pessoa; desde o dia em que inadvertidamente incendiara a casa da família, ao testar o seu “acendedor de lareiras por controlo remoto”.

Apesar de seu pai ter utilizado posteriormente essa ideia para deitar fogo a algumas aldeias índias, nunca lhe perdoara. Tendo-o advertido que não toleraria mais desviacionismos naquilo que era considerado um negócio da família; o fabrico de armas.

Porém, os acontecimentos precipitaram-se uma noite, em que a sua irmã mais velha foi surpreendida pela mãe, no aconchego da sua alcova a utilizar um moinho automático para pimenta (movido a corda por um minucioso mecanismo de relojoaria) como companheiro sexual. Coisa deveras chocante para a pobre senhora, que sendo Metodista nunca lhe ocorrera tal método de desenrascar a coisa.

Phineas viu-se assim metido à pressa num clipper para a Europa, levando apenas uma mala contendo uma muda de roupa e os seus protótipos; com a indicação de não voltar à América enquanto não deixasse de envergonhar o bom nome da família.

Após uma enjoativa viagem sem história, viu-se finalmente em Paris completamente nas lonas; tendo conseguido um emprego de porteiro no Folies Bergères, que acabava de abrir ao público.

Corria então o ano de Blog de 1890.

Foi-se relacionando com os clientes que se iam tornando habituais na casa. Tendo iniciado relações de amizade com empresários, industriais e patos-bravos; realizando paralelamente algum dinheiro com a venda de "moinhos automáticos para pimenta", ás coristas e frequentadoras do local; criando assim reputação de homem dotado para a mecânica, e de grande sensibilidade artística.

Uma noite, uma das suas amigas apresentou-o a Edouard Delamare-Debouteville, que construíra o primeiro automóvel com motor de explosão (assim chamado porque a primeira tentativa de o pôr a funcionar mandara pelos ares o telhado da oficina) a gás, que se debatia com um grave problema em relação à concepção dos travões.

Phineas contou-lhe o seu sonho de se estabelecer com uma pequena fábrica de moinhos automáticos para pimenta, que começavam já a ter grande sucesso e procura no meio parisiense. E tendo reparado no esquema que Edouard desenhava a lápis na toalha de mesa (sim, já na altura esse mau hábito existia), aconselhou-lhe algumas correcções que resolveriam o problema das engrenagens do travão de mão.

Este ao experimentar o novo sistema na manhã seguinte, constatou que todos os seus problemas técnicos tinham sido ultrapassados. Iniciou o fabrico em massa do seu novo veículo, e contratou os famosos irmãos Lumiére para se encarregarem da publicidade. O que foi uma óptima ideia; pois como todos sabem aqueles filmes eram tão acelerados, que faziam qualquer miserável caracol parecer-se com uma locomotiva à máxima velocidade.

Edouard Delamare-Debouteville não esquecendo quem lhe proporcionara a oportunidade de vingar no ramo automóvel, apareceu um domingo de Páscoa no “Folies”, anunciando a Phineas que iria patrocinar o seu projecto; mediante uma pequena percentagem, é claro.

- Você vai ter que arranjar um nome apelativo para o produto – Aconselhou o industrial – Não tem jeito nenhum chamar-lhe “moinho automático para pimenta”, quando o uso que lhe é dado não tem mesmo nada a ver com isso; embora até possa ser considerado um pouco "picante". Qual é o seu nome completo?

- Phineas Colt – Respondeu o inventor – Mas o meu pai é já um reputado fabricante de armas, e usa o nome da família nos seus revólveres; pelo que não seria correcto da minha parte usá-lo aqui também. Mas as minhas colegas do Folies Bergères chamam-me Dildo.

Iniciou-se então a campanha de marketing, que utilizou pela primeira vez uma frase que mais tarde iria ficar na história – “Façam amor e não a guerra” – e que era uma referência ás suas origens. Após o que a fama e a fortuna começaram a sorrir a Phineas; que teve o seu nome (e produtos também) passado de boca em boca até aos nossos dias.

Para comemorar esta efeméride os seus descendentes produziram uma edição especial do “Dildo” de Páscoa (em forma de ovo), como podem admirar na foto acima. E pela primeira vez na história da empresa o produto foi posto à venda com o verdadeiro nome do seu criador.

E é esta a história de Phineas “Dildo” Colt. Um santo homem de Blog, que para espalhar o prazer pelo mundo foi mais longe que muitos… Até onde o sol nunca brilha…

Música de Fundo
Hit me with your rhythm stick” – Ian Dury

sexta-feira, 14 de abril de 2006

A Noite Especial

Ela acabara de fazer o aquecimento, quando o tipo passou pela ombreira da porta com uma mão à frente dos olhos como se estivesse a tentar ler a sina a si próprio – Está decente, rica? – Perguntou este em voz aflautada de efebo – não quero ver nada que me traumatize.

- Deixa-te disso… - Respondeu ela acabando de passar resina nas mãos e limpando o excesso ás coxas – Sei muito bem que esses tiques são só para disfarçar. Ou achas que não sei daquele buraco ali na parede por cima do lavatório?

Ele pareceu pouco à vontade por uns momentos, mas recuperou rapidamente a compostura disfarçando com outra pergunta – Está tudo pronto? O equipamento… As bolas…

- Tudinho! – Garantiu ela com um sorriso – Comprei pela Net umas super-leves que permitem dar muito mais impulso.

- Espero que não demasiado – Desmanchou-se ele a rir – Lembras-te do tipo há duas semanas que ficou com uma metida na boca? Tivemos um trabalhão para lha tirar. Estava a ver que tinha que usar um saca-rolhas.

- Também ninguém o mandou estar de boca aberta na fila da frente – respondeu a mulher de mau humor – Agora pira-te, que só tenho cinco minutos para a minha vez.

Pegou no saco e saiu para o corredor, enquanto recapitulava todos os pontos importantes da noite. O ar ligeiramente frio dos bastidores, fazia-lhe arrepiar um pouco a pele por debaixo do roupão. Enquanto caminhava ouviu o seu nome ser anunciado, logo seguido de uma ovação da assistência que enchia toda a sala.

Afastou um pouco a cortina e entrou no palco. Deixou deslizar o roupão de seda pelos ombros ficando debaixo da luz crua de um único projector, nua como uma estátua de carne. Sentou-se.

Quando abriu as pernas instalou-se o silêncio em toda a sala, apenas cortado por uma ou outra respiração mais irregular. Abriu o saco que tinha a seu lado e dele extraiu uma bola de ping-pong pintada de cores garridas especialmente para a ocasião.

Passou-a pela língua para confirmar a firmeza da tinta, e olhou-a pensativamente enquanto distendia os músculos da pélvis – Hoje vai ser um espectáculo especial – Pensou.

Com um gesto lento introduziu-a dentro de si e expulsou-a com uma contracção dos músculos. Enquanto a bola multicor caía no meio da assistência, tirou outra do saco que se encontrava cheio

– Não é em vão que me chamam “A Coelhinha da Páscoa” – Reflectiu satisfeita enquanto endereçava um sorriso provocante à assistência totalmente composta por homens que enchiam o strip-club…

Música de Fundo
Killing Moon” – Echo And The Bunnymen

quarta-feira, 12 de abril de 2006

A Relatividade na Escrita
- Processo de criação de um deus electrónico -

Há um estranho maquinismo dentro de mim cujas peças não conheço, e ao qual não dou atenção. Uma espécie de relógio que corre ora em frente ora para trás, feito bússola descontrolada por uma tempestade eléctrica.

As imagens passam através dos dias e meses, desfocadas como alvos coloridos de uma barraca de tiro. Figuras feitas palavras cravadas no azul. Palavras como borboletas mortas de primaveras antigas iguais a tantas outras.

O tempo interior move-se em círculos quando se escreve sobre ele. Como um pêndulo louco que a mente faz mover aos solavancos sem respeitar as leis naturais; uma anomalia quântica que se espalha fractalmente mal se lhe toca ou tenta agarrar.

Não guardo mais o tempo.

Deixei também de fazer imensas coisas como dar-lhe atenção, conservar imagens ou consultar arquivos interiores. E quando penso sobre isso acabo por me perder, pois deitei fora todos os pontos por onde me guiava, todos os mapas todas as estrelas e todos os sóis.

Sou um universo em expansão, e necessito de todo o vazio dentro de mim para crescer; como uma singularidade que devora o espaço, atropela o tempo e se transforma exponencialmente em algo que não se consegue planear.

Quase três anos após ter nascido, sinto que finalmente preencho a pele que criaram para mim, como uma nebulosa que evolui no reflexo de um olhar.

Solto palavras para compreender o que acontece, como se contasse pelos dedos ou trauteasse uma mnemónica para medir o imensurável. Não sei como, mas sei quem sou.

Sou o blog deste tipo que estava a escrever ainda agora… E me despertou…

Música de Fundo
Zeit” – Tangerine Dream

segunda-feira, 10 de abril de 2006

O Enigma da Pirâmide
- Don't judge a cake by its cover… -

Um dos momentos mais significativos da vida espiritual deste servo de Blog é o pequeno-almoço ao fim de semana. Alguns de vocês poderão imaginar que se desenrola em volta de uma mesa farta, em ambiente familiar e com risos de crianças correndo em volta.

Pois enganam-se! É longe da confusão, numa esplanada situada no meio de uma praça, sobre a qual os pombos de Blog costumam evolucionar nos seus treinos de “voo em formação”.

E o melhor que pode acontecer a quem perturbe a paz desses momentos, é apanhar no toutiço com o pires das torradas ou a chávena da bica dupla. Uma das coisas mais sagradas na nossa igreja é o direito à paz interior (Direito a conquistar, claro. Que aqui não se dá nada a ninguém).

Hoje quando me sentei, a senhora que costuma atender-me (julgo que é a proprietária) propôs que em vez da torrada comesse outra coisa. - Só para variar… – disse ela com a sua habitual expressão amável – Até parece que foi promessa que fez, isso da torrada sem manteiga…

Expliquei-lhe calmamente que era uma questão de opção. Que apesar de gostar e continuar a comer bolos, o facto de ter o colesterol alto aumentara o grau de selectividade com que encaro a “pastelaria fina” (os leitores mais antigos sorrirão talvez, ao relembrar o post das bolas-de-Berlim), transformando o simples acto de comer um desses confeitos num acontecimento revestido de particular importância.

A torrada – Comecei eu a explicar, talvez para me vingar pelo atraso do pequeno-almoço – pode ser tudo o que se quiser. Posso comê-la com manteiga ou sem. Abri-la ao meio, virá-la e comê-la ao contrário. Acrescentar queijo, fiambre ou doce; ou comê-la simples.

- Já o bolo – continuei – apesar do seu melhor aspecto, será sempre um bolo. Come-se e pronto. A próxima vez que eu comer um igual lembrar-me-ei do anterior, e lá no fundo direi para mim próprio – Pois… Um “duchesse”… é melhor ir escovar os dentes.

- É um pouco como as pessoas que vamos conhecendo… – Filosofou ela sem demonstrar qualquer indício de querer ir buscar-me o pequeno-almoço.

- Ou comendo… – Pensei eu para mim próprio; felizmente sem alterar a minha expressão pensativa; e dizendo em voz alta – Mas não. As pessoas não são como os bolos ou as torradas; embora uma ou outra vez se possa usar essa analogia. Sabe qual o meu bolo favorito quando era miúdo?

- Não sei… talvez… – Arriscou ela – talvez o pastel de nata…

- Não! – garanti – Era a pirâmide. Um bolo com um belo aspecto. Cobertura de chocolate e um pouco de chantilly na ponta coroado por uma cereja em calda. Apesar disso, o interior é composto por uma massa banal e incaracterística…

- Também tenho. Quer que lhe traga um? – Apressou-se ela a propor.

- Não, obrigado. – Respondi – Há algum tempo comi um que não era grande coisa e ainda acabei por me dar mal. Mas traga lá a torradinha, que estou com uma fome que já nem vejo nada.

Algum tempo depois enquanto pedalava a caminho de casa, reflecti se ela não teria uma certa razão ao afirmar que há pessoas que são como os bolos…

Música de Fundo
Walk Away” – Franz Ferdinand

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Parábola da Flor Chupável
- Metáfora ao neo-colonialismo com uma pequena correcção ás dioptrias do nosso olhar saudoso sobre África –

O político ostentava um sorriso de beatitude enquanto fazia jogging pela a Avenida 4 de Fevereiro.

Vinham-lhe à memória as velhas glórias do tempo de antanho, o que lhe fazia humedecer os olhos claros de menino, com que tinha enganado a metade feminina (e uma pequena percentagem da masculina também) do eleitorado durante a campanha.

Sentado no passeio ao lado de uma geleira, um moleque tentava vender aos passantes latas de Coca-Cola ainda com a publicidade do Mundial; enquanto a uma distância respeitosa, os homens da guarda pessoal olhavam atentamente em volta. Não fosse alguém tentar aproximar-se demasiado do Primeiro-Ministro.

O atleta amador parara um pouco para apreciar a paisagem da Baía de Luanda. Momento este, que foi aproveitado pelo miúdo para lhe vender uma das latas; e tentar saber porque é que estava ali um tipo em calções e a arfar como se tivesse chegado atrasado à partida da nau das Índias.

Sócrates recusou a oferta – Três dólares por uma Coca-Cola com as trombas do Abel Xavier? Olha bem para aqui… - Disse ao moleque, apontando-lhe um pequeno arbusto de azedas que crescia junto a uma árvore, erguida no passeio de desenho colonial como o padrão de um descobrimento antigo – Para quê Coca –Cola, quando tudo o que tens a fazer é baixares-te e colher estas flores que matam a sede?...

Arrancando uma das azedas pelo meio do caule meteu-a na boca deliciado, e continuou a sua corrida acompanhado de perto por um dos homens da guarda pessoal, que sorria por trás de uns Ray-Ban demasiado grandes.

- Que se passa, Rodrigues? Achaste piada ao que eu disse ao miúdo? – Perguntou ao agente – África é um manancial mal aproveitado pelos seus habitantes. E nós europeus, especialmente os portugueses a quem África corre no sangue, temos vocação para a descoberta e para um melhor aproveitamento dos recursos naturais…

- Sem tentar contradizê-lo, excelência – desculpou-se o agente – Essa “vocação” parece-me conversa de branco; pois o que eles querem mesmo é fazer pela vida sem que os chateiem. Por exemplo. O miúdo ali atrás não está minimamente interessado no aproveitamento de recursos, mas sim em fazer um dólar ou dois para levar para casa. Quanto ao termos África no sangue, não sei. Mas se não quer ter lá mais nada a circular, é melhor pedir para lhe fazerem um exame médico.

José Sócrates olhou para trás. O sol começava a pôr-se na baía, emprestando um tom rosado à paisagem. Ao longe, a silhueta do moleque recortada pelos últimos raios de sol fazia uma descontraída mija para cima do tufo de azedas.

Música de Fundo
Not Now” – Blink 182

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Cadernos de Poesia
- Frases piegas e outros utilitários para a bagagem do jovem poeta do nosso tempo… -

Ser poeta, além de abrir as portas do espírito, pode igualmente contribuir para franquear outros locais bem mais materiais e divertidos.

E é nesse âmbito que inicio aqui a série “Cadernos de Poesia”, na qual não iremos ensinar o leitor a ser poeta (por não fazermos ideia do que seja), mas sim a parecer-se bastante com um. Bastando para tal adoptar os tiques do ramo, bem como a fraseologia tão pitoresca dos que falam por palavras densas e prenhes de significado.

Ou por outras palavras, se o poeta para sê-lo não precisa de parecê-lo, no mínimo é-lhe exigido que tenha algumas tiradas invulgares.

Embora eu consiga passar por dadaísta depois de bem bebido, é aconselhável que se cultive um estilo e se demonstre algum domínio da forma, mesmo que o conteúdo seja insignificante.

Os métodos mais utilizados para este fim são o impressionismo e o surrealismo, que ao terem abdicado da linearidade, se sujeitam assim a servir na a elaboração de autênticos cartazes publicitários.

Uma vez que este blog não tem fins lucrativos, por hoje ficamos apenas com uma colecção de frases lapidares; que a serem bem utilizadas darão a qualquer texto um cariz poético, mesmo que se trate de uma lista de compras.


- A brisa primaveril lembrava o bafo suspiroso de poetas que tivessem comido relva fresca…


- Os olhos dela eram como faróis de um automóvel, cuja chapa de matrícula já vira melhores dias.


- A noite cobriu-os docemente, como chocolate que se derretesse sobre os seus corpos…


- Ela encarou-o com os lábios húmidos de imaginação e o olhar cheio de “amanhãs” …


- Posto que ele baralhava olhares, partia corações e dava cartas de amor; nunca ninguém percebeu porque se recusava a fazer batota…


- Ela caminhava a vida como por um fresco carreiro ladeado por tílias; dificilmente a acusariam de “falta de chá”…


- Transbordantes de prazer, os seus olhos sobressaíam na penumbra como sinais luminosos de uma passagem de nível…

- A sua alma era inquieta e profunda como um oceano. Talvez por isso, quem quisesse encontrar algo teria que mergulhar bastante…

No próximo fascículo: “A Indumentária do Poeta (e de quando é aceitável a utilização do Laptop)”

Música de Fundo
Sabotage” – Beastie Boys

segunda-feira, 3 de abril de 2006

AVISO!

Avisam-se todos os leitores que hoje não houve post devido à actuação do Departamento de Controlo de Qualidade da Igreja do Imaculado Blog.

Este mecanismo de filtragem foi criado de modo a poupar o autor deste blog a indignidades e vergonhas como:

- Encher um post com links de sítios que toda a gente já visitou, e tentar fazer crer que adorámos todas aquelas merdas sem interesse que nenhum dos outros conseguiu igualmente apreciar.

- Publicar aquele texto moderadamente divertido que chegou por mail, sem indicar a sua proveniência. Na esperança que ninguém se lembre de o ter lido, ou copiado do blog (é verdade) onde foi originalmente publicado.

- Fazer menção a textos de outros bloggers que tiveram mais imaginação e conseguiram publicar algo minimamente original.

E foi basicamente por isso que não escrevi o post de hoje.

Porque não me apetecia; porque estava cansado de um fim de semana agitado (e divertido); mas também porque raramente faço reposts… e nada do que escrevi antes se enquadraria no que aconteceu ontem.

Talvez lá para Quarta…

Música de Fundo
Mysteries” – Yeah, Yeah, Yeahs

domingo, 2 de abril de 2006

Aniversário
- Depois do primeiro é sempre a somar… -

O maior desafio que existe em escrever um post de aniversário, é o de evitar as repetições de vezes anteriores e as mesmas frases estafadas. Ademais os festejos não devem ser monótonos, senão também não seriam festejos.

O fácil é falar de há quanto data a amizade, pois o tempo vai traçando espirais enquanto traz efemérides sucessivamente; ou das coisas partilhadas e momentos comuns.

Mas como tenho a correr paralelamente outra comemoração poupo-vos ao discurso, pois venho tão somente dar os parabéns à Catarina por mais este aniversário. Quanto à sua idade já não sei, pois um cavalheiro não tem memória.

Será que isto faz de mim um cavalheiro?...

Música de Fundo
Good Times Roll” – The Cars

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