quarta-feira, 31 de maio de 2006

Ao ataque, meus piratas!...
- Na Ilha das Orelhas Moucas, TheOldMan prepara-se para as férias e faz cócegas ao papagaio com a ponta do croque de abordagem -

“Fifteen men on a dead man’s chest
Yo ho ho and a bottle of rum
Drink and the devil be done for the rest
Yo ho ho and a bottle of rum"

(Robert Lewis Stevenson)

O sinal da revolta pairou sobre os oceanos transportado no grito das gaivotas, desde as praias doiradas da Isla Tortuga até à calma mortal do Mar dos Sargaços como um apelo ancestral de velhos flibusteiros.

A promessa de um prodigioso prémio fez desenferrujar os canhões e afiar o gume dos cutelos; lançando ao ataque as equipagens fantasmas há muito adormecidas nos oceanos do ciberespaço. A hora é de pilhagem e nenhum inocente estará seguro, por mais que se esconda debaixo dos saiotes de venais governadores.

Por toda a Internet os revoltosos muniram-se de programas “peer-to-peer”, como se tratassem do aprovisionamento dos galeões de velas negras. Pacatos amanuenses, mercadores e artesãos levantaram-se dos seus sofás e desenterraram do quintal as escopetas para se lançarem ao ataque.

Os D’zrt fizeram publicamente esta solene promessa – “Sempre que sacas uma música estás a contribuir para que os nossos concertos acabem”…

Por isso, neste preciso momento em que vos falo, em alguma parte deste país afectado por esse flagelo sonoro, alguém faz download de músicas deles sacrificando-se por esta justa causa.

Acabemos com os concertos dos D’zrt!

Yo ho ho, e uma garrafa de rum… (e bronzeador também)

Música de Fundo
Pirate Looks at 40” – Jack Johnson

segunda-feira, 29 de maio de 2006

A Igreja do Imaculado Blog (Série – Epifanias)
- A melhor ovelha não é a que tem mais lã, mas sim a que melhor uso faz dela (Terceira Admoestação de Blog aos Pastores Transviados) –

São bem comuns os casos de epifania e visões religiosas nas seitas da concorrência (decerto que se lembram da aparição de Joseph Smith, como humilde entregador de pizas na Charneca de Caparica). Mas até agora a nossa Igreja tem-se mantido fora desse domínio, que está mais perto do avistamento de extra-terrestres e serpentes marinhas do que de uma Fé baseada em razões filosóficas (um pouco histriónicas, também) como a nossa.

Bem sei que o relato que vos vou fazer é apresentado em segunda-mão, e a sua credibilidade está equiparada à do Código Da Vinci. Mas se pensarmos bem no caso, chegaremos à conclusão que a maior parte dos livros sagrados em circulação, têm ainda menos fiabilidade que os artigos do “24 Horas”; o que nos dá uma boa colocação na “pole position”.

Meu amo na sexta-feira esteve por momentos em sintonia com o espírito de Blog.

Não de um modo literal ou literário, pois as suas aptidões para a escrita têm habitualmente que ser revistas e editadas por mim, mas no sentido filosófico do termo.

Virou-se para mim no sábado a meio de uma discussão sobre índices de mão-de-obra e confessou – A gaja é mesmo podre de boa. Se lhe pudesse deitar a mão nem imaginas o que lhe fazia (é claro que ele desconhece a minha faceta imaginativa, bem como o facto de eu escrever neste blog).

- Foi como uma a aparição – continuou – Ela aos saltos a balir com toda aquela lã e as tetas a abanar; e eu com a mulher ao lado e a ter que fingir que estava interessado na música…

- Então – perguntei eu – foste ao “Rock in Rio” e estiveste a ver uma ovelha aos pulos?

- Qual quê… Era a Shakira – apressou-se a esclarecer com os olhinhos a brilhar – Aquilo é que é material. E tudo graças aos pontos da BP. Mas vendo bem até que parecia uma ovelha; um pouco selvagem mas meiguinha…

E ali ficou com os cotovelos apoiados na mesa de reuniões, e com o olhar perdido na máquina do Coprax, enquanto trauteava “Don’t Bother” na sua voz de cana rachada; quiçá imaginando a Shakira vestida de ovelhinha aos pulos em cima de um colchão Pikolin.

Apressei-me a tomar notas deste relato, para mais tarde apresentar no processo de canonização da cantora colombiana. Meu amo tinha tido (pela primeira vez na sua vida) um pensamento em comum comigo.

Sim irmãos. Algo que nunca vos confessei mas sempre tive guardado no meu peito, foi a esperança que ela um dia viesse a Blog e se tornasse uma das suas ovelhas. Se ao menos parasse de cantar aquelas músicas idiotas…

Mas convenhamos. Shakira até que é um nome bem jeitoso para uma ovelhinha.

***** Start Note *****

Embora não tenha a ver com este post, aproveito para dar os parabéns à Mad pelo segundo aniversário do seu blog Aliciante.

***** End Note *****

Música de Fundo
Sugar 5” – Lamb

sexta-feira, 26 de maio de 2006

O Amanhã São Cinco Dias
- Diários paranóicos (SAF 2006) -

Já há algum tempo que se começaram a manifestar pequenas mudanças no meu comportamento que eu deveria ter notado.

Apesar dos avisos mudos enviados pelos peixes que afocinhavam repetidamente, como ventosas nas paredes do aquário do meu gabinete, ignorei todos os indícios de que a habitual metamorfose se começava a efectuar.

Ao princípio comecei a sentir a tentação de embirrar com a enorme quantidade de bandeiras nacionais expostas em varandas, automóveis e roulottes de bifanas. Mas mercê de um auto-controlo enraizado em longos anos de situações afins, contive a tendência para me meter onde não era chamado e parei a tempo.

Depois foi a vez do Fred Durst. Não o líder dos Limp Bizkit mas um seu sósia, o VH, que foi contratado por três meses para assessorar Miss Entropia que por sua vez me assessora (seja lá o que isso queira dizer) a mim. E que hoje teve o seu primeiro “dia de cão”, quando lhe bateu a triste ideia de me perguntar – Então? As fériazinhas estão quase, não é?

Com o sobressalto cravei os incisivos na caneca com foto da Wendy James, encarei-o com uma expressão alucinada, e vingativamente ordenei-lhe que fosse conferir as existências do armazém. Mais tarde disse a Meu Amo que vira espuma a sair-me pelo canto da boca, mas decerto que era do café com que me engasguei ao ser atingido pela dura realidade.

Tenho apenas cinco dias para medir dois projectos, comprar um LaserFax, uma impressora e um gravador de DVD’s; fazer doze “mobiles” (trabalho de casa) cada um com três borboletas gigantes compostas por dezassete peças de cartão cada (e dois fios dourados para as antenas), e tentar ainda convencer o meu filho que a inteligência (ou o que passa por isso) não o dispensa de ter que estudar história para o próximo teste, para que não tenha que passar o Verão mais miserável da sua ainda curta existência.

Entro em férias dia 1 de Junho (primeira tranche).

Devia ser o homem mais feliz do mundo, mas não consigo sequer qualificar-me entre os dez primeiros; pois o universo possivelmente acabará em caos se eu não deixar tudo despachado até lá.

Estou novamente a ser vítima do Sindroma de Aproximação das Férias (SAF 2006), que nos próximos cinco dias me transformará gradualmente num misto de Adolph Hitler e Torquemada (com um laivo de Groucho Marx quando atendo o telefone).

Assim, peço-vos que tenhais um pouco de paciência comigo. Pois os meus próximos dois posts terão fortes possibilidades de parecerem ter sido escritos por Inês Pedrosa ou Marques Mendes (o que em qualquer dos casos será desastroso).

O Apóstolo já me confidenciou que todas as noites reza a Blog pelo meu breve restabelecimento e pelo desempenho da Selecção Nacional. A avaliar pelo resultado que tivemos no último mundial, devo estar mesmo condenado…

Música de Fundo
Holidays in The Sun” – Sex Pistols

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Folhetim PIDE (Seduzida & Abandonada)
- Segundo episódio de uma história bem banal, para edificação moral de sopeiras e magalas (o que vier primeiro) -

Da última vez que ligámos a telefonia, a nossa heroína debatia-se sob as investidas foto voltaicas do Pide Tinoco, que a meio de um interrogatório a Faustino da Conceição descobrira que o amor não é só feito de romantismo mas também de enormes facturas da Companhia da Electricidade. O que lhe pode vir a sair bem caro…

**** (Sinopse do Segundo Episódio)

Ainda não tinham soado os últimos acordes de “Come Prima” de “Marino Marini ed il suo Quartetto”, e já a Coxinha se sentia percorrida por espasmos incontroláveis causados pelo mau isolamento do membro do PC (quando digo “o membro”, quero dizer “elemento”) que o Pide Tinoco inadvertidamente deixara escapar para dentro do seu quarto.

Foi nessa altura que os fusíveis da Pensão Otília deram o berro, igualmente acompanhados por outro berro, este do Pide Tinoco que involuntariamente se agarrara à cabeceira da cama de ferro, ficando a estrebuchar sobre o corpo da Coxinha, como se fosse a lona de uma tenda batida pelo vento.

A pobre inexperiente ao sentir-se percorrida pela corrente eléctrica enquanto os dentes lhe batiam como castanholas ao som da cama de ferro que guinchava como uma fadista, pensou que era amor.

A partir daí foi um “vê se te avias” de romantismo.

Ele era longos passeios no Comboio Fantasma da Feira Popular (ainda em Entrecampos), piqueniques no Jardim da Estrela (o paraíso dos exibicionistas) e pequenas escapadelas até ao emprego do Tinoco para uma “rapidinha” em qualquer cela vazia ou na sala dos interrogatórios debaixo do holofote de 1500 Watts (ou “o farol”, como era conhecido entre os arguidos).

A vida da Coxinha modificou-se radicalmente.

Deixou de coxear (era treta, já se vê), passou a ser vista na Brasileira do Chiado a tomar chá todos os dias, e de vez em quando até denunciava um ou outro vizinho à polícia política para que o seu “Tinoní” (como ela carinhosamente chamava ao jovem agente) pudesse continuar a manter o emprego; pois por esta altura devido à eficiência do nosso herói os verdadeiros comunistas eram já escassos.

Corria a vida (e a Coxinha também) como um maravilhoso carrossel, em que só soavam mambos e outras músicas foleiras.

Mas chega um dia em que as tardes soalheiras acabam por se transformar em frias e nevoentas madrugadas, especialmente na efémera existência dos heróis novelescos. E uma bela sexta-feira em que a Coxinha (mantivera a alcunha por razões sentimentais) decidiu ir buscar o seu Pide ao emprego, encontrou-o a meio de uma elaborada tortura cuja “cliente” tinha um aspecto muito diferente do “partisan” comum.

No desconhecimento dos olhos marejados de lágrimas que o observavam, o Pide Tinoco aplicava-se a fundo nos truques da velha Escola Japonesa, com uma jovem estudante de Belas Artes que descobrira numa colagem nocturna e se viera a revelar uma apreciadora do Sadomasoquismo.

Com o coração estrangulado pela dor e cega pelas lágrimas, a coxinha correu como louca pela Rua do Alecrim abaixo quase dando uma marrada no “eléctrico” Nº 28 com destino ao Arco do Cego (rebaptizado nos nossos dias para “Arco do Invisual” em nome do politicamente correcto).

Entrou como um furacão pela Pensão Otília adentro e atirou-se para cima da ruidosa cama de ferro, sacudida por soluços de raiva e ávida de vingança; enquanto lhe soavam ainda nos ouvidos os gemidos da futura pintora (que anos depois, e devido ás torturas da sua juventude, só seria capaz de pintar retratos de horríveis mulheres-a-dias cheias de esteróides).
Mas a vingança não se faria esperar...

**** (Fim da sinopse do Segundo Episódio)

Será que a coxinha para se vingar do seu traiçoeiro amante, entregará a sua virgindade (a 2ª) ao ceguinho Osvaldo em troca de acompanhamento ao acordeão para o romance de cordel com a sua desdita, que irá gritar em plena rua Augusta enquanto agita um púcaro de esmalte com moedas? (Uff! É preciso fôlego para ler esta frase toda de uma vez)

Será que o Pide Tinoco (um possível antepassado do Tino de Rãs) continuará a interrogar ás sextas-feiras a sua pintora-estudante comunista e Sadomasoquista? Será ela uma verdadeira estudante, ou terá já a escola toda?...

Só Blog o sabe… Por isso não percam os próximos capítulos (ou as sinopses) do Folhetim Pide. Uma novela feita aos empurrões. Que é como deve ser feito tudo o que se faz por gosto.

Música de Fundo
On The Cover Of The Rolling Stone” – Doctor Hook And The Medicine Show

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Maravilhas da Natureza
- Á descoberta do mundo com TheOldMan em directo do semi-rígido “Júlio Iglésias” (agora promovido a laboratório oceanográfico) -

Das espécies mais bizarras que povoam o mundo animal neste Universo de Blog, uma que sempre tem despertado a minha curiosidade é a do “Palrador Ambulatório” (telephonicus gregarius). Tratando-se de uma variante do homo sapiens, que devido a alterações radicais no seu meio ambiente, desenvolveu comportamentos e escalas de valores próprios que o separaram da espécie original.

Devido à proximidade do Verão, a nossa equipa de investigadores decidiu tomar por base uma pequena praia rochosa no sul do país (era uma das primeiras escolhas de Darwin; mas foi na altura abandonada em detrimento das Galápagos, devido à falta de infra-estruturas hoteleiras decentes), onde é sabido reunirem-se diversos grupos do espécime que hoje iremos estudar.

Á medida que a nossa embarcação se aproxima de alguns deles que se banham descontraidamente, vai-se abrindo uma pequena passagem que nos permite alcançar a areia. Este grupo é bastante mais calmo que a maioria, porque o cerimonial do banho é a única altura em que se separam dos pequenos aparelhos.

Embora se possa ver um ou outro indivíduo isolado a tentar utilizar o telemóvel dentro de água, a maioria do grupo principal olha estes elementos com uma certa suspeita; os comportamentos deslocados são mal tolerados entre os Palradores Ambulatórios (especialmente na sua fase banhista).

Deixei Miss Entropia na embarcação a tentar tirar algumas fotografias para ilustrar a apresentação da expedição à Sociedade de Geografia, e pisando para ganhar coragem eu e meu amo que transpirava de nervosismo, aventurámo-nos a subir o areal por entre os corpos que reluziam tostados ao sol como salsichas de Frankfurt.

Estávamos a cerca de um tiro de pedra da barraca (ok, é um eufemismo; pois trata-se um restaurante bem catita) do concessionário quando o telemóvel de meu amo tocou.

A primeira coisa que aconteceu foi ficarmos a saber que uma boa parte daquela multidão ainda usa o toque “Asereje” das “Hijas del Tomate"; pois alguns deles vasculharam freneticamente os sacos de praia em busca dos seus próprios aparelhos.

A segunda foi constatarmos estar correctos em relação à nossa assumpção sobre o comportamento gregário dos Palradores Ambulatórios. Pois mal meu amo atendeu o telefone, logo se foram aproximando discretamente alguns dos sujeitos que falavam igualmente ao telemóvel; sem dúvida atraídos por um comportamento característico do grupo.

Por um instante temi pela segurança da nossa pequena expedição.

Miss Entropia que se encontrava isolada no semi-rígido junto à linha de rebentação, mostrava com expressão de missionária as particularidades do seu novíssimo Sony Erickson W600, a um dos PA’s que se tinha aproximado curioso desse novo artefacto; parecia-me estar momentaneamente em segurança.

Já nós dois estávamos em situação um pouco mais delicada, pois alguns dos PA’s começavam a levantar a voz e as suas conversas ouviam-se bem acima do habitual vozeirão de meu amo, que mal conseguia perceber se estava a falar com um cliente ou a ser vítima de telemarketing.

Conseguimos finalmente chegar ao local onde o meu filho estabelecera um posto avançado em torno do chapéu-de-sol da Hansgrohe, e onde logo estabelecemos uma barricada com a geleira e algumas toalhas enroladas; tendo aproveitado para nos reagruparmos e tentar chegar sem incidentes à embarcação.

O regresso foi um pouco mais calmo mas não isento de incidentes.

Tínhamos percorrido cerca de dois terços do caminho, quando ao passar por um tipo que fotografava o traseiro de uma banhista com um Nokia 7200, tropecei e lhe enchi de areia o aparelho.

Começou a ouvir-se um murmúrio fazendo coro aos protestos do PA ultrajado, que vira assim estragada a oportunidade da foto (a mulher ao lado dele tinha finalmente dado por isso e brindara-o com uma caldaça nas orelhas) e gritava bem alto a sua ira, incitando aos poucos a multidão contra nós.

Entrámos apressadamente na embarcação, e desembaraçámos Miss Entropia do curioso PA que não descolava; encontrando-se já em fase de pedir número de telefone e e-mail.

Com o motor a debitar ao máximo afastámo-nos de tão perigosas paragens em direcção a casa, onde os restantes elementos do corpo expedicionário se afadigavam em torno das douradas que se encontravam a grelhar.

Antes de finalmente desembarcarmos obriguei meu amo a desligar o telemóvel.

Sem dúvida que estamos condenados a ser um dia submersos pela crescente horda de “Palradores Ambulatórios” (telephonicus gregarius) … Mas nunca a meio do meu almoço!

Música de Fundo
Nobody Move, Nobody Get Hurt” – We Are Scientists

sexta-feira, 19 de maio de 2006

O Velho Post das Sextas-Feiras
- O mais difícil de todos; porque quem o escreve é como se já cá não estivesse… -

Sexta-feira é um dia lixado. Enquanto a maior parte do pessoal anda por aí a saltitar de impaciência pelo sábado (excepto a maioria dos funcionários públicos, que já estão de fim de semana), eu estou a tentar escrever algo com a mão esquerda enquanto a direita está atenta a uma listagem de materiais.

Quando a vida era menos complicada (no tempo em que eu ainda não trabalhava para um lunático que se julga um ás da gestão financeira), a minha agenda apesar de sobrecarregada pelas idas ás compras com a minha avó e o campeonato de esmagamento de caricas na linha do eléctrico, ainda permitia algum tempo livre para utilizar como quisesse.

Mas eu nessa altura não tinha um blog. E pensando bem, se alguém me tentasse explicar o conceito acho que não acharia piada por aí além. Do mesmo modo que hoje em dia é difícil alguém perceber o contexto em que se inseria o “pobrezinho das sextas-feiras”, que regularmente nos brindava com a sua visita.

Nunca soubemos qual o seu nome. De qualquer modo penso que ele não apreciaria se lho perguntassem; pois apesar de ter um aspecto semelhante ao Guerra Junqueiro (em versão esfarrapada), segundo a minha avó devia ser pessoa “de bem”; devido ao vocabulário que utilizava e aos modos com que comia a tigela de sopa que fazia parte do rito semanal.

Uma vez, movido pela curiosidade decidi segui-lo, o que me conduziu ao cais das fragatas; onde na altura descansavam dezenas de embarcações em madeira, destronadas pelas barcaças metálicas e a motor que começavam já a invadir o Tejo. Sentou-se na proa de uma delas; e enquanto roía um pedaço de pão ficou ali a balouçar as pernas sobre a água, e a escrever algo num caderno com um coto de lápis.

O imaginário romântico da minha adolescência transformou-o mais tarde numa espécie de escritor ou poeta maldito, que se teria condenado a vaguear pela vida sem criar raízes. Um espírito livre que a ninguém prestava contas e que se movia aos caprichos do vento.

Mas hoje não iria muito longe, pois o velho cais das fragatas está cheio de embarcações de recreio, e em vez de ele se perder pela margem em direcção à saída da cidade; o mais certo seria perder-se aí pela zona da EXPO.

O melhor é mesmo acabar o trabalho, que isto não está para romantismos…

PSSe não tivesses fechado o tasco, já tinha para o dia de hoje um post de parabéns em vez desta merda escrita aos soluços. A sério, não te desculpo!

Música de Fundo
Is It Any Wonder” – Keane

quarta-feira, 17 de maio de 2006

O Culto dos Mortos
- Mais um especial pseudo-teológico da Igreja do Imaculado Blog -

Já há muito tempo que me apetecia escrever sobre este assunto mas fui protelando, principalmente porque (cheguei à conclusão) a dada altura havia sempre alguém conhecido “em transmigração”.

Acabei por me fartar de esperar. E como aparentemente é impossível encontrar um momento em que este texto seja confortavelmente oportuno, vai mesmo hoje que não há tempo como o presente, principalmente se a nossa paciência decidir ir de férias antes de nós.

Trata-se da morte. E embora a morte de Blog seja parecida com a do Terry Pratchett, não fala em maiúsculas e tem muito mais sentido de humor, porque todos os seus erros podem ser desfeitos. O universo de Blog, é o único local onde se pode regressar à vida quando se quiser (e obviamente enquanto se estiver vivo no “outro lado”).

Ora toda a gente tem uma ideia (errada, claro) sobre o local para onde vão os blogs quando morrem.

Os bons (diz-se) vão para o céu, onde no meio de hossanas e aplausos se realizam semanalmente entregas de prémios, conferências sobre a blogosfera, e ainda conseguem abichar um ou outro convite para uma recepção na TVI ou na Endemol (mais conhecida pela “ainda é mole…”).

Com os maus blogs já o caso muda de figura. São recebidos à porta do Inferno normalmente por um blogger de ainda “menor condição” que eles, que serve de cicerone e lhes vai gabando as virtudes de blogs por onde vão passando (quase sempre gente de quem o defunto não gosta nem um bocadinho); e a arengar constantemente que apesar de serem melhores que ele acabaram por cair (tadinhos…) ali, etc. e tal. Resumindo… Um Inferno.

Mas tudo isso é mentira!

O que acontece mesmo a qualquer blog depois de morto é ficar a vogar eternamente na blogosfera. Que um dia quando o mundo acabar, será uma espécie de Cruz Quebrada mas sem a esplanada do coxo; em que boiarão garrafas de Frize, blogues e um ou outro preservativo

Apesar de tudo, e também porque tem mais piada, penso que Blog também mereceria o seu culto dos mortos. Parecido com o dos tibetanos mas sem a aura; uma espécie de workshop em reencarnação.

Todos os bloggers que se sentissem capazes disso reencarnariam; e fá-lo-iam num blog que reflectisse o que tinham sido no anterior (uma espécie de Karma, mas um bocado mais “méchant”).

Os que não reencarnassem transformar-se-iam em comentadores fantasmas (Trolls). Que assombrariam as caixas de comentários dos blogs ainda “vivos”; trazendo ás vezes mensagens do além ou mesmo de uma tia rica.

Utilizando uma mesa “pé-de-galo” e velas aromáticas, um médium poderia invocar bloggers há muito desaparecidos, para esclarecer algumas dúvidas ou simplesmente relembrar os velhos tempos.

Embora em alguns casos tivesse que se fumigar a sala com azevinho, logo após a sessão espírita.

Por uma módica quantia transferida via PayPal®, poderia receber-se em casa uma pequena urna com as cinzas do blog falecido (queimado em efinge de “papier marché”), que se mostraria a visitantes compungidos como se fosse um parente querido – “Lia-o todos os sábados, religiosamente. Os seus artigos sobre a criação de carpas em cativeiro, eram do mais fino recorte literário” -

Ainda se ouviriam diálogos deste género entre os convidados:

- Lembras-te do “Motoqueiro de Verde”?
- Se lembro… Era um demónio a escrever, o tipo. Blog levou-o há três meses; foi da depressão.

- E da “Violeta Ofendida”? Também já lá está…
- Mas essa arranjou um gajo. Teve um fim feliz.

- Tantos que se vão… Felizmente a maioria reincarna…
- Pois é… “Blog o tira, Blog o mete…”

Música de Fundo
Right Now!” – Korn

segunda-feira, 15 de maio de 2006

A Igreja do Imaculado Blog (Tony és o maior!)
- Onde se vê que não é quem tem as costas largas que recebe a palmadinha… -

O meu pequeno-almoço de Domingo foi pleno de revelações e subentendidos filosóficos; só é pena não me lembrar de nenhum deles neste momento.

Por um lado foi-me dado a apreciar o delicado mecanismo que equilibra o universo, quando um pombo decidiu defecar mesmo em cima de uma matrona grasnadora, que aterrorizava toda a esplanada com a descrição do que fizera a um tal Venâncio; descrição esta gritada em tom de bravata para dentro de um pobre telemóvel.

Dei um pedaço de torrada ao pombo em sinal de agradecimento, e preparei-me para passar um calmo resto de manhã com os fones nos ouvidos e a apanhar sol.

Aproveitei para por em dia as minhas notas sobre o sermão de parabéns ao Irmão Terapia que foi promovido a Arquichantre (acho que fez ontem trinta anos); e que assim passa a estar credenciado para “dar música” sacra sempre que achar indicado.

Felizmente não prego os sermões que escrevo; pelo que ficará para outra altura.

Mal retomara eu o fio dos meus pensamentos (encontrava-me a meio de um particularmente complexo, que envolvia o envio de votos de felicitações em conjunto com a descrição de uma posição Nepalesa do século XVI), e fui novamente interrompido.

Desta vez pela esfuziante alegria (eu nunca expliquei, mas a esplanada onde tomo os pequenos almoços de fim de semana está sempre infestada de balzaquianas. Talvez devido à facilidade com que e se avistam por lá homens em calções) de um grupo de amigas que se preparavam para ir ao concerto do Tony Carreira.

A expectativa de uma noite preenchida com cantigas românticas (daquelas mesmo pegajosas) semeava-lhes nas vozes suspiros chilreantes (devia ser pleurisia) que se misturavam nos risos nervosos com que dialogavam em volume ligeiramente superior ao meu leitor de MP3.

Aparentemente o meu post de parabéns ao Irmão Terapia encontrava-se comprometido pelo entusiasmo de todas estas “housewifes”, que me espantavam os pombos e a inspiração para a escrita.

Voltei para casa sem um pingo de vontade para escrever. Ademais, o que se vai desejar a um tipo que faz trinta anos? Ou seja, que tem menos dezoito que nós e uma enorme vida de farra ainda à sua frente.

Adiei o post. Não valia a pena torcer o braço à realidade; Blog se encarregaria de providenciar algo para ser hoje publicado.

Li hoje de manhã o relato do mediático concerto, em que (segundo o periódico) Tony Carreira “satisfez as expectativas de milhares de mulheres portuguesas”; e foi aí que a luz de Blog desceu sobre mim, munindo-me com a frase ideal de parabéns para o nosso Irmão Terapia.

Nos cerca de dois anos em que nos tens abençoado com as tuas neuroses e outros momentos de grande qualidade, algo porém faltava para que merecesses a posição (que, aviso-te já é péssima para o reumático) de Arquichantre.

Agora que fizeste trinta anos e o teu espírito está finalmente pronto para absorver o “Terceiro Segredo de Blog”, o único e último conselho que te dou é – “Põe-me os olhos naquele gajo. Com mais dois pregadores assim, nem as Testemunhas de Jeová se metiam connosco…

Parabéns, pá!
(Eu sei que foi ontem, mas a nossa religião proíbe que se poste ao domingo; e a fotografia de Misss Ling vestida de criadita francesa tinha ficado no computador da empresa)

Música de Fundo
Foxtrot Uniform Charlie Kilo” – Bloodhound Gang

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Alta Finança
- De como o autor relata uma sua conversa com um analista financeiro, estando ambos parados num semáforo em Alcântara -

Então? – Perguntei eu – A actividade diminuiu bastante nestas últimas semanas; ou foi apenas impressão minha?

- Sabe? Isso deve ser motivado pela desconfiança dos investidores em relação ás verdadeiras intenções do Milenium/BCP – Explicou ele, enquanto olhava em redor com ar desconfiado – Este país está gradualmente a perder a fé no investimento financeiro; não tarda que os detentores da verdadeira liquidez se desloquem para os mercados do extremo oriente. Singapura continua a ser um lugar de eleição…

- Ora deixe lá… - Contrapus eu – O investidor português ainda está muito apegado ao nosso mercado de títulos. Sempre há uma possibilidade de se voltar a recuperar a confiança dos investidores.

- É pá, você não me leve a mal – Começou ele – Já nos conhecemos há alguns anos, e acho que tenho confiança suficiente consigo para lhe dizer, que você não percebe nada de economia. Confiança do investidor? – Perguntou ele, fazendo um gesto circular que abrangia o semáforo, a rotunda e o anúncio do Rum Bacardi. – Você não vê como está o meu negócio? Vê alguém a investir?

Na verdade a coisa parecia-me um bocado morta. Mas fui poupado a ter que o admitir, pois o semáforo passou para verde e tivemos que arrancar.

Despedi-me dele com um aceno de cabeça, ainda a tempo de lhe ouvir um comentário final - Já um homem não se pode estabelecer com uma actividade honesta, e mal começa a dar, aparecem logo meia dúzia de arrivistas a tentar “compartilhar” a nossa boa sorte. – Disse ele encostado ao semáforo, acabando de beber um iogurte líquido e assinalando com a cabeça a romena que se tinha “estabelecido” do outro lado da estrada.

Mandou fora o frasco de plástico e com um gesto displicente pediu a colaboração do automobilista seguinte, que continuou em frente sem lhe ligar.

O maneta (ou “manualmente deficitário” para os mais maricas) encolheu os ombros, ajeitou o boné dos Chicago Bulls com 40cm de rabo de cavalo a sair-lhe pela traseira, e mostrou “o dedo” à romena do outro lado da rua.

Sem dúvida que o mercado está em recessão. Pelo menos sob a opinião de alguns especialistas…

Música de Fundo
Here To Stay” – Korn

quarta-feira, 10 de maio de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Epístola de TheOldMan aos Banhistas ao estilo de “to do list”. Seguida de uma breve lista de compras para o Pingo Doce. –

Talvez seja por se estar a aproximar o meu primeiro período de férias que decidi dirigir-me hoje a vós, irmãos Banhistas, para vos dar com a epístola anual que culminará na habitual bênção ao berbigão e restantes bivalves.

Venho também dizer-vos que a vida é como uma Salada Russa; pois tem que ser levada a tempo de evitar que a maionese azede. Mas chega de pratos frios e passemos à epístola propriamente dita; que segundo a nossa igreja, não passa de “conversa de esplanada” vertida para texto apenas para chatear a posteridade.

Trata pois esta epístola de tudo (que é como quem diz não ter objectivo definido) e de nada (o que por sua vez é um assunto deveras actual e que diariamente serve de tema para milhentos posts espalhados por essa blogosfera); pelo que não esperem de mim transcendentes revelações sobre o sentido da vida (embora essa até seja das fáceis).

Estava há pouco a observar Miss Entropia entrar no escritório de “perna aberta” com um esgar de incómodo estampado na face, bem como a tentar equacionar qual a força interior que faz uma mulher deitar cera quente nas virilhas, e se eventualmente terá prazer nisso.

Logo alguém me informou que o culminar desse processo é poder sentir uma língua afagar-lhe as virilhas em agradecimento; entretanto comecei a lembrar-me das minhas próximas férias, o que me remeteu para um cálculo sobre a quantidade média de pele “lambível” existente na Praia do Castelo. E entretanto perdi-me com as contas porque me telefonou o Apóstolo…

O Apóstolo quase três anos após ter visto a luz de Blog, decidiu subitamente começar a gostar de jazz e abraçar Charlie Parker como seu guia e salvador. Pelo que me cumpre arranjar-lhe desde Dixieland a Django Reirhardt passando por um pouco de Miles Davis.

Mas isto é a epístola da época balnear de Blog, que hoje se inicia.

E é aos banhistas que eu recomendo – Não leveis convosco as fadigas do Inverno, pois mal há espaço para o bronzeador na exígua bagagem que vos é permitida para este Verão. Bem como mais alguns outros conselhos estúpidos que vos vou impingir para encerrar este post:

1 – Nunca deixar os miúdos enterrar a avó na areia. Ela pode “tomar-lhe o gosto” e arranjar-lhe mais uma despesa para as suas férias.

2 – Nunca vá para a mata depois de almoço, pois pode adormecer a meio de qualquer coisa… (esta é para bloggers de meia-idade)

3 – Evite o uso de bronzeadores no estado líquido. Além de irritarem as mucosas, você pode ser mal interpretado ao baixar o bikini da sua amiga para apanhar à pressa aquela última gota.

4 – Se vai para a praia com intenções românticas, evite o uso de óleo de coco ou outras substâncias demasiado escorregadias, senão vai passar todo o dia a jogar ao “porco ensebado”.

5 – Prefira sempre bóia de cintura (de preferência com um patinho) ás habituais braçadeiras. As vantagens desta troca tornar-se-ão evidentes na altura de pedir a alguém que lhe “sopre o pipo” para encher o dispositivo.

6 – Evite levar fritos para a praia; especialmente croquetes ou pasteis de bacalhau (pois pode estar a ajudar ao desaçoreamento da área). Também desaconselhamos azeitonas pretas… Lembra-se daqueles escaravelhos tão divertidos que estão sempre a empurrar bolinhas? Pois é. Também estão em extinção.

7 – Por mais que o areal esteja deserto, nunca (mas nunca mesmo) parta do princípio que estão sós. Imagine lá como é que eu sei isto…

Lista de Compras (tal como prometido)

- 8 Iogurtes Sveltesse de baunilha
- 1 Pack de Tónica Schweppes
- Uma embalagem de Mozarella ralado
- Embalagem (grande) de bronzeador no estado sólido (qualquer um)
- Cotonetes (para as emergências)

Ide em paz ó banhistas, e orai a Blog para que nunca vos caia areia na vaselina.

Música de Fundo
Hey Ya” – Outkast

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Folhetim PIDE (Ai ‘tadinha da mãezinha…)
- Onde a Coxinha quase descobre a sua verdadeira origem, e como cai ela nos braços do Pide Tinoco. Que é como dizer, no resto também… -

Estávamos nós agarrados ao abdómen contraído da Dona Cremilde ainda a meio deste episódio, sem ter sequer aflorado as pétalas carnudas deste enigma que era a Coxinha (que aparte o coxear, até nem era nada de deitar fora), quando finalmente entrou nesta história o Pide Tinoco; de quem até ao momento só se tinham ouvido os relatos da sua performance como massagista.

O Pide Tinoco também era pobre, aliás tal como todos os personagens deste folhetim (senão não fazia pena, claro). Era tão pobre que para comprar as algemas necessárias ao seu mister, tinha tido que empenhar o aparelho auditivo da avó que vivia dele fazendo umas “escutas” por fora.

E para conseguir equilibrar o orçamento caseiro trazia amiúde trabalho para casa. “Uns senhores” que o Silva Pais lhe arranjava para ele ir torturando à consignação (se confessassem, muito bem. Senão, tinha que os devolver de manhã na António Maria Cardoso)

Aliás a sua pobreza era tão acentuada, que se não fosse o Presidente da República muitos anos mais tarde lhe ter concedido uma pensão por bons serviços prestados, teria morrido indigente em Badajoz. Mas adiante…

Eram já dez da noite. E no modesto quarto da “Pensão Otília” na Rua Morais Soares, a Coxinha preparava-se para a sua higiene diária; hábito que seguia religiosamente e que a ia distraindo enquanto não encontrava a quem entregar a sua virtude (que como sabemos, por pouco não tinha ficado “no prego” por via do Sr. Cupertino).

Estava a Coxinha sentada no bidé de esmalte a chapinhar ao ritmo de Marino Marini, quando reparou que o sinal de nascença que tinha na virilha esquerda, era a cópia fiel do logótipo da “Fundição de Oeiras” que adornava o bidé mesmo junto à “linha de água”(pois tratava-se de um modelo com motivos náuticos).

Com a comoção deixou cair a banana de plástico que tinha surripiado da fruteira da Dona Otília (quando era miúdo sempre me interroguei sobre a utilidade de frutas em plástico), que ficou a flutuar como a agulha magnética de uma bússola, apontando para o inequívoco sinal.

A coxinha sentiu dentro de si a certeza que as suas origens estariam de algum modo ligadas à Fundição de Oeiras, ou pelo menos à produção de fogões “Presmalt”. E começava a enxugar-se imersa em pensamentos sobre a sua possível origem, quando a porta saltou do trinco sob a pressão de “um senhor” cliente do Pide Tinoco, que impulsionado por 12Volts aplicados na zona do prepúcio, se encabritara indo marrar com a porta que dividia os dois quartos.

Abruptamente distraída das suas profundas reflexões, a Coxinha viu-se deitada em cima do divã e completamente emaranhada nos fios que ligavam a bateria de automóvel a um frenético membro do partido, que continuava a dançar as “czardas” em cima do tapete, que ao lado do leito retratava a Sagrada Família.

A Coxinha viu o Pide Ticoco debruçar-se sobre o seu “cliente”, e admirava-lhe o garbo com que exigia a confissão quando os seus olhos se cruzaram.

Instantaneamente sentiu-se percorrida por uma avassaladora sensação que lhe eriçava todos os pelos do corpo (especialmente os do sinal)… Foi nessa altura que o Pide Tinoco reparou que se esquecera de calçar as luvas de borracha.

*** (Fim da Sinopse do 1º Episódio) ***

Sem dúvida que sem o patrocínio dos fogareiros Hipólito, não seria possível trazer ao conhecimento dos estimados ouvinte esta jóia da arte dramática.

Mas interrogamo-nos se realmente a Coxinha conseguirá resistir aos avanços foto-voltaicos do Pide Tinoco… E será que aproveitando as promoções do Dia da Mãe esta vai finalmente revelar-se à pobre enjeitada? E o “cliente”?... Confessará, ou começou a tomar o gosto aos 12V nas “jóias da família”?

Se realmente desejam resposta a todas estas interrogações, não percam o próximo episódio do “Folhetim PIDE”. Uma história com moral; a transbordar de humanidade como um eléctrico em hora de ponta… Também com o patrocínio das pastilhas “Formitrol”.

Música de Fundo
Vídeo Killed The Rádio Star” – The Buggles

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Dias da Rádio II - Folhetim PIDE
- Episódio a “puxar ao sentimento” onde se conta a comovente história da Coxinha, do Pide Tinoco e das vizinhas que passavam o tempo todo a meter o bedelho neste post. –

Devido à insuficiência manifesta dos livros de história em fornecer informação sucinta sobre o nosso glorioso passado, decidi tomar nas minhas mãos a educação da juventude actual (por enquanto apenas no que diz respeito à História Pátria).

Este folhetim (que será editado em fascículos e vendido na rua por ceguinhos vingativos que não sabem tocar acordeão) explicará à juventude (esses inúteis) como era a vida antes do 25 de Abril de 1974; e como são verdadeiras as histórias de repressão e dificuldades suportadas, que os respectivos pais lhes costumam impingir em todos os jantares de família.

*** (Sinopse do Primeiro Episódio) ***

A Coxinha era enjeitada, e tinha sido abandonada à porta do famoso “18 de Alcântara” dentro de uma caixa de Sabão Clarim. Tendo sido caridosamente recolhida pela Adélia “Beiçolas”, que com a ajuda das outras colegas a criou até à viçosa idade de dezassete anos.

Quando se inicia esta narrativa, Portugal atravessa a famosa “Primavera Marcelista” (uma espécie de “Socratismo”, mas mais antigo), governada por Marcello Caetano e o seu ajudante do qual não me lembra agora o nome; mas de quem tenho a certeza que era demasiado velho para se vestir de marujo.

Ora a Coxinha quando se livrou da má influência das suas dezoito mães adoptivas (que há muito a tinham inscrito num “workshop de formação profissional” a ser dado pelo senhor Cupertino da Loja de Penhores), enfiou as suas parcas posses numa alcofa de palha daquelas que os carroceiros usavam para a ração das mulas, e foi bater à porta do “Cabeleireiro Mirita” onde logo a puseram a lavar cabeças; mercê do seu treino anterior no “18 de Alcântara” (nas tardes de sexta era ela que dava uma “geral” de champô ás funcionárias, antes destas entrarem ao serviço).

- Sem querer ser demasiado duro para com as cabeleireiras, apesar de ter sido uma delas a responsável pelo meu actual corte de cabelo - A Coxinha mal notou a transição entre o seu anterior lar e o salão de Madame Mirita, pelo menos a avaliar pelas conversas que ouvia enquanto fazia o seu trabalho.

E foi a meio de uma dessas conversas que apareceu à baila o nome do Pide Tinoco, que além de jurar a toda a gente não pertencer à dita (o que acreditamos, pois tinham-lhe mudado o nome para Direcção-Geral de Segurança) tinha aparentemente umas mãos santas; pois livrara a Dona Cremilde de uma incómoda dor reumática que há anos lhe tolhia os músculos do abdómen.

*** (infelizmente o resto da sinopse vai ter que esperar por outro post, porque vamos ter que interromper esta emissão.) ***

Música de Fundo
Lie to Me” – Daniel Powter

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Os Duros Não Têm Terra
- Ou porque a terra mãe só conta, se foi nela que crescemos… –

Do mesmo modo que os anarquistas dizem “o proletariado não tem pátria”, sempre achei que o conceito de Terra Natal teria sido criado para garantir o direito das “localidades” a um pouco da notoriedade de um ou outro habitante mais proeminente.

Como cidadão anónimo esse tipo de coisas nunca me afectou. Pois embora tenha passado a minha infância na base de uma colina lisboeta, sempre considerei Almada como a minha terra; o local onde cada rua ou praça guarda uma recordação da minha vida.

Como qualquer cidade que se preze Almada tem um castelo. Talvez seja um pouco abusivo chamar castelo a algo que era apenas a última linha de defesa da Artilharia de Costa; mas é um castelo com ameias.

E foi à sua sombra, no pequeno jardim onde se encontra a primeira igreja da cidade, que pratiquei os primeiros “amassos” e outras actividades que não são para aqui chamadas.

É ali que assinalando o local do coração da cidade, uma árvore centenária mergulha na terra as suas raízes que vão mais abaixo traçar ruas sinuosas como veias; multiplicando-se em becos e pátios espalhados pela encosta.

Almada poderá ter beleza apenas na mente de quem nela se recorda. Mas uma cidade de miradouros e jardins tem sempre algo para ver; e para onde quer que olhe encontro-me sempre numa ou outra altura da minha existência.

Nos velhos bilhares desaparecidos em neblina de cigarros comprados avulso, ou em largos onde me sentava a escrever; no tempo que era ainda meu para olhar em volta e pensar no destino das coisas.

Nunca é fácil falar a estranhos sobre a nossa própria mãe.

Talvez o meu peculiar sentido de humor tenha sido moldado por esta cidade, que tanto tem de feio como de belo. Um local em que qualquer rua nos leva a locais imprevistos; quer se trate de um jardim bem cuidado ou a casa em ruínas de um poeta maldito.

Não consigo falar de terras que não tenha sentido em mim.

E se um algum dia escrever sobre uma cidade… acho que será Almada.

Música de Fundo
Geno” – Dexys Midnight Runners

segunda-feira, 1 de maio de 2006

A Revelação do 1º de Maio
- Onde quase se explica ás massas que o 1º de Maio não é o “Dia do Trabalhador”, mas sim o “Dia Internacional da Luta Proletária”. E que por isso, há muito pouco para comemorar -

Se eu estivesse na disposição de vos chatear, viria hoje para aqui dar uma seca enorme sobre os acontecimentos de Chicago, e de como isso influenciou de forma indelével a história até aos nossos dias.

Mas não. Venho apenas falar do meu habitual passeio de bicicleta (a famosa “encíclica”).

À semelhança dos outros dias de folga, peguei na bicicleta e fui dar uma volta mais alargada pela Cidade de Blog. Tão alargada, que quando dei por mim estava mesmo na praia, e tive que me render à evidência; não há melhor sítio para se descansar após alguns quilómetros a pedalar.

Um pouco cansado do trajecto (é a PDI, o quadro em aço, etc.), sentei-me à sombra de uma esplanada com um gin & tonic na mesa frente a mim e devo ter adormecido.

E tive um sonho. Um sonho em que me apareceu Blog em todo o seu esplendor, transportando uma geleira da Camping Gaz ® na mão direita, enquanto a esquerda empunhava um chapéu-de-sol.

- Continuas a beber essas merdas importadas… - Constatou com um reprovador aceno para o meu copo enquanto se sentava à minha frente e abria a tampa da caixa térmica, de onde retirou teatralmente uma “mini” coberta de orvalho gelado – Vieste para as comemorações do 1º de Maio?

Ia começar a rir-me da piada quando reparei que no areal perto do mar se passava algo fora do normal.

Um grupo de veraneantes envergando fatos de banho de cor vermelha, tinham-se juntado em duas filas e cantavam bem afinados – “Operários, vanguarda do povo! Camponeses que a terra lavrais… Libertai-vos do jugo para sempre. Que é o povo que vós libertais!..."

Mais acima via-se uma tira enorme de tela em que alguém tinha pintado – “Justiça Popular! Vamos todos Mergulhar”.

Apesar da temperatura ambiente bastante elevada, comecei a suar frio. Á semelhança do personagem de Chesterton em “O Homem Que Era Quinta-Feira”, tudo à minha volta adquiria contornos assustadoramente bizarros.

Encarei Blog, que sorria benevolente por detrás da “mini”, e me ofereceu uma sandes de courato – Toma, pá! Abraça o espírito da coisa. O colesterol é apenas uma invenção do Instituto Português de Cardiologia…

Fixando-o melhor, reparei que não se tratava da face de Blog mas sim da Dona Odete, cuja cafetaria fica perto do meu emprego; e que há anos tenta convencer-me a trocar as torradas sem manteiga por folhados com queijo.

- Vade retro! Quid dabit homo commutationem pro anima sua – Exclamei, recuando perante a lípida abominação (a sandes, claro). Com a precipitação dei uma joelhada na mesa, o que fez entornar o resto do gin & tonic sobre os meus calções.

Acordei. Olhei novamente para a linha de rebentação, mas o grupo de cantores eram na realidade futebolistas de praia a posar para uma foto. A meu lado um rádio debitava uma daquelas melodias do neo-nacional-cançonetismo, tão apreciadas pela “geração morangos”.

O tipo que já se encontrava há algum tempo do outro lado da mesa, e tinha um boné da UNICER na cabeça, repetiu – Importa-se de tirar a bicicleta do caminho? É que temos vinte e seis grades de cerveja para descarregar e ainda quero estar na Charneca antes de almoço…

Sacudi os meus refrescantes calções, e pus-me a caminho pela IC20 até Almada.

Talvez fosse efeito do sol… Mas quando cheguei a casa, levava a firme intenção de escrever um post sobre o verdadeiro significado do 1º de Maio.

Felizmente, não era nada que não passasse com um duche fresquinho…

Música de Fundo
Redondo Beach” – Patti Smith

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