segunda-feira, 31 de julho de 2006

TheOldMan – O Teste
- A Blog is a Terrible Thing to Waste –

Esta tarde acordei sobressaltado no meu sofá após ouvir Floribella pedir na sua voz cantante – No Mr. Frodo. Please, not that ring… - e descobri que era tarde. A máquina zumbia em espera, e eu ainda não fazia sequer ideia do que iria ser o meu post para segunda-feira.

Lembrei-me que fazer um teste qualquer e postar os resultados, poderia eventualmente colmatar a falta de texto; mas não estou com paciência para perguntas complicadas e de qualquer modo os testes são como o sexo. Quase toda a gente aldraba os resultados em seu favor.

Foi por essa altura que me ocorreu ser bem mais interessante (agora não diria isso, pois deu-me tanto ou mais trabalho que espremer um texto para dentro do PC), criar eu próprio um teste que desse sempre o mesmo resultado embora com variantes. Assim pelo menos pouparia ao leitor, o esforço de tentar torcer um bocadinho a pontuação.

Se você tivesse que ser (cruzes canhoto t'arrenego) um personagem Pimba, qual seria? E teria lata para o admitir ou não? Teria ao menos consciência disso?

O teste é dirigido a todos os que têm blog. E mesmo não o tendo, cada um poderá escolher a resposta que mais se aproximar de como seria se o tivesse. Assim todos poderão participar, e beneficiar do conhecimento sobre o seu eu interior, como se tivessem lido um livro de Paulo Coelho.

Pois aqui vão as perguntas. Basta somarem os pontos atribuídos à resposta escolhida e conferir no final. Não vale espreitar, claro…


1 – (A Temática) - Que tipo de blog é o seu, ou como é considerado por aqueles com quem você concorda?

1.1 – Generalista mas com um acentuado cariz político. A vida quotidiana do país e das suas gentes deve interessar a todos, e ser levada até mesmo aqueles que se estão borrifando para ela (Some 5).

1.2 – Generalista, sobre tudo e sobre nada, ou mesmo ás vezes sobre si. Se tiver que contar uma piada, pelo menos vai preocupar-se em procurá-la num almanaque com mais de cinquenta anos, em vez de se ir inspirar no jornal da manhã (Some 10).

1.3 – É um blog sobre si próprio/a. No fundo ninguém o/a conhece tão bem como você; e quem achar o contrário é porque não o/a conhece ou nunca conheceu. E assim pelo menos tem onde o afirmar alto e em bom som (Some 30).

1.4 – Blog “manta de retalhos”. Por definição aquele para onde se atira tudo o que aparece por e-mail ou se vai encontrando pela Net. Não tem qualquer conteúdo original; mas também não precisa pois trata-se de um blog e não de criação de qualquer tipo (Some 15).


2 – (As Referências) – Qual o tipo de links que tem no seu blog?

2.1 – Amigos, conhecidos (virtuais ou não, mas sem distinção alguma entre si) e blogs que realmente gosta de ler (Some 15).

2.2 – Páginas de gente famosa (não interessa aqui porquê o são ou como), museus e orquestras sinfónicas, ou locais estranhos como o Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial; embora toda a gente suspeite que você é “caixa” num minimercado (Some 25).

2.3 – Não tem links porque acima de tudo preza a sua liberdade intelectual. E os espíritos livres não se devem prender a coisas comezinhas como o apreço dos outros. De qualquer modo também ninguém o/a linkava… (Subtraia 5)

2.4 – Linka quem também o faz para si ou tem apenas “referrals”. Assim não tem que se preocupar em ferir ou não susceptibilidades; e ainda goza o privilégio de saber quantos incautos caíram no seu blog, em busca do coiro mal malhado da Ana Malhoa a cantar no duche (Some 10).


3 – (A Imagem) – Qual o tipo de template, ilustrações ou fotos que constituem a sua imagem para quem o visita?

3.1 – Cores simples e repousantes, uma imagem relacionada com a temática e um “disclaimer”; para que quem não esteja interessado, se possa pôr a milhas antes de se aborrecer mortalmente (Some 10).

3.2 – Cores vivas e imagens com impacto. Um blog deve ser tão acutilante e certeiro como aquilo que quer transmitir a quem o lê. Utilizaria um template mais elaborado, se conseguisse dominar aquela porra do HTML (Some 35).

3.3 - Cores suaves e imagens bucólicas, quase poéticas; com uma ou outra citação de aspecto profundo. Porque você quando escreve dá-se completamente. E não perde uma oportunidade de o afirmar a quem o/a quiser ler (Some 10).

3.4 – Caótico e destrambelhado, com a mesma cor que tinha quando escolheu o template ao acaso num site qualquer. Afinal o que conta é a mensagem, e há mais para fazer da vida que perder tempo a transformar o blog num atelier de decoração de interiores (Some 5).


4 – (A Palavra) – Que tipo de termos ou fraseologia utiliza quando escreve (ou copia)?

4.1 – Escreve como se falasse para alguém (embora se arrisque a estar a falar “para o boneco”), pois se tem algo a dizer é melhor que tal seja dito de modo que quase todos compreendam (Some 5).

4.2 – Utiliza uma fraseologia neo-romântica em que sobressaem os termos: sintonia, química, partilha, delícia; acabando por fazer citações de Saint Exupery ou outros escritores piegas, para compor o ramalhete (Some 10).

4.3 – Fala imenso de sinergia, premonitório, basilar. E quando não lhe apetece escrever publica extractos enormes em línguas estrangeiras, para que avaliem a sua capacidade de poliglota ou de bem dactilografar sem erros (Some 10).

4.4 – Usa de tudo indiscriminadamente. Desde linguagem de bebé até ao profano dialecto dos saudosos carroceiros do Largo do Chafariz de dentro. Se tem um blog, é para lá poder dizer o que normalmente lhe valeria alguns olhares de comiseração na “vida real” (Some 30).


5 – (O Inter-relacionamento) – Qual o tipo de comentadores que tem no seu blog? E isso agrada-lhe?

5.1 – Amigos, conhecidos ou apenas desconhecidos que vêm dizer olá e comentar os conteúdos ou tagarelar na caixa de comentários; e mesmo um "troll" ocasional. Pode não lhe agradar sempre o que dizem, mas desde que não se estiquem está tudo bem. A vida é mesmo assim (Some 10).

5.2 – Não permite comentários pois o mundo ainda não está preparado para si (ou vice-versa). Ainda tinha que se chatear com alguém, e as discussões virtuais são sempre muito chatas, pois não sabe muitas vezes quem são o que dificulta seriamente qualquer vingança ou retaliação (Subtraia 5).

5.3 – Aduladores/as e cortesãos/ãs que passam o tempo a enaltecer as suas virtudes e da sua obra. No fundo todos querem algo de si; e o seu sonho é que um dia se aventurem a estabelecer contacto nesse sentido. Colateralmente alguns engates, ex-engates e ex-futuros engates muito ressabiados (Some 15).

5.4 – Os bloggers que você visitou no dia anterior, naquela exaustiva maratona de quatro horas em que escreveu quase sessenta e sete comentários, esperando que tenham a decência de o/a visitar também (Some 20).


Resultado do Teste

O resultado deste teste é destinado à sua aferição pessoal. Pode porém compartilhá-los com toda a gente no seu blog ou mesmo aqui; embora eu não encoraje esse procedimento. As vergonhas devem-se manter em privado.

(76 ou mais Pontos) - Você é José Castelo Branco / Arlinda Mestre – Não há dúvida que é mesmo pimba. Não só o é como não se envergonha disso, e tenta metê-lo à força pelos olhos dos outros adentro como se fosse um diploma de doutoramento em física quântica. Se o seu blog fosse uma casa, estaria revestido com azulejo de casa de banho.

(De 51 a 75 Pontos) - Você é Mónica Sintra / Roberto Leal – Um pimba à boa maneira simples e Lusitana (que também os há lá fora, pois já vi). Sempre com um sorriso rasgado ou uma piada sobre hemorróides (juro que não é contigo Eufigénio); você é o sal da terra mas também a areia na vaselina. Se os blogs fossem cotados na bolsa, você morreria endividado.

(de 36 a 50 Pontos) - Você é Herman José / Júlia Pinheiro – Já foi algo que não sabe bem o que era, mas optou por regressar ás origens. Pois são os simples que fazem as melhores audiências, empurram o país para a frente e possuem os Mercedes. Você é um/a senhor/a! Pelo menos é o que a porteira não se cansa de repetir aos outros condóminos.

(35 Pontos ou menos) - Você é Cinha Jardim / Pequeno Saúl – Não pode ser considerado/a pimba na verdadeira acepção do termo. Na realidade quando morrer vai ser autopsiado em Roswell, pois ainda ninguém conseguiu determinar qual a singularidade cósmica que provocou a sua eclosão. Um dia num futuro distante será finalmente compreendido/a e convenientemente amaldiçoado/a.

E aqui termina “TheOldMan – O Teste”. Um precioso instrumento de auto-avaliação que me demorou uma porrada de tempo a fazer, e sem o qual eu teria visto um filme bem interessante.

Para dúvidas, injúrias, “mailbombs” e doações de órgãos sintam-se avontade para utilizar os comentários ou o mail ali ao canto (especialmente para o caso dos tais órgãos).

Música de Fundo
Na Internet” – Quim Barreiros

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Folhetim PIDE (O Regresso da Coxinha)
- Onde regressamos às aventuras da Coxinha, do Pide Tinoco e da sua amante; uma simpática estudante de Belas Artes e iniciada nos arcanos do sado-masoquismo … -

No último episódio (que já está quase tão para trás quanto a época em que é passado) tínhamos deixado a Coxinha com o coração destroçado. O seu querido Pide, o único que até agora lhe tinha conseguido tocar as “campainhas” no tom certo, andava a fazer “afinações” noutros instrumentos.

Como se já não bastasse essa angustiante sensação que lhe dilacerava toda a área por debaixo da cinta Maidenform, ainda era vítima das desajeitadas investidas do ceguinho Osvaldo. Este desde que aprendera Braille, gabava-se aos quatro ventos que para ele as mulheres eram um livro aberto (mas apenas após ter ganho o hábito de humedecer o dedo para “virar as páginas”).

Para além de tudo isto, ainda existia algures o blog de um tipo que em aproximação de férias se encontrava em pleno bloqueio de escrita; sendo principalmente por isso que passamos à:


**** (Sinopse do Terceiro Episódio) ****


Lavada em lágrimas a coxinha correu a refugiar-se no único local onde sempre achara protecção e consolo (tal como qualquer cliente, desde que pagasse a “tarifa”), o “18 de Alcântara”.

Aí chorou a sua desdita no ombro da Adélia “Beiçolas”, sua mãe adoptiva; que após colocar de prevenção todo o gineceu decidiu enveredar pela acção directa, e todas juntas fazerem a folha ao Pide Tinoco; que esperamos não seja confundido com o Pide Casaco, que morreu muitos anos mais tarde de velhice ou tédio, e nas barbas das autoridades que tão afincadamente (LoL) o procuravam.

Logo despacharam a Emília “Sovaqueira” com a incumbência de localizar a estudante de Belas Artes, para posterior intervenção punitiva por parte da Coxinha tão injustamente “corneada”.

Mas esta debatia-se com questões muito mais profundas do que a táctica da unhada em luta corpo-a-corpo, ou como arrancar um decote inteiro com um só gesto (modalidades olímpicas muito em voga no tempo “da outra senhora”). A sua alma ferida começou a interrogar-se sobre a utilidade de toda essa violência, e sobre a justeza (ou não) de a exercer sobre alguém que apenas queria ser amada (e mordida, e arranhada e chicoteada também).

Atormentada por sentimentos opostos, soltou um lancinante grito tapando os olhos com o antebraço direito (tal como o tinha visto fazer à Dona Palmira Bastos), e desfaleceu no soalho acabado de esfregar com sabão amarelo.

Durante toda essa noite as conjuradas afiaram tesouras de costura e facas de cozinha, enquanto delineavam estratégias ao som de “Não passes mais com ele na Musgueira” de Artur Gonçalves; que para elas atingira estatuto de cantor de culto (uma espécie de Nick Cave, mas mais seboso). Musica esta só igualada pela outra favorita de todo o grupo, “Amélia dos olhos doces”.

De madrugada ainda a Coxinha se encontrava imersa num sono agitado por movimentados sonhos, que a faziam gemer baixinho enquanto mordiscava o lábio inferior.

E foi assim que Adélia a viu pela última vez, antes de sair com as suas companheiras para assaltar a sede da PIDE-DGS na Rua António Maria Cardoso.

Meteram-se todas no garboso Taunnus 17M e arrancaram com o rádio a debitar alto “Ele e Ela” interpretado por Madalena Iglésias. Estava-se então na madrugada de 24 para 25 de Abril, no ano de mil novecentos e setenta e quatro…

**** (Fim da Sinopse do Terceiro Episódio) ****


Acordará a Coxinha a tempo de evitar que as insensatas heroínas sacrifiquem as suas pobres existências? Será que estas serão aceites pelas forças do MFA, vindas das Caldas e prestes a penetrar na capital? E caso o sejam, terão direito a representante no “Conselho da Revolução”?

Não percam os próximos capítulos deste folhetim, em que se pode esperar tudo. Um Pide com alma de poeta, uma coxinha que “dá em escritora” e um grupo de mulheres em cinto-de-ligas a tomar de assalto a sede da polícia secreta ou mesmo a dar uma “geral” ao COPCON.

Música de Fundo
Hooker” – Pink

terça-feira, 25 de julho de 2006

Notícias do País de Pacheco
- Adolescentes Selvagens Nuas nos Balneários -

Agora que consegui captar a vossa atenção, já posso confessar que não tenho intenção alguma de pôr aqui a minha colecção de fotos sobre bases de duche e equipamentos de hidromassagem (devido ao sigilo profissional).

Mas já há imenso tempo que vejo naquela coluna ali à direita, os vestígios de buscas inglórias a coisas tão importantes como “Soraia Chaves em oração”, “Carla Matadinho evangelizando” e “Ana Malhoa nas Comemorações do Dia da Raça”. É claro que depois deste texto, sem dúvida que a afluência destes exploradores virtuais será muito maior.

Mas isso acaba por me deixar nas mãos um problema ainda maior, que é manter um certo nível.

Foi quando pensei em Pacheco. Talvez Eça simpatizasse um pouco mais com ele, mas eu em contrapartida divirto-me muito mais com o personagem; pois posso rir-me à vontade sem medo que me caia o monóculo. Sim. Pacheco é fixe, e possivelmente vai dar um velho tão cómico e xexé como Mário Soares.

É claro que este post não levará link por razões muito simples. Eu não quero (nem teria) a publicidade de Pacheco; para mais sendo a dita publicidade feita ao Viagra, era injusto para os anunciantes pois os meus leitores parecem atesoados QB. Isto já não contando com o maldoso rumor posto a circular na AR, em que se afirma ter sido o referido anúncio programado para detectar páginas pertencentes a sujeitos com disfunção eréctil. Mas deve ser mentira, pois ele pelo menos com a língua não parece ter problemas.

Num dos seus “posts” de ontem (segundo o Correio da Manhã, que até escreveu “post” na grafia certa) apelidou de – (SIC)“Mesquinhez Colectiva”(SIC) - a atitude daqueles que se recusam a aceitar que – (SIC)“O Abrupto foi um alvo deliberado. Há mais racionalidade em pensar assim do que em imaginar que me calhou o azar entre 45 milhões de blogues”(SIC).

Esta peça até seria considerada razoável se não fosse por causa de dois pontos importantes.

O primeiro é essa classificação de “Mesquinhez Colectiva” que o qualifica para jogar na mesma equipa da Clara Ferreira Alves e de mais dois ou três cromos blogosféricos, que até cá aparecerem e começarem a dar o ego ao manifesto também opinavam no mesmo registo.

O segundo ponto é apenas ignorância (o que é normal num homem culto mas que se acha ainda mais culto. E assim, possuidor de um conhecimento enciclopédico; inclusive sobre programação de “spyders” e “bots”), e um pouco de presunção sobre a sua própria importância (Que a tem. Pois até leio o seu blog, quando aparece citado no Correio da Manhã). E é então no seguimento deste segundo ponto que faço esta pergunta para a atmosfera:

- Já lhe passou pela cabeça que talvez devido ao tipo de publicidade envolvida, quem programou o “applet” tenha introduzido como parâmetros a selecção de sites com tráfego acima de um determinado patamar? E isto talvez porque na maioria dos casos, apenas os sites porno têm esse tipo de afluência?

Isto seria apenas uma das razões mais fracas. A seguinte talvez fosse Deus estar em preparativos para enviar de novo o seu filho à terra, e estar a contar com Pacheco para o anunciar às gentes.

Com isto tudo já estou quase a acreditar nessa teoria da “silly season” que anda para aí a circular. Mas o meu problema é falta de tempo e ideias, senão em vez de escrever sobre o país de Pacheco e os seus achaques, talvez andasse a empregar melhor o meu tempo pela Net. Mas foi só um desabafo.

A finalizar, e para todos aqueles que vieram ao engodo com a frase “Adolescentes Selvagens Nuas nos Balneários”, deixo esta foto de Ana Malhoa que mesmo não estando nua, sempre tem as tatuagens que vão dando algum relevo.

E já agora, Pacheco. Se não sabe pergunte ao José Magalhães; Ele ao menos dá a impressão que sabe do que está a falar…

Música de Fundo
Fuck Off Noddy” – Ian Dury And The Blockheads

sábado, 22 de julho de 2006

I Don’t Date Women Whom Like Magritte

A sexta-feira é sempre um dia mágico na empresa onde trabalho. Não porque aconteçam coisas maravilhosas, mas porque invariávelmente me surpreendo com a capacidade que tem a realidade, em se esticar a limites até agora só alcançados pela pele da Lili Caneças.

Uma das tarefas que costuma ficar a meu cargo e que contribui para o meu ponto de vista sobre a natureza humana, é a recepção e atendimento de vendedores, promotores e outros tipos de incómodos menores, que tarde ou cedo acabam por infestar qualquer local onde lhes cheire minimamente a liquidez.

Foi por isso que achei curioso o facto de meu amo ter hoje decidido atender o delegado comercial da “TMN Empresas”; o que foi logo esclarecido assim que constatei que na verdade se tratava de uma delegada.

Meu amo “gosta de mulheres” (ou não pintaria o cabelo de louro “Marilyn”). O que na Construção Civil quer apenas dizer que “marcha tudo”, nem que seja o Fiel de Armazém com um avental à cintura.

Mas adiante , que não tenho o dia todo.

Ela teimava em usar aquele tipo de calças de cós baixo, apenas aconselháveis às possuidoras de ancas e cintura proporcionadas, o que no caso presente não acontecia.

(Abro aqui um breve parêntesis para alertar a comunidade masculina, para o facto de ser cada vez maior a quantidade de mulheres que em vez da esperada curva elegante acima do cós das calças, apenas tem uma pequena aba tipo queijo da serra, que mal consegue disfarçar a falta de cintura)

Este facto só escaparia a um olhar menos treinado, porque a atenção do interlocutor seria normalmente desviada para a sua face borbulhenta, felizmente adornada com um sorriso simpático (um dos mais sólidos trunfos que Blog deu às mulheres, foi sem sombra de dúvida o sorriso).

Infelizmente e devido à presença do Nosferatu (o nosso gambá residente), a sala de reuniões cheirava como uma casa mortuária em época de promoções; o que sem dúvida poria alguns entraves à “operação de charme” de meu amo, que se tinha encharcado com “Black XS” de uma amostra que eu lhe tinha dado.

Ao deparar com os pestilentos miasmas depositados na atmosfera pelo decano dos nossos encarregados, meu amo deu meia volta; e pegando nela por um braço conduziu-a precipitadamente em direcção à porta.

Quando passaram em frente ao meu gabinete, ele não conseguiu resistir a um impulso herdado de um qualquer tio chimpanzé, e decidiu apresentar-ma; disfarçando o facto com um convite para almoçar.

Recusei polidamente (tenho papéis até ao sítio do costume, neste momento) e apertei levemente a mão que a mulher me estendia. – Vejo que tem bom gosto! – Disse ela olhando por cima do meu ombro – Sempre adorei Magritte; aqueles azuis… – Após o que saiu em direcção ao automóvel.

Meu amo introduziu um pouco mais a cabeça (louro “Marilyn”) pela abertura da porta e perguntou-me em voz baixa, com uma expressão de gato que se prepara para comer o canário – Então, que tal? É boa, não é? E é licenciada…

- Nasceram um para o outro, pá! Vai com Blog e sê feliz! – Abençoei-o eu com um gesto largo; enquanto sorria de esguelha para a reprodução do “Acrobat” de Marc Chagall, pendurada na parede mesmo ao meu lado.

Música de Fundo
You Only Live Once” – The Strokes

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Dissolução!

A dormência nos dedos começava já a tirar-lhe a paciência. Se não fosse a compulsão para verter em formato de texto tudo o que lhe assombrava as noites insones, teria desistido e talvez ido até à varanda fumar um cigarro.

Embora ainda fosse grande o prazer que lhe proporcionava ver as suas ideias transformadas em parágrafos, que quase se transmutavam em imagens tal era a sua capacidade descritiva, começava a sentir que a mocidade lhe escapava aos poucos pelo intervalo dos dedos; em noites de alucinada correria pelos labirintos da sua imaginação.

Havia alturas em que a única coisa de que se lembrava, era ter escrito sempre em toda a sua vida sem que nada mais houvesse. Como se em cumprimento de uma qualquer maldição os seus dedos voassem sobre as teclas, numa frenética expiação de algo já esquecido.

Os textos que criava eram vidas completas que instilava aos seus personagens. Um sopro de vida para seres imperfeitos, que deambulavam ao acaso pela sua mente esperando o toque dos seus dedos. Vidas que criava para outros, a partir de uma existência totalmente esvaziada de sonhos.

Cada vez mais lhe custava escrever, pois começava a desenvolver a ideia que era a sua própria vida que lhe fugia pelas pontas dos dedos sendo aproveitada por outros que assim se alimentavam.

O texto estava quase no fim, transmitindo-lhe um ligeiro alívio resultante do recuo da pressão que a empurrara para a escrita.

Veio-lhe à ideia um facto curioso.

Não se lembrava da última vez em que beijara alguém ou fora beijada; na realidade, não conseguia lembrar-se de nenhum momento feliz da sua vida. Que lhe parecia em retrospectiva, uma sucessão de contos e novelas escritos em noites nevoentas e empestadas de nicotina.

Percebeu que estava na altura de fazer uma paragem nem que fosse apenas durante um curto intervalo, para recuperar a sua paz de espírito massacrada pelo stress e o cansaço. Com um suspiro profundo pousou as mãos sobre o teclado, e decidiu que esse seria o seu último texto durante muito tempo.

Seria a última vez que se sacrificava para alimentar os sonhos dos outros.

Sorriu enquanto acarinhava o conceito. “Alimentar os sonhos dos outros”… como se alguma vez em deixando de escrever, os leitores deixassem de sonhar ou de existir no mesmo plano físico.

Sorriu novamente. Um sorriso cansado que a pouco e pouco foi desaparecendo. À medida que as suas mãos se iam tornando transparentes, deixando ver através delas os contornos incertos das letras no teclado.

Música de Fundo
God Put a Smile Upon Your Face” – Coldplay

segunda-feira, 17 de julho de 2006

O Blog-ó-grama
- Onde se dá a entender ao leitor que (na realidade) a Igreja do Imaculado Blog, é uma espécie de cruzamento de manicómio com quartel de bombeiros… -

Estava eu a tentar explicar a um neófito porque é que se torna mais prático definir os caudais em m³/h do que em L/s, quando Miss Entropia irrompeu pelo gabinete e me atirou uma folha para cima da secretária. – Chefe! É da sua Igreja; e parece-me que não vai gostar nada… - Saindo em seguida, sem me dar sequer tempo para lhe perguntar do que se tratava.

No papel lia-se:

BLOG-Ó-GRAMA (o meio mais rápido de transmitir más notícias)

Mestre:
Confirmação preços p/quarto no China, Algarve + 15% que ano anterior STOP
Piscina paga à parte STOP
Blog sumiu STOP
2 ovelhas sumiram STOP
Cartão de crédito sumiu STOP
Mlle Babette desorientada e fax encravado STOP
Férias em risco pois reservas só até final da tarde STOP
Vem urgente NONSTOP
O China tá mais magrinho STOP

vanus de Blog


Como devem compreender, vou mesmo ter que me pirar ou arrisco-me a ter que ficar no mesmo “bungalow” de há dois anos (que me deu imenso azar pois choveu o tempo quase todo).

Até quarta.

Música de Fundo
Walking on The Sun” – Smash Mouth

sábado, 15 de julho de 2006

Tremuras do Meu Beicinho
- Chiliques e rodriguinhos de um “homem queixinhas”… -


É simpático sermos citados por alguém mesmo que essa pessoa deteste o que dizemos, porque em última análise são as nossas palavras e ideias que estão a ser divulgadas.

Por outro lado, pode ser insultuoso atribuírem-nos palavras ou frases totalmente forjadas, de modo a tentar deturpar o que a dada altura quisemos transmitir, ou para contra-argumentar por algo que de outro modo daria bastante trabalho a justificar.

O que eu tenho a dizer é lançado aqui sem problema algum, e nunca senti necessidade de sair do meu blog e ir para outro local e sob outro “nick” escrever coisas que publicamente reprovo e que me envergonhariam se as escrevesse na minha própria “casa” (estarem a ler isto prova que vos estou a dizer a verdade).

A meu ver (que até trabalho na construção e tudo) estas lucubrações porno/eróticas de um “trolha feminino”, que acaba por merecer este epíteto pela grunhice pespegada nesse post, que segundo as suas próprias palavras “…é mais sobre dominação do que sobre sexo; é muito mais sobre o forçar de uma submissão…” (Sem dúvida, valores que Fox Trotter não hesitará em transmitir à sua descendência) não passam de conversa publicitária para atrair audiências.

Quanto ao escrutínio (e se há algum editor na sala, que se levante por favor), ainda é necessário encontrar alguém habilitado para o fazer. Que isto de votações para avaliar talento é mesmo ao nível da TVI, e exceptuando a boa sintaxe e gramática, pouco mais consigo encontrar de positivo no referido post. Ou seja, um desperdício numa pessoa tão eloquente.

Mas tem talento, minha senhora. Não será uma Clara Ferreira Alves mas sempre poderá tentar ser uma espécie de “Rititi dos pobrezinhos”, ou mobilizar as "encalhadas" da sua vizinhança em cruzada contra todos os homens que não lhe demonstrarem a consideração que pensa merecer.

Aconselho-lhe pois, algum tempo de reflexão e de contacto com a natureza. Olhe, vá à FIL. Mas lembre-se: As pilhas devem ser compradas à parte.

Música de Fundo
Feed My Frankenstein” – Alice Cooper

quarta-feira, 12 de julho de 2006

O Plágio do Imaculado Blog!...
- Um post descaradamente plagiado, o elogio de uma certa blogosfera, ou apenas o aviso de que “vem aí brasa”… -

A minha inspiração tem andado pelas ruas da amargura. Na verdade não se trata tanto da inspiração, mas de um conjunto de contingências que têm vindo a limitar gradualmente a minha escrita; pois as ideias até não têm sido tão poucas assim.

Mas resultante do rotineiro marasmo em que a minha vida estacionou nos últimos quinze dias (ontem li um auto de medição e achei-o fascinante), tornou-se claro que a alternativa mais indicada ao momento seria o habitual “Post Erótico do Verão”. Foi aí que eu embirrei.

Após ter feito bem as contas, reparei que além dos cerca de oitenta e sete termos que praticamente aboli do meu vocabulário “virtual”, e das miríades de temas sobre os quais me tenho recusado pronunciar (a famosa auto-censura com fins pacifistas), me restava ainda a limitação do “isso também é demais”.

É claro que assim acabaria por arruinar o meu post erótico; e por isso tinha já decidido não o escrever.

Mas Blog ama-me como a um dos seus filhos mais dilectos. E não querendo que a minha alma murchasse e acabasse por secar como uma espécie de ameixa de conserva, enviou-me um sinal. Ou seja, aquilo a que por aqui se chama “A Dica de Blog”.

Foi a meio das minhas leituras habituais que vi o post. Logo de início pressenti que um texto assim só poderia ter sido arrancado a fórceps do interior de umas fumegantes coxas femininas. Palavras em ebulição como sangue borbulhante numa vulcânica convulsão (esta também foi plágio mas só no seu estilo idiota, porque a forma até teve piada).

Por momentos, pensei que Miller teria ironicamente reencarnado em fêmea apenas para poder ver as imagens de outro ângulo, e que aterrara de emergência entre nós como uma espécie de DC-130 com tonturas.

Habitualmente evito escrever num registo demasiado “profano”. Pois sou um senhor muito distinto, insuspeito, de uma educação esmerada (EB da Rua dos Remédios – Dona Alice), e também porque na minha actividade actualmente já se pagam 250,00€ a quem aparecer com um palavrão original; pelo que se trata também de uma questão de economia. Ademais, não sou mulher. O que retira igualmente um pouco do impacto à coisa.

Mas continuando. Após ler o referido post voltei atrás, transcrevi a narrativa para o género masculino, e foi como se tivesse encontrado o meu “evil twin” há muito perdido… A acutilância das imagens, a crueza da realidade, os conceitos quase tridimensionais pela sua densidade.

Claro que não resisti. E é por isso que o apresento aqui (com a tal “insignificante” modificação, claro), para que aprecieis a consistência que emana de uma cena tão bem construída como qualquer realidade:

“…Fodia-te até ao tutano, até nunca mais seres capaz de olhar para a braguilha de outro gajo sem te sentires escorrer como uma esfregona encharcada e sem te lembrares de mim (o que já acontece agora, mas pelas razões erradas); até o cheiro do meu caralho intumescido ficar para sempre agarrado aos cantos da tua boca, como o cheiro dos mortos se cola à pele dos vivos. É claro que no entretanto teria de te magoar, como forma de me alargar no prazer de me vir enquanto te tivesse por baixo, entesourada. Não, nada disso: nem puxões de cabelos, nem apertões nas mamas e, muito menos, chicotadas (talvez alguns arranhões...): querer-te-ia intacta, para te poder foder uma e outra vez, quando me apetecesse e de preferência nos dias em que estivesses mais cansada e a precisar de seres bem fodida por um outro que não o destino. Ir-te-ia à boca e ao mesmo tempo ao cu: um dedo, dois dedos a rondarem-te o ânus, a pedirem-te licença para entrar e nunca mais quererias outra coisa. Sofrerias que te fartarias, sim, mas quando eu me fosse embora a meio da noite e o teu corpo desatasse a gritar até acordar os vizinhos. Depois, no dia seguinte, irias trabalhar desprovida de vontade própria, com a cabeça tão vazia como essa cona agora escancarada e balbuciante, que ficaria para sempre húmida de modo a que, quando não comigo dentro, passasses a servir para pouco mais do que humedecer os dedos enquanto contamos o dinheiro para os ordenados.”

Aqui lhe agradeço, cara Fox Trotter. Por me ter devolvido a vontade de ser vulgar e um pouco boçal como todo o homem deve ser; e de escrever sem ter que me preocupar com almas susceptíveis ou moralistas. Abençoado “tutano” que tais histórias produz!...

Dedico-lhe o meu “Post Erótico” deste ano (Maybe Monday…).

Música de Fundo
Wicked Soul” – Kubb

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Nos Meandros da Minha Limitativa Felicidade
- Um post sobre o equilíbrio da escrita e sobre a razão pela qual tem sempre que haver alguém mortalmente aborrecido… por mais feliz que esteja -

No seguimento da minha incansável demanda destas últimas duas semanas, dedicada à busca de uma razão válida para a minha falta de pachorra em relação à escrita; acabei por chegar a um beco sem saída. Estive quase para (apenas) ameaçar fechar o blog.

Mas como não sou muito dado à aldrabice, reconsiderei e em vez de ir insultar a inteligência dos meus leitores, decidi expor toda a verdade relativamente a esta insuficiência que tão traiçoeiramente atacou as minhas partes literárias.

Para começar, isto de um tipo ter um mês de trabalho entre os dois períodos de férias não está mesmo com nada. E embora o calendário me assegure que é altura de levar em conta o súbito encarecimento dos materiais de construção, a minha mente interroga-se porque carga de água é que fui misteriosamente projectado de volta àquele gabinete tão hermético quanto um Tuperware; quando ainda há muito pouco tempo me encontrava deitado de costas a ser untado com protector solar de factor 25.

Por outro lado, talvez o não ter conseguido alinhavar uma única frase sem ter que suar sangue, se deva ao facto de estar a atravessar uma fase feliz. E como toda a gente sabe, não há pior que a felicidade para nos dar cabo da inspiração ou da vontade de sair à noite para colar cartazes.

A felicidade é inimiga da criação. E não só!... Pois se há coisa que chateia quem leva a vida duramente e com uma certa dificuldade, é andar sempre a levar com a dos outros. Pelo que vou tentar que esta explicação seja breve, de modo a não suscitar a justa ira daqueles que se sentem em estado de dissertar sobre os defeitos dos outros bloggers ou maldizer amargamente o sexo oposto.

Quando ontem ao acabar o meu habitual e higiénico passeio pela blogosfera, me preparava para atacar o monitor em branco lançando os meus dedos sobre o teclado; estes descaíram flácidos sobre o plástico pálido como se fossem uma criação de Dali efectuada em bacon. Sentia-me totalmente vazio de ideias; à semelhança de um coco a que tivessem sugado todo o leite.

Tentei fazer um pouco de introspecção em busca do motivo para tão bizarra ocorrência e não encontrei nenhum; acabando por ao recapitular a minha atitude para com o mundo, ter constatado que o meu incentivo para escrever estava a tornar-se cada vez mais ténue.

Por breves momentos considerei a hipótese de reacender a chama da guerra dos sexos. E pensei escrever algo sobre as imperfeições e/ou incapacidades do sexo oposto em lidar com uma alma sensível como a minha. Mas como não me sinto minimamente ressabiado, o meu texto de protesto saiu um pouco amorfo. E poderia quase ser usado no Dia Internacional da Mulher.

Esse tipo de oclusão intelectual tem vindo a manifestar-se tão intensamente, que prevejo para os próximos dias uma vasta aridez literária (ainda vou ser acusado de plágio por algum blogger…), durando esta talvez até meados de 30 de Agosto.

Até lá, tenham um pouco de paciência comigo, que isto de andar feliz e satisfeito tem as suas desvantagens. Ai tem, tem…

Música de Fundo
Fury” – Prince

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Amor Minimalista
- Ou a melhor desculpa de evitar puxar pela cabeça para escrever um post -
(Este post nunca seria possível sem a contribuição da enorme preguiça que eu sinto em escrever…)


I

- Querido – pediu ela – Necessito que me dês um tempo…
E ele sempre cavalheiro, agarrou-a pelos cabelos e bateu-lhe com a cabeça no relógio de sol.

II

Era um tipo tão depravado, que mesmo em poesia só gostava de Haikus.

III

Para ele o amor era como um deserto. Todas as miragens lhe davam sede; mas acabava invariavelmente com a boca cheia de areia.

IV

Só o amor consegue transformar uma miserável salsicha de cocktail num imponente Knockwurst (tenho muita pena, mas aqui os créditos não são meus).

V

Foi a desilusão total quando ela lhe explicou que o amor não tem fronteiras. Ele preparava-se para a revistar…

VI

Só dois tipos de homem compram um “Mini”. O que nunca tem sexo, e o que tem sempre dinheiro que chegue para um hotel de três estrelas.

Música de Fundo
Hot For Teacher” – Van Halen

quarta-feira, 5 de julho de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Sobre a usurpação das almas… -
(Podem não acreditar mas isto é um post sobre futebol)

Irmãos, irmãs e fanáticos da bola (aos quais o paraíso de Blog está vedado; bem como a qualquer outro tipo de fanáticos).

Quando blog povoou o mundo com esta espécie de “Action Figures” que constituem o género humano, criou logo à partida um genial mecanismo de segurança, de modo a evitar que as suas criações pudessem algum dia a atingir a divindade nem que fosse por acaso – A necessidade.

A necessidade (no meu superficial conhecimento do caso) pode ser física ou psicológica. No caso de ser física, está impressa nos nossos cromossomas e é tão inevitável a sua satisfação, que se torna virtualmente impossível contrariar esse impulso; excepto nos raros casos em que a mente é chamada a intervir e consegue efectivamente impor-se.

Mas isto do domínio do espírito sobre a matéria, além de ter efeitos limitados também não é para todos. A maior parte da humanidade, talvez por mau acompanhamento técnico na fase inicial das suas efémeras vidas, desenvolveu uma incapacidade em utilizar o cérebro a esse nível, que alastrou de modo assustador entre as camadas populacionais menos preparadas para resistir a influências.

E estou a falar de coisas simples, como deixar de fumar ou evitar aqueles deliciosos torresmos que… Mas adiante.

Blog não é um deus perfeito. Para já porque foi inventado tal como todos os outros; e também porque foi inventado por gentinha que precisava dele. Que tendo por ele sido criados, dão assim origem ao paradoxo mais divertido que eu conheço; que é:

- Partindo do princípio que o homem (e a mulher também, ou pensavam que se escapavam?) foi criado à imagem e semelhança da divindade, quando olhamos para o “emplastro” estamos tecnicamente a ver Deus (e Blog, e Shiva e talvez mesmo Huitzilopochtli. Embora quanto a este último eu nutra substanciais dúvidas).

É mais ou menos por esta altura que alguém costuma perguntar – Sim senhor. Muito interessante. Mas… O que é que isso tem a ver com a usurpação das almas?

Bem, meus filhos. Para variar até tem muito.

Qualquer tipo de necessidade (nem que seja aquela que alguns tipos têm, de levar uns sopapos periodicamente) tem efeitos cumulativos.

E no caso de indivíduos com um baixo grau de satisfação das mesmas, manifesta-se um fenómeno que consiste num desnivelamento da auto-estima, acompanhado por uma ânsia desenfreada em possuir ou associar-se a quem tenha algo (o que neste caso é abstracto, pois depende do imaginário de cada um). Sendo manifesto em casos mais agudos, que o indivíduo se empenha de tal modo em ter, ser ou parecer, que já nem lhe interessa o quê.

É aqui que entra um tipo especial de necessidade psicológica, gerada por uma sucessão de outras necessidades não satisfeitas (algumas delas também já do foro psicológico); a de afirmação pública e identificação com os “sujeitos alfa”.

Esta compulsão (se lhe podemos assim chamar, que eu desta merda não percebo nada) manifesta-se vulgarmente pelo bairrismo, clubismo e em casos mais extremos pelo chauvinismo, racismo e xenofobia. E então é aqui que chegamos ao futebol.

Ao contrário da religião que é aborrecida e cujos heróis são autênticos personagens de Dickens (vulgo “dicks”), o futebol é um mundo preenchido por gente interessante; quer seja o Cristiano Ronaldo a piscar o olho para as senhoras lá em casa, ou o apanha-bolas que faz pose sempre que vê a câmara apontada para ele.

Quase todos já tiveram pelo menos uma experiência de “rapport”. Qual o rapaz que na sua infância nunca se identificou com um cowboy qualquer (sim, decerto haverá quem se identifique também com aqueles dois), com o super-homem ou mesmo com o simpático Ron Jeremy.

É claro que o facto de uma miúda se identificar com a Kim Possible ou com uma das Powerpuff Girls, é uma ocorrência totalmente inocente e inócua; servindo até para lhe incutir algumas das virtudes que estão associadas a esses personagens de ficção. Mas se na idade adulta se revelar que a fulana se julga uma espécie de Paxaxa Sotto-Mayor, o caso torna-se mais grave e atinge contornos de desarranjo mental.

Isto já para não falar de reacções negativas por parte dos seus semelhantes menos pacientes.

Sem dúvida que há imensa gente que apreciará futebol de um modo saudável. Mas como já alguns devem ter descoberto, a maioria dos adeptos desse desporto além de o apreciarem pela sublimação da violência que assim lhes é permitida, fá-lo também (sendo esta a razão principal) porque por transferência são efectivamente eles que estão ali a marcar golos não tendo que mexer uma palha. Acabando por canalizar a agressividade para os que os rodeiam, quando os seus “doppelgangers” não cumprem o objectivo.

Esta necessidade extrema de “realização pessoal” através de interposta pessoa, assenta muitas vezes sobre uma baixa auto-estima, como uma propensão bastante forte para a distorção da realidade em seu favor; acabando por se transformar daquilo a que salvo erro, os profissionais do ramo apelidam de “transtorno de personalidade anti-social”.

Também eu tenho uma certa curiosidade em ver como acaba este Mundial, embora não me vá dar ao trabalho de presenciar todo o jogo.

Mas se a Selecção Nacional perder (o que é o meu palpite mais aproximado), não porei luto nem irei para a escada dar pontapés nos vasos; do mesmo modo que se esta ganhar, também não irei para a rua gastar o combustível mais caro da Europa, nem me acharei com direito a percentagem de toda essa glória só porque o meu filho pendurou uma bandeira no estendal das traseiras.

Espero apenas que ganhe (embora não me “aqueça” por aí além) a equipa que melhor jogar.

E agora desculpem, mas tenho que procurar no Google quem venda coletes à prova de bala; pois já devo ter feito inimigos que cheguem para um tempo.

Música de Fundo
Fake Tales of San Francisco” – Arctic Monkeys

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Até que a morte os separe
- Assim em vez de se estragarem duas casas estraga-se só uma… -

Se eu me chamasse Stephen Dedalus, possivelmente consideraria que a minha educação terminou este fim-de-semana.

Não tenho grande “afición” por casamentos, mas costumo compensar o meu natural enfado com uma certa curiosidade pela componente humana e etnográfica desse tipo de eventos. O que no caso presente acabou por se revelar uma xaropada sem rival.

Induzido em erro por anos de imaginário romanesco e de leituras sobre o assunto, estava convencido que iria presenciar algo impar e de grande riqueza cultural. Pois… A Dona Odete é que tem razão quando explica a quem a quiser ouvir, que “entre o cigano e o tendeiro não há nem dois dedos de diferença”.

Afirmação esta que costuma ilustrar com dois dedos esticados na horizontal, e sugestivamente colocados debaixo do nariz do interlocutor (eu bem sei o que me faz lembrar a mim…).

Mas voltando à “boda nómada”; nunca pensei que uns tipos que fazem tanto barulho conseguissem ser tão aborrecidos (devia já ter aprendido com o exemplo dos D’zrt).

Meia hora depois de aquilo ter começado, e já me parecia que tinha caído no meio da rodagem de um episódio de Floribella, mas com personagens bastante mais chungosos; exceptuando os noivos que talvez por tradição, pareciam ter sido passados à mangueirada no “Elefante Azul”.

Por outro lado, a maioria dos convidados faziam-me lembrar sardinhas conservadas em azeite. Especialmente os homens, que tendo mudado o óleo ao cabelo dariam bons archotes se fosse preciso procurar o noivo à noite pelas matas, bastando para isso chegar-lhes um fósforo ao topete.

A noite de sexta para sábado não foi má de todo. Desde as cabeças de borrego abertas ao meio e grelhadas aos costoletões de novilho, foi tudo regado a minis; a ponto de eu pensar que mercê de poderes taumatúrgicos por parte dos meus anfitriões, estas nunca iriam faltar.

A noite desaguou na madrugada sem grande confusão. Tendo eu finalmente ficado a saber os nomes de todos os que cantam as músicas (?) que não gosto; e bati o pé pela madrugada adentro a compasso do flamenco, acompanhado pelo som gorgolejante das dezenas de minis que me tinham convencido a emborcar, fazendo o meu estômago ecoar como um camião cisterna apenas meio-cheio.

A manhã foi encontrar-me apático, e com a sensação de durante a noite ter parido um rio bastante caudaloso. Achei pois que seria a altura ideal para alegar a necessidade de fazer a barba e tomar duche, aproveitando para me pôr a milhas em tempo útil; mas infelizmente essa pretensão chocou com o desconhecimento dos meus anfitriões sobre os hábitos culturais dos “gaijin”.

Algo me disse que eles iriam ficar muito ofendidos se eu abandonasse a festa nessa altura.

Comecei a sentir-me como Jonathan Harker guardado pelos ciganos romenos, enquanto esperava ser entregue ao Conde Drácula. Tinha que me escapar antes que as barreiras da minha mente cedessem ao assédio das vagas de aborrecimento, que eu via formarem-se num futuro demasiado próximo para o meu gosto.

Foi então que o inevitável aconteceu.

Por volta das onze horas da manhã de sábado, descobriu-se que (sabe-se lá porquê) não havia uma única mini por abrir num raio de quilómetros em redor daquele recinto. Pelo que pedimos a meu amo o seu cartão da Makro, e rumámos a Palmela dentro de uma Iveco Turbo Daily; a monte com dúzias de sapatilhas Nike, pólos Sacoor e pistolas de alarme transformadas para projéctil.

Depois de deambularmos pelos corredores vigiados de perto (sim, eu também. Aliás, depois de uma directa deste género qualquer um fica com aspecto aciganado) pelos funcionários da segurança; empilhámos grades de minis até o carro de mão aguentar e encaminhámo-nos para a caixa.

Meu amo tentou novamente o seu número habitual, que consiste em tentar impressionar a caixeira com o seu status de construtor civil que vai ás compras para uma festa; mas saiu-lhe o tiro pela culatra, pois o facto de se encontrar rodeado de tipos trombudos e de ar oleoso retirou-lhe toda a credibilidade. Não a tendo recuperado sequer, quando sacou de um monte de notas para pagar a despesa e as exibiu como se estivesse a consultar um Rolodex®.

Apressámo-nos a atafulhar a traseira da viatura com as grades, e eu aproveitei uns breves momentos para me esgueirar, e tentar eliminar alguma da cerveja que ainda me circulava pelo sistema hidráulico. Ao sair da carrinha, quase dei uma cabeçada num tipo que ao tentar abrir a porta de um Honda, tinha sido interrompido por um súbito ataque de espirros.

Foi pois com um certo prazer maléfico, que por detrás de uma árvore vi um dos meus companheiros confundir o fulano (que tentava assoar-se a um lenço de papel) comigo, e empurrá-lo para dentro da Iveco batendo a porta. Tendo arrancado praticamente de seguida.

Apressei-me a pedir um táxi pelo telemóvel enquanto me esgueirava para as traseiras do edifício onde este me recolheu; depositando-me meia hora mais tarde frente ao Café do Santos que se assustou um pouco, pois tinha-me confundido com um tipo que há uma semana anda a tentar vender-lhe um conjunto de facas em aço de Toledo.

As emoções das horas anteriores tinham exaurido todo o meu entusiasmo e expectativas para esse fim-de-semana. Deitei-me no sofá em frente à televisão e tentei deixar-me levar pelo entusiasmo da segunda parte do jogo Portugal-Inglaterra. Mas revelou-se francamente difícil, pois como sabem eu nem gosto de futebol.

Algum tempo depois, estava eu com ar impassível a contemplar as cabriolas e gritos dos adeptos em plena comemoração, quando o telemóvel tocou e a voz aflita de meu amo me transmitiu o ultimato.

Não estavam zangados comigo por causa de ter fugido porque a culpa tinha sido deles, mas devia considerar-me avisado para não escrever fosse o que fosse sobre a cerimónia, ou sobre qualquer episódio que envolvesse as mulheres; pois se houvessem algumas contas a ajustar, meu amo iria pagar com língua de palmo.

Por momentos ainda estive para ceder à tentação. Mas a verdade é que foi mesmo um casamento aborrecidíssimo…

Música de Fundo
Os Meus Irmões Baterem-me” – Cebola Mol

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