quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Jardim de Textos Esquecidos

Olhando um par que se afastava pela álea entre as árvores, o homem reteve a respiração durante alguns instantes para apreciar devidamente a calma que se instalara no local quase deserto. Acomodou-se um pouco mais no banco de madeira e pousou a seu lado os apetrechos com que tinha estado a escrever.

Subitamente sentiu que alguém lhe puxava a manga do casaco. Um miúdo de musgosos olhos verdes encarava-o numa súplica muda enquanto a sua mão minúscula lhe apresentava a lapiseira que largara instantes antes. – É assim que vai acabar? – Perguntou-lhe num tom triste mas calmo.

O homem olhou novamente em redor para as árvores vestidas de Outono, para as folhas secas que deslizavam pelo chão, e depois para o caderno escrito até meio que talvez nunca viesse a preencher. – É apenas um conto. – Respondeu surpreso – Uma história leve para o prazer da leitura; mas não me está a sair como esperava e acho que vou parar por aqui.

A criança insistiu enquanto lhe apertava o braço numa urgência disfarçada – Vês este jardim? – Inquiriu – E o carrossel onde os cavalos de madeira rodam vazios à roda do eixo? Ou o lago ali ao fundo onde navegou o primeiro veleiro que fizeste com tábuas de uma caixa de tangerinas?

Ele olhou novamente em volta sem compreender. Tudo se parecia vagamente com as suas recordações mas descritas por um estranho. Nada era como recordaria se lho pedissem, dando a ideia de que alguém editara as suas memórias imprimindo-lhes um cunho pessoal.

- Não é o local das minhas memórias – respondeu – tudo está ligeiramente diferente, e não me lembro das pessoas que passam…

- É apenas gente que esqueceste – esclareceu a criança – E encontram-se aqui tal como todas as coisas que escreveste e a certa altura abandonaste. Não os reconheces porque este lugar não é só teu. É também daqueles a quem incluíste nas tuas histórias, e que aqui ficaram aprisionados quando apagaste os textos incompletos, ou quando deitaste fora as folhas amarrotadas porque as palavras não te soavam bem. É o local onde ficam todas as ideias abandonadas, todas as histórias por contar, todos os gritos por escrever…

- Então – disse ele recuperando o caderno que pousara a seu lado – tudo o que eu não escrever agora desaparecerá dentro em pouco, como um sonho que esquecemos ao acordar.

- É um pouco mais grave – disse o miúdo com ar sério – tal como o disseste, tudo ficará esquecido. E a razão pela qual escreves deixará igualmente de fazer sentido; ainda te lembras qual o motivo que te levou a começar a escrever?

- Foi há muito tempo – respondeu o homem um pouco desalentado – Era mais jovem e se calhar foi apenas para me ouvir a mim próprio, mas não me lembro ao certo. Talvez fosse apenas para mais tarde ter uma visão mais clara de quem fora antes. Sim. Foi para nunca me esquecer de mim.

A criança encolheu os ombros mal agasalhados numa camisa de adulto demasiado larga – Escreves então porque existes, ou para que existas num futuro qualquer. Eu não deveria dizer-te isto porque já o sabes; embora sejas demasiado preguiçoso para o admitir. Vives porque escreves e és um avatar de ti próprio.

A chuva começou a escorrer mansamente das copas das árvores para o chão, esbatendo todas as cores que transitavam lentamente para graus de cinzento e sépia como num filme antigo.

Está na altura de escolheres o destino de tudo isto – disse o miúdo remexendo casualmente as folhas húmidas e cinzentas com os pés nus – O destas árvores de troncos rugosos, do carrossel de cavalos de madeira, do lago e da chuva. Talvez seja a última vez que verás chover deste modo; como o choro de um sonho que se vai esbatendo até desaguar num rio que perderá a identidade mais além… Mesmo as pessoas que passam ao longe, são a recordação de alguém que viste um dia e encontram-se aqui aprisionadas; esperando o acinzentar do esquecimento.

O homem olhou novamente o lago de águas pardas picotadas de chuva, em que vogava um tosco barco feito de ripas de madeira. O vento levara-o para o meio onde se afundara, tendo lá ficado durante anos como um navio amaldiçoado.

Aspirou lentamente a humidade vegetal que se transportava na brisa. E vendo que se encontrava novamente só… Recomeçou a escrever.

Música de Fundo
Strange Days” – The Doors

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- O regresso ao templo da cor celeste -

Caros fiéis (e infiéis também, que a nossa fé é heterodoxa), é quase flutuando sobre os meus “toe thongs” e sentindo-me um pouco “metro”, que regresso ao vosso convívio com as baterias carregadas e ainda três dias de férias para gozar.

Poderia começar por escrever umas merdas à Dalai Lama. Mas isso seria hipócrita da minha parte, pois a nossa religião é assim a dar para o hedonista e eu pessoalmente detesto chá com manteiga de iaque (o que além de perigoso nesta época do ano, não chega aos calcanhares de um bom gin).

Venho apenas saudar-vos, e sossegar os corações daqueles que já me julgavam à deriva em direcção às Colunas de Hércules, ou vítima de algum dos muitos perigos que espreitam durante as férias qualquer devoto de Blog.

Blog está de saúde e recomenda-se (mas apenas por prescrição médica). E embora a quantidade de textos produzidos neste período tenha sido bastante reduzida (não tem muito sentido escrever constantemente que se está “na maior), deve chegar para preencher esta semana; enquanto me readapto à vida frenética da construção civil e derivados.

Soube que fui citado na Visão há mais de duas semanas (obrigado Runner; ainda estou à espera do recorte) por causa do teste “personagens pimba”, só que nessa altura estava com o Sindroma de Aproximação de Férias (SAF) e passou-me; ficando pois aqui o agradecimento pela menção, embora um pouco atrasado.

Entrei no “sanctum” ainda com areia nos pés, e ao ligar o aparelho tive a grata surpresa de verificar que a congregação continuou a boa obra na minha ausência; o que prova que Blog é grande e que somos melhores que a IURD.

Por isso acho que devo algo aos fiéis. E para me penitenciar de ter curtido à brava sem a vossa presença, vou já responder aos comentários.

Que Blog vos acrescente.

TheOldMan (Pontifex Maximus)

Música de Fundo
Banquet” – Bloc Party

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O Post do “Adeus ó Vaitimbóra”!
- Onde o autor se despede “à francesa”, mantendo porém um certo recato no que diz respeito à efusão demonstrada… -

Estava eu ontem a ver um velho filme de ficção científica dos anos oitenta, com o Peter Strauss todo penteadinho a interpretar o papel de um solitário mineiro da Cintura de Asteróides (“A Cintura de Van Allen” e não “Um cinto dos Van Halen”), quando me deu para pensar no sentido da vida.

Habitualmente é daqueles exercícios que evito; pois além de ser totalmente estéril pela falta de resultados, faz perder um tempo precioso que poderia ser usado a dar à existência senão algum sentido, pelo menos algo com que se entreter.

Mas eu estava nessa. E comecei a pensar como seria bom se todos os problemas existenciais, fossem solucionados pelo simples acto de dar banho à Molly Ringwald numa poça de água cristalina no meio de um planeta hostil. Pensando bem, acho que trocaria o planeta hostil por Belize e a Molly Ringwald por uma ruiva a sério.

Por associação de ideias, Belize derivou para férias e a Molly também (embora de um modo um pouco mais elaborado), pelo que fiquei parado durante algum tempo a tentar pensar no que iria dizer-vos antes de me pirar daqui a toda a velocidade.

Hoje é o dia em que me despeço antes de rumar ao refúgio de Verão, onde me esperam aquelas coisas todas que aqui não enuncio para não causar inveja a quem fica a trabalhar; e também porque acho que a ostentação só fica bem aos construtores civis ou familiares.

Trarei pois, recordações das minhas deambulações pelos penhascos e areias do Sul, e um belo bronzeado tipo Cristina Aguilera para justificar as duas semanas de ausência. Talvez traga também o tão prometido e enguiçado conto erótico (levo um velho portátil); ou quem sabe apenas uma doença de pele apanhada numa piscina mal tratada. Depois se verá.

Por agora estou submerso em papéis e guardado à vista por Meu Amo, que mais uma vez tenta dominar a comoção causada pela perspectiva de ficar sem a minha carismática pessoa para lhe aparar os golpes.

Até dia 28, e que Blog esteja convosco (Eu nas férias não tenho paciência para ele).

Abraços e beijos também (a quem aplicável).

Música de Fundo
On The Beach” – Chris Rea

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

A Persistência da Paixão

Desde o princípio que eles tinham equacionado todas as situações possíveis. Sabiam por experiência própria e por testemunho a indivíduos com eles relacionados, que um dia tudo acabaria inexoravelmente.

Talvez devido a isso desde o princípio que cada um deles parecia empenhado em sabotar aquela relação. Desde o deixar escapar aquelas frases espontâneas que normalmente apenas servem para semear o desconforto, até ás demolidoras piadas de teor excessivo ou tiradas de conteúdo insensível e frio; mas nada tinha dado resultado e a coisa continuara.

Qualquer um deles se excedia além daquilo usualmente permitido entre duas pessoas que dizem amar-se, mas o tecido por detrás daquela realidade aguentava-se tão suave e sólido como seda de pára-quedas.

Um pouco surpreendidos com o caminho que os acontecimentos aparentemente trilhavam, alguns amigos (e mesmo desconhecidos que nada tinham a ver com isso) anunciaram publicamente as suas dúvidas sobre a solidez de tal situação. E de como toda aquela Primavera parecia prestes a desmoronar-se a qualquer momento, como um monte de berlindes multicores.

Contra tudo aquilo a que estavam habituados abstiveram-se de reagir. No fundo não havia nada que os preocupasse ou alguma dúvida urgente a ser esclarecida. Deixaram a pesquisa e os testes para aqueles que pareciam genuinamente interessados nos resultados. Sobre si próprios nada precisavam saber; o que sentiam estava bem (isto das raras vezes que se preocupavam em ir ver o que sentiam).

Por fim, desistiram de se preocupar com o assunto, e deixaram o tempo levá-los em frente sem qualquer preocupação com “comos” ou “porquês”.

Àqueles que ainda ás vezes lhes perguntavam porquê ou como; respondiam apenas que não sabiam, e que talvez fosse apenas porque se amavam…

Música de Fundo
Secret Girl” – Sonic Youth

sábado, 5 de agosto de 2006

Teorias da Conspiração – 2
- Desaparecimentos misteriosos… -

Sempre considerei bastante útil a capacidade de integração em qualquer ambiente. Evita a curiosidade natural por parte dos autóctones, e não raras vezes tem igualmente evitado problemas advindos de um certo “bairrismo”.

Ora no sítio onde nasci, cultivava-se em tempos recuados um certo chauvinismo como virtude. O que embora já esteja em desuso na actualidade, deve ter servido de modelo (após revisto e ampliado) ao famoso “bicho da madeira” (conhecido por “caruncho”, ou apenas por Alberto João).

Ao contrário da terra natal do “caruncho”, em Alfama já não se tem aquele desprezo arrogante pelos estranhos; mas eu mantenho os velhos hábitos, e quando passo por lá comporto-me como se nunca tivesse saído do 6º Andar na Rua Jardim do Tabaco. Ando de mãos nos bolsos e frequento tascas mal afamadas (felizmente ainda existem umas três ou quatro).

Tudo isto serve de introdução para vos relatar um dos casos mais estranhos que dei notícia nos últimos tempos: O misterioso desaparecimento em massa de todos os papagaios de tasca.

Como alguns de vocês sabem, uma das tradições mais pitorescas da Lisboa de outros tempos era precisamente “A Tasca do Galego”.

Todos os bairros tinham pelo menos uma, e em casos especiais duas; mas aí assistíamos a episódios dignos do contencioso entre os Montecchios e os Capuletos. Acusações mútuas de adulteração do “vinho do lote” e da famosa sopa feita à base da não menos famosa “bola de sebo”.

Na minha zona os “mais finos” frequentavam a tasca do Barata, que embora não sendo galego era do Minho; o que para todos os efeitos está para galego tal como tendeiro está para cigano. Mas que em cumprimento da velha tradição do ramo, tinha um papagaio tal como todos os seus congéneres do Bispado de Tuy.

Talvez por anti-semitismo (sem dúvida comum aos outros tasqueiros galegos ou não) este chamava-se Jacob. Inquiri por ele, mas foi-me dito que há muito morrera de velho; o que eu educadamente fingi acreditar. O mais certo teria ser sido suprimido por se exceder na vocalização de inconveniências.

Mas o ambiente não era o mesmo sem aquela voz de cana rachada a interpelar todos os que saíam com um constrangedor – “Já pagaste?” – ou as profanidades que eu e os dois gémeos da Rua dos Remédios esforçadamente lhe tentávamos ensinar.

Acabando de roer o último pedaço do “frango na púcara”, pedi a conta e preparei-me para sair juntando os talheres a meio do prato; onde impulsionada pela brisa pousou uma minúscula pena azul, que o reflexo do sol fazia brilhar como se me endereçasse um sorriso zombeteiro.

Música de Fundo
Papagainho” – Cebola Mol

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

(Repost de 08/05/2004 - Desculpem lá mas o tempo não dá mesmo para mais. E eu quero ir de férias)

Preceito e Metodologia para uso dos Apreciadores de Bolas de Berlim
- Contribuições para um melhor entendimento da pastelaria contemporânea –

Há uns posts atrás quando ao falar das diversas seitas e religiões menores, aflorei ao de leve o ritual praticado pelas “Adoradoras da Tíbia do Mártir”, não fazia a mais leve ideia sobre as múltiplas escolas de pensamento dedicadas ao estudo da Pastelaria Contemporânea (fabrico próprio).

Devido à vastidão de opções neste domínio que vão desde a sumptuosa profiterole ao humilde e proletário queque (é um contra-senso, eu sei), e visto que tal me foi pedido de um modo muito bem educado, vou debruçar-me pois sobre a Bola de Berlim; essa deliciosa obra de arte que só há pouco se descobriu ser na realidade originária de Hamburgo.

O seu criador Friedrich Von Rotermund, após ser objecto de várias ameaças de morte por parte do cartel da fast-food hamburguesa (estranhamente dirigido por um escocês de seu nome McDonald), decidiu finalmente mudar-se para a capital do império em busca de fama e fortuna.

Na altura reinava o Kaiser Willelm I, um truculento cabotino que comia o frango à mão e tratava os arenques de um modo desumano. Houve quem contasse que ele era capaz de meter na boca quatro ovos cozidos e mastigá-los a seco enquanto falava (penso que isso tenha dado origem à característica pronúncia Prussiana). Como podem ver, tratava-se de um homem pouco dado às subtilezas da pastelaria fina.

De início Friedrich estabeleceu-se com uma pequena loja na Koenigstrasse, e tentou realizar dinheiro para a investigação recorrendo a uma receita de Strudel herdada de uma tia-avó. Felizmente o negócio proliferou pela qualidade da confeitaria, a ponto de toda a fina-flor da música e literatura europeias se ter deslocado para Berlim, apenas por causa dos pequenos-almoços tardios (Friedrich não era nada madrugador). Diz-se até que o "aprés midi d'un faune" de Debussy foi inspirado nisso...

O nosso herói trabalhava amiúde até altas horas na madrugada, tentando variedades alternativas de creme. Desconhecia-se até há pouco que o creme inicial da bola de Berlim era o chocolate.

Aparentemente o produto não despertava muita atenção, especialmente porque se tornava demasiado enjoativo. Isto acrescido de custos proibitivos na produção, pois o cacau vinha do Novo Mundo nos modernos Clippers (que como toda a gente sabe, roubavam tanto na tarifa como os táxis do aeroporto).

Durante a investigação do creme inventou por acidente o rissol, pois ao notar que o creme de camarão não ligava com a massa doce, lembrou-se de o envolver em algumas hóstias que estava a fabricar para a Igreja Luterana de Spandau; e que tinham ficado demasiado salgadas por culpa de um aprendiz.

Foi um pequeno sucesso que lhe permitiu continuar a sua demanda do Graal dos Cremes, tendo-o descoberto por acidente a um sábado quando fazia a barba.

Sua esposa Greta fazia a dieta do limão. E mais uma vez andava a chateá-lo para que suavizasse o seu amargo martírio diário, com que tentava há anos reduzir uns simpáticos noventa e sete quilos.

Friedrich, sabendo que ela nunca emagreceria pois ás escondidas ia sempre devorar os restos das suas experiências nocturnas; e para se livrar dela de uma vez por todas, inventou o creme de limão. E já que tinha sobrado algum, aproveitou para o pôr na bola de Berlim que lhe tinha sobrado da noite anterior.

Devido a uma certa falta de imaginação tipicamente teutónica, começou por barrar a bola, mas não resultou muito bem pois isso iria sujar os dedos aos clientes; e como todos sabemos, nessa época a Igreja Luterana condenava vivamente o acto de chupar os dedos em público.

Seguindo a linha inspiradora que o conduzira à descoberta do rissol, introduziu o creme no interior da bola, só que acarretava o problema adicional de o público não notar à primeira vista essa deliciosa característica, o que resultaria num terrível erro a nível de gestão da imagem do produto.

Mais uma vez foi salvo pelo acaso. Sophie, a criada Francesa, encontrava-se nesse momento a apanhar os cacos de um penico (um Sévres autêntico, sem preço) que deixara cair ao chão.

Como se encontrava curvada, o bordado dos seus alvos culottes despontava pela borda da minúscula saia, atraindo a concupiscência do patrão; que de imediato equacionou o princípio do “mal escondido intencionalmente”, que por sua vez daria origem não só ao creme semi-dissimulado das bolas de Berlim, como muitos anos mais tarde ao conceito Wonderbra.

Estava criada a Bola de Berlim e só faltava publicitá-la. Para esse efeito o pasteleiro apalavrou Goethe, não porque apreciasse a sua obra, mas porque o dramaturgo tinha um calote do tamanho da légua da Póvoa, e não parecia disposto a chegar-se à frente nos tempos mais próximos.

Infelizmente devido à natureza depressiva de Goethe, o slogan era tão triste que as pessoas saíam da pastelaria a chorar desconsoladamente; e o pior de tudo, sem comprarem absolutamente nada.

Após pôr de lado a hipótese de contratar Nietzche, Que nessa altura andava apaixonado pela irmã e não dizia coisa com coisa; recorreu finalmente a Kant, que demonstrando mais uma vez o senso prático que todos lhe conhecemos, se saiu com o “postulado da hostilidade” que ficou para a história – “Gostem ou não, é assim! … E é de Berlim!”

Foi um êxito estrondoso. Tal como todos os produtos com êxito no mercado (por exemplo, o nosso vinho do Porto), começou logo a ser falsificado em larga escala por todo o mundo. Tendo-se assistido ao aparecimento das Bolas de Pequim (massa de arroz e creme de li-chi) e das prosaicas Bolas das Caldas (barro pintado à mão por Rosa Ramalho) que eram apenas decorativas.

Como os berlinenses teimavam em lambuzar-se indiscriminadamente nas pastelarias, Friedrich temendo que isso afectasse a imagem do seu país na Europa, decidiu lançar um pequeno folheto indicando como bem comer a sua invenção sem parecer demasiado labrego.

Desta vez a tarefa da redacção foi entregue a Byron, que lhe emprestou muito do seu estilo e alma românticos, como se verá pela transcrição seguidamente apresentada. Embora esta se encontre incompleta, pois parte do folheto teria por volta do meio do século passado, sido arrancada para embrulhar castanhas assadas.


---- Chegada a altura de devorar o bolo, fá-lo-emos com doçura afastando um pouco da cobertura de açúcar entre o polegar e o indicador. Atentemos no creme, se escorre levemente pela fenda semi-aberta e lentamente afastemos um pouco o seu rebordo.

Não se deve introduzir a língua de imediato, mas passá-la levemente de lado nos limites dando uma certa fluidez ao movimento; isso fará com que o creme se vá soltando, não sendo necessário para tal apertar com o confeito.

Após repetidas e lentas passagens em redor introduz-se a língua a fundo. Nessa altura já quase todo o creme terá saído, notando-se por vezes um característico efeito de sucção por parte do orifício completamente vazio. É essa a oportunidade para passar a comer o resto, o que já poderá ser feito com muito menos lentidão. Pois como é sabido, ferrar o dente numa coisa doce é uma sensação necessariamente frenética… ----



Infelizmente o tempo apagou o resto do texto, pelo que apenas nos resta recorrer à imaginação para reconstituir o que falta. Porém um facto foi dado como histórico e provado sem sombra de dúvida; após ler a exposição de Byron, Friedrich a partir dessa altura decidiu que a fenda do creme passaria a ser cortada no sentido vertical.

Termino com as imortais palavras com que Friedrich fechou o seu diário íntimo nesse dia – “Em qualquer altura ou disposição, um doce nunca é demais…

Música de Fundo
Pour Some Sugar On Me” – Def Leppard

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