sexta-feira, 29 de setembro de 2006

A Instituição (2)
- O famoso “Primeiro Capítulo”, que como toda a gente sabe é quando as coisas começam realmente a “aquecer” (pelo menos é o que dizem os entendidos, que eu não faço ideia) e onde o picheleiro (que por cá se chama “canalizador”, ou mesmo Chico) se interroga sobre o sentido dos fluidos (cujo fluxo no hemisfério Sul se processa em sentido inverso), e se este trabalho não virá a dar prejuízo… -

Primeiro Capítulo – “A antiguidade é um posto
(pode ser é da “Caixa”…)”

No cimo das escadas, a directora aguardava que Ricardo (o especialista em condução de fluidos) tirasse da carrinha o saco de nylon com a roupa e restantes tralhas para a estadia; dando para se entreter pequenas pancadas na caixa a seus pés, com um sapato de fivela e aplicações de latão.

Atravessaram a comprida galeria que percorria todo o casarão, cujos aposentos se distribuíam em quadrado à volta de um pátio; onde uma fonte murmurante se protegia na sombra das trepadeiras.

Chegaram finalmente a uma zona aparentemente mais antiga, pois as paredes ainda eram de tabique forrado a papel florido meio desbotado; e onde dos tectos decorados a alto-relevo, se desprendiam miasmas de humidade acumulada desde tempos esquecidos.

A mulher introduziu na fechadura uma chave do enorme molho que transportava no bolso girando-a lentamente; o que produziu quatro estalidos como tiros de pistola. Ruído introdutório para o guincho de protesto que os gonzos emitiram, quando a porta se escancarou.

Encostando-se à ombreira observou-o a tentar entrar de lado com um volume em cada mão, e aproveitou para avançar a coxa e assim sentir contra ela a dureza da nádega masculina através do tecido grosseiro.

Não o deixou sequer largar o que transportava.

Puxando pela t-shirt para o fazer virar-se, introduziu-lhe a mão direita pela parte lateral da indumentária, e forçando-a para baixo, agarrou-lhe o membro duro empurrando a pele deste quase violentamente contra os testículos, e sentindo contra a parte interior do braço a curva de carne palpitante. O ruído surdo da bagagem a contactar com o chão, chegou-lhe aos ouvidos abafado pelo pulsar do sangue nas têmporas.

Antes que ele tivesse tempo para pensar, já uma língua carnuda em forma de cunha lhe devassava os lábios; húmida e descarada.

O roupão de seda planou até às tábuas do soalho como uma borboleta drapejante; deixando à vista um corpo pálido mas de consistência ainda firme, que agilmente se agachou diante dele, puxando-lhe para baixo o peitilho e arrancando assim os botões que prendiam as alças das jardineiras.

Empurrou-o pelas ancas contra uma mesa baixa encostada à parede, abocanhou a glande brilhante e tensa com os lábios encharcados em saliva, e forçou-a lentamente até ao fundo da garganta; sentindo o nariz achatar-se contra os músculos abdominais que estremeciam de prazer.

Ao sentir as palmas das mãos dele pressionarem-lhe a nuca, retirou-o lentamente da boca e olhou-o bem nos olhos castanhos semi-fechados onde pareciam bailar labaredas de prazer. Usando os dentes para o tantalizar, cerrou-os em redor da glande como se tentasse abrir com eles a cápsula de uma garrafa.

Erguendo-se levantou a perna esquerda, e assentando o pé firmemente sobre a mesa contra a parede atrás dele, puxou para o lado a orla das cuecas expondo um monte-de-vénus totalmente depilado, que acariciou demoradamente enquanto lhe chegava aos lábios um seio onde o mamilo hirto e rubro como uma groselha estremecia convidativo.

Segurando-se com ambas as mãos nos ombros fortes do jovem, empalou-se-lhe no membro soltando um suspiro profundo e rouco cujo eco se repercutiu pelo quarto; iniciando um movimento amplo no sentido vertical, que produzia um som húmido quando as suas nádegas embatiam nas coxas que ia encharcando por debaixo de si.

Sem outra reacção aparente que uma respiração entrecortada ele encontrava-se sentado sobre a borda da mesa, onde se agarrava tenazmente, com os nós dos dedos lívidos e tensos como seixos.

Começando a aumentar a cadência dos movimentos, a directora que entretanto tinha perdido os óculos, soltou o cabelo que se desdobrou em veludo negro percorrido por fios de prata. E agarrando nas alças das jardineiras que ele não tinha despido completamente, enrolou-as aos pulsos, inclinando-se para trás e iniciando uma sequência de saltos bruscos cada vez mais rápidos. Numa urgência que lhe cobria de rubor a face antes pálida e severa.

Lá fora as árvores começavam a ser agitadas pelo vento que entretanto se levantara, fazendo os ramos roçar pelas paredes do edifício como que dedilhando um instrumento de cordas.

A mesa batia na parede a intervalos regulares com um som cavo, despertando ecos longínquos.

Uma sensação de dedos rubros percorria-a no sentido ascendente, passando pelos seios túrgidos que oscilavam livremente chapinhando no suor que lhe escorria pelo peito, arrancando-lhe um sorriso perverso e repuxado que lhe evidenciava os malares de pele esticada.

Levantando o pulso direito onde se enrolava uma das alças, passou-lha em redor do pescoço e atraiu a si os lábios que beijou raivosamente, continuando a esticar a tira de tecido à medida que sentia o pénis dentro de ri enrijecer ainda mais, como resultado do quase estrangulamento a que sujeitava o rapaz.

Inesperadamente uma sombra passou célere pela vidraça, deixando vislumbrar uma expressão zombeteira coroada de cabelo fulvo e emaranhado; ao mesmo tempo que no aposento ao lado algo se quebrou com um ruído de porcelana estilhaçada acompanhado de uma gargalhada estridente.

Pálida de surpresa e fúria, a mulher soltou-o e agarrando no roupão de seda saiu rapidamente batendo a porta. Deixando atrás de si o jovem, que de pernas trémulas se vestiu hesitante e passou a mão pela garganta, inspirando golfadas de ar que lhe permitiram focar a vista a tempo de ver um vulto espreitar pelos vidros empoeirados da janela.

Cambaleante e apoiando-se na parede foi deitar-se na cama, ficando a olhar o tecto onde a pintura de um fauno entre sílfides numa moldura de gesso, dava a ilustração quase perfeita para as risadas cristalinas, que dissimuladas pelas paredes chilreavam em seu redor num cantar de riacho saltitante…

Música de Fundo
“Konzert für Klavier und Orchester Nr.1 b-moll Opus 23”
(Allegro con Fuocco)
Pyotr Ilyich Tchaikovsky

(London Symphony Orchestra – Deutsche Grammophon)

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

A Instituição (1)
- A “exploitation novel” que todos esperavam! Uma história de sexo, violência e mistério; protagonizada por adolescentes loucas de paixão, uma megera, um corcunda, um canalizador… e sabe-se lá o que mais me vai apetecer incluir. Destinado à nossa vasta e selecta clientela amante de emoções fortes, a quem aconselhamos a leitura destes fascículos (Sim, são vários. O que é que esperavam?) acompanhada por um Hennessy XO, ou mesmo um bom lubrificante à base de água… -

Prólogo – “As ferramentas medem-se em polegadas”

O picheleiro imobilizou a velha Bedford na álea frente ás escadas de calcário, fazendo estalar a gravilha debaixo dos pneus quase gastos. A manhã era ainda jovem; convencida a acordar por um sol de Outono quase alaranjado, que pincelava reflexos nas folhas dos aceres e carvalhos que ladeavam a casa de aspecto sombrio.

Tirando da traseira do veículo a caixa de ferramenta de aspecto denso e pesado, subiu os degraus e pegou na aldraba que lhe fugiu da mão, quando a porta foi inesperadamente aberta por um simpático ancião de farta cabeleira escorrida até aos ombros.

Este afastou-se para o deixar passar, assinalando o caminho com um gesto silencioso que ao fazê-lo virar-se, revelou uma corcunda em formato de mochila de montanhismo mas mais pontiaguda.

- Estão bem protegidos dos assaltantes… - Disse o jovem a tentar entabular conversa, tendo observado ao chegar que todas as janelas se encontravam gradeadas. Mas não recebeu resposta do outro, que apesar de marreco não era coxo e já se afastava a trote com uma ligeireza invejável para um homem da sua idade.

Enquanto percorria o enorme corredor, pareceu-lhe ouvir risadas cristalinas vindas das paredes cobertas de tapeçarias artesanais; como se atrás delas corresse um regato acompanhado pelo canto das aves da floresta. – Sem dúvida que a culpa daqueles devaneios se deveriam à francesinha manhosa e à malga de "verde", despachados à pressa no tasco do Faustino “calhordas” – Pensou intimidado.
Sem deixar de andar, transferiu para o outro braço o peso morto da caixa de ferramentas.

Detendo-se frente a uma porta com orifícios de caruncho cobertos por verniz escuro, o insólito guia girou o puxador com a mão mirrada e nodosa como a raiz de um teixo, convidando-o a entrar no aposento com um grunhido surdo.

De costas para a porta, uma mulher de meia-idade em “robe de chambre” de seda oriental, olhava através da vidraça biselada que dava para um pátio interior; onde figuras indistintas pareciam executar uma coreografia complicada que envolvia arcos e fitas.

- Quero de si o máximo sigilo. – Disse-lhe ela sem se virar – A nossa instituição acolhe apenas casos especiais. Particularmente moças de famílias abastadas que cometeram alguns deslizes; e a quem foi dado a escolher entre a prisão e o internamento neste estabelecimento. – Virando-se, perscrutou-o com uns olhos aquosos através das lentes rectangulares de uns óculos fora de moda. – Nada do que vir aqui pode ser contado lá fora…

Ele balbuciou um assentimento semi-constrangido, enquanto sem saber o que fazer das mãos, alternava entre segurar as alças das “jardineiras” de ganga ou metê-las nos bolsos. Despertando um sorriso pálido e algo retorcido por parte da mulher, que apreciava a sua figura juvenil com um ar crítico e despudorado.

A directora (a acreditar no dístico que se encontrava sobre a secretária) aproximou-se espalhando um discreto odor a alfazema – Espero que o facto de vir sozinho não prejudique a execução dos trabalhos – considerou casualmente, aproveitando para lhe conferir a firmeza do bíceps esquerdo – mas você parece ser suficientemente forte para o que necessitamos. Venha e traga os seus apetrechos!

O jovem operário estremeceu ao contacto da uma mão delicada de veias levemente azuladas, cuja temperatura estranhamente baixa lhe provocou um arrepio involuntário. Pegou novamente na caixa e preparou-se para sair, reparando na face de um dragão sorridente bordada nas costas do roupão.

Ele seguiu a figura feminina, interrogando-se se teria valido a pena aceitar aquele trabalho apenas por causa de mais algum dinheiro extra.

- Visto que vai ficar connosco quinze dias, vou mostrar-lhe os seus aposentos antes de começar o seu trabalho. – Disse ela ao atravessar a porta, e fazendo oscilar o traseiro que parecia dois cachorrinhos dentro de um saco. – Depois é melhor começar pelo mais urgente; vai ter que fazer um desentupimento. Espero que tenha trazido toda a ferramenta necessária…

A porta do gabinete fechou-se silenciosamente. Suspenso de um crucifixo de mogno, o Cristo de tez cerosa ostentava uma expressão aflita; como se tentasse libertar-se dos pregos que o aprisionavam na madeira cor de sangue…

Música de Fundo
“Concerto para Trompete, em Lá Menor Opus 3, Nº 8” - Adagio
António Vivaldi - (La Camerata de France Languedoc Roussillon)

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Royalty Free
- Onde para tentar contrariar a onda de plágio que ultimamente tem afectado a nossa comunidade blogger (devida talvez a alguma crise de imaginação), se procede mais uma vez à oferta de ideias parvas e projectos para posts de igual jaez. –

Mais uma vez comecei a achar que a quantidade de papelinhos multicores sobre a minha secretária se estava a tornar exagerada. Mas a imaginação é como pescar com um camaroeiro; por muito que se apanhe, só conta o que se pode realmente aproveitar.

Assim, no seguimento do espírito solidário da Igreja do Imaculado Blog (onde nada é grátis), aqui deixo algumas ideias base para serem desenvolvidas por quem assim o entender. Sim. Porque se quisesse eu desenvolvê-las nunca faria delas oferta.

1 – Frases Idiotas (ou talvez não)

1.1 – Os reclusos detidos por pedofilia devem ser proibidos de ler Paulo Coelho, para evitar que entrem em contacto com a criança que há em si (neles, claro).

1.2 – Numa boa parte dos casos, uma Senhora (assim como um Senhor, é óbvio!) que profere profanidades em público, é porque quer “privar”.

2 – Diálogos Maliciosos

- Está ali uma mosca morta
- Então diga-lhe que se vá despindo, que eu já lá vou…

3 – Categorias (como em Aristóteles, mas menos clássico)

Esferovite Literária – Designação para textos repetitivos e promocional-introspectivos, cujo único fim é tentar dar ao (incauto) leitor a ideia que está a ler um blog de um/a gajo/a muito porreiro/a (normalmente vítima de grandes injustiças).

4 – Ideias para Posts

4.1 – Gaybéus – Um post pungente retratando a odisseia dos/as homossexuais que vêm para as grandes cidades, pensando que aqui não precisarão de trabalhar apenas porque há um “lobby” (igualmente aplicável a todas as minorias com aspirações a privilegiados).

4.2 – Mulherezinhas – Uma história de interesse humano passada num reformatório feminino, onde duzentas e vinte raparigas são mantidas “na linha” a pulso de ferro por uma megera que o dirige; e cujas únicas distracções são um jardineiro corcunda, e as constantes faltas de luz com a consequente distribuição de velas (se pedirem muito, até eu escrevo esta).

5 – Oportunidades Comerciais

Com o advento de negócios mirabolantes como hotéis para animais, psicólogos para animais e quejandos; achei que uma boa oportunidade comercial seria a de se fabricarem também bonecas insufláveis para esses fiéis companheiros do ser humano (dos que os apreciem a esse ponto, claro).

A primeira campanha publicitária poderia ser veiculada a partir de um “clip” de curta duração a passar na TV, retratando dois amigos (ou amigas, ou pares mistos, tanto faz.) em conversa amena numa sala de estar; enquanto o cão da casa se encontra ao lado deitado no chão e contemplando a televisão com uma expressão seráfica.

- O teu “Jolly” ultimamente anda mais calmo. Pelo menos parece que deixou de se tentar “orientar” nas pernas das visitas.

- Comprei-lhe uma boneca insuflável; uma “grand danois”. Descobri que ele sempre gostou delas mais altas…

Música de Fundo
Mandelay Song” – The Flying Lizards

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

O Riso como arma de destruição massiva
- Um post que não é um post, onde no seguimento do anterior (e apesar do estilo destes subtítulos andar a ser sobejamente copiado) o autor se ri à brava de tudo o que a vida decide proporcionar, sabendo à partida que o “almoço à borla” não existe… Especialmente para quem estiver à cabeceira da mesa. -

Pois é... A psicologia de massas… Temos pena mas já demos…

A grande aspiração de qualquer ser humano é destacar-se como indivíduo. Muitas vezes não pelo seu valor intrínseco, mas apenas para que o considerem diferente do vizinho que ainda tem a bandeira nacional posta à janela desde o “Mundial”.

Só que não é tão fácil como isso.

Boris Vian (no “Arranca Corações") dizia que Deus é um luxo. E tinha toda a razão, embora pelos motivos contrários. Cada um de nós é deus ou apenas uma pequena migalha desse grande e divino pão-de-ló. E há que merecê-lo ou pelo menos ser algo que se distinga; pois SER não é apenas falar disso, mas viver em conformidade com o que se afirma.

Para os que falham nesse tipo de hercúlea tarefa existe um refúgio fácil; a droga. Que tanto pode ser um miserável charro, a heroína, ou a identificação com personagens de novelas escritas por espertalhões, que além de já terem conhecido melhores dias, conheceram igualmente legiões de fracos espíritos similares; ou pura e simplesmente “encostar-se” a um indivíduo ou grupo que já o tenha conseguido.

Não vou aqui malhar nos devoradores de novelas e afins. Porque presumo que não tenham sequer paciência para ter chegado até este ponto do texto.

É fácil reconhecer o “cliente final” da psicologia de massas. Segundo o meu manual (escrito por mim e anotado por todos os “colaboradores” que fazem o favor de suscitar a minha hilaridade) é facilmente detectável por se parecer com um “burro carregado de relíquias” à boa maneira galega; cita tudo o que ouve proferir a mais de duas pessoas e abraça as causas mais badaladas sem nada contribuir, excepto com um considerável caudal de conversa fiada para dissuadir qualquer sindicância nesse sentido.

Paradoxalmente é alguém que ri muito; embora demasiado alto e ligeiramente atrasado em relação aos outros quando em grupo. Raramente o/a ouvirão rir quando se julgue sozinho, pois considera o humor uma espécie de actividade social que não vale a pena fazer a sós (ao contrário do choro).

Mas a psicologia de massas também tem as suas vantagens (embora não vos possa explicar todas, senão isto perde o interesse). Uma delas é contribuir para que alguns dos menos permeáveis a essas técnicas, utilizem a tendência geral e o “trabalho” dos “técnicos” para os seus fins.

Tudo isto para explicar que meu amo (uma pobre vítima dessa insidiosa técnica) partiu ontem para a República Dominicana. Só não consegui que ele fosse novamente para a Tailândia; pois com o golpe de estado, teria sido a cereja no topo do bolo.

(como os mais inteligentes de vós decerto já notaram; mais uma vez escusei-me a terminar este maldito assunto. Pelo que ficará para um dia destes, quando eu descobrir como dizer o que me apetece sem me virem incendiar o escritório. Ah, e também quando conseguir arranjar tempo; que agora sou “pato-bravo” honorário.)

Música de Fundo
Yepa, Yepa, Yepa” – Silvério

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Imitação de Vida
- Não é na era da comunicação que nos encontramos, mas sim da manipulação da mente -

Para quem tenha lido Aldous Huxley isto pode parecer “chover no molhado”, mas nunca são demais as vezes em que se fala deste tipo de assuntos.

Logo que o homem atingiu o topo da cadeia alimentar, embora se possa pensar o contrário, não parou; tendo em vez disso continuado pela via da “evolução interna”; ou seja, uma espécie de canibalismo em que tenta prevalecer sobre o seu semelhante. Influenciando o seu intelecto de modo a melhor o poder subjugar, e em última análise fazendo com que este o sustente, deixando-lhe tempo livre para viver melhor ou proporcionando-lhe bens e serviços que este por si só nunca conseguiria ter sem abdicar do seu precioso tempo de vida.

A isso chama-se sociedade e está dividida por classes, que embora tendo uma certa diversidade, se distribui por duas facções principais um pouco ao estilo de Marx (Groucho) - Exploradores e explorados.

Mas eu não venho para aqui fazer a apologia do proletariado ou da luta de classes. Porque o principal erro de que acuso todos os teóricos é exactamente o de colocarem as pessoas em grupos coesos (Povo, burguesia, etc.); enquanto o senso comum prova que em vez de grupos existem sim tipos de pessoas.

Socialmente considero três tipos importantes – Os auto-suficientes, os dependentes e os oportunistas – sendo o primeiro tipo aquilo a que chamo o cidadão; o segundo, uma condição que poderá ser transitória (tenra idade, doença ocasional, etc.) e o terceiro embora incorrigível poderá ser socialmente recuperado (não o indivíduo em si, mas o valor correspondente ao que extorquiu ao/s seu/s semelhante/s) pelo recurso a trabalhos forçados em prol da comunidade.

Este último tipo é mais difícil de identificar, pois muitas vezes encontra-se disfarçado com as características cosméticas do primeiro ou do segundo grupo.

Mas também não é da justiça social que vos venho falar (sou um tipo chato, mas gosto de mim assim); o “prato do dia” são os métodos utilizados para levar os cidadãos a abdicarem de si próprios em prol do “bem comum”.

Ora isso a que chamam “bem comum”, é algo que só pode existir em grupos suficientemente pequenos (e mesmo assim, uma associação entre duas pessoas é muitas vezes problemática) para que se possam controlar desviacionismos em relação ao acordado e poder punir directamente os transgressores.

Mal esta missão é entregue a órgãos especialmente criados para o efeito perde a sua efectividade, assistindo-se ao contágio da tendência oportunista, no que muito adequadamente se classifica como corrupção (que existe, senão não haveria um nome para a designar).

É claro que (só mesmo para curtir) também não se trata aqui do “bem comum”, mas do método utilizado (estavam a ver que não, não era?).

Uma vez que a cachaporra e as grilhetas se mostraram pouco eficientes nos milénios anteriores, e também porque os “cidadãos produtivos” se têm organizado e utilizado o mesmo tipo de actuação para se defenderem (a tal guerra que meia dúzia de idiotas acha ser possível erradicar sem ter que lobotomizar toda a humanidade); foi desenvolvida uma técnica obtida a partir da observação comportamental dos seres humanos quando em grupo (até parece um exame para a universidade onde nunca estive), a que se deu o nome de psicologia de massas.

E posso garantir-vos; é um sistema tão bom que se o gado fosse mais inteligente, nunca se veria uma vaca dentro de um cercado. E seria até possível vê-las na fila do autocarro a resmungar por irem chegar tarde ao matadouro, devido à greve dos SCTP ou da Carris (does that ring a bell?).

Desculpem mas tenho muito que fazer hoje. A próxima prestação será “paga” no post seguinte.

Musica de Fundo
The Smile on Those Daggers” – Vicious Five


segunda-feira, 18 de setembro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Das guerras santas, tricas, intrigas, mexericos e outros métodos para consolidar a Fé… -

Irmãos, irmãs, amigos, detractores e pedestres! Tal como a foto acima documenta, este sábado logo “pela fresquinha”, um comando suicida da “Brigada dos Mártires de Olá” disfarçado de testemunha de Jeová, tentou fazer explodir a fonte ornamental que embeleza a “Praça de Blog” em Almada.

Felizmente os explosivos contidos na pasta empunhada pelo fanático religioso não deflagraram. Pois a detonação que seria accionada por um sistema escondido nos sapatos do sabotador (fósforos presos na parte interior do salto do sapato esquerdo, e lixa colada na parte interior do salto do sapato direito), ficou impossibilitada por estes se terem molhado mal o indivíduo entrou na água.

O terrorista foi prontamente detido (citizen’s arrest) por uma militante do Bloco de Esquerda que se encontrava à espera da “Marcha Pelo Emprego”; mas que acabou por ser contratada para atender às mesas da esplanada. Perdendo assim a oportunidade de se deliciar com o discurso sentimentalóide do “Bloquista-Mor”, mas ficando assinalada como uma das heroínas almadenses; de coragem apenas comparável à do jovem que salvou Spaarndam metendo o dedo no dique.

Mas adiante…

Este traiçoeiro ataque ao próprio coração da Cidade Sagrada, que deixará inquinada por uma semana a água dos pombos de Blog (o tipo meteu os pés mesmo dentro da fonte), vem no seguimento do contencioso entre a Igreja Católica e a Fé Muçulmana em geral. Sendo esta última representada pelo primeiro barbudo que apareça envolvido em atoalhados. Pois devido à tendência que estes têm para se fazer deflagrar, quase não dá tempo para mudar os nomes no papel timbrado.

Apesar de na nossa Igreja nos tentarmos manter a par com as declarações da concorrência (sempre servem para apimentar os sermões), desta vez não ouvi sequer uma palavra do discurso do “Papa Chanel” (o José Castelo Branco do Vaticano), que apesar daquelas manias “metro” até considero um tipo bastante atinado; pelo que tenho sérias dúvidas sobre a autenticidade desse tal “insulto” ao profeta Maomé.

De há algum tempo a esta parte, tenho constatado que uma boa percentagem de “homens santos” do Islão desenvolveu uma nova característica chamada “sensibilidade”; e que à semelhança de qualquer “Babá Pintarroxo”, têm chiliques cada vez que alguém diz algo que vá (segundo o seu fraco entendimento) macular a reputação da sua alva e impoluta Fé; que como nós sabemos só apoia iniciativas humanitárias fomentando o amor pelo próximo (se fosse pela próxima, ainda teriam a nossa simpatia e compreensão).

Uma das coisas que o Islão (em tempos bem fornecido de eruditos e estudiosos, mas que ultimamente se têm esquecido de ler) deveria ter em mente, é que apesar de há mais de trinta anos perdurar esta moda de estoirarem os coiratos em nome de Allah cada vez que querem chatear alguém; ainda nenhum de nós se lembrou de aproveitar isso como desculpa para lhes ir terraplenar os territórios, ou transformar estes em planícies vitrificadas à conta de umas simpáticas cargas termonucleares (o que até seria higiénico, atendendo à grande quantidade de poeira e sujidade que lá se vêem nas reportagens do Discovery Channel).

A Igreja do Imaculado Blog (IIB) vem pois repudiar a bárbara actuação daqueles que em nome da fé e de outras esfarrapadas desculpas, nos vêm periodicamente incomodar. Esquecendo que é no ocidente que põem os filhos a estudar, onde vêm comprar a maioria das coisas que não conseguem produzir, e onde vêm guardar o dinheiro que desviam dos respectivos países.

Posto isto, exijo um pedido formal de desculpas por parte daquele barbudo cuspinhoso e de nome impronunciável, por ter contribuído para inquinar a água dos pombos de Blog; ou deixarei a partir de hoje de comprar as cigarrilhas na tabacaria do senhor Nazir.

TheOldMan
(Pontifex Maximus e “Mawla” Honorário)

Música de Fundo
Rock The Casbah” – The Clash


sexta-feira, 15 de setembro de 2006

De Panamá (Azul) Até às Orelhas
- Ou de como o refinamento dos maneirismos e tiques sociais pode elevar uma civilização pujante e empreendedora até ao mais alto patamar da idiotia… -

Não gosto de grandes misturas; caldeiradas, só no prato; e rebanhos, só mesmo de ovelhas lãzudas e de olhos meiguinhos (LoL). Por isso é natural que cada iniciativa colectiva a que queiram ligar-me, seja por mim encarada com alguma reserva inicial; que normalmente acaba por evoluir para uma aversão perfeitamente legítima.

Já me propuseram que fosse mostrar a língua a uma câmara no Multibanco, que saltasse de um metro de altura em conjunto com toda a população do hemisfério norte e até que usasse um preservativo na cabeça durante um dia.

Ora para 17 de Setembro (Dia Mundial da Sociedade da Informação) alguém decidiu que seria divertido fazer com que todas as pessoas mais sugestionáveis se distinguissem dos seus semelhantes, usando para tal um chapéu azul (“mesmo que não lhe fique bem…” – diziam na TV), com a desculpa que tal serviria para ajudar a resolver a crise humanitária em Dafur.

Aqui para nós que ninguém nos ouve, a única maneira de resolver essa e outras crises similares, seria acabar de vez com a influência nefasta dos Estados Unidos sobre aquilo a que com muito sentido de humor temos chamado de “Nações Unidas”. Embora esteja provado factualmente, que não passa de mais uma organização criada para apoiar os interesses americanos.

Em resposta a esta hilariante e inútil (sim, porque não vai ter efeitos práticos de tipo algum; excepto elevar a auto-estima de gente com mau gosto para escolher chapéus, e dar umas “massas” a ganhar a alguns espertalhões) iniciativa, proponho que pegue nos dez ou quinze Euros que iria gastar na merda do chapéu, os introduza num envelope e envie este anonimamente (e não vá gabar-se disso para o seu blog) para a UNICEF.

Lembre-se, quando quiser ajudar os chineses não é a comprar-lhes chapéus que a coisa resultará; e como sabe dia 17 é a vez do Dafur e não destes, ou da Nike ou da Adidas. Por isso, balde-se lá ao “guito” e deixe de fazer figuras tristes.

Música de Fundo
Fashion” – David Bowie

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

A Sagrada Corrente de Sarilhos (SaCoSa)

Inventada há centenas de anos por um agiota de Esmirna para obter informação comercial sobre os seus clientes, e adoptada alguns anos mais tarde pelo nosso fundador que a aplicou com êxito enquanto frequentou o secundário, a Sagrada Corrente de Sarilhos (SaCoSa) continua a ser um meio privilegiado de perpetuar a coscuvilhice e a desinformação; que como todos sabem é o cimento dos pilares sobre os quais assenta a blogosfera.

Apesar da elevada potencialidade deste método como instrumento de inquisição e contra-informação, a tendência do “politicamente correcto” tem evitado a introdução da medida que iria sem dúvida revolucionar este sistema de sondagem; a pergunta directa.

Como devem calcular, seguindo o princípio da pergunta directa as respostas teriam que ser mais específicas, e não se assistiria a lamentáveis declarações tipo – “Sou um gajo baril, a minha cor favorita é o magenta, e curto à brava afagar o meu “pincher” deitado no sofá” – Bastando para tal perguntar ao inquirido se é roto e atrasado mental (desculpem, se é homossexual e cidadão portador de deficiência ao nível do discernimento).

A maioria de vós (incluindo a “boa alma” que me convidou a responder) já percebeu que isto dos “inquéritos”, “testes” e “correntes” apesar de valiosos como desculpa para não escrever um post, trazem consigo um problema ético – No caso de não conseguirmos mentir de modo convincente, devemos mesmo assim responder? – Penso que sim. Pelo menos a avaliar pelos exemplos que li até agora, tem sido a tendência generalizada.

Por isso aqui vão seis coisas sobre mim:

1 - O meu vizinho de cima é um chato (vive sobre mim). Além do mau hábito que é gritar cada vez que o Sporting marca, outra sua incómoda característica é a predilecção pelo uso das instalações sanitárias a altas horas da madrugada (Alguém me sabe dizer o que faz um tipo adulto na casa de banho a meio da noite e a deixar cair berlindes ao chão?)

1.1 - (Ok, a anterior foi batota) – Sou um homem cordato, pacífico e com um ar que lembra vagamente um koala amoroso e fofinho; até alguém cometer o erro de me chatear.

2 – Bebo café a mais; água a menos; vinho só do bom, e bebidas mais fortes se a ocasião se proporcionar. Como a Doutora Inês me desaconselhou tudo isso excepto a água, tento nas ocasiões em que transgrido ou acompanhar essas bebidas (as que o permitam) com água, ou encontrar-me perto de uma boa fonte de humidade, como por exemplo um rio, um fontanário ou mesmo uma mulher de bom aspecto e com a motivação indicada.

3 – Sou um tipo culto. Esta alínea é claro que não é sobre cultura, mas sim sobre a minha grande curte que é chatear gente mesquinha; especialmente aqueles a quem este tipo de coisa faz inveja e chateia de sobremaneira. Em suma, tenho mau feitio. Mas não é lá por isso que deixo de ser culto.

4 – Tenho um maravilhoso sentido de humor (e sou também modesto à brava). Uma vez que começo por me rir de mim próprio, a partir daí considero-me com legitimidade para gozar com tudo e todos. Só gozo com quem gosto. O que quer dizer que os objectos da minha mordacidade se deverão considerar as pessoas mais bem-aventuradas ao cimo da terra (Caso não me conheça e pense que estou a gozar consigo, apareça para fazermos um check-up).

5 – Aos fins-de-semana ando de bicicleta porque é a actividade que conheço mais parecida com velejar. Não gosto de cães porque me fazem lembrar algumas pessoas, e suporto gatos e aves porque me fazem lembrar outras. Em qualquer dos casos prefiro a companhia dos meus semelhantes; as más imitações enfadam-me.

6 – Gosto de avisar toda a gente sobre a duvidosa veracidade de algumas coisas que escrevo. Não que minta por hábito, posso é ter sido enganado… e para acabar não vou passar esta corrente a ninguém porque sou do contra, e porque já tenho inimigos que cheguem (embora alguns deles quase todos os dias me proporcionem momentos de boa disposição).

Música de Fundo
Tu és um Lindo Rapaz” – Jorge Palma

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

A Efeméride

Existe uma frase da qual sempre tive pena não ter sido eu a lembrar-me primeiro, e de que não me recordo qual o autor. – “Não nos acontece o que merecemos, mas sim o que nos assemelha…

É a única coisa que responderia, a qualquer uma dos milhares de pessoas que morreram há cinco anos nos ataques aos Estados Unidos. Pois neste preciso momento e em outro lugar do mundo, sem dúvida que alguém chorará uma morte injusta ou a falta de alguém querido que lhe foi roubado.

Mas as notícias têm muito mais impacto quando as vítimas usam fato com colete e tomam (aparentemente) banho todos os dias.

Quando eu era miúdo falava-se imenso de traiçoeiros ataques aos pacíficos agricultores de Angola e Moçambique, de sabotagens, pilhagens, violações e de terroristas (vejam a abertura do filme “Chaimite”, que ficam logo com uma boa ideia do espírito da coisa).

Mas eu nunca pensei vir a ser agricultor onde quer que fosse (a minha natureza contemplativa desabrocha muito melhor na praia), e no dia em que o destino me obrigasse a enfrentar um terrorista, fá-lo-ia sem medo. É que segundo o Secretariado Nacional para a Informação (SNI) todos os terroristas eram pretos; pelo que eu não teria qualquer problema em o identificar antes de ele poder agir.

Munido deste pedaço de realidade governamental (cuja fraca consistência é hoje do conhecimento geral) vivi uma infância regular. Durante a qual acabei por contactar com pretos que não eram terroristas (pelo menos juravam que não o eram), com alguns brancos que sem dúvida o eram, e com mais meia dúzia de representantes de outras raças, que apareceram apenas com o fim de me provar que por debaixo da pele o ser humano tem um mau feitio comum a todas as raças e etnias.

Felizmente alguém pôs fim a esse reinado de lunáticos, e embora não se possa dizer que vivamos actualmente no melhor dos mundos possíveis (como diria o Doutor Pangloss), consegui com o tempo anular o condicionamento de que todos éramos vítimas nessa altura, e passar a considerar que os tais terroristas eram apenas pessoas muito chateadas por algumas coisas que o nosso governo fazia e mandava fazer.

Mas os governos de lunáticos não terminaram aí. Existe aínda um velhote nas Caraíbas, que pensa que o mundo acaba para todos quando ele próprio morrer (o egocentrismo é a cegueira dos ditadores); e um labrego mais ao norte que se considera a encarnação de Joana D’Arc, embora o seu discurso seja ainda mais desconexo que o de alguns (muito poucos) dos bloggers que eu conheço.

Os milhares de pessoas que morreram há cinco anos não morreram em vão. Servem para nos lembrar que por mais protegidos e entrincheirados que pensemos estar, “a vez chega a todos”… Mesmo aos “justos”!

Música de Fundo
Dance Like a Monkey” – New York Dolls

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

A Patrulha

A operadora do “Sikorsky AG-6” tentou estabilizá-lo debaixo de uma chuva de projécteis de urânio empobrecido, que ressaltaram na carapaça gelatinosa de pseudo-poliphyrrol endurecido a frio; o que fazia o aparelho parecer-se com uma alforreca atmosférica, assediada por uma nuvem de mosquitos cor de sangue.

Tal como lhe fora ensinado durante o treino de voo desligou os propulsores gémeos, para reatar o seu funcionamento a cerca de dez metros da toca dos “vermes do deserto”; para onde ficou apontada de popa com os reactores a flamejar ao rubro laranja, virados para a entrada da comporta de ar do abrigo dos “vermes”.

Como se fosse num jogo “tridi”, largou duas ogivas “limpas” (isentas de precipitação radioactiva, pois as Nações Unidas levavam muito a sério a fiscalização sobre a “Guerra Suja”, embora não se importassem tanto com ataques químicos ou bacteriológicos. Havia que manter os territórios sempre disponíveis, para abrigar os sobreviventes fossem eles quem fossem.) e nivelou-se aos quatrocentos metros de altitude em apenas três segundos.

As cargas de implosão fizeram o deserto oscilar como um maremoto de areia dourada, enquanto em estratos inferiores as galerias de betão e blocos de arenito colapsavam sobre os defensores da metrópole não autorizada. Os “Vermes do Deserto” eram construtores clandestinos. Uma herança da era pré-matricial em que todos podiam ter terra desde que para tal se apresentassem como seus habitantes efectivos.

Mas a as radiações dos sucessivos ataques, e as exigências cada vez mais rigorosas da “Comissão Reguladora dos Conflitos Territoriais” que fora criada pelas Nações Unidas para a fiscalização das disputas pela posse dos territórios desérticos, tinha-os empurrado para a periferia da zona pedregosa em que se tinham entrincheirado.

A operadora viu criar-se uma depressão em forma de funil na superfície da areia, enquanto apareciam alguns destroços levemente identificáveis – Um terminal meio destruído, contentores de alimentos ou mesmo o corpo de uma cria mais descuidada, coberta por aqueles andrajos que as tornavam parecidas com as humanas de um modo assaz perturbador.

No visor do “headset” viu formar-se o contorno da torreta de projécteis inteligentes que acabara de emergir atrás de si, saindo da areia com a suavidade de uma serpente coral.

Sem tirar o olhar do indicador de corrente térmica ascendente, libertou do arnês de estibordo um dos mísseis perfurantes e direccionou-o para o substrato rochoso, detectado dias atrás por um satélite coreano numa manobra de puro acaso mas que lhe valera uma boa mão cheia de créditos.

Desta vez o deserto transformou-se numa nuvem abrasiva de sílica, que durante alguns meses apenas conseguiria suportar vida vegetal. Corpos e destroços de material de apoio começavam a transparecer por entre a areia que se afundava em direcção à depressão cavada pela carga de fissão.

Após colocar o aparelho em retorno automático para a base operacional, Sarah “Golem” Smythe descolou do crânio os “dermatrodos” auto-adesivos, desligou a matriz de tiro e a ligação à rede recostando-se na cadeira com a testa ainda perlada de suor devido ao esforço de concentração.

Com mão ligeiramente trémula afastou da testa o longo cabelo negro que a ela se colava, encheu o copo com um pálido “Colombard Chardonnay” do sudoeste da Austrália e ligou o vídeo na Rede Nacional. Só daí a dezasseis horas voltaria a estar novamente em serviço de patrulha.

O trabalho tendia a tornar-se cada vez mais duro à medida que os varrimentos se aproximavam da periferia do deserto. Já não eram os corpos com ultrajantes mutações que apareciam à superfície no fim de cada ataque, mas sim algo que se parecia de modo inquietante com seres humanos normais. Homens, mulheres, crianças…

Mas os vermes do deserto tinham que ser erradicados, pois disso dependia a sobrevivência do povo eleito e a continuidade da terra de Israel. Seria uma missão muito mais fácil para ela se as crias dos “vermes do deserto” não fossem tão parecidas com os seus próprios filhos…

Rapidamente esqueceu tudo isso. A “tridi” estava a passar novamente a série sobre a vida dos “Pais Fundadores”; nessa noite ia dar o episódio sobre Moshe Dayan e a “Guerra dos Seis Dias”.

Música de Fundo
History Repeating“ – Propellerheads

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Da Seriedade na Escrita
- Escrever ou não escrever? E se tal não for possível, que tal fingir apenas que o fazemos? Ou postar apenas bonecos… -

Sem dúvida que se escreve como se vive. Independentemente do modo de cada um, a coisa acaba por se tornar numa segunda natureza, e lá damos por nós (mesmo sem querer) a revelar nas entrelinhas pedaços do nosso eu verdadeiro. Situação esta quase tão constrangedora como um súbito ataque de espirros a meio de um “cunilingus”.

Esta história da seriedade na escrita faz-me lembrar conversa de agente funerário, com quem se negoceia o “armazenamento” de um qualquer tio afastado. Verdadeiramente a escrita não tem que ter seriedade alguma, ou circunspecção, ou mesmo um toque de "boas maneiras" ao estilo de um Major de Lanceiros reformado.

A escrita é o reflexo de quem a produz e o tema ou a veracidade da narrativa, não têm mesmo nada a ver com isso. É o modo como se escreve que vai dar uma ideia bastante aproximada, sobre a pessoa que se encontra do outro lado a martelar o teclado.

Tenho uma história preparada para postar há mais de um mês mas não me consigo decidir; e tudo por uma questão de seriedade. É o que dá escrever sobre factos que compõem as notícias da moda. Um tipo começa a achar que não passa de oportunismo como se vê na maior parte dos casos, e acaba por não querer ser confundido com algo que não é.

Peço desculpa se este texto parece desconexo; mas é porque tenho que o interromper periodicamente para me rir.

É que após escrever o parágrafo anterior a este, tentei analisar o que tinha escrito e acabei por concluir que na realidade me estou nas tintas para o que possa parecer ou não. Sem dúvida que os mais perspicazes saberão distinguir entre algo que sai naturalmente, ou um post que apenas faz eco ao que se viu na TV a meio de uma “bica”.

Perguntarão vocês (e muito bem) – “Mas se este gajo acha que a escrita não obriga a qualquer tipo de seriedade, porque é que nos está a dar uma seca tão grande sobre o assunto?

Eu andei a ler, sabem? Bem. Não andei propriamente no sótão matando as saudades dos Almanaques Bertrand dos anos trinta e quarenta, nem a passar os olhos ociosos pela minha velha Colecção Argonauta. Andei sim a ler blogs. Sim, blogs; não se espantem. E pelo que tenho lido por aí, há imensa gente que se leva bastante a sério no que toca a apresentar-se como escritor, poeta, repórter ou ensaísta.

Já se interrogaram sobre a que se deve esta recente proliferação de editoras especializadas em “edições de autor”?

Bem. Parece que a blogosfera está cheia de autores brilhantes e incompreendidos (tal como eu, tadinho de mim), que não perdem oportunidade de nos relatar cada dez segundos dos seus respectivos quinze minutos de fama.

É por isso que, para benefício do meu ego (e já agora também porque nem sequer veio do “ISP” a quem pago o aluguer do blog), vou afixar lá em cima o recorte da Visão de 3 de Agosto em que se elogia a minha modesta pessoa; deixando aberta a “Sessão de Beija-mão e Graxa Generalizada” que seguindo a minha filosofia habitual se transformará num concurso.

Os comentários (se os houver) serão classificados pela sua originalidade, exagero, criatividade ou abjecção, conforme os casos; sendo-lhes atribuídas pontuações e comentários apreciativos sobre a técnica e perícia demonstrados pelo/a comentador/a.

Todo este frenesi de cortesã bajulação será aglutinado posteriormente noutro post, no qual me gabarei novamente mas desta vez acompanhado dos três primeiros classificados; que assim terão a possibilidade de se vangloriarem na minha companhia, ascender à mão direita de Blog, e daí acederem a todas as festas da Mituxa Jardim por recomendação deste humilde egocêntrico.

Fico então à espera da vossa contribuição, desejando que a inspiração vos bafeje com o seu hálito fresco de odor a manga e outros frutos tropicais.

Para quem quiser ler o resto das notícias que rodeavam o artigo, está aqui a versão ampliada.

Música de Fundo
Stars Are Blind” – Paris Hilton

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

A Praia
- É bem dura, a vida de um blogger. -

Tinha reservado algum tempo no Domingo para escrever sobre o fracasso da plataforma Weblog, e sobre o modo “terceiromundista” como são dimensionados os negócios em Portugal. Mas infelizmente Blog tem um arranjo com Murphy no que diz respeito ao destino dos seus seguidores. E assim apanhei com uma visita daquelas, que a meio das conversas nos faz parar, para mentalmente conjecturarmos quanto tempo levará a sufocar alguém com um saco de supermercado.

Quando a sua face arroxeada se afastou caindo em direcção ao soalho da minha imaginação, reparei que apesar de a conversa ir adiantada ainda teria para uma boa meia hora. Já que não iria poder escrever aquele post, aproveitei para rever mentalmente outro que tinha quase pronto para publicar

A acção passava-se há exactamente duas semanas no areal de S. Rafael, onde nos arriscamos constantemente a tropeçar em malta famosa e badalada nas revistas de coscuvilhice. Então desde a abertura do hotel de cinco estrelas mesmo por cima do aldeamento, e com a chegada de uma parte dos clientes do Luís Evaristo, é cada vez mais difícil mandar fora as cascas de melão ou as caricas da “bejeca” sem acertar num “socialite” qualquer.

Estava eu a tentar explicar a meu amo que não tinha qualquer interesse especial no bronzeado da Mituxa, quando o meu filho me chamou a atenção para alguém – Olha. É o “cota” que tem a mania que dança… - disse ele fazendo um ligeiro trejeito em direcção a um ponto à minha esquerda.

Entreguei a meu amo o “protector factor 15” e disse-lhe – Toma. Põe isto na cabeça e mantém as ideias frescas – enquanto usando a minha visão periférica, perscrutava discretamente as redondezas. Tudo isto, acrescido do facto de nos encontrarmos em movimento, fazia já com que o meu interlocutor talvez um pouco distraído, se cobrisse aleatoriamente de creme; parecendo ter sido vítima de um ataque de gaivotas incontinentes.

Era o Rui Reininho. Tenho a certeza, pois reconheceria aquele nariz nem que fosse no meio de uma colónia de mergulhões das Galápagos.

Acompanhado de outro tipo, apanhava sol reclinado para trás apoiado nos braços esticados e com a cabeça ligeiramente deitada de lado; tentava talvez imitar Jayne Mansfield. Mas como nunca teve muito peito (o Rui Reininho, claro. Que a Jane até era muito generosa), a coisa não resultava muito bem. Parecendo-se mais com Ícaro após a sua famosa aterragem de emergência.

Enderecei-lhe um imperceptível sorriso enviesado (pois o tipo estava ansioso para que alguém o reconhecesse, mas os “mouros” têm o mau hábito de não assediar as personalidades mediáticas, por consideração; levando as pobres almas a pensar às vezes que ninguém vê) e continuei adiante.

Fiquei a pensar que tarde ou cedo teria que o desancar aqui. Pois o tipo além das peneiras dignas de qualquer “tia”, ainda tem o sentido estético de um subempreiteiro de cofragens (felizmente passa a maior parte do tempo lá para o Norte e não se nota muito). Facto este que ficou sobejamente provado, quando ele tentou dançar como John Travolta num videoclip em que cantava uma canção de Roberto Carlos.

Lá o tentar passar por Travolta ainda lhe perdoo, pois é coisa de gajo de meia-idade (nem todos, felizmente) isso de querer parecer “mexido” e cheio de ritmo. Mas agora a canção do Roberto Carlos…

Roberto Carlos já na minha infância era considerado o expoente máximo da poesia mínima; e as suas canções mal descobriu Jesus, tornaram-se ainda piores do que no tempo em que apenas se preocupava com o seu calhambeque. Acabando por ficar conhecido como o morto-vivo mais piroso da MPB.

Agora Rui Reininho à semelhança de Miguel Vasconcelos, vai ficar conhecido como traidor à Pátria.

O homem que foi ao Brasil escolher um cantor piroso, como se não existisse aqui à nossa porta uma enorme provisão deles. Podendo até ter homenageado José Cid (que bem precisa), e dançado talvez ao estilo de Nijinski a famosa canção “Como o Macaco Gosta de Banana, Eu Gosto de Ti”.

Sem dúvida que teria sido muito mais indicado.

Música de Fundo
Semi-Tango” – Ena Pá 2000

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Assistência em “Viagem
- Ou como o vulgar cidadão poderá melhor desfrutar das infra-estruturas lúdicas criadas pelo estado e custeadas com o seu próprio dinheiro (o chamado “retorno de investimento”) –

Não tenho nada contra vícios. Eu próprio já fui viciado em Flippers, em cigarros e numa ruivinha com quem andei no secundário (não necessariamente por ordem de prioridades).

O primeiro vício foi reciclado para outro tipo de máquinas. Quanto ao segundo evoluiu para um hábito moderado de cigarrilhas & charutos; e o terceiro transformou-se numa predilecção ligeira por mulheres com cabelo cor de cabo de alta tensão.

Embora na minha juventude tenha mantido um interesse razoável por substâncias “recreativas”, o seu uso não se traduziu em nada mais grave do que uma tendência para dizer coisas inconvenientes, e um ou outro episódio isolado em épocas festivas. Pelo que posso afirmar não ser escravo de qualquer vício socialmente reprovável, e assim pouco habilitado para julgar os vícios dos outros.

Abro apenas uma excepção para o vício que os políticos têm de tentar angariar apoio com base em manobras mediáticas à custa do contribuinte.

É por isso que venho hoje falar daquilo que agora se designa pelo eufemismo de “Salas de Consumo Assistido”, baptizadas conforme a tendência “politicamente correcta” tão ao gosto da nossa burguesia de “esquerda”.

Não sou de modo algum apologista de votar ao ostracismo toxicodependentes, alcoólicos ou até mesmo filatelistas compulsivos; só que acho injusto negar ao cidadão comum a possibilidade de usufruir de algo que comparticipa financeiramente.

O que proponho, meus caros leitores, é que após a abertura da primeira “Sala de Consumo Assistido”, quando um de vós tiver vontade de dar “um bafo” antes de entrar para um bar, uma discoteca ou um concerto; que se dirija a um desses recintos (criados expressamente para esse fim) e enrole a sua “ganzazita” encarando o chui de plantão (ou aquela senhora que era porteira do “Frágil”, se lá a encontrar) e a fume calmamente saindo de seguida para curtir a noite.

Penso que assim se evitarão aqueles episódios pouco simpáticos, em que um cidadão cumpridor (excepto no que diz respeito ao “cigarrinho para rir) pode ser levado preso por fumar um “charro”, enquanto ali perto meia dúzia de outros cidadãos “dão no cavalo” sob a vigilância paternal do pessoal do INEM (que como todos sabem significa “Isto Não É Meu”).

Música de Fundo
Legalize It” – Peter Tosh

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