segunda-feira, 30 de outubro de 2006

UNDERWORLD
- Desculpem… Também posso bater no Miguel Sousa Tavares? - Um post tão revigorante e matinal quanto o famoso “Quarto de Vigor” e tão genuinamente português quanto a inveja e a má língua… -

Adoro estes dias em que me posso dar ao luxo de ser imparcial. Mas eu explico. É que se por um lado não sou admirador da obra de Miguel Sousa Tavares; por outro também não me incomodam o seu ar afectado, ou as habituais tiradas emocionais que o caracterizam.

Na realidade estou bastante acostumado a isso, pois já estou na blogosfera há mais de três anos, e uma das componentes mais importantes deste meio (assim como da “personalidade” da maioria das figuras públicas) é exactamente a “pose”.

Mas o homem tem uma certa razão quando diz que - “este é o paraíso do discurso impune, da cobardia mais desavergonhada, da desforra dos medíocres e dessa tão velha e tão trágica doença portuguesa que é a inveja” – pois embora não se tenha ainda apercebido do facto, Miguel Sousa Tavares é português e vive em Portugal. O que o desculpa de um erro tipicamente português, que é o de equacionar o óbvio como se fosse uma espécie de terceira lei da termodinâmica.

Aqui somos todos cidadãos comuns e anónimos, tal como deve ser composta qualquer multidão sem peso mediático. A blogosfera não é (por muito que custe a meia dúzia de “wannabes”) mais um refúgio da intelectualidade lusitana. Sendo antes comparável ao estendal, onde pomos a secar as peúgas esburacadas e as cuecas puídas.

Os que aparecem aqui com outros intuitos são “anjos caídos”. Uma espécie de intelectuais de último nível, que pensam ter acedido a um mundo subterrâneo onde apesar das suas limitadas capacidades, lhes será permitido “ser alguém” e reinar sobre os “seres das profundezas”; até serem repescados para o mundo real e o seu valor finalmente reconhecido.

Pois, meus caros. A maioria dos intelectuais, escritores, jornalistas e quejandos (podem considerar que coloquei entre aspas todos essas designações) que passeiam entre nós a sua exuberante plumagem, não passam de gente que no seu meio dificilmente preenchem os standards para as posições que pretendem ocupar; vindo para aqui fazer tirocínio e aproveitando também para elevar um pouco a auto-estima.

Uma das razões pelas quais não é comum ler-se este tipo de coisa, é porque uma boa parte dos bloggers (ou “blogueiros”, que ainda é mais giro) sofrem daquela mania que os faz pensar serem filhos de gente nobre que os abandonou à nascença, tendo sido recolhidos e adoptados por uma família de labregos; e ficando assim permanentemente à espera de “serem descobertos”.

Outra falha manifestada por MST é a de apreciar erradamente o papel da blogosfera na vida nacional. A blogosfera não é uma fonte (pois dificilmente dela nascerá algo de inovador) mas sim uma lagoa onde desaguam os eflúvios, que escorrem pelas frestas das paredes bolorentas com que os “media” tentam cercar o cidadão comum.

E a ser assim, é natural que o resultado não seja o elogio da obra (boa ou má, “whatever”…) do queixoso, mas um desinteresse quase olímpico pela mesma; excepto no que toca a assunto para escrever mais um post.

Esperemos que MST não se deixe cair na mesma abjecção que outros congéneres seus, que após dizerem tanto mal do nosso “gheto”, ainda tiveram a lata de cá se vir instalar como se não tivessem (e não têm, mas isso já eu sabia) vergonha na cara.

Entretanto a blogosfera continuará a ser o que é. Uma espécie de local para gente anónima que quer falar, blogueiros que querem blogar (LoL), intelectuais que querem “armar”; mas acima de tudo um local privilegiado para a prática desse desporto nacional que é a choraminguice de todos aqueles que nasceram em berço de ouro, e inexplicavelmente se vêm assim reduzidos a penar entre nós aqui no “Mundo Subterrâneo”.

Infelizmente não há princesas que cheguem para beijar esses sapos todos; nem valeria a pena, pois a maioria deles só dá mesmo verrugas…

Música de Fundo
“The Nutcracker - Clara and Prince Charming”
Pyotr Illych Tchaikovsky

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- De como uma jornada de evangelização à juventude se transforma numa noite muito fixe –

Era ainda cedo quando peguei no meu báculo e deitei pernas ao caminho, em companhia de uma frisada e fiel ovelha (F&F Series) de Blog, que a meu lado trotava descontraída com um sorriso confiante; sem suspeitar que a tão falada “Noite Evangélica” ainda poderia acabar na 1ª página do “Tal & Qual”.

A nossa missão consistia em entrar no Campo Pequeno sem nos fazermos notados, e após lá dentro, iniciaríamos a conversão de todos os jovens infiéis que se encontrassem no raio de alcance da palavra de Blog. É claro que, tal como é costume a coisa não seguiu como planeado.

Cá fora via-se uma enorme fila que parecia a da Segurança Social mas com pessoal mais saudável. Tomámos pacientemente o nosso lugar nessa prova à nossa fé e perseverança; e encomendámos a nossa alma a Blog (embora eu tivesse preferido encomendar uma pizza com pepperoni, pois tinha jantado à pressa).

Após uma inquietante meia hora, ainda a porta estava longe e já se ouviam os primeiros acordes. Felizmente alguém nos sossegou, informando que eram apenas os espanhóis. E em boa hora o fez, porque eu pensando que os Muse tocavam assim tão mal, estive quase a abandonar a fila e voltar para casa.

Por outro lado, também poderia ser o ruído de um acidente rodoviário no túnel da avenida.

Para encurtar uma longa (quase tanto como a fila) história lá conseguimos entrar, após algumas peripécias em que jovens amavelmente insistiram para que compartilhássemos dos seus cigarros. Eles pareciam ter tão boa vontade que não recusei; nem sequer me passou pela cabeça dizer-lhes que quem dá “directas” em cigarrilhas, aguenta quase tudo. Desde um miserável charro ao escape de um autocarro de dois andares.

Finalmente dei por mim dentro do recinto e espreguicei-me dando graças a Blog, enquanto a ovelha saltitava de excitação – Vamos lá para a frente para ao pé do palco… - Propôs ela com os olhinhos a brilhar por debaixo da sua franja lãzuda.

Calculei logo que toda aquela excitação, seria por causa do Matt Bellamy que se encontrava já em palco, e envergando umas calças talvez um pouco demasiado justas (ou então era impressão minha… e dela também).

Apesar de o concerto ser para lançar o último álbum, acabámos por ouvir muitas músicas do início da banda; e tanto eu como a ovelha, por mais do que uma vez demos por nós a cantar em coro com alguns simpáticos jovens (ser jovem deve ser fixe) já bastante ganzados; a ponto de nem estranharem a nossa presença por aquelas paragens.

Á saída constatei que já não sentia tanta fome desde o concerto dos Strokes, e rumámos à Portugália. Acho que estou a começar a tomar-lhe o gosto…

Música de Fundo
Time Is Running Out” – Muse

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Alerta Laranja no Bairro Amarelo
- Um post escrito em condições precárias, conforme foi permitido pela enorme calamidade que se abateu sobre esta honesta comunidade do Monte de Caparica –

Quando entrei na cafetaria da Dona Odete puseram-me de imediato ao corrente da situação e da sua gravidade. – Foi uma desgraça. Nem queira saber!... –

Mas eu queria saber. Para mais a TV Cabo tinha dado o berro, e nem sequer havia anúncios na televisão.

Enquanto deglutia a minha matinal torrada, o “Baguinho de Milho” (esposo da dita senhora), pôs-me ao corrente dos detalhes mediáticos desta calamidade. – O Aniceto, coitado… hoje quando foi às traseiras da barraca desenterrar o “material” para os putos levarem para a venda, a enxurrada tinha levado tudo. - É mesmo uma desgraça… - Concordou o “China” – Cada vez está mais difícil arranjar “cavalo” de jeito…

Olhei em volta constatando que a Dona Odete expulsava para a calçada, uma maré acinzentada onde boiavam algumas infortunadas baratas (que segundo as más línguas, seriam os honoráveis antepassados dos habitantes do bairro).

Caminhei um pouco ao acaso tentando abarcar a dimensão cósmica de todo o desastre. Mas aparte as baratas da Dona Odete e o “produto” do Aniceto, o bairro encontrava-se na paz de Blog; um pouco lavado demais para o que é hábito. Mas ainda assim, nada que se pudesse tornar preocupante.

Cheguei ao escritório para ficar a saber que não tinha Net nem TV.

Interrogava-me eu sobre a legitimidade de todo este alarmismo, e de como transformar em post mais um dia desinteressante e húmido, quando Miss Entropia apareceu de cenho franzido enquanto lia um folheto – Chefe. Parece que o Avô Cavaco nos vem visitar para inaugurar uma coisa qualquer… estes tipos não têm vergonha nenhuma.

- Você cale-se – retorqui deliciado – Então não vê as potencialidades desta visita? Finalmente vamos ter boas razões para entrar em Alerta Laranja.

Música de Fundo
“Hey Ya”Outkast


segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Segunda-Feira 23
- Uma data tão boa como qualquer outra para falar de coisas sérias. -

Normalmente aproveito as segundas-feiras em que não tenha nada preparado, para dizer a primeira parvoíce que me venha à cabeça; mas apesar de considerar que este assunto não tem grande discussão, há um certo cuidado a ter no tratamento daquilo que diz respeito à intimidade dos outros.

Sim, dos outros. Porque eu não aborto nem nunca saberei o que é ter que arrancar de mim algo que está preso bem fundo, enquanto (calculo) todo o corpo se parece rebelar contra essa acção.

Abortar é uma decisão que (embora possa ser discutida com outras “partes interessadas”, como namorados, maridos, amantes, etc.) em última análise apenas diz respeito à mulher; pois o grau de credibilidade dado a outra qualquer “parte” está condicionado ao estado e tipo da relação mantida entre os dois. E com isto refiro-me não a como as coisas “deveriam ser”, mas sim a como na realidade são praticadas.

Por isso, quanto a mim os homens ao votarem no referendo sobre o aborto; não estão a marcar a sua posição sobre este, mas a dar um voto de confiança às mulheres. Se na realidade as considerarem alguém de pleno direito, deixarão em aberto a possibilidade de cada uma poder fazer a sua escolha quando chegar o momento; se votarem contra, não me venham dar a tanga do “pela vida” pois trata-se de ser apenas “pelo controlo”.

Em relação à opinião das mulheres sobre o assunto, não faço a mínima ideia. Só sei o que foi escrito e dito sobre isso, o que não tem propriamente que corresponder à verdade. Mas continua a ser uma responsabilidade pessoal e intransmissível, sobre a qual apenas posso dar uma opinião ociosa e baseada na minha limitada experiência sobre o tema.

Que o aborto deve ser permitido, é um facto. E deve ser permitido porque corresponde a uma das liberdades básicas do indivíduo, na qual cada um é responsável pela sua própria pessoa e livre de utilizar o seu corpo como quiser.

E escusam de me vir falar da morte dos inocentes pré-nascituros… Sim, é uma realidade. Mas não será mais grave ainda que uma mulher não possa impedir que o seu filho vá aos vinte anos morrer numa guerra que não é a sua? Um pouco paradoxal, não é?

Se quem nunca se preocupou com isso, e sempre tem abençoado todas as guerras bem como as remessas de carne fresca com que estas se abastecem, porque se vem agora preocupar com a morte de um feto? Não é que não seja importante; mas as guerras (algumas delas santas, até) alimentam-se de fetos crescidos cujas mães trataram e acarinharam durante cerca de vinte anos. Bem, isto talvez não seja paradoxal pois estávamos a falar de da Igreja.

E tudo isto para quê? Para apenas dizer que sou pelo aborto?

É um pouco mais complicado que isso. Eu sou pelo livre arbítrio; e com o meu voto favorável não vou aprovar todos os abortos que serão feitos, mas sim contribuir para que sejam criadas condições para uma livre escolha por parte de cada um.

Compete-nos assegurar a liberdade, agora o que fazemos com ela já é do nosso próprio foro pessoal.

Música de Fundo
Cochise” – Audioslave

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Juro que não sou o Doutor Moureau!
- Episódios de uma realidade quase psicadélica, onde sou obrigado a admitir que por este andar só me falta contratar o “Homem-Elefante” -

Lembram-se de vos ter falado no “Nosferatu”? Bem… Continua entre nós mas em perspectiva de ser posto a andar sem qualquer compensação; tal foi a exactidão com que eu tinha previsto a duração da sua estadia. E mesmo assim deveu-se apenas a incompetência, nada tendo a ver esta medida com o facto de o tipo cheirar como uma vara de porcos dizimados pela peste.

De qualquer modo é boa altura para ele seguir o seu caminho (daqui a um mês ou dois), pois o tempo começa a refrescar e se ele já não tomava banho muitas vezes, calculo que daqui para a frente se limpe quinzenalmente com um guardanapo de papel (a chamada “limpeza a seco”).

Mas felizmente o post de hoje não é dedicado ao “Nosferatu” nem às suas olorosas características; é que entrámos em reestruturação e contratámos mais gente.

(Por momentos estive tentado a corrigir o termo “gente”; mas iria então ter uma trabalheira enorme a tentar explicar o porquê dessa alteração)

Necessitávamos de alguém para tratar do controlo de custos das obras e dar apoio administrativo. Dito assim ao correr da pena até parece coisa fácil encontrar alguém para essa função; mas acreditem-me, é mais fácil encontrar um político honesto que alguém habilitado a trabalhar na nossa empresa.

Primeiro há que passar pela “triagem doméstica”, que consiste em ser escrutinado pela esposa de meu amo. Se for macho o problema não se põe; mas caso seja mulher terá que ser suficientemente “intragável”, para não suscitar a luxúria de meu amo que é uma espécie de flagelo das mulheres (normalmente chateia-as até sucumbirem de tédio). Ora isto limita um pouco o nosso leque de opções.

De qualquer modo estava à espera que me trouxessem uma “feiosa-eficiente”, e o meu coração começava a regozijar-se com a perspectiva de vir a ter um dia todos os processos devidamente actualizados e catalogados.

Apresentaram-ma há cerca de duas semanas; e sem dúvida que a aparência estava bem perto das expectativas. Vocês viram o “Total Recall”? Bem… Há uma parte do filme em que o Arnold Schwarzenegger aparece no espaçoporto em Marte disfarçado de mulher de meia-idade (envergando aquilo que mais tarde se prova ser uma máscara explosiva); lembram-se? Pois ela é a “cara chapada” da máscara do Schwarzenegger. Juro!

Mas isso não é o pior.

Quase de imediato descobri que o que me deveria servir de compensação para aquela faceta, não existia. Ou seja, mal sabe trabalhar com o Excel; e a única coisa que parece fazer bem é tentar engraxar-me sempre que tem oportunidade, ou tentar meter conversa com frases absolutamente delirantes tipo – “Pensava que isto gravava tudo automaticamente quando se desligava…”.

Como podem ver, chama-se a isto ter o pior de dois mundos. Não só me arrisco a um dia chegar ao escritório, e ter toda a informação transformada em átomos livres; como de cada vez que ela decide vir ao meu gabinete para proferir frases inspiradas (que para vos ser franco, não me lembro de uma única que seja), tenho a impressão que a qualquer momento vai introduzir o dedo no ouvido para destrancar o mecanismo de segurança, após o que me atira com a cabeça para o colo enquanto esta grita repetidamente “Here I come!!!".

Mas chega de ficção científica. Infelizmente aquela cabeça é mesmo dela; pois até o bom do Arnold tem melhor aspecto.

Apostámos entretanto na teoria evolucionista de Darwin. O que quer dizer que a deixaremos aclimatar-se, e lhe daremos tempo para aprender todos os procedimentos, pelo que daqui a dez mil anos ou no fim deste contrato (o que vier primeiro) já sabemos qual a decisão a tomar.

Mas se querem mesmo saber, a minha opinião é que mais facilmente lhe crescerá a membrana inter-digital, do que ela se adaptará ao trabalho por aqui. Soube hoje que tinha sido funcionária pública.

Mesmo sem o serviço feito e com ela a amelgar por aqui; os mais optimistas entre vós poderiam sentir-se tentados a argumentar, que mesmo assim ainda teria alguma utilidade nem que fosse para me levantar a auto-estima com umas engraxadelas.

Infelizmente isso não dá. É que para mim, não há maior ofensa que ser elogiado por um idiota.

Música de Fundo
Changes Are No Good” – The Stills

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Miami Vai-se…
- Um cheirinho de uma certa sétima arte. Quase tão gay como Brokeback Mountain; quase tão oportunista quanto a governação do PS (ou será vice-versa?) –

Habitualmente não faço crítica cinematográfica; em primeiro lugar porque não me pagam para isso, e seguidamente, porque as cópias que me chegam às mãos nem sempre o fazem nas melhores condições para visionamento.

A última vez que falei de cinema foi para gabar “Les Triplettes de Belleville”; um filme de animação com uma genial banda sonora. Mas isso já foi muitas luas atrás (e penso que também cheguei a falar da “cowboiada da moda”, mas quase por engano).

Eu nunca fui grande fã do Don Johnson. E apesar do Sonny Crocket ter servido de base para a famosa série de jogos “Police Quest” da Sierra On-Line, o meu interesse por aquilo que nos anos oitenta se chamava “Acção em Miami”, era comparável ao que tenho na actualidade pela cultura do tremoço em Alvaiázere.

Mas ao contrário de Alvaiázere que nunca visitei (que calculo seja uma bela localidade, embora talvez não tendo plantações de tremoço), ainda vi suficientes episódios de Miami Vice para considerar que em comparação com o “remake”, o original parecia ter sido realizado por Sergei Eisenstein.

Parafraseando Ginsberg - Eu vi os filmes e séries da minha geração destruídos pela falta de imaginação e a mediocridade… - Apesar do recente revivalismo que parece prestar culto aos anos 80 (uma época tão boa ou tão má como qualquer outra), na realidade são a preguiça intelectual e a falta de inspiração que impulsionam esta onda de “remakes” e “covers” que tem invadido o mercado.

Se é um absoluto desperdício pegar num clássico ou mesmo numa série ranhosa, e refazê-los com um argumento ainda pior representado por actores que parecem estar a pagar uma promessa a Santa Teresinha; no caso de “Miami Vice” o realizador merece um louvor, pois conseguiu encaixar o seu produto no estreito hiato entre a péssima série que era o original, e aquele ponto a partir do qual é humanamente impossível fazer pior.

Talvez seja um regresso da tendência “kitch”. Mas nesse registo, até não me importaria de ir ver Colin Farrell como Moisés nos “Dez Mandamentos”; dirigido por Tarantino no bíblico cenário do Parque Eduardo VII.

Na imensa quantidade de filmes que tenho visto ultimamente (um em cada dois dias), é difícil conseguir apontar algum que se distinguisse pela positiva. É um bocado por isso que evito falar sobre cinema; pois embora “me pele” por um pouco de escárnio e maldizer, até os melhores prazeres acabam por fartar.

Para aqueles que tenham alguma saudade da velha série “Acção em Miami”, o melhor conselho que posso dar é – Comprem a versão original em DVD (o que ultimamente se tornou moda). Ou melhor ainda, joguem o “Police Quest”; que parece ser ainda a alternativa com melhor qualidade.

Se não tiverem em mando por mail. Também, são só 1,44Mb.

Música de Fundo
Dani Califórnia” – Red Hot Chilli Peppers

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Segunda-feira 16
- Onde se explica porque é melhor dar do que receber. Especialmente se o termo “receber” for utilizado como sinónimo para “aturar um monte de gente”… -

Eu sabia que ia ser uma segunda-feira destas! Melhor ainda… eu até sabia que ia ser dia 16; só não fazia ideia que por esta altura estaria a tentar expulsar do meu sistema circulatório uma quantidade considerável de substâncias nocivas, à força de cafeína e stress. Ou seja, aquilo a que eu costumo chamar de “Guronsan Administrativo”.

Este fim-de-semana O meu filho decidiu comemorar o seu 14º aniversário. E o facto de o querer comemorar em casa pode ser considerado uma coisa boa; porque a avaliar pela recordação que tenho de mim próprio aquando adolescente, não tarda que o queira fazer longe de casa e em “melhor” companhia.

Não tive problema algum com os convidados adolescentes porque eles gostam (mesmo os elementos femininos) de brincar ao “Star Trek”. Ou pelo menos é o que parece; pois após as saudações da praxe e entrega de presentes, colocam todos os telemóveis num monte, ligam o computador e a PS2; e fecham a porta “para que o barulho não incomode as outras pessoas”.

É nestas alturas que um tipo se começa a arrepender de ter desejado um filho “parecido com ele próprio ou melhor”. Mas no fundo, são estes os convidados menos incómodos, pois formam um grupo coeso que não tem necessidade de se afirmar em relação aos outros convidados, e só querem ser deixados em paz; principalmente se dois deles estiverem imediatamente atrás da porta tentando “comunicar por gestos”.

Os que realmente me “enchem as medidas” são os adultos; especialmente os “adultos²”. Ou seja aqueles que já são pais, e que por tal deveriam pressupostamente ter adquirido senão alguma sensatez (sim, porque a inteligência não se adquire com a idade), pelo menos o hábito de não darem demasiado nas vistas. Mas acho que isso seria mesmo exigir demasiado de simples adultos.

De qualquer modo, coisa que não faltou foi entretenimento. Pois quando a conversa politizada do meu pai ameaçava tornar-se em mais uma guerra familiar (acho que já travámos umas 23 ou perto disso), a minha sobrinha mais velha (mas ainda assim bastante nova) decidiu encetar uma monumental “birra de sono”, que a fez polir algumas dezenas de metros quadrados de ladrilho espanhol com o seu lindo vestido da “Petit Patapon”.

Acho que ela terá um futuro assegurado nas artes marciais ou no mundo do espectáculo. Mas a mãe diz que se está nas tintas para isso, e que sem dúvida é a expiação de alguns pecados que teria cometido no passado. Uau! Imagino o que terá ela feito…

O adolescente que me deu mais problemas foi mesmo o meu irmão. Talvez devido aos seus quarenta e dois anos (dizem que é uma idade problemática, embora eu não tenha notado nada quando os tive), não parou de “amelgar” os miúdos com ideias "luminosas" e propostas de divertimento. Penso porém que não o fez por mal, mas por no fundo acarinhar a delirante ideia de que não seria assim tão “mais velho” que eles.

Pode ser que um dia o façam “puto honorário” e assim se livrem dele. Mas até lá não passa de um emplastro com opiniões bastante definidas sobre si próprio.

É claro que isto para mim foram apenas pequenos desafios.

O pior foi o “Encosta do Cide” (colheita pessoal) de 2005, o paio alentejano, o presunto não sei de onde e toda uma cornucópia de matérias altamente tóxicas, que não consegui expulsar do meu sistema, nem mesmo após ter pedalado até à Trafaria no dia seguinte como penitência dominical.

É por isso que me considero de momento, com “Baixa de Blog”. O que, como felizmente não depende da ADSE nem da Previdência se resolverá em breve; mal eu perca esta sensação ter engolido dois quilos de plutónio enriquecido.

Para terminar, uma pequena mensagem pessoal - Runner. Vais ter que arranjar uma desculpa mesmo muito boa para não teres aparecido!

Música de Fundo
Idlewild Blues” – Outkast

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- "Now you see it, now you don't" - Um post que inclui felicitações, epílogos, e todos os acessórios necessários ao seu perfeito funcionamento, bem como certificação na Norma Internacional aplicável, conforme as exigências do Caderno de Encargos e Condições Técnicas Especiais. –

Irmãos (e tal…)! Já orei a Blog para que o Sapo acabe a manutenção a tempo de lá poder colocar a fotografia das ninfas em farda de “serviço”; mas a nossa Igreja nunca apostou muito nas rezas. Sendo estas de mais utilidade em justificar certas posições, do que propriamente para consubstanciar; pelo menos com o “Altíssimo”…

O que quer dizer que talvez não seja ainda hoje que veremos se o áspero caqui, combina bem com aquelas peles delicadas (especialmente se levarmos em linha de conta, o facto de não lhes facultarem roupa interior lá no reformatório).

Mas deixemos as ninfas (eu sei que é difícil) por um pouco, e passemos ao que assinala o dia de hoje como sendo importante.

Se bem que se trate de uma sexta-feira 13, o tema de hoje não é o azar, mau-olhado, ou mesmo invejas (Bem. Pelo menos o tema não é esse); mas é sim, transmitir felicitações pelo aniversário de um blog que faz parte do meu “circuito obrigatório de leitura”.

***

Não sei se sabem, mas este post está a ser escrito ao longo do dia. E agora, graças a Blog já temos disponível a imagem das ninfas em confraternização durante o intervalo das filmagens; foto esta que é o meu presente de aniversário para o Zé (The artist formerly known as Eufigénio) pelos seus dois anos aqui na “Blogocoisa”.

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O tão prometido epílogo
(embora apresentado em versão condensada)

A história anterior era para ter um epílogo, e acabaria misteriosamente com a destruição da fonte e consequente desaparecimento das ninfas.

O canalizador entrava em catatonia (como se isso fosse novidade), devido ao esforço dispendido com a derrota das forças das trevas; e o falso corcunda que se revelaria ser afinal a inspectora Carminho da Judiciária, abandonaria posteriormente a corporação para se dedicar ao turismo rural.

A cena final seria passada no refeitório, onde após o “debriefing” do pessoal fardado. A inspectora Carminho empurraria em direcção à porta, a cadeira de rodas onde se encontrava o catatónico Padre Ricardo (com aquela passividade toda, via-se logo que não poderia ser canalizador); que mais tarde seria entregue aos Dominicanos.

E para terminar, a câmara em “fade” captaria através de uma claridade azulada vinda da janela, o crucifixo onde a pequena aranha se acomodava paciente, entre os espinhos da coroa na cabeça do Cristo de aspecto angustiado.

Infelizmente faltou-nos a película para o epílogo, pois o IPC quando soube que eu admirava metade da obra de João César Monteiro, congelou o subsídio e tivemos que dispensar as ninfas que regressaram à “instituição”, e às suas divertidas “Matinées de Duche”.

Resta-me atestar que nunca este projecto poderia ter ido avante, sem a preciosa colaboração de meu Amo; que não aparecendo há quase uma semana me proporcionou alguma paz de espírito para poder teclar.

Onde quer que esteja, sem dúvida que a minha gratidão o acompanhará.

Música de Fundo
“When You Were Young”The Killers

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

(Pedimos desculpa pela repetição da imagem, mas o server do Sapo encontra-se em manutenção. A foto do “Making of” fica para depois)

A Instituição (6) - A Vida em Competentes Prestações
- “Making of…” da anterior história que não será terminada por razões que se explicarão (ou não) ao correr do texto; ou o masoquismo que existe em consumir ficção por episódios (pode também e alternativamente ser apenas uma pausa; é por isso que se diz “uma história de mistério). –

A arte imita a vida. Não só a arte, como também um longo cortejo de actividades menores que tentam passar como sendo isso. Desde a produção de diálogos para novelas, até à tentativa de explicar coisas das quais nunca se teve a menor experiência.

É por isso que a história que serviu de base a este folhetim tinha como herói um pobre rapaz vítima das circunstâncias, que passava de mão em mão como se fosse o prato das bolachas durante um “Chá Tuperware”. Tive por momentos a tentação de utilizar uma mulher como protagonista, mas acho que não pareceria tão genuína aquela tendência para fechar os olhos e deixar-se ir ao sabor dos acontecimentos.

A grande vantagem de ter como herói alguém do sexo masculino é que se durante a noite este for sexualmente molestado por seres do “além”, isso não se repercutirá em críticas venenosas sobre “a mentalidade suja dos homens quando escrevem sobre sexo”; pois não será necessário incomodar o frágil estômago de alguns (ou algumas) dos/as leitores/as com descrições de “membros arroxeados de ponta um pouco romba, prontos para expelir decilitros de viscoso fluido esbranquiçado, no interior de aveludados e estreitos orifícios”.

De qualquer modo é um bocado tarde, para tentar dar a tanga de que todos os trechos eróticos neste blog seriam da autoria de mulheres; que aqui fariam o favor de partilhar a sua sensibilidade e erotismo com todos nós. É claro que só podia ser tanga.

Uma das coisas que me deu mais gozo, foi saber que nunca ninguém me criticaria por (agora escusam de tentar recuperar o tempo perdido pois terminou o prazo) pôr o rapaz a ser “papado” por uma fulana de meia-idade, e a dar nessa mesma noite uma “geral” a cerca de seis membros do sexo oposto que lhe invadiram a alcova.

Isso dá uma boa ideia sobre quais os fundamentos daquilo a que hoje em dia alguns chamam de “escrita erótica no feminino”, da qual já tive alguns exemplos; que segundo a minha opinião a única coisa que trazem de novo é ser o outro a empunhar a chibata.

Ora não era preciso tanto estardalhaço para isso. Pois uma das bases do bom sexo é a reciprocidade; e isso inclui dar a vez ao outro no uso dos brinquedos ou deixá-lo também brincar “aos cavalinhos”; penso que não haveria razão para discussões.

Agora a parte mais suave e sensitiva. Difícil mesmo é esquecer o nosso próprio corpinho, e fingir que usamos a cabeça de outra pessoa. Sim; porque o habitual é esquecer o que vai na cabeça da outra pessoa, e usar apenas o seu corpinho. Mas isso seria tão trivial que não valeria a pena ser descrito aqui.

Tentar descrever uma experiência sexual em que o elemento masculino se mantém maioritariamente passivo, parece ser equivalente a estar apoiado apenas num pé, segurando uma bandeja cheia de copos e com uma incrível comichão no nariz. Pelo menos a mim apeteceu-me partir a louça toda várias vezes; mas tinha-me decidido a levar avante essa descrição tão difícil de construir.

Pois o objectivo deste exercício não era o de construir um argumento de mistério (que para isso não é necessário tanto floreado inútil), mas sim provar que uma descrição deste género conseguiria parecer minimamente plausível.

Considero que tal não foi completamente atingido, posto que só mesmo com muitos encantamentos e nevoeiros é que um tipo consegue representar um papel daqueles sem se “desviar do guião”; pelo que não garanto que se vá escrever um epílogo digno desse nome (neste momento considero este texto de tal modo “falhado”, que poderia fazer parte de algum dos episódios do “Jura”; e mesmo assim melhorá-lo).

Entretanto termino. Aproveitando para informar que nenhum canalizador foi magoado durante a rodagem deste folhetim. Compartilharemos igualmente com a assistência algumas frases de cariz filosófico; que sem dúvida elevarão o nível cultural de tão selecta plateia. E evitará que tenhamos de devolver o dinheiro dos bilhetes.

*

Não digo que todas as mulheres sejam iguais; mas infelizmente têm tendência para se agruparem com base nas características comuns.

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Por muito estranho que pareça, a masturbação pode melhorar a escrita de certas pessoas. Bem… Ou pelo menos, após se masturbarem perdem a maior parte da vontade de escrever aquelas coisas idiotas.

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O mal de quem tem um blog para arranjar engates, é que tem tendência a fechá-lo mal se orienta; não prevendo que assim terá que arranjar uma boa desculpa para poder regressar (infelizmente alguns voltam mesmo sem ter desculpa alguma).

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Música de Fundo
“Strays”Jane’s Addiction

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

A Instituição (5)
- Onde se esclarece que o último capítulo nem sempre é o final, e que qualquer final é alternativo. Enquanto houver um modo de influenciar o destino, não se deve escrever o epílogo (Isso, e também onde o leitor começa a interrogar-se sobre o verdadeiro sentido do termo “exploitation”). –

Quarto e Último Capítulo – “Último é sempre um termo enganador”

“And when you look long into the abyss; the abyss also looks into you.”
(Frederick Wilhelm Nietzsche)


O rodapé era de Madeira. Os furos que as térmitas teriam laboriosamente efectuado durante longos anos, assemelhavam-se aos estragos causados por chumbo miúdo disparado de perto por uma caçadeira. Muito a-propósito, recordou-se que esse era um dos métodos utilizados para falsear a idade de móveis de colecção. O mais engraçado é que todas essas memórias esparsas, tinha-as apenas por empréstimo; e não sabia o que iria acontecer quando tivesse que as restituir.

Reparou que se deslocava numa qualquer plataforma com rodas, e sentia as costas da mão arrastarem pelo chão. Quando olhou viu que tinha um pedaço de sedosa de teia de aranha suspenso dos dedos, de onde pendia uma pequena esfera castanha com as patas recolhidas ao dorso e formando estrias de em relevo.

Mas nem lhe passou pela cabeça sacudi-la. Sobre o rodapé que passava como a orla de uma película em mau celulóide, as manchas de humidade pareciam dançar o bailado do julgamento das almas; tal como o vira fazer na sua terra, antes de passar a ser apenas uma recordação etnográfica.

A pele da cara do corcunda foi exibida à frente dos seus olhos, agarrada pela mão de dedos finos e veias como veios de lápis-lazúli numa mina. – Espero que se recupere depressa, pois não conto empurrar esta coisa durante muito mais tempo – assegurou a face sorridente que se debruçou sobre ele.

Enquanto ele tentava reagir ao torpor que lhe tolhia ainda os movimentos, a figura feminina livrou-se da máscara e do enorme casaco. Transportava entre as espáduas um pequeno saco de lona preso por alças; de onde tirou uma pistola automática de aspecto extremamente leve. – Era uma boa ideia você pôr alguma coisa por cima do pêlo. Ainda vai fazer rir as miúdas que encontrarmos pelo caminho. – disse ela atirando-lhe umas calças de ganga – Espero que lhe sirvam.

Ele tentou sair do “carrinho de chá” sem bater muito com a cabeça no tabuleiro superior. Onde afinal acabou por fazer tilintar repetidamente um serviço de chá, que lhe pareceu ser de origem japonesa. – Já ninguém usa “Wedgewood”? – Proferiu em tom interrogativo, enquanto vestias as calças que lhe ficavam um pouco justas demais.

- Podia fazer uma fortuna com essas calças, você – troçou ela, enquanto lhe passava para as mãos uma arma igual à sua – Acha que consegue manter-se vivo até ter essa oportunidade?

Era uma interrogação muito pertinente. Pois as tábuas do soalho começavam a comportar-se de modo estranho; de nervuras brilhantes e proeminentes como se fossem percorridas por seiva. As manchas verdes do papel de parede começavam a evoluir lentamente, num traçado errático como amebas num caldo de cultura.

Ele lançou-se contra a porta; comprovando a teoria de que um pontapé bem aplicado teria sido muito mais efectivo. Apesar de tudo esta abriu-se para o refeitório vazio; onde o chão sendo igualmente de madeira transmitira as suas características a quase todo o mobiliário. Foi por essa altura que a luz se apagou. Algumas formas começaram a alterar os seus contornos por entre a penumbra bruxuleante, começando a fazer-se já ouvir um ruído de água corrente, risos, ruídos de pés nus em chão molhado.

Tentaram abrir caminho pela cozinha mas acabaram num aposento de janelas minúsculas e uma escada que parecia conduzir a um nível inferior. O corrimão de madeira pareceu encolher-se de repulsa quando lhe tocaram, mas revelou-se firme a uma segunda análise. A sala abaixo parecia iluminada…

Embora pudesse ter inicialmente sido construída para servir de garagem, de momento a cave albergava uma plantação controlada de fungos de diversas espécies, e em diversas fases de evolução nas suas estranhas morfologias. Talvez por essa razão não conseguissem identificar a maior parte deles.

- Decididamente este cenário tem verde a mais – Resmungou ele ao deitar um olhar em volta, mas sem se afastar da base das escadas.

De nada lhe serviu. Pois todos os objectos metálicos foram expulsos da madeira, fazendo colapsar os degraus ao mesmo tempo que as traves se soltavam; pelo que tiveram que avançar através das estranhas formações, em direcção a outro lanço de escadas que se encontrava no lado oposto da cave.

Tentavam mover os pés silenciosamente, pressentindo o movimento de gavinhas que se moviam ao nível do chão por entre a folhagem baixa de fetos. Um ruído de milhares de folhas entrechocando-se começou a fazer-se ouvir em direcção a eles; propagando-se como um eco que fazia vibrar o cimento encharcado do pavimento.

Apressaram-se pela escada acima, desembocando no pátio interior; que se encontrava fechado em cima por uma enorme clarabóia de ferro forjado e vidro multicor.

A fonte ao centro era de bronze coberto de verdete com um aspecto fosforoso. O escultor da ninfa não fora muito generoso, pois esta tinha umas feições vulgares de uma “apenas” beleza regular. Daquelas caras que podem iluminar-se com um sorriso, ou deixar-se apenas ficar nas trevas… – Não era um pensamento muito lógico de ter nesta altura – Reflectiu ele olhando em volta sem reparar nos flocos nevoentos e azulados que evolucionavam em redor, nem na mulher que deitada de lado com a cara sobre o solo respirava pausadamente, fazendo rodopiar a poeira assente nas lajes.

Um “mobile” feito com tiras e esferas de vidro, moveu-se subitamente fazendo soar alguns acordes, sob o efeito de uma leve corrente de ar que arrastava a névoa em direcção a eles. – Tenho que perder este hábito de adormecer a meio de coisas importantes… - Pensou enquanto fixava a vista numa mancha do chão, que parecia aproximar-se a muito boa velocidade…

(Isto começa a tornar-se repetitivo; a ponto de eu começar a interrogar-me se não será melhor escrever no próximo post o epílogo, o “making of”, o “director’s cut” e “A Instituição – The Merchandising Catalogue)

Música de Fundo
The Solid Time Of Change” – Yes

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Um Post para Encher
- Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos –

O dia de ontem foi complicado. Pelo menos era o que eu estava a tentar explicar ao “baguinho de milho” (que é a alcunha do diminuto marido de que a D. Odete é utente) mas sem sucesso aparente, pois ele estava mais interessado em vociferar contra o governo e a política de segurança nas estradas.

Segundo ele é profundamente injusto que um país como o nosso, que se encontra mais de trinta anos atrasado em relação aos outros na maioria dos campos, se equipe com dispositivos Hi-tec para apanhar os condutores a falar ao telemóvel, a pisar o traço contínuo, ou a colocar a mão na perna da colega da filha que vai levar ao colégio.

Mas a vida não é justa. Se o fosse, eu ontem teria tido tempo para escrever o seguimento do meu “post aos empurrões”, em vez de ter que aturar aquele tipo de visitas, que só não podemos matar e enterrar discretamente pois aparecem aos grupos de seis e mais; o que torna pouco prático este tipo de solução.

Pouco prático também, é escrever posts enquanto se tenta imaginar quanto custará a substituição da coluna de adução num edifício de 19 pisos. Por isso aparecerei por aqui algumas vezes, mas não contem muito com outro episódio antes de segunda-feira.

Podem porém aproveitar para ler outros blogs que tiveram a mesma ideia; talvez estes tenham conseguido escrever algo de novo sem precisarem de se vir inspirar aqui.

Mas duvido. O mais certo é alegarem que hoje têm pouco tempo… Por isso desculpem lá o mau jeito, e façam de conta que eu escrevi um post; é apenas de uma questão de imaginação…

Música de Fundo
“Here It Goes Again”Ok Go

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

A Instituição (4)
- Um “intermezzo” quase onírico numa história onde nada se explica; ou então de nada também valeria ser assim impingida por capítulos. –

Terceiro Capítulo – “Um dia da caça. Outro do caçador

“Deixei-as ver o efeito de uma leve sombra, tecendo como uma aranha eternamente ocupada…”
(Sheik Nefzaui)

Ricardo sentia-se como que transportado num enorme veleiro. Impressão esta induzida pelo som de água em movimento, e de tecidos roçagantes que percorriam o seu corpo em frescas e sedosas carícias.

Por alguma razão que desconhecia, sentiu-se seguro apesar de mal se poder mover e de ter os olhos colados pelo que parecia ser um muco viscoso; que apenas lhe permitia distinguir silhuetas difusas evoluindo saltitantes em seu redor.

Tentou novamente abrir os olhos. Mas o cérebro encontrava-se ocupado a tentar distinguir os murmúrios que ecoavam à sua volta, como uma brisa que lhe perpassava os ouvidos indistinta e fresca; propagando-se ao resto do corpo que começava a despertar para uma semi-imobilidade.

Estranhamente calmo, veio-lhe à mente uma frase isolada – “O homem que controla a sua própria vida, não a guia. Mas vigia-a atentamente da próxima curva em que ela irá passar…” - que não lhe pareceu apropriada à ocasião - Mas também os sonhos raramente são oportunos – pensou por entre a névoa em que se sentia navegar.

Uma sensação de formigueiro começou a invadi-lo a partir da parte interior dos joelhos e cotovelos, espalhando-se ao resto do corpo como o abraço de uma medusa feita de névoa e bocas diligentes. Desejou ver melhor, mas o corpo limitava-o em todos os sentidos; preso como estava aos sons e cheiros húmidos que o rodeavam.

Os seus lábios entreabriram-se pela acção exterior de algo morno, que se introduziu coleante e docemente invasivo. Sabia a frutos vermelhos gotejantes de seiva; como gavinhas de uma deliciosa planta que tivesse decidido alimentá-lo alimentando-se a si própria.

Vindo de ambas as têmporas, um duplo clarão eclodiu por detrás dos seus olhos empurrando-o brutalmente para a frente; como que expulsando-o do seu próprio corpo.

Deu por si de costas contra o tecto.

Pelo menos foi o que lhe pareceu. Pois olhando para baixo, viu um corpo nu que reconheceu vagamente como sendo o seu; coberto de ténues sombras de aspecto vagamente feminino, matizadas de uma vibração azul e intermitente a cada movimento, como hologramas indistintos numa coreografia “browniana”.

Sem dúvida que as sensações que lhe eram transmitidas correspondiam ao que estava a acontecer com o seu corpo; que conseguia avistar daquele estranho ponto de observação.

Embora os acontecimentos evoluíssem numa continuidade não-linear (pois não tinha modo de avaliar o tempo), as formas sobre o seu eu imobilizado começavam a definir-se melhor; deixando chegar até si ecos, que se assemelhavam ás estranhas risadas que o tinham acompanhado desde que chegara à instituição.

Apesar de ter sido advertido para acontecimentos invulgares, nada o preparara para a visão de um grupo de raparigas de idade indefinida. Umas passando-lhe os lábios pela parte interior das coxas, outras acariciando-lhe os braços e o peito com mão guiada por terceiras; soltando trinados que invocavam recordações de fontes cristalinas entre choupos.

Reparou que a suave impressão nos seus lábios era causada por uma delas que lhos mordiscava, e cuja língua se introduzia entre eles como se lhe desse a beber algo; oscilando suavemente a cabeça e fazendo assim ondular uma cabeleira loura de folhagem outonal.

O seu peito continuava a ser percorrido por mãos que lhe soltavam pedaços de algo sedoso, parecendo ler em si uma cartografia estranha. Sempre guiadas por companheiras diligentes que encostavam a si as coxas mornas e húmidas, numa fricção insistente e quase íntima. – “O prazer mata o intelecto” – disse-lhe uma voz interior que talvez fosse a sua. Mas apesar de continuar a observar judiciosamente todos os acontecimentos, começava a deixar-se arrebatar por uma excitação animal que lhe embotava a percepção.

Inconscientemente segurou-se melhor a um fio ténue que o suspendia do tecto. De onde faunos e ninfas tudo contemplavam com sorrisos estáticos desbotados por muitas eras.

Sentiu o membro intumescido, envolvido em algo viscoso como uma boca estreita e de múltiplas línguas.

Apurando a vista notou que uma delas se sentara sobre si, enquanto outra imediatamente atrás e apoiada com as mãos nos ombros desta se debruçava para a frente, imprimindo-lhe um movimento fluido com as próprias ancas; e lhe segredava algo aos ouvidos delicados de orla pontiaguda.

Sentiu-se levitar sobre o leito apesar de coberto de corpos. Numa falsa sensação de leveza causada pelo prazer e os múltiplos contactos; incutindo-lhe assim uma vertigem que ameaçava perturbar todo o equilíbrio.

A que anteriormente o beijava, colocou um joelho de cada lado da sua cabeça e desceu até ele o sexo gotejante e entreaberto que lhe encostou à boca; sendo suavemente movimentada por outras duas, que ladeando-a, lhe acariciavam os mamilos num quadro de simetria pouco humana. Reproduzindo a forma de uma borboleta ondulando as asas.

Inconscientemente moveu a língua para fora. Conseguindo sentir um pequeno alto, como o rebento de uma nova folha de onde a seiva gotejava; e lhe escorria pelas comissuras dos lábios, deslizando pelas veias do pescoço até formar no lençol pequenas manchas de um azul esverdeado.

A que se encontrava sobre as suas coxas levantou-se suavemente, fazendo o pénis estremecer em contacto com o ar fresco, e debruçando-se sobre ele lambeu-o desde a base até à glande traçando arabescos de saliva com a língua.

Beijando a boca da companheira, fez-lhe primeiro sentir o sabor. Após o que com um sorriso, lhe apoiou as mãos na cabeleira negra empurrando meigamente para baixo, fazendo-a assim abocanhar o membro até os lábios contactarem com o abdómen.

Sentiu-se estremecer suspenso do fio oscilante num suspiro mudo e ansioso, arrebatado pelas sensações transmitidas do seu corpo prostrado na cama em baixo.

Viu-as beijarem-se novamente, entrelaçando as línguas como flores carnívoras numa estranha dança nupcial; e voltando a chupá-lo à vez como que provando a saliva uma da outra.

Conseguia notar a diferença de textura, entre as duas línguas de bocas diferentes que se alternavam. Continuando apesar disso a sentir escorrer-lhe pela garganta, o sumo meio ácido da vulva que se mantinha sobre os seus lábios, onde faltava um sabor qualquer que não conseguia definir.

Finalmente uma delas envolveu-lhe o sexo com os dedos fortes e pálidos, para facilitar a introdução noutra cujas companheiras seguravam. Fazendo-a descer sobre o seu corpo imobilizado, em movimentos circulares que o fizeram estremecer de prazer mal contido; o que quase o fez cair do seu posto de observação.

Sentiu que o orgasmo se aproximava irremediavelmente, ao mesmo tempo que uma inexplicável sensação de perigo o assaltava; e lhe ocorriam frases desconexas sem significado aparente em línguas desconhecidas. Começando já a ser percorrido por espasmos, que faziam oscilar visivelmente o fio de seda onde se encontrava suspenso.

O ar estava carregado de minúsculas vibrações, como se baixas nuvens de tempestade tivessem ocupado todo o quarto.

A que se encontrava sobre a sua boca, virou para trás a cabeça em direcção ás companheiras até um ângulo quase impossível; com a face percorrida por um sorriso electrizante que se assemelhava a um raio sulcando o céu escuro. E um olhar velado cruzou-se com seu, tornando-se de imediato num rictus de raiva que terminou em grito.

Sentiu-se ofuscado por um clarão que quase o cegou. E por breves momentos viu-se a si próprio pelos olhos da criatura.

Uma aranha minúscula em tons castanhos, que se deixou escorregar por um fio de seda até entrar pela boca do corpo paralisado; com um grito que foi aumentando até registos inaudíveis. Enquanto no quarto se formava uma névoa de gotículas azuladas, que rodopiando avançaram para a janela quebrando os vidros e perdendo-se na noite. Deixando atrás de si uma poalha que assentou nas tábuas do chão, como orvalho que logo se dissipou.

Levantou-se de um salto regurgitando água como alguém prestes a afogar-se, e caiu de joelhos aos pés da cama.

Raivosamente arrancou de todo o corpo madeixas sedosas e transparentes que se dissolveram por entre os dedos.

Enrolou-se em posição fetal e caiu num sono profundo percorrido por estremecimentos. Como um animal amedrontado, escondido num tufo de fetos. Já sem ouvir como se perdiam à distância, as gargalhadas cristalinas onde não transparecia a mínima ponta de alegria.

Música de Fundo
Butterflies & Hurricanes” – Muse

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

A Instituição (3)
- Onde os acontecimentos que se seguem são cronologicamente imediatos aos anteriores. Não só para evitar quebrar o fio condutor da narrativa, mas também porque o autor é contra (pelo menos hoje) o sistema de “flash-back” (evitamos fazê-lo, para não encadear quem nos segue de perto) -

Segundo Capítulo – “As filhas de Aganippe

Ricardo acordou sobre a cama ao som de gritos de horror; constatando envergonhado que era ele próprio que os soltava. Tentou lembrar-se do que poderia ter sonhado que provocasse aquela reacção, mas a última coisa de que se recordava, eram os avanços da directora; que exceptuando a parte em que quase o estrangulara, até tinha sido uma bela experiência.

Sempre tinha achado que as mulheres entradotas tinham um fetiche qualquer por tipos em fato de trabalho e a cheirar a óleo mineral. Olhando em redor reparou sobre a ombreira da porta numa aranha que assustada pelo ruído, catapultou o pequeno corpo peludo pelo seu fio acima, entrincheirando-se num buraco da parede que cerrou sobre ela com um alçapão de seda e restos de folhas.

- Aquele tipo de aranha não existe no Buçaco – Pensou. Corrigindo-se a seguir ainda mentalmente – Nem os picheleiros percebem de aranhas exóticas. Se calhar fugiu de alguma encomenda recebida da Austrália, e acabará por morrer fora do meio habitual.

Olhou o relógio de pulso e constatou que falhara o jantar, pois eram já 21h 32m. A escuridão invadira os ramos das árvores que se avistavam da janela, e como uma nuvem de gélida tristeza infiltrava-se através das vidraças; criando uma frente de frio quase visível que começava a conquistar o aposento.

Despejou a caixa de ferramenta sobre as tábuas do chão, e pegando numa lata de Stopox abriu-a, utilizando um alicate para extrair dela um telemóvel envolvido em plástico, que se encontrava dissimulado no meio da pasta verde e gordurosa. – Totalmente inútil - Verbalizou ao reparar que não obtinha sinal de rede nem para chamadas de emergência.

Voltou a guardar o aparelho no seu viscoso esconderijo, e saiu em busca de alguém que lhe proporcionasse uma refeição decente ou lhe indicasse como a obter.

O edifício encontrava-se estranhamente silencioso para um local que albergava cerca de duas centenas de raparigas. Mas achou que talvez devido à natureza dos motivos para a sua reclusão, lhes fosse imposto um recolher rígido. De qualquer modo a sua preocupação imediata era o estômago vazio, que roncava periodicamente como uma fera que ameaçasse revoltar-se.

Ao acabar este pedaço de reflexão, compreendeu que já se encontrava a andar pelo corredor há demasiado tempo para o pouco comprimento que este deveria ter; isso tomando como referência a visão fugaz que tivera do edifício aquando da sua chegada. As paredes apesar de fracamente iluminadas por apliques bruxuleantes, também não se estendiam assim até tão longe. Observou, imobilizando-se e deitando uma mirada para trás de si.

Conseguiu distinguir ao longe quase no limiar da audibilidade, um som de algo a ser raspado num ritmo regular. E voltando-se novamente para a direcção em que se dirigia anteriormente, notou que ao fundo do corredor se encontrava uma porta, por debaixo da qual uma luz pálida se escapava.

Acelerando o passo depressa a alcançou; e girou o puxador de latão que reproduzia um punho fechado fazendo “figas”.

Encontrava-se no que parecia ser um refeitório de aspecto austero. Entre as duas filas de mesas compridas ladeadas de bancos pesados, uma figura feminina de costas para a porta encontrava-se de gatas no chão, utilizando com ambas as mãos uma escova para limpar uma mancha acastanhada no soalho de madeira.

Observou pelas formas gráceis mal dissimuladas pela bata escura, que se tratava de uma mulher jovem com um traseiro bem feito e de pés pequenos e nus; apenas calçados com uns arcaicos chinelos de ourelo.

Manteve-se na entrada por uns breves instantes, aproveitando para gozar a primeira visão verdadeiramente agradável que lhe era proporcionada desde que chegara (o “incidente” com a directora não contava, pois tinha sido apenas uma sucessão de fotogramas desconexos e meio alucinantes).

Repentinamente sentiu o ombro direito ser agarrado firmemente por detrás, e algo que se assemelhava a finíssimas garras apertar-lhe a carne através do tecido da t-shirt. Virou-se celeremente e agarrou um pulso magro; preparado para se defender de uma possível agressão. Mas tratava-se apenas do corcunda, que com um sorriso sardónico casquinhou trocista, e o impeliu calmamente para dentro do refeitório, onde notou não se conseguir descortinar rasto da rapariga em trabalho de limpeza.

A um dos cantos uma mesa encontrava-se preparada com um prato fumegante, pão e um jarro de água. Aparentemente não o iriam deixar morrer de fome.

Sentou-se por indicação do seu guia, que se não era mudo deveria ter feito algum estranho voto de silêncio; ou que talvez não o achasse merecedor de conversa. Enquanto começava a comer o que parecia ser uma feijoada demasiado apurada, viu-o afastar-se em direcção a outra porta, dando pelo caminho um pontapé na escova que desapareceu nas trevas por debaixo das mesas.

Como mais ninguém aparecesse, terminou limpando o prato com um pedaço de pão e encaminhou-se para o quarto. Ao sair ainda estranhou não encontrar nas tábuas do soalho qualquer vestígio da mancha ou sequer de humidade. Mas encolheu os ombros e apressou-se pelo corredor, que sob o efeito da sombria iluminação parecia estreitar-se na vertical, sem que se chegasse a lobrigar o tecto.

Chegado ao quarto fechou de imediato a porta, e girou a chave que se encontrava na fechadura. Na acanhada casa de banho privativa lavou-se sumariamente com expressão preocupada, e apagando a luz foi deitar-se envergando apenas uns boxers meio puídos.

As janelas sem portadas ou cortinas, deixavam passar sombras que uma lua raquítica fazia bailar através dos ramos das árvores; que estando quase encostados ao edifício, batiam ás vezes nos vidros produzindo um ruído seco e inquietante.

Apesar da lâmpada apagada, a pouca luz que entrava pela janela reflectia-se no espelho da carcomida cómoda frente à cama; permitindo distinguir os objectos numa espectral nitidez prateada. E talvez fosse isso em conjunto com o bater dos ramos, que o mantinha desperto e sem perspectiva de adormecer durante algum tempo.

Recapitulou mentalmente os motivos que o tinham levado ali, e o inventário de tudo o que levava. Revendo igualmente a hipótese de no dia seguinte, tentar encontrar um local onde o telemóvel tivesse rede e conseguisse finalmente contactar com a sede.

Remexeu-se desconfortável no colchão de palha que lhe parecia uma cama de faquir; e cujos nodosos caules lhe vincavam as costas através do lençol. O vento aumentara novamente. - Talvez ainda viesse a chover nessa noite – calculou, aborrecido pela ideia de grossas gotas de água a esmagarem-se ruidosamente nas vidraças até de manhã.

Por uns instantes, a lua conseguiu romper através dos ramos e incidiu no espelho; dando a impressão de que uma face o observava atentamente lá de dentro. Mas achou que era apenas uma ilusão de óptica, provocada pela luz nas manchas de ferrugem.

Olhou para fora na direcção em que a lua deveria estar, mas não distinguiu sinais desta ou de qualquer raio de luz mais forte.

Quando atentou novamente no espelho, a face tornara-se ligeiramente maior e ocupava-o quase na totalidade; começando a desenhar-se nela uma boca carnuda de lábios rubros, encimada por uns olhos verdes que o contemplavam directamente.

Ergueu-se sobressaltado mas não chegou a completar o movimento, pois uma estranha paralisia atacou-lhe todos os membros; fazendo-o tombar para trás de encontro à almofada. Lutou para se libertar mas sentiu a visão nublar-se-lhe. Ainda teve tempo de ver a cara avançar na sua direcção coroada de cabelo fulvo e abundante.

Antes da escuridão que o envolvia se fechar completamente; notou que mais uma vez como um regato que recomeçasse a jorrar, se faziam ouvir gargalhadas juvenis; só que agora estavam em redor de si… demasiado perto…

Música de Fundo
“The Beautiful People”
Marilyn Manson

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