quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Stress, stress… tudo é stress
- Título em tom shakespeareano, mas de significado muito menos “sorna” -

Ainda não decidi bem se hei-de desistir do blogue ou do emprego; tal é a intrusão que simultânea e mutuamente eles exercem um sobre o outro.

E uma vez que ainda não me foi possível discorrer sobre o tema da actualidade (algo que se pode condensar em meia dúzia de vocábulos), vou-vos empatando com coisas avulsas; que me ocorrem nos raros momentos em que o meu espírito não está preenchido com coeficientes de estanquidade e alturas manométricas.

A criatividade é mesmo uma coisa estranha, pois a meio de algo que não tem rigorosamente nada a ver com a escrita, ocorre muitas vezes a eclosão de uma ideia que em cinco minutos se transforma numa matriz de acontecimentos narráveis e de formato apelativo. O que quase sempre termina abruptamente, no momento em que levanto os olhos do que estou a fazer para ligar o processador de texto.

O stress deve ser cavalgado como qualquer outra onda e aproveitado para os nossos próprios fins. Pelo que vos peço que façam de conta que acabei de fazer um “tubo”, salpicando-vos com a espuma desta nervosa onda que espraiará apenas daqui a alguns meses (pela minha estimativa, só lá para a altura das férias).

Entretanto o que se pode arranjar é esta espécie de “corrente cultural às pinguinhas” enquanto a minha inspiração e disponibilidade não atingem um patamar aceitável:


* Momento Poético *
“Há uma parte de mim que tem saudades do Verão… Ou então está apenas contente por apanhar sol…”


* Primeira Lei “Powerpoint” *
O amor não existe em curva descendente


* Provérbio do Bairro Amarelo *
“Se pelo lusco-fusco alguém tocar a campainha e em atendendo não vir ninguém, decerto que era uma minoria…”


* Grande Desafio *
- … É tentar ler certos blogues e beber água ao mesmo tempo, sem morrer afogado… -


* Comentários Sociais *
- Reparaste naquele parzinho? Como parecem unidos?...
- Já! Há mesmo alguma coisa entre eles…
- Bem. Pelo ar deliciado dela, só pode mesmo ser um enorme pedaço de carne.

Música de Fundo
“Old Man Waltz”Calexico

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

A Felicidade é como a Primavera… Só que à Segunda-Feira

Um dos hábitos que enraizei há muito tempo, foi o de parar a meio de qualquer coisa para um rápido “reality check”. Pode parecer estranho este procedimento, mas vocês nem imaginam o que podem fazer cinco minutos de reflexão a meio de uma correria qualquer num normal dia de trabalho.

Desde que os seres humanos desenvolveram o mau hábito de apenas darem importância a acontecimentos que acarretem problemas de uma certa gravidade; de cada vez que a sua atenção é desviada da voragem em que se encontram mergulhados no seu quotidiano, a possibilidade mais alta é que isso aconteça por motivos negativos.

Por isso não podemos contar com o nosso condicionamento natural para nos ajudar neste exercício.

O bem-estar é algo muito relativo, e cujo conceito é substancialmente diferente de indivíduo para indivíduo. O que para uns é bem-estar e repouso para outros poderá ser opressão; do mesmo modo que aquilo que outros consideram uma permanente e divertida viagem de montanha russa, é por outros encarado como um ataque continuado por parte de todas as forças negativas.

É mesmo difícil contentar toda a gente; mas como diria Blog (e o meu filho que também costuma dizer o mesmo) “Who cares?...”

Em vez de nos deixarmos levar pelo tempo como folhas soltas, é sempre boa ideia parar e olhar em volta. Pode ser que a uma qualquer segunda-feira a felicidade esteja ali parada à espera, como uma surpreendente Primavera.

Música de Fundo
Window In The Skies” – U2

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

A Terceira Vela
- Não há visão sem luz… -

Escrever posts de parabéns, tem épocas em que daria para esgotar as necessidades editoriais de qualquer blogue. Mas isso seria banalizar a coisa; e visto que está quase tudo reduzido à superficialidade de relação virtual, eu faço questão de manter algumas coisas dentro das devidas proporções.

Uma delas é a amizade.

Eu poderia vir falar-vos de amizade, e de como coisas frágeis se fortalecem e vão tornando maiores a partir de praticamente nada, mas seria desnecessário. A amizade não tem que ser explicada ou equacionada a sua composição.

Tal como qualquer outra coisa verdadeiramente natural, basta que exista e que funcione quando isso se torna necessário.

Hoje é a minha vez de dizer – “Eu sou amigo da Vanus de Blog...

Música de fundo
Peculiarly You” – Cousteau

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG)
- Onde o autor se interroga sobre a paternidade de determinados factos, e o direito à vida dos mesmos, quando aqueles próprios que os criam os renegam mal a coisa começa a dar para o torto. –

Se há coisa com que eu embirro, é com gente que “emprenha pelos ouvidos”. E para estes casos, infelizmente não há IVG que resolva o assunto.

Tenho assistido nos últimos tempos ao alastrar epidémico de um dos males sociais que normalmente aflige os estratos menos letrados; o - “a vizinha disse-me”.

Ora o famoso síndroma do “a vizinha disse-me” é um flagelo por demais conhecido entre as donas de casa das Olaias e as vendedeiras do Bolhão.

Desde tempos imemoriais que essas almas simples, na impossibilidade de acederem a sistemas sofisticados de entretenimento, inventaram aquilo a que os americanos muito bem classificaram de “mito urbano”; e que por cá se chama boato ou pura e simplesmente “conversa de comadres”.

(Para aqueles que vinham enganados na mira de mais um texto enfadonho sobre o referendo, temos a informar que este texto será talvez enfadonho, mas pelo menos não é sobre o referendo).

A blogosfera (tal como eu já estou “careca” de dizer a toda a gente) não é diferente do nosso pequeno universo diário, pelo que nos devemos precaver contra o equivalente “à simpática porteira” e “àquela colega que tem um primo na TV e que consegue saber todas as notícias antes de serem publicadas” (e mesmo aquelas que não são publicadas).

Isto até seria fácil de conseguir se as pessoas que escrevem “aqui dentro”, não fossem as mesmas com que embirramos “lá fora” (como no caso de alguns “jornalistas”).

Na sua ânsia de arranjar assunto para post aliada a uma estranha mania de repetir todas as notícias recebidas como se trouxessem “selo de garantia”, muitos bloggers acabam por cair no ridículo de afirmar num dia que é branco o que no dia anterior juravam ser preto. O que até nem é muito grave, se levarmos em conta que a maioria dos “media” faz exactamente o mesmo.

Isto notou-se de sobremaneira no caso do militar acusado de sequestro, em que toda a gente botou palpite desconhecendo a maioria dos factos que motivaram todo o processo, e contentando-se em repetir o que também toda a gente já estava farta de ouvir na TV.

Ora ter um blog (em princípio) não devia ser para repetir opiniões, muitas vezes tendenciosas e sensacionalistas de um qualquer repórter estrábico. Mas cada um come do que gosta (ou do que o deixarem comer); e se desejam mesmo passar por idiotas não é necessário tanto trabalho, pois basta pedir com bons modos e eu vou lá chamar-lhes isso.

Outra pérola característica deste meio - que alguns insistem em considerar como uma “Via de Alternativa de Informação” (valha-me Blog, mal posso conter o riso) – foi a propagação de uma falsa notícia que relatava um falso rapto de uma inexistente jornalista, lançado por outros dois “jornalistas” (as aspas são devido ao facto de pressupostamente os jornalistas não deverem inventar notícias).

Ora, se há coisa que me faz olhar desconfiadamente em volta e segurar a carteira com mais força, é a presença de um “jornalista” na mesma sala que eu.

É claro que depois de toda a gente protestar, o mais fácil de fazer nestes casos para resolver as coisas a contento, é pedir a ajuda de amigos e aliados para justificar o injustificável, embora no final o resultado seja o mesmo que “os blogs das putas” que vêm para a Net apenas para alargar o “mercado” e talvez lançar um livro.

Não que eu tenha algo contra as putas. Nem pouco mais ou menos, pois a essas honestas trabalhadoras do sexo, nunca ninguém ouviu dizer que eram jornalistas.

Agora vão lá perguntar o mesmo à maioria dos jornalistas que têm um blog…

Música de Fundo
Velcro” – Repórter Estrábico

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Gajas?... Por Blog! Eh, pá… Foda-se!!!
- Este texto é inteiramente baseado em personagens reais, pelo que qualquer semelhança com conhecidos personagens de ficção não passa de pura coincidência -

Um dos maiores mitos que eu conheço, é aquele que define o homem como uma espécie de cabide onde qualquer mulher se pode pendurar, desde que aparente ser da espécie humana e sexo feminino.

Ou seja, enquanto uma boa parte das mulheres acha seu dever transformar qualquer encontro com um tipo, numa espécie de “Volta a Portugal em Bicicleta” conquistada por etapas; têm paralelamente uma tendência para achar que em se virando para ele e lhe dando sinal para avançar, deverão ser de imediato tratadas como se fossem um comboio da UNICEF carregado de víveres entrando num campo de refugiados.

Ok. Admito que alguns dos meus congéneres (uma boa parte, mesmo) têm atitudes que no campo sexual quase raiam a necrofilia. Bastando-lhes que seja um corpo qualquer mais ou menos morno, e que pestaneje uma vez; para que obtenha o carimbo de “adequado para consumo humano”.

Mas há coisas que ultrapassam o que é humanamente suportável.

Agora imaginem ó caras leitoras (Sim. Pensavam que se conseguiam escapar?), que vos sai na rifa aquilo a que algumas de vós chamam de “o pegajoso”.

O pegajoso” é aquele tipo de gajo com uma conversa melosa e chata, que imensas vezes é encontrado em festas de empresa, ou outros locais igualmente apinhados de gente avulsa; e que sendo suficientemente bem educado para não ser corrido a pontapé, acaba por se tornar quase tão incómodo como uma crise de herpes.

Agora calculem que por uma qualquer desconhecida razão, acabaram por ficar isoladas a um canto com o referido emplastro e sem possibilidade de alguém (amigas, família, bombeiros) as vir salvar.

A conversa até não é má, mas o tipo teima em tentar conduzi-la sistematicamente para assuntos de natureza íntima. O que faz, se já “tem macho”, preferências sexuais, insinuações sobre quão gratificante será passar algum “tempo de qualidade” com o referido espécime, etc.

Por esta altura já a conversa (isto se não contarmos com alguns possíveis avanços discretos de mãos e joelhos) lhe deverá estar a dar alergia equivalente a um molho de urtigas de razoável dimensão.

Você olha novamente para as trombas do “bicho”. Se fosse alguma coisa de jeito ainda podia “ir lá” por causa de um palminho de cara ou um corpo minimamente apelativo. Mas o tipo não tem ponta por onde se pegue, e só lhe faz lembrar aquele primo que não vê há dez anos; talvez devido a ser a cara chapada do Fernando Mendes.

O seu espírito começa a revoltar-se e a tentar furar o bloqueio que a boa educação está a fazer ao seu instinto de sobrevivência. Quanto mais o tipo fala, mais você tem a sensação que ele deveria estar no Instituto de Medicina Legal conservado em formol e com a tampa do frasco bem atarraxada.

A sua concentração acaba por dar frutos. Pois no meio daquele Mississipi verbal consegue encontrar uma frase à qual pode responder com uma daquelas declarações genéricas, que habitualmente servem para livrar qualquer um de situações difíceis. - “Ah… A propósito de Etiópia. Lembrei-me agora que tenho que ir levantar o bilhete pois embarco para lá no voo das 21h 45m”.

Aparentemente conseguiu salvar-se. Pois já está em casa há quarenta minutos; dez dos quais debaixo do duche a esfregar-se energicamente com o sabonete; e o telemóvel ainda não tocou.

Nos dias seguintes você fica a saber que o tipo se tentou insinuar junto a tudo o que é relacionamento seu, aparentando conhecê-la bastante e sendo possuidor de informação que você não lhe deu. Para rematar todo este processo, você descobre ainda que tudo o que ele sabe lhe foi facultado por aquele seu “ex”; logo aquele filho da puta que tão bem a soube enganar.

É nessa altura que decide mandar à merda a boa educação e ir à procura dele com um tijolo dentro da mala…

Aqui a maior parte de vós dirá que é muito bem feito. E que se o tipo for apanhado deve ser castrado e frito em azeite espanhol com ervas aromáticas.

Pois eu também acho. Só que isto passou-se comigo, e o dito emplastro é uma mulher. Digam lá agora que não é justo eu sentir o mesmo…

Música de Fundo
Suck” – Nine Inch Nails

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Poetas do Karalhoke
- Não é propriamente uma homenagem ao balbuciante Sam “The Kid”. Mas apenas algumas ideias livres de “royalties” que este vosso cronista (talvez por preguiça) mais uma vez decidiu oferecer, àqueles que tendo grande dificuldade em puxar pelo bestunto, possam cair na tentação de utilizar algo que leram algures e dando-lhe apenas o seu toque pessoal –

*

Grandes Descobertas da Humanidade
– Série dedicada aos nossos antepassados da pré-história e às suas mais importantes realizações; como por exemplo a descoberta da natação “assistida” (recorrendo à utilização de sáurios anfíbios).

Neste primeiro episódio será ainda apresentada como “comic relief”, a lenda aborígene que retrata as aventuras de uma pequena tribo que descobriu o boomerang; e a sua luta inglória para se desfazerem do primeiro protótipo que regressava sempre, e para o qual não tinham encontrado qualquer utilidade.

*

Os Apanhados do Século XXI
– Ideia para algumas entrevistas-surpresa, para as quais se convidariam separadamente, personagens como Mário Soares, Alberto João Jardim, Paulo Portas, etc. Tendo como pretexto atribuir solenemente o 1º Prémio do concurso “O Melhor Português de Sempre”.

Após algumas perguntas (apenas para fazer ambiente) ser-lhes-ia por fim revelado tratar-se de um embuste; podendo finalmente os espectadores assistir em directo ao estalar do verniz, bem como a posteriores apoplexias, ataques de raiva, ACV’s, ACP’s e PCP’s…

*

Pensa Por Mim
– Modelo constituído por um programa musical tipo “Passeio dos Alegres” mas apresentado por Sam “The Kid”; para o qual se convidariam ciganos romenos, pedreiros eslovacos e comerciantes chineses (desde que fizessem prova de um razoável desconhecimento da língua portuguesa); pedindo-lhes que tentassem compor letras para o próximo CD do conhecido cantor de Hip-Hop.

*

Bom fim-de-semana!...

Música de Fundo
Champion Sound” – Fatboy Slim

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

O Livro Negro de Blog
- Onde se vê que é finalmente tempo de revelação. Só não se sabe bem ao certo é de quê…-

Irmãos! Passados cerca de três anos e meio após o nascimento da Verdadeira (embora não única) Fé, chegou finalmente a hora de expandir a obra missionária de Blog.

A ideia não é nova, tendo evoluído através do tempo e adquirido contornos mais definidos que acabaram por se consolidar no Primeiro Concílio da Igreja do Imaculado Blog (PCIIB). Onde os delegados que conseguiram sair do bar antes que se efectuasse a rusga (nunca esqueceremos os que ficaram para trás), mercê da sua perseverança e espírito de missão, decidiram dedicar parte das suas vidas ao serviço da Grande Obra.

Embora as Sagradas Escrituras das seitas da concorrência sejam apresentadas por uma ordem mais ou menos cronológica, isso deve-se ao facto de eles terem tido mais que tempo (entre 2000 e 3000 anos nalguns casos) para corrigir, alinhar e reescrever o passado (num estilo perfeitamente bloguístico como se pode avaliar).

Ora tal não acontece connosco, pois vivemos na idade de ouro da informação e decidimos deixar essa incumbência para as gerações vindouras, a cargo das quais ficarão as tarefas de ordenar, alterar e/ou aldrabar o Sagrado Livro conforme lhes seja conveniente.

Não espereis líricos relatos sobre a criação da blogosfera em sete dias, seguidos de textos extensíssimos sobre a genealogia dos nossos beatos e profetas. Aqui serve-se apenas o prato do dia pois é uma tasca muito económica (de borla), e como se costuma dizer, “quem quer gratuito não escolhe”.

Os nossos fiéis escribas (que têm vidas pessoais tanto ou mais ocupadas que a minha) iniciaram há dias a hercúlea tarefa de justificar um deus tão inútil como qualquer outro, mas se possível mais divertido. Porque uma coisa é certa… Se Deus é um luxo (e bem caro ele fica), ao menos que sirva para alguma coisa. Quanto mais não seja para nos fazer rir.

A fé em Blog (dizem os Sufis) é apenas um olhar rápido deitado ao espelho. E quem não gostar do que lê… Bem… sempre pode tornar-se budista e olhar para o umbigo.

Ide pois, lede e espalhai a Boa Nova (se for mesmo boa, até poderá ser um bocadinho mais velha).

Música de Fundo
Personal Jesus” – Marilyn Manson


segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

A Igreja do Imaculado Blog
- Onde se dá a saber sobre as conclusões do Primeiro Concílio e de alguns factos ocorridos, embora os nomes devam ser omitidos ou trocados para salvaguardar a privacidade dos intervenientes, pelo facto destes serem de menor idade (pelo menos menor que a minha; o que até nem é difícil). –

Alice, o Chapeleiro e o Arganaz encontravam-se em plena meditação com o nariz dentro dos copos quando chegou o quarto interveniente – Olá! Não sei se são mesmo vocês, mas eu sou a Lebre de Maio.

- Não era de Março? – Perguntou Alice que estava sempre com atenção às conversas – Iria jurar que era de Março, pois o Arganaz faz anos em Abril e também tem ascendente lebre…

- Já foi Março… - Disse a lebre mordiscando uma palhinha de trigo que tirara sabe Blog de onde – Mas ultimamente a minha vida não me permite chegar seja onde for com menos de dois meses de atraso. Assim troquei o mês para me manter em dia com os compromissos. – Piscando o olho apontou a orelha direita para o Chapeleiro – Quanto a ti é melhor largares o copo pois ela não vai desistir.

Ao lado o Chapeleiro mantinha uma luta inglória com a empregada do bar, que vestida de Rainha de Copas se debatia pela posse de um copo vazio que ele teimava em não deixar levar – Os copos vazios devem ser imediatamente levados… - Justificou-se esta num sotaque celta enquanto tentava escapar-se para detrás do balcão.

Sem qualquer contemplação pela sua múltipla condição de mulher/estrangeira/rainha de copas, o Chapeleiro virou-a ao contrário como se tentasse localizar a origem do som “mamããã” e espetou com ela dentro do bule – Deixe lá que não é a primeira a quem isso acontece – disse o Arganaz, satisfeito por ter passado a vez – De qualquer modo já ninguém a poderá acusar de falta de chá…

Aproximou-se então o funcionário encarregado dos “sólidos” que obviamente nos confundiu com intelectuais, pois iniciou de imediato uma dissertação sobre uma qualquer escritora que tinha uma cabeça desproporcionada e dizia coisas horríveis. Isto interrompido periodicamente para pôr à assembleia várias questões, como o que iriam comer, se algum de nós era blogger e se nutríamos alguma reserva quanto à possibilidade de vir a ter um amigo homossexual.

O arganaz contemplou com ar desconfiado o prato que lhe tinham colocado à frente – O que é isto? – Perguntou ao empregado que o contemplava com um sorriso embevecido.

- Isto, Rico… - Respondeu o simpático pederasta – É o que por aqui se chama refeição. Há quem lhe chame almoço e há quem lhe chame jantar; embora eu esteja convencido que é apenas por uma questão de conveniência. Mas você é um querido e não me convenço que não tenha blog…

Após uma pequena conferência entre Alice e um gerente carmim como uma beringela, lá este prometeu arranjar alguém hetero e que não tivesse a mania dos blogues para nos servir o resto da refeição.

Por altura do digestivo a mesa de buffet abriu-se em dois como o porão de um navio; deixando passar uma mesa de mistura a que se encontrava já sentado um tipo de bigode e com uns óculos enormes, que iniciou a delicada tarefa de encher de riscos diversos discos em vinil, de modo a produzir som para o chá dançante que se iniciou.

Talvez em homenagem ao espírito do concílio quase toda a música era dos anos oitenta; o que até nem era de admirar, atendendo à idade do disc-jockey e ao modelo dos óculos que usava.

A festa animou. A tal ponto que por volta do segundo gin & tonic, Sniper de Blog despiu a fantasia de arganaz (que lhe provocava uma suadela infernal com todo aquele pêlo) e assentando a mira sobre uma loura com cerca de trinta anos, deu um tiro certeiro que o colocou ao lado dela com o copo na mão e tudo. Entusiasmado por este primeiro sucesso, tirei a cartola e assumi a minha verdadeira identidade.

Mas aquilo tinha-se transformado num autêntico “Jamaica”. E estava tão cheio que quase não nos conseguíamos mexer do local, pelo que continuámos a conversar embora num tom altíssimo. Felizmente ainda não tinham conseguido tirar do bule a infeliz empregada do início do texto, e assim não havia ninguém que nos viesse tirar os copos à traição…

No meio de toda aquela dançariquice, ainda houve tempo para se chegar a acordo sobre as decisões deste concílio, que serão aplicadas a todos os blogs associados à nossa Fé com efectividade a partir de hoje, sendo algumas delas enunciadas de seguida:

- Todos os homens bons de cama passarão a ser apelidados de “Toni”; embora aconselhemos que tal se faça apenas na intimidade para não criar invejas desnecessárias.

- Sniper de Blog decidiu adoptar o cognome de “O Artilheiro da Fé” (cada tiro, cada melro) e se dedicará a espalhar a “Boa Palavra” bem como a angariar “novas vocações”, que terão que passar pelo seu exigente escrutínio.

- Vanus de Blog, fiel Ovelha guardiã dos valores de Blog e "Scrip Girl" das Divinas Produções, passará a auferir uma comparticipação pecuniária que lhe permita comprar suficientes joelheiras, bem como diverso equipamento desportivo necessário ao seu bom desempenho como sacerdotisa.

- Terapia de Blog, Arquichantre da Fé e depositário da “Música de Blog”, apesar da falta de tempo que o aflige, colaborará (tal como Sniper e Vanus) num projecto colectivo de compilação de todas as escrituras de Blog; a anunciar com a devida pompa e circunstância, assim que conseguirmos transformar aquele template horroroso numa obra de arte sacra.

(As outras decisões serão publicadas pelos restantes elementos presentes no concílio, para que toda a gente possa escrever um post à conta do assunto)

Foi o irmão Terapia (que não tinha chegado a tirar o seu lacinho de Lebre de Maio) que nos chamou a atenção – É tarde! É mesmo muito tarde! – Enquanto tentava ver as horas no relógio de pulso através do foco dos projectores estroboscópicos.

Peguei na mochila do Sniper de Blog (o nosso “artilheiro” guardara lá a fantasia de arganaz) e tentei localizá-lo e à loura no meio da multidão. Mas o meu sentido de orientação falhou-me, e de por mim a dar lume a um polícia que se encontrava no exterior; e que me confidenciou estar ali porque não conseguia aguentar mais do que duas músicas seguidas dos Human League.

Acabei por entrar novamente, desta vez para encontrar o Terapia que já cá viera fora duas vezes e não me vira; pelo que devia estar bastante preocupado com o meu desaparecimento.

Evitando alguns dançarinos mais exuberantes (mas não muito, pois eram quase todos da minha idade) lá consegui lobrigar Terapia e Vanus em acérrima disputa com a loira, que não queria largar o Sniper de Blog nem em troca de todas as relíquias (que são muitas e extensas) de Frei Fialho.

Mas finalmente conseguimos sair e encontrar a praça de táxis, onde nos despedimos com enormes abraços, beijos e “bacalhauzadas” distribuídos judiciosamente em conjunto com a promessa de repetir a dose; mas um pouco mais a norte na próxima vez.

E foi assim que decorreu o Primeiro Concílio da Igreja do Imaculado Blog (PCIIB). Agora desculpem-me que vou lavar os dentes novamente, pois continua tudo a saber-me a gin & tonic.

Música de Fundo
The Joker” – Steve Miller Band

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Tea With TheOldMan
- Onde se descobre que mesmo sem plano de viagem, lista de presenças ou provisões; um encontro é sempre um prazer, desde que sirva para levantar um qualquer véu -

Encontros de “blogues” e outros eventos quejandos nunca fizeram muito o meu género (já desde o primeiro, há uns anos na Universidade do Minho); normalmente comparo-os àquelas “Star Trek Conventions”, em que vai imensa gente com as orelhas do Mr. Spock ou com o traseiro da Lieutenant Uhura (ambos mais do que rodados por gerações de apreciadores).

Apesar de já ter jurado por todos os santinhos de Blog (que são muitos e marotos) que dificilmente me encontrariam num evento similar; decidi pôr momentaneamente de lado as minhas reservas e comparecer ao “1º Concílio Ecuménico de Blog” organizado por alguns fiéis que decidiram enviar-me um convite directo (é muito difícil um tipo fazer de conta que não repara num convite directo, especialmente se estiverem a olhar para ele) e quase irrecusável.

É assim que a Igreja do Imaculado Blog (IIB) irá ter este fim-de-semana uma presença discreta no “Mundo Analógico”, com vista a debater algumas das mais prementes dúvidas que afligem o espírito humano; como:

- Estaremos sós no universo ou apenas ninguém nos grama?...

- A consubstanciação após um almoço bem regado é realmente perigosa, ou trata-se de uma atoarda inventada pelos detractores da fé?

- Devemos perdoar aos nossos inimigos, ou apenas rirmo-nos deles?...

O concílio será seguido de um chá dançante ou não (dependendo da possibilidade de um dos misteriosos convidados ser na realidade a Soraia Chaves, tal como me assegurou por e-mail), aproveitando-se essa altura para travar conhecimento com os outros fiéis e trocar receitas de milagres e outras mezinhas.

No final será decidido se é ou não legítimo aproveitar o encontro para fazer render alguns posts (eu fui o único autorizado a publicar este post prévio), após o que todos recolherão a penates; mas apenas após a contagem final dos talheres.

Bom fim-de-semana e até segunda-feira…

Música de Fundo
Rock This Party” – Bob Sinclair

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Curta Declaração de um Amor Lamecha

Vinha aqui dizer o meu amor
mas desisti

Que sentido teria falar
de carinho
ou doces palavras sussurradas

Quando o que eu quero ouvir são os teus gritos
abafados
na suavidade de almofadas

E muito lentamente
apoderar-me assim de ti.

Música de Fundo
Bones” – The Killers


segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

O Mês do Amanhã
- Onde se tenta localizar geograficamente o amanhã (nitidamente sem qualquer sucesso) e se consegue concluir ser tal impossível, pois ainda é demasiado cedo para isso… -

É sabido o entusiasmo com que toda a gente gosta de mexer no calendário, e que se fosse permitido hoje estaríamos a 8 de Nivôse; ou 8 do mês dos tesos se levarmos em conta o calendário lusitano.

Tal como qualquer bolo-rei, o tempo foi dividido em fatias para que pudesse render um pouco mais e ser distribuído pelas tarefas a realizar. Ora uma coisa que se torna óbvia é a relevância do nome que se poderá dar alternativamente a uma fatia de bolo, pois seja este qual for, o tamanho e utilidade do objecto em causa não se modificam em função da designação.

Disse-vos há alguns dias que esta história de “fim de ano” não me convencia nem um pouco. Mas uma coisa é certa; apesar de eu não permitir que esse modo relativista de medir o tempo (fim disto, princípio daquilo) seja aplicado à minha actividade, as consequências da sua utilização por parte de outros acabam por me atingir de qualquer modo.

Janeiro é o mês de todos os atrasos. Desde os atrasos com pagamentos (“Foi uma altura complicada com ordenados e subsídios de natal; e agora bem vê!... Com isto do inventário e do fecho de contas do ano, antes de Fevereiro não se vai conseguir nada…”), aos atrasos na entrega dos trabalhos (“A humidade deu-me cabo da madeira das cofragens e aquela merda ficou toda às ondas; e ainda por cima o meu cunhado foi à noite para a 24 de Julho com a auto-betoneira, e apreenderam-ma numa operação stop”).

É por isso que a maioria considera Janeiro como o “mês do amanhã”, em que tudo fica para depois, mas com uma inquebrantável confiança depositada no futuro (um pouco como os cheques das cobranças); um mês que todos encaram como uma porta para o que há-de vir.

Um mês para cultivar o jardim da entropia, e sentir que o universo se começa a dobrar sobre si próprio, esvaziando-se como um balão.

Para mim é mesmo o mês do futuro. Tão mau, que sem ele o amanhã não teria sentido…

Música de Fundo
Zeit” – Tangerine Dream

sábado, 6 de janeiro de 2007

Apocalypto
- Mundos são destruídos diariamente. Mas a sua importância ou o dramatismo desse desaparecimento são apenas uma questão de perspectiva –

Os filmes de reconstituição são sempre uma armadilha. Para já, ninguém quer ficar mal na fotografia; e não raras vezes se vê um escandalizado (e muitas vezes “alegado) descendente a bater-se pela inocência de algum seu ancestral mais “estouvado”.

Sempre achei imensa piada aos Mayas (não à família de ciganos que mora perto da empresa, mas àqueles tipos que construíam pirâmides e usavam plumas de fazer inveja a qualquer transformista), mas nunca os tive na conta de vizinhos simpáticos e cordatos.

No fundo a opinião que tenho sobre eles, é a mesma que nutro pelos brasileiros que passaram a habitar o quarto andar lá do prédio. - “Adoro aquela cultura viva, o pitoresco da música e da linguagem; mas na verdade o que eu quero é que esses simpáticos filhos da puta deixem de incomodar toda a gente nas noites de Sábado e nos fins de mês”. – O que é até de uma lógica tortuosa, se levarmos em conta que ambos são oriundos da América do Sul.

Coisa pela qual os Mayas ficaram sobejamente conhecidos, foi pelos sacrifícios humanos. Embora estes não fossem tão dolorosos e prolongados, como aqueles com que o Engº Sócrates nos imola aos seus deuses; a técnica ficou famosíssima bem como a inesquecível frase - “A sério, pá! Estou a falar-te com o coração nas mãos…” – utilizada em qualquer “cantiga do bandido” desde o tempo dos descobrimentos.

Mas chega de conversa da treta.

Não sei o que o homem quis dizer com aquilo do filme mas a história é simples; e desta vez acho que conseguiu algo minimamente decente.

Há um mundo equilibrado mas frágil que um dia é abalado pelo medo, e os seus carrascos comportam-se com a arrogância e crueldade dos deuses que servem; escravizando os seus semelhantes e levando-os para a cidade do sacrifício, enquanto deixam atrás de si um rasto de destruição e morte.

Este tipo de abordagem ao problema, provocou inflamadas reacções por parte de uma enorme comunidade de indígenas, e que ameaçaram lavar a honra dos seus antepassados na barrela do tribunal. Ninguém diria que há cerca de cem anos, ainda alguns desses antepassados se sentavam pacificamente a mirrar cabeças de adversários à porta das suas cabanas.

Desta vez não houve grande reacção por parte da comunidade católica, pois o único membro do clero que aparece no filme fá-lo já no fim e imerso num saudável mutismo (o que nos leva a crer tratar-se de um falso clérigo).

O realizador foi acusado de inconsistência na decoração dos edifícios, e na mistura de estilos incompatíveis devido à disparidade de datas. Mas para a maioria dos espectadores (que segundo dizem são tão ignorantes e obtusos quanto eu) aquilo não poderá parecer mais Maya (embora o sumo-sacerdote tenha algumas inquietantes parecenças com o brasileiro do 4º).

Na verdade só gostei do filme por ter uma história simples. Os conquistadores de hoje são os conquistados de amanhã; e não podem nunca esperar mais misericórdia destes do que a que anteriormente concederam a outros.

É tão simples como quando W. Durant diz (na citação que inicia o filme) “Uma grande civilização não pode ser conquistada a partir do exterior, até que se comece a destruir a si própria a partir de dentro”. – Depois é só esperar que os conquistadores cheguem…

Música de Fundo
The Lamb Lies Down On Broadway” – Genesis

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Uma boa desculpa para esgalhar um Post
- Como se fosse preciso desculpa para "esgalhar" alguma coisa, mas está bem!... -

Incrivelmente, a segunda coisa que mais me apetecia hoje (a primeira já está “resolvida) era arranjar uma boa desculpa para não ter que puxar por “Joselito e sus Hermanos” (os meus neurónios criativos).

Obrigado, Maria-Árvore. Há uns dias, quando te disse que sabias como agradar a um homem, nem me passava pela cabeça vir a dizê-lo com uma expressão grata e ligeiramente cansada (hoje há muito trabalho); mas o teu aniversário de Blog apesar de ter sido ontem (Blog é grande e dá montes de “baldas) veio mesmo a calhar.

Sei que talvez não seja simpático da minha parte, tirar assim partido do facto de encontrares nessa posição mais vulnerável, mas eu agora guardo a simpatia para a “fase do cigarrinho”; e assim, não tens outro remédio senão levar com os parabéns, os votos de “conte muitos”, e ainda todas as felicitações que consigas aguentar (espero que sejam muitas).

Pela parte que me toca, acho que merecias mais. Mas os tempos andam maus, e a coisa que mais me falta (apesar de não ser aquilo que mais interessa ao “grande público) é tempo para vir aqui dar lustro ao blog.

Um muito feliz aniversário (com os “extras” todos, claro), e um beijo ainda maior.

Música de Fundo
I’m Too Sexy” – Right Said Fred


terça-feira, 2 de janeiro de 2007

O Letárgico Post de Início do Ano
- A habitual homilia sobre a esperança, o renascimento, a fé… e a dificuldade que há em conseguir dormir descansado durante o dia. –

Se há coisa que custe no início do ano, é acreditar que realmente algo começou, e que não se trata de uma farsa montada a meio de uma semana perfeitamente normal; com o objectivo de desorganizar um cronograma impecável que acabámos de delinear.

- É o novo ano que está aí, chefe! – Foi essa a saudação com que Miss Entropia me recebeu hoje de manhã, enquanto exibia mesmo abaixo do meu nariz, um “cachucho” composto por várias pérolas em redor de uma argola; que lhe girava à volta do dedo como a cavilha de uma granada artisticamente desenhada.

Fiz um trejeito entediado e bilioso como se estivesse prestes a declarar a minha indiferença pelo mundo – A minha vida é um martírio (declamado com a música do “Fado Mouraria). Até a Dona Maria do Carmo decidiu não ir ao terraço nesta passagem de ano. E eu e o Jorge que já tínhamos feito tantos preparativos…

- Deve ter sido uma grande contrariedade… - Ajuizou ela com ar pesaroso – Ainda me lembro quando vocês desaparafusaram o puxador da porta, e a pobre senhora ficou ao relento até chegarem os homens para arranjar o elevador.

- Foi uma sorte eles fazerem reparações em dias feriados – respondi – Como o marido não lhe deu pela falta, o mais certo seria descobrirem-na apenas lá para o início da Primavera; quando quisessem começar a utilizar o estendal. Com um bocado de sorte, talvez por essa altura estivesse mumificada como aquelas mulheres-a-dias chilenas do Canal Odisseia.

Então escreva um post – Propôs ela – Já o ano vai adiantado (estamos no dia 2) e você aí sem escrever nada, até parece aqueles tipos dos livros do Eça de Queirós, sempre cheios de “spleen” e biscoitos para o chá…

- Você deve estar a brincar! Já viu como estão as coisas lá fora? – Perguntei – Parei em três ou quatro blogs no caminho, e estou aqui que não me aguento de sono.

Miss Entropia, encarou-me com aquela inocência que só uma assistente administrativa consegue ostentar de modo convincente, e esbugalhando os olhos disse com uma entoação crítica – É pena que não tenha iniciado o ano na companhia de pessoas melhores. Agora em vez de estar aí ressacado como um Cardeal, talvez já tivesse alguma coisa escrita.

- Sabe, Entropia – Disse-lhe com ar sonhador – Você faz-me lembrar uma namorada que em tempos tive. Não fazia praticamente nada, mas fazia-o de modo tão cativante que ás vezes a olhava e até tinha a sensação que ela existia na realidade.

Música de Fundo
Wake Up” – Rage Against The Machine

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