segunda-feira, 30 de abril de 2007

Um Almoço em Família
- Porque a comunhão com a família é deveras importante … E também porque não se deve deixar estragar nada. –

- Mãeeeeee!... A avó já está pronta? – Gritaram os miúdos enquanto saltitavam em redor da mesa. A Dona Pureza saiu da cozinha limpando as mãos ao avental e ordenou, peremptoriamente. - Não estejam para aí a gritar, que o almoço está quase pronto. Vão já lavar as mãos que eu sei bem que têm estado a beliscar o tio Aniceto; assim estragam o apetite todo.

- Mas nós gostamos tanto do tio… - Disse o Cajó, lambendo os beiços deliciado – É estaladiço; e a mana diz que até parece leitão à Bairrada.

- A mãe sorriu embevecida; reflectindo para si própria – Meu pobre irmão… Eu sempre disse que toda aquela gordura não lhe iria fazer nada bem. Por alguma coisa só podemos comer duas fatias por semana; mas ali ao lado do paizinho no fumeiro até vai ganhando uma boa cor…

Vindo dos confins do sofá, um sonoro arroto atestou que o marido tinha já terminado a sua bejeca “para criar cama”. Após o que se levantou, e espreguiçando-se se dirigiu para a mesa – Então, hoje temos a tua mãe para almoçar? – Perguntou não muito interessado. – Se fosse a tua irmã Zézinha, ainda vá. Que eu sempre tive um fraquinho por ela; e imagino que tenha uns “secretos” deliciosos.

- Não digas isso em frente às crianças. – Pediu a esposa, pouco à vontade – Ou já te esqueceste da vergonha que foi na consoada passada, quando abusaste da prima Paula e tiveste uma indigestão. – após o que voltou para o seu “altar dos tachos”.

As crianças à mesa atiravam bolinhas de pão um ao outro, e tentavam ir petiscando às escondidas, sem que a mãe visse – Que é isso, seus diabretes? – Ralhou Pureza parada na ombreira da porta da sala, com a travessa da guarnição nos braços. – Estou farta de dizer para não mordiscarem os dedos da avó.

- Mas ó mãe… - Disse a Tânia – São tão bons… Até parecem os douradinhos do Capitão Iglo. Não é Cajó?... – Começando os dois de imediato a cantarolar o “jingle” da conhecida marca – “Capitãããoo Igloooo, Capitãããoo Iglooo…

- Calem-se, suas pestes! – Invectivou o “pater famílias” regressado da casa de banho – Nem se pode almoçar descansado a um domingo sem vos ter a gritar à volta. Vá! Para a mesa e depressa; senão corto-vos a sobremesa.

- A sobremesa, não! – Disse o Cajó – A mãe hoje fez Charlotte, e há muito tempo que não como…

- Mas que raio, Pureza. – Disse o homem – O teu primo lá por ter emigrado para França, escusava de pôr esses nomes esquisitos às miúdas.

Após o almoço durante o qual se teceram imensos elogios à avó, e ao modo como combinava bem com puré de batata; o marido mandou os miúdos brincar para a rua e chamando Pureza aparte disse-lhe – Agora que eles se piraram, anda cá que vamos fumar um bocadinho da mãe do Keith Richards que eu comprei ontem à noite na Damaia…

Música de Fundo
Saint Of Me” – Rolling Stones

sexta-feira, 27 de abril de 2007

A Importância de um Bom Feriado
- Mais uma a juntar ao enorme conjunto de benesses, que nos foram legadas pelo 25 de Abril –

Se perguntassem a um grupo de pessoas porque tanto apreciam o 25 de Abril, a maioria delas (se não estivessem a tentar passar por aquilo que não são) dir-vos-ia que é por ser feriado. E é exactamente essa a finalidade dos feriados; lembrar-nos que naquele dia e em tempos passados algo aconteceu, e que deverá ser lembrado.

Senão vejam lá quantas datas importantes são lembradas por todos, sem que para isso seja necessário haver feriado… Eu não me lembro de nenhuma. Mas de cada vez que gozo um feriado, vêm-me à ideia acontecimentos que directa ou indirectamente têm a ver com ele; e que eu não recordaria facilmente sem a valiosa “aide memoire” de um dia de descanso.

Esta quarta feira quando regressei da minha habitual “Volta a Almada em Bicicleta”, descobri que não me apetecia comemorar, por muito justa e abnegada que tivesse sido a actuação dos “Soldados de Abril”. Pura e simplesmente achei que comemorar apenas porque é o dia, iria equiparar as comemorações do 25 de Abril ás dos aniversários de casamento assinalados com uma ida ao restaurante seguida de uma queca insípida “para marcar o dia”.

Por isso em plena posse de todos os direitos que me foram garantidos pela “Revolução de Abril” decidi que não a iria comemorar, e pura e simplesmente aproveitar o dia como se fosse um homem verdadeiramente livre.

Ora segundo a minha opinião, um homem não é verdadeiramente livre enquanto não for capaz de encontrar facilmente as suas coisas no meio de uma casa desarrumada; e por isso decidi dar um jeito aos livros.

Todos os livros têm uma certa individualidade. Um cheiro característico; e mesmo recordações associadas que brotam do nada quando neles pegamos. E embora eu não tenha apego especial aos livros e manuais escolares, guardo porém os de leitura da instrução primária; bem como aquele com que a minha avó me ensinou a ler muitos anos atrás. – A “Cartilha Maternal de João de Deus”.

A “Cartilha” além de ter servido de apoio à minha iniciação no mundo das “coisas que ficam para o futuro”, acompanhava-me nessa altura para quase todo o lado. Pois se a minha avó ia à Rua dos Remédios comprar ovos à “Joana das galinhas”, era certo que me encontrariam sentado em cima de uma gaiola de madeira, de nariz metido no livro e a abanar as sandálias com um ar muito concentrado.

Após ela pagar as compras, eu metia o livro debaixo do braço e passávamos pela papelaria do Largo do Chafariz de Dentro, onde eu pedia um boletim de totobola que guardava entre as páginas para não se amarrotar; e mais tarde daria ao meu pai para que ele não perdesse a oportunidade de “ficar rico”.

Não me lembro do que tenha em especial acontecido no dia 22 de Setembro de 1963, mas aquele boletim nunca chegou ao seu destino. Ficando antes congelado no tempo entre duas páginas da “Cartilha” de um miúdo, que quarenta e quatro anos depois vem a descobrir uma inegável realidade. Por muito que os tempos sejam diferentes, já naquela altura não haviam equipas de jeito a disputar a Taça de Portugal.

Nota: A Revolução de Abril permite-me entre outras coisas, não ter escrito o post de quarta-feira, nem ter que pedir desculpa por isso. Ser livre é tão simples como isto: é não ter sequer que fingir que se é agradável …

Música de Fundo
Time” – Pink Floyd

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Vergonha é querer fazer campanha com a desgraça dos outros
- … e ser apanhado, claro –

Garanto-vos que sempre nutri um certo carinho para com o pequeno Luis (aquele “caçula” do PSD, que parece um boneco do “Contra-Informação"), embora esse sentimento me possa fazer parecer um pouco pedófilo.

Mas apesar do meu apreço pelo eclético “bodyboarder”, não me posso esquecer que acima de tudo ele é um “animal político”; e como tal, sujeito aos instintos e impulsos comuns a todos os seus coleguinhas. O que os faz muitas das vezes comportarem-se como aquela tia escanzelada e solteirona, que aparece nas festas de família sem ser convidada e só diz barbaridades; como se tivesse bebido um frasco inteiro de “Chanel Le Rouge”.

Talvez inspirado pelo sucesso alcançado pelo seu émulo “Paulinho das Feiras”, neste sábado pelas 17h decidiu enfiar a carapuça de “Luisinho das Misericórdias” e fazer uma visita ao Hospital de Estarreja acompanhado pelo Presidente da Câmara (que também é do partido); sem qualquer aviso ou pedido de autorização.

Enquanto se mantiveram pela área reservada ao público a coisa até nem correu mal. Mas quando decidiu enfiar-se pelas Urgências adentro (talvez com a finalidade de verificar se era igual ao que via nas séries do AXN), foram ambos barrados por um representante da Administração Hospitalar que lhes solicitou que saíssem.

Enchendo-se de brios, e esquecendo o incómodo que iria causar aos utentes que ali tentavam não morrer demasiado depressa; acusou na televisão o Conselho de Administração do hospital de “falta de respeito”.

Marques Mendes deveria antes de ter armado em “paulinho”, ter pensado em duas coisas muito importantes:

A primeira seria a famosa frase do actual Presidente da República, seu antecessor na direcção do PSD – “Deixem-nos trabalhar!...

A segunda seria que pelo facto de ter sido o PSD o primeiro partido tecnocrata em Portugal, era sua obrigação “compreender” que os técnicos é que sabem o que é melhor para o funcionamento de qualquer sistema que não seja político. E que os políticos só se devem exibir onde não atrapalhem quem tenta trabalhar.

Isto já não contando com o respeito devido às pessoas que sofrem nos corredores das Urgências de qualquer hospital deste país. Mas isso é apenas uma questão de educação…

Música de Fundo
Give The Kid A Break” – Alice Cooper

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Cantiga de acordar à chuva

Se eu não soubesse,
riria
com gosto
desta chuva que cai no rosto frio da cidade.

Se eu não soubesse que esta minha
alegria
a Primavera tua atrasaria…

Música de Fundo
Something Got Me Started” – Simply Red

quarta-feira, 18 de abril de 2007

A Transmigração de José Estaline
- Um elogio fúnebre -

Ontem pela manhã quando entrei no gabinete encontrei José Estaline deitado de borco, entretido a representar os estertores da morte em estilo Kabuki, para duas moscas que se encontravam pousadas no tampo de vidro do aquário.

Aproximei-me, com o respeito devido a este “Carassius Auratus” que me acompanhou por cerca de quatro anos sem um único gesto de impaciência ou mau humor.

Ele contemplou-me com aquela expressão enjoada que sempre me fez lembrar a Catherine Deneuve (a verdadeira e não o tipo da peruca), e agitou a barbatana caudal pela última vez; ficando para ali a justificar a expressão idiomática - “cold fish”.

Tinha terminado a sua estadia entre nós.

Enquanto preparava a minha primeira chávena de café, recordei um pouco do que tinha sido a sua acidentada existência; desde o dia em que mo tinham trazido dentro de um pequeno saco plástico cheio de água. Aquele momento mágico em que ao olhá-lo, tinha reparado no aspecto bexigoso e sinistro que lhe valera o nome.

Estaline não era um “carassius” qualquer. Era um manhoso filho da mãe, que parecia guardar segredos inimagináveis por detrás daquela fachada sardónica de mafioso empedernido.

A certa altura apresentei-lhe duas fêmeas. E por tendência literária mudei-lhe o nome para Henry, já que as fêmeas se chamavam June e Anaïs respectivamente. Tendo estas sido compradas na “pet shop” do bairro amarelo; que na época era dirigida por uma estranha personagem, com a cara cheia de argolas e rebites como se fosse a proa do couraçado Bismark.

Não duraram muito. Pois foram vítimas de um fungo esbranquiçado, que em dois dias alastrou como vegetação alienígena; enviando-as a toda a velocidade para o céu dos peixes, através do mítico túnel de porcelana.

Estaline recuperou o seu nome inicial, e a partir daí encarou uma existência solitária; em que a única companhia além de mim, era o power ranger azul que eu colocara dentro do aquário, numa posição em que imitava o Pensador de Rodin. Nunca lhe ouvi um protesto ou uma palavra amarga (não ao power ranger, claro; esse é um boneco).

Acabei de beber o café e observei-o novamente. Apesar de morto, ainda se mexia mais do que algumas mulheres com quem eu tive sexo. Talvez fosse por causa da bomba eléctrica que fazia circular a água…

Meti a mão no aquário, e pegando-lhe cuidadosamente coloquei o seu corpo frio e inerte sobre uma folha de “Navigator 80gr”. Peguei no leitor de MP3 que acoplei a uma porta USB do PC e liguei as colunas.

Ao som de “Mandelay Song” (a sua música favorita), transportei-o até ao túnel de porcelana para a última jornada. E enquanto soavam os últimos acordes, premi o botão do Kariba 2002 que o impulsionou até Cacilhas; fazendo mentalmente votos para que Caronte o transportasse em segurança através da ETAR, em direcção às verdejantes pastagens submersas do Mar da Palha.

Dasvidanya, José Estaline. Durak neshtiasnyI

Música de Fundo
Mandelay Song” - Flying Lizards

segunda-feira, 16 de abril de 2007



A Igreja do Imaculado Blog
- O Post Sagração da Primavera -

Irmãos! Estava eu este domingo a meio da minha sacramental torrada, quando me senti iluminado por Blog.

Coloquei de imediato os óculos escuros. E enquanto contemplava os folguedos das crianças e dos pares de namorados que pululam naquele jardim, deixei germinar dentro de mim a semente de mais um projecto literário.

Como sabem, Blog é o Deus dos projectos literários. Mas o segredo da coisa é mostrar-lhe o projecto e nunca o resultado; ou acabamos por vê-lo publicado noutro sítio, apenas com a morfologia um pouco alterada.

Dizia eu que a coisa germinava; e a tal ponto que devia notar-se. Pois ainda me endereçaram um daqueles sorrisos tipo - “seu malandro…” – o que me fez arrepiar a pele das pernas, mesmo abaixo dos calções (o que se confundiria facilmente com frio, pois era cedo na manhã).

Lembrei-me que apesar de toda aquela germinação, o mais certo seria perder a paciência a meio; pois quanto mais o tempo melhora, mais a Primavera me puxa para a preguiça e a “rebaixolice”.

Por isso, antes que eu perca a embalagem aqui vai a sinopse…

- “Uma História de Susexo” -

O nome do personagem não é importante. Se quisermos poderá chamar-se Joaquim Chicharro, o que é até é bastante folclórico e português de gema “comme il faut”.

Ora Joaquim trabalhava como “segurança” nocturno. O que lhe dava oportunidade para se dedicar ao seu passatempo que era a escrita de contos eróticos; onde vazava as suas experiências como frequentador de bares de alterne e alfurjas que tais.

À semelhança da maioria dos que escrevem, nunca tinha publicado. Embora no seu caso, fosse mais por os editores não considerarem que as lucubrações eróticas de um tipo vulgar pudessem interessassem aos outros tipos vulgares; cujas sensibilidades já se deveriam encontrar embotadas, por milhares de filmes eróticos de argumento estrambólico, bem como pelas “revistas da especialidade”.

Mas tal como ele não se cansava de repetir – “Um Chicharro (nome de família) nunca desiste; pode é perder a maré…” – persistindo incansavelmente na sua pesquisa literária, através da consulta dos canais codificados da TV Cabo.

Um dia em que se encontrava num dos seus habituais “poisos” nocturnos. Ouviu uma das funcionárias da casa contar pormenorizadamente a outra, como tinha ganho a bela pulseira que ostentava no pulso direito além da “tarifa” habitual, naturalmente. E ao contrário da sua última “pesquisa”, esse relato excitou-o de sobremaneira (pelo que ignorando discretamente o que se passou a seguir, faremos transição para o quadro seguinte).

Mais tarde em sua casa e já deitado, analisou demoradamente o que tinha ouvido em busca da “faísca” que lhe provocara aquela inesperada reacção; infrutiferamente. Pois acabou por adormecer durante a emissão de “My Naughty Granny III”. Mas o cérebro é um órgão admirável, que aproveita a dormência do corpo para resolver à sua maneira a maioria das questões que lhe propõem.

Acordou completamente revigorado. E quando se sentou na cama a solução saltou à sua frente como fatias de pão de uma torradeira. – “Era uma gaja, pá! Era uma gaja a contar a história…" - Pensou.

Nesse dia não foi trabalhar.

Pegou no seu último texto “Um Stripper no País das Quarentonas”, e mudando-lhe o título para “O Que Eles Querem Sei Eu… - Relatos de uma de vida difícil” embrenhou-se num frenesi criativo, que só interrompeu para fazer pelo telefone uma encomenda de “chicken masala”; que lhe deu forças para terminar o primeiro manuscrito.

Os colegas a quem o emprestou (ostentando ainda algumas gordurosas nódoas) para lerem durante o serviço, disseram-lhe que nunca tinham lido nada assim, que era melhor que o “Anal Intruder VII”, e outros elogios do género; que o fizeram inchar de orgulho, e arriscar-se a enviar o texto para uma editora sob o pseudónimo de “Nucha Cinchilla”.

O primeiro livro foi um tal êxito de vendas, que contratou uma jovem professora desempregada para se fazer passar Nucha Chinchila, e assumir na festa de lançamento do segundo volume, a identidade da escritora-protagonista.

A partir daí não mais parou. Comprou um laptop e deu largas à sua imaginação no feminino, escrevendo quase ininterruptamente. Sempre fechado no pequeno escritório que alugara, e de onde dirigia uma agência de “acompanhantes”; fundada com os lucros da sua arte.

Era finalmente um Cachucho de sucesso no mundo das letras. Abriu um blog e preparou-se para uma avalanche de clientes.

Música de Fundo
Black Hole Sun” – Soundgarden

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Em “Pratos Limpos”
“… o partido a quem devo os meus mandatos…”
(Dr.ª Odete Santos, despedindo-se na Assembleia da República a 12/04/2007)

É na despedida que a palavra é mais autêntica.
Finalmente os deputados do PCP deixaram de dever os seus mandatos ao povo.

Há que bem esclarecer quem deve e a quem; pois tarde ou cedo todas as dívidas têm que ser pagas.

Bom fim-de-semana!

Música de Fundo
“Há dias em que mais vale…”Adriano Correia de Oliveira

quarta-feira, 11 de abril de 2007

O Segredo do meu Sucesso Amoroso
- O percurso de um tipo que veio para a blogosfera em busca de “febra”, arriscando-se a passar a maior parte do seu tempo a “salada”… -

Ok! Confesso. Sou um porco depravado, insensível e bruto (mas tomo banhinho todos os dias). E tenho andado enganado durante os últimos quatro anos.

Quando apareci por estes lados, era um pobre velho sensível, de alma poética e amigo de toda a gente. Mas nada disso me proporcionou as benesses que se prometem nas sagradas escrituras a todos os fiéis; tal como virgens (ou mesmo só um bocadinho usadas, podia ser) no Jardim das Delícias e carradas de hidromel à borla.

Cheguei mesmo a acalentar a ideia de me proclamar publicamente lésbica (dizem elas a quem as queira ouvir, que são os seres mais sensíveis que existem) e dedicar-me à poesia sáfica, adoptando o pseudónimo teológico de Maria.

Mas aí ia tendo azar, pois devido ao grande êxito que elas têm no meio hetero, durante um tempo fartei-me de apagar mails de gandulos que me queriam “converter”.

Voltei ao princípio. Era sensível mas não era lésbico. O que era uma pena pois até é uma actividade em crescimento, e já ninguém utiliza para com elas aqueles insultos soezes. Sendo pois uma postura óptima para atrair gajas a um blog.

Mas elas não vinham. Seria porque mesmo assim não era suficientemente sensível (é que ele há lésbicas muito másculas)?

Encetei então a fase poética (embora não-sáfica), em que a minha alma sensível se “espreguiçava preguiçosamente” ao sol da manhã cada vez que abriam o blog. A minha vida era um eterno campo de margaridas… Mas também não deu.

Além da puta da alergia que ainda não me largou, as mulheres que apareciam eram etéreas como fadas, tornando dificílimo encontrar algo de jeito no meio daquela confusão de tules e sedas. Soube mais tarde que realmente não havia nada debaixo daquilo. Sendo como o cenário de um velho Western em que a cidade é apenas uma fachada amparada por barrotes.

Desfiz-me então das margaridas e decidi assumir a minha animalidade. Proclamando alto e bom som a minha condição de “gajo das obras”.

Ao princípio a coisa foi um bocado difícil. Pois não basta acompanhar com mecânicos para ficar apto a desempanar camiões; é também preciso “sujar as mãos” (get down and dirty).

O que me custou mais foi ter que abdicar dos preliminares, que como toda a gente erradamente pensa não têm utilidade alguma e apenas servem para disfarçar pequenas falhas ou atrasos no “arranque dos reactores”; quando o que se espera de um tipo é apenas que “arranque por ali adentro” e agite as coisas.

Tive que desaprender imensa coisa, como por exemplo essa treta da preocupação com o prazer da parceira (que coitada só quer que a deixem curtir egoisticamente em paz e sossego), bem como o “momento de intimidade” em que se fuma após o “grand finale”.

Neste último caso a maioria das mulheres agradeceria imenso se não lhes quebrassem o fio aos pensamentos (a maior parte delas nessa altura ainda está a tentar concentrar-se naquele gajo que é “um pão” e trabalha lá no escritório), bastando para tal que nos viremos para o lado, adormecendo de seguida.

Foi um caminho longo para percorrer; mas agora finalmente estou na posse da maioria dos segredos e truques para uma “comunicação inter-pessoal” mais efectiva e virada para resultados gratificantes.

Consistindo pois numa capa poética e de nuances quase oníricas, que chegada a “hora da verdade” se despe e atira para o chão como umas vulgares cuecas, deixando à vista aquilo que realmente interessa: o verdadeiro eu de cada homem (após fundido, moldado e endurecido) que apenas existe para um fim: agitar isso tudo até que os sinos dobrem.

(Este momento publicitário é totalmente estranho à linha editorial deste blog, tendo apenas sido publicado porque o autor continua com um enorme ataque de preguiça)

Música de Fundo
Shake Well Before Opening” - Black Grape

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Back home for Easter
- Relato de uma viagem confusa, incomodativa, insólita e com areia sempre a meter-se em tudo o que é sítio… -

Conforme proposta minha, o Larousse passará a indicar que cosmopolita será alguém que consiga encontrar uma sandes mista em Orly à uma da manhã.

Tirando esta anterior frase, nada existe digno de nota que se tenha passado em terras de França, durante a minha curta estadia enquanto aguardava voo para a Argélia. Vi passar frente a mim toda a margem esquerda do Sena e os seus bistros com balcão em zinco (de mármore após a ocupação), os poetas, o Louvre e os urinóis públicos. Nada disso me deu gozo algum pois eram fotografias em cartazes.

Conforme o que se queira ver tem que levar-se os olhos “certos”. E esses, tinha-os deixado cá.

Após ter conseguido dormir numa sala de espera acompanhado por cerca de duzentos desconhecidos, nada seria mais justo que apanhar o avião “à tabela”. E consegui-o! Allah existe. Pelo menos para os que percorrem a estrada para Meca (não seria bem o meu caso, mas nestas coisas da religião faz-se sempre um desconto).

Com base no exemplo de meu amo na jornada anterior (em que a sua bagagem encetou uma viagem à volta do mundo, que ainda não terminou) levei um máximo de bolsos e um mínimo de bagagem. Tal como eu disse ao tipo bigodudo da alfândega – “Se quiserem perder-me a bagagem, terão que se desfazer de mim” – afirmação da qual me arrependi imediatamente; porque o tipo lançou-me um olhar avaliador como se estivesse a calcular quantos selos seriam necessários para me enviar até Timbuktu.

No exterior Oran bafejou-me com o seu sopro seco, aquele ventinho embirrante com areia à mistura que se mete em tudo; mesmo no imaginário do deserto.

Transformei o meu blusão em saco (apenas uma questão de troca de fechos), e enquanto meu amo se dirigia ao balcão para participar mais um desaparecimento, aproveitei para discretamente fazer algumas perguntas ao motorista.

Fiquei logo ciente de que a sua opinião sobre a Legião Estrangeira e os assuntos com ela relacionados, não seria tão romântica quanto a minha. O que acabou com a ideia de visitar o quartel de Sidi-Bel-Abbès, e arrumou de vez todos os meu projectos de imaginário; sem os quais a minha estadia se iria passar numa espécie de Baixo-Alentejo mas cheio de Árabes.

Podia ser pior…

Curiosamente o endereço do Hotel Senoucia era, “Salamandre, 27”. Mais estranho do que o alojamento na “Rua da Salamandra”, foi terem-me garantido que o meridiano de Greenwich passava pelo meio do meu quarto (O que até seria fácil de acreditar, se eu não tivesse sido obrigado a adiantar o meu relógio no aeroporto). Resta-me acrescentar que nesta viagem foi a única coisa que passou por lá (pois…); porque apesar do ambiente calmo, não me pareceu que a Argélia fosse país que visse com bons olhos alguma “iniciativa antropológica” da minha parte.

Mais tarde fiquei a saber por Mlle. Hayda, que a tal linha passava uns quilómetros ao lado, na auto-estrada Mostaganem/Oran.

O resto da visita passou-se um pouco como as viagens à extinta União Soviética nos anos setenta. Visitas dirigidas por um guia/motorista (para garantir a nossa segurança) aos pontos mais importantes (e eu apenas com um telemóvel ranhoso para tirar fotos) da região, e total liberdade de acção no interior do perímetro fabril (Fornaka é apenas uma enorme zona industrial).

Após poucos dias de uma culinária levemente aportuguesada e “montes” de TV satélite (foi-nos dito ser “desaconselhável” sair à noite), fiz uma birra e insisti em que me deixassem ver algo que fosse diferente daquela espécie de “Quimigal das Arábias”; ao que acederam com imensos resmungos e olhares rancorosos.

Tive pois direito a um pequeno “tour” pelas armadilhas turísticas mais conhecidas lá da zona. Com direito a dança do ventre (que nem sequer é oriunda dali), couscous, e visita aos túmulos dos heróis da guerra da independência.

Na Sexta-feira (o fim de semana lá do sítio), um grupo de portugueses cheios de inveja veio despedir-se de mim ao aeroporto. Desapertei os “zippers” ao saco de viagem transformando-o de novo em blusão; e olhando pela janela do Avião pensei que era uma pena não ter conseguido tirar fotografias de jeito.

Logo a única que se aproveitou, parece que foi tirada nos arredores de Odemira…

Música de Fundo
Candyman” – Christina Aguilera

segunda-feira, 2 de abril de 2007

(O segmento que se segue foi propositadamente postado no dia 2, para atestar a sua boa veracidade)

É com lua cheia que parto para Fournaka. Quase de surpresa; mas a teatralidade tem os seus encantos.

Estarei de volta lá para a Páscoa.

Beijos e abraços a todos.

Música de Fundo
Step it Up” – Stereo MC’s

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