sexta-feira, 29 de junho de 2007

A Igreja do Imaculado Blog
- A banhos com o Apóstolo -

Um vento fraco fazia drapejar a lona dos abrigos multicores espalhados pelas areias do Mar de Blog.

O Apóstolo parou, e com o “dedão” do pé direito empurrou uma pequena concha que rolou pela vaza; baixando-se de seguida para a apanhar. – Estás a ver esta merda? – Perguntou num tom levemente indignado. – Quando eu era puto bastava arrastar os pés pela areia para apanhar um monte de cadelinhas.

Não lhe respondi logo, pois estava imerso em considerações estatísticas sobre a média das mulheres que andam pela praia a ajeitar sistematicamente a parte inferior do bikini; encontrando-me nesse momento em atenta análise de um “case study” que circulava a cerca de dez metros.

– Sim… Deliciosas cadelinhas… - Respondi um pouco ao acaso, acabando por retomar o fio à meada – Mas sabes bem que isso da cadelinha “à babugem” é um mito como o das santolas da Trafaria. Eu só tenho menos sete anos que tu, e na minha altura isto já era um depósito de conchas vazias.

- Mas eu lembro-me, pá! – insistiu – nasci aqui e lembro-me que antigamente vínhamos à praia apanhar cadelinhas, e fazíamos depois umas belas patuscadas.

- Pois a minha melhor recordação dessa altura era o teatro D. Roberto – Respondi eu, sentindo um sorriso involuntário avançar inexoravelmente em direcção às minhas orelhas – Apesar de ser sempre o mesmo argumento, eu nunca me cansava de ver aquilo. Ainda consigo ouvir a discussão entre os fantoches, e o som nítido dos cacetes a baterem nas cabeças de madeira. Uma vez o tipo conseguiu surpreender-nos no fim do espectáculo; quando veio agradecer cá fora (e fazer o peditório, claro) trazia um olho pintado de roxo como se tivesse “levado” também…

- Pois – atalhou o Apóstolo que nisto de reminiscências é muito pragmático – Hás-de escrever isso no blog, que até fica bem. Mas eu tenho a certeza que aí por meados de 63 isto estava cheio de cadelinhas. Lembro-me, pá! Juro!...

O sol ia já alto, e os aromas de iodo e sal que pairavam no ar começavam já a fazer efeito sobre o nosso apetite; considerei eu. – E se fossemos ao “Camões” mandar abaixo uma dose de cadelinhas ou amêijoas?... – Perguntei ao Apóstolo – Têm é que ser bivalves. Que essas merdas de camarões e gambas, sabem quase sempre a pescada congelada

- Boa! – Concordou ele entusiasmado - Pelo caminho podemos ouvir uma colectânea de músicas do Adamo, que saquei ontem da net e passei para CD. Se quiseres até posso fazer-te uma cópia…

Contei mentalmente até dez missionários; e disfarçando um pequeno suspiro perguntei – Eu sei que quando morrer vou direitinho para o inferno. Mas é mesmo necessário antecipar a coisa?...

Música de Fundo
Watch The Tapes” – LCD Sound System

sábado, 23 de junho de 2007

A Igreja do Imaculado Blog
(O Decálogo dos Comediantes)
- Onde a segunda tábua das leis divinas, partida acidentalmente por Mel Brooks durante a rodagem de “History of The World: Part I”, é milagrosamente recuperada e patente aos fiéis para que estes não se entrechoquem nas rotundas –

Irmãos! Como qualquer bom cinéfilo sabe, de início os mandamentos divinos eram vinte. Mas devido a falta de jeito e antes de serem apresentados ao povo eleito, o comediante que os transportava deixou cair uma das tábuas que se quebrou; facilitando assim a vida às gerações vindouras que ficaram com apenas metade das limitações para cumprir.

Mas ninguém pode dizer que está bem. Aparentemente o Deus dos católicos tomou consciência do percalço e seguindo a metodologia de qualquer sistema governativo, acabou por resolver o problema cerca de dois mil e tal anos depois; embora para sermos justos, tenhamos que considerar esta demora como sendo da responsabilidade dos seus funcionários.

Cerca de dia 19 o Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes (CPPMI) deu à luz os «10 Mandamentos» da Estrada, manifestando a preocupação da Santa Sé pelos milhões de fiéis que “vão desta para melhor” (esta preocupação é causada pelos resultados de uma recente sondagem em que ficou provado que os piores condutores seriam os católicos).

Com uma confrangedora falta de originalidade, o primeiro desses "mandamentos" (ou 11º…) é o famoso "não matarás", que aparece talvez devido a gralha tipográfica; pois como todos sabemos se trata já de uma repetição desnecessária.

Comentando o 5.º (ou 15º) ponto do "decálogo do condutor" - O automóvel não seja para ti expressão de poder, de domínio e ocasião de pecado - o Cardeal Renato Martino pediu que sejam evitadas atitudes como "ultrapassagens perigosas", as quais dão oportunidade "a falta de cortesia, gestos indelicados, insultos e blasfémias".

A utilização da estrada – Continua Sua Eminência - pode ajudar a exercer "virtudes cristãs", como "a prudência, a paciência e a caridade". O documento recomenda ainda que cada viagem seja iniciada com o sinal da cruz, colocando os passageiros sob "a protecção da Santíssima Trindade"; o que nos leva a crer constituir este documento um sério revés para a indústria de seguros, que assim vê o seu monopólio ameaçado pela famosa tríade da cristandade.

Desta vez o Vaticano deixou de lado as questões estritamente teológicas, para se imiscuir no código da estrada; deixando aberto o precedente para possíveis intervenções em outras áreas como a “metodologia da fabricação de moldes em poliuretano injectado, e sua aplicação na produção de imagens de Santa Teresinha” ou “preceitos para uma boa aplicação de clisteres colónicos com café, chá ou mesmo ‘capuccino’”.

A IIB acredita piamente que esta segunda dose de mandamentos não será tão bem recebida quanto a primeira, pois além de vir atrasada dois mil e tal anos, vai cercear boa parte da pouca liberdade que ainda restava aos adoradores da cruz.

Sim, porque se vão dizer aos fiéis – “Não guiarás sob influência do álcool. Respeitarás os limites de velocidade. Não considerarás o carro como objecto de glorificação pessoal nem o usarás como local de pecado.” – Então afinal para que vai servir o automóvel?

Após esta angustiante interrogação, resta-me deixar-vos com o texto integral da segunda tábua dos mandamentos, para que possais reflectir e quiçá soltar umas boas gargalhadas:


DECÁLOGO DOS CONDUTORES

I.- Não matarás

II. - A estrada seja para ti um instrumento de comunhão, não de danos mortais

III. - Cortesia, correcção e prudência ajudar-te-ão

IV. - Sê caridoso e ajuda o próximo em necessidade, especialmente se for vítima de um acidente

V. - O automóvel não seja para ti expressão de poder, de domínio e ocasião de pecado

VI. - Convence os jovens e os menos jovens a não conduzirem quando não estão em condições de o fazer

VII. - Apoia as famílias das vítimas dos acidentes

VIII. - Procura conciliar a vítima e o automobilista agressor, para que possam viver a experiência libertadora do perdão

IX. - Na estrada, tutela a parte mais fraca

X. - Sente-te responsável pelos outros

Música de Fundo
Good Times Roll” – The Cars

segunda-feira, 18 de junho de 2007

A Tenebrosa Conspiração

- Não é justo, pá! – Clamava o Apóstolo enquanto eu dava “tratos à bola” – Logo agora que começou a época balnear dos colégios, tinha que começar a chover. Coitadinhos dos miúdos…

Por breves momentos pensei que seria uma boa ideia ironizar com a chuva, as criancinhas que não vão ao banho e as monitoras que não se despem. Mas olhei um pouco mais atentamente, e reparei que as monitoras não valiam o sacrifício.

- E se escrevesses sobre os pombos?... – Continuou ele com a melhor das intenções – Sobre aqueles que mesmo tendo asas escolheram ficar, acompanhando-nos nesta prisão que são as cidades…

- Ó Zé António, por favor tem pena de mim – Respondi eu, tentando elevar a voz sobre o ruído do trânsito da rotunda – O que já escrevi sobre os pombos da praça dava para encher um tratado de columbofilia; achas que vou chatear as pessoas com a história do pombo perneta que me vem pedir migalhas ao domingo? Eles querem é romance, sexo, violência… E os que não querem, contentam-se com sexo e violência.

Mas tens que escrever alguma coisa, pá! – Insistiu o Apóstolo quase a chegar ao mesmo tom de voz do Grilo Falante – tens uma respons…

- Claro que não tenho! – Atalhei cerce – Estou de férias e a minha única responsabilidade acrescida, é ter que obter um bronzeado decente que me transforme numa espécie de “Silver Surfer” da Praia do Castelo (ou lá como se chama aquilo). De resto, só me apetece escrever sobre coisas esquisitas.

- “Não olhem para mim…” - Cantarolou uma voz vinda do televisor, que se encontrava sobre as nossas cabeças.

Seguindo o princípio básico da Psicologia Invertida, ele começou a virar-se; coisa que logo impedi segurando-o pelo ombro. - Estás a ver? – Perguntei – Era disto que te estava a falar.

- Agora imagina… - Continuei – uma raça de alienígenas com capacidades metamórficas, que se tendo infiltrado na indústria do entretenimento e comunicação social, utilizariam o estratagema de fazer com que olhássemos fixamente os receptores de televisão para se poderem apoderar da nossa vontade e controlar assim os nossos corpos…

- Era uma bela história. – Considerou o Apóstolo – E ainda bem que era apenas o Roberto Leal. Mas agora que falas nisso… Há na televisão um gajo sobre o qual eu não tenho dúvida alguma que seja extraterrestre. No mínimo! – Baixou a voz até um tom conspiratório e prosseguiu – O Dr. Phil. Aquele careca que dá uns conselhos muito apaneleirados no programa da Oprah. O tipo é mesmo abjecto…

- Abjecto?... Ok, Zé António. Já que me vais dar o mesmo discurso que fizeste sobre a Manuela Ferreira Leite, ao menos pede ao Santos que traga mais dois “Gin & Tonic”.

Música de Fundo
Wish Upon a Dog Star” – Satellite Party

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Nem a saír de férias me perdoam
- Mas como amanhã não vou fazer nada de útil para a "sociedade", tábem... -

O Karl Macx que não pode ver ninguém a ir de férias, sem sentir uma irreprimível vontade de atrapalhar; cravou-me para este teste (ou lá o que o possa ser) ao qual não me negarei, mas que também não passo. Não porque seja contra (embora seja) mas porque acho que já existe bastante desgraça no mundo, para que esteja a incomodá-lo com mais um monte de opiniões inúteis (como esta).

***** O Teste (ou isso) própriamente dito *****

Eu quero: que o povo tenha juizo. Cresça e apareça.

Eu tenho: às minhas costas um monte de parasitas aos quais chamam "aparelho de estado".

Eu acho: que neste país todos acham e a maioria perde (há aqui um problema de saldo)

Eu odeio: pessoas que fraudulentamente se gabam de fazer bom sexo oral (quase tanto quanto a voz da Júlia Pinheiro)

Eu sinto saudades: do bacalhau a pataco e do "18 de Alcântara" (duas comodidades das quais nunca beneficiei)

Eu escuto: mas à hora a que o faço, pouca gente fala.

Eu cheiro: e só depois saboreio (nunca se sabe...)

Eu imploro: mas não vos vou dizer onde é preciso morderem-me para que o faça

Eu procuro: a "Weekend Sex" nº 35 de 1972 (só me falta essa)

Eu arrependo-me: de ser contra a pena de morte, se houver alguém a chatear-me mortalmente

Eu amo: o mesmo que o Pedro Miguel Ramos (montes de coisas inúteis)

Eu sinto dor: se me distrair a fechar as calças

Eu sinto falta: de muito "calor humano"

Eu importo-me: mas não pago taxas aduaneiras

Eu sempre: disse que não devemos ser categóricos

Eu não fico: a não ser que me convidem

Eu acredito: desde que mo digam com voz suave

Eu danço: especialmente se me derem música

Eu canto: mas baixinho...

Eu choro: quando vejo um poster com gatinhos

Eu falho: mas normalmente logo me avisam de que me enganei

Eu luto: com a inércia cada vez que tenho que responder a um questionário enorme

Eu escrevo: mas raras vezes as ponho no correio

Eu ganho: quando não penso em perder

Eu perco: se pensar que estou com sorte

Eu nunca: digo nunca excepto hoje

Eu confundo-me: com o Pedro Abrunhosa se usar uns óculos escuros

Eu estou: sentado na beira da cadeira

Eu sou: fofinho

Eu fico feliz: e às vezes ronrono

Eu tenho esperança: só não sei em quê...

Eu preciso: de férias

Eu deveria: passar esta corrente a alguém... mas não acredito na desgraça partilhada.

Música de Fundo
She Builds Quick Machines” – Velvet Revolver

segunda-feira, 11 de junho de 2007

SAF2007 – The Deathmatch
- O Síndroma de Aproximação de Férias e as suas manifestações sociais… -

Os últimos dias têm passado por mim como a paisagem pelas janelas de um comboio.

Comboio esse que ontem finalmente chegou ao “terminal” de meu amo, ali para os lados de Palmela (mesmo a meio do deserto). Sim, que ontem foi mais um daqueles históricos aniversários em que tudo acontece, inclusive o que eu considero “material para post”.

Desta vez ele veio receber-nos à entrada vestido como se fosse para uma “batalha de Hip-Hop”.

Calções negros da Nike, camisola de cavas preta com o número 5 e um lenço de cabeça negro e de ramagens escuras compunham este personagem; que tanto podia ser um EMINEM atacado de senilidade precoce ou (devido ao proeminente estômago) uma gótica prestes a dar à luz.

Eu não escrevo crónica social, por isso não me vou preocupar com pormenores comezinhos, como por exemplo se a loura ainda continua a semear a inquietação no seio das “bem-casadas”; aliás como a passagem do tempo esse tipo de coisas perde a actualidade. Não só com a passagem do tempo mas igualmente com a ajuda de uns “pés-de-galinha” e umas banhitas a mais.

Uma das sensações deste ano foi a “mocinha dos croquetes” que captou uma boa percentagem da atenção (que até nem é muita) do meu puto, pois passeava-se em bikini sobre uns patins em linha e com a travessa dos referidos fritos por entre os convidados.

Apesar das horríveis pragas que a Dr.ª Inês me possa lançar, fiz uma considerável razia nas rodelas de “calamares”, constatando lucidamente (ainda não tinha bebido nada) que quanto ao resto estava totalmente fora da corrida – Não só o pai dela era mais novo e forte que eu; como também não ficaria bem pôr-me a fazer concorrência ao meu próprio “rebento”.

Aqui para nós isto trata-se apenas de um “exagero literário”, porque na verdade ela ainda se encontrava numa faixa etária que mal aparece nas estatísticas.

Mas adiante.

Se eu tivesse tempo, sem dúvida que conseguiria lembrar-me de pormenores maravilhosos sobre alguns dos convidados. Mas estava com tanta vontade de os aturar como de escrever este post a uma segunda-feira. Por isso eu e o “N” sentámo-nos encostados ao moinho, que no meio do relvado dá a todo o recinto juntamente com os anões de loiça, o aspecto de um mini-golf algarvio; e enrolámos um brelaite.

A “bem-dezer” até que foram mais. Pois o pessoal de faro mais apurado começou a “chegar-se”; e passado algum tempo aquela zona vista de longe, dava a ilusão de um triciclo de castanhas assadas rodeado de friorentos clientes num dia de Outono.

Antes que a coisa começasse a ser demasiado publicitada, apanhámos pelo caminho um terceiro membro e fomos “beber café”; que é um eufemismo para “entrar na clandestinidade antes que fiquemos tristemente famosos”.

Depois disso mantivemo-nos à margem do burburinho característico deste tipo de eventos; tendo eu regressado à ribalta mais uma vez, apenas para pousar um prato de plástico com gelatina verde sobre um banco, onde o nosso querido e velho “amigo” Nosferatu decidiu sentar-se breves segundos depois.

Mas nessa altura já eu vinha no carro do “N” a caminho de casa. O resto dos passageiros é que não conseguiam adivinhar por que raio vínhamos nós tão bem dispostos.

Música de Fundo
History Repeating” – Propellerheads

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O 4º Concílio do Bivalve
- Onde a Igreja do Imaculado Blog se prepara para um Verão de piedosa extrospecção, numa colaboração aberta a outras Igrejas, Seitas, ou mesmo “Pole Dancers” com menos de 43 anos (todo o cuidado é pouco…) -

Em todas as religiões existe uma época em que se tem que parar, reavaliar toda a estrutura da FÉ e traçar planos para a continuidade da obra. Na nossa igreja chamamos a isso… “Férias”.

Enquanto para o comum dos mortais essa palavra desperta recordações de imensas filas de trânsito, horas perdidas, estalos nos putos e finalmente miradas sub-reptícias aos traseiros das banhistas mais próximas; para mim significa apenas beatitude.

É nas férias que as melhores epístolas são imaginadas e escritas, enquanto deambulo pelas areias da Caparica acompanhado pelo fiel Apóstolo (que muitas vezes me dá belas ideias para sermões) debatendo o sentido da vida, ou apenas tentando chegar a uma conclusão sobre qual o melhor vinho para acompanhar arroz de pato.

É nesta época que se realiza o Concílio do Bivalve; que normalmente tem lugar na esplanada do Santos e com a presença deste, do Apóstolo, do “Animador Cultural” e do Tito, que desde que deixou de beber deu em religioso.

O que nos diverte à brava, pois ele pensa que isto é uma religião a sério. Ou pelo menos pensava, até ver que o nosso inferno é apenas um local cheio de mulheres feias e onde não se arranja uma cerveja fresca. Características estas que se aproximam bastante da descrição que pode ser dada sobre o café do Santos durante a época estival.

Mas o concílio deste ano não tem corrido bem. Já vamos no segundo dia, e tanto eu como o Apóstolo não conseguimos chegar a consenso sobre qual a praia que iremos frequentar esta temporada.

Já tentei explicar-lhe que a praia do Castelo é calma e não se paga estacionamento; mas no bar da praia da Rainha existe uma morena em cujos olhos (segundo ele) se conseguem ver os milhares de filhos por nascer. Eu não o quis melindrar mas essa frase pirosa já foi usada por Bryan Adams; que não só canta (?) melhor do que ele, como tem a desculpa de ser canadiano e assim pode ter uma ideia totalmente errada sobre o que é o imaginário latino.

Mas acho que não vou ter sorte nenhuma com a praia este ano. Pois já me vejo antecipadamente a levar grandes secas de esplanada, enquanto o Apóstolo sentado ao balcão mergulha nos olhos da morena como um campeão olímpico; consumindo dezenas de “Frizes” de limão durante o processo.

Terei que fazer algo por ele. Não porque o seu coração seja mais frágil do que a média; mas todo aquele excesso de água com gás não augura nada de bom, e eu é que terei que fazer a viagem de regresso naquele automóvel fechado.

É possível que o meu próximo post seja sobre as paixões de verão. Ou então, talvez seja mais fácil convencê-lo a começar a beber “iced tea”…

Música de Fundo
Wild Side” – Motley Crue


segunda-feira, 4 de junho de 2007

A Invenção do Clister
- Um repost motivado pela falta de tempo característica do SAF (Síndroma de Aproximação das Férias), e também por ter trazido trabalho para casa… -

Era uma vez (muito original) um mosteiro de capuchinhos, que se erguia como um ninho de falcão no pico de Clister. Um pico aguçado, situado nos entrefolhos dos Alpes, batido todo o ano por um vento cortante, que enregelava a roupa interior dos noviços.

O Abade Céline sofria de más digestões, coisa que não só o incomodava imenso a ele, bem como aos outros frades. Que como é sabido, rezam virados para as costas uns dos outros.

Era uma bela manhã de Primavera. Os passarinhos debicavam porcarias no claustro central, e o Abade reflectia no sentido da vida; encostado a uma cariátide enquanto limpava o ouvido esquerdo com o crucifixo de prata. Deus estava em paz com o mundo, ou pelo menos não estrilhava muito...

Começou subitamente a sentir um fogo no estômago. Um fogo infernal que quase o levou a pensar, terem descoberto a sua falcatrua nas inspecções médicas aos noviços. - Tratava-se do velho teste da ferramenta. Em que um noviço é vendado, e lhe é dito que terá que descobrir pelo tacto, se o que lhe meteram na mão é uma imagem de Nossa Senhora; ou de Santo Inácio de Loyola. - Mas adiante, porque não se tratava dos fogos do Demo, mas sim de uma terrena cólica, causada por uns diabólicos enchidos, ofertados por um paroquiano pecador.

O irmão Serge, que preenchia as funções de Esculápio, afirmou categórico - É como se já fosse a caminho... O Abade não pode comer durante uma semana, e tanto quanto eu sei, nunca faltou a uma refeição nos últimos trinta anos. Por mim - disse ele, demonstrando senso prático - já podem tirar os hábitos pretos da naftalina... Tem uma oclusão enorme no intestino, que se for perturbada com mais refeições, poderá resultar num volvo, ou num skoda. Só Deus sabe.

A consternação invadiu a Abadia, o negro espectro da adversidade começava a ensombrar a pequena comunidade.

Foi quando o irmão Angelino, que era quem tratava da manutenção dos instrumentos de auto-flagelação, teve uma ideia brilhante. - Ó irmão Serge! E se desentupíssemos o Abade... Ficava como novo, não?

O irmão Serge, esteve quase para o mandar espalmar hóstias, mas pensou melhor. Realmente era uma ideia brilhante, se ao menos tivesse sido dele... mas o tempo urgia pois estavam quase na hora da ceia, e havia borrego com lentilhas; prato maravilhoso quando feito pelo irmão Esaú.

Chegaram à conclusão que teria que ser com líquido. Pois a proposta do irmão Angelino, de usarem uma vela, despertou sorrisos nos rostos de mais de metade dos irmãos. Despertando também a ira do Abade, que não estava habituado a ser a parte passiva, em operações desse género.

Para abreviar a parte mais dolorosa. O Abade foi apanhado desprevenido e manietado pelos irmãos Schultz, os famosos gémeos campeões do lançamento de incensório; e deitado num banco de carvalho atado com os cintos de corda, que é do conhecimento geral servirem mesmo para isso.

Utilizando uma tripa de borrego, que terminava numa pipeta improvisada com um chamariz de patos em osso; o irmão Serge introduziu uma ponta na pia de água benta, chupando na outra ponta, como se estivesse a roubar gasolina para a motorizada (que só seria inventada muitos anos mais tarde). Quando notou a chegada do sagrado líquido, enfiou o chamariz de patos no recto do Abade, que recebendo uma refrescante enxurrada divina se contorcia consideravelmente.

Provou-se (logo após o abade correr para os seus aposentos) que na realidade dava resultado. Os monges de Clister, tinham descoberto o maravilhoso dispositivo, que durante anos usaria o nome da sua Abadia.

Tiveram é claro, que acertar certos detalhes técnicos, como por exemplo o formato do pipo de distribuição. O protótipo (o chamariz para patos) nunca foi recuperado, devido ao seu formato pouco aerodinâmico.

A partir dessa data dizia-se que ás vezes, no silêncio da noite se ouviam ruidosos bandos de patos sobrevoando a Abadia... Mas isso já é outra fábula...

Música de Fundo
Bad To The Bone” - George Thorogood & The Destroyers

sexta-feira, 1 de junho de 2007

(Parece que agora vou “gramá-las” ali...)


Kinaxixi
(por Agostinho Neto)

Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...

Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas

Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool

Nem felicidade nem ódio

Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.


Música de Fundo
Avenida de Angola” – José Afonso

Creative Commons License
Todos os textos desta página estão protegidos por BLOG e por uma Licença Creative Commons.

theoldman.blogspot.com Webutation