segunda-feira, 30 de julho de 2007

Parabéns Francisco!
- “Claustro fobias” é uma pergunta com formato de livro. Um exercício sobre a escrita e os motivos que a iniciam. Uma pergunta a que cada um deve responder por si; mas deixo-vos com as palavras do autor… -

“… Muitas vezes me questiono acerca daquilo que motiva o processo de escrever. O que leva alguém a construir contos, histórias, romances de carácter mais ou menos biográfico ou de pura ficção? Será a necessidade de comunicar, de contar aos outros algo que julgamos importante?

Ora, sempre foi a ausência dessa necessidade que me impediu de publicar o pouco que escrevo e que, possivelmente, me inibiu de escrever mais – logo melhor, por via da prática. Na realidade nunca tinha sentido com clareza esse chamamento, essa urgência.”

Francisco Castelo – Junho de 2007

Os mais curiosos poderão sacar aqui o texto completo em formato *.pdf

Música de Fundo
Overture to the Sun” – Terry Tucker

sexta-feira, 27 de julho de 2007

A Incrível Sopeira de Shaolin
- Onde a crítica cinematográfica se cruza com uma enorme vontade de nada fazer, apesar de todos sabermos que um blog não se escreve sozinho. –

Os últimos dias têm sido difíceis. Em luta constante contra a sonolência causada pelo livro de Carolina Salgado tentei ler blogs; mas não melhorou.

No futuro será vulgar ouvir-se - “Há uma santa e uma Carolina, dentro de cada menina…” – mas enquanto este meu provérbio não atinge a notoriedade, há sempre quem tente ajudar um pobre escrevinhador a tornar famosas as suas próprias palavras.

Tal como foi já anunciado por muitos e respeitáveis bloggers, tem-se vindo a assistir a uma crescente “carolinização” da blogosfera, talvez causada pelo excesso de calor; que como se sabe contribui para o desenvolvimento de tudo o que é estafilococo.

Farto de todo este “caldo de cultura”, pensei que o melhor talvez fosse tentar ver um filme. Lembro-me que na altura me pareceu uma óptima ideia, mas após esta última experiência cinematográfica todas as próximas parecerão candidatos a Óscares; mesmo que sejam protagonizados pelo Steven Segal…

Kin-Dza-Dza” (Кин-Дза-Дза) é um filme soviético de culto datado de 1986. Segundo as críticas e os “nerds” deste meio, trata-se de uma “pérola minimalista no género da ficção científica” com um argumento “anti-utópico”, que milagrosamente escapou entre as malhas da censura já enfraquecida durante o mandato de Mikhail Gorbatchov; transformando-o assim num clássico.

De qualquer modo, apesar de eu considerar o argumento ridículo e com um valor criativo próximo do de um folheto de hipermercado; à sua maneira russa e pelintra este filme pode ser considerado como o equivalente ao nascimento da corrente “cyberpunk” por detrás da famosa cortina de ferro (que como é sabido enferrujou, acabando por cair anos mais tarde).

Com tantas e tão boas referências, eu não podia deixar de tentar arranjar o filme. Mas uma vez que o resultado se aproximou perigosamente daquilo que pode ser considerado “um gorro de lã com borla e orelheiras”, vulgo “barrete”, lá tereis que compartilhar os meus infortúnios através da leitura desta sinopse; que espero transmita fielmente a impressão duradoura provocada por esta maravilha da “sétima arte”.

- O “tio” Vova (Aquela malta dos soviéticos ainda eram parentes afastados de algumas boas famílias da “linha”. Sendo moda nos anos oitenta tratarem-se uns aos outros por “tio”, “tia” ou “tovarich”) saiu de casa para comprar macarrão por ordem da mulher, mas antes de chegar à fila do racionamento (suprimida da película por ordem do “Gabinete para a Imagem Política do Comércio Soviético perante esses Porcos Capitalistas que nos Espiam Sorrateiramente”; ou GIPCSPCES) encontrou “Skripach” (o Violinista) que contemplava um quadro pouco usual.

Na esquina da mercearia um homem descalço e vestido de andrajos, pede-lhes que lhe indiquem o caminho para poder regressar ao planeta “Plyuk”, enquanto lhes mostra um dispositivo metálico parecido com uma caixa de rapé provida de botões.

Dizendo-lhe repetidamente “que sim” (tal como convém fazer a todos quantos nos falem disso ou do Simplex), os nossos dois heróis tentam levá-lo para a sede da polícia política, pois suspeitam que se trate de um “inimigo do povo”; infelizmente um deles prime inadvertidamente um dos botões, o que os transporta para um local muito parecido com a Fonte da Telha mas sem qualquer vestígio de água (aliás, suspeito que a película tivesse sido aí rodada, pois a certa altura pareceu-me ver a guarita do posto da Guarda Fiscal).

Após algumas peripécias ficamos então a saber que se trata do planeta “Plyuk”, situado na galáxia “Kin-Dza-Dza” (que aparentemente significa “o olho no céu”. Um conceito deveras familiar ao imaginário soviético).

Os simpáticos habitantes de tão seca estância balnear parecem humanos, e conseguem compreender russo após lerem a mente do “tio” Vova. Sendo a sua linguagem maioritariamente de expressão telepática, pelo que o segmento verbal se limita a onze palavras. Bem. Na verdade são dez substantivos para designar objectos, mais a palavra “Cu” que significa tudo o resto.

E antes que comecem a sorrir para o parceiro ao lado alegando que já sabem onde eu quero chegar, aviso-vos que é absolutamente verídico. Três quartos das palavras ditas durante o filme são “Cu”; o que se pensarmos bem até é um progresso em relação a “tio”, “tia” ou “tovarich”.

Apesar de terem quase todos um ar pouco lavado, um deles ser a cara chapada do Ernest Borgnine e terem ainda aquele hábito de dizerem “Cu” por tudo e por nada, trata-se de uma civilização muito mais avançada que a nossa, tanto nas viagens espaço-temporais como no desenvolvimento de armas; embora socialmente sejam pouco mais que trogloditas (faceta sobre a qual tanto eu como alguns intelectuais, nos interrogámos se não representaria uma alegoria aos Estados Unidos).

Esse estranho povo estaria dividido entre “Chitlanin” (classe alta) e “Patsak” (classe baixa), usando estes últimos um pequeno guiso no nariz para realçar a sua condição servil.

Tentando não me adiantar demasiado na história (para não vos estragar o prazer de comprarem a obra em DVD), acrescento apenas que a coisa mais valiosa naquele planeta eram os fósforos, valendo uma caixa cerca de 2.200,00 “Chatles” o que em Smolensk daria à recta para o pagamento de entrada para um bife do lombo.

Após inúmeras aventuras e rituais copiados da vida amorosa dos galináceos em cativeiro, os nossos dois heróis lá conseguem travar amizade com dois autóctones que lhes dão boleia até à Alfa do Centauro. Local onde os dois russos são transportados de volta à sua soviética realidade, e os seus benfeitores são transformados em cactos por uma raça ainda mais superior que coordena aquele sector da galáxia.

Apesar de este relato ser fruto da minha natureza vingativa, a totalidade do que vos é narrado é estritamente verdadeira. Pelo que o melhor que posso dizer sobre o filme é:

- “Esta película foi rodada como se Tarkovsky se tivesse embebedado durante a rodagem de Stalker, e a meio decidisse prestar homenagem aos Monty Python; mas sem nunca largar a garrafa do vodka”.

Para ser visto numa noite de chuva ou após a visita de uma tia muito chata. Este filme dá-nos a sensação que a vida pode ser muito mais absurda do que possamos imaginar…

Música de Fundo
Kalinka” – Red Army Choir

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Frases para ler na Praia
- Da areia… ao rigor dos factos. –

É triste sina minha, que cada vez que começo a escrever algo sobre figuras públicas, quer seja sobre o “pequeno Luís” ou sobre “Carolina a Grande (ao critério de cada um)”; que os visados só para me contradizerem decidam recomeçar a movimentar-se sobre o “tabuleiro” em que normalmente “jogam”. Tudo isto com o único fito de me chatearem e trocarem as voltas.

Uma vez que a recente introdução da irmã gémea de Carolina na equação, apenas vem aumentar o número de mentirosos neste caso; e também porque o livro é um autêntico Xanax 500mg, decidi postar apenas as frases mais lúdicas (algumas mesmo histriónicas) da obra (?) para que vos possais rir na praia a ponto de quiçá (curto mesmo quiçá…) serdes presos pelo senhor “cabo do mar”. Que como toda a gente sabe, é a ponta por onde este deve ser agarrado.

É pois da areia em que vos reclinais cobiçando a febra (termo invariável) circundante, que vos insto a atentar nestas deliciosas pérolas prontas a serem deglutidas pelo ocioso veraneante (não tão pomposo como desejaria mas com um esforço ainda hei-de conseguir). Que é como quem se refere às carapuças – “A pérola, é para quem a engole”.

Frases célebres de Carolina Salgado (ou o que mais se aproxime disso)

1 - “Decidida a ser, o mais possível, sincera e honesta, não temer consequências. Não tive contemplações nem comigo nem com mais ninguém.” – Esta frase deve ser uma das melhores desculpas para qualquer tipo de incompetência (e por tal, passível de ser usada por “especialistas” de outros ramos). Pois se o livro atingiu o “alvo” é porque não teve contemplações para com os outros. Se o tiro sair pela culatra; então é porque não teve contemplações consigo própria.

2 – “Sendo um elemento novo (no Calor da Noite…), era muito solicitada embora fizesse sempre questão de me sentar em frente dos clientes, e não ao seu lado, como estavam acostumados, assim como de os tratar com uma certa distância. Era a arma da qual me servia para impor o respeito. Recusava sempre os convites para dançar e apenas me dirigia à pista para dançar, sozinha, a música de Sting, Brand New Day, que me acalmava e me fazia sentir mais relaxada”. – Como se pode aqui ver, não só Carolina revolucionou toda a filosofia subjacente à actividade do “alterne”; como ainda recebeu o patrocínio do vocalista dos Police. (ou não fossem ambos duas “grandes putas”)

3 – “Um deles (clientes…), representante em Portugal de uma grande marca internacional de desporto, escrevia poemas que me recitava e chegou a levar-me, juntamente com um grupo de amigos, todos muito bem-educados e afáveis, a uma casa na Boavista onde havia ‘diseurs’ de todo o tipo de poemas. Lá comemos um bom caldo verde e passámos uma noite agradável entre amigos”. – E ainda dizem que eu sou eufemístico… deve ser a melhor descrição de uma “geral” que ouvi nos últimos vinte anos. Pena que no meu tempo não servissem caldo verde no fim (podia ser mesmo sem chouriço).

4 – “Passada cerca de uma semana da visita do Senhor Reinaldo Teles, estava eu a dançar a dita música do Sting, minha preferida, quando, e qual é o meu espanto, me apercebo que tinha acabado de entrar o Senhor Reinaldo Teles, acompanhado pelo presidente do Futebol Clube do Porto, o Senhor Jorge Nuno Pinto da Costa. As minhas pernas começaram a tremer, senti um frio no estômago e tive que sair da pista de dança”. – Devido a diversos problemas relacionados com o seu metabolismo basal, Carolina opta a dada altura por se relacionar com clientes de avançada idade; e talvez por isso menos exigentes nas suas “performances”.

5 – (…enquanto dançavam) “As nossas mãos transpiravam, as pernas tremiam… Previ que estava a nascer um grande amor e não me enganei”. – Embora mais tarde testemunhas oculares jurassem tratar-se de uma crise de “parkinson”, despoletada por “uma pouco usual dose de Sting”; a que Pinto da Costa não estaria habituado.

6 – “Fomos abraçados para o hotel (Carolina e Pinto da Costa) e, chegados ao quarto, fui apanhada de surpresa. Na minha ingenuidade, tinha pensado que a suite iria ser ocupada apenas por mim e que ele teria reservado outro quarto para si próprio”. – Então, antes que este blog seja invadido por fadas, unicórnios, políticos honestos e outros personagens de ficção; o melhor é ficar por aqui.

Atendendo a que estou a escrever isto na hora de serviço, e que aqui não me basta dançar músicas do Sting para que me paguem no fim do mês. Vejo-me obrigado a interromper este chorrilho de enormidades, deixando para depois a parte dos bilhetinhos, dos ursinhos de peluche e outros acessórios necessários à manutenção de uma “cumplicidade” tão cheia de sintonia; que a nossa heroína abraçava de “peito aberto” (e sabe-se lá mais o quê…).

Continua… (ou não…)

Música de Fundo
Sacrifice” – Elton John
(Perguntem-me porquê…)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Verão 1

Queria contar-te dos braços do Verão
que cheiram a manga recém-colhida,
e dos lábios de sol como frutos vermelhos.

Queria dizer-te das ondas de sal na minha língua,
do ouro que me escorre de entre os dedos…
ou o bafo perfumado de pinheiros.

Mas digo-te apenas da saudade.

Tudo o resto já o sabes, porque és tu.

Música de Fundo
Thing Called Love” – Bonnie Raitt

segunda-feira, 16 de julho de 2007

A Pré-História de Carolina
- Onde a heroína tenta traçar um percurso plausível que acerte com a realidade que conhecemos -

Como se começa um livro autobiográfico? Bem. A maioria das pessoas diria que o melhor é começar pelo princípio; ou seja a infância. E como a maioria de nós sabe, a infância de cada um está plena de episódios coloridos; quanto mais não seja aos olhos da criança que um dia existiu.

Para a infeliz protagonista, parece que até ao 2º Ciclo o único acontecimento relevante (à excepção da morte da avó) foi terem-lhe comido o coelho de estimação. Episódio (tal como ela própria afirma) traumatizante, que talvez seja uma das peças chave para um melhor entendimento de como a pouco e pouco se depositaram as camadas sedimentares da personalidade desta Carolina adulta e caçadora de dragões.

A adolescência decorreu-lhe numa aparente normalidade, se não levarmos em conta a sua predilecção por Bryan Adams e Whitney Huston; dos quais sabia as canções de cor. Talvez por isso, o seu primeiro amor foi um rapaz no qual o que logo a atraiu foi, não os seus atributos físicos mas sim o amor pelos animais. Temos que admitir que para uma rapariga de quinze anos (e pelos vistos pouco precoce), eram pensamentos elevados quase dignos de uma Santa Teresa de Ávila.

Infelizmente o rapaz (que já tinha 25) teve tanto medo ao ver o pai dela, que desapareceu para não mais ser visto. Apesar da nossa heroína rotular o episódio como a sua “primeira desilusão de amor”, parece-nos que não ficaria muito bem servida. Pelo que não nos preocupamos mais com ele.

Um ano depois conheceu aquele a quem chamaremos homem-aranha e que segundo ela a “enredou na sua teia”. E que tinha a vantagem de já ter passado os quarenta, tendo assim menos possibilidades de se assustar com o “paizinho”. Ou quem sabe até dar-lhe uns piparotes…

Mas o tipo era mulherengo e noctívago. Pelo que o padre da freguesia e polícias amigos do pai, foram falar com ela para a demover do seu amor (uma vez que o tipo tinha uma empresa de cobranças difíceis, e possivelmente era um osso demasiado duro de roer para os fracos dentes do bem intencionado grupo).

Com isto tudo já estamos no segundo capítulo no qual fugiram ambos para parte incerta, tendo ele decidido devolvê-la à procedência ao abrigo da garantia. Ficando por saber se seria por defeito de fabrico; pois a narradora passa airosamente uma esponja sobre o assunto.

Fez uma breve passagem pelo colégio de freiras em Braga onde todas as suas colegas eram oriundas de famílias com comportamentos de risco. O que nos dá vontade até de perguntar o que faria ela ali.

Bem. Para começar, como as outras estavam muito gordas devido à má alimentação, organizou-lhes (à semelhança da Jane Fonda) um programa de ginástica. E através das suas (delas, colegas) narrativas tomou consciência do “mundo real podre e deplorável do qual a sua família sempre a tinha protegido” (os termos entre aspas são da narradora, por isso não aceito reclamações). Pena que ao domingo ninguém a visitasse.

Entretanto o homem que ela “considerava o amor da sua vida” foi à casa da família para tentar recuperá-la; e dando uso ao “fogante” disparou um tiro em direcção ao quarto do irmão. Conta ela que a bala fazendo ricochete no tecto se foi alojar sobre a cama.

Agora já começamos a entrar nos meandros da ficção especulativa. Mesmo não sendo técnico de balística, sei o suficiente para me começar a rir à brava neste ponto do livro (já tinha começado antes, mas esta foi uma verdadeira “Pièce de résistence). Aparentemente os tais polícias amigos do pai estavam de folga nesse dia, e nada aconteceu ao tresloucado atirador.

Fugiram novamente e foram viver juntos para uma quinta em Rãs (se calhar ainda foram vizinhos do Tino).

Passados quatro anos arrependida e já com dois filhos. Para matar saudades do pai que não lhe falava, ia para a porta do restaurante para o ver pendurar as ementas (este quadro faz-me lembrar os primeiros filmes do Woody Allen).

Ao saber que o companheiro mantinha uma relação com outra mulher, abandonou-o finalmente “deixando tudo para trás”. Levando apenas com ela os dois filhos e dois “Huskyes”, possivelmente para puxarem o trenó em que todos fugiram.

O certo é que no livro não ouviremos mais falar deles; talvez comidos durante alguma tempestade de neve.

Tendo ficado a morar em casa de um tio, arranjou um emprego de 140 contos a demonstrar produtos. Mas conheceu uma colega que tinha um nível de vida bastante luxuoso, e ao saber que esta trabalhava num bar à noite, pediu-lhe que a levasse lá porque o dinheiro lhe faria jeito “para por em prática os planos que tinha para si e para os seus filhos”. E assim entrou no Calor da Noite.

Sabia que iria ser criticada pela boa sociedade por trabalhar num bar de alterne, mas não desisti” – Confessa-nos no fim do 2º Capítulo esta verdadeira heroína, que ao contrário de muitas hipócritas e dissimuladas, sabia muito bem ao que ia.

A seguir temos o 3º Capítulo. Mas já é tarde e esta história dá-me sono. Com tanta fantasia ainda podia meter umas batalhas espaciais e quem sabe alguns Ewoks. Mas Pinto da Costa só aparece lá mais para a frente…

Continua…

Música de Fundo
Rag Doll” – Aerosmith

quarta-feira, 11 de julho de 2007

O Regime da Alternância
- Embora aos menos atentos possa parecer que vamos recomendar uma dieta para o Verão; este blog vem orgulhosamente apresentar mais uma profunda incursão nos entrefolhos do conhecimento. Talvez um pouco confusa devido a ter sido escrita “aos empurrões”. –

Desde a noite em que me apareceu S. João Baptista (só a cabeça) instando-me a que divulgasse na blogosfera a obra literária de Carolina Salgado, que sou apoquentado por uma terrível interrogação. MAS AQUELA MALTA SABE MESMO O QUE É O “ALTERNE”?

Após incansáveis pesquisas por blogs, portais e enciclopédias on-line; a conclusão a que posso chegar é a seguinte: a maioria confessa honestamente que não sabe a origem ou mesmo qual o funcionamento daquilo a que se chama “alterne”. E possivelmente quem o sabe, tem mais que fazer do que contribuir para a elevação cultural das gerações vindouras.

É por isso que venho hoje perante vós clamar “presente!”, em resposta a esta carência informativa que parece afectar a blogosfera portuguesa e o público em geral. E para tentar colmatar essa lacuna com uma segunda introdução (mais confiante e segura, embora não tão pujante como uma primeira) à obra da tal mocinha, que apesar de “alternar”… Mas não nos apressemos, que estas coisas devem seguir uma certa e determinada ordem.

Já li diversas teorias (algumas delas delirantes, mesmo) sobre a origem daquilo a que chamam “alterne”. Desde - “…dizem as entendidas que a técnica de alternanço consiste em 5% de bebida alcoólica para 95% de água” - até - “estas funcionárias nunca estão no mesmo bar a trabalhar durante muito tempo, vão alternando de bar em bar... 15 dias em Bragança seguidos de 1 mês em Lisboa, e por aí fora. Ou seja, vão alternando de bar em bar, conforme o negócio.

Embora prenhes de imaginação, qualquer uma destas teorias pode ser facilmente rebatida por uma argumentação bastante simples.

Mas uma vez que não se trata aqui de estabelecer quem sabe ou não o que isso é; e sim tentar dar ao leitor uma boa bagagem cultural para poder enquadrar Carolina na sua própria narrativa. Vamos fornecer-vos não a “verdadeira e única definição do termo” (pois isso iria atrair imensos Trolls daqueles que têm a mania que sabem tudo melhor que os outros); mas uma versão que o autor deste blog considera senão a mais verosímil, pelo menos aquela que está mais de acordo com o publicado nos folhetos de profilaxia do Dispensário do Hospital da Marinha e que eram distribuídos às tropas nos longínquos anos sessenta.

Nota: A breve dissertação que se segue nunca seria possível sem o concurso de esforçados especialistas, que abdicando do precioso descanso proporcionado pelo sono, calcorrearam bares e alfurjas da pior espécie com a mesma abnegação dedicada ao Nina, ao Passerelle ou ao Champagne. Infelizmente os seus nomes não poderão ser aqui expostos à gratidão pública, pois a maioria é de índole modesta e recatada; sendo por tal avessos a grandes manifestações de apreço (e são casados, é claro).

A “alternadeira” ou “alternadora” é uma reconversão efectuada para o universo Lusitano a partir de um conceito de produto a que os anglo-saxões chamavam inicialmente (antes de se armarem em “politicamente correctos) Taxi-girl.

Visto que a aglutinação destas duas palavras explica quase tudo, passemos de imediato para a sua versão nacional, que embora de designação um pouco mais dúbia facilmente se esclarecerá.

Desde as hetairas atenienses e mesmo antes delas; com mais ou menos sofisticação sempre existiram putas!

E não digo isto num sentido pejorativo, mas apenas como designação para alguém que participa em actividades sexuais em troca de pagamento em numerário, cheque, cartão de crédito, rebuçados do Dr. Bayard, bens imobiliários, títulos do tesouro, emprego, segurança & encosto ou apenas porque não tem quem lhe pague o jantar e a noite de dança a uma qualquer sexta-feira.

Tal como acontece em todas as actividades, existem pessoas que encaram a sua profissão com ligeireza e leviandade, paralelamente a outras que mercê de qualidades especiais sentem orgulho na perfeição com que se desempenham as suas funções. A estas, devido ao seu profissionalismo convencionou-se chamar prostitutas.

Os sexualmente mais activos entre vós, decerto sabem (os outros ficam a saber agora) que um excesso de actividade sexual pode produzir estados de fraqueza, debilidade, e mesmo às vezes ser propícia ao aparecimento de pneumonias ou condições de deficiência imunitária.

Com uma vasta experiência à base de DST’s, tuberculoses e outros achaques do género, o organismo que antigamente regulava as inspecções médicas periódicas às profissionais do sexo (sim, malta. Antigamente aquilo era um serviço legalizado e com direito a assistência médica), decretou a dada altura que deveria existir um intervalo após determinado período em actividade; para diminuir o risco de doenças e dar tempo para fumigações às partes pilosas, exorcismos à chataria, etc. (garanto que não estou a inventar).

Assim em vez de esperarem os clientes no “living” e após isso serem escolhidas para os acompanharem até aos quartos (Nesses longínquos dias existiam estabelecimentos próprios para este tipo de actividade), as que se encontravam de pousio ficavam pelo bar; onde pelas bebidas consumidas por cada cliente que aliciavam lhes era paga determinada percentagem.

Com o fim da prostituição “tolerada” tais casas desapareceram, pelo que as profissionais passaram a oferecer os seus serviços nos anúncios classificados dos jornais diários, na orla dos espaços verdes de zonas urbanas, em artérias citadinas pouco concorridas e mesmo em parques de estacionamento de hipermercados (acho que a Bragaparques nestes casos, não recebe qualquer percentagem).

Porém continuam a respeitar os intervalos de segurança (tal como a família Prudêncio em relação aos pesticidas) e após determinado período de tempo no activo, alternam o trabalho de rua com uma temporada de “serviço de secretária” durante o qual apenas bebem (e muitas vezes, apenas água com gás).

- Só a título de curiosidade, informamos que Sumol (clássico) é a bebida mais usada pelas alternadoras, bem como pelos alcoólicos regenerados de baixa condição social. -

Debrucemo-nos então sobre as características do serviço proporcionado por essas profissionais, aquando da sua fase “alternativa”.

Este tipo de serviço é basicamente o de uma psicóloga; só que mais barata e com melhores mamas (uma vez que boa parte dos clientes só as consegue observar do alto da cabeça até ao tampo da mesa); mas isso nem sequer é muito importante pois o essencial é ser boa ouvinte.

(Antes de passarmos à parte dedicada aos clientes, advertimos para a existência de estabelecimentos que embora utilizando a designação de “bares de alterne”; recorrem à utilização de “putas no activo”, em conjunto com pequenos apartamentos no piso de cima ou no prédio ao lado. Estes casos ficam obviamente excluídos deste estudo.)

Agora os clientes!...

Não nos compete dissecar aqui as características de quem recorre aos serviços “executivos” (pois este post não é sobre esse ramo da actividade), mas sim tentar fazer alguma luz sobre o que procura o cliente do “ramo consultivo” desta fascinante e movimentada profissão.

O cliente do “alterne” é um incompreendido. Melhor ainda; é um incompreendido que parece não compreender também um monte de coisas.

Basicamente paga para ser ouvido; o que inclui de tudo. Desde a usual lamúria sobre a sua solidão acompanhada e a consequente incompreensão, até à “gabarolice criativa”; sem nunca ligar ao facto de a sua interlocutora estar bem mais interessada no sinal do “mestre de sala”. Que discretamente regula o tempo dispendido com cada cliente/bebida e acena “lamirés”, como se fosse um corrector de apostas em Epsom Downs.

Muitos há que “perdem o pé”, e esquecendo que estão a pagar pela expressão interessada que vêem no rosto da interlocutora, fazem confidências das quais mais tarde se arrependem; e se convencem até de que existe uma relação entre eles e a “operadora”. Esses passam a ser conhecidos por “habituais” e gostam de ser recordados pelo nome, mesmo que a parceira abandone a mesa a meio de uma conversa para ir engodar outra potencial presa.

Outros ainda, pensando economizar ao fazer um “aluguer de longa duração”, descobrem da pior maneira que o taxímetro destas profissionais só se desliga quando ao atingir uma idade elevada, são promovidas por “deslizamento lateral” ao cargo de empregadas de bengaleiro ou recepcionistas de pensão.

No fundo o “alterne” é um dos antecessores da realidade virtual, tendo em comum o facto de dificilmente os dois mundos se intersectarem. O que para alguns é muito cómodo; pois é tão difícil apanhar um esquentamento no “alterne” como a jogar “World of Warcraft” ou a passear pelo “Second Life”.

Podemos então concluir que “alternadora” é basicamente uma puta “em sabática”.

É claro que se depois disto algum leitor alegar que nada já será assim pois não estamos nos anos sessenta, serei obrigado a concordar com ele (e com alguns velhos conhecidos). Pois realmente já não há putas como antigamente. Existe sim por parte desta nova geração de profissionais (e que é provado pelo tal livro do qual falarei um dia destes), uma grande falta de deontologia… Mas disso só falarei durante a próxima “bebida” …

Música de Fundo
Special” – Garbage

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Caldo de Cultura
- Esboço prévio (entre vários que antecedem a prometida apresentação da obra) de uma explicação sobre o contexto em que eclodiu o fenómeno literário conhecido hoje pela designação de “Flexiliteratura”. -

Um dos mais famosos subprodutos do governo de José Sócrates (imortalizado no inesquecível livro de Luís Marques Mendes “A Noite dos Engenheiros”) foi a “Flexiliteratura”.

A princípio sendo apenas cultivada por alguns bloggers - que se diferençavam das massas pela utilização do termo “blogueiro” - logo a tendência foi recuperada e integrada na cultura portuguesa; uma vez que representava fielmente a corrente filosófica que predominava no país. Como uma espécie de inundação que teimosamente se recusava a ensopar e desaparecer.

O movimento da “Flexiliteratura” foi um sucesso desde o seu início. E tal como no Surrealismo, não era requerido que se soubesse ler e escrever; embora neste último caso tivessem a vantagem de poderem pintar ou fazer colagens.

Seguida por muitos bloggers famosos, esta corrente literária caracterizava-se pelo seu genial princípio da “forma de pudins”; que consistia numa finíssima camada do que pretendia passar por estilo (ou forma) envolvendo um cristalino e opulento “nada” que muitos tentavam fazer passar por conteúdo.

Segundo alguns obscuros especialistas, a “Flexiliteratura” foi a Segunda Praga Cultural enviada pelo altíssimo para castigar a humanidade (a primeira teria sido constituída pelo nascimento de Margarida Rebelo Pinto e o consequente aparecimento da Literatura Light). Mas esta versão logo caiu em descrédito, quando tentaram fazer acreditar que os seguidores do movimento se encontravam secretamente a altas horas na madrugada para lamber um enorme, luzidio e alvo nabo a quem prestavam honras de divindade.

Claro que tudo isso foi desmentido. Tendo até um destacado elemento da política nacional vindo à ribalta garantir a sua idoneidade, e informar que há muito tempo que ninguém o lambia como deve ser.

Serve esta introdução para colocar em contexto a obra literária de Carolina Salgado; e não apenas pela importância que teve para o movimento da “Flexiliteratura” (para a qual não é necessário saber ler e escrever). Havendo ainda a considerar aquilo a que no próximo post (estou a ver que tão cedo não consigo falar do cabrão do livro…) explicaremos como sendo o enquadramento sócio-cultural da actividade a que se convencionou chamar “alterne”. E que como ficará demonstrado, ao contrário de outras designações tem uma semântica deveras apropriada.

Música de Fundo
Rules And Regulations” – Rufus Wainwright

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O Prazer da Leitura
- Pequeno apontamento que antecede algo bem maior, desde que devidamente estimulado… -

De há algum tempo para cá tenho acarinhado um projecto de leitura.

Pode parecer-vos estranho, mas existem livros para os quais nos temos que preparar como se fossem uma espécie de concurso de caldeiradas, ou uma competição pelo título mundial de ingestão de donuts.

Ora o livro em questão pertence a esse subgénero; não porque seja indigesto, mas sim pela diversidade dos novos conceitos que nos traz. Proeza apenas igualada por Darwin ao defender o evolucionismo, ou por Herman José ao considerar-se humorista.

Mas para esta avaliação se poder considerar suficientemente isenta, o livro não me poderia ser oferecido pelo/a autor/a, pois tal suscitar-me-ia gratidão e consequentemente falsificaria a avaliação.

Por outro lado, também não poderia ser comprado; porque a despesa poderia indispor-me contra quem o tivesse escrito (na verdade e por uma questão de princípio, é apenas porque há coisas com as quais me recuso a gastar dinheiro. E agora nem sequer me estou a referir a livros).

Desde o tempo em que recebia saraivadas de tabefes por esventrar os meus carrinhos de corda, que esta curiosidade me impele para situações de risco; tendo vindo a manifestar-se de forma cada vez mais pronunciada. Uma curiosidade sobre o modo como tudo funciona, desde a simples e entediante torradeira até ao mais complexo dispositivo que conheço; o cérebro humano.

E foi na companhia desta curiosidade que tenho percorrido e frequentado diversos ambientes; fascinantes ou não. Com a particularidade de tentar informar-me o mais possível, sobre tudo o que houvesse para saber sobre cada um deles (o que na maioria dos casos acabou por revelar surpreendentes resultados).

A obra em questão (que a providência colocou nas minhas mãos há poucos dias) pretende ser a biografia de uma mulher com todas as suas dúvidas, fraquezas, forças, sentimentos, partilha, sintonia… e outros termos que o colocam em posição tal, que por comparação acho que deveriam oferecer o Nobel da literatura a Inês Pedrosa (… Blog me perdoe).

Mas tenho que admitir sem dúvida alguma; que coisa que ali não falta é imaginação.

***** Por esta altura, a maior parte de vós já me chamou todos os nomes feios que conhece; e os mais imaginativos sem dúvida que terão inventado novos insultos. Mas já não falta muito para que tudo fique esclarecido. *****

Esse livro pungente foi escrito a rogo (pois a autora troca os “v” pelos “b”, e isso iria dificultar e encarecer imenso a revisão das provas tipográficas) por uma professora, que revelou há dias ter sido enganada; pois julgava de início tratar-se de uma obra de ficção científica e não de uma biografia escrita ao estilo de Jeanne d'Arc.

Só isto já chega para nos questionarmos sobre a qualidade da instrução que é impingida aos nossos filhos. Mas adiante!...

Trata-se pois do famoso “Eu, Carolina” que me tem proporcionado verdadeiros momentos de boa disposição, apenas igualados pela leitura de José Vilhena; nomeadamente do famoso “Avelina” (uma sua criada). E que me tem causado alguns problemas com as autoridades; pois a polícia já por duas vezes bateu à minha porta de madrugada, chamada pelos vizinhos que se queixaram de demenciais gargalhadas oriundas do meu apartamento.

Fica pois aqui anunciado que o próximo post (ou o seguinte) será dedicado a essa figura ímpar que é Carolina Salgado…

Permitam-me que corrija! Será dedicado a essa figura ímpar que Carolina Salgado julga ser.

Música de Fundo
Start” – The Jam

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A Solução Cristalina
- Ou uma questão de perspectiva… -

Aert Van Rijn tirou o capacete e limpou com a manga o suor que lhe ensopava as sobrancelhas acobreadas.

Com expressão semi-ausente contemplou a traseira do gigantesco camião que transportava o último carregamento de minério do poço Jagersfontein. A maior mina de diamantes a céu aberto, e ao mesmo tempo o maior buraco escavado pelo homem; a ponto de se conseguir ver a partir de uma órbita geocêntrica.

Não fazia a menor ideia do destino que dariam ao local; mas um buraco com 240m de profundidade, resultado de cerca de cem anos de prospecção, deveria acabar por ser útil para alguma coisa. Quanto mais não fosse, como aterro sanitário.

Encolheu os ombros e entrando no velho Land-Rover, afastou-se em direcção a Bloemfontein por entre uma nuvem de poeira avermelhada.

*****

- Parece que finalmente conseguimos! – Disse o técnico ao assistente, apontando para o visor do que parecia ser um microscópio – Essa tua ideia de injectar a solução cristalina deu um resultado formidável; os microorganismos parecem reagir à presença do produto como se fosse um nutriente.

- O que me deixou espantado – respondeu o assistente – foi o facto de a depressão que deixaram no local do implante, ser uma meia esfera de dimensões tão regulares. Assim em primeira análise, já estou a imaginar meia-hexa de utilidades a nível da nanoengenharia.

- Bem… - Disse o outro – Vai começando a desligar o sistema, pois hoje tenho que ir para casa mais cedo. Só de pensar que a mãe dela vai lá jantar até me apetece mergulhar na tina do Ácido. – acenando um tentáculo ocular, silvou lamentosamente – às vezes chego a pensar que quem leva uma rica vida, são esses microorganismos que observamos todos os dias na lamela do microscópio.

Música de Fundo
The Prayer” – Bloc Party

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Back in the Fast Lane

Talvez agora fosse altura para algumas reflexões pessoais sobre férias e tal… mas vou ter mais em Agosto. E de qualquer modo custa-me escrever com tanta papelada por cima do teclado.

Até daqui a um dia ou dois…

Música de Fundo
Eat The Rich” – Aerosmith

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