sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Da Lama às Estrelas
- Se uma religião for descaradamente inventada como a nossa divertida Fé em Blog (e não o serão todas elas?), quase tudo é permitido e ninguém nos poderá acusar de hereges; pois seguimos as nossas próprias Sagradas Escrituras (o Livro de Blog). Agora se um tipo que controla a devoção de 2.810.000 fedorentos fiéis começa a variar da cabeça, a coisa pode tornar-se grave e deve ser trazida a público antes que se espalhe, e ainda acabemos por ver o sucessor de S. Pedro a comprar chinelinhas de renda na Prada ou na Chanel (Pensando bem, acho que já venho atrasado para esta…) -

Sempre me fascinou nas religiões, aquela faceta humorística que muitas vezes as põe ao nível do melhor teatro de revista português. Tive até em tempos uma ideia que consistia em reaproveitar o velho Parque Mayer para concentrar todas as comunidades religiosas do nosso país, de modo a que os fiéis pudessem escolher a que mais os seduzisse.

É claro que houve logo um desmancha-prazeres que me disse ser impossível. Pois tal como nos restaurantes da antiga Feira Popular (o extinto Luna Parque), iríamos testemunhar episódios com rabis a aliciar o cliente no meio da rua, enquanto um mulah lhe puxaria por um braço, e um pouco mais atrás um padre o ameaçaria com as chamas do inferno se não escolhesse o seu estabelecimento.

Mas chega de teoria “teológico-hoteleira”.

Esta quarta feira li no Correio da Manhã um pequeno artigo do tamanho de um selo de correio (ou do bigode de Hitler, como preferirem), em que se relatava ter o Dalai Lama (esse playboy internacional) afirmado que caso morresse fora do Tibete, não poderiam ali procurar o seu sucessor pois não lhe seria possível reencarnar lá.

Poucos instantes após eu terminar a leitura do “artigo”, a Dona Odete foi obrigada a ministrar-me a “Heimlich Maneuver”; pois um inoportuno pedaço de torrada impulsionado pela minha hilaridade alojou-se em local indevido, quase disparando a minha aura para o cosmos em busca de outra “casca” que a acolhesse.

Nos breves momentos em que durou a interrupção de oxigénio ao meu cérebro vi desfilar à minha frente, não a existência passada neste pequeno jardim atlântico, mas as agruras sofridas pelo “Buda Vivo” na sua ânsia de ir morrer a Potala; ou pelo menos ao snack onde costuma tomar o pequeno-almoço.

Não há dúvida que a sociedade ocidental deve ter algo de terrivelmente virulento que ataca todas essas almas puras mal se chegam um bocadinho para cá. E parafraseando Jorge Coelho (o simpático “Coelhone”), há muita falta de memória da parte dos líderes religiosos. Mal este, que já atingiu igualmente o Lamaísmo (Budismo Vajrayana) e o seu depilado expoente máximo.

Embora não seja algo que se publique regularmente na Caras ou no Notícias da Buraca, já existe (embora o Dalai Lama porventura desconheça) por esse mundo fora um monte de gente que não se limita a ler o tanguista do Lobsang Rampa, ou a absorver aquelas tretas semi-panteístas de como devem preparar o terceiro olho para absorver o cosmos.

Como sou um tipo basicamente preguiçoso e de mau feitio, não me vou dar ao trabalho de colocar aqui “links” para literatura da especialidade ou fazer “scan” aos meus livros. Mas só para começar, quem quiser faça uma busca no Google e há-de encontrar (o Google começa também já a parecer-se muito com o Lamaísmo) muita matéria sobre este assunto.

Os “Procedimentos para Confirmação da Reincarnação do Dalai Lama” que são seguidos há um ror de anos por aquela malta, indicam claramente como tal deve ser feito; e não existe neles nenhuma alínea onde se fale de limitações respeitantes a fronteiras geográficas, políticas ou “consumo mínimo” para este tipo de situação.

Aliás são categóricos em afirmar que é determinante o azimute para o qual fique virada a face do santo homem na hora da sua morte (uma espécie de “Roleta Tibetana”), e que a partir daí devem partir pelo mundo nessa direcção até que encontrem alguma criança (do sexo masculino, claro, que eles nisso não são diferentes das outras religiões), que acumule um número considerável de indícios a ponto de o tornar suspeito de albergar em si o espírito do excelso monge (soa um pouco pedófilo mas nunca ninguém se queixou disso).

O que quer dizer que poderiam andar durante meses ou anos em determinada direcção sem encontrar alguém que se enquadrasse nos requisitos, e acabar por o descobrir a apanhar sol na Fonte da Telha ou a amolar tesouras em Almoçageme. O certo é que por mais cagaço que o simpático “caixa de óculos” tenha em relação à possibilidade de os chineses lhe roubarem o negócio, isso não o desculpa de tentar mudar as regras do jogo a meio deste.

Sim. Que nós sabemos perfeitamente como é que a coisa funciona, ou não tivesse já BLOG passado pelo mesmo …

Música de Fundo
Budapeste (Sempre a Rock & Rolar)” – Mão Morta

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Nove da Manhã
- Pretensa poesia surrealista induzida pela baixa temperatura -

Ergo-me da preguiça bem cedo
com a rapidez dos que não querem

E pedalo a cega melodia
das lágrimas de frio, e riso
despertadas pela loucura
que é usar calções fininhos

Mas o meu coração é quente
como a flanela que o envolve

E o capuz…
O capuz de nada serve porque não o uso
para manter a mente fria e cristalina
enquanto percorro a ilharga do rio esverdeado
e me vou sentar a céu aberto
na certa espera de algo quente e fumegante

Não cruzo as pernas na esplanada
como a mulher em frente a mim
Que tem também a mente fria e arrepiada
(que quase vejo, naquela posição)
mas noutro local

Digladiamo-nos
numa competição muda
de resistência térmica

Eu
tenho o imaginário no qual escrevo
que me protege
como uma “termotebe” colorida

Ela
apenas um cão que lhe cobiça as torradas
e espera sentado, paciente
um “amanhã, Jolly…”

O cão da mulher só, tem vida triste
Animal simples e fiel
tratado como um homem
(o infeliz)

Desinteresso-me.
Nunca tive paciência para cães
quanto mais os de mulheres sozinhas
que apenas prometem pedaços de torradas aparadas

Levanto-me e divago p’la cidade
montado neste melódico moinho de café
que extrai de mim os pensamentos
e os imprime no asfalto
em sons ziguezagueantes…

Sinto a cor da paisagem nos meus olhos
lavados pelo vento e a velocidade
mas não a vejo enquanto voo
porque ver é descer à terra
e eu não quero cair

Cair seria…
ser já segunda feira
ou outra coisa ainda pior, como não haver domingo

Ou chegar a casa
e não haver água quente para o banho

Adoro esta pequena liberdade
que é ser simples
não precisar de nada
excepto aquilo que já tenho
(ou me tem a mim)

E como nada tenho, nada me possui
Talvez apenas
a sensação de ser um homem livre
que passeia pela cidade
a sua beatitude arrepiada

(Tenho que comprar umas calças térmicas na Decathlon)

Música de Fundo
Hard Sun” – Eddie Vedder

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O Impacto da Imaterialidade
- Uma pequena história que há séculos se repete; sofrendo apenas ligeiras alterações na forma, dependendo da época em que é contada… -

O homem atingido por uma rajada de pistola-metralhadora abateu-se na calçada como um saco de farrapos. Os transeuntes arredaram-se como ovinos atentos à presença do pastor, enquanto o monovolume de vidros fumados parava abrindo as portas estrepitosamente.

- Era “O Miúdo da Bica” – ouviu-se murmurar por entre a assistência transida. – Parece que lhe retiraram a “licença de blogar” há anos, e tinha-se escapado para o Wordpress de Singapura.

Um dos indivíduos vestidos com fato de três peças e expressão de avô carinhoso, revirou o corpo com a biqueira da bota italiana – Revistem-lhe os bolsos! – disse para os outros que se afadigavam a tentar reconhecer caras suspeitas por entre a multidão – o disco com os dados roubados no Ministério tem que aparecer em qualquer lado.

Notou-se uma súbita ondulação no ajuntamento de basbaques, como uma seara soprada por imprevista ventania. E um vulto de baixa estatura vestido com um blusão de capuz esgueirou-se na direcção oposta ao acontecimento, abrindo caminho à força de cotoveladas.

Um dos agentes lançou-se em sua perseguição, enquanto o veículo arrancava fazendo chiar os pneus. Levando atravessado no fundo o cadáver envolto em plástico transparente; à semelhança de algo que tivesse chegado da lavandaria.

Apesar da sua baixa estatura (ou talvez por isso) o encapuzado ganhava terreno, volteando os braços como que tentando nadar através da atmosfera, evitando por milímetros transeuntes, automóveis e candeeiros; e acabando por utilizar a embalagem para se lançar na escalada do portão de rede que franqueava a entrada da escola C+S.

O perseguidor ofegando como uma locomotiva atirou-se contra o portão que embora abanando resistiu, num chocalhar agoirento de correntes metálicas. Apontando a arma ao porteiro que se encontrava dentro de uma minúscula cabine, mostrou o crachá exigindo acesso imediato; ao que este se apressou a obedecer, não se livrando à passagem deste de um encontrão maldoso pelo atraso no cumprimento da ordem.

Passou pelo pátio a toda a velocidade, quase esmagando um grupo de miúdos que vinham em sentido contrário carregando mochilas de cores garridas, e agasalhados nos seus gorros e luvas de lã. – Foi por ali!... – informou-o uma miudeca de ar assustado, retirando os fones dos ouvidos e apontando para trás de si.

Ficaram todos a vê-lo afastar-se de arma em punho até desaparecer atrás do pavilhão polivalente.

Um deles riu-se para quebrar a tensão do momento, e retirando o cartão de memória do telemóvel descartável passou-o à miúda a seu lado. – O Prof. de T.I. havia de ficar orgulhoso de nós. - disse com um trejeito amargo – Foi pena terem dado cabo dele. Deita esta porcaria fora, que já não faz falta nenhuma.



Meia hora mais tarde, a miúda seguia no autocarro olhando pela janela com uma expressão ausente. A noite invadia o céu poluído e os primeiros outdoors electrónicos, ligavam-se automaticamente à medida que as células fotoeléctricas detectavam a diminuição da luminosidade. Porém a publicidade fora substituída por uma transmissão não programada.

Os dados estavam já em todos os servers da rede mundial, aparecendo em “pop-up” cada vez que alguém abria uma página.

A miúda aninhou-se contra a janela do autocarro mal aquecido, e pensou para si que os “outros” estariam sempre um passo atrás. Pois como costumava dizer o velho professor de T.I. - “Um governo que se alimenta do povo, tem sempre o cu demasiado pesado para poder ganhar corridas com aqueles que apenas transportam consigo os seus ideais”.

Sorriu imperceptivelmente, e recolocando os fones nos ouvidos começou a trautear baixinho o último êxito dos “Plastic Surfers”…

Música de Fundo
Keep The Car Running” – Arcade Fire

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Os Mercadores de Ar
- O hábito de tentar regulamentar, delimitar e taxar o que é dos outros é algo bastante difundido na sociedade moderna; ou não fosse esta maioritariamente composta pelos tipos que diariamente temos que repelir para que não nos metam as mãos nos bolsos, ou acampem no nosso televisor para nos ensinar como devemos comportar-nos na (nossa) sociedade. -

Andava ontem a ler blogs quando dei com um link para esta notícia, que me fez rir a bandeiras despregadas. É que nada me diverte tanto (socialmente, claro) como ver alguém a querer legislar ou cobrar sobre algo que já se encontra pago, ou que é um recurso natural ao alcance do público em geral.

Passe a má comparação, é como se o governo “socrático” sob o qual vivemos decidisse lançar um imposto sobre o consumo de oxigénio; ou obrigasse o comum cidadão a pagar por cada vez que consultasse determinado livro, mesmo que tivesse sido ele a comprá-lo inicialmente.

Este género de comportamento oportunista não é apanágio de qualquer camada social ou quadrante político em particular, mas sim de um tipo de mentalidade mediocrizante que floresce em qualquer lugar onde se deixe de dar atenção a questões de princípio.

É um tipo de “ideotário” a que aqui decidimos não dar nome, para que tal não suscite a tentação de lhe atribuir um estatuto ainda mais privilegiado, ou mesmo qualificação para obtenção do rendimento mínimo garantido.

Ora é imbuída deste espírito que a (ERC) Entidade Reguladora para a Comunicação Social anunciou que é competente para decidir se "determinado 'site' é um órgão de comunicação social, comunicação pública, mesmo não efectuando uma comunicação do tipo jornalístico, e que o mesmo viola direitos, liberdades e garantias previstos na lei geral…”.

Para mim nada disto tem muito de original. É um pouco como deixar a cargo de Goebbels a decisão sobre quem é um bom alemão. Já na altura foi um sistema que funcionou bem; e se Adolfo Hitler perdeu a guerra não foi por causa disso, mas sim porque contratara o astrólogo errado.

Na verdade não estou aqui para me insurgir contra a ERC. É uma entidade que faz aquilo para que foi criada (agora só falta alargar o âmbito do termo "comunicação social", de modo a que possa abranger a nossa liberdade de expressão; ou mesmo qualquer outra) e que já provou a sua “isenção” em casos anteriores passados com blogues.

O que na realidade me faz confusão é que ainda exista no mundo gente ingénua ao ponto de permitir (tal como se propõe em Itália) a “criação de uma entidade onde todos os bloguistas teriam que se registar, tendo direitos e deveres. Concretamente, os bloguistas receberiam um certificado desse organismo, pagariam impostos (mesmo que o objectivo dos blogues não seja comercial) e estariam sujeitos a um código penal”.

Esta é mesmo para rir.

A única coisa que tenho a dizer sobre isso, é que não considero aceitável qualquer forma de legislação sobre algo que não pertence a quem sobre tal deseja regulamentar (para obter poder sobre); e que é tão inexpugnável quanto indefensável sob o ponto de vista táctico.

Pelo que se um dia esse tipo de legislação for avante, lá terei que mudar de “nick” e içar a bandeira panamiana, à semelhança de todos aqueles que não se queiram ver “registados”, “classificados”, “regulamentados” e “taxados” pelo poder vigente.

Eu vim para aqui para não os aturar e não para continuar a sustentá-los.

Música de Fundo
Fight The Power” – Public Enemy



sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A galinha da vizinha é (ainda) mais parva que a minha…
- Um estudo exaustivo (ou não fosse o espécime do género cansativo) sobre aquele ser vivo (quando se mexe) que apenas serve para ver se “tem ovo”. E às vezes nem isso… -

Há quem diga que não é preciso ser avicultor para perceber de galináceos, e é bem verdade. Qualquer apreciador de frango no churrasco e empadas de galinha pode ter um mestrado em “garnizé” ou uma licenciatura em “pedrês/có-có” (esta última tem tido aparentemente muito mais “saída” que a primeira).

Para aqueles (principalmente aquelas) que possuídos da “fúria dos justos” me venham acusar de misoginia, fica já informação que “galinha” é uma designação genérica (visto que tanto é atributo de macho como de fêmea) e invariável (uma vez galinha, sempre galinha) que não faz qualquer distinção entre sexo, credos ou raças.

Galinha” é pois o último estado de alguém, imediatamente antes de apenas poder servir como matéria-prima para a fábrica de sabões, ou em alternativa, líder do Bloco de Esquerda.

Este tipo de galináceo é como os ácaros, vive no meio de nós e apesar de não conseguirmos lobrigar sequer um reflexo da sua luxuriante plumagem (embora estes não se cansem de a gabar repetidamente em tudo o que é sítio, e até mesmo em blogs) somos porém confrontados diariamente com as caganitas da espécie em questão (também à semelhança dos tais ácaros).

É pois a/o “Galinha” alguém que insuspeitamente se esconde no meio de nós, e que apenas é detectável no exacto momento do “cacarejar”.

Ainda ontem tive um bom exemplo do que acabo de expor. Vi uma daquelas pessoas que têm um comportamento absolutamente elitista, descer ao nível da “gentinha” para bater nas telenovelas. Bem… Ela na verdade queria era bater nas outras galinhas que não foram suficientemente inteligentes para fingirem que não gostam de novelas.

Começou por afirmar que tal nauseabundo produto só lhe conspurcava os sentidos porque decidira trazer a iluminação (assim como uma espécie de Lenine vestido pela Zara) a essas pobres almas vítimas do obscurantismo e pela insidiosa campanha masculina contras as pobres mães e donas de casa.

Nem me vou para aqui alargar nas parvoíces que ela escreveu, pois seria (à sua semelhança) tentar “ganhar a vida” com algo que outro já fez.

Mas este tipo de actuação é generalizado entre os galináceos, pois existe sempre entre eles uma pequena percentagem que decide evidenciar-se a partir das situações que critica nos seus semelhantes e que jura a pés juntos não praticar nem por actos nem por pensamentos.

É um pouco como o caso daqueles/as que escarnecem publicamente de “amigas/os” e da sua vida privada, sem se lembrarem que o ouviram das/os mesmos/as amigos/as, a quem confidenciaram a sua “pequena e maravilhosa aventura” que deveria ficar no “segredo da partilha”.

Do mesmo modo que o cacarejar é símbolo de ignorância, é essa mesma ignorância que dá força ao cacarejo e principalmente um desmedido orgulho.

O orgulho nobre de uma ave de capoeira… Igual a esta que me preparo para trinchar.

Desejem-me bom apetite (e já agora bom fim de semana)

Música de Fundo
Psycho Chicken” - The Fools


segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O que me vai safando ainda são as correntes…
- Um post de louvor a essas iniciativas que lá vão arranjando maneira de nos livrar dessa árdua e chata tarefa que é escrever… -

O meu post de hoje era dedicado a esse fascinante tema que são as “teorias de conspiração”.

Um texto centrado no personagem “Hugo Chávez”; esse fantoche do imperialismo e do capitalismo internacional, que disfarçado de líder revolucionário está neste momento a arrastar pelas ruas da amargura, a reputação dos tais proletários de todo o mundo que não aproveitaram para se unir enquanto ainda era tempo.

A coisa mais triste nisto dos “Governos do Povo” (assim como na maior parte das coisas em que aparece a palavra “povo) é que conseguem ser tanto ou mais tirânicos do que os governos dos ignóbeis fascistas das “Classes Altas”. O que no caso concreto do povo Venezuelano se traduz na tragédia que é além de viver sob uma ditadura, ainda passar pela vergonha que é ser representado por aquele espécime obtido por cruzamento entre Fidel de Castro e Alberto João Jardim.

Ás vezes este tipo consegue fazer com que se tenha saudades dos bons generais e coronéis que encomendavam grandes quantidades de óculos escuros com “armação de massa” à Óptica das Avenidas (ainda ajudavam a manter a nossa balança de pagamentos), que apesar de não fazerem grande diferença dele ao nível da actuação, tinham pelo menos a vantagem de não denegrir ainda mais a fraca opinião que já tínhamos sobre tudo o que é sul-americano.

É claro que um post destes só iria trazer-me chatices com gente de todos os quadrantes. Desde os apoiantes de Bush (que ainda estão em deliberação sobre a conotação a atribuir ao termo “donkey) àqueles “enjoativos de esquerda” que apoiam qualquer bicheza que rasteje de uma pedra para fora, desde que este se auto-intitule comunista ou socialista (dois termos que pelo seu uso indevido e continuado, perderam já qualquer significado).

Para juntar a isso tudo ainda há a indignidade que no final destas “entradas de leão e saídas de sendeiro…”, é sempre manifestada por este tipo de cromos, pois após todo o estardalhaço de ontem, “Hoje Hugo Chávez afirmou que solicitou ao ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, Nicolás Maduro, que fale como o seu homólogo espanhol, Moratinos, para evitar que o incidente prejudique as relações entre os dois países. - Diário Digital / Lusa”.

O que acaba por deitar por terra aquela velha treta sobre “as causas justas que ninguém consegue vergar” e que nos deixa a ideia que se o “elefante a engolir” tiver apenas um décimo do tamanho do ego de Hugo Chávez, mesmo assim este vai ter muito em que ocupar a boca nos próximos tempos.

Mas felizmente safei-me a tempo pois fui nomeado para mais um prémio, desta vez pelo Cap. Hummm. Não é bem verdade... Já tinha sido anteriormente nomeado para o mesmo pela Hipatia e pela Maria Árvore; mas desta vez é que me deu jeito para não ter que escrever sobre o sacana do Hugo Chávez.

Bolas!... Do que eu me safei

Música de Fundo
Sentimiento Nacional” – Guaco / Ricardo Hernández



sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Antes Fosse a Banda da GNR
- Um post de mistério policial sem perseguições ou tiroteio, mas com a ligeira sensação que fui roubado… -

Estava uma bela noite para degustar a boa cozinha Nepalesa e ouvir música de ferrinhos. E podem crer, se eu soubesse o que sei agora teria feito com que isso se perpetuasse pela noite fora; só que já tinha o bilhete, e como vocês sabem um bilhete para concerto é algo que se estraga se não for usado (um pouco à semelhança do meu órgão mais importante).

Guiado pela Ovelha de Blog entrei na sala quase cheia, encostei a carcaça ao gradeamento que rodeava o PA (um homem na minha idade tem que se amparar) e preparei-me para um dos melhores concertos dos últimos tempos.

A partir de agora passarei a dizer (a despropósito ou não) – “A preparação não é tudo…” – E porquê? Bem, porque não foi nem pouco mais ou menos o melhor; ou nem pouco mais ou menos perto disso. Ou mesmo nem pouco mais ou menos. Ou apenas, nem por isso…

Correu tudo muito bem até o tipo à nossa frente (um autêntico “bisonte” aí com uns 120Kg) fumar a segunda ganza e ficar ali a dançaricar enquanto olhava fixamente o telemóvel. Comecei a ficar assustado pois uma massa daquelas em movimento livre poderia fazer coisas incríveis aos dedos dos nossos pés ou a outros órgãos ainda mais sensíveis.

Mas como o bisonte não dava sinal de ter reparado na nossa presença e a sua oscilação não ultrapassava os 33º, concentrei-me em apreciar a primeira música dos “Blonde Redhead”, cuja vocalista evolucionava pelo palco envergando um uniforme de colégio daqueles que se compram pelo correio (para as estudantes mais apressadas) e que teria sido perfeita se além de não desafinar tivesse também uma gémea.

Fizeram uma boa primeira parte, pois conseguiram “agarrar” o público e manter uma boa cadência sem deixar “cair” o espectáculo. É claro que eu quase não percebi patavina do que ela cantou (o som estava muito ”mascavado”); mas se temos à nossa frente uma oriental vestida de “lolita”, também não nos vamos preocupar muito com o que ela está a dizer, pois não?

Entretanto já estávamos no intervalo e o tipo à nossa frente lá continuava a fixar o telemóvel, como se aguardasse um importante telefonema do “Deus dos Bisontes”. Mas uma vez que não se ia embora nem caía para cima de nós, optámos por o ignorar a partir dessa altura (embora tivéssemos que esticar o pescoço para conseguir ver algo).

Chegámos mais tarde à conclusão que se tratava de um daqueles tipos, que foram para o site do Blitz tecer rasgados elogios. Sim, porque para gabar assim tanto a actuação dos Blonde Redhead só mesmo com cinco ganzas pelos queixos; ou então tendo um fraquinho por Hentai em geral e por “Asian Teens” em particular (Sim. Que o resto não chegou para justificar tanto entusiasmo).

Agora os Interpol…

Foi uma pena. Mas é que foi mesmo uma pena! E logo eu que tinha gostado tanto do CD que saquei da net, chego ali e descubro pela enésima vez que não há nada que chegue a um bom estúdio para transformar uns tipos quaisquer numa banda de culto. Ao menos (e como muito bem destaca a nossa “Ovelha-Repórter) podiam ter tido um pouco mais de cuidado com a ordem de saída das músicas.

Mas não. Aparentemente Paul Banks desta vez apostou na sua espantosa capacidade em conseguir dizer “Boa Noite” e “Obrigado” com um sotaque impecável; o que fez delirar a plateia quase tanto como se tivessem tocado algo de jeito.

Mas lá levaram o concerto até ao fim sem nada digno de nota, excepto talvez o público se ter esforçado quase tanto ou mais do que eles para que a noite não fosse totalmente desperdiçada.

Safou-se o facto de o tipo à nossa frente ter fumado aquelas ganzas todas. Pois como “fumadores passivos” acabámos por sair dali ainda bastante bem dispostos, e com a sensação de que no geral até não tinha sido mau de todo.

Não há dúvida que a droga é uma coisa perigosíssima…

Música de Fundo
23” – Blonde Redhead

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Monólogo com os meus pedais
- Quando o nosso coração está enterrado na cidade, basta um fugaz vislumbre do campo para que todos nos julguemos poetas –

Estava ali parado a olhar para longe. A pensar na inutilidade de tentar descrever a paisagem; e a ver não o que estava em frente aos meus olhos, mas a impressão que isso causava (e que são duas coisas bem diferentes).

Olhei novamente para o moinho, com mais duas pás ferrugentas em relação ao ano passado; e para a água que gradualmente se vai tornando limosa e escura. Uma espécie de misteriosa janela para as trevas, deitada ali no meio do campo como uma insólita toalha de piquenique com vista para a cidade.

Custou-me um pouco a crer que tinha vindo dali; daquele caixote mais azulado perto do canto do cenário. Como se para ter consciência de mim tivesse que despir-me de mim próprio. Mas se me despisse de mim… será que continuaria a ser eu próprio?

Ou estaria apenas a tentar agarrar a minha sombra como fazem às vezes os gatos e as crianças?

Se eu fosse mais velho gostaria de ser aquele moinho. Veria nascer o sol todos os dias e todos os dias me interrogaria sobre as mesmas coisas, ao jeito de um moinho a quem a água que transporta parece ser sempre a mesma. Como se transportasse o próprio tempo, imutável por um instante apenas.

Limpei as mãos aos calções e recomecei a pedalar. Naquele dia sentia-me como Alberto Caeiro.

Ah, mas se eu fosse Alberto Caeiro, pedalava daqui ao Barreiro…

Música de Fundo
Bicycle Race” – Queen

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Deixem-me Falar-vos da Morte…
- Onde algo que quase sempre acontece aos outros (todas as vezes menos uma), afecta tanto esses como aqueles que dela se vão livrando. –

Toda a gente tem a sua ficção pessoal sobre a morte dos outros. Isto porque é algo que não se conhece senão por experiência própria; e por essa altura deixa de ter qualquer interesse porque… bem… estamos mortos e já não serve de nada.

A morte afecta tanto ou mais os vivos do que aqueles que seguem sentados na barca de Caronte, presos nas mandíbulas de Anubis ou de mão dada com Santa Teresinha. Eles vão pura e simplesmente, deixando aos que ficam a trabalheira de se livrarem de uma enorme embrulhada emocional e da despesa do enterro.

Provado está há muito tempo que é ela o que mais afecta os vivos.

Independentemente de tudo o que tenhamos sentido e possamos ainda sentir por aqueles que morreram, o dia de ontem (e todos os outros de anos anteriores) não terá sido o dos mortos, mas da expressão da nossa dor. Pois todo o culto ocidental dos mortos expressa a nossa perda, a falta que nos fazem os que partiram e de como o nosso mundo nunca mais será o mesmo sem a sua presença.

Porque por mais que todos se debatam não é pelos mortos que os vivos choram; mas pela sua própria solidão.

Já aqui falei uma vez do festival gótico que era o dia de finados na minha infância. Um oceano de choros abafados no mórbido odor das flores decadentes, bordejado de ciprestes lacrimosos que se perfilavam na névoa como velhas teimosas; e do cheiro a mofo da terra revolvida pela pá do coveiro.

Mas a minha infância ficou já há muito para trás, como se fosse a de alguém que também morreu; porque é o que acontece ao tempo em que viveram aqueles que já fomos.

Se tivesse que ritualizar o dia de finados fá-lo-ia como os mexicanos, que confraternizam com os seus mortos em duas animadas noites; nas quais as violas e os trompetes não deixam dormir ninguém.

Sei que a minha avó diria que os crânios de açúcar me fariam mal misturados com o mezcal, mas também tenho a certeza que iria gostar da dança do chapéu.

Feliz dia de los muertos, abuela!

Música de Fundo
El Dia De Los Muertos” – W. W. Diablo

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