quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Cartaz TV
- Onde o autor imitando a característica voz rouca e jovial do saudoso Jorge Alves, nos põe ao corrente de um programa que fará as delícias de humoristas e empresários desta terra. Mas por razões diametralmente opostas… -

Olá amigos! A todos, muito boa noite.” Diz-se por aí, e com toda a razão, que a realidade é muitas vezes tão divertida que dispensa o recurso à ficção.

E a prová-lo está a notícia publicada numa daquelas revistas de TV que se compram todas as semanas (permite-me saber quando não devo ligar a televisão, embora falhe imenso nas “previsões), onde se informa estarem em fase final as negociações entre a TVI e o Comendador Zé (esse “Homérico” e atabalhoado personagem), para o arranque da versão portuguesa do concurso “The Apprentice”.

Apesar de o formato ainda ter alguns pormenores por definir, de modo a se adaptar à conjuntura nacional. Foi-nos fornecido um resumo do futuro concurso que constará das seguintes fases, em que os concorrentes terão que provar a sua capacidade empreendedora, cultura, carisma e outras qualidades tão necessárias a futuros magnatas. Emulando assim (se o lograrem alcançar) a figura ímpar que é o Senhor Comendador.

1º - A Dislexia e a sua Importância no Discurso Público. Ferramenta deveras útil que permite ao seu utilizador (mesmo nada tendo para dizer) elaborar discursos e responder a entrevistas, nas quais emite sons guturais que se assemelham a línguas mortas (latim, grego, de vaca…).

2º - A Venda Ambulante de Legumes e a Reformulação de Modelos de Gestão. Como começar apenas agarrado a uns tomates, e através de pressão localizada conseguir transformá-los em barras de ouro.

3º - O Cultivo da Imagem (uma variante do ramo dos legumes). Como deixar a sua marca na política internacional através de negociações absolutamente secretas (mesmo muito, mas muito secretas).

4º - O Mecenato das Artes em Sistema de Leasing. Disciplina que consiste em investir na aquisição de “arte”, convencendo alguns políticos (que nada percebem de finanças) a pagar a manutenção e conservação da referida colecção, até que esta possa ser transferida para uma fundação após a sua morte (ou até encontrar quem esteja interessado em estendais ferrugentos e abat-jours de ráfia).

5º - Retórica Circular Aplicada. Uma arte que permite dizer enormidades, explicando a cada passo que se está de luto pela cultura nacional (o que serve de justificação para a ausência desta no referido contexto).

Sendo em aspecto e simpatia (embora não em capilaridade) muito superior a Donald Trump, o anfitrião e juiz deste novo concurso, é uma personagem importante e sobejamente conhecida. Tendo até uma menção no "Apartheid Grand Corruption - A report prepared by civil society at the request of the Second National Anti-corruption Summit" escrito por Hennie van Vuuren em Maio de 2006 e publicado pelo Institute for Security Studies de Cape Town. Que é uma espécie de “Who’s Who” para tudo o que é tipo importante lá no sítio.

Ficamos pois a aguardar as primeiras transmissões. Em que cada sessão terminará com a expulsão do concorrente menos qualificado, através da famosa frase proferida com inconfundível sotaque - You’re Fired! Fuck You!!!...


Música de Fundo
Joe le Taxi” – Vanessa Paradis


sábado, 26 de janeiro de 2008

We interrupt this broadcasting…
- As pessoas que me conhecem verdadeiramente (eu sei que isto não é modo de começar um post de parabéns, mas aqui vai) sabem que a minha memória é algo que funciona de um modo que se torna quase aleatório. Mas isto é claro que não serve de desculpa para o atraso nesta comunicação. –

Fez ontem quatro anos que Vanus (ou Vanus de Blog, como carinhosamente lhe chamam os fiéis e oficiantes da IIB) se iniciou nos mistérios blogosféricos e na escrita online.

O seu estilo de escrita (com carne e sangue, tal como aconselhava Nietzsche) conquistou de imediato um selecto leque de leitores, que se tornaram alguns deles verdadeiros amigos; contrariando aquela teoria de que tudo neste “universo” é a fingir.

Não sei se os verdadeiros amigos se esquecem destas datas ou não. Eu esqueci-me, por diversas e variadas razões de ordem profissional, pessoal, e tenho inclusive uma declaração do London County Lunatic Asylum que atesta o facto de eu não ser fiável no que toca à memorização de datas anteriores ao reveillon passado.

Mas mal ou bem, aqui deixo as minhas felicitações e um grande beijo para a minha blogger favorita, fiel comentadora e acima de tudo amiga.

Parabéns, Vanus de Blog.

Música de Fundo
Certainty Of Chance - The Divine Comedy

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Riso Lunar
- Numa forma atractiva e arredondada como materialização de todos os desejos, mas virada para o lado errado. E a culpa é dos Turcos! -

Sou um tipo muito seguro das minhas convicções e de algum conhecimento que fui acumulando; mas tenho alturas em que tudo isso parece desaparecer como que aspirado pelo ralo da banheira. É quando dou largas à minha pouco controlada teimosia.

Evidentemente que o facto de confessar isto, não me torna nem menos teimoso nem me desculpabiliza (embora haja quem em proveito próprio, professe essa pueril convicção) das consequências que daí advenham. Mas adiante…

Sempre gostei muito da lua.

Isto deve-se possivelmente ao facto de desde criança estar habituado a ouvir as maiores enormidades sobre o referido corpo celeste - lembrei-me agora por “corpo Celeste”, que ela tinha certas parecenças com a lua; especialmente quando em decúbito ventral e apoiada nos cotovelos… mas deixemos a Celeste em paz - desde a história do homem condenado a penar pela sua superfície com um molho de mato às costas, porque o tinha ido cortar a um domingo; até à sua génese se dever ao facto de o Altíssimo (esse famoso basquetebolista) adorar queijo. Mas isso também eu.

Para esclarecer todas as dúvidas e mais algumas (pois sou muito “metediço”) quis tornar-me astronauta. Mas isso foi no tempo do Salazar, que era ainda um bocado pior que o actual Presidente do Concelho; e como tínhamos pouco dinheiro, o meu pai decidiu que eu teria que escolher outro meio de transporte. Tendo acabado por me empregar na Indústria Naval, enquanto usava o meu tempo livre após as aulas nocturnas para o estudo das estrelas (uma delas faz agora telenovelas).

Mas a lua continuou a ser a minha favorita. Deitada num lençol negro ou azul celeste conforme a luz, encolhida ou na plenitude da sua forma opulenta; seduzia-me com o seu sorriso prateado, apenas interrompido por uma ou outra cratera. Mas quem é que nunca teve borbulhas?

Enquanto os outros adolescentes tinham nos seus quartos um globo terrestre, eu tinha uma reprodução (com o copyright da NASA) do globo lunar; com a indicação de todos os pontos geográficos conhecidos até essa altura. Alguns perguntarão porque não tentei então seguir astronomia; mas eu nunca fui do género de ficar a olhar enquanto os outros se divertem. Ou vou lá eu, ou nada feito.

Só que a vida é uma coisa enorme que quase sempre ocupa todo o nosso horizonte visual, pouco mais deixando que possa ser visto; e a lua foi ficando no seu local habitual, enquanto o meu tempo ia avançando. De vez em quando lá olhava para cima, apenas para matar saudades, pois sabia que ela continuaria ali enquanto eu vivesse. E que se ela desaparecesse, bem eu podia estar descansado pois não viveria mais.

É assim que se alicerçam sólidas certezas, que podem eventualmente revelar-se completamente erradas. Eu conhecia a lua. Para quê então preocupar-me?

Foi tudo isto o que eu há pouco recordei após uma conversa sobre a lua. Apesar de toda a informação que acumulei sobre o assunto, e das reguadas e caldaças que me deram na escola primária, insisti em trocar o formato das fases da lua com uma teimosia digna de Mário Lino.

Entretanto o meu velho “mecanismo de segurança contra a parvoíce” entrou em funcionamento, parei um pouco e fui fazer algumas verificações; acabando por chegar a uma conclusão bem divertida…

Então não é que o “crescente islâmico” da bandeira turca está em minguante?...

Música de Fundo
Sensual SeductionSnoop Dog

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O Navio Dentro da Cidade
- Acho que André Kedros não se iria chatear por causa deste título; pois descreve o objecto e a sua posição no local, cuja condição é igualmente esclarecida –

Aproveitei ser domingo e o parque de estacionamento estar quase deserto, para ir fotografar o navio.

Em 1832 no estaleiro de Damão, construiu-se a “D. Fernando II e Glória”. Idealizada por Gil José da Conceição (construtor naval e guarda-marinha) e por Yaodó Semogi; experimentado carpinteiro naval e igualmente construtor, de origem Muçulmana. Feita em de teca de Nagar-Aveli (na altura a mais resistente e de melhor qualidade) foi enviada para Goa com o fim de ser aparelhada em galera, o que aconteceu apenas por volta de 1845.

Armada com 50 canhões, deslocava 1.849 toneladas impulsionadas por cerca de 2.052m² de pano. Tinha 86,75 metros de comprimento, com 12,80m de boca e atingia uns suficientes 8 nós (14,816Km/h). Encontra-se neste momento a ser aparelhada na doca Nº 2 da antiga H. Parry & Son, em Cacilhas; onde oportunamente será aberta ao público.

Não vou declamar história nem fazer a cronologia do seu tempo no activo, pois isso está muito melhor explicado em Sites da especialidade; e para mim continua a ser o Navio-Escola que um dia se incendiou. Era eu ainda miúdo.

Poucos anos mais tarde vim morar para a margem sul, e juntamente com alguns amigos fizemos diversas expedições à Ponta do Mato. Onde os seus restos enegrecidos se encontravam encalhados; de cavername à vista como uma baleia esventrada. E nadávamos até aos destroços, passando horas em batalhas imaginadas, abordagens e pilhagem generalizada pelo Extremo Oriente (acho que foi a minha fase “Salgari”).

Agora está de volta. Mas as coisas que voltam, mesmo que boas, nunca são as mesmas. Porque entretanto se transformaram.

Música de Fundo
Lets Dance to Joy Division” – The Wombats

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Corte de Cabelo 001/08
- Por ajuste directo e sem recorrer a concurso público ou limitado; embora com a desvantagem de não beneficiar da protecção do Caderno de Encargos e das Condições Técnicas Especiais -

Se há “commodity” em que a tradição é uma mais-valia, essa será decerto o barbeiro “habitual”.

Embora não vos tenha contado (e para que vos iria incomodar com episódios regulares sobre o meu escasso topete?), o “Tremidinho” reformou-se há alguns meses; pois tanto ele como o irmão (ainda mais “carunchoso” que ele) começavam a ter alguma dificuldade em vir da Ajuda até Cacilhas só para abrir a barbearia a horas.

É claro que devido ao seu saudável e habitual mutismo, só fiquei ao corrente do facto quando um belo dia cheguei lá “de urgência” com o cabelo quase a tocar nas orelhas, e encarei com um outro tipo dentro da habitual bata branca.

Não sei se sabem, mas as coisas entre barbeiros e clientes seguem umas regras muito rígidas, num misto de “omertà” e Rotary Club. Pelo que após uma breve troca de impressões, referências e reminiscências, chegámos à conclusão que ele me cortara o cabelo por algumas vezes há cerca de vinte anos no cabeleireiro do Centro Comercial Bica; e pudemos assim reatar uma relação de confiança mútua.

Durou esta harmonia por cerca de “dois cortes” ou sejam, quatro meses em que me bastava sentar na cadeira e adormecer a olhar para aqueles programas idiotas que passam pela manhã nos canais “atmosféricos” da TV; e que todos os barbeiros e donos de pastelarias têm a mania de sintonizar.

Mas ontem quando entrei na barbearia vi logo que algo de grave se tinha passado. A televisão era a mesma, as recordações de Cancun (pelas quais ele nutre um especial carinho) e aquele barrete “monhé” que trouxe do Paquistão, estavam ainda pendurados na parede. Mas em vez da face conhecida e do sorriso jovial do meu habitual barbeiro, encarei com um personagem estranho.

A princípio deu-me a impressão que tinham acasalado o velho Gepetto com uma tartaruga das Galápagos, pois tanto a expressão como a textura da pele e o aspecto vetusto se enquadravam no padrão; já não contando com as lentes por onde se sumiam uns olhos embaciados que pareciam ter presenciado a explosão de vários universos.

Mas eu já me tinha desviado do meu caminho e não seria por isso que iria deixar de cumprir o imperativo do meu habitual “pente três”.

Fazendo jus à minha divisa “nihil admirari”, sentei-me calmamente ao lado de outro potencial cliente que aguardava igualmente que lhe fossem proporcionados cuidados de tonsura. Eram 08h e 45m; e o dia ainda se estendia pelo futuro numa promessa diáfana e indefinida.

Peguei na T3 (A Revista Nº1 em Tecnologia de Topo!) e dediquei-me a admirar os brinquedos para adultos enquanto ouvia a tesoura matraquear, com o som semelhante ao de uma UZI com silenciador. E tão embrenhado estava na leitura que só levantei os olhos da revista quando o tipo que esperava a meu lado se levantou. Eram 09h e 25m. Estranhando a duração do corte de cabelo, coloquei a revista a meu lado sobre a mesa em ferro forjado e dediquei toda a minha atenção à operação de tosquia em curso.

O tipo realmente mexia bem os dedos e as lâminas da tesoura comportavam-se como castanholas sevilhanas, mas algum tempo depois reparei que apesar de toda aquela actividade, pouco cabelo se acumulava no chão.

E demorava. Blog!!! Como o tipo demorava… Eu conseguia já sentir as calotes polares a engrossarem, preparando-se para mais uma idade do gelo que arrasaria todos os meridianos até quase ao equador. E imaginava-me a ser descongelado milhares de anos mais tarde juntamente com mamutes, o barbeiro, o Almeida Santos e sei lá mais o quê…

Eram 10h e 05m quando respirei de alívio ao ver o barbeiro sacudir aquela espécie de espanador por cima do outro tipo; mas esse alívio foi tão fugaz como os poucos momentos coerentes de Sócrates. Sentei-me na cadeira e subitamente solucionei o mistério da tesoura frenética; o tipo tremia como se estivesse a meio de uma crise daquela doença que parece uma marca de canetas. Ainda bem que eu sou cliente dos cortes “à máquina”. Mas isso era apenas conversa de optimista.

Por volta das 10h e 10m já eu tinha mudado de ideias, pois o pente Nº 3 não se aguentava no encaixe do aparelho, alegadamente porque tinha “um bocadinho de óleo” devido à operação de lubrificação da máquina. A coisa prometia. Entretanto nos poucos instantes que o tipo conseguia empurrar aquela charrua eléctrica pelo meu crânio afora sem se despistar, os tremeliques que o afectavam faziam a máquina comportar-se como uma espécie de Moulinex perversa; fazendo-me sentir saudades do velho “Tremidinho”.

Para encurtar a descrição de tão penoso episódio, acrescento apenas que devido aos múltiplos desencaixes do pente, a minha cabeça começava a parecer-se com a do Johnny Rotten (por fora e por dentro) nos velhos tempos. Acabando por recorrer (para disfarçar o massacre) ao pente Nº 2 e após este (que afinal também não encaixava bem) ao Nº 1 ou lá o que era; pois sei apenas que se tratava de uma finíssima peça de plástico que não teria mais que um milímetro de espessura.

Foi olhando o espelho que me foi permitido recordar as minhas velhas “cicatrizes de guerra” (que moldaram a minha psique através dos anos): pedrada na Rua dos Remédios (3 pontos), carrossel em Alverca (7 pontos), estilhaço de um disco de rectificadora (4 pontos) e mais umas mossas não identificadas que se perdiam nas brumas da história.

Reprimindo as minhas tendências homicidas paguei apressadamente e saí para a rua. Eram 10h e 40m. O sol despontava das nuvens, arrancando reflexos prateados do meu martirizado couro (pouco) cabeludo.

Para me acalmar fiquei ali a respirar o ar fresco da manhã, enquanto contemplava duas arqueólogas que de rabo para o ar examinavam o resultado das escavações no Largo de Cacilhas. Tentei ver as coisas pelo lado bom… Sempre tinha achado piada ao Comandante Picard…

Por isso caro leitor ou viandante, se ao demandar o Deserto Soviético da Margem Sul fores surpreendido por um reflexo ofuscante; não te iludas pois o farol de Cacilhas já foi demolido. Serei apenas eu que dou o meu habitual passeio de bicicleta.

Música de Fundo
Every Morning” - Sugar Ray

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Fumador Aprisionado
- Esquiço em toalha de mesa durante um jantar de trabalho -

Hoje o tempo precipitou-se em frente deixando para trás todos os meus planos para escrever o que fosse.

Para compensar a falta de post fiz o (péssimo) desenho acima, que dedico a todos os fumadores que lutam contra o fundamentalismo, o vício e a ASAE.

Música de Fundo
Smoke on The Water” – Deep Purple

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A Bola de Merda
- Onde o autor se interroga (ou não) sobre o motivo pelo qual se deixou de forrar os caixotes do lixo com jornais; chegando à conclusão ter sido talvez por sérios riscos de contaminação do próprio lixo… -

O jornal que acompanha os meus pequenos-almoços dos dias úteis é o Correio da Manhã. Sem dúvida que não se pode considerar uma leitura de qualidade; mas no Bairro Amarelo, ler o Correio da Manhã é já um pouco como ser apreciador de Racine.

Posso pois afirmar que como e bebo Racine ao pequeno-almoço. Desde a última página até quase às centrais em sentido inverso; isto porque por essa altura já acabei as torradas, e o resto dos frequentadores espera ansiosamente pelas novidades da vida sentimental da Merche Romero.

Sob esta bátega diária de informação (mesmo que inquinada) é natural que raramente compre semanários. Um pouco também porque a missão dos semanários (como eu a vejo, claro) não é tanto a de informar, mas mais entreter e formar opiniões. E eu, por esta idade já estou completamente formado e pouco mais me irá crescer (espero).

A piada que eu encontro nas minhas leituras do Correio da Manhã, é o raramente ser informado a tempo e horas, de algo que efectivamente me interesse; como foi o caso da morte de Luís Pacheco. É claro que ele já não ia a lado nenhum, mas tive pena que só dia sete publicassem um artigo com o título (falacioso) “Morreu o Maldito Pacheco”.

Mas é essa a natureza das coisas. E do mesmo modo que um escaravelho habituado a empurrar bolas de merda não nos vai cozinhar uma dose de ”Crêpes Suzette”, ninguém espera que publicações que vivem da maioria das fraquezas humanas (mesquinhês, sede de sangue, morte, desgraça e escândalo) venham a ser acusadas de bom gosto.

Mas isso foi antes de eu ver o anúncio de página inteira na edição de hoje, no qual o semanário Sol promete para a sua edição de 12 de Janeiro - A última entrevista de Luiz Pacheco. “O testamento chocante de um autor maldito – Ao bom estilo de “O Crime”, do “Jornal do Incrível” ou mesmo do “Tal & Qual”.

Aparentemente o tipo tinha o condão de despertar em algumas pessoas este tipo de reacção. E até embirrou em morrer num sábado à noite só para trocar as voltas aos semanários; que em vez de se terem podido refastelar na sua carne, são agora obrigados a “snifar-lhe” as cinzas na esperança que ainda “dê qualquer coisa”.

Era essa a “maldição” de Pacheco e a raiz do neo-abjeccionismo. Ser a cruel imagem de tudo aquilo que os outros também têm dentro de si; um espelho dos defeitos do mundo e das fraquezas dos homens, que finalmente se quebrou deixando para nós a tarefa de (os que queiram) lhe reunir os pedaços.

Quanto à entrevista, acho que não a vou ler.

Dar dois euros pelo semanário Sol, é o mesmo que pagar para ler blogues!...

Música de Fundo
Beatsound Loverboy” – Slimmy

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

As Arrumações do Ano Novo
- Mesmo os mais arrumadinhos, acabam por ter que ir deitando algo fora ou ficam com o sótão atafulhado. Por isso, seguindo a velha tradição de deitar fora todas as tralhas no Ano Novo, aqui ficam (livres de “royalties”) algumas ideias e frases que não usei em 2007; e que pelos vistos também não usarei em 2008… -

Talvez fosse boa ideia (aliás a maioria achou) aproveitar o facto de Luiz Pacheco ter “escapado de vez”, para capitalizar o que li dele e quais os sentimentos contraditórios que me provoca a sua escrita. Mas como a sua escrita na verdade não me provocava quaisquer sentimentos contraditórios; achei que talvez o melhor fosse fazer um daqueles posts “garage sale” e decretar o Mês Internacional do Sexo Anal.

A não ser que alguém se queixe de ser demasiado tempo; pois nesse caso ainda estamos a tempo para reduzir as comemorações a uma quinzena apenas.

Pensando bem… Acho que o Luiz Pacheco teria gostado desta iniciativa; especialmente se o entrevistassem sobre o assunto.

Mas vamos ao que interessa:

* Argumento para telenovela *

- Dadinho reforma-se e regressa ao sertão, quando decide reatar os conhecimentos de antanho descobre porém que a sua namorada de infância, era na verdade uma anã com 45 anos (que entretanto já morreu de velha; o que deve encurtar bastante a telenovela), e que desapareceu numa manhã muito ventosa. -


* Frase idiotas para gente inteligente ou vice-versa *

- Era um tipo tão insignificante, que tinha que inventar os seus próprios inimigos. -

- Compreende-se um homem que faz algo porque o “agarraram pelos tomates”. Qual então a motivação daquele que não os tem? –

- Imensa gente vai sentir a tua ausência quando morreres. Alguns vão tentar confirmá-lo. – (Ó Pacheco, juro que não é contigo!)

- Se o Jorge Palma não fosse vivo ainda, ele seria o Vítor Espadinha do Século XXI. –

- Paixão é aquela fase em que os amantes adquirem as armas com que lutarão na altura em que se passarem a odiar. -

Por hoje é tudo. E quanto às comemorações… Vão dizendo alguma coisa.


Música de Fundo
The Charming ManThe Smiths

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

A Igreja do Imaculado Blog
- Mensagem de Ano Novo de Sua Velocidade TheOldMan, Pontifex Maximus da Fé de Blog e derivados; em que se dá conta do Reveillon e da inutilidade que é ficar acordado até mais tarde para tentar ver a diferença entre os dois anos… Ou então não… –

Numa época em que até o mais obtuso dos antropóides se pode dar ao luxo de botar palpite sobre o futuro, cabe-nos a nós Gente de Blog, manter alguma sanidade no meio de toda esta voragem de ficção telenovelesca.

O futuro, meus caros. Como sabeis não existe… Ainda…

É assim uma espécie de promessa governamental que nunca chegamos a ver na sua plenitude, pois é invariavelmente anunciado de forma enganosa; e principalmente por ignorantes (que como sabeis, são os únicos que se aventuram a predizer o futuro, sem avisar primeiro que estão apenas a gozar).

Quando no início da criação Blog inventou o tempo, disse em voz alta para si próprio como se estivesse lá mais alguém para o ouvir – Não há tempo como o presente! – E tinha razão. Pois o presente é o único segmento temporal minimamente sólido para se estar.

Ou não fosse igualmente ele que consegue segurar as esfarrapadas pontas do passado, e ao mesmo tempo alicerçar aquele mesmo futuro que nunca conseguimos ver construído.

Após isto e como qualquer típico cientista, partiu do princípio que toda a gente iria facilmente perceber o funcionamento da coisa; deixou o tempo a correr como se fosse a água quente para o banho e foi à sua vida (o que na eternidade pode significar imenso tempo).

Isso sem lhe passar pela cabeça que a criação tanto do passado como do futuro, iriam ter sérias repercussões nos habitantes do presente. Que descurando o seu próprio tempo poderiam ser tentados a distrair-se deste, em benefício tanto do anterior como do seguinte.

É por isso que vos vou contar hoje uma parábola de Blog. Uma parábola em dialecto (ou lá o que os linguistas chamem a isso) Brasileiro. Uma vez que o seu narrador, é o dono do local onde tomo habitualmente o pequeno-almoço aos fins-de-semana (um dos poucos brasileiros que merecem a minha simpatia); e que curiosamente é sobre o tempo.

***

(prá lê, cu àqueli sótáquí hábituau)


Um dia, farto da sua triste vida de vendedor de banana e preocupado com o futuro, Tuca Gorgonzola decidiu consultar um Pai de Santo (tinha um filho que era muito boa pessoa), e assim tomar conselho sobre o rumo a dar à existência.

O Santo Homem não estava nos seus dias, pois ainda não se recompusera do reveillon. E cada vez que tentava deitar os búzios para alguma adivinhação, o ruído irritante destes a cair no solo complicava-lhe com os nervos; só lhe apetecendo desatar à bordoada a tudo e todos.

Antes sequer de entrar no “consultório”, já Tuca Gorgonzola moía a paciência ao oráculo com as suas dúvidas sobre o futuro e recriminações sobre o passado. O que era muito chato, pois o corredor fazia eco e o outro estava de ressaca.

O Pai de Santo (que se chamava Silvério de “deixa lá”) azucrinado por toda aquela tagarelice carioca, parou bruscamente a meio do corredor e encarando o inoportuno cliente, apontou a extremidade de onde tinham vindo, dizendo – Aí está o seu passado. Onde estamos, é o seu presente; e ali… - disse indicando a ponta oposta do corredor, onde se encontrava a entrada do consultório – É o seu futuro. E agora faça como eu disser.

Tuca tentou ostentar o ar mais esotérico possível, e aguardou.

- Concentre-se e olhe pro seu passado. – Ordenou o Pai de Santo com voz cava, apontando-lhe a porta da rua. Quando Tuca virou para lá a cabeça, foi premiado com uma sonora estalada que lhe encheu os olhos de lágrimas.

Justamente indignado virou-se para o ancião, que não lhe dando tempo para dizer o que fosse, logo ordenou. – Depressa! Busque seu futuro depressa! – Instou-o ele, apontando a porta do “Consultório”.

Mas quando o cliente obedeceu, assentou-lhe na base do pescoço uma “caldaça” digna de uma cerimónia de praxe; o que lhe fez aparecer uma mancha vermelha que deve ter alastrado quase até aos boxers verdes e amarelos.

De olhos esbugalhados e sob efeito da adrenalina que lhe invadia o sistema circulatório, o vendedor de banana tentou “virar-se” ao Santo Homem que facilmente o imobilizou com uma “chave de braço”; pois também era mestre de capoeira. – Calma, guri… - Instou este benevolentemente. – É esta a lição que tenho para lhe dar. Sacou?

Tuca Gorgonzola começou a resmungar algo sobre não confiar mais em velhos vestidos de branco, mas lembrou-se das caldaças e da “chave”; pelo que abanou horizontalmente a cabeça com a sua expressão mais ignorante (o que conseguiu com relativa facilidade).

Suspirando enquanto enfiava as mãos até ao fundo dos bolsos do roupão de algodão turco, Silvestre de “Deixa lá” virou-se para o bananeiro, e salmodiou – Blog deu-nos o tempo para que o usemos e aprendamos com ele. E tal como na escola, todas as distracções que possamos ter serão penalizadas.

Para que fique bem explicado – continuou, ajeitando algo por baixo do roupão - se concentre no presente pois é nele que você está. E todos aqueles que lhe apontarem o passado ou mesmo o futuro como solução para os seus problemas…

- Já sei! – Disse Tuca armado em Chico esperto – Me vão assentar tapa na cara!...

Nada disso, idiota! – Explicou o Santo Homem – Isso foi apenas para ilustrar o meu ponto de vista. Eles vão mesmo é enrabar você, seu besta!...

Música de Fundo
Teddy Picker” – The Arctic Monkeys

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