sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

No Country For Old Men
- Ou como duas cabeças realizam mais que uma, e bem melhor que muitas… -

Todas as histórias são interpretáveis de modos absolutamente diversos, e isso apenas depende do padrão mental, dos desejos ou das limitações do espectador.

É por isso que a arte não é um discurso mas sim um estímulo; e se a nossa tal “expressão de uma força interior” não estimular os outros, mais vale arranjar emprego numa charcutaria e aperfeiçoar a técnica de cortar fiambre bem fininho.

A arte pode ser o que se quiser, mas tem que deixar sempre algo em nós.

Sem dúvida que o diálogo, o som, o cenário e mesmo a luz que se faz incidir sobre este, têm imensa influência no sucesso de um filme; e é por isso que se dão prémios separadamente a estas especialidades.

Mas é no aglutinar de todos estes factores que, neste caso particular, reside o maior mérito. Pois mesmo a impassibilidade esbugalhada de Javier Bardem se diluiria na paisagem, se os irmãos Cohen não o tivessem equipado com um dos piores cortes de cabelo que já vi desde os “quatro estarolas de Liverpool”, e que ele muito bem agradeceu.

Toda gente diz que este será um dos personagens que ficarão para a história, e até nem me custa acreditar. Uma vez que a história se situa nos anos 80 (o que é totalmente irrelevante para o que se quer narrar, pois poderia passar-se em qualquer altura), é bem possível que Anton Chigurh apareça a fazer das suas em cenários posteriores, como uma espécie de Jason; mas mais metódico, simpático e asseado.

E escusam de se escandalizar com o facto de eu o achar um pouco simpático. A maioria dos psicopatas são até pessoas bastante aceitáveis, se não estiverem interessados em nos “abreviar”.

No Country For Old Men é um filme que nos mostra quão perigoso é desistir e rendermo-nos ao destino. Todos os que nesta história se conformam com os acontecimentos acabam por morrer. E mesmo o xerife interpretado por Tommy Lee Jones, acaba por se exilar ele próprio numa situação em que cada dia se lhe anuncia como um número em contagem decrescente.

Não existem países para velhos. Do mesmo modo que não existe um mundo para velhos (no sentido em que se pode entender como desgaste emocional), acomodados ou medrosos. Quando (parece-me ser o irmão) diz ao xerife, e estou a citar de memória “you can’t stop what’s comming…”, está a sugerir-lhe que o futuro não pode ser evitado e se deve encarar seja qual o preço.

É tudo uma questão de apostar na atitude certa. E o único que o consegue fazer é Llewelyn Moss (Josh Brolin), que não desiste, não se rende e não volta atrás. O que quanto a mim, o faz merecer indubitavelmente aqueles dois milhões de dólares… e ficar vivo, claro.

Música de Fundo
Make Me Smile (Come Up and See Me)
- Steve Harley & Cockney Rebel

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Maravilhoso Mundo da Conversa Fiada
- “A criatividade pode manifestar-se pela diversidade de desculpas que um tipo arranja para não ter que escrever” (Eu) -

Sniper de Blog o Artilheiro da FÉ (“cada tiro, cada melro”) passou-me um desafio que consiste em revelar as minhas 12 palavras favoritas.

É um bocado difícil pois não tenho palavras favoritas. Há algumas que utilizo mais vezes no que escrevo, outras transmitem uma ideia que eventualmente me agradará; enquanto outras ainda, simplesmente apelam pela sua sonoridade como uma espécie de “efeito doppler” das emoções.

Por tudo isso, as que se seguem escolhi-as ao acaso e sem razão aparente:


Aurora – A parte mais fresca e luminosa do dia, em que ao inspirar profundamente sinto o mundo fluir através de mim num quotidiano renascimento (isto se acordar suficientemente cedo). Quanto ao ser um nome de mulher; apenas me faz lembrar tias que oferecem “santinhos” deixando atrás de si um diáfano odor a lavanda.


Mística – “A mística da coisa” é por si só uma declaração de desprendimento em relação à mundanidade, pois as coisas não têm mística alguma. Apenas as ideias a possuem, e mesmo assim, muito subjectivamente. Porque “possuir” não é nada místico (em tempos achei que seria giro ser budista, mas infelizmente só sou contemplativo se estiver um pouco “alto”).


Garina – Apesar de ser uma palavra que não uso, a sua sonoridade seduz-me. E enquanto a pronuncio compassadamente, quase que consigo ver uma rapariga correndo alegremente por um campo com o seu vestido esvoaçante; enquanto é filmada para um anúncio da Tampax.


Suculenta – É a palavra que mais abrange os prazeres da carne. Seja utilizada para a carne de porco à alentejana bem confeccionada, ou para uma mulher que ofegante se entrelaça comigo na produção de ruídos húmidos (E para os que achem que não fica bem misturar a comida com o sexo… Bem, isso seria outro post ainda maior).


Virilha – Talvez um dos melhores destinos de férias que se pode escolher. Seja em que país for, desde que se esteja perto da virilha é garantido que haverá animação.


Paradigma – Uma das palavras mais cómicas que conheço. Fora de contexto, é muito utilizada por quem quer brilhar e não sabe como… nem com o quê.


Rebaixolice – Palavra que o meu corrector ortográfico não reconhece (é muito altivo, o sacaninha), mas que li pela primeira vez na minha infância nos livros do José Vilhena. No meu imaginário retratará sempre a parte divertida das relações entre os sexos. Seja na cama ou em qualquer outra situação.


Pugilato – Algo que de desporto olímpico (da Antiguidade Clássica) se transformou num modo de vida para quem não goste de ser cilindrado, mastigado e cuspido pelo “sistema”. Em conjunto com outros tipos de luta mais ou menos subtis, deve ser usado para manter à distância tudo o que se possa vir a tornar nocivo (em caso de confronto com “poderes superiores”, as regras deixam de existir até que a situação normalize).


Verdadeiramente – A minha “muleta” favorita. Uma vez que a cotação das palavras se encontra cada vez mais erodida pelo uso indevido e/ou fraudulento que alguns fazem delas, escolhi “verdadeiramente” como reforço de plausibilidade para alguns casos. É assim como uma espécie de “turbo”, mas de baixo consumo.


Estapafúrdio – Termo que sempre gostei de ler nos textos de Pelham G. Wodehouse. De quem também apreendi o - “podem acordar-me de noite e perguntar-me…” - Igualmente muito utilizado nos anos 50 e 60 pela PIDE (Acho que o Silva Pais lia muito Wodehouse. Daí o seu estranho sentido de humor).


Navegar – Algo que quase não consigo explicar por palavras tal é a intensidade que transmite; bastando a própria palavra para me recordar a sensação de voar sobre as águas, ouvindo o seu remorejar pelo casco e o bater das velas sob o vento.


Sempre – Uma das palavras mais mal empregues; pois sozinha exprime um conceito abstracto incompatível com a realidade quotidiana. Embora acompanhada de outras (ex. “sempre, desde que”) exprima uma certa constância (que sim, também é nome de mulher, e me lembra governantas com vestido escuro de gola alta e a cheirar a cânfora).

É claro que não vou passar isto, tal como é tradição. De qualquer modo, quase não chega a 12 o número dos que me lêem.


Música de Fundo
Toque Toque” – Da Weasel

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Monólogos da Escrita
- Onde sem apresentar quaisquer desculpas, o autor em vez de esgalhar um honesto post; se põe a discorrer sobre a escrita e outras patranhas. Daquelas que apenas servem para exibir em baptizados de família, ou engatar gajas que usem óculos com armação de massa -

Poderia aplicar à minha escrita aquele mesmo conceito (duvidoso) que alguns aplicam à iniciação sexual das mulheres – “Apenas quando estiver pronto”.

Mas estaria errado. Pois nem o estar ou não pronto tem na realidade a ver com a verdadeira iniciação sexual (seja ela feminina ou masculina), nem alguém em seu juízo perfeito se considerará alguma vez completamente pronto seja para o que for. Porque nenhuma dessas duas coisas (o sexo e a escrita), podem existir sem “uma certa incerteza”.

A quase totalidade dos que escrevem “a sério” - isto é, dando algo de si em vez de recortar bonequinhos em cartolina e com eles acenar aos leitores – tiveram que abdicar de parte - e em alguns casos da totalidade - de si próprios. Escrever (e volto a frisar) “a sério” é daquelas coisas que nos custam “os olhos da cara”, “um braço e uma perna” e por aí adiante em figuras de estilo…

Esse ESCREVER é algo profunda e paradoxalmente amado e odiado. Porque embora o resultado criativo/narrativo/imaginário possa ser algo arrebatador, a ponto de em alguns casos ser de cortar a respiração pela intensidade imagética; o seu criador acaba por desenvolver com o mundo (e especialmente com aqueles que lhe são próximos) uma relação no mínimo, pouco cordial.

Viram o filho da puta do eufemismo ali em cima?

È mesmo disso que estava a falar. Se um tipo quiser mesmo ESCREVER vai ter que desistir da maioria dos eufemismos; e já que está virado nessa direcção, é melhor desistir também daquilo a que se chama “respeitabilidade” (ponho este palavrão entre aspas porque se trata de respeitabilidade “social” [merda para as aspas e os parêntesis]). Não que vá deixar de ser respeitado… Não vai é ser respeitado pelos mesmo motivos que a maioria (os outros).

Poderá eventualmente escrever uma ou outra narrativa descaradamente ficcionada; mas ser-lhe-á constantemente exigido que exponha as suas chagas, cuspa no chão ou tenha ataques de fúria escatológica a meio das transmissões directas da Cova da Iria.

Terá aos olhos do público que ser tão autêntico, tão telúrico e tão visceral; que muitas vezes se esconderá no exterior de si próprio. Buscando nos outros aquela ilusória tepidez de humanidade que o fará de novo regressar a si, para novamente de si fugir.

O pior é que nunca será demasiado exigente consigo próprio. Saberá que é bom; mas nunca suficientemente bom, e nunca suficientemente honesto.

Todas as suas palavras terão que ser desprovidas da pele e dissecadas antes de expostas, pendentes de alfinetes na protecção de uma vitrina. As mortes relatadas terão que ser mais áridas, as vidas mais ricas e as pessoas mais humanas.

Sim… Porque de que serviria na verdade ESCREVER se não fosse para tornar as pessoas mais humanas; aproximá-las e finalmente compilar minuciosamente todo o seu código genético para uso futuro, naquele último e definitivo texto em que eu explicaria o espírito humano sem sombra de qualquer dúvida.

Isto, se alguma vez eu fosse suficientemente parvo para abdicar de toda a minha vida e dedicar-me finalmente a ESCREVER.

Música de Fundo
Sleeping Lessons” – The Shins

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A Cidade de Blog Está Alagada
- Mas como não me apetece falar nisso, vou fazer de conta que fiquei na cama a imaginar o que faria se não me tivesse que levantar e olhar o dia… -

Os lençóis mornos e semi-húmidos das manhãs de chuva, recordam sempre espaços vazios e incertos, escondidos entre a roupa de cama como metafísicos cogumelos esbranquiçados.

Recantos pálidos no revirar de uma coberta, que efemeramente expostos à luz revelam uma ausência; um “não-preenchimento” que em conjunto com a humidade da manhã, produz aquela melancólica sensação que tão facilmente se confunde com preguiça.

Sempre achei imensa piada a quem pensa que a melancolia é sexy; e que vê nas chuvosas manhãs de Inverno a promessa de uma efervescente Primavera.

Por outro lado se repararmos bem nas “almas melancólicas”, verificaremos que se alimentam da lentidão que imprimem ao mundo em seu redor. Como se ao não serem suficientemente rápidas para o acompanharem; tivessem que lhe tolher o passo para melhor dele extraírem algo.

Para que a sua imagem esbatida num torpor criogénico, melhor se destaque e exiba aos nossos olhos como um pedaço fatiado do tempo ou da pura proteína dos sonhos. O melhor de dois mundos; entre o sexo e os prazeres da charcutaria.

A languidez dos dias de chuva agarra-se-nos à pele, como o beijo gelatinoso de uma preguiçosa medusa. Morno, salgado e levemente eléctrico…

Entorpecente contágio que nos mergulha na febre melancólica das manhãs carregadas de chuva; em que os lençóis dissipam lentamente o seu calor, a claridade invade todos os recantos; e a pouco e pouco somos obrigados a despertar.

Música de Fundo
"My Melancholy Blues" – Queen

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Geologia Psicadélica

O ajustar do todo.
Como um tangram poliédrico que se completasse.
Uma matriz de interrogações que finalmente se condensasse num geode; suspensa de si.

Cair é a última sensação que um anjo tem; enquanto vozes de comunicações tácticas soam aos seus ouvidos.

Apenas

É com o questionar que se inicia a queda.
Quando se transmuta numa mística energia vagamente panteísta; de ícones imperfeitos como personagens reais.

Como um último cintilar azul antes do despertar.

É o que se chama compensação de realidade.

Música de Fundo
"Sometimes a Pony Gets Depressed" - Silver Jews


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Força, Reinaldo!
- Um post curto, grosso e acutilante. Sem recurso a qualquer tipo de “gel anestésico” -

Quem não se lembra daqueles dias simples em que tudo se resolvia com mais uns empurrõezitos. É claro que nem sempre resultava, e daí podia advir a rotura com a normalidade; lançando tudo e todos numa urgência executiva.

Foi o que aconteceu agora em Timor. E como todos sabemos, não é o primeiro Reinaldo a esgaçar o frágil tecido da Democracia. Neste caso, por interposta e dorida pessoa de Ramos Horta (o “Nobel” da Malásia) acérrimo defensor das ovas de esturjão em particular e da “boa vida” em geral.

É irónico como os opressores e os vendidos, são quase sempre atingidos na barriga. Não sei se por ser o local de maior volumetria nas suas já muito inflacionadas pessoas, ou por poética associação da parte daqueles que nessa zona têm muito pouco.

Reinaldo caiu no erro de tentar resolver frontalmente e pela força, algo que só se soluciona com muito jeito e por detrás.

Porque pela frente estão todas as potências interessadas, que não deixarão a história fluir naturalmente e sem a sua interferência.

Num pais já vendido pelo seu governo, a única esperança do povo é “em força e por detrás”.

E para isso, que eu saiba, não há como um tipo que se chame Reinaldo…

(Isto quer é continuação)

Música de Fundo
Mandelay SongFlying Lizards

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

“Confetti” e Torradas
- Pequenos almoços na fronteira do Caos -

O meu Carnaval foi uma coisa calma.

Esta terça-feira sentei-me como é hábito na esplanada da Praça de Blog e enquanto comia a torrada deixei passear os olhos sobre o jardim ao lado. Estavam a fazer testes de som no palco onde actuaria (ou teria já actuado, pois raramente vejo aqueles concertos e por isso não faço ideia) o Bonga, esse decano do “balbuciar ritmado”.

Mas estava eu a contar… Ah sim!... O brasileiro que tem a concessão da esplanada, enquanto olhava o cartaz com a fronha do Bonga (talvez por associação) falava-me do Obama, e de como este seria a escolha ideal para estabilizar os Estados Unidos na sua voragem de guerra e predação. À mistura com toda aquela conversa pequeno-burguesa de quem vê nas minorias o futuro do mundo (mas apenas até lhe “catarem” a carteira ou o carrito).

Pedi-lhe que não me tentasse impingir o Obama só por ser preto, e dei-lhe até como exemplo o preconceito generalizado de que todos os pretos têm ritmo.

Basta reparar – disse-lhe enquanto fazia um floreado com a torrada - no António Costa para ver que é descaradamente falso. Isso para não falar do saiote de palhinha que lhe ficaria ainda pior do que à Odete Santos. O que convenhamos, já não é dizer pouco.

O tipo continuou a argumentar com veemência. E apesar de o meu interesse pelas eleições nos estados unidos ser equiparado ao que nutro pela secagem do figo na zona de Loulé, acabei por me lançar em defesa do meu candidato ideal.

- A Hillary é que daria uma óptima presidente – afirmei – E olhe que a minha escolha é baseada na opinião de eminentes analistas, como o Jon Stewart, o Conan O'Brien e o Jay Leno. Não pense que esta escolha foi fácil. Pois o facto de ser mulher e Democrata (coisa que lá quer dizer tão pouco como “Socialista” por cá) não a coloca assim tão à frente como se possa pensar.

- O que mais aprecio em Hillary Clinton, não é a sua honestidade (que não tem), nem o facto de ser casada com o tipo que foi o presidente mais “cool” desde Woodrow Wilson. – Entretanto o tipo olhava-me com curiosidade enquanto limpava as mãos a um pano - O que eu aprecio mesmo nela é o bom-gosto que tem ao escolher estagiárias. Já viu aquela foto dela com a Natalie Portman?

- Isso é sacanagem, ó cara! – disse ele encaminhando-se para o estabelecimento. Mas pelo reflexo na montra, vislumbrei-lhe um sorriso prazenteiro.


Música de Fundo
Sheena is a Punk Rocker - Ramones

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Persona
- Fragmento de outro Carnaval -

Ela possuía como jóias, o veludo da noite,
o sabor da chuva de Maio
e o cheiro da lua.

À sua passagem o desejo brotava,
em sulfurosas paixões abrasivas e pirotécnicas.
Impulsionando-a em frente na vertigem alucinada do tempo,
devorando milhões de Primaveras que nunca se dignaria contemplar.

Imaginava-se às vezes iluminada por dentro,
como aurora fria trespassando os vitrais de uma catedral gótica,
minuciosamente esculpida num glaciar eterno.

Saía então de si e transformava-se…
em algo que talvez tivesse sido há muito
ou apenas sonhado na vida de outro alguém.

Mas rapidamente regressava e olhava o espelho,
que ao devolver-lhe o olhar lhe revelava,
a máscara que sob ela vivia.

E por onde uma lágrima dourada, de tinta,
deslizava…
mesmo quando sorria.


Música de Fundo
Gymnopedie Nº 1” – Erik Satie
(Piano, Klara Kormendi)

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