segunda-feira, 31 de março de 2008

Quando o Avô Era Novo
- Histórias que eu contaria aos meus netinhos se os tivesse. Mas como não tenho, aturam-me vocês… -

Parafraseando Jorge Coelho no que dizia em relação à “cena política” - há por este país afora (o que inclui a blogosfera Lusa) muita falta de memória.

E talvez já seja da idade ou de ter escrito a anterior frase há mais de uma hora; mas o que é certo é que já quase nem sei porque a escrevi… Talvez fosse porque ainda há pouco recordei os professores (e professoras) que acompanharam o meu atribulado percurso académico.

Nunca fui um aluno-modelo. Não só devido à minha personalidade irrequieta e extremista, como igualmente ao facto de nunca ter tido um professor-modelo (mesmo as professoras nos anos sessenta pareciam ter saído dos mais estranhos pesadelos de um cónego), uma professora-modelo, ou uma contínua que acumulasse o transporte do livro de ponto com “passagem” de “lingerie” para a Victoria’s Secret.

O único modelo que podia existir na minha escola era o Salazar; um tipo de nariz afiado que tinha o retrato pendurado ao lado daquele pândego que adorava vestir-se de marujo e aparecer nas inaugurações.

Mas dizia eu…

O único modelo permitido era o Salazar; e talvez por isso, a maior parte dos professores e professoras (especialmente estas) acabavam por se parecer com este.

Felizmente a escola não era a única coisa que existia para nos formar a mente, ou hoje em dia todos os gajos de 50 anos usariam cinto-de-ligas por debaixo de um impecável uniforme nazi (embora existam alguns, que eu sei…); existia também o lar que além de ser o sítio onde se fazia o fogo, tinha normalmente um pai, uma mãe, irmãos sortidos e uma telefonia (nem sempre por esta ordem de importância).

E mesmo descartando o facto de eu achar que toda a gente deve ser profissionalmente avaliada; sejam professores, polícias ou sacristães. Nós saíamos de casa já preparados para lidar com essa malta toda, e era a isso que se chamava educação.

Eu sabia perfeitamente que o sacristão além de andar “metido com Deus”, fazia também uma “perninha” com alguém que se encontrava obviamente na “Hit List” de todas as “Mães Portuguesas” da vizinhança. Estava perfeitamente ciente que apesar de representarem a lei, os polícias não seriam a companhia ideal para uma tarde passada no carrossel.

Também sabíamos como eram as professoras (agora no feminino, porque no meu caso falarei de duas mulheres). E embora pareça estranho, respeitávamos tanto as que não nos davam tabefes como aquelas que os distribuíam como se fossem imagens do Padre Cruz ou da Santa Teresinha. Não porque fossemos comunistas (o que seria um contra-senso pois teríamos que nos comer a nós próprios ao pequeno-almoço), mas sim porque devido a algum estranho poder elas eram PROFESSORAS.

Nem sempre amadas como a Dona Alice da minha 1ª Classe (que me ensinou não ser necessário fazer letras do tamanho de um automóvel), nem sempre temidas como a puta da Dona Manuela da minha 3ª Classe (que além de nos amachucar a mona com o ponteiro, nos dava secas bíblicas sobre todas as catástrofes causadas por Deus; insinuando que aquilo nada era em comparação com o que nos esperava); eram porém e sem dúvida respeitadas porque nos ensinavam. Mas acima de tudo, obtinham de nós esse respeito porque os nossos pais assim nos tinham educado.

O que é estranho, pois segundo a Dona Manuela (que embora não “atacasse” devido à fealdade que transparecia em todos os seus traços, era por nós apelidada de puta como se rezássemos o terço) não fora a escola e a igreja e seríamos uns completos madraços que acabariam alcoólicos, presidiários ou leitores da Crónica Feminina.

Quando um pouco mais tarde cheguei à idade em que os putos hoje fazem filmes para colocar no Youtube, já tinha uma ideia muito diferente sobre os professores e sobre todas as outras pessoas em geral.

Quanto às outras pessoas, é ainda a mesma ideia que tenho hoje; uma vez que elas pouco mudam embora passem o tempo a dizer o contrário. Bem, e os professores… Eram professores; porque ensinavam, mal ou bem, não interessa. E mesmo quando veio o PREC, e toda a gente podia fazer o que lhe apetecesse desde que acusasse o outro de fascista, nós continuámos a aturar respeitosamente os professores que nos enviavam.

Talvez fosse por hábito ou desfastio (eram outros tempos); mas sem dúvida que não é preciso muito para aparecer um tipo qualquer e começar a apregoar que era por educação.

Vi como toda a gente o vídeo que passou na TV (mais giro ainda; vi-o no dia em que a SIC se “distraiu” e o passou sem a “privacy spot), e independentemente de achar que não demonstra inteligência alguma, uma professora de sessenta anos e com 1,50m de altura abraçar-se a um bisonte em fúria pela perda do seu símbolo de status; acho que o que faltava ali mesmo eram os pais daqueles alunos.

Pais estes que em não podendo (como é óbvio) estar presentes para os pacificar, deviam seguir aquele costume antigo em que os alunos iam ás vezes para a escola sem lanche ou sem sapatos; mas todos levavam aquilo a que hoje em dia se chama de “educação”.

Música de Fundo
Teenage Angst” – Placebo

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Urso e a Cotovia
- Fábula tecnológica do Universo de Blog, em que se transmite às criancinhas a noção de que não só a união faz a força como pode proporcionar ideias que valem uma “pipa de massa”… -

Era um daqueles dias em que não se devia sair da toca; e Decker o urso, tinha-o constatado de maneira assaz incómoda. Pois da palma almofadada de uma das patas dianteiras, sobressaía o espinho seco e quebradiço de uma “koeberlinea spinosa”.

Apesar de não ser o mais inteligente dos mamíferos, Decker conhecia perfeitamente as implicações daquele insignificante acidente. A pata iria inchar, teria dificuldade em correr e consequentemente caçaria menos. Começaria a ficar fraco e talvez acabasse como tapete numa qualquer sala de estar; com a boca escancarada e uns olhos de vidro bem esbugalhados. Sem dúvida que não seria o fim-de-semana ideal.

Imerso nessas negras congeminações mal deu pela aproximação da cotovia, que como lhe era habitual vinha apenas meter o nariz (neste caso o bico) onde não era chamada e botar palpite. Black (assim se chamava a ave) passarinhou um pouco à volta do urso examinando toda a cena com o seu característico tombar de cabeça; como se fosse uma tia espreitando por cima dos óculos, e proferindo simultâneamente em voz aflautada – Desta vez é que arranjaste um problema bicudo, pá – casquinhou trocista

Apesar de urso, o outro sabia perfeitamente que dali pouco mais tiraria que um enorme alguidar de conversa fiada; pelo que decidiu não perder tempo – Tu é que podias dar uma ajuda pois tens o bico estreito. Ao passo que eu com estas garras enormes, não consigo sequer pegar no espinho para o puxar…

Vaidosa como a maioria das aves canoras, a cotovia (que embora sendo um macho designamos aqui no feminino por coerência gramatical) pavoneou-se mais um pouco e respondeu por fim com uma expressão trocista – Tás a ver?... Um calmeirão como tu, tão poderoso; e agora reduzido a pedir ajuda a alguém do meu tamanho… É irónico, não é? Só de pensar que ainda ontem troçavas de mim, juntamente com os outros alarves. “Cu te via”, “cu te via”… Chama-me lá agora “cu te via” ó cabrãozão!

(É claro que o maior erro dos personagens deste género, é perderem sempre demasiado tempo a deliciarem-se com o som da sua própria voz…)

- Agora desculpa, mas está na hora de almoçar. – Disse o passaroco virando costas ao urso, e preparando-se para levantar voo. Só que este último além de não ser tão urso como parecia, tinha-se aproximado sub-repticiamente; e com as garras da pata sã apanhou-o pelas pernas magricelas, experimentando estas como se fossem as pegas de uma tesoura.

Black viu o seu bico abrir-se involuntariamente por acção das patas, e tirar destramente o espinho da pata do urso como se fosse um alicate de electricista. Este soltou-o com uma risada – Agora podes ir almoçar… fala-barato. Da próxima vez em que eu espetar um espinho na pata já sei o que fazer…

E foi assim que nasceu a ideia das ferramentas portáteis Black & Decker.


Música de Fundo
Panama” – Van Halen

segunda-feira, 24 de março de 2008

Belezas Naturais de Alexandria
- Um post de efusivas felicitações; mas pouco beijoqueiro para evitar cair na vulgaridade… -

Não sei se faz parte do teu imaginário ser estragada com mimos por parte de um “senhor de meia-idade”. Mas uma vez que nestes últimos anos temos mantido uma cordial “troca de galhardetes”, não te venho oferecer imagens de gajos despidos (o que calculo arranjarás facilmente), mas um retrato pintado por um (sem dúvida) incorrigível romântico; ou não fosse este do Séc. IXX.

Parabéns Hipatia!


Música de Fundo
You Only Live Once” – The Strokes


Black Easter (12,5% Proof)
- Uma Páscoa de imaginário quase gótico, onde se entrechocam operadores de grelha enfarruscados pelo prazer dos outros, diabretes vermelhuscos e vaidosos, elfos, duendes e pop stars dos anos oitenta … -

Todas as religiões, tal como aquelas tias solteironas e frustradas por nunca terem tido homem, acabam por se encarniçar sobre o mesmo tópico. A carne.

A carne é fraca; dizem os padres, as tias, os políticos e os pederastas. A carne é sempre fraca quando o espírito não está em conjunção (há também quem use “sintonia”, mas esse termo é para mim o expoente máximo da paneleirice); sendo apenas uma desculpa para as manifestações do verdadeiro eu de cada um.

Talvez por distracção, a determinada altura alguém se terá lembrado de dizer – sejamos como os animais, e como eles cantemos o prazer de sermos simples (porque ser simples é a maior aspiração de quem não quer pensar). Mas do mesmo modo que o pensamento simples seria algo que dando a bem-aventurança permitiria o domínio por outros; era também algo que à saciedade conduziria à interrogação sobre o sentido de todas as coisas e daí ao conhecimento.

Ergo, a carne seria a essência do próprio pecado, senão a sua própria e pura génese; pois sem ela talvez este nunca chegasse sequer a existir. Mas era o que eu tinha pedido…

Era pois a carne a raiz de todo o mal. - Ou segundo outros, a única salvação e caminho por entre o desvairo a que aparentemente teríamos sido condenados. Mas só havia peixe…

Era Páscoa. E algures na periferia do meu imaginário, o cordeiro batia o pé na impaciente espera de ser sacrificado; sem ter quem o ouvisse ou compreendesse a sua necessidade de imolação. Pelo menos naquelas ímpias paragens.

Foi nessa conturbada disposição sublimada pela névoa de um VQPRD, que me sentei naquela mesa de formato cruciforme. Não que isso me incomodasse. Na realidade eu encontrava-me perto do eixo, o que era óptimo quando rodavam a travessa dos "hors d'oeuvres".

Do outro lado da mesa, a Wendy James de 85 (não a escanzelada dos dias actuais, mas a única a quem eu algum dia reconheci o direito de usar carrapito sem perder o seu encanto) sorria com aquele esgar animal que destilava sexo salgado, assegurando-me que estava absolutamente certo na escolha da minha Páscoa.

Diabretes avermelhados como beterrabas envergando hábitos fradescos, afadigavam-se no grelhador por via de pecados bem passados; contemplando embevecidos as fumadas memórias envoltas pela tripa inorgânica da norma NP 591 (1969). Um ou outro salpico gorduroso forneciam a cor local, como numa espécie de inferno para tipos condenados a eternas dietas.

I want your love” – disse ela com aquela pronúncia cheia de língua e palato, que eu sentia espalhar-se por mim afora como a maldição de um prazer infinitamente proibido. Pedimos as costeletas de Santo Agostinho com cominhos, mas estavam esgotadas; assim como os secretos e todos os outros mistérios da criação. Deus fintara-nos mais uma vez, e tentava estragar a minha Páscoa (talvez por vingança dos meus escritos sobre a sua inconsistente consubstancialidade).

Tínhamos sido pois, condenados ao peixe e à sua indefinição ideológica; como crentes postos à prova por um sacerdote venal. Suspirei fundo e exigi ervas aromáticas, numa tentativa de trazer ao mundo o símbolo com um mínimo de insipidez e monotonia. Mas até a imagem primeva da fé tinha sido criada num tanque e alimentada com rações como se fosse uma vaca. E não há fé que se sustente da imagem de uma vaca. Vá lá saber-se porquê…

Qualquer vaca é simbolicamente mais autêntica. Pois transmite maternidade, proximidade, calor e afecto. E os peixes são apenas frio e água; como aqueles seres que nos falam da vida de um modo abstracto, à semelhança dos relatórios de um médico legista.

Chamei pois os meus sentidos à ordem, disciplinando-os na direcção da insipidez dessa fé de outros; estoicamente como um viajante astuto entre selvagens.

- Escolhemos então o peixe. – disse eu contemporizador olhando-a no meio das pupilas azuis como à espera de uma concordância. – “Baby I don’t care” – disse ela com aquele sorriso carnívoro, que eu sabia ser capaz de prevalecer através das entradas, do peixe, e de todas aquelas merdas insípidas que estavam a ser servidas – I’m a “Psychosonic Cindy” and I’m “Falling For a Goldmine”. – Foi quanto bastou para mim.

Deixei de me preocupar com o momento; pois este nada mais era que um transitório e gastronómico suspiro. Algo que o futuro varreria com um sorriso; como uma brisa suave sobre a baía onde os meus olhos passeavam ociosamente.

Era Páscoa. E os diabretes cor de beterraba nos seus hábitos fradescos, afadigavam-se em redor das grelhas como do inferno se tratasse. Mas eu sabia… que o inferno tal como o céu não existem senão na mente das velhas secas que se vestem de negro. Como um prenuncio da não existência de tudo o mais à nossa volta.

Sorri contemplando a baía onde as águas do mar judeu se juntavam às de todas as outras crenças. Sorri, porque ao olhar um pouco mais longe verifiquei que nada se alterava. E uma época é apenas algo como uma campanha de vendas; uma Páscoa Negra. Um véu de denso nevoeiro que nada tem a ver com o divino.

Porque o divino somos nós. Aqueles que no meio do choro e ranger de dentes, acabam por sacar da carteira e pagar a conta sem pestanejar.

Olhei-a interrogativamente através das chamas e do fumo – “I Just Wanna B With U” – respondeu-me sussurrando – No fim da refeição conferi a factura; encararei o diabrete com nariz de beterraba, e deixei mais dois euros dizendo – Ok… Let’s keep it this way…

Música de Fundo
"When You Were Young" – The Killers

segunda-feira, 17 de março de 2008

A Igreja do Imaculado Blog
- Entrevista com Blog, que na sua infinita sapiência, sugere ser a reestruturação da fé apenas um prenúncio de senilidade e incontinência (com todos os inconvenientes daí advindos, como cateteres, algálias e supositórios a horas certas) –

Estava há dias a ler o jornal durante o pequeno-almoço, quando um artigo me chamou a atenção. A princípio pensei tratar-se de uma peça humorística e até me ri um pouco; mas após uma leitura mais atenta cheguei à conclusão que aquela malta não se enxerga mesmo.

Estou a falar, é claro, da nossa concorrente a Santa Madre Igreja Católica Cornuda e Apostilhónica; essa espécie candidíase social que ciclicamente tenta inflamar em seu proveito a mucosa da nossa civilização (que é o “povo”; pois é ele quem apanha com tudo).

Desta vez (que dali pouco sai que se aproveite) com um golpe publicitário de integridade apenas comparável às iniciativas demagógicas governamentais… É que este ano a SMICCA (Santa Madre Igreja Católica Cornuda e Apostilhónica) deu aumento a toda a gente. Pronto, aumentou os pecados mortais… Mas um aumento é um aumento!

Ainda alguém poderá alvitrar que é apenas destinado aos fiéis, mas não. A SMICCA à semelhança das suas congéneres condena todos indiscriminadamente, embora só possa dar a “salvação” a quem estiver filiado. É irónico. Mas para irónico chego eu perfeitamente e nunca frequentei um seminário (fui uma vez a um sobre zonas erógenas femininas, mas acho que isso não conta).

Aproveitando o fim-de-semana, e já que tinha que lá me deslocar por razões mais profanas, subi à montanha e fui dar uma palavrinha a Blog.

Encontrei-o na “loja” com uma disposição pouco prazenteira, martelando afincadamente com um maço de madeira, a torneira de um pipo que se recusava a colaborar com o destino. – Esta merda está tal e qual o mundo – disse-me a sua voz tonitruante para lá dos fundilhos remendados; que eram a única coisa que me era dado a ver da sua figura. – Ou vai à martelada, ou de outro modo não resulta.

Chefe… - pigarreei desconfortavelmente – Temos problemas com a concorrência. A SMICCA deu aumentos este ano. Será que podíamos também fazer algo pelos fiéis? Sei lá… Umas excomunhões ou mesmo uns churrascos em efígie?

Erguendo-se finalmente em toda a sua altura (1,70m), Blog encarou-me carrancudo e iniciou mais um daqueles discursos intermináveis (dizem até que Fidel era seu admirador), em que não permite que mais alguém abra o bico.

Problemas? – rugiu ELE, fazendo estremecer as garrafas confortavelmente alinhadas nas tijoleiras hexagonais – Achas que a Fé está com problemas?

- Problemas tenho eu aqui. Que metade do vinho estragou-se durante a última trovoada; já não contando com esta merda a que chamam neve e mal chega a dois centímetros. Estamos quase na Páscoa e vêm aí os Silvas, os Costas e os Sousas com os seus pirralhos; e em vez de esquiar vão ter que ficar na esplanada a tirar fotos ás encostas verdejantes. Para o ano que vem vão todos para Espanha e eu não os critico. Conheces alguém que consiga esquiar em encostas verdejantes?...

Como já O conheço “de ginjeira”, calculei que se tratava de uma pergunta retórica e mantive silenciosamente o meu ar mais compungido.

- E no meio disto tudo apareces-me tu para choramingar sobre uns “pecados mortais” – experimentou a torneira que acabara de cravar no pipo, e enchendo dois copos plásticos (daqueles que se usam para aparar a resina dos pinheiros) estendeu-me um e lançou-se ao assunto – Pois deixa que te diga algo que não é novidade alguma. Para começar, esse velho vaidoso que se veste de lavadeira está completamente xexé, e só tem a aconselhá-lo uma corja de economistas e politiqueiros com montes de problemas de ordem sexual; como esse Girotti que lhe puxa os cordéis.

Se esses tipos não tivessem plagiado o livro aos Judeus e alterado o sentido dos mandamentos em seu proveito, não estariam agora a passar por parvos. Isto porque tanto o mal como o bem já existem desde a criação do mundo, tendo sido definidos logo de início (segundo eles sempre afirmaram) pelo OUTRO GAJO.

E olha que ELE não é um porreiraço como EU. Quando as coisas lhe começam a cheirar a esturro é pestes, fome, morte, dilúvios e gajas a pedirem pensão de alimentos. Esses santarrões da treta, bem podem ter a certeza que a brincadeira lhes vai custar as miseráveis alminhas (aos que não a venderam já ao ADVERSÁRIO); porque quando o sétimo mandamento da segunda tábua diz “não adulterarás”, não se refere apenas ao meterem-se no saco com a vizinha ou misturar água nas bebidas. E garanto-te que qualquer advogado manhoso, poderia entalá-los com dois ou três mandamentos só por inventarem essa merda.

Já não contando com o facto, de nem sequer se terem dado ao trabalho de dizer que o patrão deles tinha lá aparecido para dar aquelas novas ordens (como tu costumas fazer). Bem diziam aos putos no século dezanove - desabafou - que a masturbação em excesso conduz à loucura. Olha-me bem para esta lista… ou achas que não leio também os jornais – e sorrindo mostrou-me uma folha rasgada do Correio da Manhã onde se lia:

Novos Pecados Mortais

1 Pedofilia
2 Aborto
3 Manipulação genética
4 Tráfico de droga
5 Riqueza desmesurada
6 Poluição ambiental

- Estás a ver isto? - Perguntou agitando a folha como se fosse a factura de um almoço muito caro – Vê-se logo que há muito tempo não lêem os próprios manuais; senão, tinham já reparado que está tudo incluído nos mandamentos e nos pecados mortais do costume. Só por piada, podes ter a certeza que o Vaticano se encontra há séculos em pecado mortal, com essa história da “Riqueza Desmesurada”. Só espero que ELE lhes cobre os retroactivos.

E a pedofilia? Já não me admira aqueles escândalos todos, nomeadamente com as dioceses de Bóston e Los Angeles. É que os tipos nem sabiam que era pecado mortal. Acho que pensavam que a luxúria por ser exercida em crianças inocentes ficava assim desculpada.

Pecados mortais… Ora, bem podiam juntar também o mau gosto no vestir…

Olha, rapaz. – disse passando-me o braço sobre os ombros, enquanto me conduzia à porta de onde se via o sol já a avermelhar os cumes distantes – Não te preocupes com isso pois não são novos pecados mortais; mas sim uma circular interna para uso do pessoal lá deles. Já agora… Trouxeste alguma coisa que se fume?


Música de Fundo
Dancing With the Enemy” – Still Remains

segunda-feira, 10 de março de 2008

Inconsolável
- Na Margem Sul o Fim do Mundo é às Segundas-feiras (Além disso suspeito que o meu corrector ortográfico é brasileiro e me enganou relativamente à grafia do plural de “segunda-feira”.). –



Perdi o telemóvel!

Eram 09h 00m quando este pensamento aterrador atravessou as minhas sinapses como um comboio de mercadorias totalmente descontrolado, acabando por lançar caos e desolação sobre o meu meticuloso planeamento diário.

Revistei todos os bolsos por duas vezes consecutivas; o que semeou o desconforto entre as universitárias que desconfiam sistematicamente dos tipos de meia-idade que se mexem mais que o normal na carreira da Trafaria.

Mas eu estava desesperado. O “indestrutível zingarelho” tinha finalmente cumprido o seu destino, desaparecendo numa nuvem de incógnitas juntamente com todos os meus contactos (embora apenas precise de dois ou três; são logo esses os únicos que apenas se encontram ali).

Aquele aparelho é uma espécie de Houdini dos telemóveis, ostentando orgulhosamente as cicatrizes de imensos percalços.

Já passou por uma defenestração durante um ataque de raiva (mas passou depressa; tanto a mim como a ele), três quedas da bicicleta e um acidente ainda não totalmente esclarecido; que envolveu um alguidar de plástico, um kimono de karate e muita água com SKIP (sobejamente recomendado, embora não para alguidares de plástico e telemóveis).

As lágrimas quase me vieram aos olhos, quando recordei que estava já na altura de mudar da capinha preta para a azul (eu sei que é uma paneleirice, mas ainda me fica muito “saldo”…) por ser Primavera. Entrego-me pois nas mãos de Blog e ao seu providencial bom-humor, para que me valha neste momento de crise (está na hora de cobrar todos aqueles créditos).

Aos meus contactos (you know who you are) peço que me reenviem os respectivos números; mas apenas daqui a uns dois dias, não vá eu encontrar o sacaninha num canto qualquer.

Até lá encontro-me pois… inconsolável.

*** Update ***

Assim que ouvi o decassílabo monofásico - “
Cêkéucaradabicicreta?” – soube instantaneamente onde me esquecera do telemóvel. Não me tinha ocorrido antes, porque iria jurar ter pegado nele já em casa para ver as horas após a minha volta habitual; mas afinal tratava-se de uma falsa memória.

A caminho da esplanada louvei mentalmente a honestidade do tipo, que o fizera ligar para a empresa (
é o que faz ter na lista coisas como “casa” ou “escritório”) na disposição de me devolver o telemóvel.

Imbuído de gratidão aproveitei ser hora de almoço, e fiquei para o “
buffet”.

Não fora este ainda, o último desaparecimento do famoso Houdini.

Graças a Blog…


Música de Fundo
Elvis” – These New Puritans

quinta-feira, 6 de março de 2008

Uma vez que me encontro com uma peculiar inspiração, que oscila entre “Padre António Vieira” e “Estripador de Amsterdão”; decidi ir ver o mar para desanuviar, e então produzi as estrofes que aqui vos deixo um pouco em bruto.

(Deixei ao meu procurador como indicação testamentária o desejo que estas estrofes sejam cantadas pela Marisa, em roupa interior, e na exacta localização das seguintes coordenadas geográficas – 66º 33’ 39”)

Por isso…
O Mar

O mar, o mar, e eu a olhar
e o cheiro e o sal, e o ar a salgar.
E a olhar o mar e a recordar
como não te mexias sem eu te empurrar,
ou nunca gemias sem te beliscar.

E eu a olhar,
a olhar o mar.
Sempre a recordar
como era amar,
ou encaixar,
o que é similar.

Mas há que observar

Que amar o mar ,
pode causar,
um certo mal-estar.

Isto se ficar,
só a recordar,
lá à beira mar.
E assim se deixar,
p’las ondas beijar.

Ondas certamente,
que me vão constipar.

O mar, o mar, e eu a olhar
E eu a espirrar… e eu a espirrar…
(Não vás ao Mar Tóino)

Música de Fundo
La Mer” – Nine Inch Nails

segunda-feira, 3 de março de 2008

Devaneios Dominicais
- Onde o autor se interroga sobre a futura chegada da Primavera, e de como os entraves a esse processo arrefecem o Pássaro de Fogo a qualquer um… -

Acordei cedo.

Fui para a esplanada aguardar a Primavera e preparei-me para esperar sentado, juntamente com os pombos.

Enquanto compartilhava a minha torrada com dois deles, chegou novamente a representante saturnina do Inverno que pediu a bica do costume. Igualmente como de costume sentou-se de costas para mim. Abandonando ostensivamente à minha observação concupiscente, algo que considera notável e particularmente precioso.

Suspirei e descansei o olhar sobre os montes de entulho das obras do Metro. “Aquela espécie de eléctrico com aspirações burguesas” - como um dia o classificarão os bloquistas, quando deixarem de consumir substâncias que lhes entorpeçam a mente.

Mas ali estava eu enfim, a aguardar a Primavera; juntamente com os pombos, a representante saturnina do Inverno (que todos os domingos teima em se ir sentar ostensivamente de costas para mim) e alguns madrugadores avulsos, que na Praça de Blog evolucionavam com os seus veículos de propulsão animal (skates, biclas e uma vara de pogo).

Dei um gole na bica dupla e reflecti um pouco amofinado que não me podiam fazer uma daquelas… A mim… que abdicando do modorrento prazer dos lençóis, me levantara cedo para ir aguardar a Primavera para a esplanada.

Olhei novamente em redor. As aves quase paradas no ar, executavam uma complicada coreografia inquieta e sobressaltada. Inclinando amiúde a cabeça, como que apurando o ouvido em busca de instruções.

Observei a mulher mais atentamente. Atrás da expressão séria que ostentava, um sorriso balouçava como um Petromax por detrás da lona de uma tenda. Aquele sorriso estava entre mim e a chegada da Primavera, e no entanto eu não o deveria ver, porque ela teimava em se manter séria e olhar em frente; como se nada fosse.

Como se a sua presença naquela esplanada não mantivesse os pombos à distância e com eles o azul que os acompanha como um céu privado; como se não me ocupasse todo o horizonte visual a sua figura de boneca de trapos em fato de treino; como se aquele cu enorme não estivesse sentado em cima do jornal que eu tanto queria ler…


Música de Fundo
A Sagração da Primavera” – Igor Stravinsky
(Os Augúrios Primaveris - Danças das Adolescentes)

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