segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Reflexões em Queda Livre
- Todos os instantes são eternos. Mas a eternidade é relativa… -

Embora o mundo esteja (segundo alguns mais dados à arte dramática) à beira do caos, a vida segue aquele trajecto habitual que nunca me canso de observar; nem sei bem porquê.

Talvez inconscientemente eu sinta que assim, reforço com os outros uma ténue relação empática que me mantém humano. Ou então é apenas curiosidade… Mas eu nem sou gato a quem a curiosidade mate.

Enquanto muitos readquirem a serenidade na contemplação da natureza e seus prodígios, a mim basta-me a cidade. Pois não são os campos (criados talvez por um deus há muito falecido) que nos retratam, mas sim estas; construídas à semelhança de um desejo que na prática nunca resultará. Ou seja, a fiel imagem do espírito humano.

São este os pensamentos, que passam como farrapos de nuvens pelo meu cérebro semi-toldado por uma monstruosa constipação (pensamentos que escrevo “de memória”, é claro); enquanto acompanho distraidamente o evolucionar do miúdo “do Leste” no seu skate novo.

O miúdo é “do Leste” porque assim o decidi. Poderia ser até descendente de Afonso de Albuquerque, mas o facto de ser louro e de a mãe e a avó se parecerem respectivamente com Olga Korbut e Nikita Khrushchev é algo determinante no meu imaginário.

O outro ponto a favor da minha teoria é o carinho com que ele trata a prancha. Como se fosse uma “Alien Workshop Dyrdek Soldier”, e não algo que se compra por vinte euros já com capacete, cotoveleiras e joelheiras; dentro de um saco de plástico transparente. Ou então sou eu que sou preconceituoso e não se trata de nada disso.

Seja como for, estou-me nas tintas.

Os pombos de Blog, que passam o tempo a competir entre eles por migalhas de torradas, assustam-se com os meus espirros de ostentação desta espécie de gripe que adquiri sem saber onde ou como. Talvez seja apenas o sol, mas as ideias começam a fugir-me como ciclistas desgarrados por estradas secundárias.

Acabo a bica dupla e calço as luvas.

Do alto do selim consigo ver ao longe o Barreiro; e sobre ele um céu incrivelmente azul. Onde um qualquer passaroco incaracterístico estica as asas preguiçosamente, num possível treino para a próxima migração.

Contenho um espirro, coloco os óculos e inicio a descida da rampa em direcção aos meus destinos habituais. Novo espirro. O miúdo “do Leste” olha-me com uma expressão surpreendida.

Igualmente surpreendido estou eu. Porque o vejo a uma distância e altura em que não estava antes. Obviamente caí… E por um espirro…

Acho que ainda o ouvi dizer – “Na zdravie”.

Música de Fundo
Always the Sun” – The Stranglers

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Oito e meio
- O primeiro de uma série de posts absolutamente honestos; e que por isso mesmo só poderão ir sendo publicados muito esporadicamente. -

Adquiri há meses o hábito de não programar a escrita.

Assim, quando chega o dia em que tudo deveria estar editado e pronto a publicar, fico a olhar para a primeira frase plantada no topo da página, como um poste telefónico numa colina, e volto a perguntar a mim próprio qual a razão que me faz teimar em escrever como se tal me fosse mesmo necessário.

Já em miúdo era um puto teimoso; passando por via disso todo o tempo a meter-me em sarilhos. E embora possam pensar o contrário, isso foi uma coisa boa.

Não por causa dos sarilhos “per se”, mas devido à prática incessante de uma atitude que ultrapassando todas as leis e condicionalismos (excepto as “leis naturais”, que até nem são tantas assim), me conduz invariavelmente “à Solução”. Seja ela qual for, e doa a quem doer.

A certa altura em que me interessava pelas “Ciências Humanas/Sociais”, esse assunto preocupou-me meses a fio; e a possibilidade de ser um genuíno psicopata de pleno direito, era algo que não figurava entre as minhas principais aspirações na vida. Comecei pois a ter mais em consideração o “Factor Humano”.

Foi obviamente um erro que tive que emendar com carácter de urgência. Pois o “respeito”, a “civilidade” e a “consideração” eram (tal como hoje em dia) tomados como sinal de fraqueza de carácter; e visto que eu na altura estava apostado em ser um modelo de urbanidade, foi exactamente isso que acabou por me conduzir (após alguns episódios mais movimentados) de regresso ao modelo inicial que ainda hoje se mantém.

Mas o “modelo actual” sofre de algumas imperfeições praticamente incontornáveis. Uma das mais importantes manifesta-se quando algo que não tem qualquer objectivo ou utilidade, é no entanto mantido em actividade. Tal como este blog, que cada vez mais tenho a tendência de comparar ao invólucro de pele que alguns répteis vão deixando para trás, no seu sinuoso caminho para a eternidade.

Escrever sobre o blog é como escrever sobre escrever. - Uma espécie de “chover no molhado” que apenas serve para ir buscar outros assuntos; reminiscências de outros tempos, referências cruzadas ou apenas pequenos episódios de vidas já mortas.

A utilidade deste blog perdeu-se há muito. Na verdade apenas o escrevo (e continuarei a escrever) porque sou teimoso.

E se calhar, maluco também…

(Para a próxima vez, quem sabe, talvez vos conte uma linda história…)

Música de Fundo
Twisted Transistor” – Korn

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Onirolalia
- Afecção comportamental que consiste em um indivíduo não conseguir resistir ao impulso de falar dos seus sonhos a estranhos que frequentem os mesmos bares manhosos (Esta nova doença mental que acabei de inventar é totalmente “Royalty Free” para os leitores deste blog, que a poderão usar na sua vida quotidiana, ou mesmo para abrir um próspero consultório e viver disso) "–

Sonhei que o meu blog tinha morrido. Foi um choque! Para a idade até se encontrava numa forma bastante razoável e toda a gente lhe augurava um futuro promissor. Pois apesar de ser já um pouco entradote, ainda postava regularmente uma vez por semana.

Mas que querem? Nós (e os blogs) não somos nada…

Pelo menos era o que a malta não se cansava de repetir uns aos outros durante o velório como se fosse um mantra, ou um substituto para “Esta vida não é nada, acende mas é lá mais um bit…

Vieram blogs e bloggers de todos os cantos do país. Uns para prestarem a sua última homenagem a quem consideravam um autêntico modelo de virtudes e um pilar da comunidade, outros para se certificarem de que seria devidamente enterrado; em qualquer dos casos era generalizada a expressão compungida de todos os presentes.

Um dos momentos altos que quase nos levou todos às lágrimas, foi quando o Pipi (que descobrimos mais tarde ser um “alter ego” de José Saramago) momentaneamente regressado da reforma, lhe gabou o bom feitio e o fino recorte literário dos seus ditos de espírito. Tendo acabado por o comparar ao imortal Albino Forjaz de Sampaio; afirmando que à semelhança deste ficaria o seu nome famoso para sempre, embora ninguém viesse sequer a fazer a mais remota ideia sobre - “…who the fuck was TheOldMan?”.

E a tudo isto eu assistia lá de cima, impassivelmente, como se estivesse sentado na última fila do segundo balcão da Incrível Almadense e as minhas pipocas nunca mais acabassem.

Vi os restantes membros da IIB (Igreja do Imaculado Blog) receberem lacrimejantes condolências e palavras de conforto por parte de ilustres blogs, acenando com a cabeça de um modo fatalista; como quem tendo deixado escapar um táxi, sabe porém que é totalmente irrelevante a hora a que chegará.

A determinada altura notou-se um acentuado burburinho ao fundo do recinto do velório. Mas fora apenas Moita Flores que se tentara esgueirar para o interior com o fim de se misturar com a assistência e passar por blogger; mas foi prontamente imobilizado e devolvido ao exterior totalmente envolvido em fita gomada, da qual alguém tinha encontrado um rolo inteiro ao pé da urna.

O resto da noite foi passada entre pequenas sestas em cadeiras desconfortáveis, fugas ao bar de alterne ali perto para “carpir um copo” e pequenas sessões de má-língua ou de episódios caricatos sobre o defunto.

A manhã veio encontrar-nos a todos com uma negra mas risonha predisposição. Como se alguém tivesse finalmente descoberto que a vida não tem sentido, mas que em contrapartida tem imensa piada. Até o sol de Outono radiante mas frio, assegurava ser o dia ideal para um enterro de blog.

A areia semi-gelada estalava sob os nossos pés, à medida que transportávamos o caixão através da frígida manhã em direcção ao correspondente “Arquivo Morto”, onde ficaria indexado por toda a eternidade ou até se dissolver nos seus elementos-base (o que viesse primeiro).

Por esta altura o funeral animou momentaneamente à conta da banda de “dixieland” (os South River Band), que trouxe um pouco de calor à paisagem e à macia e enregelada pele das coxas de algumas bloggers, que as exibiam por debaixo das suas virtuais mini-saias. O Pastor tossicou.

Era um pastor a sério. Nada dessas merdas falsificadas e com sotaque estrangeiro que semanas antes estariam atrás do balcão de uma agência de viagens no Piauí.

Ora o pastor atirou para trás a aba do seu capote (era um pastor alentejano), e tirando do bolso um pequeno livro apoiou com o ar mais pio do mundo as mãos sobre este, iniciando uma leitura integral de “O Outono em Pequim” de Boris Vian; durante a qual me mantive misericordiosamente adormecido.

Mesmo para um sonho sobre blogues a coisa começava a tornar-se bastante “seca”. Alguns dos presentes fartaram-se do marasmo em que o acontecimento descambara, e dissolviam-se já na atmosfera em busca de melhores eventos, virtuais ou não.

Tomado de súbita decisão aproximei-me do fétreo onde a sorridente máscara funerária assegurava aos visitantes tratar-se de um blog com sentido de humor, e fechando a tampa declarei – A festa acabou!.

Virando-me para a multidão que me aguardava expectante, arenguei – Bloggers… cidadãos… emprestem-me os vossos ouvidos… - fui de imediato atingido por uma saraivada de orelhas de borracha, após o que continuei imperturbável – Vim aqui para enterrar o meu blog e não para fazer o seu elogio. Mas ao fazê-lo tive a premonição de que seria para mim estando vivo, ainda mais difícil conviver diariamente com o seu virtual cadáver. O que me recordaria constantemente esta literária insatisfação com que aparentemente nasci.

No fundo, eu nada tinha escrito que pudesse publicar hoje. Mas apesar de não me apetecer escrever, é-me bem mais difícil manter o silêncio do que de algum modo falar-vos da minha preguiça epistolar, do estado do tempo ou de todas as outras coisas que muitos outros já falaram anteriormente.

Porque é para isso que um blog existe; para falar.

Falar mesmo que ninguém nos ouça ou queira saber. Ou apenas para falar por falar, quando o que todos de nós esperam, é a enunciação do teorema que virá finalmente explicar o sentido de todas as coisas. Porque a blogosfera não é (ao contrário do que muitos pensam) um novo mundo, mas sim uma acéfala e cega anémona com milhões de bocas, por onde as palavras se repetem interminavelmente e até à exaustão.

Até que um dia como que por acaso, todas elas venham finalmente a fazer algum sentido para alguém.

(Convém informar que entretanto acordei. Mas não sei bem em que ponto foi ou quando; o que nos deixa a interrogação sobre quais os verdadeiros limites da realidade/sonho ou se vale realmente a pena andar a escrever todo este arrazoado de parvoíces. Mas isso será possivelmente assunto para um outro post.)


Música de Fundo
Crash” – The Primitives

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

“Eu gostava de ser aquele ciclista…”

… Era o que parecia pensar o miúdo que já passara três vezes em frente à esplanada; sempre com o dedo enfiado no nariz como se estivesse a tentar coçar o cérebro por dentro.

- É nova? – Perguntou detendo-se finalmente; enquanto mirava apreciativamente o quadro totalmente negro, os travões de disco, e os pedais brilhantes como uma moeda recém-cunhada – Eu tenho uma VILAR MTB 16 com suspensão – Continuou ufano – E a tua, que marca é?

- Não tem marca – Respondi por entre uma nuvem de migalhas de torrada. Não por má educação, mas apenas para marcar a informalidade do nosso diálogo; na qualidade de machos e ciclistas. – Vou chamar-lhe Grace Jones…

- Porquê? – Interrogou ele com uma certa intuição baseada no imaginário tele-novelesco – Gostas dela? Quem é?...

- São muito parecidas. E nem gostava muito … - Ri-me - Mas não deves conhecer, pois é de há muito tempo.

Esteve ali mais um pouco a digerir a informação. Mas provavelmente as “coisas de cótas” não seriam o seu assunto preferido. Pois que atirando um entrecortado “já venho” sumiu-se dando à perna com rapidez tal, que quase não dava para ver as peúgas de elástico lasso que lhe caíam para os tornozelos.

Reapareceu alguns minutos depois (bebia eu os últimos goles da bica dupla) trazendo à mão uma bicicleta amarela, já com algumas cicatrizes de batalhas contra a gravidade e os lancis inesperados. Espantosamente encontrava-se lubrificada e sem um grão de poeira, como se alguém a tratasse com o cuidado devido às coisas insubstituíveis.

Olhei melhor para ele e vi-lhe no olhar um brilho que me era familiar. O do entusiasmo de quem tem a sua primeira bicicleta; uma sensação que se sente apenas uma única vez.

Enquanto o ajudava a afinar o cabo do travão dianteiro, pensei que gostaria… Sim. Por breves momentos gostaria de ser aquele ciclista.

Música de Fundo
Let the Good Times Roll” – The Cars

Creative Commons License
Todos os textos desta página estão protegidos por BLOG e por uma Licença Creative Commons.

theoldman.blogspot.com Webutation