domingo, 28 de dezembro de 2008

O Último Aniversário do Ano
- Onde não se demonstra absolutamente nada sobre seja o que for; objectivo este alcançado por via do espírito natalício e outras filosofias fisicamente incapacitantes -

Hoje quando acordei não fazia a mínima ideia de qual o dia em que estava. Tentei concentrar-me e evocar acontecimentos que me situassem nas coordenadas temporais com que classificamos os dias, mas nada a fazer.

Estava perdido no tempo.

Normalmente esta é uma afirmação que é seguida de um enorme alarido, pânico e fuga em todas as direcções. Mas eu tinha acabado de acordar; e essa não é altura que permita grandes arranques ou tiradas extensas sobre a nossa periclitante situação na matriz do tempo.

Virei-me para o outro lado e dormi mais um pouco.

Ao acordar pela segunda vez, o meu subconsciente já se encontrava preparado. Abri o olho esquerdo que se encontrava directamente apontado para o minúsculo calendário do relógio de pulso, fechando-o logo de seguida para digerir a informação – 28. Estamos a dia 28.

Comecei a sentir-me invadir pela culpa, como um pano que a chuva vai encharcando. E quanto mais o tempo passava sem que eu o dissesse a mim próprio, mais encharcado em culpa me sentia. – Era dia 28 (e não 27 como eu poderia afirmar sob juramento) e ainda não tinha feito o post de aniversário para a Vanus de Blog.

Estava metido num lindo sarilho.

Para mais não me lembrava de nada que não fossem as ocas e gastas fórmulas de cortesia para estas ocasiões – Tu és para mim quem mais… (pois é, vindo do tipo que se esqueceu da data… até parece a sério).

Por isso creio, querida Vanus de Blog, que o post de aniversário este ano vai ser um pouco diferente. Não me vou alargar em rasgados elogios sobre a relação única que temos ou pela raridade que é encontrar alguém com quem se possa estar como connosco próprios.

Não vou sequer repetir (mais uma vez) que além de tudo o mais és também a minha melhor amiga. Vou apenas deixar-te os meus parabéns.

Sim. Porque nesta altura, só tu conseguirias fazer-me vir aqui para escrever um post.

Música de Fundo
The Killing Moon” – Echo and the Bunnymen
LINK para o clip

domingo, 21 de dezembro de 2008

A 51ª Contagem
- Porque é que os meus aniversários já não são o que eram antes… -

Nunca vi grande piada nos meus aniversários.

E apesar de em algumas fotos antiquíssimas se conseguir ver um miudinho de olhos brilhantes e maravilhados, a soprar as velas de um bolo na companhia de sorridentes convivas. Penso que esse sentimento seja algo que acaba por ficar para trás; juntamente com as pistolas de fulminantes e o famoso estetoscópio do Dr. Kildare.

Ah, o estetoscópio do Dr. Kildare… Desde essa altura que tenho consciência do papel importante que a medicina representa para a humanidade.

Ou que pelo menos representaria para a miúda do 5º andar; para quem apesar de sempre se ter recusado a brincar aos cowboys, bastou uma tarde mostrar o famoso estetoscópio recém-oferecido, para se transformar numa simpática “paciente” desejosa de colaborar com os “avanços da medicina”.

Mas exceptuando as minhas incursões no mundo do pó-de-talco, pouco posso abonar em favor dos meus aniversários (apesar de mais tarde ter algumas vezes recebido “prendas” similares que me agradaram imenso).

Talvez o episódio mais marcante relacionado com um aniversário meu, tenha sido o incidente Nº 18 passado em 20 de Dezembro de 1975. Morava eu já em Almada, essa bela localidade.

Era sem dúvida uma noite destinada a marcar uma época, e em que nada tinha sido deixado ao acaso. Excepto talvez o facto de ter fechado a janela da casa de banho pois era Inverno e estava um frio de rachar.

O velho esquentador Vaillant de 5L que tínhamos na casa de banho, parecia assim uma espécie de mochila de astronauta em exposição na parede de azulejo branco do Museu Guggenheim. Mas a metodologia para o fazer funcionar era assaz fácil; acendia-se um fósforo e abria-se a torneira por onde sairia a água quente. Uma espécie de inócua troca alquímica, aparentemente sem resíduos ou efeitos secundários.

Só que aparentemente estava escrito que eu não iria gastar nessa noite a embalagem de preservativos, que comprara à tarde na candonga.

Limpava-me eu calmamente à toalha turca e imerso em prazenteiras antecipações, quando comecei a sentir muito sono.

Correcção. Na verdade mal comecei a sentir sono já me encontrava em queda livre na direcção do chão; que à época era composto por uns horrorosos mosaicos verdes, onde uns tipos escuros e nus caçavam perus com lanças.

Pelo menos foi o que me pareceu. Mas poderia estar enganado, pois segundos depois perdi o conhecimento; exactamente na altura em que o meu cérebro descobriu, que aquilo que o sangue lhe levava não era oxigénio mas sim monóxido de carbono.

Eram quase horas de jantar, e a minha mãe ao chegar a casa estranhou que ainda me encontrasse entretido com os meus cuidados pessoais, em vez de ter desarvorado em direcção ao que quer que fosse que eu fazia até tão tarde (as mães têm um imaginário maravilhoso, mas um pouco limitado no que diz respeito ao que os filhos fazem).

Como se ensina a toda a gente desde tempos imemoriais, “em caso de emergência chama-se um vizinho”.

Calhou a vez ao Zé Manuel que vivia no rés do chão e trabalhava - tal como eu e o meu pai – na indústria naval. E que me prestou os primeiros socorros enquanto o meu irmão ia a correr chamar o marido da Dona Glória do prédio ao lado, para me transportar ao Hospital (velho) de Almada.

A noite do meu 18º aniversário ficou famosa na vizinhança pelo seu conteúdo dramático. Nomeadamente devido à imagem deste vosso narrador, transportado nu como Marat saído do banho para o banco traseiro do Opel Kapitän de 55, onde o Zé se afadigou na respiração boca a boca; enquanto a Rua Capitão Leitão era percorrida vertiginosamente por um bólide em formato de pão alentejano.

Acordei algumas horas mais tarde apenas coberto por um lençol e com um tubo enfiado no nariz, frente a uma sorridente enfermeira que me desejou feliz aniversário e me estendeu a roupa que os meus pais tinham trazido. Acabando por me aconselhar amávelmente - Beba leite, que ajuda a passar isso!...

Não sei se foi por ter perdido a bela noite que tinha preparada, ou por em vez disso ter sido transportado nu para um automóvel e beijado na boca por um metalúrgico. O certo é que desde essa altura, nunca mais achei a mesma piada aos meus aniversários.

Música de Fundo
20th Century BoyT. Rex

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Fobia dos Claustros
- Onde interrompo o meu Auto-Exílio administrativo, mas por uma boa razão… -

Francisco de Blog (o Metropolita de Lagos) festejou ontem mais um aniversário; e eu (talvez devido à minha provecta idade) não me apercebi do facto. Não fosse a nossa amiga comum Vanus a lembrar-me, e ainda aqui estaria em olímpico alheamento.

Não há muito a dizer quando duas pessoas se conhecem por meios electrónicos; especialmente porque tal veículo raramente dá uma percepção fiável sobre a pessoa ou avatar com quem lidamos.

Mas o Francisco é um dos meus leitores/comentadores/confrades mais assíduos, assim como possuidor de uma sensibilidade artística e um bom gosto invejáveis (não conheço mais ninguém que compartilhe a minha admiração por Edogawa Rampo). É difícil pois fazer votos para alguém que consideramos tão exigente e ao mesmo tempo tão merecedor como nós próprios.

Por isso, venho aqui apenas para te dizer - Parabéns Francisco!

Música de Fundo
Children of the Revolution” – T. Rex




segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma “Espetada” de Posts
- Sequencia de pequenos textos em rajada, com música de fundo e vídeo final. Ficando a simples advertência que dificilmente haverá mais durante cerca de duas semanas. Feliz Natal! -

1

L'Importance D'être La Palice
- As verdades são como os cus. Nem todas cheiram bem, mas tarde ou cedo acabam por assentar… -

Do mesmo modo que nos anos oitenta o jornal “O Diário” era (segundo o seu grito de guerra transcrito logo abaixo do título) a “verdade” a que os PC’s tinham direito, os deputados do PSD são actualmente aquilo que o partido e a sua direcção merecem.

No fundo, muitos deles concordam com o projecto-lei do PS sobre a avaliação dos docentes; e demonstraram-no ao se recusarem a votar contra, tendo-se “baldado” sub-repticiamente ao emprego nesse dia.

2

O Natal de Blog (The Beginning)
- A génese do Natal de Blog explicada às criancinhas; em formato de conto infantil. A transmitir aos Domingos, depois da missa da TVI onde aquelas senhoras de sobrancelhas grossas entoam cânticos com voz fininha -

A história da Virgem de Blog no tempo em que vivia com um senhor impotente. O que lhe permitiu ficar virgem até à chegada do Espírito Santo (que trabalhava num banco), e de como este cometeu o erro de se transformar em pombo sendo atingido a tiro de “flóber” pela virginal criatura que detestava “ratos com asas”.

É por isso que o crucifixo de Blog tem um pombo, em vez de um judeu barbudo com ar dorido… Quanto à ruptura da referida membrana, só é relatada no penúltimo episódio (para fazer render a fé).

3

Diálogos Cruéis
- Proposta para série de pequenos “sketches” a transmitir em horário nobre, de modo a contrariar o mau hábito que algumas pessoas têm de ver televisão durante as refeições –

Ela – Vocês homens são todos iguais!...

Ele – Ainda bem! Pelo menos em caso de engano sempre temos mais por onde escolher a seguir.

Música de Fundo
Tear You Apart” - She Wants Revenge
(LINK para video)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

(O mês de Dezembro é um dos mais atarefados no ramo da construção. Pois é altura de retribuir favores, oferecer lembranças e pagar subornos. Por isso, desculpem lá o mau jeito; mas aqui vai um repost de 2005 em homenagem ao congresso do PCP)

*

Piqueno Poema Pessoal (PPP-ML)
- “Passear por estes campos à beira das coisas, é um supremo bem que não se alcança, senão a caminho do nosso destino.” (Ruy Cinatti) –

Fui punk fui comunista
falei alto e baixei crista
abdiquei da liberdade
ao embarcar numa lista
mesmo assim perdi o tacho
pois não era um bom sacrista

Em Lisboa fui Pessoa
fui Pessanha quase em Espanha
e só não fui Sá-Carneiro
pois não gosto do Barreiro

Fui Ary no Piaui
fui Espanca em Vila Franca
até fui Gaspar Simões
apesar das comichões

Tive lutas sindicais
com empregadas lascivas
converti-me aos capitais
passei férias nas Maldivas

Do Mário Henrique Leiria
ficou-me o gosto pelo Gin
gritei com Almada Negreiros
“morra Dantas, morra pim…”

Quis ter uma livraria
queimei dinheiro em papel
mas conhecia poetas
e então abri um bordel

Música de Fundo
Last Good Day of The Year” – Cousteau

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