domingo, 25 de janeiro de 2009

Na cama comigo próprio
- Apontamentos de um explorador perdido algures nas vastas cavernas do Planeta Flanela -

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A provar que a vida não é mais que uma sucessão de eternas repetições, deparei mais uma vez com a Dr.ª Inês debruçando-se sobre mim como um benevolente “Ganesh”; cuja face radiante de bondade me transmitia calor e segurança. – Estamos a fazer muita febre; não estamos? – Proferiu no seu habitual tom de voz, que fazia lembrar salada de frutas polvilhada com canela.

Tentei focar bem a vista. Mas era como se regulasse um telescópio com as lentes embaciadas. Todas as imagens me apareciam distorcidas e com narizes descomunalmente bulbosos; assim uma espécie de instantâneo captado através de um óculo de porta.

Uma vez que não tenho feito ultimamente qualquer investimento no domínio das substâncias recreativas, concluí que estava doente e virei-me para o outro lado, enquanto soavam os primeiros acordes de “Should I Stay. Or Should I Go” dos Clash. As drogas que fizessem o seu trabalho.

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São horas intermináveis em que vou sendo cozinhado pelas minhas fornalhas interiores. Rubras incineradoras, que de goelas abertas deixam escapar promessas de um inferno garantido. Não tão garantido assim, pois tempos depois acaba por sobrevir um frio penetrante e azulado que induz tremuras incontroláveis; tremuras estas que a serem bem aproveitadas, dariam para colher todos os frutos de uma ameixoeira de bom tamanho.

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Palavras fungiformes encerradas em frascos de formol. Quase-silêncios roçagantes de uma beleza monocromática; envoltos num húmido véu de tule e febre. Relembro subitamente noites em que velhas rezavam, humedecendo trapos em água-de-rosas.

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Profundos e sinuosos túneis onde fiadas de lábios rubros e aveludados protegem a entrada dos arquivos do sexo, onde o delirante explorador desprevenido se perde às vezes presa de uma húmida boca, umas coxas mornas ou umas nádegas frias (sempre achei que as nádegas frias são um bom sintoma; em certo aspecto equivalente aos perdigueiros terem o nariz húmido).

Como uma toupeira na sua febril semi-cegueira calcorreio os meus corredores subterrâneos, farejando factos, datas e pessoas que surgem como turfas saídas das húmidas paredes; com um odor pungente a folhas e passados afogados em névoa.

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Não tem sentido a Primavera sem Inverno ou a vida sem morte.

É qualquer coisa que parece saída de uma das letras dos ABC, mas cheio de sentido na sua aparente superficialidade. Talvez seja daquelas ideias que se tem quando se apanha gripe; uma espécie de mensagem geneticamente impressa e transmitida pela simples presença do vírus. Um mecanismo que se alimenta de todo este calor húmido que paira entre as minhas orelhas como uma nuvem tépida e entorpecente.

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Musica de saxofone e piano difunde-se a partir do nada; descendo lentamente por um fio de luz que o candeeiro projecta na almofada mesmo junto ao meu olho esquerdo. Os folhos do abat-jour fazem lembrar a cortina de um palco por onde a luz se escoa inundando o quarto numa aguarela azulada que se vai centrando caleidoscópica no tecto.

Nas raras vezes que caio à cama doente, acabo invariavelmente por me recordar de “O Detective Cantor” de Dennis Potter.

Imaginei-me há pouco a cantar “When Smokey Sings” com um casaco às riscas e chapéu de palha. Mas isso talvez seja do antibiótico que nada num caldo de cultura composto por mais quatro ou cinco drogas e um pouco de sumo de laranja. Sinto os olhos como ovos cozidos que deslizassem incomodamente em ângulos invulgares.

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Sinto a boca seca mas não bebo. Quero saborear este deserto de onde se desprendem estranhos eflúvios em espiras vaporosas como vagarosos géisers expelidos por invisíveis cetáceos.

O mundo vítreo e aquoso que se esconde na minha febre é composto por biliões de minúsculas gotículas de suor que traçam na minha memória a posição de todas as rugas da minha cara. E me cobrem com uma película refrescante, que finalmente me faz deslizar para o sono.

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Acordo às vezes. Interrogando-me sobre as horas ou se chove... apenas por hábito. Mas acho que estarei curado um dia destes…

Música de Fundo
Berlin” – Lou Reed

domingo, 4 de janeiro de 2009

Desejamos-lhe um Feliz Ano Morto!...
- Uma fábula politico-social imaginada no breve espaço de tempo em que tentava fotografar uma estranha estrutura metálica, e quase sendo simultaneamente atropelado por um autocarro dos TST… -

Lembro-me perfeitamente como tudo começou no primeiro fim-de-semana de 2009.

Estava a testar a máquina fotográfica do meu novel telemóvel (recebido no Natal) naquilo que passava como sendo “A Árvore de Natal da Cidade de Almada“ – uma gigantesca marquise cónica erigida numa das principais praças – quando ouvi os primeiros gritos.

A princípio não lhes dei muita importância, pois além de me encontrar um pouco atrasado e ainda ir apenas a meio do meu circuito matinal, os auscultadores do Walkman bombavam qualquer coisa bastante ruidosa, que não dava grande margem para atender a súplicas e/ou gritos horripilantes.

Mas entretanto os mortos tinham acordado. Bem… Nem todos.

A estranha singularidade que tinha proporcionado este inesperado despertar, soube-se mais tarde, só funcionara perante um conteúdo mínimo de massa muscular; pelo que todos os posteriores esforços feitos para ressuscitar alguns líderes políticos bem como apodrecidos barões da finança falecidos vários anos antes, não passaram de um enorme desperdício de tempo e recursos.

Finalmente após umas duas semanas de insano desvairo, sua ex-santidade João Paulo II apareceu à varanda papal na Praça de S. Pedro, pedindo ao mundo que tomasse um pouco de juízo; pois tudo o que acontece é vontade de Deus… e etc, ad infinitum. Só perdendo a embalagem, quando acabou por deslocar o maxilar com tanta conversa. Percalço este, logo sanado por um industrioso cardeal munido de uma caixa de clips e um alicate de manicure.

A grande surpresa é que, um ano que tinha de início sido vaticinado como o mais negro poço em que o país teria caído até à data, acabou por se transformar num marco de mudança e progresso.

Nunca, até ao acordar dos mortos, o país tinha estado tão vivo.

Não tardou muito até que os “regressados” (assim apelidados em prol do “politicamente correcto) decidissem dedicar-se à vida pública, e exigissem um estatuto que os equiparasse aos privilegiados vivos; que segundo eles, gozavam imerecidamente os frutos do esforço dispendido por aqueles que literalmente se tinham matado a trabalhar.

Face a esta nova realidade, e posto que em caso de confronto dificilmente se poderiam matar novamente os mortos, estes acabaram por prevalecer e integraram-se finalmente em todas as instituições e ramos da sociedade.

O seu primeiro objectivo foi o Governo da República. Mas tal não suscitou grandes protestos, porque os portugueses já nascem fartos do governo; seja ele qual for. Apenas tiveram alguma dificuldade quando chegaram à Presidência.

Aí foram obrigados a concluir que Cavaco Silva não se encontrava suficientemente vivo para ser substituído, pelo que permaneceu em funções; continuando a não fazer qualquer diferença para o caso.

De qualquer modo a troca era pobre. Pois pretendiam substitui-lo por Mário Soares, que de algum modo os tinha convencido encontrar-se já morto também.

Passaram dois anos.

Dois anos de prosperidade em que os mortos se infiltraram na CIP, na CAP, na CGTP, na UGT e em tudo o que era associação ou partido político; conduzindo assim o país numa via de competência e honestidade. O que até era bastante fácil; visto que os mortos poucas necessidades têm. Para além de um pouco de creme hidratante para evitar que se tornem demasiado “estaladiços”, e uns “trapinhos” para mitigar a “vaidade residual”.

Nesta nova política de honestidade, o governo começou por pagar as suas dívidas às empresas. Mas o dinheiro nem precisou de sair dos cofres, pois estas (geridas finalmente também por mortos) deixaram de fugir aos impostos e começaram a cumprir as suas obrigações atempadamente.

Cedo chegou a vez de os trabalhadores verem os seus lugares ocupados por mortos. Mas a maior parte (excepto aqueles que não têm vida própria, ou sejam… mortos) não se preocupou com isso, pois a nova ordem permitia a qualquer cidadão trabalhar ou não, conforme o desejasse. Embora as empresas preferissem os mortos; pois estes além de não precisarem de dormir (ou sequer descansar), não exigiam nada para si excepto o ordenado mínimo e o direito ao trabalho. O que, segundo diziam, os ajudava a sentirem-se mais vivos.

Reparando na prosperidade que a “República Zombie de Portugal” (como zombeteiramente lhe chamavam) gozava com base neste fenómeno localizado, os governos dos outros países onde tal não acontecera, começaram a tomar medidas para “atingir um equilíbrio de forças” como se costuma dizer no meio político.

Apesar da total integração da nova minoria e de todos os direitos de cidadania que lhe eram garantidos constitucionalmente, começou a notar-se uma diminuição da sua participação na vida nacional.

A princípio foram apenas algumas empresas que regressaram ao controlo dos vivos, com todo o seu cortejo de inconvenientes e desvantagens já sobejamente conhecidos. Mas depois tudo se precipitou, e as instituições começaram a emperrar e a entupir como nos velhos tempos “vivos” do PS e PSD.

O Primeiro Ministro Paulo Portas que se suicidara para ser eleito, veio ao canal de televisão do governo informar que o momento era grave e que o país se encontrava “de tanga”. Aproveitando para anunciar a sua demissão do governo Português para ir presidir à União Europeia em Bruxelas, onde um desconsolado Durão Barroso fazia já as malas para regressar de orelha murcha (ou nariz, tanto faz) a Portugal.

A economia entrou em recessão grave. E as pessoas na rua ostentavam todas elas expressões lúgubres; agravadas talvez pela maquilhagem zombie que se tornara moda. Mas os verdadeiros mortos, cada vez se tornavam mais difíceis de encontrar; correndo o boato que teriam a pouco e pouco fugido para o estrangeiro, aliciados pelos outros países da CEE e mesmo pelos Estados Unidos da América.

Assim, os vivos voltaram (mal ou bem) a ter que “fazer pela vida”; e esta acabou por continuar. Sendo segundo a minha opinião (e a da Bíblia também) a única coisa que a vida sabe fazer, que é continuar.

Imensas teorias se formalizaram sobre as razões da origem e do término deste fenómeno, mas nenhuma delas se provou suficientemente conclusiva.

Até que uma manhã no “Você na TV!”, Manuel Luís Goucha com a sua habitual vivacidade, esclareceu – Os portugueses tornaram-se num povo acomodado e sugestionável. E até os “nossos mortos” nos abandonaram, porque acabámos por chegar a um ponto em que não se notava a diferença entre estes e os vivos.”

Na sua simplicidade popularucha, o apresentador brindara-nos com uma “verdade básica”. Se há coisa insuportável para qualquer minoria, é a perda da diferença que a distingue.

Ou então (como outros sustentam) muito simplesmente os mortos acharam que “não valia a pena gastar cera com ruins defuntos”.

Música de Fundo
Open Your EyesGuano Apes

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