sexta-feira, 29 de outubro de 2010





Foto: Net


Molhado e Sem Paciência
- Onde o autor se desbronca sobre as inundações periódicas na Baixa de Lisboa, e sobre a falta de critério na atribuição de licenciaturas em Engenharia Civil -

A amnésia selectiva não é só uma característica dos maus políticos como se estende igualmente a outros quadrantes, nomeadamente os técnicos; e nesta particularidade vou referir-me aos quadros técnicos de grandes empresas de construção civil.

A manifesta má disposição com que escrevo este texto pouco tem a ver com o parágrafo anterior. Mas após uma “molha” apanhada numa estação do MST; que se trata de um telheiro quase tão eficiente para o efeito como um toldo de praia. Alguém havia de levar comigo.

Logo a primeira coisa que vi quando cheguei ao escritório e liguei a PC-TV (sim eu sei… É indecente, mas é verdade), foram as inundações na zona baixa de Lisboa. Espectáculo esse, que me fez recuar no tempo até à altura em que presenciei alguns episódios onde se encontra a causa para parte de toda esta confusão.

Sabem o que têm em comum o parque de estacionamento subterrâneo na Praça do Município e o Hotel VIP Executive Suites EDEN?

Simples! Durante a construção de ambos, foram seladas as galerias de drenagem pluvial (datadas da época pombalina e parecidas com túneis de Metro) originárias da zona do Parque Eduardo VII e que terminavam no rio. Eliminando assim pelo menos dois túneis, em que à vontade poderia passar Fernando Mendes (o tipo dos concursos da treta) montado num varrasco de bom tamanho; o que até seria uma associação bastante adequada.

Após a selagem, foi deixado para escoamento em cada um deles um tubo de PVC de Ø 315 (uns meros trinta centímetros de diâmetro), o que deve corresponder a cerca de um décimo da abertura original.

É claro que nenhum dos “génios” que idealizaram essa reformulação, tem sequer coragem de se “chegar à frente” e explicar o que se passa. Tentando em vez disso atribuir as inundações a sarjetas entupidas; e quem sabe até mesmo ao mau-olhado.

Da próxima vez que estiver “com a neura”, talvez até vos conte porque é que o pavimento da Gare Ferroviária do Rossio abateu há uns anos; e porque é que a causa disso nunca foi divulgada.

Não há como uma boa “molha” para enxaguar este tipo de assunto.

Música de Fundo
Oh! You Have no IdeaSophie Tucker

(ando numa de Jazz bem velhinho)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010





Foto: Net


A Guerra das Torradas
- Onde o autor farto de ser assolado pelos exércitos do Nacional Cretinismo, se vê obrigado a trilhar a senda da guerra; que tal como Carl von Clausewitz dizia, não deve ser combatida de estômago vazio… -

Não deve haver na margem sul, tipo mais apreciador de uma boa conversa ou de uma estimulante troca de ideias (ficamos por aqui com as “trocas”) que este vosso humilde e calmo narrador. Um pouco à semelhança do Sódio em condições ideais de ambiente; e desde que não lhe toquem em nenhum dos seus treze isótopos (também sou muito cioso dos meus “isótopos”).

Infelizmente as condições laboratoriais raramente são reproduzidas na vida real. E mesmo quando a conjunção de todos os factores necessários é conseguida, tarde ou cedo acabam por se degradar; dando início àquilo que modestamente se designa como “cadeia catastrófica de eventos” (mas ainda é cedo para essa parte).

Apesar de eu ser um adorável ser humano transbordante de cordialidade (e modesto, principalmente), chateia-me solenemente que me bombardeiem com megatoneladas de idiotices quando estou a meio do pequeno-almoço.

Em qualquer outra altura eu contaria mentalmente dez orangotangos, ou concentrar-me-ia em algo agradável; como por exemplo um dia passado num campo de margaridas, acompanhado de uma qualquer desinibida Margarida (que fosse mais animal do que vegetal, claro).

Só que o pequeno-almoço é a única altura do dia em que consigo ler algo que se assemelha vagamente a um jornal; e como muitos de vocês sabem, o Correio da Manhã deve ser lido como se fosse um romance russo escrito por um ucraniano, que tivesse ouvido contar a história à sua avózinha uzbeque que estava moribunda.

Mas, adiante…

Há cerca de doze anos que nos dias úteis tomo o pequeno-almoço no mesmo estabelecimento. Não que a confecção, o preço ou o ambiente sejam fora de série; mas porque é o único local naquela zona que tem bancos de “pé alto” ao balcão. O que me permite sentar calmamente ao fundo da sala, sem ter que gramar com a fauna local.

Durante anos que mais pareceram eras geológicas (tais foram a calma e imutabilidade que abençoaram cerca de 3.120 pequenos-almoços), a dona Odete invariavelmente colocava-me em frente a torrada sem manteiga e o bule da infusão, pirando-se discretamente enquanto embolsava o pagamento que eu trazia sempre na importância exacta e trocadinho em moedas.

Isto pode parecer um pouco obsessivo-compulsivo, mas é apenas um modo de evitar “chitchat” (é mais “shit chat”) e poder assim mergulhar calmamente no já mencionado pasquim.

Mas os tempos mudam.

Devido ás medidas de austeridade bem como aos aumentos decretados pelo governo (como todos sabemos, a culpa de quase tudo o que acontece é do governo), a clientela daquele estabelecimento maioritariamente composta por simpáticos bêbados e industriosas donas de casa do bairro social (é mais “Plano Integrado”), começou a rarear como se fossem táxis em dia de chuva. Chegando finalmente a ponto de me poderem encontrar a comer a torrada no meio de um silêncio quase sepulcral, exceptuando talvez o murmúrio da televisão, que àquela hora costuma transmitir um educativo interlúdio sobre ortografia e sintaxe, bem como conselhos sobre como salvar o ambiente e poupar uns irrisórios cêntimos.

Se a coisa ficasse por aí, eu sentir-me-ia tão bem-aventurado como Simão Barjonas; mas infelizmente tanto a dona Odete como o marido não conseguem viver sem uma audiência de concordantes basbaques, que consiga absorver impassivelmente autênticos tsunamis de “fait divers” e teorias estapafúrdias.

Hoje estava eu a tentar perceber porque é que Mário Lino considerava o vigarista das sucatas um “amigo do PS”, quando ela colocou sobre o jornal o indicador que mais parece uma alheira de Mirandela, perguntando – Já viu isto, senhor Oldman? Morreu “O Polvo Paulo” que previu uma série de vitórias do Mundial de Futebol e é cidadão honorário de Espanha.

Lembrei-me de tempos mais simples, em que a um homem quando o chateassem demasiado, bastava munir-se de um maço de carpinteiro para resolver esse tipo de problema. Mas rapidamente abandonei esse agradável pensamento, e limitei-me a rabiscar com a lapiseira num dos guardanapos que lhe entreguei.

Olhe… - disse-lhe enquanto guardava os óculos e descia do banco – Isto é uma oração que eu escrevi e dediquei ao “Polvo Paulo”. – Após o que me encaminhei para a saída; enquanto ela com um ar meio aparvalhado lia o papel onde eu escrevera:

Bater bem o polvo com a parte lisa de um martelo de cozinha, lavá-lo bem e levar ao lume, deixando cozinhar até ficar bem tenro. Tirar do lume e escorrer, após o que se deixa arrefecer e se corta em pedaços miúdos.

Numa tigela grande junta-se oito hastes de cebolinho, dois dentes de alho, uma cebola média e dois tomates tudo bem picado (tirando entretanto as sementes ao tomate); assim como o sumo de dois limões, uma colher de sopa de vinagre de vinho e seis de azeite.

Junta-se o polvo e tapando o recipiente leva-se ao frigorífico, polvilhando com salsa ou coentros na hora de servir.

Acompanhar com um “Dona Berta Rabigato (branco) Reserva de 2006


Música de Fundo
Minnie the MoocherCab Calloway & His Orchestra

segunda-feira, 25 de outubro de 2010



Foto: Net


Quadra Gótica de Outono
- Em antecipação ao Halloween -


Eriçando o musgo da árvore tombada,
o lúgubre vento uiva, ameaçando.

Enquanto no chão a cabeça cortada,
sorri ao machado com um esgar de espanto.



Música de Fundo
Here to StayKorn






sexta-feira, 22 de outubro de 2010



Foto: Net



Como um Miúdo à espera do Natal
- Mas como já não sou miúdo, recuso-me a esperar esse tempo todo –


Quem tenha lido alguns posts ali mais para trás, deve ter já reparado que se há coisa que eu goste de fazer é passear de bicicleta. Não que eu seja um daqueles tipos incansáveis vestidos de Lycra, que pedalam velozmente pela estrada nacional como peixes-voadores saltando das ondas.

 

Por outro lado também não sou como o Carmona Rodrigues, que quis há uns anos inaugurar uma competição de “Downhil Urbano”, espetando-se de trombas (o que o safou foi o capacete) pelas escadas de um beco lisboeta abaixo; perante a consternação dos putos ciclistas, que estavam mesmo a ver aquilo tudo ser adiado, por morte do patético candidato a presidente da Câmara.


 
Pela parte que me toca, sou uma espécie de “freestyler entradote” que sabe muito bem o que é melhor para a saúde. E por isso, evito arriscar o corpinho em manobras que me poderiam transformar num respeitável “falecido blogger”; ou mesmo num verdadeiro “freestyler do andarilho” para o resto dos meus dias.

 

Desde que iniciei este blog em 2003 já tive três bicicletas. Máquinas infelizes e um pouco débeis, que a topografia do concelho de Almada se encarregou de reduzir a inúteis amontoados de peças; dignas de figurar na Colecção Berardo como esculturas pós-modernistas (se ele lá tem abat-jours de ráfia e estendais ferrugentos, também poderia expor uma bicicleta escavacada; que até ficaria bem e daria um ar desempoeirado a toda aquela sucata).

 

Esta última a quem dei o nome “Grace Jones”, após dois anos de lancis, buracos, subidas íngremes e três quedas não muito más, está finalmente pronta para “seguir em frente”; ou seja, ser colocada junto ao contentor do lixo para ser recolhida por alguém menos afortunado, ou pelos colectores de “monos” da Câmara.

 

Após estes três velocipédicos falhanços, cheguei à conclusão que tinha com as bicicletas o mesmo problema que muitos têm com as relações amorosas; persistia teimosamente em escolher sempre o mesmo tipo de bicicleta (não me alargo mais no assunto, pois para bom entendedor…).

 

E decidi finalmente quebrar o padrão de escolha, comprando num local com assistência técnica; e especialmente com peças e consumíveis compatíveis (vocês podem não acreditar, mas tive que manufacturar eu próprio as pastilhas de travão para esta última, pois não existiam no mercado).


 
Foi-me sugerido (por alguém que obviamente não me conhece muito bem) que seria uma óptima prenda para oferecer a mim próprio pelo Natal. Mas eu nestas coisas (assim como em algumas outras) utilizo a divisa de Karl Jaspers; é “hic et nunc”. E mais nada…

 

Não se costuma dizer que “Natal é quando um homem quiser”? Ora aí têm!



Música de Fundo

Bicycle RaceQueen



quarta-feira, 20 de outubro de 2010




Foto: Josef von Sternberg (Morocco – 1930)

Bananas e Bratwurst
- Afinal eu devia mesmo era ter ido para a Legião Estrangeira -

Alguns de vocês devem já ter visto “Bananas”; um filme de Woody Allen (1971) que explora até às lágrimas (de riso, claro), o imaginário revolucionário do início dos anos sessenta.

Se não viram, não se sintam mal por isso. Pois meia dúzia de radicais islâmicos alemães, aparentemente também não o viram; e podem ter a certeza que bastante jeito lhes faria, especialmente no sentido de evitar as figuras tristes e as provações que passaram, ao tentarem juntar-se e acamaradar com os seus “irmãos” Afegãos.

Todos nós já tivemos os nossos sonhos de infância sobre as fascinantes actividades que queríamos ter quando adultos. Eu queria ser astronauta. Mas até naquela tenra idade conseguia perceber, que devia ser muito difícil vir um dia a saltitar por Hipparchus afora com um aquário enfiado na cabeça.

Virei-me então para actividades mais terrenas e quase tão heróicas. Como por exemplo sair de Sidi Bel Abbès, à cabeça de uma companhia em excursão punitiva aos “cabilas” do Rife. Mas deixemo-nos de divagações que em última análise nada têm de românticas.

Ora parece que alguns alemães radicais islâmicos em busca de aventura, não podiam inscrever-se na Legião Estrangeira (que já não existe na Argélia, como é de calcular), e decidiram então abraçar a “Jihad Menor”; juntando os seus esforços aos dos irmãos (deles) Paquistaneses (os tais que a maioria pensa só se envolverem em “lojas dos 300” e de venda de telemóveis).

Já em Setembro do ano passado fora descoberta no Waziristão (que fica ali pela fronteira Paquistão/Afeganistão) uma aldeia quase na totalidade povoada por alemães, que em vez de se ficarem pelo aconchego da “Vaterland” tinham preferido tornar-se Talibans. Talvez seduzidos pelas mensagens inflamadas de Abu Adam (foi logo escolher um nome que me faz lembrar o macaco de Sindbad); um recrutador alemão de origem turca, com 25 anos; que espantosamente não parece mais gordo na TV.

Adam, cujo verdadeiro nome é Mounir Chouka (digam-me lá se não era um nome muito mais indicado para terrorista; mas o tipo é teimoso) fez o serviço militar na Alemanha, onde aparentemente e ao contrário da maioria dos mancebos, conseguiu aprender alguma coisa sobre armas e estratégia. Tendo seguidamente trabalhado no Gabinete Federal de Estatística, onde o descreveram posteriormente como "um rapaz simpático"; logo antes de ter iniciado uma frutuosa estadia num campo de treino no Iémen.

Afinal parece que ou o Mounir não era assim tão simpático, ou então já não se fazem alemães como antigamente (no tempo de Bismark, claro). Pois segundo o Correio da Manhã de hoje (que é a única coisa, além da TV Sete Dias, que há para ler na pastelaria da Dona Odete) em vez de choro e ranger de dentes, reinam o choro e a diarreia nas hostes germano-afegãs.

Quanto ao choro (e digo isto como ex-futuro legionário) acho que é um sintoma de fraqueza e de falta de fibra; fibra esta que pelo que sei, também lhes daria bastante jeito para mitigar ou combater o segundo sintoma.

Mas francamente que tipo de gente é que o Bin Laden anda a aceitar?

Numa época em que o que falta menos é mão-de-obra especializada e a bom preço, acolher empresários falhados e tipos que ainda vivem com a mãe, parece-me daquelas estratégias destinadas a levar ao ridículo qualquer organização; por mais santa e barbuda que seja a sua mensagem.

Segundo o Der Spiegel, um dos aspirantes a guerrilheiro teria sido apanhado no aeroporto de Frankfurt, transportando no bolso um papel com “dicas para a Guerra Santa”.

Desculpem lá! Mas… “dicas para a Guerra Santa”? Isso parece daqueles mails que a “Casa Índigo” me manda regularmente sobre a “Semana Astral do Esfíncter Dilatado”, e outras divertidas manifestações de Spam.

Guerrilheiros que se queixam da comida, da dureza dos treinos, e que choram com saudades de casa, é algo bastante incongruente. A princípio ainda julguei tratar-se de agentes infiltrados pelo ocidente com o fim de descredibilizar o pobre do Bin.

Mas após ler que um deles embuçado numa “burka”, se foi entregar voluntariamente à embaixada alemã; a única coisa que me ocorre é que Allah já deve estar farto de passar vergonhas à conta dessa gente.

Por isso é melhor que os Talibans e quejandos aproveitem para se ir lavando, pois não tarda que esteja aí o “Al Quiama”. E então é que vamos ver se Allah existe ou não.

“Ila rabbika yawma-ithin almustaqarru”

Esperem pela pancada…


Música de Fundo
God is a BulletConcrete Blonde

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Foto: Net

A Igreja do Imaculado Blog
- Só aprecia plenamente a surpresa, aquele que nada espera (pequeno intróito para preencher alguns “blanks”) -

A existência é algo tão consistente como a nossa queda em direcção ao vazio. Pouco se consegue (comparativamente) ver pelo caminho e de repente, quando se pensa estar prestes a descortinar algo… termina, pura e simplesmente.

Esta reflexão tive-a a propósito do Santos. Não neste fim-de-semana quando mais uma vez me sentei na esplanada para beber café com o Apóstolo, mas já no início do meu “retiro”; quando o Santos definhou surpreendentemente em meia dúzia de dias, e se foi juntar ao seu criador em alta velocidade, como se tivesse algo muito urgente anteriormente agendado.

Não é bem verdade.
Pensei novamente o mesmo neste fim-de-semana, quando o Apóstolo me congratulou pelo regresso e reabertura do blog. E continuei a reflectir nisso enquanto me dirigia para casa. Incomodava-me o facto de eu poder (sequer levemente) pensar merecer algum mérito pelo regresso.

E para quê?

Tal como frisou uma amiga minha nessa altura, três dias depois de ter desistido do blog era como se nunca tivesse existido na “blogocoisa”, ou tido alguma influência sequer sobre o modo como o vento move as cortinas. Era uma molécula esquecida a um canto da entropia e com o “motor” desligado; ou tudo aquilo que na realidade somos: Insignificantes grãos de “um indefinível nada”.

E esse postulado conduziu-me consequentemente à reflexão sobre a importância intrínseca de cada um; que é igual à de uma molécula em relação àquelas outras que faz mover.
A nossa importância mede-se nas pessoas (quali-e-quantitativamente) que “movemos”.

É por isso que no próximo fim-de-semana quando me sentar na esplanada do Santos (que curiosamente foi comprada por dois irmãos de apelido igualmente “Santos”, perpetuando assim a institucionalidade do local), poderei responder ao Apóstolo que não tenho mérito algum em ter voltado a escrever aqui.

É apenas o local onde caio, sempre que tropeço no meu ego.

Música de Fundo
Feels Like a Good ThingMichael Schenker Group

quinta-feira, 14 de outubro de 2010




Foto: Net

Grandes Vultos do Gajedo
Marie Curie – A Menina do Rádio

Em 7 de Novembro de 1867, Maria Sklodowska nasceu com este quase impronunciável apelido na cidade de Varsóvia. Local que por coincidência pertencia naquela altura ao Império Russo. Este facto permitiu mais tarde ao governo de Estaline (não que este precisasse de autorização) anunciar ao mundo que a descoberta da radioactividade se devera aos bravos Heróis da Revolução (assim como a invenção da “ladyshave”, do “Fio de cortar Manteiga” e de uma espécie de “publicidade enganosa” a que deram posteriormente o nome de “Comunismo”).

Mas Maria estava longe de sonhar sequer com todas essas implicações que estranhamente nada têm a ver com a nossa história de hoje. Ela era o que Olívia Newton John chamaria de “physical girl”; apesar de dedicar igualmente uma boa parte do seu empenho à química. Que como nós sabemos, é algo de maravilhoso que se passa entre as pessoas; embora ás vezes envolva o uso de explosivos (mas aí passa a chamar-se política).

A sua infância foi basicamente incaracterística. Sendo descrita como uma criança amorfa e de cara espalmada, que não raras vezes era confundida com uma mancha nos reposteiros.

Em Outubro de 1891 e após alguns anos de namoro, Kazimierz Zorawski fartou-se de lhe ver aquela permanente expressão semi-catatónica, e escreveu-lhe uma bela carta onde se lamentava da “falta de química” (ela era mais negas que eu sei lá…) a que se encontrava reduzido. Tendo-se tornado mais tarde um ilustre matemático e reitor da Universidade de Kraców; onde instituiu o hábito de anualmente “apoiar uma aluna necessitada”. Hábito este que manteve até que a morte o reclamou, durante uma experiência que envolveu a sua assistente, um “fato Faraday” e três rábanos em diferentes fases de maturação.

Com o desgosto (embora não se percebesse bem, devido à sua expressão incaracterística) Maria partiu para Paris onde frequentou a Sorbonne; licenciando-se em física no ano de 1893 e logo em matemática no ano seguinte. É de caras que não se tratava de uma rapariga muito popular; embora a convidassem sempre para as noites de copos; pois como devem calcular, dá sempre jeito ficar alguém sóbrio para chamar o fiacre.

Foi nesse ano que ela conheceu Pierre.

Pierre era um marrão que se tornara professor na "Escola Superior de Física e Química Industriais da Cidade de Paris". Um estabelecimento com um nome tão pomposo, que quando se conseguia aprender a pronunciá-lo correctamente, era quase certo já se estar no fim do segundo semestre.

Aí, Maria iniciou uma investigação sobre as propriedades magnéticas de vários aços. O que a conduziu à invenção dos “imanes” para porta de frigorífico. Invenção esta que lhe rendeu bastos dividendos, devido ao facto de ser novidade e de permitir coleccionar quase tudo na porta do seu frigorífico. Desde emblemas de partidos políticos até símbolos japoneses de fertilidade, passando por todos os personagens da Guerra das Estrelas.

Pierre até nem era mal parecido… Apesar de ser um “nerd” da pesada, parecia-se ligeiramente com Vincent Van Gogh (mas com a orelha no sítio) e cortava o cabelo regularmente, o que lhe dava um ar de rapaz asseado e punha loucas as sopeiras da Avenue Foch; que só em 1929 ganharia esse nome. Chamando-se entretanto Avenue du Bois de Boulogne.

Mas não nos desviemos, que se está quase a descobrir o rádio; e Marconi já se encontra à espera desde 1896.

A 26 de Dezembro de 1898, despeitada com a sogra que dissera mal das suas filhoses, Maria (agora Curie) arranjou uma desculpa e refugiou-se no laboratório com um cesto das problemáticas frituras; tendo descoberto acidentalmente o rádio, quando reparou que uma delas emitia periodicamente ténues vibrações. Tal e qual como o Rui Unas quando tenta infrutífera e desesperadamente recordar-se das deixas.

Conseguindo com sucesso isolar o sal de rádio por “cristalização diferencial” (não faço ideia do que seja), o casal passou os anos seguintes em palestras e jantaradas; actividade a que Pierre atribuía os enjoos e más disposições de que sofria. E que já não passavam com “Compensans” ou água com açúcar.

Debilitado pela prolongada exposição à radiação, Pierre Curie numa tarde de chuva em Abril de 1906 distraiu-se e foi atropelado por uma caleche. Deixando viúva a ainda jovem Marie que a partir daí se consideraria, segundo as suas próprias palavras “uma pessoa incurável e miseravelmente só!”.

É claro que as tragédias, tal como as telenovelas, só duram enquanto têm audiência.

De algum modo que desconhecemos (senão patentearíamos e comercializaríamos o método), Marie reinventou-se. Transformando-se numa cobiçada “Cougar”; ou pelo menos no seu equivalente francês, o que a tornava ainda mais apetecível. Mesmo com cara de bolacha, ar catatónico e tudo…

Pois foi… Em 1911 descobriu-se que durante o ano anterior, Marie tivera uma tórrida ligação com Paul Langevin; um antigo aluno do seu marido, que a meio de um casamento infeliz aproveitara para tentar “melhorar a nota”.

O escândalo (Sacré Bleu! Eram apenas umas “quecazitas”…) foi aproveitado por alguns dos seus detractores para descreverem Marie como uma “Judia Sedutora e Destruidora de Lares” (Uma descrição que para ser merecida, requer muito empenho, resistência e espírito de sacrifício), e compará-la com o caso Dreyfus. Isto mais tarde provou ser desastroso para os intriguistas, pois além de Dreyfus estar inocente e ser do conhecimento geral que era “péssimo na cama”; Marie não era judia. O que retirava qualquer ponto comum aos dois casos.

Langevim encheu-se de brios e decidiu fazer um “brilharete”, vingando a honra da sua amada através de um duelo de morte entre ele e um não menos trémulo editor de um dos jornais que publicara a difamatória (mas não tão falsa assim) notícia.

Segundo numerosas e divertidas testemunhas, os dois antagonistas (e as testemunhas) encontraram-se ao cair da tarde junto a um grupo de ciprestes que ladeava um ribeiro; tendo-se defrontado durante horas por meio de ferozes expressões faciais mas sem terem disparado um único tiro; até que a namorada do editor o foi buscar por um braço e o retirou do “campo de Marte”, enquanto o apelidava de “frouxo” e “coninhas”.

Mais tarde Albert Einstein veio “à liça” no seu jeito desastrado para tentar meter água na fervura, acabando por declarar – “Marie Curie é uma cientista possuidora de uma inteligência brilhante, mas apesar da sua natureza apaixonada, não é suficientemente atraente para constituir um risco seja para quem for!”.

Esta declaração que mais parecia ter saído da Direcção do Instituto de Socorros a Náufragos, pareceu um pouco suspeita na altura. Tendo corrido o boato que também Albert se teria tentado “relativizar” com ela, embora sem sucesso; isto talvez devido ao facto de o penteado deste lembrar a Marie uma ama de leite que tivera quando criança (convenhamos que a imagem de Einstein amamentando seja quem for, é assaz perturbadora; mesmo num inócuo exercício de imaginação).

A título de curiosidade e para provar a tese da “hereditariedade determinante”, anos mais tarde a neta de Marie, Hélène Joliot casou com Michel Langevin (que esperamos não tenha saído tão “caguinchas” quanto o seu augusto avô).

Apesar da opinião pública ainda se encontrar contra si, Marie foi em pessoa receber o “carcanhol” respeitante a um segundo prémio Nobel (1903 – Física, 1911 – Química). O que lhe permitiu continuar as suas investigações e a divulgação da micro-radiografia como meio de diagnóstico.

Durante os anos seguintes em que grassou a 1ª Guerra Mundial, Marie dedicou-se a estudar as aplicações práticas das suas descobertas para o futuro da humanidade. Tendo oferecido as suas medalhas de ouro da Academia Nobel e as do defunto marido, para ajudar o esforço de guerra.

Não lhe conhecem desde aí mais casos amorosos. Embora alguns dos seus assistentes fossem considerados muito pálidos, mesmo para cientistas; e tivessem a particularidade de brilhar no escuro com uma bela cor esverdeada.

Morreu bem mais tarde num dia de Verão em 1934, no Sanatório Sancellemoz em Passy; de uma anemia resultante do arriscado manuseamento de substâncias radioactivas. Foi enterrada junto a Pierre no Cemitério de Sceaux. Tendo sido transferida para o Panteão de Paris em 1995.

Podemos garantir que não ficou a ganhar com a troca. A paisagem em Sceaux é bem mais bonita…


Música de Fundo
Runnin’ With The DevilVan Halen

terça-feira, 12 de outubro de 2010


Foto: Net


O Outono… Ah, sim. O Outono

Naqueles dias vazios em que não escrevo, o Outono com todas as suas metáforas instala-se em mim, qual inoportuna tia chegada da província carregada de cestas.

Apetece-me pontapear coisas por puro aborrecimento, ou rasgar a húmida e insistente penumbra que desce sobre tudo, como uma madeixa de cabelos molhados que insiste em se colar ao rosto. Mas eu não tenho longas madeixas (LoL) para sacudir, e sim aborrecimento. Genuíno, fresquinho e sem aditivos.

Uma enorme cesta de biológico e entediante enfado, que transporto pelos dias bafientos e lamuriantes do Outono. Essa estação que é sabido ser a fonte de todo o aborrecimento e choraminguice que afligem o mundo.

São os dias temáticos do silencioso vermelho. Com intermináveis paisagens quase marcianas juncadas de folhas mortas e esquecimento.

Desejaria ter a resistência dos poetas do quotidiano, que cantam as gotas de água e a sua fascinante pseudodiversidade, ou as sinfonias por nascer no canto das aves; e que na sua língua são apenas gritos ou talvez insultos.

É parca a poesia do Outono. Uma folha aqui, um chuvisco acolá… e depois um espirro.

Bolas! Que chato que é o Outono! …

Ou então sou eu por estar constipado.


Música de Fundo
Shake Your Groove ThingPeaches And Herb

sexta-feira, 8 de outubro de 2010



Foto: Net

A Visita dos Chroma-Dens
- Uma ligeira incursão no mundo da FC. Com relativamente pouca “C”, e talvez (quem sabe) ainda menos “F” –

Foi por puro acaso que deparámos com os Terranos; essa admirável espécie.

As suas comunicações ocupam uma zona do espectro que consideramos pouco prática para esse efeito. E se não fosse uma avaria que obrigou à recalibragem do conversor taquiónico, aliada ao facto de termos entrado pela singularidade errada adentro; nunca teríamos recebido aquelas primeiras imagens que tanta curiosidade nos despertaram.

Mas eu não sou muito bom a explicar estas coisas técnicas, pois sou exobiólogo e ainda tenho que acumular as funções de médico e cozinheiro (para que serve um exobiólogo quando julgamos estar sós nos oito universos?).

De início foi uma confusão medonha; com o comandante a agitar os pedúnculos oculares em direcção à consola de armamento, e a ordenar a preparação de todos aqueles brinquedos caríssimos que tristemente julgávamos nunca vir a utilizar. Mas o operador de comunicações (pelo qual tenho um fraquinho) apareceu naquele seu jeito bamboleante e sexy, esclarecendo que eram apenas imagens de difusão intra-planetária e não uma comunicação directa e intencional.

Após o primeiro choque, fizemos rumo à sua estrela mãe e escondemo-nos para além do horizonte aparente. Não sabendo bem se nos deveríamos precipitar na sua direcção para os saudar; ou por via das dúvidas transformar-lhes o planeta num elegante e funcional buraco negro.

Venceu a ponderação do navegador, que sendo da ninhada do Grande Sardão (o nosso Protector), tinha quase tanto poder de decisão como o comandante (que passava o tempo a acusá-lo de ter subido na carreira à conta de “cunhas”); e sugeriu que recolhêssemos o máximo possível de informação antes de decidir fosse o que fosse. Podendo dar-se até o caso (sugeriu), de se tratar de uma espécie que tivesse algo em comum connosco, e com a qual fosse lucrativo trocar ideias.

O comandante acedeu; uma vez que a carga não se estragaria mercê do bom acondicionamento. E também porque tinha esperanças de aumentar o “prémio de viagem”. O que lhe permitiria comprar mais cedo a tão sonhada reserva de caça, e viver dos rendimentos até lhe caírem os dentes todos.

Durante cinco revoluções do planeta no seu eixo, monitorizámos as transmissões e chegámos à conclusão de que haveriam diversas espécies de habitantes inteligentes; tratando-se de indivíduos inquietantemente flácidos e enganadoramente pequenos.

Na verdade, alguns deles munidos de rudimentares armas de projécteis propulsionados quimicamente, conseguiam semear imensa destruição no meio de outros (possivelmente de casta inferior); assim como também se entregavam a perseguir outras espécies, que caçavam de modo bastante eficiente. Usando-as como troféus ou para comida.

Já era alguma coisa que as nossas espécies partilhavam. E cada vez que me suspendia do arnês de repouso, pensava antes de adormecer que seria interessante comparar com eles a grande diversidade de técnicas de caça que também utilizamos. E talvez, quem sabe, travar algumas batalhas para comemorar o encontro entre as duas (possivelmente) únicas formas de vida inteligente nos oito universos.

Sendo um taxonomista amador, e profundamente conhecedor das 127 espécies animais ainda existentes no meu mundo de origem, fascinava-me o modo como os terranos faziam a gestão das quase 1.320.000 espécies que infestavam o seu habitat. Porém, era de admirar a sua capacidade de resolução. Pois a acreditar numa das transmissões (a não ser que se tratasse de propaganda), em cerca de duzentas órbitas feitas em redor da estrela, tinham conseguido suprimir cerca de 140 espécies.

O que nos fez decidir pelo contacto, foi o modo poético como as eliminavam. Através da dignidade do desporto guerreiro, ou de produtos naturais extraídos do próprio planeta (que alteravam toda a cadeia alimentar, conduzindo a uma eliminação algo científica, digna de espíritos superiores); e sem ter que recorrer à síntese molecular.

Mirei-me na antepara espelhada e admirei a minha terceira fileira de dentes quase completamente desenvolvida. Começavam já a atingir um belo tom avermelhado; o que me iria proporcionar um razoável sucesso com os outros sexos (talvez o operador de comunicações ainda “morresse”, antes de regressarmos).

Com um sorriso de felicidade acabei de ajustar o explosor de raio alargado e o elegante sabre denteado contra as placas ósseas do flanco; preparando-me para desembarcar e finalmente conhecer os nossos únicos semelhantes no cosmos.

Sem dúvida que iriam receber-nos como irmãos há muito desaparecidos…

Música de Fundo
Don’t Mess With Doctor DreamThompson Twins

quarta-feira, 6 de outubro de 2010



Foto: Man Ray (Untitled)


Photomaton et Nox
- Desculpe lá, Herberto! –

Um dia
sussurraram-me ao ouvido
que a minha vida seria dividida
como se quatro parelhas de cavalos me repuxassem a alma
até a desmembrar.

Não sei se tal foi dito em tom de maldição
mas recordo aquele sorriso meio triste
como o de quem assiste a uma enorme mortandade
a convite de um deus sanguinário e narcisista.


Música de Fundo
The Killing MoonEcho And The Bunnymen

segunda-feira, 4 de outubro de 2010




Foto: Net

A “Gripe dos Quelónios” e a Teoria do Espectáculo
- O espectáculo não é uma conspiração. A sociedade chega ao nível do espectáculo, quando praticamente todos os aspectos da cultura e experiência são intermediados por uma relação social capitalista. – Guy Debord

Estava eu para aqui a debater-me com uma daquelas exasperantes constipações causadas por má regulação do ar condicionado, quando tive momentaneamente a sensação de que faltava algo; como se tivesse saído de casa sem as chaves ou esquecido de desligar o gás.

Era a “nossa” gripe.

Então não é que no meio de toda esta agitação causada pela crise financeira internacional, se esqueceram de arranjar um nome bem-sonante para a gripe deste ano? Ou mais estranho ainda… Será que este Inverno vamos estar tão ocupados a tentar livrar-nos das garras da miséria, que nem mesmo tempo vamos ter para uma gripezita?

Sentindo-me lesado na minha condição de (im)paciente, de contribuinte e de vítima de “barretes” institucionais a uma escala megalítica, fui direitinho ao Google. E como sou um “desconfiado autodidacta”, fiz paralelamente um pouco de “spidering”.

Tanto os americanos como os ingleses e os franceses mantêm até ao momento um profilático silêncio em relação ao assunto. Apenas aconselhando a vacinação contra a gripe sazonal. Mesmo no Portal da Saúde e no www.dgs.pt, ninguém sabia hoje o que tinha acontecido à nossa gripe; encontrando-se neste último site um lacónico comunicado que apenas anunciava “Informação de hoje (04/10/10) sem relevância para a Saúde Pública”.

Espirrei alguns despeitados perdigotos sobre o monitor, enquanto meditava sobre a dura tarefa que é ser cidadão num mundo onde a informação é algo processado com o principal objectivo de causar um determinado “efeito”. Mas depois lembrei-me de que tenho um blog e posts para escrever.

Desde a semana passada que a minha intenção era dedicar um post (mas acho que não merece tanto; por isso vou encaixá-lo aqui em estilo telegráfico) a Almeida Santos, esse famoso quelónio - por enquanto a salvo da gripe - que há anos nos ofusca com magnésicas frases, tiradas sabe-se lá de que orifício.

Ora alguém que profere incongruências como: "O Povo tem de sofrer as crises como o Governo as sofre!", devia antes o mais verificar se está bem alicerçado; não vá aparecer alguma ventania. Ou alguém que o conheça desde pequeno esteja a ouvir.

Bastou-me pois falar com cinco ou seis pessoas (é o que faz conhecer gente em todo o lado) de Vide, Balocas, Cide e Gondufo, para ficar a saber que o menino “Toninho” nunca foi povo. E que a sua génese não era assim tão amada e considerada por aquelas paragens.

Talvez (quem sabe? Invejas…) por serem dos poucos que nos anos 20/30 sabiam ler. Ou se calhar, como dizem (e me repetiram) as “más-línguas”, por indecentemente se terem aproveitado disso para explorar a mão-de-obra dos conterrâneos em seu proveito.

Não me vou agora “alargar” na teoria marxista sobre a exploração do trabalho com base na troca desigual e na coacção; mas caso apareça por cá algum “zelota” a “pedir chuva” não terei problema algum em lho explicar melhor.

É esta uma das melhores e mais gratificantes características da “sociedade de informação”. Sabendo procurar, encontra-se tudo.

Musica de Fundo
Shake The DiseaseDepeche Mode


sexta-feira, 1 de outubro de 2010




Foto: Net

O Tempo Dos Amnésicos
- …ou a História contada por quem não nasceu ontem –

Ah, os inquietos anos oitenta… Época de maus penteados, políticos esquizofrénicos e economistas de “vão de escada”. Ou seja, parece que foi nem há quinze minutos.

A palavra “austeridade” começava então a ser usada tão amiúde, que se arriscava a perder o significado. Coisa que sem dúvida aconteceu. Pois hoje em dia apenas o povo (que é assim uma espécie de irmão mais novo a quem calham todas as coisas em desuso) é “austero”; em contraponto a todos os outros, que se comportam como qualquer herdeira milionária a “tripar” LSD.

Na altura, Mário Soares (o nosso “Senador”) estava na mesma posição que hoje se encontra Sócrates. O que me traz à memória, o já tão referido episódio em que no mercado de Almada, lhe espetaram com um peixe nas trombas ao mais puro estilo de “Ordralfabetix”. Tudo isto, anos antes da tarte de Bill Gates ou mesmo do sapato de Bush (em alguma coisa haveríamos de ser percursores).

Cavaco representava então o mesmo papel que Passos Coelho (com um bocadinho mais de coragem; eram outros tempos…), sabendo que o poleiro não tardaria a ser seu. Uma vez que o outro já se tinha praticamente incinerado, à conta das medidas impopulares que tivera que tomar para nos garantir a entrada na CEE.

A saber: completa destruição da agricultura, pescas, e de praticamente todos os restantes sectores de produção. O que nos colocou nesta bela situação de país que quase nada produz, mas que gasta como se aguardasse a herança de uma moribunda tia milionária.

Cavaco subiu finalmente ao poder. Comportando-se como se tivesse ele próprio (e não o seu bochechudo antecessor) feito aparecer do nada o dinheiro da Europa; talvez mercê do seu sorriso afável e olhar vivaz. Infelizmente estragou tudo logo de início; pois gastou o dinheiro (que ainda não eram euros, mas sim “Ecus”) quase todo em alcatrão, em vez que reforçar a nossa débil auto-suficiência económica.

Foi pena não ter comprado também umas almofadas de penas, pois seria mais fácil colocá-lo numa carroça coberto com ambos, e deixá-lo na fronteira de Badajoz à boleia para Estrasburgo.

Foram tempos muito complicados para largos milhares de famílias que estes dois tipos condenaram a passar fome e outras privações, com a desculpa de um futuro melhor. Futuro este que como vocês já devem ter reparado é exactamente hoje.

A oposição aos dois partidos do poder (sim, meninos e meninas. Quando um deles não está no poder, é apenas porque está a descansar enquanto o outro o substitui) também não era muito melhor que hoje.

O BE da altura chamava-se UDP. Também fumavam “ganzas” (mas às escondidas) e utilizavam o mesmo discurso demagógico e populista. A título de curiosidade, um dos seus principais líderes passou-se posteriormente para o PS. O que descredibilizou totalmente aquela coisa do “traço ML”, “Somos Povo” e aquela horrífica moda das botas de camurça e casacos de flanela com quadrados berrantes.

O PCP é exactamente a mesma coisa que era na altura. Um partido em manutenção de oposição (papel no qual o considero inestimável), e que nunca chegará ao poder por eleições livres; pois quase toda a gente sabe (excepto aqueles militantes mais esclerosados) que nos faria retroceder até ao início da revolução industrial.

Já o CDS era um pouco diferente. E aqui me penitencio quanto a Freitas do Amaral, pois nunca esperei vê-lo substituído por tal abominação. Talvez devido aos meus inúmeros contactos com a antiga classe dominante, adquiri a noção que à direita ortodoxa apenas restava a dignidade. Bem… mais uma vez estava enganado. Foi-se mesmo tudo!

Acho que já mencionei todos os que são “alguém” no Parlamento. Pois os outros partidos não passam de sinecuras para uns poucos eleitos, que se comportam como rémoras políticas em troca do mandato seguinte.

Por isso não pensem que Passos Coelho (que se parece de modo inquietante - como já frisei antes - com o senador Palpatine) irá melhorar seja o que for na vida deste país.

É apenas mais um ciclo a completar-se, e tudo voltará a ser como dantes (até o mau gosto das farpelas).

Aguentem, “mexilhões”!


Música de Fundo
Vídeo Killed The Radio Star
The Presidents Of The United States

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