segunda-feira, 29 de novembro de 2010



Foto: Net


A longa jornada para a noite
- Ou como imensa gente parece andar a dormir em pé.

A história tem tendência a repetir-se, não porque o karma seja algo tão circular como um alguidar de plástico, ou o destino algo tão certo como o próximo aumento de preço para os bens de 1ª necessidade. Mas a história repete-se, meus meninos (seus cábulas do caraças), porque as pessoas não aprendem.

E a provar isso está ali na ordem dos advogados a prova viva; olhando para nós com aquela expressão de auto-complacente esperteza saloia… Marinho Pinto está de volta como uma daquelas antigas maldições babilónicas, ou pior ainda, uma daquelas tias que não podem deixar de nos puxar com enlevo as bochechas, de cada vez que nos cumprimentam.

As pessoas (neste caso os advogados) nunca aprendem, e sem dúvida que pouco há de pior que uma tia apreciadora de bochechas. É claro que a Srª Meinecke estaria muito longe de pensar na situação da “Ordem”, quando naquela longínqua manhã de 19 de Agosto de 1934 confidenciava à porteira, enquanto recolhia o caixote do lixo para dentro do nº 31 da Potsdamer Platz - Se calhar não devíamos ter dado aqueles poderes todos ao Sr. Hitler. Ele até parece um rapaz atinado com aquele bigode tipo “selo de correio”; mas hoje em dia nunca se sabe…

Embora Adolfo se tenha revelado um problema mundial, acho que no caso de Marinho Pinto nos basta encolher os ombros e resmungar sub-repticiamente por entre um disfarçado sorriso – Se Deus existe, tarde ou cedo haveria de mandar algo para castigar os advogados.

O que me leva (por tabela) ao outro flagelo que está prestes a atingir os nossos irmãos mais dependentes da TV, que coitados, pouco discernimento e força de vontade têm que possam contrariar essa negra entidade.

É verdade. Manuela Moura Guedes, essa Lili Caneças das sirenes de bombeiros está em processo de regresso para afligir o éter (e outros fluidos menos recomendáveis) com a sua incómoda presença.

E abro aqui um dos meus famosos parêntesis para esclarecer sobre este “incómodo”. Não se deve tal ao melindre inerente aos assuntos ventilados ou mesmo ao critério com que se escolhem os entrevistados. O que me incomoda é não haver “nada” de substancial atrás daquele biombo de peles mal amanhadas.

Mas, se seria tão fácil voltar às antigas tradições das “pivot” bonitas e um pouco broncas; porque é que foram escolher alguém que parece o “Natureza Morta a Pastel e Fiambre de Perú” de Salvador Dali? Foi alguma coisa que nós dissemos?

Não tenho dúvida que em qualquer feira, Manuela fizesse boa carreira a impingir jogos de cama e edredons de pena de ganso canadiano; mas esses modos não pegam lá pela minha vizinhança. E (talvez seja da idade) preferimos algo menos espalhafatoso mas com um pouco mais de “mensagem”…

Sei lá… A Mariza Cruz?... Pode ser?

Música de Fundo
Disco 2000Pulp

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


Foto: Net



A Atracção Habitual

No que toca a recordações Beatriz sempre tinha sido assim. Desde tenra idade que à sua passagem soavam alarmes, lâmpadas estoiravam, e era muito difícil manter uma mesa bem posta na sua presença; uma vez que todos os talheres passavam automaticamente a indicar o norte.

Aparentemente esta condição era regulada pelo sistema hormonal. Tendo o seu apogeu nos dias de ovulação, em que os seus cabelos percorridos por finíssimos relâmpagos azulados, ao lhe contactarem com a pele transmitiam uma deliciosa e inexplicável sensação de prazer proibido.

Bem… Também não seria proibido, uma vez que para isso seria necessário que alguém o soubesse para posteriormente proibir. E Beatriz já tinha anos de experiência na ocultação de todos os indícios que pudessem despertar qualquer suspeita. Infelizmente isso traduzira-se numa vida de isolamento voluntário, e numa imagem exterior de aparente excentricidade.

Estado este ao qual o facto de usar luvas todo o ano não ajudava nada.

As luvas eram realmente o mais difícil. Mas desde que aos treze anos incendiara o quarto com o simples acto de se masturbar, não tivera outro remédio senão manter as extremidades bem isoladas. Embora em algumas noites de trovoada, saísse despida para a chuva deixando os rios de electricidade fluírem pelo seu corpo entre as nuvens e a terra; trespassando-a num gelado arrepio azul.

Aos trinta e nove anos a vida encontrava-a (embora se achasse que estivera sempre ali) a amassar barro sobre uma bancada de madeira, preparando-se para deixar que o bloco de argila revelasse a imagem que no seu interior lutava para transparecer (era assim que via a arte; nada mais que um meio para ajudar coisas a nascer).

Enquanto socava a massa dúctil e acastanhada, a sua mente derivou para o rosto que os seus dedos começavam a desenhar em pequenos sulcos, com o indicador e médio a vincar, enquanto o polegar imprimia as duas depressões destinadas aos olhos. Já há muito tempo que ele aparecia quase todas as tardes; tornando aquilo que ao princípio fora uma casual conversa, num hábito que começava a ganhar raízes em si numa suave ânsia que teimava em ignorar.
Mas as distracções podiam ficar caras. Pois ainda no dia anterior a meio de uma conversa com uma amiga, “fritara” o telemóvel com uma descarga estática causada pela excitação de o ver sair do automóvel e preparar-se para tocar à campainha.

Desenhou os sobrolhos com o polegar, e com a ponta da unha vincou as sobrancelhas um pouco hirsutas. O nariz tinha um pequeno alto que mal se notava, e era talvez um pouco grande demais para se considerar bonito – Vi-te atravessar a rua – disse ela para trás de si; enquanto ele acabava de percorrer o resto da distância que os separava, num perfeito silêncio graças às solas de borracha dos ténis.

Ela sentiu as mãos de palma um pouco áspera insinuando-se na pele do pescoço, com os dedos a estenderem-se por entre os cabelos e a moverem-lhe a cabeça em direcção aos lábios dele onde pequenas faíscas faziam ponte com a sua pele.

Com um sorriso olhou-o bem fundo nos olhos enquanto a sua mão explorava o espaço entre as calças e o estômago dele, guiando-o até as costas deste contactarem com a enorme mesa de madeira, onde o fez deitar iniciando a frenética actividade de o despir; e ele a puxava para cima de si sem qualquer cuidado com botões ou fechos.

Enquanto lhe chupava o bico de um seio ele passou a mão pelo interior macio das coxas dela, deslizando a ponta dos dedos pelo monte-de-vénus de onde saltaram estalejantes faíscas róseas – Raios à espera de serem libertados, fogo pronto a consumir-me num segundo… - disse-lhe ele enquanto lhe indicava as paredes chapeadas a ferro, cujas marcas enegrecidas indicavam uma actividade continuada. – É como cavalgar uma tempestade.

Não sejas melodramático! – contrapôs ela introduzindo-o dentro de si num movimento fluído das ancas – Sabes bem que em cima da mesa de madeira é um risco quase nulo. E já agora, dá é graças a Deus por não usares “pacemaker”.


Música de Fundo
ElectricityOrchestral Manoeuvres In The Dark



segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Foto: TheOldMan

A Vaidade Em Se Ser Modesto
- Um pouco de conversa leve e casual a uma qualquer segunda-feira -


É provável que deva um pedido de desculpas a alguns de vós, que preocupados me contactaram quando deixei de escrever no blog; e me pediram que os avisasse de um possível regresso.

Desculpem-me o não ter avisado quando resolvi voltar (embora nem saiba bem ao certo se voltei, ou se estarei a escrever isto de muito longe; como se o ditasse a uma secretária incrivelmente idosa e surda), mas é contra a minha natureza fazer alarido sobre coisas que não o justifiquem. Como o facto de estar novamente aqui.

Embora não chegue a tanto, faz-me lembrar um episódio que me contou um amigo (um bocado mais velho que eu, pois foi um dos mais destacados activistas na luta pela revogação da “Concordata”); que sendo tão circunspecto e avesso a dar nas vistas, uma vez quase morreu afogado em Oeiras porque se recusou a gritar por socorro.

- “E ali estava eu”… - Contava-me ele uns largos anos mais tarde e no meio de gargalhadas – “… com vergonha de gritar por ajuda e a engolir água salgada a torto e a direito. Se não calham a ver-me desaparecer da superfície, não estava hoje aqui.”

Bem. Eu não sofro de um caso assim tão agudo; mas basicamente deve ser a mesma doença. E é essa realmente a minha desculpa para não ter dito nada a ninguém.

Só de pensar nisso, vinham-me à memória aqueles insólitos anúncios que nos anos sessenta e setenta se conseguiam ler em certos jornais diários - “O senhor Antunes Quintão avisa toda a sua excelentíssima clientela e amigos, que a partir do fim do mês corrente deixará de trabalhar na “Ideal da Falagueira”; encontrando-se para servir vossas excelências na “Electro-Reparadora de Eleutério Cardoso"; onde vos aguarda com um vasto sortido de modernos electrodomésticos”.

Pois. Não faz bem o meu género.

Tarde ou cedo quem tiver que passar por aqui acabará por fazê-lo. E mesmo sem Sitemeter, não deixarei de me orgulhar (mas muito circunspectamente, é claro) de ter um local onde ás vezes, pessoas passam para ler o que escrevo. É assim que estas coisas se passam comigo. Calmamente andando.

Ou no meu caso particular… pedalando.


Música de Fundo
Moonlight DriveThe Doors

quarta-feira, 17 de novembro de 2010



Foto: John A. Alonzo


Crime no Lar! (Conto Gerontológico)
- Como não terei tempo até segunda para escrever um post, deixo-vos um conto mais ou menos policial escrito há sete anos e que poucos de vós conhecem; a menos que tenham andado a explorar os arquivos (mas como duvido que isso tenha acontecido, façam de conta que eu não disse nada) -

Um

Eram seis da tarde e a enfermeira Arlete passava-me os "santos óleos" pelas articulações ancilosadas, enquanto repuxava os tendões, tenazmente. No deck tocava uma velha cassete dos Tangerine Dream, misturando-se no ar com o odor a sândalo que se evolava de um pau de incenso.

Com um estrondo enorme, a porta bateu contra a parede quando o Chefe Aniceto catapultou as suas banhas para dentro da enfermaria.

Mataram a Alice costureira - comunicou o ex-chui - encontrei-a toda torcida, parece uma torta de Azeitão. Lá estás tu a pensar em comida - disse eu enquanto vestia as calças apressadamente - não tentaste por acaso pôr-te em cima dela? Era morte certa, coitada.

Despedi-me da enfermeira Arlete, dando-lhe uma terna fisgada com o cinto-de-ligas - Mais logo passo por cá para brincar aos médicos – e descemos as escadas fazendo gincana por entre dois ou três catatónicos, até ao piso de baixo onde nos dirigimos ao sector dos acamados.

Não era bonito de se ver. Acendi uma cigarrilha (contra todas as proibições da cabra da Dona Francisquinha) olhando em volta, não fosse o Pide Leontino estar nas redondezas e ir a correr fazer queixinhas.

Pobre Alice! Alguém lhe tinha esmagado o crânio com uma arrastadeira de aço inox, e roubado a preciosa colecção de dedais em porcelana de Sévres (Colecções Philae). A janela estava aberta. Encostei-me à ombreira aspirando o fumo. A rua estava húmida de chuva. Carros passavam sem destino.

Fui buscar a gabardina e o boné aos quadrados. Á confiança enchi o "pocket flask" com Jack Daniel's e saí... Já não ia brincar aos médicos nessa noite.

Dois

Almada, cidade ex-metalúrgica. Frente a Lisboa mas com um rio no meio. O próprio Cristo-Rei vira-lhe as costas, e abrindo os braços parece que se prepara para mergulhar e fugir a nado.

Percorri as ruas um pouco ao acaso, atravessando uma irritante chuvinha "molha tolos" enquanto ordenava as ideias. Não é fácil fazê-lo num lar. (A não ser que um tipo se feche no duche. Mas a última vez que o fiz, o sistema anti-acidente bloqueou acidentalmente e só me conseguiram desencarcerar horas depois).

Desemboquei no jardim do castelo, encostado ao dito e sobranceiro ao Tejo. Olhei o rio em baixo. Era uma queda e peras, cerca de 100 metros; só que eu não estava ali para atentar contra o equilíbrio ecológico do local. Também não sabia se valeria a caminhada, tinham passado demasiados anos.

Foi então que avistei o Bebé. Sei que é idiota chamar Bebé a um velho de 67 anos, mas ele tinha essa alcunha há 50, e nunca pensámos em arranjar-lhe outra. assentava-lhe como um fato de bom corte.

Cara redonda, cabelo ralo e espetado, olhos esbugalhados. Um "retrato robot" de qualquer criança há muito desaparecida. O luar inexistente mascarava os restantes pormenores, mas era ele. Ainda pensei em fazer-lhe a velha partida do assalto, mas parei a tempo. Já somos poucos, e eu não estava disposto a perder mais um por uma parvoíce qualquer.

Aproximava-me silenciosamente quando pressenti algo atrás de mim. O que me fez virar de repente, já com os dedos enfiados na velha "soqueira" de latão. Demasiado lento. ..

O coreto do jardim pareceu subitamente explodir na escuridão. Senti uma dor aguda por baixo da orelha direita, e foi tudo. Lembro-me de notar enquanto caía, duas pedrinhas pequenas e brancas que se aproximavam muito depressa.

Três

Tanta humidade ia dar-me conta do reumático. Ainda ouvi os passos arrastados de alguém que se afastava em direcção ás escadinhas do Ginjal; tentei levantar-me, mas o meu livro da 3ª classe estava errado. Querer não é poder (se não, escreviam-se do mesmo modo).

Cambaleei até ao muro do miradouro tentando focar a vista, enquanto à minha frente, as luzes de Lisboa evoluíam coreograficamente quais pirilampos bêbados. Num banco ao lado, um junkie olhava placidamente as águas, cambaleando igualmente mas por motivos diferentes.

Dando um golo rápido do frasco corri em direcção à escadaria, e desci para o Ginjal em direcção a Cacilhas; com uma incómoda dor de cabeça, e uma orelha que inchava ao ritmo da inflação. Saltitei evitando a maior parte das poças de água no cais, e precipitei-me para um Cacilheiro que partia.

Pela vazante corriam sargaços e restos de caixas de fruta. Ao nos aproximarmos da outra margem, reparei num cargueiro fundeado que descarregava sabe-se lá o quê. A Lua apareceu, mas agora não fazia falta nenhuma. Sacudindo a gabardina esperei que as portas abrissem. Os velhos espertos não saltam de barcos (reminiscências...).

Entrei no primeiro táxi de uma fila, e dirigimo-nos para o Largo da Graça. Estava na hora de reatar velhos conhecimentos.

Isaura a "Bruxa" (agora diz-se cartomante) habitava as águas furtadas de um edifício rococó em mau estado. A escada que já vira melhores dias, rangia como a cama de uma pensão de 3ª. Quando consegui chegar lá acima, pequenas gotas de luz desfilavam à minha frente. Na minha idade, subir cinco andares a correr já quase dá alucinações.

Fiz uma pausa para respirar, premindo de seguida o botão da campainha; o que desencadeou algo que me pareceu uma réplica dos carrilhões de Mafra. Era típico dela.

Isaura saltou-me ao pescoço, enquanto inúmeros gatos se apresentavam repuxando-me as calças. Iria mentir se dissesse que o tempo não parecia ter passado por ela. Mas disse-lho na mesma.

- Também tu continuas jovem e belo... - disse-me ela piscando o olho a gozar descaradamente a situação. Somos velhos cúmplices, e estas piadas caem sempre bem.

Não tive coragem para lhe contar da Alice. Nos loucos anos 70, tinham ambas vivido com o "Cara de Empadão" numa casa de praia na Caparica. Subsistindo com uma dieta de música, sexo e imensos charros (não necessariamente por esta ordem).

Sentei-me no sofá, e inventei um álibi para a orelha inchada. Declamei em bom estilo, um alexandrino que incluía uma janela e um golpe de vento. Mas não me sentia nada bem; o que afectava um pouco a minha capacidade ficcionista.

Em cima do aparador, o velho Satã - o patriarca da gataria - olhava fixamente, agora embalsamado; enquanto a sua descendência evolucionava pela sala de cauda no ar. Isaura chegou da cozinha com um saco de gelo e dois generosos gins. Sentando-se no braço do sofá colocou um LP no prato.

Quatro

A Renault 4L, titubeava pelas ruas de Lisboa como uma rameira em dia de festa. Isaura conduzia de Português Suave ao canto da boca, o que, juntamente com a boina azul no alto da cabeça, lhe dava o ar conspiratório e determinado de uma heroína da resistência. Por alguns momentos senti-me Marat/Lamballe (tenho que deixar de ler para adormecer), mas a realidade impunha-se dura, por entre qualquer imagem de estilo que eu construísse.

Ainda tens aquele emprego idiota? - inquiriu ela espalhando cinza pelo tablier - Que raio te havia de dar, para ires meter-te num sítio daqueles… Estás a tentar marcar lugar?

Não ia continuar uma discussão interrompida há anos. Dei-lhe um beijo no pescoço, e pedi-lhe para me deixar dois quarteirões adiante. Não protestou. Estava habituada à minha falta de explicações.

Meti as mãos nos bolsos e atravessei a rua. Estava no Conde Redondo, nas imediações do covil de JV "O Sonso".

JV era humorista. Não muito bom, é certo. Mas a ironia com que se atrevera a escrever durante o regime de Salazar (era assim tão velho), granjeara-lhe uma aura de herói, que ele tinha acabado por pôr a render. E aqui para nós... Não era só isso que ele tinha a render.

O meu estômago rosnava mal-humorado. O gin começava a fazer efeito, e já não me lembrava quando tinha comido a última refeição. Mais acima, um furgão de aba aberta comerciava comestíveis (ou não tanto...); onde os clientes da noite rasca, se abasteciam de hidratos de carbono e toxinas de duvidosa proveniência.

Mulheres deambulavam casualmente em serviço. Empunhando um Chipicao meio-comido, entrei no "Trombinhas" e dei o brinde ao porteiro - Toma! É um pião.

Enquanto ele ficava a olhar surpreendido para a mão, acerquei-me do bar e perguntei à ruiva de serviço onde encontrar o JV. Respondeu-me que não sabia; com um sotaque Moldavo e um abanar de cabeleira. Ali seguiam-se as tendências da moda.

Tomei rumo aos lavabos, e entrei na porta da arrecadação que ficava ao lado. Estava frio. O Bebé também... Frio e roxo.

Parecia que tinha sido apanhado a meio da sua última birra. Mas não lhe servira de nada pois só eu estava lá para o ver; e não queria demorar pois o roxo nunca me assentou bem.

Preparava-me para sair, quando ouvi vozes que se aproximavam. Agachei-me num recanto entre grades de Corona e caixas de espumante barato (lembrei-me de Tintim e o "Caranguejo das Tenazes de Ouro"). Entraram dois calmeirões indiferenciados, seguidos por JV. E ao lado deste... a enfermeira Arlete.

Cinco

- Tirem-me esse anjinho daí! - disse ele apontando para o Bebé, e logo de seguida para o local onde eu me escondia - E tu, ó metediço, vê lá se queres que mande o Huginho e o Zézinho trazerem-te ao colo.

Estava a descoberto e sem fuga possível. A Arlete sorria, trocista. Levantei-me sacudindo a poeira da roupa um pouco constrangido, e olhando-os ora a um, ora a outro.

- Que se segue agora? Vais entregar-me ás Ucranianas para me torturarem. Ou tentas matar-me de aborrecimento com as tuas anedotas?

- Não querias mais nada... - respondeu JV enfadado - Não são para o teu dente. Aqui a miúda explica-te o que tens que saber, e desandas assim que puderes. Já me deste chatices que cheguem para uma semana!

Arlete ficava tão bem sem farda como com ela. Aliás. Sem farda era bem melhor, embora perdesse um pouco do seu fetiche. - Anda! - disse-me - Temos que sair daqui antes que se comece a armar confusão; não é bom para o negócio.

- Porquê? Tens sociedade? – perguntei belicoso - Não! Ele é meu pai! – respondeu-me já de costas e saracoteando o traseiro em direcção à saída. Segui-a imediatamente. Não fosse o "Sonso" mudar de ideias e mandar atrás de mim os sobrinhos do pato Donald.

Esgueirando-nos pela sombra, saímos pelo acesso dos fornecedores e entrando logo de seguida edifício caquéctico. Uma espécie de relíquia do estado novo ainda com secretária para o porteiro, agora vazia. Era o "Matadouro", como lhe chamava o JV.

Longos corredores de tábuas centenárias, e quartos individuais distribuídos estrategicamente. Entrámos num deles, cheio de espelhos e almofadas num estilo Kitch (ou seja, de gosto duvidoso).

Ela ajudou-me a tirar a gabardina. Usava um perfume com um ligeiro toque de frutas. Por momentos, lembrei-me daquelas borrachas escolares que apetecia sempre morder. Ia dizê-lo, mas não foi preciso. Ela lia-o nos meus olhos... e eu esqueci imediatamente o que ia dizer, ocupado como estava em ajudá-la a despir-se.

Tinha a pele suave como a de um pêssego, provocando-me descargas de electricidade estática. Passei-lhe a língua pela curva dos seios, as ancas e as coxas. E introduzi-me; viajando nela como um comboio num túnel alpino, enquanto lhe dava pequenas e vorazes dentadas. A sua respiração caía brusca nos meus ouvidos, como rajadas de vento sopradas contra uma janela. O corpo oscilava, flectindo-se ao ritmo desse mesmo vento interior que a agitava.

Por fim rolámos pelas almofadas, vencidos pelo cansaço. Não ia estragar o momento com um cigarro. Por isso... adormeci.

Seis

Mas não por muito tempo, pois o quarto estava terrivelmente frio; e mal ela se levantou fiquei completamente desperto. Tomámos um duche rápido e saímos. A noite estava igual a antes; nós também.

Enquanto o táxi (este conto está a ficar-me caro em táxis) nos levava para a Margem Sul, contou-me finalmente algumas coisas que há muito eu desejava saber. E outras, que francamente bem poderia ter omitido. Certas visitas ao passado são uma autêntica exumação.

No final dos anos sessenta (nota-se que estes tipos, são quase todos um pouco mais velhos que eu) durante a "Primavera Marcelista", JV era tido como um tipo intratável mas de confiança, por parte de alguma esquerda.

Tinha então aberto um bar, onde caíam espécimes de todos os quadrantes à cata de sensações fortes; o Bebé era o barman. O "Sonso" aproveitava algumas inconfidências de homens do regime passando-as à oposição. E algumas delas, passava-as também à prensa em belos fascículos (nem sempre apreendidos), mas com os nomes dos personagens prudentemente alterados.

Um dia descobriu que o Bebé fazia o mesmo aos seus amigos democratas, elaborando lindas redacções para o Pide Leontino; e a coisa deu para o torto. O Bebé escorraçado e sem emprego, foi engrossar as hostes do Silva Pais. Tendo sido igualmente escorraçado do quarto da Alice Costureira, que na altura "alternava" no bar (ou seja, costurava para fora), e com quem vivia.

A Alice, embora analfabeta de pai e mãe, escondeu as cópias de todos os relatórios do Bebé. Bem como alguns outros roubados aos arquivos do JV, naquilo que pensava ser um Plano inovador de Poupança/Reforma. E tudo correu sem grandes alaridos, até que vinte anos depois, alguns excertos começaram a vir a lume num periódico independente.

Caiu o Carmo, a Trindade e a Portugália.

O JV conseguiu infiltrar a filha enfermeira por meio de cunhas (o que não é de estranhar), no Lar onde se encontravam hospedados, Alice, o Pide Leontino e outros jimbras sem interesse algum para esta história. Instituição essa onde o vosso narrador, coincidentemente prestava serviços de manutenção e segurança (beneficiando de magníficas massagens orientais, nas horas vagas).

A ideia base era subtrair toda a documentação comprometedora; antes que a Alice vendesse também os relatórios do "Sonso". Esses sim, muito mais sumarentos e comprometedores, porque alguns dos intervenientes ainda aparecem em "tempo de antena".

Mas as coisas não correram conforme planeado. Alguém tinha despachado a Alice para o céu das costureiras, e abandonado o Bebé (já roxo) à porta do "Trombinhas".

E eu voltara à estaca zero ainda mais confuso que antes. À porta do Lar, com uma orelha inchada e menos 30 euros no bolso. Maldito "fogareiro"... Entrámos.

Sete

As luzes de presença encontravam-se ligadas. Uma delas zumbia e piscava mensagens crípticas, como se transmitisse em linguagem de mosquito, pelos corredores vazios como túneis de Metro. Separámo-nos em direcções opostas após uma breve troca de sinais.

Abri a porta do quarto e acendi a luz. Sentado na minha cama, o Chefe Aniceto limpava nervosamente a sua Astra 6.35.

- Ia começar sem ti, Sabes? - Comentou ele do fundo dos seus 130 quilos de febras. Continuando - Andam em grandes manobras na zona do Centro de Dia. Objectos a cair, barulhos estranhos... Um autêntico carnaval!

- Dá cá isso, antes que me faças algum furo no calendário da Pirelli - retorqui enquanto o livrava do malicioso objecto. As armas são tão úteis como qualquer ferramenta, mas como estas, só se devem usar quando for estritamente necessário.

Pendurei a gabardina no busto de Nietzsche, guardei a automática no bolso e saí com o idoso à arreata; não fosse ele tomar alguma decisão de cariz policial.

Vogámos quase silenciosos pelos corredores. Algures um rádio murmurava lamentosamente. No quarto 36, o Major Nogueira lia Catulo com a porta entreaberta; cabeceando, é claro.

No Centro de Dia, os cadeirões encontravam-se completamente esventrados, como passados a sabre por um bando de irascíveis cossacos. Quadros caídos, livros rasgados no chão. Uma caixa de costura tombada revelava o seu conteúdo heterogéneo (é engraçado como memorizamos quase sempre esses pormenores insignificantes).

Comecei a temer por Arlete. Pedi ao Chefe Aniceto que a fosse avisar para ficar no quarto, e de seguida telefonar ao filho (igualmente membro da corporação) a pedir apoio logístico. Os indícios não auguravam nada de bom.

Cheguei pé ante pé ao gabinete da Administração no piso superior, e abri a porta de mansinho. Precaução inútil. O aposento encontrava-se deserto com excepção da cabra da Dona Francisquinha. Que jazia caída de nariz sobre a secretária, ostentando um enorme hematoma na têmpora. Felizmente para ela, a queda tinha sido amortecida pela sua velha boina do Movimento Nacional Feminino. As velhas recordações dão sempre jeito.

Não havia já muito onde procurar. A cozinha encontrava-se fechada, e tudo levava a crer que se tratava de um assalto feito a partir do exterior. Reparei então que a janela se encontrava entreaberta; ouvindo-se vindo de cima, um ruído de bater de asas como um bando de gaivotas em sobressalto.

Segurei-me à velha escada de emergência que levava ao telhado, e preparei-me para subir. Uma dor aguda mordeu-me o flanco esquerdo, cortante como uma garra. Consegui virar-me a tempo...

Oito

O Major Nogueira, empunhando um canivete suíço preparava-se para repetir a dose. Depositei-lhe uma patada certeira no nariz romano, o que o fez desfalecer sobre a cabra da velha. Faziam um belo par assim adormecidos.

Iniciei então a subida da decrépita e oxidada escada. A chuva que caía, incómoda, tinha revestido os telhados de um vidrado resplandecente. As luzes difusas da cidade, emprestavam sombras e cores aos edifícios incaracterísticos. Mas eu não podia dar-me ao luxo de poéticas distracções.

Fui-me equilibrando pelas telhas inclinadas e meio soltas em direcção ao pombal, situado junto ás águas furtadas do sótão. Um vulto encharcado semeava a confusão entre as aves, destruindo ruidosamente as divisórias de madeira.

Claro que só podia ser o Pide Leontino. Que empunhando a machadinha dos bifes, subtraída à sorrelfa da cozinha, partia metodicamente o soalho do pombal. Tinha já em seu poder dois embrulhos envolvidos em plástico, que cingia contra si com o braço esquerdo.

Por momentos perdi o equilíbrio e agarrei-me a uma gárgula de zinco, que se soltou da parede produzindo um som de vidro em ardósia. Um ruído persistente e irritante, que se propagou em redor .

Precipitei-me sobre o velho segurando-o num abraço; mas ele envergava um fato de oleado escorregadio e libertou-se facilmente. E aproveitando o momento em que tive que me agarrar à rede de arame para não cair, tentou atingir-me com a machadinha; o que quase conseguiu.

Recebi uma cotovelada na ferida aberta pelo canivete do Major (estava a tornar-se excessiva a facilidade com que toda a gente malhava em mim), o que me encheu de uma fúria irracional.

Ignorando momentaneamente a dor e machadinha, apliquei-lhe um pontapé no queixo, o que o projectou através da janela para dentro do sótão. Saltei logo atrás dele pronto para lhe arrear mais umas quantas, mas não era necessário.

O Pide Leontino participara na sua última missão. Jazendo placidamente de costas com os braços abertos, e envergando a capa roxa em oleado, assemelhava-se de um modo tragicómico ao velho Cardeal Cerejeira. Da órbita esquerda saía-lhe um pedaço de vidro pertencente à janela.

Peguei nos embrulhos. Eram papéis velhos escritos à mão em caligrafia miúda de burocrata. Transcrições de conversas, comentários e pareceres para posterior intervenção. Não tinham sido a "reforma" da Alice, mas talvez me viessem a servir de seguro de vida.

Enfiei-os dentro das calças por uma questão de segurança e abri a porta para a escada interior. No patamar, JV fumava calmamente um cigarro na companhia dos calmeirões do costume - Olá abelhudo! - saudou entredentes - Vi há pouco a cassete do quarto "egípcio". Ou não sabias que todos os quartos do "Matadouro" têm câmaras? Acho que temos muito que conversar...

Nove

Os dois encorpados mocinhos, preparavam-se já para elaborar uma complicada coreografia sobre a minha pessoa, quando se ouviu do fundo das escadas algo que lembrava levemente uma velha locomotiva a vapor.

Subindo a escadaria vinham dois agentes e um graduado da PSP, precedidos de um afogueado Chefe Aniceto, este já com falta de pressão na caldeira.

O "Sonso" demonstrando um considerável sangue frio, mandou recuar os manos Donald e anunciou ás forças da lei. - Não se apressem, cavalheiros! Aqui a situação já se encontra controlada. - após o que iniciou a descida não sem antes me dizer "sotto voce" - Não faças nada de que te possas vir a arrepender...

Finalmente descontraí-me. Á minha frente e visivelmente preocupado, um clone mais jovem do Chefe Aniceto (que eu calculei ser seu filho) fazia-me as perguntas da praxe.

- Deixa o homem, Alípio! Não vês que está ferido? - Admoestou-o o pensionista sem respeito pelo posto de subchefe. E depois para mim enquanto o outro se afastava - Viste!? Subchefe, e tudo. Diz lá que o rapaz não tem pinta.

Aproveitei para não responder pois traziam já o Pide Leontino; que envergava agora um saco cinzento com fecho de correr.

Dirigi-me à enfermaria pois necessitava de trabalho especializado.

Arlete suturava-me a ferida que afinal não passava de um pequeno corte. Aproveitando a acalmia, retirei a papelada das calças e fiz um embrulho que colei ao peito com duas tiras de adesivo. - Então? - perguntou ela - o que vais fazer com isso?

- Para já, nada. - respondi enquanto começava a vestir-me - Vou guardar os relatórios em lugar seguro, para serem divulgados caso me aconteça algum "lamentável acidente". Por mim, o caso morre aqui.

Quando voltei ao átrio a “ramona” levava o Major Nogueira, que sendo reformado não tinha direito a tratamento especial. E mal a sirene da polícia deixava de se ouvir já outra parecia ouvir-se. Mas era apenas a laringe da cabra da Dona Francisquinha, que fazia a sua imitação da Oberwatchtmeister Helga de Dachau.

- Tem alguma boa explicação para todo este contratempo? - Por acaso tinha, mas não lha ia dar. Virei costas e fui ao meu quarto fazer a mala. Deixei o busto e as cassetes, ensaquei alguma roupa e o "Pela Estrada Fora" de Kerouac, e desci para a garagem onde guardavam as cadeiras de rodas e o furgão dos “transportes especiais”.

Tirei a poeira à velha Kawasaki "sete-e-meio", pisei o pedal e saí pelo jardim. Vislumbrei fugazmente numa janela do primeiro andar, o rosto da Arlete apoiando-se contra o vidro.

Era já manhã. Fiz-me à estrada mas havia fila como de costume. Merda!!!!

Música de Fundo
Harlem NocturneThe Lounge Lizards


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Concorrente da "Casa dos Segredos" revela finalmente o segredo das suas flatulências...



Foto: Net


Querem matar o meu neurónio
- De como a vida é perigosa e da incerteza de estarmos seguros ou não, mesmo no seio da família -

Como a maioria de vós sabe, nós os homens temos um neurónio (tal como as mulheres) que habita aquele espaço devoluto entre ambos os pavilhões auditivos.

É claro que nesse lugar só existe um, visto que todos os outros estão acondicionados em duas “bolsas cognitivas”, que se encontram suspensas do nosso “cérebro principal”; um metro e tal mais abaixo. Pelo menos foi esta a explicação científica que uma amiga me deu em tempos; enquanto laboriosamente explorava a minha “psique”.

Ora o meu neurónio favorito - e digo “favorito”, porque é impossível não simpatizar com um tipo que se encontra sempre alerta, velando pelo bem-estar dos outros enquanto estes se divertem – como já escrevi anteriormente, chama-se Joselito.

Não em homenagem ao pequeno cantor dos anos sessenta (cuja voz se assemelhava à sirene de um Stuka), mas porque (e estou a repetir-me, mas apenas para que não tenham que procurar nos arquivos) este tem o hábito de usar o interior do meu crânio para fazer o “poço da morte” com a sua Zundapp XF-17 Super (especialmente se eu estiver de ressaca).

Ora Joselito foi vítima de um atentado.

Essa vil torpeza teve lugar este fim-de-semana (quando de visita à senhora minha mãe que se encontra a convalescer de uma operação), com a colaboração da Leninha e da TVI.

A TVI já vocês conhecem… aquele canal onde é possível ver em imagens móveis, aquilo que normalmente se lê no “Correio da Manhã”, no “24 Horas”, na “Maria” (infelizmente nunca se lembraram de encetar uma colaboração mais estreita com a “Revista Gina”) e por aí adiante…

A Leninha já é um caso um pouco diferente. Pois trata-se de uma das amigas da minha mãe; um pouco mais nova do que ela, mas um autêntico manancial de situações insólitas e mesmo em algumas vezes, embaraçosas.

A Leninha é viúva, tem 66 anos, 1,85m (parece um louceiro “Chippendale”), cara de “Bobby” londrino e está reformada de um qualquer local onde analisava produtos farmacêuticos. O que explica a sua tendência para tudo o que é levemente alienado; pois não tenho qualquer dúvida que terá sido eventualmente vítima de alguma fuga de vapores alucinogénicos.

Foi ela que convenceu a minha mãe a ler Allan Kardek e tentou apresentá-la ao Espiritismo; esse refúgio para as pessoas de espírito fraco. Fazendo com que o meu pai lhe movesse uma plenamente justificada (embora infrutífera; pois nisto os homens perdem quase sempre) “jihad”. Mas adiante!...

Desta vez, após constatar que eu me encontrava no sofá devidamente imobilizado por uma chávena de café e um pires com bolinhos (além do que, o sofá tem umas covas enormes onde às vezes perdemos familiares) que me colocara no colo, a Leninha sentou-se ao lado da sua amiga enferma e disse em tom encorajador – Olha, vamos ver a “Casa dos Segredos”.

O café quente que entornei sobre as calças ia-me custando alguns preciosos neurónios “inferiores”. O que até nem foi muito grave, em comparação com a tentativa (logo por mim cerceada) da Leninha em limpar os meus jeans com um pano e água morna.

Desculpei-me atabalhoadamente, dizendo que tinha que ir pôr as calças na máquina de lavar; e arranquei para a casa a toda a velocidade. Tive aínda porém o ensejo de ouvir a minha pobre mãe dizer com uma entoação um pouco ausente – Ó Leninha, como é que se chama aquele rapaz que fala “axim”, e que no início só trazia uma “sandezinha” dentro de um saco?

Ainda pensei antes de bater precipitadamente com a porta - Entre ter que presenciar aquela exibição de tele-alarvidade e ter os meus “neurónios” esfregados por uma mulher que parece um polícia britânico, vá o diabo e escolha. De qualquer modo, antes o poço da morte que tal sorte


Música de Fundo
Head Over HeelsTears For Fears

 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010



Foto: Net

Monólogos de Alzheimer
- Um falso prólogo a algo que não se escreverá, mas decididamente a desculpa ideal para dissertar sobre a superstição no mundo ocidental; que finalmente começa a provar-se ser um dos pilares do politicamente correcto –

O título é auto-explicativo. Qualquer um pode pegar em episódios do passado e trocar os personagens ou o que estes fizeram, de modo a tornar a narrativa mais interessante. E muitas vezes até, mais plausível. Até aqui nada demais.

Discutia eu calmamente isto numa mesa de café, quando um dos presentes (não tão surpreendentemente assim) se insurgiu contra o título; considerando-o de mau gosto. Retorqui-lhe que mau gosto é usar meias brancas com sapatos pretos (comentário que o tipo não apreciou nada).

O que por sua vez tem tanta validade como a afirmação dele; pois faz parte de uma inconsciente vergonha/negação resultante das origens humildes desse hábito (nunca se vê alguém verdadeiramente com “berço”, a preocupar-se com este tipo de pormenores). Uma vez que o uso da meia branca com sapato preto, seria – quando esteve realmente em voga - não só uma demonstração de higiene por parte do utente, como também o refinamento de uma anterior moda em que se usavam polainas (ou “polainitos”) brancas; curiosamente com o mesmo intuito de demonstrar hábitos de higiene.

(Tenho que me deixar destes parágrafos enormes)

As polainas brancas tinham também, ao seu tempo, o mesmo simbolismo que a unha do mindinho crescida para os chineses (na China imperial e não no “Estrela de Xangai” da nossa rua).

Mas eu estava no “Alzheimer”. O que, quem sabe, até poderá ser a causa de todos estes desvios do tema. Afirmação esta que nos traz então à superstição que alicerça essa coisa do “politicamente correcto”; que pouco ou nada tem a ver com o bom gosto.

Um dos exemplos mais básicos que se pode ter deste tique sócio-cultural, é quando por qualquer razão fazemos uma piada que envolva a morte; ou apenas retoricamente sugerimos que determinada pessoa estaria melhor a adubar um canteiro de begónias que a infernizar a vida a qualquer um.

Há invariavelmente uma boa alma que logo se ergue escandalizada (eu baseio o meu “case study” em Miss Entropia) dizendo num temeroso tom de voz – Olhe que com a morte não se brinca. – Ou outra qualquer parvoíce do género. Justificando que há coisas com as quais não devemos brincar, pois devido a isso podem acontecer-nos quando menos esperamos.

A ela (que até é da família do patrão) nem foi muito difícil responder quando se saiu com essa “pérola filosófica”.

Deixei deslizar os óculos de leitura para a ponta do nariz (o que me dá um ar simpático e paternalista, como um daqueles ditadores de meia idade tão ao gosto das senhoras devotas) e retorqui – Olhe, se fosse mesmo verdade que as coisas acontecem por serem mencionadas; já esta situação em que nos pagam sistematicamente com três semanas de atraso teria terminado, só à força de nos queixarmos dela.

Acho que ela, pelo menos desta vez, compreendeu o que eu lhe transmiti. Pois ficou a olhar para mim com uma expressão como se recebesse o ordenado ao mesmo tempo que nós.

Mas no meio de tudo isto já me esqueci do que ia escrever… Se calhar é mesmo Alzheimer.

Música de Fundo

Forget About MeSimple Minds


terça-feira, 9 de novembro de 2010


Foto: Net



Um Texto Mais ou Menos Sério

- Se as conspirações são proporcionais aos governos, os nossos conspiradores não deveriam ser anões? –

Isto de conspirações sempre me deu uma certa vontade de rir.

Na verdade toda a gente gosta de uma boa intriga ou uma história vulgar em que a verdadeira revelação se encontra oculta até determinada altura. É por isso que os programas tipo “Quinta-dos-não-sei-quê” e o bolo-rei têm tanto sucesso; apesar de ambos serem expoentes máximos da mediocridade nas suas respectivas subcategorias.

Talvez a única diferença entre ambos, seja o facto de os “reality shows” serem criados para elevar a auto-estima dos espectadores, com base num elenco que aqui na zona onde trabalho seria classificado de “chincharia”.

Este vocábulo de tão exótica sonoridade, é a contribuição dos bairros “Amarelo” e “Branco” para o léxico português; significando “grosso modo”: ralé; gente sem quaisquer valores morais; “untermensch” (esta é minha e só para chatear).

Tratando-se, segundo os teóricos com quem convivo durante o dia, do ponto mais baixo em que se pode considerar alguém.

Apesar de este pequeno desvio com intuitos culturais ser muito interessante, deixem-me porém voltar ao tema do post de hoje. Conspirações.

Enquanto nos Estados Unidos e na maior parte dos países considerados ricos (embora quase todos eles devam dinheiro ao “chinês da esquina”), se teme a existência de uma conspiração global direccionada para uma nova ordem mundial, e exercida por uma sociedade secreta que teoricamente “possui e manobra” políticos e meios de informação (?); no nosso pequeno rectângulo, o estado de coisas continua a respeitar as devidas proporções.

Desde o sucateiro que conspira com procuradores e gestores públicos, que por sua vez conspiram com o partido do “governo alternativo”, que se prepara para ganhar as eleições e nos pôr a conspirar contra ele; porque vamos acabar por nos arrepender de ter tirado o outro do qual até “já conhecíamos as moscas”.

Só que nada disto é afinal tão simples, doméstico e comezinho como aparenta.

Existem na realidade organizações de âmbito global que tentam influenciar - com bastante sucesso deverei dizê-lo - os governos e meios de informação (LoL) de vários países, com vista a “não-se-sabe-bem-o-quê” (senão não seria conspiração, claro). Mas que decerto não gostaremos se um dia o viermos a sentir no lombo.

Podemos começar (e atenção, que eu com os meus limitados recursos só conheço meia dúzia de concorrentes deste “reality show”) por Francisco Pinto Balsemão, um antigo Primeiro-Ministro que ganhou juízo e que abandonando a política se dedicou àquilo que realmente dá lucro. Fabricar “informação”.

Lembram-se daquela declaração em que ele disse que tanto conseguia vender sabonetes como Presidentes? Pois… “Escapou-lhe”; ou como se costuma dizer - “fugiu-lhe a boca para a verdade”.

Ora o tio “Balsas” é membro permanente do clube de Bilderberg e funciona como consultor na selecção das figuras a serem convidadas. Sendo ele quem escolhe os nossos conterrâneos que deverão estar presentes na reunião anual do grupo. Grupo este que existindo há um bom monte de anos, não produz para o exterior qualquer tipo de feedback. Sendo na prática o equivalente ao que antigamente se chamava de “Sociedade Secreta”.

Depois os ilustres convidados (sim, que ali não há lugar para pelintrice) que por estranha coincidência, tempos depois de estarem presentes nas reuniões, ascendem a cargos ou tomam posições de destaque; muitas vezes de modo inesperado.

Os nomes de (apenas) alguns que por lá têm desfilado nestes últimos dezasseis anos, mantêm uma confortável coesão no que se pode chamar “Grupo Dos Que Um Dia Serão Governantes Se Entretanto Não Fizerem Merda” - Durão Barroso, António Guterres, Manuela Ferreira Leite, Teixeira dos Santos, Paulo Rangel, Santana Lopes, Manuel Pinho (o famoso “Ministro dos Cornos”) e José Sócrates.

É claro que pelo meio de todos estes acontecimentos e aproveitando a crise económica mundial, países inteiros tornam-se presa de especuladores e de analistas corruptos; que ajudam a falsificar índices de modo a baixar valores até patamares de autêntica sujeição.

Mas as subtilezas financeiras passam-me um pouco ao lado (a minha especialidade é mais a obtenção de dados) e não foi por isso que estive para aqui a massacrar o teclado; mas para vos dar uma notícia.

Pedro Passos Coelho (o nosso Senador Palpatine) não deverá ganhar as próximas legislativas. E sabem porquê?

Porque tanto quanto sei, não foi ainda convidado para qualquer reunião do Grupo Bilderberg.

Para os mais empenhados na luta contra a “Nova Ordem Mundial”, fica aqui a lista dos convidados do ano passado (por cortesia do site INFOWARS)



Bilderberg 2009 Attendee List (revised)

- Dutch Queen Beatrix
- Queen Sofia of Spain
- Prince Constantijn (Belgian Prince)
- Prince Philippe Etienne Ntavinion, Belgium
- Étienne, Viscount Davignon, Belgium (former vice-president of the European Commission)
- Josef Ackermann (Swiss banker and CEO of Deutsche Bank)
- Keith B. Alexander, United States (Lieutenant General, U.S. Army, Director of the National Security Agency)
- Roger Altman, United States (investment banker, former U.S. Deputy Treasury Secretary under Bill Clinton)
- Georgios A. Arapoglou, Greece (Governor of National Bank of Greece)
- Ali Babaca , Turkey (Deputy Prime Minister responsible for economy)
- Francisco Pinto Balsemão, Portugal (former Prime Minister of Portugal)
- Nicholas Bavarez, France (economist and historian)
- Franco Bernabè, Italy (Telecom Italia)
- Xavier Bertrand, France (French politician connected to Nicolas Sarkozy)
- Carl Bildt, Sweden (former Prime Minister of Sweden)
- January Bgiorklount, Norway (?)
- Christoph Blocher, Switzerland (industrialist, Vice President of the Swiss People’s Party)
- Alexander Bompar, France (?)
- Ana Patricia Botin, Spain, (President of Banco Banesto)
- Henri de Castries, France (President of AXA, the French global insurance companies group)
- Juan Luis Cebrián, Spain (journalist for Grupo PRISA; his father was a senior journalist in the fascist Franco regime)
- W. Edmund Clark, Canada (CEO TD Bank Financial Group)
- Kenneth Clarke, Great Britain (MP, Shadow Business Secretary)
- George David, United States (Chairman and former CEO of United Technologies Corporation, board member of Citigroup)
- Richard Dearlove, Great Britain (former head of the British Secret Intelligence Service)
- Mario Draghi, Italy (economist, governor of the Bank of Italy)
- Eldrup Anders, Denmark (CEO Dong Energy)
- John Elkann, Italy (Italian industrialist, grandson of the late Gianni Agnelli, and heir to the automaker Fiat)
- Thomas Enders, Germany (CEO Airbus)
- Jose Entrekanales, Spain (?)
- Isintro phenomena casket, Spain (?)
- Niall Ferguson, United States (Professor of History at Harvard University and William Ziegler Professor at Harvard Business School)
- Timothy Geithner, United States (Secretary of the Treasury)
- Ntermot convergence, Ireland (AIV Group) (?)
- Donald Graham, United States (CEO and chairman of the board of The Washington Post Company)
- Victor Chalmperstant, Netherlands (Leiden University)
- Ernst Hirsch Ballin, Netherlands (Dutch politician, minister of Justice in the fourth Balkenende cabinet, member of the Christian Democratic Appeal)
- Richard Holbrooke, United States (Obama’s special envoy for Afghanistan and Pakistan)
- Jaap De Hoop Scheffer, Netherlands (Dutch politician and the current NATO Secretary General)
- James Jones, United States (National Security Advisor to the White House)
- Vernon Jordan, United States (lawyer, close adviser to President Bill Clinton)
- Robert Keigkan, United States (? – possibly Robert Kagan, neocon historian)
- Girki Katainen, Finland (?)
- John Kerr (aka Baron Kerr of Kinlochard), Britain (Deputy Chairman of Royal Dutch Shell and an independent member of the House of Lords)
- Mustafa Vehbi Koç, Turkey (President of industrial conglomerate Koç Holding)
- Roland GT, Germany (?)
- Sami Cohen, Turkey (Journalist) (?)
- Henry Kissinger, United States
- Marie Jose Kravis, United States (Hudson Institute)
- Neelie Kroes, Netherlands (European Commissioner for Competition)
- Odysseas Kyriakopoulos, Greece (Group S & B) (?)
- Manuela Ferreira Leite, Portugal (Portuguese economist and politician)
- Bernardino Leon Gross, Spain (Secretary General of the Presidency)
- Jessica Matthews, United States (President of the Carnegie Endowment for International Peace)
- Philippe Maystadt (President of the European Investment Bank)
- Frank McKenna, Canada (Deputy Chairman of the Toronto-Dominion Bank)
- John Micklethwait, Great Britain (Editor-in-chief of The Economist)
- Thierry de Montbrial, France (founded the Department of Economics of the École Polytechnique and heads the Institut français des relations internationales)
- Mario Monti, Italy (Italian economist and politician, President of the Bocconi University of Milan)
- Miguel Angel Moratinos, Spain (Minister of Foreign Affairs)
- Craig Mundie, United States (chief research and strategy officer at Microsoft)
- Egil Myklebust, Norway (Chairman of the board of SAS Group, Scandinavian Airlines System)
- Mathias Nass, Germany (Editor of the newspaper Die Zeit)
- Denis Olivennes, France (director general of Nouvel Observateur)
- Frederic Oudea, France (CEO of Société Générale bank)
- Cem Özdemir, Germany (co-leader of the Green Party and Member of the European Parliament)
- Tommaso Padoa-Schioppa, Italy (Italian banker, economist, and former Minister of Economy and Finance)
- Dimitrios Th.Papalexopoulo, Greece (Managing Director of Titan Cement Company SA)
- Richard Perle, United States (American Enterprise Institute)
- David Petraeus, United States (Commander, U.S. Central Command)
- Manuel Pinho, Portugal (Minister of Economy and Innovation)
- J. Robert S. Prichard, Canada (CEO of Torstar Corporation and president emeritus of the University of Toronto)
- Romano Prodi, Italy (former Italian Prime Minister and former President of the European Commission)
- Heather M. Reisman, Canada (co-founder of Indigo Books & Music Inc.).
- Eivint Reitan, Norway (economist, corporate officer and politician for the Centre Party)
- Michael Rintzier, Czech Republic (?)
- David Rockefeller, United States
- Dennis Ross, United States (special adviser for the Persian Gulf and Southwest Asia to Secretary of State Hillary Clinton)
- Barnett R. Rubin, United States (Director of Studies and Senior Fellow, Center for International Cooperation)
- Alberto Rouith-Gkalarthon, Spain (?)
- Susan Sampantzi Ntintzer, Turkey (?) Guler Sabanci, President of Sabanci Holdings (?)
- Indira Samarasekera, Canada (President of University of Alberta, Board of Directors Scotiabank)
- Rountol Solten, Austria (?)
- Jürgen E. Schrempp, Germany (CEO DaimlerChrysler)
- Pedro Solbes Mira, Spain (economist, Socialist, Second Vice President and Minister of Economy and Finance)
- Sampatzi Saraz, Turkey (banker) (?) possibly Süreyya Serdengeçti (former Governor of the Central Bank of Turkey)
- Sanata Seketa, Canada (University of Canada) (?)
- Lawrence Summers, United States (economist, Director of the White House’s National Economic Council)
- Peter Sutherland, Ireland (Chairman, BP and Chairman of Goldman Sachs International)
- Martin Taylor, United Kingdom (former chief executive of Barclays Bank, currently Chairman of Syngenta AG)
- Peter Thiel, United States (Clarium Capital Management LCC, PayPal co-founder, Board of Directors, Facebook)
- Agan Ourgkout, Turkey (?)
- Matti Taneli Vanhanen, Finland, (Prime Minister)
- Daniel L. Vasella, Switzerland (Chairman of the Board and Chief Executive Officer at Novartis AG)
- Jeroen van der Veer, Netherlands (CEO of Royal Dutch Shell)
- Guy Verhofstadt, Belgium (former Prime Minister)
- Paul Volcker, U.S. (former Federal Reserve director, Chair of Obama’s Economic Recovery Advisory Board)
- Jacob Wallenberg, Sweden (chairman of Investor AB and former chairman of Skandinaviska Enskilda Banken)
- Marcus Wallenberg, Sweden (CEO of Investor AB, former chairman of Skandinaviska Enskilda Banken)
- Nout Wellink, Netherlands (Chairman of De Nederlandsche Bank, Board of Directors, the Bank of International Settlements)
- Hans Wijers, Netherlands (CEO of the multinational corporation AkzoNobel)
- Martin Wolf, Great Britain (associate editor and chief economics commentator at the Financial Times)
- James Wolfensohn, United States (former president of the World Bank)
- Paul Wolfowitz, United States (for U.S. Deputy Secretary of Defense, President of the World Bank, currently AEI scholar)
- Fareed Zakaria, United States (journalist, author, and CNN host)
- Robert Zoellick, United States (former managing director of Goldman Sachs, President the World Bank)
- Dora Bakoyannis, Greece (Minister of Foreign Affairs)
- Anna Diamantopoulou, Greece (Member of Parliament for the Panhellenic Socialist Movement)
- Yannis Papathanasiou, Greece (Minister of Finance)
- George Alogoskoufis, Greece (former Minister)
- George A. David, Greece (businessman, president of Coca-Cola)


Música de Fundo
Wentz (flute sonata)Locatelli

sexta-feira, 5 de novembro de 2010





Foto: Net


Ragtime Blues
- Considerações em diferido sobre a felicidade em épocas difíceis; ou de como o melhor é tentar tirar prazer das pequenas coisas -

A crise é para todos; ressalvando as devidas proporções, claro.

Os ricos não se sentem tão ricos… O que os faz tomar medidas, que tornam os pobres efectivamente mais pobres. E assistimos então ao eclodir de escolas de pensamento (na maioria, de “pensamento comercial”), dedicadas ao problema da felicidade.

Sim, porque a felicidade é um problema real.

Desde aqueles a quem a falta dela constantemente aflige, tolhendo-lhes o passo na sua preciosa busca. Até aos que, por terem momentaneamente (sim, que a felicidade são momentos e não um passe social que se renove periodicamente) conseguido um pouco dela se vêm perseguidos por outros; que incapazes de a alcançar, aproveitam para exercer nestes últimos a sua dor de corno.

O que melhor ilustra a busca da felicidade é a imagem de um cão perseguindo a própria cauda. Uma vez que ela realmente existe mas de nada serve persegui-la, pois é para ser sentida (talvez um bocadinho agitada certas vezes) e não sofregamente mordida como o último rissol num congresso de vaidosos e dissimulados pelintras.

É esquiva, a sacaninha. Já a vi evaporar-se subitamente, enquanto alguém a tentava exibir como a um Mercedes novo. E também já a vi atirar-se para o colo de desprevenidos passantes; que a seguravam surpresos e sem saber o que fazer com aquilo. Alguns, sem mesmo se aperceberem verdadeiramente do que se tratava.

A felicidade é assim.

Está sempre atrás de nós, preparada para nos vendar os olhos com os seus dedos cálidos e macios. E mesmo que não nos pergunte nada, só temos que pensar – Não sei o que é nem quero saber. Vou apenas deixar-me ficar assim um bom bocado.


Música de Fundo
Maple Leaf RagScott Joplin

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O "Repost" Oportuno e Oportunista
- Repost algo profético sobre a situação tanto ambiental como económico-financeira, escrito em 30 de Janeiro de 2006. E que espelha não só a minha preocupação com o aquecimento global, como igualmente patenteia (e daí considerá-lo eu profético) a minha opinião sobre o Governo do PS nos últimos 15 anos e os resultados que disso obtivemos -



Foto: Net



O Dilúvio
- Crónicas do futuro duvidoso –

O retinir da campainha que assinalava a mudança de marcha soou por entre os gritos das gaivotas. O radarista Mendes saiu do refeitório dos praças com uma “Sagres” na mão, e parando a meio da tolda, viu à sua frente uma estrutura artisticamente construída em ferro forjado – Nunca subi o elevador de Santa Justa… - disse a seu lado o “pastilhas” que era da Mealhada.

- E por este andar – respondeu-lhe ele – da próxima vez só o visitas de escafandro; que esta merda gelada tão cedo não deixa de subir. Com tanto satélite e tanta alta tecnologia, bem podiam ter notado que a parte interior do árctico estava liquefeita e só à espera que o gelo à volta se partisse.

O navio reduziu a marcha confundindo-se com as águas cinzentas, enquanto a seu lado desfilavam os telhados vermelhos.

Da “asa" da ponte a estibordo, o grumete Velez espreitou mais uma vez pelos binóculos e confirmou – Sr. Imediato, são seis e estão agarrados ao mastro da bandeira. Um deles está de “canadianas”…

O tenente Figueiredo, olhou aborrecido a estátua de D. Pedro IV que ia ficando para trás como um banhista com água pela cintura, e resmungou – Pavões do caralho! Tinham que continuar com as visitas oficiais mesmo em estado de emergência. – Voltou-se para dentro e ordenou – Parem a máquina e arreiem o escaler!

A campainha soou novamente, e o navio perdeu a pouca velocidade que levava, detendo-se a cerca de trinta metros do Teatro D. Maria II. O guincho de bombordo foi posto em funcionamento, enquanto a tripulação do escaler envergando os coletes de salvamento se perfilava empunhando os croques.

- Porque é que parámos? - Perguntou o comandante Noé, aparecendo na escotilha de meia-nau ainda a contas com uma tosta mista meio comida – Dei ordem para rumar à barra, e não para andar a brincar aos salvamentos pelo meio de Lisboa. Não temos espaço para bocas inúteis.

- Sr. Comandante – Explicou o imediato – Trata-se de uma delegação oficial que ficou encurralada no telhado do Teatro Nacional; temos que os resgatar.

- Isso é que era bom!... - contrapôs o comandante – Nem que fosse a Fernanda Serrano. Pensando bem; para ela ainda arranjava um espacinho no meu camarote. Agora esses tipos, não servem nem para lastro.

- Sr. Comandante! – gritou novamente o grumete Velez – Um deles está a agitar as “canadianas” e a tentar dizer qualquer coisa.

- Recolham o escaler! – ordenou o comandante Noé – Não podemos arriscar as nossas poucas embarcações nesta água cheia de destroços. Vamos dar meia volta, e eles que mergulhem e apanhem o Metro. Isto não é a Arca de Noé.

- Mas. Ó comandante… - tentou ainda o imediato – Um deles parece-me o Pri…

- Tás a ver se me chateias, Figueiredo? – Atalhou o Capitão-de-fragata deveras irritado – As ordens que me deram através da rádio, foi para não recolher ninguém e manter o navio de prontidão. – sorrindo, deu mais uma dentada na tosta – Todo o comandante deve manter-se com o seu navio. Eu sigo com o meu; e ele que se afunde com o dele. Máquina à ré, a toda a força!

O navio de guerra começou a afastar-se do edifício, enquanto os “encalhados” gesticulavam e emitiam brados que à distância soavam como guinchos de roedores enfurecidos.

- Rumem à barra e alcancem as doze milhas que eu vou “passar pelas brasas” até ao jantar. Quando chegarmos à Figueira da Foz virem à direita. Quero ver se estou em Gouveia amanhã por esta hora…

Música de Fundo
Policy of Truth” – Depeche Mode


segunda-feira, 1 de novembro de 2010





Foto by TheOldMan


O Selim da Sorte

Tal como qualquer céptico da velha escola, eu não acredito na sorte.

Creio racionalmente no acaso e no caos; pelo princípio de que tudo o que acontece é causado por milhares de variáveis que aleatoriamente se conjugam para produzir um resultado (nunca final), por mais irrelevante que este seja.

Munido desta bela fatia de filosófico pão-de-ló, dirigi-me à Decathlon para comprar a tão almejada bicicleta, e quebrar finalmente aquela antiga cadeia de más escolhas. Escolhas estas que se têm reflectido em joelhos e cotovelos esfolados, distensões musculares e um ou outro “olho negro”.

Que isto da gravidade é algo implacável.

O miúdo que me atendeu foi prestimoso e incansável. Tendo prestado todos os (centenas de) esclarecimentos que solicitei; efectuando as afinações e ajustes necessários com um sorriso. Arranjando ainda tempo para partilhar comigo a sua experiência na escolha de anteriores bicicletas, como se me confiasse pretéritos desaires amorosos.

Tem sorte que a chuva parou – disse-me ao despedir-se após um último ajuste à transmissão.

Mas eu sabia que nada daquilo tinha a ver com sorte, e sim com opções tomadas. Poderia não ser uma escolha perfeita, mas era o que melhor se adequava à situação dentro das limitações do momento.

Percorri a distância que me separava de casa montado numa nuvem de alumínio deslizante, num voo silencioso e perfeitamente linear; apenas perturbado pela indumentária que nem de longe era apropriada à função.

Mas nada disso era importante, pois o ciclo tinha-se finalmente interrompido; dando início a algo novo.

Subi no elevador com ela ao alto.  O pneu apoiado no espelho, como lábios falsificando a impressão de um beijo para que alguém o encontrasse.

Já em casa abri a mala das ferramentas. E munido da chave apropriada desmontei o selim de origem, substituindo-o por aquele que tenho usado (e já dura há três velocípedes) nos últimos anos; pois é muito mais confortável que aquelas coisas em que nos querem fazer sentar. Presumivelmente produzidas a partir de alguidares de plástico reciclados.

A uns digo apenas que é o meu selim da sorte. A vocês (que nem me conhecem verdadeiramente), posso francamente confidenciar que comigo, há coisas que nunca mudam.


Música de Fundo
She Builds Quick MachinesVelvet Revolver





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