quinta-feira, 21 de abril de 2011

À esquerda na foto (sacada da Net), TheOldMan observa curiosamente um grupo de Guardas Fiscais em manobras, na esperança de encontrar a tal revolução que fora anteriormente anunciada na TV.



O Post do 25 de Abril, escrito à pressa antes da Pascoa
- Como as nossas recordações podem ser factos, ou então divertidas histórias; mas dificilmente ambas as coisas simultaneamente -

No fim de mais uma semana fui “apanhado em campo aberto” sem ter escrito o famoso post sobre o 25 de Abril. Mas será que vale a pena aplicar o rigor histórico às recordações pessoais (e por tal um pouco subjectivas) de cada um?

As minhas recordações são na sua raiz factos, mas que para serem utilizados como informação têm que ser processados por mim; recorrendo para tal a todos os mecanismos, sistemas e informação anterior, que fui adquirindo como experiência. Ou seja… Depois de processadas as minhas (e as de toda a gente) recordações deixam de ser factos, passando à categoria de produto multimédia final (assim uma espécie de documentário, mas um pouco tendencioso).

Lembro-me por exemplo, que o Serviço de Pessoal da empresa onde eu trabalhava estava instalado na antiga residência do guarda permanente que lá vivera em tempos idos. A velha banheira de massa da casa de banho era utilizada no Verão para refrescar bebidas. Justificando as minhas viagens diárias à fábrica de gelo que se encontrava paredes-meias connosco.

É engraçado como a primeira coisa que me vinha à cabeça de cada vez que entrava naquelas câmaras frigoríficas, era Roald Amundsen; com a cartilagem do nariz meio queimada e o bigode curvo eriçado de estalactites azuladas, mantendo-se teimosamente na proa do “Fram” até ser avistada a costa da Antártida.

Mas aquele Abril até foi frescote. E nesse preciso dia não foi preciso ir buscar a habitual barra de gelo industrial. Pelo que me encontrava a um canto a praticar dactilografia numa velha Underwood de carreto largo, quando me mandaram fechar na casa de banho por questões de insonorização, e tentar com um rádio a pilhas (um “transístor”, como erradamente lhe chamavam na altura) sintonizar notícias que esclarecessem sobre as estranhas movimentações de tropas que desde manhã se notavam em Almada.

Apesar de inconclusivas, as notícias sugeriam que se dera um golpe de estado e todos deveriam recolher ordeiramente a casa até que a normalidade fosse reposta. Afinal era feriado!

Toda aquela conversa sobre a sublevação e os melhores locais onde estar sem levar um tiro, acabaram por me desviar do caminho do “redil” em direcção à Cova da Piedade. Onde a pequena “delegação” da LUAR abrira os armários da cozinha para expor aos maravilhados olhos de incipientes revolucionários, a azulada pureza do aço das G3’s e UZIS que mantinham em stock para “o grande dia”(que afinal chegou e passou sem que lhes tocassem).

Enquanto eu subia a Avª Cristo-Rei em direcção a casa, descia já em sentido contrário o destacamento misto de “Chaimites” e “Berliets” que tinha guarnecido a posição durante a noite, e que rolavam avenida abaixo sob o aplauso dos populares que lhes ofereciam maços de tabaco, criancinhas para beijar, chouriços e outras avulsas dádivas que eventualmente lhes seriam de muita utilidade.

Fui almoçar com a consciência de que me encontrava no vértice de uma incrível mudança; embora por outro lado me parecesse que as coisas à minha volta continuassem a ser as mesmas. Assim como quem vai ao teatro e durante o segundo acto repara que alguém se esqueceu de mudar o cenário.

Na ânsia de encontrar essa revolução que enquanto eu almoçara me enchera a cozinha de vozes e canções -  à medida que se iam noticiando a adesão de quartéis e a libertação de diversos e importantes focos de resistência do “fascismo” (como já muita gente se referia ao anterior governo) - saí para a rua mais uma vez.

A única coisa diferente que se encontrava pelas ruas era “gente”. Muita gente, que tendo provavelmente ouvido as mesmas notícias que eu, procurava a tal revolução de que tanto se falava – “A revolução está na rua!” – Afirmava na televisão um tipo que continuava a encher o estúdio de fumo e já devia ter queimado uns dois maços de cigarros até àquela hora (a única coisa verdadeiramente assinalável que passara na TV durante quase todo o dia, era o terem começado a fumar em directo).

Perto do castelo (sim, também temos um) de Almada, uma multidão incitada por alguns elementos da UDP (reconhecíveis pelas botas de camurça e os hediondos casacos aos quadrados de cores vivas) e do MRPP (reconhecíveis pelo tom esganiçado com que gritavam as palavras de ordem), gritavam em coro – “Armas para o povo! Armas para o povo!".

Depois de examinar atentamente alguns componentes individuais da “mole revolucionária”, concluí que nem sequer lhes emprestaria um secador de cabelo; quanto mais armas. Mas eles lá continuaram teimosamente naquele tom obstinado, tão conhecido dos miúdos de três anos quando embirram em pedir guloseimas.

Já me encontrava de saída quando um dos aviões que cruzavam festivamente os céus, decidiu vir às camadas mais baixas da atmosfera “cheirar” a multidão. Que ainda recordada do que acontecera ali bem perto em 26 de Agosto de 1931 dispersou quase instantaneamente, como um saco de berlindes que se entorna.

Disseram-me anos mais tarde que “A Revolução Devora os Seus Filhos”. Mas já nesse longínquo dia eu aprendera, que esta mesmo assim ainda precisa de correr um bom bocado se os quer apanhar.


Música de Fundo
Maple LeafScott Joplin (link)


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Galatea Of The Spheres - Salvador Dali





*

Só após um ano de separação ele concluiu que não mais teria sossego enquanto não a apagasse de todos os seus sonhos. Não fora suficiente o afastamento das léguas e dos dias que colocara entre ambos, na esperança que isso diluísse a ânsia que os consumia quando juntos.

Planeou tudo ao ínfimo pormenor, com a minúcia de um diligente insecto vazio de emoção.

Notou que finalmente resultara quando inesperadamente lhe foi arrancada a primeira memória que dela tinha, seguindo-se uma fluida sequência de muitas outras, que se sumiam exangues numa debilitante hemorragia.

Sentiu as mãos esvaziarem-se; como se delas extraíssem tudo o que anteriormente teriam acariciado e agarrado. Sentiu-se mais leve mas nem por isso mais feliz.

Enquanto reflectia nessa estranha e indiferente disposição que o invadia, reparou casualmente que a leveza que sentia nas mãos se transformava num fresco formigar. Enquanto que, a partir delas todo o seu corpo perdia lentamente a consistência. Transformando-se numa ténue neblina, que se perdia através de um sonho… Agora vazio.

Música de Fundo

Bang Bang You're Dead - Dirty Pretty Things (link)

 


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Visto que Proudhon era pouco fotogénico, tivemos que substituir a foto original por uma do irmão de Karl Marx.


A Visita de Proudhon

- Relato “Pessoano” da visita do conhecido teórico anarquista ao nosso país; republicado no âmbito da onda de "revolucionarice" que (na blogosfera tal como em outros locais) costuma anteceder e acompanhar o 25 de Abril -

*

Esta úlcera dá cabo de mim! E tudo por culpa daquele cabrão balofo do Sá-Carneiro; só me apetece encher-lhe o cu de pontapés. Mas vou começar do princípio…

Estava eu ontem sentado na Brasileira, a tentar que o Mendonça me fiasse mais uma bica e uma Macieira, quando ele entrou. Ao princípio ainda pensei que era mais uma partida do Almada Negreiros (tem a mania de se mascarar com os trajes mais estapafúrdios), mas não era. Era mesmo o Proudhon.

Eu até nem vou muito “à bola” com anarquistas. Normalmente têm mau vinho, e tendência para escaqueirar tudo quando a conversa não lhes agrada. Ah! Mas as gajas…

Ainda me lembro daquela anarquista que andei a comer, a Bernarda Lencastre…

Ora onde é que eu ia? Sim, o gajo… entrou direitinho à minha mesa e sentou-se sem cerimónia; estar eu ali ou a minha estátua em bronze era a mesma coisa, que o tipo pelos vistos não tinha recebido educação nenhuma lá nos "franc-comtois" ou franco-atiradores ou lá o que era.

Mas era um estrangeiro. E como diria o Eça, “se não fossem os estrangeiros, como é que saberíamos que somos labregos?” – um pândego, este Eça – e por isso, prontifiquei-me logo para lhe mostrar Lisboa desde que esmifrasse o cacau, é claro.

Atão” pá, gosta da nossa terra? – Perguntei eu a apalpar o terreno – Anda daí que eu mostro-te o que é desassossego…

Levei-o até ao atelier do Santa Rita. Que como é costume, estava a ajudar à formação de mais uma arquitecta (algumas decidiam fazer os exames em casa dele); pelo que esperámos no quiosque em frente, aproveitando para beber uma ginjinha.

Seis ginjinhas e três eduardinos depois, saiu o pintor pela porta como o Almada na capa do Orfeu. Isto é, com as calças pelos sovacos. Vinha um pouco abalado mas sempre lúcido como era seu hábito. – Então? – Perguntou com a sua voz nasalada – Pronto para mais uma noite na "Méson" da Madame Odete? Quem é aí o calmeirão com ar de anarquista “demodé”?

- É o Proudhon. – Respondi – Chegou há pouco no eléctrico da Porcalhota…

- “Tás” a ler? Fernando… Ou então andas a beber muitas Macieiras.

Proudhon nunca existiu! – Salmodiou ele como se discursasse para um invisível auditório, enquanto apontava o teórico ao melhor estilo dos nossos anatomistas -  Este gajo é uma invenção dos futuristas. Ou então está tão morto como Deus e o Rei D. Luís. – E virando-se para mim pediu com a desenvoltura que o caracterizava - Ó Pessoa, chama aí um fiacre!...

E foi assim que começou a nossa odisseia na Capital do Império.

Era um tipo de poucas palavras, o anarquista. Mais tarde até aproveitei a experiência para escrever sobre o assunto. Bem sei que “O Banqueiro Anarquista” nunca venderá muito, mas não me culpem; o material base era péssimo. Além de uma invejável aptidão para absorver doses industriais de licor, o tipo não demonstrava grandes capacidades de comunicação.

Só quando íamos a passar pelo Miradouro de Santa Luzia e lhe perguntei se já tinha ido a uma casa “de meninas”, é que lá acordou e disse – “A liberdade é anarquia, porque não admite o governo da vontade, mas apenas a autoridade da lei, quer dizer, da necessidade.” – Pareceu-me um pouco confuso, mas acho que era já o eduardino a falar; e não lhe ligámos muito a partir daí.

Lá chegámos então à beira do Castelo. O Santa Rita pagou ao cocheiro (que eu tenho andado teso) e saltámos para o empedrado. Estava em muito boa forma nessa noite. Tirando um ligeiro catarro e o nevoeiro na vista, sentia-me um sarraceno. Quase que conseguia ouvir as espadeiradas e os gritos nas ameias do castelo. Mas não se tratava de nada disso. Apenas tinham acabado de mandar um tipo porta fora e o burburinho afinal provinha daí.

Estava uma noite de truz. As Irmãs Meireles cantavam junto ao piano acompanhadas pelo António Melo. Um miúdo porreiro mas pitosga como um morcego que durante o dia musicava os filmes do Lopes Ribeiro. A um canto, o badocha do Sá-Carneiro metia o nariz no decote da condessa russa, bêbado que nem um cacho.

O nosso acompanhante olhou em redor, e saindo da sua letargia proferiu – “É no comando da vossa consciência que deveis procurar a garantia das vossas ideias e até a prova da vossa certeza...” – era a primeira coisa de jeito que dizia em toda a noite. Avançámos.

Atraquei-me logo a uma macaense, que isto na minha idade não se pode perder tempo. O Santa Rita começou a apalpar uma cuzuda com ar de alemã como se fosse um melão na feira de Caneças; mas isso nele era normal. Pintores e arquitectos são do piorio. O anarquista já estava perto do Sá-Carneiro, a cheirar a condessa russa e a emborcar flutes de champagne como se fosse tinto; um autêntico motor de explosão, aquele homem.

A oriental subiu a escada comigo atrás. Atrapalhando-se um bocado a andar pois eu já tinha a minha mão entre as suas pernas, o que não lhe facilitava o andamento. Entrámos no quarto da Renascença. Cama de dossel, penico de Sévres e um bidé de esmalte em armação de ferro. Sempre gostei dos clássicos. Já no 18 de Alcântara ficava sempre no quarto egípcio…

A rapariga despiu-se e ficou ali deitada a sorrir para mim, enquanto eu me debatia com o nó da gravata. De pernas abertas parecia uma igreja bizantina, com duas cúpulas coroadas de rubis (é a minha costela de poeta); estava na hora de ir à missa. Lá me atirei para o leito como um Ícaro caído dos céus. O seu corpo era quente e o sotaque estranho. Por momentos senti-me como Camilo Pessanha ou mesmo o Imperador do Ceilão.

As suas coxas musculadas apertaram-me os rins enquanto me fincava as unhas nos ombros e me segredava frases na língua de Confúcio. A minha bronquite é que não estava pelos ajustes, e eu só pensava: “Fernando, apressa-te que perdes o vapor”. Mas lá levei o barco a bom porto. Até me ficou uma ideia para um alexandrino (mas isso foi mais tarde).

Passou-se tudo isto no ano da morte de Ricardo Reis (tadinho). Mas mesmo assim, foram os meu cinco mil reis mais bem gastos nesse ano.

Deixei-a a cavalgar o bidé, e descia eu as escadas com uma bela disposição quando comecei a ouvir a barulheira que vinha do salão. Havia festa da grossa. Vi de repente passarem a correr as irmãs Meireles, uma delas com o decote arrancado; velozes com éguas fugindo de uma cavalariça em chamas. Distraí-me a admirar o espectáculo e mal tive tempo para me desviar de uma bandeja de casquinha, que bateu na parede com um som de gongo chinês.

O Santa Rita em cima do piano, defendia-se a pontapé de dois amanuenses do Ministério da Guerra. A Madame Odete um pouco descomposta, tentava sem êxito acertar com uma garrafa de marrasquinho no anarquista, que esbofeteava o Sá-Carneiro segurando-o pelo colarinho, enquanto a condessa russa tinha um chilique mostrando umas cuecas de seda vermelha. Até parecia o rapto das Sabinas, mas sem romanos (sempre gostei muito de brincar ao “quadros vivos).

Soube depois que o Sá-Carneiro tinha adormecido, e ao acordar dera com o anarquista a explorar os encantos da condessa que até estava a gostar bastante; diga-se em abono da verdade. O tipo levou a mal. E como tinha estado em Paris, lá disse ao Proudhon qualquer coisa no dialecto de Racine que não lhe caiu muito bem. É claro que não tinha hipótese; e a coisa acabou por descambar em desordem generalizada.

Com a festa no auge e talvez chamado por algum vizinho mais picuinhas, apareceu o guarda-nocturno acompanhado de dois guardas-republicanos de sabre desembainhado. Foi a debandada geral. Na confusão, um deles ainda apanhou com o banco do piano e foi-se abaixo como um saco vazio. O anarquista aproveitando o burburinho, apoderou-se do dinheiro que estava numa gaveta do bar e saiu pela porta das traseiras.

Eu comecei a correr e só parei no Terreiro do Paço, com falta de ar e uma lente partida. O Santa Rita, foi para o Torel na ramona com as putas, e só saiu uma semana depois, pronto para outra (como de costume).

De regresso ao meu quarto, caminhando melancolicamente pela linha do eléctrico e a olhar as estrelas enquanto me interrogava sobre o futuro de Portugal, vi-o passar num fiacre com a barba ao vento e os óculos encavalitados no nariz.

Foi essa a última vez em que vi Proudhon. E tudo isto por culpa do cabrão do Sá-Carneiro…

Fernando Pessoa
(por gentileza da Fundação de Estudos Pessoanos)

Música de Fundo
L’Anarchie Pour le UKSex Pistols (link)


segunda-feira, 4 de abril de 2011





Foto: Net


Memórias da Clandestinidade (3)
- Nome de código "Elton John" -
(numa série de posts alusivos ao 25 de Abril)

Tenho tendência a confundir um pouco as datas. Mas após conferir uns escritos antigos posso afirmar que foi realmente em Janeiro de 73.

Trabalhava já há um ano como paquete (contínuo "júnior") numa das empresas do Grupo Tenreiro, quando me acenaram com a justiça da causa e com a vida de aventura ao serviço do proletariado internacional. Era mais uma variante do famoso "alistem-se, alistem-se...", mas ao estilo James Bond.

Não que a minha parte fosse muito perigosa; consistia principalmente em aproveitar o circuito de recados e distribuição de correspondência, para fazer circular alguns papéis que não deveriam passar pelos Correios, ou papaguear algumas palavras que não devessem passar pelos fones dos TLP.

Eu também não fugia muito á norma. A minha farpela favorita era uma camisola de gola alta em "mousse", calça "boca de sino" em veludo canelado grosso e um maxi-casaco em napa castanha; tudo isso assente sobre a sólida base de uns "Eltonjohns", uns sapatões cuja sola tinha três centímetros e meio de espessura, e um salto com (sem exagero) uns oito.

Era um rapaz do meu tempo e a mulher que eu amava, chamava-se Suzi Quatro...

Nesse fresquinho dia de Janeiro, tinha passado toda a manhã a circular por Lisboa distribuindo um monte de correspondência. O único "contrabando" que trazia, era o rascunho de uma convocatória; isto sem contar com a "História Universal da Pulhice Humana - Os Egípcios" do José Vilhena, que era o que eu lia na época e me arrancava sonoras gargalhadas no Cacilheiro. Fazendo com que algumas pessoas me olhassem com a desconfiança devida a um lunático, mas eu não me importava. Era feliz assim.

Encontrava-me no tombadilho superior do "Rio Jamor" a apanhar o vento na melena cortada "á tigela", e vendo o cais de Cacilhas aproximar-se lentamente. Um tipo de óculos redondos e gabardina que não parava de me mirar, começava já a enervar-me. Pois pelo aspecto só podia ser bufo ou maricas, e nenhuma das hipóteses me animava por aí além.

Peguei na pasta de cabedal com a papelada e desci a escadaria para o tombadilho inferior. A embarcação oscilava um pouco mas nada de grave. Estávamos quase a atracar.

Era quase hora de almoço, e comecei a sentir uma certa urgência no meu jovem estômago. Assobiando "In the Summertime" de Mungo Jerry, dirigi-me á proa onde existia uma saída que costumava usar; bastava para isso soltar uma pequena corrente e saltar para o cais.

Infelizmente, fui traído!

Quer se seja um homem de acção ou empregado de mesa na "Primorosa", estaremos decerto habituados a confiar naquelas pequenas coisas que tomamos como certas. Seja a Walter PPK, o saca-rolhas do Brandy Constantino ou mesmo um "Eltonjohn".

E foi este último que me traiu.

Mal o casco do Cacilheiro embateu no pontão, aproveitei a embalagem e lancei-me á abordagem. Até aí nada de especial, pois tratava-se de um exercício habitual; e embora a proa devido ao seu formato ficasse sempre cerca de um metro desviada, não era uma nesgazita de água que preocuparia o antepassado dos meus bisnetos. Mas foi...

Ao assentar pujante os dois pés no metal do pontão, o aspirante a agente secreto tornou-se mergulhador por mérito próprio. E de um modo muito simples. O tacão esquerdo (não esquecer eram são 8cm) partiu-se com o embate, proporcionando à surpreendida assistência a visão de um mergulho encarpado de costas com pirueta lateral esquerda.

Felizmente que já nadava desde os seis anos.

Após uma curta estadia nas águas esverdeadas do Tejo a minha cabeça emergiu, apresentando na face um ríctus de nojo (já tinha visto boiar coisas bem estranhas ali...).

Visto que tinha derivado escassos metros, dirigi-me ao pontão a nado (nem poderia ser de outro modo) segurando a pasta bem alto na mão esquerda, enquanto com a direita tentava avançar em braçada única. Disseram-me mais tarde que o meu azar foi não ter sido observado por Manoel de Oliveira. Pois logo o mestre ali me teria contratado para alguma produção sobre Camões.

Quem sabe se hoje seria um segundo Joaquim de Almeida... ou pior ainda... Uff!

Mas adiante que a água era fria pois estávamos em Janeiro.

O último contratempo foi provocado por um velho marinheiro do rio. - Blog! Como detesto os velhos marinheiros do rio! Além de se enganarem sempre nas previsões meteorológicas e darem falsas indicações sobre as direcções a seguir, ainda se metem debaixo dos nossos pés em todas as alturas.

Estava eu a tentar içar-me para o pontão à força de pulso, quando aquela espécie de arenque fumado (Bismark) me aparece à frente, empunhando um grossíssimo cabo de amarração seguro com as duas mãos, com que aparentemente me ameaçava. - Agarra-te aqui! Agarra-te aqui, rapaz! - Do modo como ele o empunhava esta cena tinha um ar altamente suspeito. Não só isso como me atrapalhava imenso na subida.

Lá consegui livrar-me dele e de um monte de curiosos que aparecem sempre, se calhar para tentarem ficar na fotografia...

Fiz um breve inventário aos meus pertences e aos meus órgãos vitais, mas só faltava o salto do maldito "Eltonjohn". Peguei na pasta que tinha pousado perto dos pés, e desanimado encaminhei-me para a empresa coxeando ligeiramente, produzindo a cada passo um ruído que soava mais ou menos como "Chuic, chuic"...

Tratou-se apenas de um contratempo durante o último estertor do fascismo, não produzindo qualquer efeito na sublevação que conduziria ao processo revolucionário.

Por isso um dia em que passeis por Cacilhas, além de provar a famosa ginjinha do Malaquias (agora falecido), não deixeis de fazer uma pequena pausa junto à muralha perto da "Cervejaria Farol". Local onde tombou um jovem antifascista, vítima da moda e dos maneirismos burgueses.

Jovem esse que hoje um pouco mais velho, ainda não pode ouvir falar do cabrão do Elton John...

Música de Fundo
Devil Gate Drive - Suzi Quatro (link)



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