quinta-feira, 21 de julho de 2011

Foto: Net


A Banhos na Praia do CDS com o Apóstolo e Óculos Gay
- e também um ligeiro vislumbre sobre a tenebrosa conspiração dos amoladores -

Sinto-me um homem dividido!

O caso é que na maioria das ocasiões em que lido com qualquer situação mais específica, dou por mim a efectuar uma segunda análise a partir do exterior. Um pouco como se a meio de uma competição desportiva, descobrisse estar simultaneamente em campo e na bancada.

Esta reflexão semi-esquizofrénica, atinge-me subitamente enquanto gasto a última manhã das primeiras férias, caminhando pelo areal à conversa com o Apóstolo. Não que as nossas conversas sejam desinteressantes, pois versam sobre a natureza humana (o que é o mesmo que dizer “sobre a relatividade”) e o sentido das coisas. Mas é-me impossível evitar ser assolado por simultâneos pensamentos marginais; como um desprevenido átomo atingido traiçoeiramente por improváveis partículas de estranheza.

Acabo por lho confidenciar. Mas enquanto o faço interrogo-me, se isso é algo que se conte a alguém sem correr o risco de ser compulsivamente internado numa unidade psiquiátrica.

- Deve ter também as suas vantagens. - Tentou ele consolar-me – Imagino o jeito que isso deve dar durante o sexo; com as mudanças de ângulo e tudo…

- Só que infelizmente a coisa não funciona assim, Zé António. – Respondi-lhe – Isto não é a TV digital. É mais como tentar escrever um texto com um Revisor de Provas sentado no colo e a dar palpites.

Enquanto explico isto consigo ao mesmo tempo ver-nos a caminhar pelo areal, como se a imagem tivesse passado para o “carro de exteriores” da RTP na Volta a Portugal. A minha expressão concentrada, traduz alguma preocupação sobre o facto de cada vez mais aparecerem amoladores durante a época estival, numa flagrante tentativa de sabotar as nossas férias.

Como todos sabem segundo a consuetudinária crença, de cada vez que se avista um amolador e se ouve o som lamentoso da flauta de Pã, as nuvens começam a aglutinar-se resultando invariavelmente em chuva. Aquela coisa húmida que é a bênção dos agricultores e o terror dos banhistas (isto pode ser um exagero, porque já encontrei na praia coisas que teriam muito mais hipóteses de me assustar).

E ultimamente por algum estranho motivo, o número de “avistamentos” de amoladores tem aumentado de modo preocupante.

Paro ostensivamente para limpar as lentes dos óculos escuros, enquanto sussurro ao meu amigo – Olha! Está ali um com a bicicleta encostada ao Restaurante “O Barbas”.

- Estás a ver coisas, pah!... Deve ser desses óculos maricas que agora trazes para a praia…  – Responde sucintamente o apóstolo  – É apenas um tipo com a sua bicicleta. O facto de estar completamente vestido, não quer dizer nada.

(Embora me sinta “agradado & agradecido” pela oferta de uns Dolce & Gabanna com lentes “azul celeste”, a minha masculinidade ressente-se de cada vez que os uso; a não ser que esteja em calções de banho ou mesmo nu. O que quer dizer que só os uso na praia. Mas adiante…)

Em boa verdade até nem era uma visão assim tão alarmante, pois o que se encontrava numa pequena bagageira sobre a roda traseira poderia ser um saco desportivo em vez da inquietante “caixa da ferramenta”, e o tipo parecia mais interessado nos atributos estéticos das banhistas do que em perscrutar os céus na mira de nuvens negras.

Decidi abandonar o assunto, e continuámos a percorrer o areal imersos nos meandros das complicadas relações inter-pessoais; e debatendo a possibilidade de o Facebook, poder eventualmente vir a ser mais tarde (se é que não acontece já) usado como instrumento de espionagem para devassar a privacidade do cidadão comum.

Talvez impulsionado pela nossa animada conversa, o Sol chegou mais rápido ao ponto em que costumamos abandonar a praia. Dirigimo-nos ao topo do pontão e sentámo-nos num dos bancos existentes, aproveitando para sacudir a areia dos pés; minorando assim o já galopante desassoreamento daquelas praias.

Ao sentar-me senti que um qualquer objecto tentava espetar-se-me na perna através do tecido dos calções. Inclinando-me para um dos lados extraí debaixo de mim um pequeno objecto de plástico vermelho. Uma minúscula flauta de Pã, com todo o aspecto de vir como brinde na caixa de uma qualquer marca de cereais.

Olhei desconfiadamente em volta, mas nem rasto de qualquer amolador ou mesmo um ciclista mais vestido do que é hábito. As nuvens no céu, perseguiam-se mutuamente como um rebanho de brincalhonas ovelhas; não me parecia que viesse a chover.

No banco ao lado uma família executava a habitual tarefa de limpar a areia dos pés. Levantei-me para acompanhar o Apóstolo em direcção ao automóvel, e ao passar por eles ofereci o objecto a uma miúda de cerca de 12 anos que tentava calçar as sandálias e prender o cabelo simultaneamente (não me perguntem como, pois eu acho que é necessário ser uma miúda de 12 anos para conseguir realizar esse extraordinário feito).

Quando nos afastávamos ouvi-a explicar ao irmão a proveniência da flauta plástica – Foi aquele senhor ali… - Ao que o irmão confirmou casualmente – Ah! O dos óculos gay…

Felizmente é coisa que não me afecta. Especialmente vindo de alguém tão parecido com o Justin Bieber…

Música de Fundo
Play That Funky MusicWild Cherry (link)


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Foto - Rosenfeld Collection



A Persistência do Desejo
- A recompensa será sempre a viagem e nunca a chegada… -

No término da carreira tinham-lhe finalmente permitido regressar ao “Newport Jazz Festival” de 1958.

O risco de paradoxo fora finalmente descartado após um estudo que provara a “teoria do multiverso espiral”. Basicamente significava que seriam criadas realidades adicionais. Tantas quantas fossem necessárias para colmatar as intervenções que ocorressem a determinado tempo ou local; dispersando-se estas finalmente em direcção ao futuro por linhas temporais alternativas.

Pareceria até um pouco estranho falar de local, quando este era determinado pela conjunção dos vectores do tempo e não através da compartimentada Mecânica Newtoniana.

Por mais fascinante que fosse o princípio, era o resultado factual que não parava de o surpreender. Após trinta e dois anos de serviço fora-lhe finalmente permitido escolher uma realidade e viver nela o tempo que lhe restava. É que apesar dos avanços da medicina cosmética que permitiam a todos morrer de velhice com a fresca aparência dos vinte anos, a esperança média de vida não fora alterada em mais de uma trintena de anos.

O ser humano conquistara o tempo (e através dele o espaço), mas continuava a ser uma espécie cuja efémera existência se extinguia praticamente na idade em que conseguia atingir a maturidade espiritual.

A única informação de que dispunha era um documentário de 1962, mas era quanto bastava. Pois apesar de todos os anos passados sobre a primeira vez em que tal acontecera, a sua surpresa ao deparar com a rapariga do vestido azul continuava a deixá-lo sem respiração.

Conseguia ouvi-la durante o intervalo entre duas músicas a explicar aos amigos que tinha que deitar-se cedo nessa noite, pois a regata da manhã seguinte era a inaugural do Newport Bermuda Race; onde pela primeira vez iria competir a nova “Classe de 12 metros” (Médio Cruzeiro) cuja vitória seria alcançada mais tarde nesse dia pelo “Finisterre” de Richard Bertram.

Mas essa parte do futuro aconteceria numa outra qualquer realidade, pois ali ele seria discretamente inserido na dinâmica dos acontecimentos com um mínimo de implicações negativas. Os documentos eram verdadeiros; e tanto o dinheiro como as roupas, passariam qualquer exame por mais apurado e exaustivo que este fosse.

A simpática Mahalia Jackson estava a terminar uma memorável actuação, coroada por intermináveis salvas de palmas que agradeceu timidamente no final  - “You make me feel like a star”…

Preparou-se para a inserção.

Mary Agnes Waite (a rapariga do vestido azul) dentro de momentos estaria encostada ao balcão do Yatch Club a bebericar uma “Dr. Pepper”, e com o casaco de malha a deslizar-lhe pelas costas até cair no chão. Entregar-lho-ia com um sorriso, fazendo casualmente um comentário sobre Thelonious Monk; aproveitando para perguntar se ficava para a actuação final de Ellington.

Sobre esse pedaço de realidade manufacturada poderia então alicerçar um futuro alternativo a seu gosto. Um futuro em que ela não casaria com Alistair Smithe; em que Richard Bertram não ganharia a regata e um futuro em que o festival nunca seria transferido para Nova York.

Talvez nesse futuro a crise dos mísseis de Cuba acabasse de modo diferente, a guerra nuclear se tornasse realidade e a URSS viesse a invadir um dia o ocidente. Mas para tudo isso ele se encontrava preparado; munido do conhecimento de um futuro alternativo cujas possibilidades podem ser sempre aproveitadas, pois são comuns a quase todas as realidades.

Colocou ao ombro o cilíndrico “saco de marinheiro”, e enquanto as solas dos sapatos de lona faziam ranger o saibro do carreiro do Yatch Club, ensaiou mentalmente o que lhe iria dizer. Era todo o seu futuro que se encontrava em jogo.

*

Clara deu por finalizados os procedimentos de gravação, e ternamente retirou do leitor o cubo de cristal onde se encontrava armazenada toda a memória, personalidade e idiossincrasias que compunham o seu pai.

Anos antes ninguém imaginaria que as urnas seriam substituídas por mundos virtuais e que as cinzas dos mortos em vez de serem espalhadas ao vento, os transportariam durante mais algum tempo através de qualquer RPG (Role-playing game) à escolha.

Desligando o terminal, levantou-se com uma expressão de felicidade estampada no rosto.

O seu pai convidaria a rapariga do vestido azul para assistir à regata, e ganharia uma aposta sobre a vitória de Richard Bertram na “classe de 12m”; o que lhe proporcionaria o financiamento inicial para um pequeno negócio. Passando a viver num eterno Festival de Jazz de Newport de 1958. Eterno… pelo menos enquanto a Internet existisse. E aparentemente, esta ainda iria durar muito tempo.

Música de Fundo
We Used to WaitArcade Fire (link)


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