sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Foto: Net


O Marceneiro e o Mar
- Pequeno conto apresentado a concurso nos primeiros Jogos Florais das Instituições Psiquiátricas do Serviço Nacional de Saúde -

O armário ficara finalmente concluído, assemelhando-se a um mosaico de tempo. Um calendário retroactivo com todos os seus entalhes de marfim rectificados e polidos; encastrados num leito de ébano brilhante como a testa suada de um etíope.

Transportou o móvel cuidadosamente para a balsa, enrolado num cobertor para que não se riscasse contra a amurada. Após verificar a solidez do nó com que o amarrara, ligou o motor; esbatendo-se-lhe a imagem à medida que se embrenhava na névoa baixa que beijava timidamente as águas.

Duas milhas para lá da última bóia da barra parou. As águas límpidas da corrente oceânica revelavam um fundo de areia fina, em que alguns corais tentavam sobreviver agarrando-se desesperadamente a uma ou outra pedra poupada pela força das águas.

Dobrou o cobertor sobre o banco a seu lado e retesando os músculos, fez descer o armário verticalmente para a água, soltando a corda lentamente de modo a que este ficou assente no fundo com a dignidade de um relógio de sala. Dominando com o seu porte hirto as cercanias, onde surpreendidos peixes evolucionavam curiosamente em seu redor.

Ligou novamente o motor para regressar a terra. Por um momento pensou em todo o tempo que representava cada entalhe, cada peça de face, cada compartimento que compunha o armário. Todos esses momentos seriam trocados por algo mais duradouro.

Por cada pedaço de marfim que se soltasse, um coral criaria raiz no substrato da madeira. Alimentando-se desta enquanto se alicerçava para uma estadia de algumas centenas de anos. Por cada brecha aberta nos encaixes das tábuas, um peixe procuraria abrigo das águas revoltas no Inverno ou da luz demasiado brilhante no pino do Verão.

O tempo que gastara/perdera teria finalmente utilidade. E o armário seria apenas uma recordação oculta pelo pequeno recife que a partir dele se criaria.

Em vez de ser admirada e comentada por peritos, a sua arte desta vez serviria para algo muito melhor… Para dar vida.

Estava na altura de tirar umas férias.

Música de Fundo
Still LifeThe Horrors (link)

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