quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Profeta Piçarra no início da sua auspiciosa carreira,  usando a característica "pochette das relíquias"
(Foto: Net)


As Profecias do Piçarra
- Quando um homem do passado ergue a sua luz bem alto, projectando o seu espírito no futuro; é porque em boa verdade algum ponto deve estar esgaçado no tão famoso “tecido do tempo” -

Foi cedo na minha juventude (e é por essas e por outras que costumo dizer que quase a desperdicei) que me interessei pelo hermetismo, o esoterismo e o oculto em geral. Felizmente antes de me transmutar no “Novo Homem” e desaparecer como Fulcanelli, tive uma crise galopante de hormonas. O que me fez abandonar uma brilhante carreira como alquimista, a favor de objectivos menos longínquos e mais (a)palpáveis.

Ficou-me porém um certo gosto pelo arcano. Especialmente pelas potencialidades humorísticas dos rituais e profecias, tão ao gosto de senhores de meia-idade que usam barbicha “à Frank Zappa”.

No fim-de-semana passado encontrava-me eu à beira-mar, lutando tenazmente (e com uma tenaz) para desvendar os interiores de um teimoso crustáceo, quando o meu olhar ocioso pousou momentaneamente sobre um documentário que passava na TV.

Tratava-se pois de um programa sobre “As Profecias” de Nostradamus. Um famoso vidente que além de epiléptico e cardíaco, devia ser também disléxico. Pois nos últimos quinhentos anos, milhares de pessoas têm gasto milhões de horas e rios de tinta, só para tentar desvendar o significado de uma enorme colecção de quadras, mais dúbias que as justificações do Alberto João Jardim sobre as contas da terra dele.

Isso fez-me lembrar que à semelhança de todas religiões, fraudulentas ou não, a Igreja do Imaculado Blog tem também um Profeta de nome Piçarra, nascido em Alfama tal como ELE (apesar de ímpios terem posto a circular o boato, que Blog não nasceu. Tendo sido sim, inventado).

Deixo-vos pois com um pequeno texto extraído do “Livro Negro de Blog”; e que nunca aqui foi publicado.

***

Venho falar-vos hoje de um famoso visionário e profeta de seu nome Piçarra. Amolador/fadista nascido num rés-do-chão da Rua da Adiça, e conhecido pelas suas premonições de cariz catastrófico.

Apesar da grande dificuldade que qualquer estudioso terá em interpretar os seus textos; pois além de ter uma caligrafia horrível, grande parte das suas visões eram obtidas “sob influência”. Alguns casos (que não este) são de uma arrepiante clareza que não deixa dúvidas.

Um flagrante exemplo que comprova a precisão das suas profecias, é o que seguidamente transcrevemos. Ocorrido no final dos anos setenta do século passado; e cuja trágica génese apenas foi compreendida há poucos anos.

Conta-se que Piçarra vinha um dia do Cais do Sodré onde tinha lanchado uns burriés empurrados a “penálti de branco”, quando ao passar pela rua de S. Julião decidiu aí parar no Arduíno “seboso” (na altura, um conceituado empresário do ramo hoteleiro e fornecedor de carvão), para acabar de atestar com uma das famosas bifanas molhadas “à seboso”; e assim ganhar lastro para empurrar o monociclo da ferramenta até à Praça da Figueira.

Ora, uma das primeiras coisas que qualquer Profeta aprende, é que se pode tornar perigoso misturar bebidas de natureza diferente.

Após deglutir a referida iguaria diluída numa malga de “verde tinto” contrabandeado da Galiza, Piçarra saiu da carvoaria um pouco periclitante e agarrando em ambos os punhos do monociclo, empurrou-o estoicamente pela Rua do Ouro adiante. Por entre as pragas e impropérios, dos automobilistas a quem obrigava a reduzir a velocidade.

Chegado por alturas da Rua de Santa Justa, Blog enviou-lhe um sinal.

Bem… Na verdade foi o “verdasco”, que começando a interagir com toda aquela confusão de ingredientes, acabou por produzir uma elevada concentração de hidrocarbonetos (a saber, CH4). Que ao repassarem as martirizadas carnes do Profeta, se escoaram em direcção à unidade de processamento central, provocando-lhe “visão dupla” acompanhada de uma relativa debilidade nos joelhos.

Piçarra, habituado a revelações, epifanias e outros estados alterados, olhou franzindo o cenho em direcção ao elevador de Santa Justa, que além de duplicado oscilava como uma corda de estendal e profetizou – São dois! São dois! Ai que eles caem os dois!...

Foi de espírito abalado que logrou chegar ao quiosque do Faustino na Praça da Figueira. Onde em frente a uma “Carvalhelhos”, anotou a visão num bilhete de eléctrico que ainda conservamos na nossa Igreja; junto às outras relíquias (mesmo ao lado do prepúcio de Frei Fialho).

Na verdade ignoramos quem foi o idiota que afirmou não ter dúvida que tal episódio profetizou a queda do World Trade Center em 11 de Setembro de 2001. Mas de uma coisa temos porém a certeza. Piçarra, nos muitos anos em que ainda perdurou na sua carreira de profeta e visionário (e também amolador), nunca mais misturou “verde” com “maduro”…

Música de Fundo
A TendinhaHermínia Silva (link)


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Foto: Net


A Mais Bela do Universo
- Um título inventado por alguém que nunca receberia o de “O Mais Assertivo de Santo António dos Cavaleiros” -

Embora nunca deixe de apreciar a beleza de uma mulher (ou a beleza em geral), não sou grande apreciador dos concursos subordinados ao tema. Compreendo, é claro, o apelo que tem esse tipo de desfile. Pois a tradição da exposição de “carne fresca” já tem milhares de anos. Embora noutros tempos existisse a possibilidade de a troco de algumas peças de ouro, levar para casa algo mais do que desejos insatisfeitos.

Não que eu faça a apologia da escravatura ou da predominância masculina sobre a mulher como objecto. Só que, fetiche é fetiche (lá estou eu armado em Gertrude Stein) e o “Mercado de Escravos” tem muito pouco em comum com as minhas preferências em “fantasias” e brincadeiras de alcova.

Quanto à motivação das mulheres que vêem aquilo, não estou muito certo. Mas penso, na minha cândida ignorância, que será aproximadamente pela mesma razão que eu vejo o “Top Gear”; embora não conduza nem possua um desses sorvedouros de dinheiro que designam por automóvel.

Mas não nos afastemos do assunto.

Segundo alguns “entendidos”, a beleza não é resultante da perfeição mas sim da particularidade. E com isto não tenho qualquer dificuldade em concordar; posto que ainda há poucos dias fiquei a olhar demoradamente uma jovem de tez cor chocolate (com mais de 70% de cacau), e possuidora de um nariz digno de Cleópatra.

Todo este anterior arrazoado tem a ver com o facto de hoje me terem mostrado a foto da vencedora do concurso Miss Universo, e… Foi uma desilusão!

Não me refiro a uma desilusão tipo derrota do Sporting, ou assim… Nada disso!

Acho que o impacto de tal sensação, só se compara com o que terá sentido o Arquiduque Francisco Ferdinando de Habsburgo-Lorena, quando naquela límpida manhã de Verão em Sarajevo saíra para beber um “expresso”; crente no amor e profunda devoção que os bósnios basbaques colocados à beira da estrada, alegadamente nutririam pela sua arquiducal pessoa.

O bom aspecto é sempre algo de bom. Mas proclamar como “A Mais Bela do Universo” uma quase-fotocópia a cores de Beyoncé Knowles (que embora bonita é igual a milhares de outras “african american), parece-me um pouco exagerado; isto só para não dizer, ridiculamente pretensioso.

Talvez eu não devesse conjecturar sobre a possibilidade de se tratar de um presente, que algum político ou novo-rico angolano tenha decidido dar-lhe. Isto já não contando com o facto de a sua eleição Miss Angola/Reino Unido ter decorrido em circunstâncias bastante duvidosas (segundo alguns tablóides britânicos e mesmo a Wikipedia).

Mas toda esta caldeirada me faz lembrar um divertido conto de Richard Matheson ("Miss Stardust" escrito em 1955) que li há muitos anos, e no qual a meio do concurso “Miss Stardust” realizado em plena “parolândia” dos Estados Unidos, aterra a nave espacial do “Homem-Couve”. Um irascível ET de aspecto inconcebível e aterrador; que afirmando-se possuidor dos direitos sobre o concurso para toda a galáxia conhecida, exige que o mesmo seja anulado ou comece a aceitar concorrentes do espaço exterior.

Entretanto as coisas começam a complicar-se porque as novas concorrentes vêm acompanhadas dos respectivos pais (qualquer deles tão irascível e inconcebível quanto o “Homem-Couve”) que ameaçam incinerar o nosso planeta, caso as suas respectivas filhas (tão aterradoras, irascíveis e inconcebíveis quanto os progenitores) não recebam o 1º Prémio.

Esqueci-me já de como o “xico esperto” do promotor do evento conseguiu resolver o assunto. Mas não tenho qualquer dúvida de que ele sentiria uma certa empatia (e quem sabe, talvez até sintonia…) para com a organização do concurso “Miss Universo”.

Agora quanto a mim, já que arranjaram o pretensioso título de “Miss Universo”, o mínimo que podem fazer é eleger alguém um pouco mais “único”. Porque a pobre rapariga é tão incaracterística como uma meia-de-leite servida em qualquer pastelaria manhosa da Trafaria.

Música de Fundo
Beauty ContestNo Doubt (link)


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Foto: IMDB


Cronenberg sempre foi um dos meus realizadores favoritos. É um tipo que sabe jogar com a carne, os medos inconscientes e o animal que espreita dentro de todos nós.

É por isso que “A Dangerous Method” faz parte da minha lista de filmes prioritários para os próximos tempos. Quanto mais não seja para confirmar a minha teoria sobre qual foi o tratamento prescrito para a histeria de Sabina Spielrein (no filme interpretada por Keira Knightley).

Enquanto o filme não se encontra disponível no meu circuito habitual, e por tal não o podendo comentar devidamente aqui; deixo-vos um repost de 28 de Abril de 2006. Que calculo será muito útil como base de entendimento para todos os que desejarem ver a película em questão.


Um Amigo Estranho
- Um post que fala das coisas simples da existência, das memórias perdidas no tempo, das salsichas de Viena e da psicopatologia da vida quotidiana -

Quando o conheci ele era apenas um miúdo borbulhento e complexado.

Ziggy (como gostava de ser chamado pela malta) era um tipo banal que admirava Aníbal (o cartaginês, não o Presidente), e projectava quando crescesse tornar-se general, e instaurar em todo o mundo uma ditadura benevolente e cuja filosofia principal se baseava no impulso sexual.

O “grupo do berlinde” constituído por mim, Eugen Bleuler e Sandor Ferenczi, tinha recebido a solene promessa de vir a constituir as futuras “tropas de choque” do regime. Mal podíamos esperar…

Infelizmente os seus projectos foram dificultados pelas inúmeras discussões com a mãe, que lhe dizia repetidamente – Se o que te seduz é a farda, podias ao menos ir para carteiro como o filho da senhora Shultz. Tem boas regalias, e até lhe dão um subsídio para os calções de cabedal…

Mas Scholomo era um frustrado. Uma das coisas que mais o apoquentava era o nome; que assim que pôde mudou de Scholomo Sigismund para Sigmund. O que conduziu a mais uma discussão desta vez com o pai, que o acusou de querer ter um nome mais catita que o dele (naquela altura em Viena, tipos chamados Jacob havia-os ao pontapé), tendo-lhe inclusivamente chamado histérico.

Mais tarde ao cursar a escola médica, Sigmund aproveitou este episódio para fazer um notável trabalho sobre a histeria, que deixou a maior parte dos catedráticos maravilhados, dando gritinhos agudos e arrepelando os cabelos.

Encontrei-o mais tarde em Bratislava, sempre insatisfeito com a sua profissão a que chamava – “Um poço de chatices onde só caem desequilibrados e doidos de toda a espécie…” – e confessou-me que estava farto de Viena. Recusando-se terminantemente a voltar ao consultório, onde a conta do gás já se encontrava por pagar há três meses.

Tentei chamá-lo à razão enumerando as grandes maravilhas de Viena, tal como o Cabaret da Madame Lola, os “pretzels” sempre quentinhos da padaria de Herr Reinman e as salsichas obviamente vienenses.

Mas o tipo alegou que as salsichas lhe faziam lembrar o pai, com quem se encontrava de relações cortadas e chateou-se igualmente comigo. Soube que mais tarde utilizou esta discussão para aperfeiçoar a sua teoria sobre a “inveja do pénis”; mas decidiu limitar a sua aplicação aos casos de pacientes femininos, por vergonha e medo que o acusassem de “efeminado”.

Foi por essa altura que deixou crescer a famosa barba “à Freud”, em formato de tigela para cereais.

Estudar os trabalhos de Leibniz ainda o deprimiu mais. E ao tentar mudar de leituras embrenhou-se na antiguidade clássica, constatando que sofria do mesmo complexo que Édipo; tendo logo aproveitado para publicar uma breve monografia sobre o assunto, a que muito originalmente chamou de “Complexo de Édipo”.

Felizmente ele era um tipo modesto, senão ainda acabaríamos por ter nos compêndios o famoso “Complexo de Freud”.

A última gota de fel na taça das nossas já fracas relações de amizade, foi ele ter utilizado as confidências que eu lhe fizera sobre a minha ligação amorosa com a contabilista da "Spanische Reitschule", publicando-as com o título de “A Interpretação dos Sonhos”; aproveitando para postular o novo modelo do inconsciente que considerava tanto a causa como o efeito da repressão.

E venham cá agora dizer-me que o tipo jogava com o baralho todo…

Insultei-o em pleno “Café Museum” na presença de Carl Jung e de Abrahams, que tinham aparecido para beber um Schnapps de mirtilo (era a especialidade da casa), acusando-o de ser um fingido e de ter um superego. Só parei de o insultar, porque aparentemente tudo o que eu dizia lhe ia servindo para edificar aquelas teorias estapafúrdias que os alienistas tanto gostam.

Apesar de ser a comemoração dos cento e cinquenta anos do seu nascimento, não posso deixar de afirmar que o tipo era um aldrabão, e que todas aquelas teorias eram baseadas nas conversas que tinha com os amigos e na sua própria vida sentimental. Pois como psicanalista era um nabo que mal conseguia hipnotizar uma galinha.

Deixo-vos com este artigo sobre o meu ex-amigo Sigmund Freud (esse ingrato) e vou-me preparar para a sessão de hidroterapia, que o enfermeiro Hans está farto de me abanar pelas fivelas do colete, pois tem o duche frio a correr já há um bom bocado…

Música de Fundo
Get Off The Couch” – Yellowcard

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


Foto by TheOldMan


Business as Usual ou
“O Fugitivo de Sagitário” (Subtítulo algo críptico que apenas fará sentido para um ou dois “iniciados”)

O regresso à “cela gradeada” é sempre uma ocasião memorável que me faz lembrar Camus ou da razão para alguém se tornar num simpático e metódico “serial killer”, que só escolha vítimas enfadonhas e de boçal índole.

Isto porque foi um dia calmo, dado que a minha “entidade empregadora” aproveitou não nos ter pago os subsídios (e mais uns trocos atrasados) para gozar ele próprio férias. Mas todos temos que viver; e eu compreendo que não haja nada mais triste que viver de aparências, especialmente quando se usa um Rolex falso.

Ora sendo eu um optimista quase tão indefectível quanto o Doutor Pangloss, ignorei o contratempo e segui em frente. Pelo que as minhas férias acabaram por se tornar algo entre divertido e alucinante, especialmente no que toca a divertimentos nocturnos; dos quais estou proibido de vos contar o mínimo pormenor. Pois tal relato poderia fazer perigar o bem-estar de alguns bons amigos (um deles tragicamente esposo de uma “kickboxer” não federada, mas com uns “Gastrocnemius” dignos do saudoso Joaquim Agostinho).

Embora rico em peripécias, este meu último período de férias terá que ficar arquivado junto a outros nebulosos segredos. Tais como o depoimento original da Irmã Lúcia ou a receita dos Pasteis de Belém.

E assim deixo-vos com a foto do único acidente aqui documentável, bem como algumas propostas de dísticos a afixar (conforme futuro projecto-lei) nas garrafas de bebidas com médio teor alcoólico. Estudo este resultante de uma minuciosa observação da natureza humana e do consumo de água tónica apenas com limão.

1º - AVISO – O consumo de álcool pode criar-lhe a ilusão de que é mais forte, mais inteligente, mais rápido/a e mais bonito/a que a maioria das pessoas.

2º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-lo/a crer que sabe cantar.

3º - AVISO – O consumo de álcool é um dos maiores responsáveis pelo facto de vestir essas incríveis calças vermelhas e saltar para a pista, aterrorizando a maioria das amigas da sua filha.

4º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-la interrogar-se sobre para onde terá ido a sua “lingerie”.

5º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazer com que ao acordar possa dar de caras com algo assustador.

6º - AVISO – O consumo de álcool poderá causar distúrbios no “continuum” espaço-tempo, impossibilitando-o/a de ter a percepção do que se terá passado durante várias horas.

7º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-lo acreditar ser o herdeiro dos misteriosos segredos do Kung-Fu, enquanto na verdade está a ser desancado por um porteiro borbulhento e com o crânio em forma de melão de Almeirim.

8º - AVISO – O consumo de álcool poderá provocar gravidez.

9º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-lo/a acreditar que consegue conversar com membros do sexo oposto sem os encher de “perdigotos”.

10º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-la/o acreditar que está a falar muito baixinho.

11º - AVISO – O consumo de álcool poderá convencê-lo/a que ex-namoradas/os ou ex-amantes aguardam ansiosamente que lhes telefone às quatro da madrugada.

12º - AVISO – O com sumo dálcol pudrá darlha iluzão que xcreve muinta bain.

Música de Fundo
I Dont Want to Go to ChelseaElvis Costello (link)


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