segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Foto: TheOldMan


A Igreja do Imaculado Blog
- A Confissão de TheOldMan – “Sou o Prof. Marcelo do Bairro Amarelo” –

Irmãos! Mal seria se este sermão não começasse com uma “mentira parcial” (ou “meia-verdade”, como gostam de lhe chamar os adeptos do “copo meio-cheio”), pois é do conhecimento geral que em todas as religiões que se utilize a confissão (inclusive a famosa “auto-crítica” na extinta UDP), quem a ela normalmente recorre aproveita para confessar pecadilhos insignificantes ou informações que lhe dá jeito divulgar; deixando no silêncio os verdadeiros pecados “hardcore”, e aquelas coisas que o poderiam envergonhar frente ás catequistas (e escuteiras) da vizinhança.

Como já decerto concluíram, eu vou fazer exactamente o mesmo. Pois a nossa religião quer manter-se a par com as outras. E se tanto os católicos como os judeus ou os muçulmanos têm direito à hipocrisia, nós não somos menos que ninguém e reclamamos igualmente o direito de usufruir dessa benesse inerente a todas as religiões.

Mas isto é um sermão em novo formato, por isso não me posso deixar arrastar para as habituais divagações; embora aparentemente haja clientela para tudo.

Pois. Nos últimos tempos após ter abandonado os pequenos-almoços na cafetaria da D. Odete (Madame Salmonela para os amigos), e ter atravessado a rua em direcção à concorrência, deram-se acontecimentos prodigiosos.

Além de me terem oferecido uma assinatura gratuita (com validade de seis meses) do Jornal de Notícias; a clientela que no outro tugúrio era constituída por decrépitas pensionistas e um ou outro bêbado matinal. É no local onde agora desjejuo (valha-me Blog! Nunca pensei aqui escrever “desjejuo) maioritariamente composta por pessoas que se dirigem aos empregos (os que os conseguem ainda conservar), matinais apreciadores de moscatel e um ou outro desempregado adepto do “Sistema D”.

A presença deste cadinho de almas amalgamadas a “trouxe-mouxe”, em conjunção com a já citada oferta do JN, fundiu-se numa congregação de fiéis a BLOG (embora a maior parte deles só utilize a Net para ver pornografia ou para uma rápida “saltada” ao Facebook) que bebe os ensinamentos DELE, como se fossem o também já anteriormente citado moscatel.

Mas como todo o bom pregador, a determinada altura deixei-me tentar pelo lado negro (é claro que os que me conhecem, já estão neste momento a desfiar piadas sobre isto como se fossem as contas de um rosário) e sucumbi à tentação de utilizar aquelas almas sedentas da Palavra, para difundir ideias que contrariam a urbanidade, o bom-tom e a concórdia (que confesso, já agora que estamos em maré, não serem assim tão importantes para mim).

Ainda há poucos dias, encontrava-me eu a meio de uma divertida e inspirada homilia, sobre os motivos que levam alguém a interessar-se pela vida íntima de José Castelo Branco; quando na TV apareceu a característica carantonha do “Mussolini dos Carnavais”. E se começou a fazer ouvir o habitual chorrilho de imbecilidades, característico de uma mente perturbada não só pelo exercício continuado do poder despótico, como pelo consumo desregrado do álcool de cana.

Não pensem que isso despertou em mim ira ou maledicência. Até porque na nossa FÉ, fomos abençoados com uma tolerância desmedida para com os pobres espírito (que como sabeis, ganharão qualquer coisa não se sabe o quê, mas só lá mais para o fim…), os boçais, os incultos e aqueles que por infelicidade tenham contraído sífilis. E assim vejam destruídas as suas faculdades cognitivas; a ponto de por piedade os seus semelhantes (termo que como já repararam, neste caso pode ser insultuoso) terem imenso pejo em os desancar como na verdade ás vezes merecem.

Pedi ao Irmão David que mudasse o canal da TV para a SIC Mulher. Pois acho a Oprah muito mais divertida do que o referido emplastro, e a sua voz não me provoca a mesma sensação de um garfo de aço inox a raspar uma placa de vidro temperado. Mas o demo está em todo o lado para nos tentar. E que local seria melhor para isso do que o Bairro Amarelo?

A um canto o “calhordas” que já ia no sétimo “Favaíto”, levantou do Record os olhos míopes que brilhavam atrás de duas verdadeiras vigias de batíscafo, e inquiriu num tom insidioso que nunca alguém lhe ouvira (nessa altura eu deveria ter suspeitado que o demo se apoderara da sua mente calcinada por uma rigorosa dieta de moscatel e jornais desportivos) – E a Madeira? Afinal o que é que você fazia para resolver o problema da Madeira?

Logo no café se instalou um desconfortável silêncio, apenas interrompido pelos esporádicos estalidos provocados pelos mosquitos e melgas presentes, que desesperadamente corriam a suicidar-se no electrocutor suspenso no meio da sala.

Bem… – arenguei eu à congregação, adoptando o dialecto local imbuído de pitoresco coloquialismo – Vocês sabem o que o Daniel de Oliveira disse há uns dias sobre o possível resultado das Eleições Regionais… Aquela cena de os madeirenses ao porem novamente o tipo no poleiro, estarem a afirmar que aprovam todas aquelas trafulhices e que são cúmplices do gajo… – Um unânime e afirmativo aceno percorreu a massa de rostos sérios e expectantes – Pois eu acho que se o tipo ganhar as eleições, devemos alugar a Madeira aos Chineses!

Após esta bombástica declaração dediquei toda a minha atenção à bica dupla, enquanto se instalava um aceso debate cujo gradual vozear ultrapassava já as portas do estabelecimento; fazendo com que algumas curiosas (coscuvilheiras” não soaria tão bem, embora se aproximasse mais da verdade) vizinhas viessem alternadamente à janela. O que por momentos me fez lembrar aquele divertido jogo, em que se bate com um martelo em roedores que alternadamente saem do tampo de uma mesa.

- Hrrãmmm! – Pigarreei eu tentando captar a atenção dos fiéis, que mercê de uma prodigiosa imaginação viam já o “ajardinado” Funchal pejado de restaurantes chineses e lojas de “inutilidades”. – Escutem! Desde que ocupámos Macau em meados do séc. XVI que temos uma dívida de honra para com o “Celeste Império”. Dívida esta que agora temos possibilidade de saldar, regressando aos áureos dias do "Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português" que como todos vocês sabem (esta foi descaradamente para “ganhar” a audiência) só foi assinado 1887; após uma já longa e abusiva ocupação, por parte dos nossos mais manhosos mercadores.

Por esta altura quase todos eles escutavam de olhos luminosos (quem sabe, se do Favaíto…), e “abanos” oscilando como girassóis sob a brisa primaveril das minhas palavras (esta é para ti, Inês Pedrosa).

Continuei – O que proponho, é a cedência temporária do arquipélago da Madeira (com todo o recheio e electrodomésticos) aí por cerca de 400 anos apenas. Passando pois a chamar-se transitoriamente "Região Administrativa Especial da Madeira, da República Popular da China" (RAEM). Tudo isto pela módica quantia de €370,36 mil milhões; que a acreditar nos últimos relatórios é mais ou menos a soma da nossa dívida externa.

- Os Madeirenses que quisessem continuar em Território Nacional (embora muitos deles achem que o local onde actualmente vivem não é Território Nacional, mas sim uma espécie de propriedade privada cercada de água por todos os lados), seriam bem recebidos no Continente onde após “boa cobrança” do cheque chinês, talvez conseguissem arranjar emprego e habitação decentes; integrados no inevitável “boom económico” resultante do aluguer de uma pequena parcela do nosso território, que parece apenas produzir chatices e despesas mal justificadas.

- Os nossos amigos chineses, ficariam por seu lado na posse de um precioso “estaleiro de obra”, onde poderiam guardar os contentores destinados às inúmeras obras que têm na República Popular de Angola. Podendo até aos fins-de-semana convidar o simpático Presidente José Eduardo dos Santos a beber uma “poncha” com eles, e tentar “esfolá-lo” no Casino cuja exploração teríamos cedido ao nosso grande amigo Stanley Ho.

- Tudo isto serviria para acabar com os nossos problemas financeiros mais imediatos; e quem sabe até sair do Euro… O que devido à nossa posição (esquerda baixa) em relação ao resto da Europa, nos permitiria fechar facilmente as fronteiras e começar a cobrar entrada a todos os turistas que quisessem variar da arruinada Grécia, da caótica Espanha e da impotente (é mais o presidente) Itália. Elevando este “jardim (este e não o outro) à beira mar plantado” à glória de outras eras, realizando finalmente o destino do Império, do qual tanto falava Pessoa. E agora desculpem-me, porque tenho que ir trabalhar um bocado…

Com estrelas cintilando no olhar, a irmã da Tininha contemplou-me como se eu fosse um “double Big Mac” com queijo extra (infelizmente a antiga “Miss Traseiro Dourado” sucumbiu aos prazeres terrenos da “junk food”, matando cruelmente uma das minhas mais acarinhadas fantasias) e proferiu em voz maviosa. – Que bonito! Até parece o “Professor Marcelo do Bairro Amarelo”…

Foi nesse momento que o Demo me tentou; e em vez de negar com veemência, fiquei calado…

Sinto que a Fé de Blog se encontra ameaçada, pois a partir de agora dificilmente me levarão a sério por aquelas paragens...

Música de Fundo
Weapon of ChoiceFatboy Slim (link)


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