segunda-feira, 30 de abril de 2012



Outdoors de Honestidade Política I
(Série de Ficção)



quarta-feira, 18 de abril de 2012


A ratoeira não persegue o rato, mas este raramente lhe escapa.

Foto: Net
Acabamento: Me



A Última (ou não…) Conversão do “Flakhelfer” Joseph Alois
- Ou das muitas coisas que são mais fáceis de apanhar que um deficiente motor (vulgo coxo) … -

As águas de um azul-turquesa que embatiam mansamente na muralha, acompanhavam ritmicamente a constante brisa que transportando o aroma das “chichachirritas” a fritar, o misturava com o cheiro acre a fumo de tabaco, que pairava sobre a mesa qual nuvem premonitória.

 O ancião pigarreou obviamente para ganhar tempo. Iniciando a sua narrativa numa voz que apesar de sumida e arrastada, ecoava na pequena praça estranhamente deserta.

- Vou confessar-lhe uma coisa… – rouquejou um pouco arfante – já o teria convidado mais cedo para aparecer por cá, se a Nikita não me tivesse dito tanto mal do vosso clube. Mas agora que nos conhecemos, posso confiar-lhe que tudo isto não passou de uma estúpida embirração.

Lembro-me bem que a bronca rebentou exactamente a 1 de Janeiro, no ano em que o Paul Anka lançou “Lonely Boy” – Era uma piroseira mas fazia um enorme êxito nos bailes e as gajas adoravam… – Bem. Adiante!

Sempre fui um patriota. E apesar de o Fulgencio (o nosso patrão) não ser tipo de quem se troçasse impunemente; o certo é que comecei a achar que ele dava demasiada confiança aos turistas que paravam aqui na tasca; e que o negócio não dava o lucro que podia dar.

A chatice toda é que eu ganhava à comissão e isso estava a afectar-me. Pois andava sempre sem cheta e a Mirita já tinha ameaçado pôr-me as malas no patamar e um molho de lenha à cabeça. Lá as malas ainda vá, que a tipa tinha mau dormir e sofria de flatulências nocturnas; agora a lenha é que não podia ser. Pois eu tinha uma reputação a manter e quando se soubesse havia de ser o alvo de chacota de toda a clientela.

Foi por essa altura que tive a melhor ideia da minha carreira de empregado de mesa. Chamei de parte o Ernesto que era o nosso lavador de pratos e propus-lhe sociedade se me ajudasse a correr com o idiota do Fulgencio. Se na altura eu soubesse no que isto ia dar, nunca me teria metido em tal sarilho.

Mas a impaciência começava a consumir-me, pois além da perspectiva de poder vir a ostentar uma armação digna de um tricerátopo, custava-me ver os turistas todos os dias a encharcar em tabasco os “moros & cristianos” feitos com tanto amor, e (ainda tremo só de me lembrar) a contaminar com Coca-Cola o maravilhoso rum de sete anos.

A coisa ao princípio nem correu muito mal. Pois o plano que era assustar o patrão de modo a que este vendesse a tasca por tuta-e-meia, e arrancasse para a parvalheira onde tinha nascido, até se desenrolou a contento.

Eu e o Ernesto que tínhamos comprado dois conjuntos de barbas postiças e boina de pára-quedista, acendemos uns charutos para compor o disfarce e entrámos pela tasca de catana em punho a gritar que tinha havido um golpe de estado e que todos os burgueses que ganhassem mais que o ordenado mínimo iriam ser executados.

O tipo apanhou um cagaço tão grande que desapareceu de circulação. Deixando a um primo ordens para vender o negócio o mais depressa possível. Soubemos mais tarde que afinal ele é que se safou bem; pois enquanto estávamos por aqui a tentar fazer pela vida, o gajo com o dinheiro da venda foi esconder-se na Ilha da Madeira onde deu um curso intensivo (dizem que o Alberto João foi quem teve melhores notas) sobre fuga ao fisco e intriga política. Acabando por ir passar uma temporada ao Estoril, antes de se fixar definitivamente em Espanha.

Foram os nossos melhores anos. Corremos com os labregos dos turistas americanos e passámos a servir uma selecta clientela, que tendo gostos mais refinados, muito melhor conseguiriam apreciar os nossos petiscos.

Infelizmente acabámos por nos meter em sarilhos com o gajo do bar americano, que não tendo espaço para armazenar o vasilhame, queria que lhe guardássemos as grades das cervejas no nosso armazém.

Só que nós tínhamos um arranjinho com a Nikita do bar de alterne aqui ao lado, que consistia em deixar as raparigas dela utilizarem o armazém quando recebiam visitas (eram muito populares). E o tipo quando soube (ele e a Nikita não se gramavam nem um bocadinho) foi o cabo dos trabalhos; pois queria mandar-me dois Porto-riquenhos para me partirem as rótulas com um cabo de picareta. E só me safei, mas mesmo à recta, quando lhe garanti que não tinha nada com a fulana do alterne e lhe mostrei o armazém cheio de caixas de rum e grades de hortaliça.

A partir daí foi sempre a descer.

A Nikita nunca mais veio às boas (Sim, que a Mirita tinha-se pirado com o nosso “Fidelito” e nunca mais os vi) embora ainda me falasse. E quanto ao John F. do Bar Americano… Uma bela noite apanhou o pobre Ernesto (já com os copos, coitado) a fazer uma mijinha contra a Muralha Velha, e espetou-lhe à traição um monte de balázios no “toutiço”, sem que o pudessem incriminar por falta de testemunhas.

Nunca mais esta tasca foi a mesma sem o pobre Ernesto. Olhe, fizemos-lhe uma pintura de homenagem naquela parede. Está mesmo catita, com a boina as três pancadas e charuto na boca…

- Ó senhor Castro – disse o segundo ancião que já estava pelos cabelos por causa dos perdigotos que o outro lhe enviava à mistura com o monólogo – A sua sorte é que o inferno foi uma invenção das gerências anteriores para manter o pessoal na linha. Senão era lá que iria passar a eternidade a chamuscar esse traseiro hipócrita e escanzelado.

Música de Fundo

“Sixteen Saltines” – Jack White



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