terça-feira, 5 de junho de 2012



                                    



Foto: Net


O Post dos Nove Anos

Naquele dia soube que tinha chegado a meio. A única analogia que considerava mais aproximada era a daqueles dias em que costumava pegar no seu bólide feito de tábuas e com rodas de rolamento de esferas para subir o monte.

O monte tinha uma estrada solitária da base ao topo, como se tivesse sido cuidadosamente penteada pela relva com o risco ao meio.

A recordação que fora ele, arrastava o veículo até ao topo espantosamente sem tropeçar nos atacadores frequentemente mal apertados; puxando-o pela corda que servia para mudar de direcção.

Subia sempre o monte a pensar no prazer da descida. Uma ideia motivadora que o impelia incansável. Uma subida… Correspondia sempre a uma descida. Àquela sibilante vertigem que dava uma sensação de imponderabilidade. Sendo, claro está, “imponderabilidade” apenas mais um vocábulo que ainda nada lhe dizia.

Apesar de durante muito tempo não ter pensado nesses dias despreocupados, a comparação ocorria-lhe agora pois outra não havia que mais se adequasse.

Ao longo dos anos deixara o fio dessas recordações esticar-se, tornando-se mais ténue à medida que com outros ia interagindo e incorporando-se nas suas vidas. Do mesmo modo que estes o tinham feito em relação a ele.

Algumas vezes se interrogara sobre o sentido de tudo aquilo. Mas não muitas. Tal como no tempo do carro com rodas de rolamento, sentia a existência de um qualquer mecanismo invisível que mantinha o equilíbrio de todas as coisas por detrás da realidade. Os bons e os maus momentos, alternavam-se como os dias e as noites, as subidas e as descidas, a dor e o prazer.

Mas naquele dia sentiu que chegara a meio.

Por momentos voltou ao topo do monte (que na sua perspectiva mais madura era apenas uma ladeira um pouco mais inclinada) com o vento a segredar-lhe nos ouvidos palavras de um mar distante.

Sempre soubera de algum modo que todas as ladeiras mereciam ser subidas. E era isso que mais uma vez via. Não o que lhe custara a subida ou o tempo dispendido. Mas o caminho de volta, que percorreria agora de um modo veloz com o qual o tempo pouco teria a ver. Nem sequer a distância ou o espaço.

Era uma descida algo intemporal e difícil de explicar. Uma vez que, embora sentisse que a estava agora a iniciar, na realidade já a concluíra. E olhando para baixo via-se a si próprio olhando para cima com um sorriso nos lábios. Como que à espera de si próprio.

Para se completar.


Música de Fundo


The Last Good Day of the Year - Cousteau




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