sábado, 17 de maio de 2014




Maldito Sois Vós Ente As Mulheres
- O meu agradecimento ao Madeira da casa D'Oliveiras "Malvasia Reserva Vintage de 1983", sem o qual este primeiro post sobre a aprendizagem da Gerontopsicologia nunca seria possível  (pela falta de coragem e tal...)

Se Deus alguma vez tivesse a ousadia de existir seria como Blog, esse falso e farsante semi-deus que se acoita nas franjas do meu cérebro reptiliano e me dá desculpas para sempre fazer aquilo que me apetece (embora nem sempre isso seja o que é melhor para mim).

Mais uma vez decidi queimar as minhas pontes.

O melhor de queimar pontes, além do facto de não se poder voltar atrás, é que podemos sobre elas amontoar os nossos inimigos e vê-los ascender aos céus sob a forma de vapor e belas nuvens em formato de ovelha ou dose individual de "algodão doce".

Mas os meus inimigos não me preocupam. Uma vez que são tão escassos como os meus verdadeiros amigos (vantagem de não andar pela vida a tentar cultivar uns ou outros).

Após um período em andei tanto de bicicleta que a pele dos meus testículos atingiu a consistência da encadernação da edição dos Lusíadas em exposição na Torre do Tombo, decidi fazer agulha (e mais uma vez tal como sempre exijo a mim próprio) em direcção ao futuro. Que é a única direcção em que um viajante minimamente decente deve viajar, sob pena de parecer ligeiramente efeminado ou mesmo com tendências declaradamente rabiosques...

Poderei agora (que me é dado o benefício da provecta idade, e a evidência de ser visto perseguindo rapariguinhas de quarenta anos) admitir que a minha pobre avó, no princípio dos anos setenta foi assolada por horrendas dúvidas sobre a minha masculinidade; a pontos de me pagar bilhetes para o Odeon. Onde passava o "Decameron", "Os pecados Inconfessáveis de Uma Senhora Bem" e "Empresta-me o teu Motorista".

Tudo grandes touradas dos anos setenta, em que se viam mais pelos do peito e mamilos arrepiados, do que propriamente algum sexo que se aproveitasse. Em suma... Cenas tristes.

Mas essa perene preocupação da velha senhora (que para tal teve que infringir uma dezena de regras e regulamentos internos sobre a sua pessoa) que era apenas motivada pela minha teimosia em usar lenço ao pescoço; acabou por marcar fundo em mim a necessidade de passar aos outros uma mensagem concisa e directa. Quanto mais não seja para evitar o assédio de personagens disfarçados de encenador teatral ou especialista em recolha etnográfica.

Mas chega da minha avó que foi a mulher que mais amei. Embora de um modo assexuado e infantil.

Cavalgo agora (após providências tomadas nos locais certos) o "Dragão das Trezentas e Vinte Seis Alvoradas", que são tantas quantas aquelas que vou ter que presenciar na minha quotidiana viagem até Setúbal; num comboio que convenhamos, até não é tão desconfortável assim.

É incrível que alguém que tão bem sabe quem é, consiga anular-se durante tanto tempo em relação à paisagem. E se querem que vos diga, não faço a mínima ideia pela qual a puta da paisagem é tão importante. O facto é que anula tudo o resto.

Quer seja a miúda do politécnico que vai a meu lado com aquela saia curtíssima, o tipo que se senta à minha frente e cheira como se já estivesse morto há uma semana ou a senhora que me deita olhares periódicos; mas que por alguma razão só contribui para o desconforto que impera neste meu desenquadramento ambulatório.

E tudo isto é apenas um miserável comboio cheio de gente avulsa.

Talvez eu me esteja a transformar num obsessivo-compulsivo. Mas o mais certo é necessitar apenas de variar de lote nas "soluções salinas" (eu sei que isto pode parecer incompreensível; mas para mim não é, e faz todo o sentido. Pois já aconteceu várias vezes no passado).

Estou pois montado no tal dragão. E após meia hora de leitura do "The Hacker Crackdown" de Bruce Sterling no meu "tablet" comprado em saldo, ponho os auscultadores e mergulho na música escondido atrás dos "Mirror Shades of Deceit " que ainda conservo (nunca me livro das más recordações, pois ensinam-me a não cair noutra).

A paisagem é uma fita verde por demais descrita por melhores escrevinhadores que eu. Mas isso não a impede de ser magnífica nas suas quintas, vinhas e pastos onde cavalos de aspecto famélico trotam sem sentido. Numa analogia sobre tudo o que a isso se quiser aplicar. Uma natural polivalência daquilo que não tem outro remédio senão existir e estar disponível para uso em imagens literárias.

É uma viagem com gente que vai em direcção às coisas que os devoram. Com a única e triste consolação de não ser um deles. O que não consola minimamente alguém que se gaba de estar acordado e vivo.

E podem crer que existem alturas em que não há nada mais irritante que estar acordado e vivo. É o mesmo que assistir a um massacre sem nada poder ou mesmo querer fazer. E dói. "Dói comó caralho". É das poucas verdades que alguma vez me permitirei dizer-vos.

O destino a que esta vez me votei voluntariamente, delineia-se mesmo antes da gare. Algo como uma fábrica de processamento de carnes vivas à semelhança do "Soylent Green", mas muito menos agradável. Pois ali ninguém tem sequer coragem de prometer um futuro com rações alimentares e ar respirável.

É apenas uma central de processamento, em que alguns resistentes (que eu sei que os há, pois conheci alguns) tentam livrar aqueles que dormem dos espigões da tremonha que os transformará no alimento dos outros.

Eu não quero saber se sou apenas mais um bife, ou a pedra que destruirá o mecanismo. Pois na verdade não quero mesmo saber. Nunca quis (e é isso o que sempre me safou).

Sou apenas um tijolo dourado que flutua no vazio, mas cuja posição é inalterável. Algo que não se tenta deslocar sem que tal altere o equilíbrio de tudo o que o rodeia (dizer universo seria um pouco exagerado). E só não quer que o chateiem demasiado.

Na sala 223 acontecem coisas divertidas.

A primeira é que tencionava acampar num canto e ficar a vigiar pacientemente a saída até que o tempo se esgotasse. Mas o acaso é um gajo do caraças. Constatei pois, que eu era o único macho entre 29 espécimes.

Como seria de esperar num "case study" deste tipo, fui arrebanhado e colocado sob a "protecção" das fêmeas alfa que logo aproveitaram para manifestar a sua condição dominante. Não que eu me importe de fazer um jeito ocasional em fetiches de domínio; mas isto vai dificultar-me um pouco a vida na medida em que sou exibido como troféu, sem qualquer das vantagens daí inerentes.

Antes que me visse transformado numa espécie de "Teddy Bear", e desse por elas a fazerem-me trancinhas; expliquei-lhes a filosofia básica do "tu mordes-me e eu, mordo-te". E confesso que num dos casos acabei por ter que aplicar algumas (mais sonoras que eficientes) palmadas. O que pareceu ser menos dissuasivo que agradável para a perpretadora, que acabou por exigir "beijinhos reparatórios" no local afectado. O que digamos em abono da verdade me coloca um pouco "à nora" em relação a este método dissuasor.

 Há na realidade um grande problema no meio disto tudo.

Que é, como passar de membro do "buffet" a comensal sem grande alarido. O que julgo ser assaz difícil senão impossível. Visto que devido ao meu conhecimento relativamente enciclopédico, sou encarado como uma espécie de precioso electrodoméstico (uma Bimby ou um Vaporetto de qualidades inigualáveis); condição atingida talvez através de uma praga bem urdida ou uma boneca Voudu de boa qualidade.

O mais certo é que vou ter que me preparar para ano e meio de solidão. E infelizmente, não há Garcia Marquez que me valha...

Música de fundo

Muse - Uprising



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