sexta-feira, 27 de junho de 2014




O poeta é um conquistador de perna marota e olho manhoso. Um pedaço de alguém que espreita por baixo da falsa franja a coberto do capuz.

O poeta é algo subversivo, pois auto negativo e auto depreciatório. Dêem-me um poeta gabarola e devolvê-lo-hei à procedência com todos os selos necessários. Mas esta última declaração denota uma imensa falta de progresso. Uma vez que os selos são apenas ícones de uma era quase morta.

Como se o tempo alguma vez morresse.

O tempo alimenta-se dos que o ocupam. Como um táxi conduzido por um paquistanês ganancioso. Uma armadilha homeostática. O tempo... Esse sacaninha.

O poeta é um tipo com a mania das arrumações, que pinta interminavelmente a cor das palavras... e as afeiçoa. Como qualquer carpinteiro afeiçoa um pedaço de madeira. Sem qualquer afecto. Apenas colocado de feição. Com tempo.

Outro efeito secundário de alguém afectado de poesia, é sofrer de relatividade pontual. Algo que nos faz encarar um lote de dados e declarar "É isto que sempre quis e não sei como encontrei". É por isso que ser um poeta é algo estúpido e talvez um pouco embaraçoso.

Em Filologia diz-se sempre aos alunos: Façam o que fizerem afastem-se da poesia, pois a vossa carreira facilmente chegará ao fim. Será como pilotar o "Holandês Voador" por sobre os tectos das maiores bibliotecas da Europa; passar por túneis rente às caixas fortes dos bancos ou falhar os maiores amores pelo tempo de um sorriso que não é desenhado.

Por tudo isto e mais ainda, afastai-vos da poesia, miúdos. Mesmo os de coração forte sentir-se-ão diariamente retalhados, como se as vossas próprias mãos rasgassem a carne. Numa louca e robótica impaciência, que nunca vos conduzirá àquilo que tantos continuam a teimar chamar de poesia.

Musica de Fundo




Queen - Innuendo


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