sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Vanus

É já o terceiro ano em que escrevo este texto de um modo diferente, e que ao lê-lo me parece sempre o mesmo.

Não que eu me repita nas mesmas palavras; mas porque o que aqui escrevo sobre ti não pode ser dito de outro modo. E não é tarefa fácil escrever publicamente para alguém, sem incorrer na vulgaridade da bajulação.

Já faz dois anos e meio que este blog te pertence tanto como a mim.

Todos os leitores te conhecem como Vanus de Blog. Pelos teus habituais comentários e pelo incansável esforço em prol da Verdadeira Fé (todas as Fés são verdadeiras); que te transformaram numa sacerdotisa do Círculo Interior (ou Segundo Anel como diziam os benfiquistas).

Outros te conhecem também por ti própria. Devido ao teu blog, e à sensibilidade e espírito poético que transparece nos teus textos (mesmo naqueles em que escaqueiras a faiança).

Este é pois o verdadeiro post de “fim de ano”, e dedico-to a ti Vanus de Blog… Maliciosa ovelha de olhinhos marotos e lã frisada… Parabéns!

Música de Fundo
"Certainty of Chance" - The Divine Comedy

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Os Últimos dias de 2006
- Não sendo um balanço ou uma mensagem “Socrática” (tipo, “estamos muito contentes connosco apesar de só termos feito merda”); este post é uma divagação ociosa no intervalo da “vaga de trabalho” característica dos finais de ano –

Não venho desculpar-me por não ter escrito no Natal, nem nada que se pareça; porque será óbvia para a maioria das pessoas a razão desse absentismo.

Também isto não quer dizer que quem se entreteve a escrever, tenha falta de vida própria, amigos, conhecidos, ou mesmo um cão… Nada disso! Quero apenas dizer que o Natal é uma época tão cheia em diversos aspectos, que uma parte do ano deveria ser passada a recuperar dessa data.

Isto de fazer balanços anuais será muito bom para quem vive a vida pelas regras do POC, ou tenha um tachito na política. Só para esses acaba algo mais do que uma mera folha de calendário; pois tudo continuará como dantes. Excepto talvez o facto de ainda não ter conseguido encontrar um (calendário) dos escuteiros (outra tradição de Blog, em homenagem a todas as “guias” do passado).

Nunca me daria ao trabalho de escrever sobre os últimos dias de 2006, se tivesse tempo para idealizar um bom post. Mas a construção civil é um negócio tão volátil como benzina exposta ao sol; e é no final do ano que todos os organismos estatais e empresas dependentes de dotações orçamentais, necessitam de gastar o resto do “carcanhol”. Sendo a espinhosa missão deste vosso cronista, ajudá-los nessa demanda da forma mais discreta e gratificante (como se tivessem sido untados com KY®).

É assim que este post se poderá considerar apenas um interlúdio. Tal como um pianista de bar vai tocando apenas com a mão direita, enquanto leva o copo aos lábios com a esquerda (imagem fixe, não é?), eu estou aqui apenas pela metade.

Possivelmente este será o último post do ano. Que me desculpem os amigos, conhecidos, leitores e leituras habituais. Mas a coisa é mesmo assim.

Música de Fundo
"It's clichéd to be cynical at Christmas" - Half Man Half Biscuit
(Thanks, Beckas!)


sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O Natal de Blog (2)
- Uma fábula da infância de Blog, que nos explica o seu apreço por aves em geral, e por frango assado em particular… -

Era um daqueles fins de tarde meio nervosos que antecedem o Natal. Este então era particularmente nervoso porque corria o ano de 1962; e em Lisboa até o Pai Natal tinha dificuldade em circular vestido de vermelho, sem ser incomodado por uns senhores de gabardina (exibicionistas, sem dúvida).

Blog estava em casa. Alias, aquele que mais tarde seria Blog (que passaremos a designar aqui como AQMTSB, por razões de ordem prática); porque esse título pertencia ao seu avô (ser Blog salta sempre uma geração, para se poder manter continuamente um saudável abismo entre duas delas) que estava no saguão a tentar apertar um dos arames do estendal.

Vamos começar então do princípio, antes que se instale aqui uma confusão medonha com designações e explicações.

AQMTSB estava a ouvir a transmissão dos Parodiantes de Lisboa que habitualmente antecedia as notícias da “hora do jantar”; e esperava pelo dito trazido pela mão de seu pai, que se deslocara à Praça do Chile em busca de frango assado. Nessa altura, os frangos assados no espeto giratório em forno eléctrico eram um exclusivo de uma churrasqueira ali situada, perto do Instituto de Assistência Nacional à Tuberculose.

Eram tempos conturbados. E embora AQMTSB ignorasse um monte de coisas nessa altura, tinha porém uma certeza… Adorava frango assado.

A avó veio da cozinha onde estava ocupada a vigiar o arroz de manteiga para que este não se agarrasse ao tacho, e olhando de esguelha para o relógio da Reguladora, informou que já se estava a fazer tarde, sendo hora e meia mais que suficiente para ir a Sacavém e vir; quanto mais à Praça do Chile.

Do corredor ouviu-se a concordância do peru, que se encontrava manietado dentro de uma alcofa e sem esperança de resgate; à semelhança de qualquer refém na sua triste condição de convidado involuntário para daí a alguns dias. – Se calhar parou na tasca do Barata… - disse o avô entrando a sacudir um dedo que entalara no alicate.

Mas o pai de Blog (perdão, de AQMTSB) não era grande apreciador de tascas, pelo que algo de pouco usual se passava; embora fosse ainda cedo demais para se tecerem conjecturas.

A mãe que se encontrava à janela a perscrutar preocupada a rua lá em baixo. Informou que tinham passado vários GNR’s a cavalo e de sabre desembainhado, em direcção ao Campo das Cebolas. Infelizmente não se podia contar com a rádio para dar qualquer tipo de informação útil; pois nessa altura todos os estúdios tinham um senhor de fato que passava o tempo a fumar cigarros, e que ninguém sabia o que fazia ali. Embora desconfiassem…

Passada mais uma hora, já a avó tinha apagado o lume e silenciosamente limpo algumas lágrimas ao pano da loiça, quando se ouviram duas pancadas discretas repercutirem a porta da escada.

Aberta esta, entrou o pai de AQMTSB um pouco ofegante e empunhando um embrulho de aspecto desalinhado, como se este tivesse sido transportado em condições tormentosas. A família suspirou colectivamente de alívio, e sentaram-se à mesa após terem cautelosamente fechado a porta com duas voltas à chave; não fosse o diabo tecê-las ou gostar de frango assado.

Foi a meio da refeição que ELE, a contas com um minúsculo pacote de batata frita meio esmigalhada, ouviu finalmente o relato da acidentada viagem que mais tarde ficaria conhecida em família como “O Incidente do Frango Assado”.

Seu pai recém-saído do eléctrico no Terreiro do Paço, caminhava placidamente em direcção a casa segurando o embrulho do frango pelo cordel, quando foi quase submergido por algumas dezenas de transeuntes avulsos, que correndo em sentido contrário gritavam – Eles vêm aí!

Decerto que não se tratava dos Beatles – Pensou ele - para mais a faixa de admiradores do referido grupo, era composta por flausinas e tipos de cabelo cortado “à tigela” e calças justas no traseiro. Raramente por representantes do “lumpemproletariat”, a maioria deles usando boné de fazenda.

Com a cautela herdada dos seus maiores, refugiou-se num vão de escada, onde alguns já se encontravam escondidos debaixo de uma banca de “bate-sola” vazia, e aguardou que o destino o encontrasse. Não sem antes acondicionar o embrulho dentro do casaco, para que não arrefecesse (estava-se como já disse em Dezembro).

Sem se fazer esperar muito, entrou pouco depois aquilo a que na altura se chamava “um polícia de choque”, que de imediato começou a distribuir equitativamente bordoadas pelos tipos que se acoitavam debaixo da bancada, e que após ter acabado a sua tarefa acabou por dar com ele escondido entre a porta aberta e a parede.

Reza a crónica familiar (revista e aumentada em todos os Natais) que ele empunhou heroicamente o embrulho como se fosse um estandarte: Mas o que contou nessa noite ao jantar, foi ter-se virado para o chui e mostrando o que transportava, ter dito com voz sumida que não fazia ideia do que se passava; e que só queria chegar depressa a casa antes que a ave arrefecesse, pois tratava-se do aniversário de AQMTSB.

Talvez inspirado por Nossa Senhora (obrigado Paulo Portas) - pois todos os cívicos se diziam católicos - mirou-o várias vezes e ao embrulho que cheirava divinalmente; e possivelmente recordando-se da foto de algum filho que guardaria debaixo do colete almofadado, mandou-o em paz com uma expressão severa, como se fosse a personificação do senhor Presidente do Concelho.

Chegando a esta parte da narrativa, todos à mesa sorriram aliviados. Enquanto AQMTSB mastigava ruidosamente as batatas fritas com um olhar maravilhado, e pensava que uma humilde ave assada no espeto (Churrasqueira da Praça do Chile) salvara assim o seu pai de levar uma traulitada no crânio, e ir para o Torel na “ramona” com os outros (poucos) manifestantes.

Desde essa altura passou a nutrir um considerável apreço por pombos, pitas e obviamente frango assado. Tendo sido este último elevado à categoria de prato tradicional na noite do seu aniversário; tal como mais uma vez aconteceu no passado dia 20.

Feliz Natal!

Música de Fundo
I’ll Be Home For Christmas” – Frank Sinatra

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

O Natal de Blog (1)
- Uma mini-série dedicada aos nossos fiéis, sobre a festividade da concorrência e do seu significado para aqueles que (dizem que) nele acreditam… -

Irmãos fiéis de Blog! Para vos dar a entender (Pretensioso… Hein?) o verdadeiro significado do Natal tive que recorrer à colaboração de praticantes de outros credos que não o nosso.

Inicialmente tive a ideia de perguntar ao Apóstolo o que pensava do Natal, mas não seria justo. Apesar de ser um Santo Homem que nunca espancou uma velhinha embirrante, nem cobiçou o carrinho do próximo num supermercado, é da mesma Fé que nós; e pareceria muito católico da minha parte “queimar” desse modo um dos nossos melhores teólogos.

Assim, e como também não tinha nenhum eremita aqui perto (os eremitas são extremamente raros na cidade de Almada; coisa que nunca ninguém me conseguiu explicar bem), recorri ao concurso de indivíduos conhecidos pelo seu espírito de missão, para me elucidarem sobre esse mistério que é a festa de aniversário de Cristo (aquele “goy” que nos filmes aparece sempre rodeado de judeus).

O primeiro a que recorri foi o Ilídio (nome fictício). Bastonário da Ordem dos Arrumadores, que fui encontrar no seu local de trabalho (deve ser um dos poucos bastonários que faz alguma coisa) utilizando o bastão para ajudar na manobra, uma simpática mãe de família que tentava arrumar o Audi.

Recusei polidamente o charro que me quis passar (eram nove da manhã), e interroguei-o sobre qual o espírito que movia todas aquelas pessoas, que rosnavam impropérios umas às outras por causa de um lugar vago no estacionamento.

O Natal… - começou ele, coçando a cabeça através do gorro vermelho em polyester – O Natal é aquela cena da redenção, sabes?... Eu estou aqui o ano todo a vê-los pousar. E apesar de ajudar sempre com um sorriso (faltam-lhe alguns dentes, mas continua a ter um ar amável); tentam quase sempre pirar-se sem me passar a moedinha.

- Na maioria das vezes, não fosse eu ter o bastão da ordem (aqui para exemplificar, utilizou-o para desenhar um círculo quase perfeito na porta de um Skoda Fábia) comiam-me à pala de otário. – A sua expressão era genuinamente pesarosa – Eu tenho despesas, pá. Mas é sobre o Natal, não é? É para a revista da Câmara?

Aqui, assegurei-lhe que apesar de eu não representar nenhuma publicação regular (para mais, estava de calções e montado na bicicleta), não seria por isso que deixaria de ver o seu esforço recompensado. E para que não restassem dúvidas, passei-lhe para a mão a primeira nota de cinco euros; que aparentemente lhe forneceu embalagem para a explicação que me deu quase de um só fôlego.

- O Natal não é nada dessa treta sobre o nascimento de Jesus, da paz e do caraças… Trata-se tudo do lavar da culpa. Como aquele gajo que lava as mãos depois de mandar aviar o Cristo, e fica limpo de tal modo que os romanos olham para ele como se tivesse descoberto a maneira segura de fugir aos impostos.

- Tás a ver?... O Natal foi feito prá malta se limpar das merdas que faz durante todo o ano. Imagina-me isto…Ali o Onofre. – não é o do buraco – O gajo sempre roubou. Roubava quando estava na Lisnave, depois montou uma serralharia, mas a coisa deu para o torto e o cunhado que também era sócio matou-se. E então lá ficou com a viúva que era jeitosa, aproveitou o dinheiro que tinha poupado e abriu aquela empresa que faz marquises e desentope canos.

- Vê mas é se te despachas, que os teus clientes estão a fazer fila – Adverti-o eu, que já estava a arrepiar com o vento a entrar-me pelos calções.

Pois o gajo – continuou ele, ignorando olímpicamente o meu reparo; bem como o trânsito que começava a entupir. – sempre foi um grande filho da puta. Bate nos enteados, chateia toda a gente, e quando chega a Novembro despede à má fila uma parte do pessoal para poupar nos subsídios.

- Mas quando chega o Natal aquela alma parece que foi à lixívia. Compra presentes para as miúdas da perfumaria, sorri às empregadas da pastelaria e até me dá as gorjetas a dobrar. Tas a ver?... – disse mostrando uma moeda de euro tão perto dos meus olhos, que àquela distância parecia a tampa de uma panela de pressão. – E não é muito diferente dos outros!

Entretanto fiz um aceno de cabeça para o incitar a prosseguir. Pois vira ao fundo da rua um dos polícias que se encontrava a manter a ordem encostado a uma montra, ganhar algum alento talvez movido pela curiosidade.

- Estes gajos – proferiu, movendo o braço em arco como um senador romano – passam o ano todo a foderem-se uns aos outros, batem nos cães, passam na rua pelos amigos e nem lhes falam… Mas quando chega o Natal, é vê-los a imitar os filmes da televisão e a dizerem “Feliz Natal” uns aos outros; e vão para casa todos contentes e descansados, como se tivessem feito alguma coisa.

- Tas a ver?... - Perguntou novamente, mas só para voltar a utilizar a sua expressão favorita – Os gajos quando inventaram o Natal, não foi para ajudar ninguém. Foi para se sentirem um bocado melhores por causa da merda que vão acumulando lá dentro, e quando chega Janeiro já estão a “afiar a moca” para o Carnaval. Mas eu quero é que rebentem prái! Agora Feliz Natal para ti, e passa para cá os outros cinco euros que o bófia já aí vem prá me foder o juízo.

E pegando na nota que eu lhe estendia, afastou-se em passo arrastado empunhando o bastão da Ordem, com que apontou um lugar vago ao condutor de um Smart; que lhe endereçou um sorriso natalício…

(Aceitem as minhas desculpas pela pobreza da transcrição. Mas o leitor de MP3 que também me serve de gravador, ficou sem bateria antes de eu chegar a casa, e tive que escrever tudo de memória)

Música de Fundo
Christmas Time All Over The World” – Sammy Davis Jr.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Sniper
(Atirador de precisão, especializado em alvos a longa distância)

Conheci o Naked Sniper (aliás, Sniper de Blog) ainda ele não tinha ganho as suas asas ao “serviço da Fé”; estando eu no meu início de permanência blogosférica.

Talvez por ser o meu papel favorito nos “first person shooters” que na altura costumava jogar, e também pelos seus comentários inteligentes e concisos, ganhei um certo apreço a este jovem que me visitava vindo de um blog colectivo. Mas algo ainda não batia certo.

Como sabem, um sniper é um combatente solitário que conta apenas consigo; e apenas em si próprio deve confiar para atingir os seus alvos. Foi pois há cerca de um ano (comemorado no dia 8) que tive o prazer de o ver instalar-se por conta própria mesmo aqui ao lado, confortavelmente camuflado no seu template esverdeado e disposto a apontar a retícula a tudo o que lhe despertasse interesse.

Tal como vem nos manuais, trata-se de um tipo de actividade (a de atirador solitário) que requer mobilidade permanente e uma camuflagem diversificada; pelo que já o vi mudar o nome ao blog várias vezes. Sendo o actual (pelo menos há cinco minutos era esse) “Crítico, Céptico e Cínico”.

Nome ao qual dou o crédito de ser apenas o anterior em relação ao próximo, que poderá ser “Provedor das Órfãs da Guerra das Discotecas”. Pois um nome é apenas uma designação; tal como o meu que não quer dizer que ande pela casa de chanatos e a resmungar pelos cantos.

Toda esta conversa fiada serve apenas para disfarçar o facto de não me ter lembrado a tempo do aniversário do seu blog. Vergonha essa de que só hoje fui salvo por Vanus de Blog, a nossa ovelha que é também guardiã dos sagrados registos e documentos notariais; mas que se encontrava ocupada há uma semana com os famosos “Manuscritos da Baixa da Banheira”.

É pois com toda a emoção que me é permitida na qualidade de Pontifex Maximus desta Igreja de “vão de escada”, que deixo aqui as minhas felicitações por um ano de escrita clara e bem disposta; o que prova a velha máxima – “Dispara-se primeiro e só se ri depois (muito depois)”.

Um abraço, Sniper.

Música de Fundo
Owner of a Lonely Heart” – Yes

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

A Patuscada
- Um reencontro de velhos amigos, um desfiar de reminiscências, uma celebração da amizade… -

Era uma fria manhã de Dezembro. Na velha cabana construída com musgosos troncos, nas escarpas inacessíveis de uma qualquer sinistra e anónima montanha; um velho de nariz adunco vigiava a frigideira onde fritava camarões.

Algures atrás de si, a porta ecoou duas sonoras pancadas como se fosse um gongo chinês, assustando as gralhas das árvores em volta; o que provocou um reboliço parecido com um congresso de bruxas em aceso debate.

Olhando de relance o calendário onde dois gatinhos assinalavam o mês de Dezembro, encaminhou-se para a fonte do ruído arrastando pelo chão as solas das botas de modelo italiano e resmungando entre dentes. Girou a chave quatro vezes para a esquerda na fechadura de aspecto moderno, e escancarando a porta contemplou o recém-chegado por cima dos óculos.

- Só te esperava para amanhã – Proferiu, dirigindo-se a um ancião de aspecto gorducho que transportava consigo duas garrafas de vinho branco – Até pensava que era o miúdo, pois mandei-o há pouco comprar malaguetas à vila…

- Despachei-me mais cedo. Aliás, a coisa estava a tornar-se aborrecida e decidi apanhar o transporte um dia antes – respondeu o interlocutor, entortando o bigode num sorriso quase imperceptível – Imaginas que aqueles pelintras, em vez de me oferecerem a festa de despedida com procissão e tudo como estava combinado, se limitaram a fazer-me um churrasquinho? – Depois um pouco mais calmo, continuou – Bem… Trouxe-te duas garrafas de “Santa Inés” branco para acompanhar os camarões. O tipo da alfândega queria deitar-lhes a luva, mas quando lhe disse que eram para ti acagaçou-se.

- Fizeste bem, Augusto – Respondeu o anfitrião – Esses gajos têm memória curta, e ás vezes é preciso refrescar-lha. Mas entra, que isso aí fora está um gelo que não se pode… Deixa as garrafas a gelar na soleira, que aqui ninguém rouba nada.

Sempre a arrastar as botas pelo soalho, conduziu o visitante a um cadeirão perto da lareira. – Serve-te de um porto, que o miúdo deve estar aí a chegar e eu mando-o acender a lareira.

- Miúdo? Mas qual miúdo, António? – Perguntou finalmente o outro

- O Rosa Casaco. Lembras-te? Aquele que me fez o servicinho do general aviador e da secretária brasileira. – Respondeu o do nariz adunco – É um puto porreiro! Até emprestou umas fotos minhas ao Múrias, para este fazer um livro comemorativo do centenário. O Adolfo encontrou-o por aí e enviou-mo (o Casaco, claro). Tem sido uma grande ajuda, que eu nesta idade não posso fazer trabalhos pesados.

- O Adolfo? Não me digas que o Adolfo está cá. - Disse Augusto, surpreendido – Eu tinha uma admiração pelo gajo… Era doido como uma catatua, mas fazia uma “kartoffelsalat” de se lhe tirar o chapéu…

- Então não sabes? O Adolfo agora é Presidente da Junta. – Informou António com um sorriso maroto – Chamou para cá toda a malta dele, e estabeleceram-se com um negócio de montarias ao javali, para turistas. Trouxe o Heinrich, o Herman gordo…

- Quem? O Herman José?

- Não, pá! O Hermann Göring. Aquele tipo que andava agarrado ao pó, e usava o cinto pelos sovacos como o Obelix. – António, casquinhou uma risada escarninha; mais parecendo o som de um par de maracas – Ainda me lembro quando lhe trocámos a heroína por “fluorescente trifósforo”. O gajo durante um tempo quando saía à noite parecia um pirilampo gigante; com aquela peida enorme a brilhar no escuro.

Augusto suspirou de alívio – Se eu soubesse que vocês se divertiam tanto, tinha vindo mais cedo. Ainda por cima, já estava a ficar com falta de desculpas para faltar às audiências. E ia metendo em sarilhos aquele rapaz do Supremo que me andava a fazer o jeito.

Entretanto a porta abriu-se intempestivamente, dando entrada a Rosa Casaco que afogueado se dirigiu ao fogão com expressão preocupada – O Professor Salazar desculpe a demora, mas eles não tinham malaguetas e só consegui trazer pimenta de cayenne. Espero que os camarões não se tenham queimado…

- O quê? - Berrou Oliveira Salazar na sua voz de velha – Não tinham piri-piri? Isto é uma choldra! Bem dizia o Américo Thomaz que esta merda aqui é um inferno. Só tenho coisas que me ralem…

Música de Fundo
Can I Play With Madness?” – Iron Maiden

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte
(25 de Novembro de 1915 - 10 de Dezembro de 2006)


A justiça nem sempre vence, mas os seus inimigos tarde ou cedo acabam por morrer.

Música de Fundo
"Rancid Motherfucker" – Queers

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

I Have a Dream
- In Technicolor, Surround Sound and Widescreen –

Não é um inquérito ou mesmo um concurso de popularidade, aquilo que vos venho propor hoje; mas sim compartilhar convosco um pouco deste meu sonho, que é devolver a Portugal aquela projecção e respeito mundial, que se perderam juntamente com o Império.

Como sabeis, o cinema português anda um pouco parado (excepto no que toca aos movimentos de ancas da Soraia Chaves); e digo isto com todo o respeito. Embora o último filme português que vi – “Coisa Ruim” – fazendo jus ao título, me tivesse provocado uma crise de sonolência que durou dois dias.

Mas na noite passada tive um sonho. Estava eu no paraíso de Blog, acompanhado pelo Beato Arlindo e ambos debruçados sobre uma deliciosa “buillabaisse”; quando este me confidenciou a intenção secreta do IPC em me conceder um subsídio (como já vos disse era um sonho), para a rodagem de uma película que trouxesse novas cores ao tão desbotado panorama do cinema português.

Fiquei possesso! Bem… Medianamente possesso, pois a “buillabaisse” é um prato pesado após o qual não são aconselháveis exercícios violentos. Nem mesmo danças de salão.

O meu cérebro fervilhava de ideias à semelhança do tacho da já citada caldeirada. E na minha ânsia patriótica (tal como já avisei, era um sonho), de colocar em evidência o que de melhor o país tinha em matéria de figuras “públicas”; a única coisa que me ocorreu foi “The Simpsons Movie”.

Apesar de já estar em pré produção um filme com o mesmo nome, e com previsão de estreia para Julho do próximo ano; trata-se de uma película de animação, que apesar das suas soberbas qualidades humorísticas e potencialidades técnicas (no que toca à utilização de situações dificilmente reprodutíveis com personagens vivos e cenários reais), apenas pode contar com vozes e respectivas entoações, para emprestar um ar real a todo o enredo.

A minha ideia consistia pois, em rodar a película na simpática vila do Seixal (uma espécie de “Springfield”, devido à proximidade da Siderurgia Nacional e do Complexo Quimigal), com o elenco que seguidamente descrimino; e sobre o qual podereis fazer sugestões (e mesmo alterações, se assim o desejardes) de modo a que se torne uma espécie de novo “Pátio das Cantigas”.

Embora, segundo a minha opinião, seja quase impossível encontrar na actualidade substitutos adequados para António Silva, Vasco Santana, Laura Alves, Ribeirinho, ou mesmo para as sempre alegres e buliçosas Irmãs Meireles (que não participaram, mas viram o filme várias vezes).

Agora vamos ao elenco. Tal como já disse, a formação inicial poderá ser alterada se alguém conseguir propor uma figura pública (condição “sine qua non”) que se prove ser mais indicada para o papel.

Para começar, pensei em Alberto João Jardim para o papel de Homer Simpson, devido à sua personalidade exuberante. É claro que outras duas coisas que pesaram nesta decisão foram o ele embora não ser um tipo simpático, o conseguir parecer quando a necessidade assim o exige, e claro, a sua tez amarelada (quando não está a festejar o Carnaval) que o torna semelhante ao personagem original. Tudo isto somado à perspectiva de ver um AJJ de cabeça barbeada, haveriam de ser trunfos na batalha para o Óscar de melhor actor.

Para o papel de Marge Simpson escolhi Teresa Guilherme, esse marco do entretenimento nacional. Uma mudança de penteado far-lhe-ia bem; além do que poderia usar a sua famosa frase – “Ó Homer isso agora não interessa para nada…” – que cai sempre bem; e que no caso do protagonista masculino lhe assenta como um preservativo (justinho).

Já para o papel de Bart, a escolha óbvia é Marques Mendes. Pela sua dicção fluente e jovial, pela compleição física bastante similar a uma prancha de “bodyboard”; e ainda pela relação privilegiada que parece manter com o actor principal (bastante parecida com a do personagem original).

Lisa… Ah! A inefável Lisa. Essa criança amorosa e inteligente, que apesar do seu bom coração não diz nada de jeito. Talvez pela sua musicalidade eu escolheria Lena D’Água; embora a dificuldade venha a consistir na memorização dos diálogos, ou mesmo em encontrar o caminho para os estúdios.

Maggie, a filha mais nova de Homer e Marge, não constitui qualquer problema; pois não tem diálogo algum e passa o tempo todo a chuchar. A escolhida para o papel, por razões evidentes será Elsa Raposo.

Ned Flanders, o devoto vizinho dos Simpsons, será interpretado por Freitas do Amaral; e Todd o seu filho mais novo (em perigo de se transviar), por Paulo Portas (que já se transviou, e por isso se sentirá bastante confortável nos calções do personagem).

Mr. Burns, o inquietante proprietário da Central Nuclear e patrão de Homer, será representado pelo defunto António Champalimaud; que por sua vez será representado por um sósia (isto por razões óbvias de semelhança a qualquer dos níveis). Caso a actuação seja satisfatória, o referido sósia será convidado a encarnar o papel de Charles Dexter Ward num episódio do “Ciclo Lovecraft” (a passar tardíssimo e em data a anunciar, na RTP2).

Waylon Smithers, o secretário “manteigueiro” de Mr. Burns, tem um papel de responsabilidade, que não poderia ser entregue a outro que não Nobre Guedes. Esse criador da famosa frase “Força, Paulo! Estamos contigo…”; e que decerto não desiludirá o mais exigente cinéfilo.

Mr. Apu, o simpático indiano proprietário do minimercado, é ainda uma incógnita. Pois apesar de início eu estar a pensar no prometedor Narana Coissoró (cuja razão para a escolha seria auto-explicativa); desde que este abriu um restaurante e se dedicou a estudar a história da Índia, tem andado muito ocupado. Por isso decidi enviar um exemplar do “script” a António Costa, e prometi-lhe um bom contrato se conseguir desenrascar-se com o sotaque.

Escolher quem seria o charmoso e etílicamente instável Barney Gumble, companheiro de copos e confidente de Homer, não foi problema. Penso que para Fernando Mendes será tão fácil como apresentar aquele concurso, onde passa o tempo a esbarrar nas coisas e a entaramelar as deixas. Isto se antes não subir aos céus, impulsionado por todo aquele combustível.

Herman José dará um maravilhoso Krusty (o palhaço sinistro). Não precisando sequer de interromper as gravações do seu programa; pois poderá fazer alguns “takes” no intervalo deste e utilizando a mesma maquilhagem.

Penso que o Professor Cavaco Silva dará um bom Moe, o dono do bar. Pois o seu ar solene e discurso pausado impõem respeito aos clientes. Pouparemos ainda bastante em testes dramáticos, pois gostei imenso da sua representação quando o vi anunciar ao país o referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez.

Manuela Ferreira Leite e Maria de Belém serão as irmãs de Marge Simpson. Pois além de serem muito expressivas e por tal ideais para os respectivos papéis; estão também a precisar urgentemente de penteados novos (e ao que parece, até agora ninguém se condoeu delas).

Para finalizar, o personagem de Abraham J Simpson (pai de Homer e avô de Bart, entre outras coisas…) será feito por Mário Soares. E aqui penso que não terei que vos explicar nada pois já todos o conhecem “de ginjeira” (quem é amigo? Quem é?...).

É claro que o “casting” está longe de se considerar completo, pelo que deixo o convite a todos os leitores deste blog, para apresentarem ideias novas e/ou personagens alternativos, desde que sejam figuras públicas (nada de bloggers, pois temos que manter um certo nível de relacionamento entre os actores).

Quanto à banda sonora, poderá ser entregue a “Sam The Kid” que também me faz rir à brava.

Bom fim-de-semana.

Música de Fundo
Bones” – The Killers

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Analogia II

- Cada vez que te ouço ou leio, fazes-me sempre lembrar as águas de um pequeno lago…

- Porquê? Devido à clareza das minhas palavras?

- Não! Por causa da tua falta de profundidade.

Música de Fundo
Runaway” – Jamiroquai


segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- Primeira epístola natalícia de Blog às fiéis Ovelhas, e a todos os outros que não necessitem de se vestir de “Pai Natal” –

Piedosa Vanus de Blog. É a meio do meu digestivo dominical (e por tal, sagrado “comó camandro) que te endereço esta epístola, bem como a todos aqueles a quem a hipocrisia ainda não penetrou até esgaçar o frágil tecido das suas almas.

Tal como já terás lido no teu missal, o mundo não foi criado a preto e branco mas sim em escala Pantone®, pois Blog adorava brincar com o Corel Draw®.

Devido a isso o ser humano (assim como os bloggers, pois alguns também são gente) teve que ser dotado de uma funcionalidade a que se chamou consciência. Predicado este, que seria obtido a partir de uma boa auto-gestão do conteúdo das experiências de cada um. E que na maior parte dos casos, serviria igualmente para facilitar o trabalho ao criador na qualificação das almas para estarem presentes na “grande final” a disputar no céu. Aquele famoso estádio construído com subsídios estatais, e que por isso apenas tem 144.000 lugares sentados.

Abro aqui um parêntesis, para informar que a consciência nada tem a ver com grilos de cartola. Ou mesmo com aqueles anjinhos minúsculos e de ar apaneleirado, tão gratos ao imaginário fradesco dos angariadores de fundos (e em alguns casos também, de fundilhos).

Foi, dizia eu, criada a consciência com 1.114 cores sólidas de origem, e com possibilidade de upgrade para infinitas gradações, conforme a capacidade de cada um para interagir com o seu semelhante e o respectivo meio. Blog viu então que era uma coisa boa, e aproveitou para criar um franchising que vendeu às outras religiões; que como sabes, usam também o nosso sistema embora um pouco alterado.

Mas o Homem (e a mulher, claro) da idade moderna, sempre foi adepto da famosa “Lei do Menor Esforço”. E achando que isto de ser bom dava imenso trabalho, decidiu que seria muito mais rápido e económico gerir o “problema” a preto & branco; ou em alguns casos menos radicais, com 256 graus de cinzento.

É assim que assistimos diariamente a esse tipo de comportamento binário, em que quem faz coisas boas é considerado bom, e quem faz coisas aparentemente más é classificado como mau. O que até nem seria muito grave, se uma boa parte da humanidade não aproveitasse para fazer bem a alguns maus (desde que lhes dê jeito); acabando por ignorar todos os outros, já que as regras proíbem que os prejudique ás claras.

Entretanto a coisa complicava-se. Pois apesar de comodistas, muitos deles até nem eram parvos de todo; e começavam a ver que o sistema que tinham adoptado viria a trazer-lhes problemas, quando quisessem abichar o bilhetinho para o tal “derby” tão almejado.

Com o jogo de cintura que é apanágio do género humano, criaram algumas iniciativas para colmatar essa sua insuficiência; e por via das quais julgavam poder “atirar areia para os olhos” de Blog. Levando-o a crer que através delas se redimiam da sua preguiça e desrespeito pelos outros.

Uma delas foi o Natal.

De início o Natal era como aquelas festas que os funcionários organizam para comemorar os aniversários dos patrões ou dos filhos destes. Uma espécie de “engraxadela” colectiva, que embora pusesse Blog com “a pulga atrás da orelha” (pois desconfiava imenso de engraxadores, manteigueiros e bufos), lhe agradava de certo modo por consistir numa demonstração de lealdade.

Mas também como na maioria das festas “de escritório” acabou por descambar. E embora não se embebedassem por aí além, nem lhes desse para fotocopiar o traseiro da Ermelinda do economato e enviá-lo por fax para todos os clientes; começaram porém a ter ideias demasiado “comerciais” para o gosto d’ELE.

A primeira facção que se destacou era composta pelos “Onanistas do Ego”. Uma confraria muito fechada e pouco virada para o seu semelhante; constituída por tipos (e tipas) capazes de estacionar o automóvel em cima de um sem-abrigo ou ignorar o olhar dorido de uma criança. Mas que chegada a altura da “festazita”, eram atacados por uma necessidade urgente de “fazer o bem sem olhar a quem” (tal era o cagaço que tinham de morrer em “saldo negativo); após o que se gabavam imenso a quem os quisesse ouvir.

Principalmente àqueles que não sendo tão abastados (ou não sendo tão bons a mentir, ou que talvez não tivessem incluída a gabarolice no seu ADN), se mantinham calados fazendo o que iam achando ser mais certo ou indicado.

Como é sabido a procura estimula a oferta. E logo uma multidão de “tendeiros espirituais” aproveitou para montar as suas bancas pelo mundo de Blog, e começar a vender (não há nada grátis, não é?) a panaceia para as más consciências. Mas isso são outros “quinhentos paus”.

Sabendo que estavam a adoptar um regime facilitista e injusto. Alguns deles ainda interrogavam Blog nas suas raras orações (apenas o essencial, claro), tentando obter algum “feed-back” que lhes permitisse ir “dançando conforme a música”. Mas Blog tem mais que fazer; e após ter concedido o dom da consciência e do livre arbítrio, deixou de dar respostas concisas. Excepto uma ou outra manifestação do “Sistema de Equilíbrio Cósmico” (tal como aquela a que hoje assististe).

Fazer o bem não transforma automaticamente alguém numa pessoa boa. Especialmente se isso for feito para se poder enaltecer aos olhos dos outros, tentar equilibrar contabilisticamente o “saldo espiritual” (ah, não há como o cagaço da morte para pôr os “contabilistas” na linha), ou para engraxar seja quem for com vistas a ganhos futuros (mas isso até os católicos sabem).

Fazer o bem a pessoas más é também um erro. Não só porque lhes estamos a passar a ideia que afinal não são tão maus assim, e que podem continuar a ser como são; como estamos a dizer aos bons que não há diferença alguma entre o bem e o mal. Porque independentemente do que façam, ser-lhes-á proporcionado invariavelmente o mesmo tratamento.

E aqui para nós. Grave mesmo, é conseguir (e consegue-se facilmente, aplicando o sistema acima descrito) levar para o caminho do mal alguém que inicialmente era bom (embora isso também possa demonstrar que o sujeito não seria muito inteligente; mas também não é sobre isso o teor desta epístola).

Sem dúvida que fizeste o que estava certo. Pois essa tia de alguém, terá durante a vida que lhe resta até ter que “saldar as contas”, uma boa hipótese de se tornar num melhor ser humano. Ou senão, pelo menos terá tempo para pensar nisso confortavelmente deitada na cama de um hospital privado (que é bastante mais do que a maioria poderá obter nestes casos).

Ás vezes ser bom, pode passar por dar um pontapé bem assente nas “miudezas” de alguém; mesmo podendo incorrer na reprovação de outrem (normalmente, daqueles que se sentem merecedores de igual tratamento).

Blog é retribuição! Welcome to the dark side, my dear…

Música de Fundo
Rudolph, the Red-Nosed Reindeer” – Dean Martin

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Post Decididamente Aínda Mais Fraquito
- Este post é mesmo tão fraquito (na sua quase ausência de texto), que o melhor é voltarem a ler o anterior -
Música de Fundo
"Bad Mirrors" - Vicious Five

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Um post Fraquito
- Onde fica provado que quando falta a inspiração para escrever, o melhor é entrar em confidências íntimas… -

Estou de muito mau humor! Não que isto se deva ao facto de ter trabalhado até ás duas da manhã. Mas o que mais me chateia é que esse trabalho consistiu em estar sentado à mesa de um restaurante (depois os tipos queixam-se que os jantares são caros) com um construtor civil (meu Amo), um ex-construtor civil (o Nosferatu, agora menos fedorento devido à natural descida da temperatura atmosférica) e um empresário de materiais de construção (um pouco bronco, mas a disfarçar por ser mais novo).

E escrevo pois este início de post em minha casa, onde espero pacientemente qual Penélope a vinda do primeiro personagem; que já há meia hora me deveria ter recolhido no seu Mercedes reluzente.

É claro que após lhe ter telefonado para casa e me terem dito que já tinha saído; recebi dez minutos depois (08h50m) uma chamada em que alegava encontrar-se a meio de uma fila de trânsito. Francamente não deviam deixar as pessoas conduzir naquele estado! O tom de voz estremunhado e quase vindo do além-túmulo era de tal modo notório, que quase conseguia vê-lo a tirar as ramelas dos olhos com o indicador.

Mas isto apenas para dizer que estou finalmente a chegar à conclusão sobre o que verdadeiramente atrasa este país. Somos nós!... Salvo seja… Que eu sou pago para ouvir idiotices sem me desmanchar a rir, e por isso não conto. Ou se calhar conto também mas não me interessa.

Costumo imaginar-me nesses jantares como uma espécie de Buster Keaton da construção civil. Imune às situações e teorias mais mirabolantes, cujos efeitos histriónicos mal fazem tremer os meus músculos faciais.

É uma arte muito antiga que tem passado na minha família (e em outras que eu sei; pois na rua reconhecemo-nos com um sinal especial) geração sim, geração não; devido a ser demasiado desgastante para se fazer noutro regime que não o intermitente.

A Guilda dos Impávidos Escudeiros foi fundada a 1 de Novembro de 1139 durante o pequeno-almoço.

Paio Anes (o primeiro Impávido Escudeiro de que há registo) participava neste como “apoio hoteleiro” e encontrava-se perfilado na ombreira esquerda da porta (a da direita estava ocupada por um decorativo Ali ibn Yusuf, amarrado e preso à parede pela pele dos testículos) imerso nos seus pensamentos, quando a meio da conversa matinal com sua esposa Mafalda, Afonso Henriques afirmou a sua intenção de aproveitar o nome “Casa de Borgonha” para fundar uma empresa de comercialização de bebidas com uma percentagem de capital Galego.

Mafalda que era de Sabóia mas pouco diplomática, respondeu-lhe que melhor seria dedicar-se aos deveres do leito e contribuir para a Primeira Dinastia, em vez de andar a brincar aos empresários e arriscar-se a ter que usar um elmo dinamarquês.

Afonso sentindo-se ferido no ponto mais sensível da sua cota de malha e sabendo que não estavam sós, pegou no seu “montante” (que por acaso se encontrava a jusante, mas a localização também não interessa) e seguindo o princípio básico de todos os cornudos assumidos ou não, preparou-se para eliminar as testemunhas de tal indignidade.

Yusuf teve azar, pois o seu esgar de dor (a posição em que se encontrava devia ser um pouco incómoda) foi confundido com um sorriso escarninho, e logo ali foi decapitado. Não tendo sequer tido tempo de recitar a sua “sura” favorita, que falava de cavalos, virgens e de um rapazinho que ia às vezes lá a casa brincar com o filho (tratava-se de uma versão revista do Corão).

Ainda com embalagem suficiente para cortar meia dúzia de eucaliptos. El-Rey encarou Paio; que sentia o seu “Anes” tão apertadinho de medo, que não lhe caberia sequer uma palhinha (aqui se criou igualmente o histórico termo “nem uma palhinha…); agarrou-o firmemente pelo “pelote” com a mão esquerda, e levantou-o até este ficar com os chanatos a cerca de dez centímetros do chão – Que “escutásteis”, perro? – Interrogou raivosamente, e bafejando o infeliz com um diabólico hálito a coalhada de ovelha.

Paio Anes enterrou o pescoço entre os ombros para tentar oferecer a mínima superfície possível à acção da romba lâmina, e puxando para fora com dois dedos o seu “abano” direito proferiu em tom lamuriante – Perdoai senhor! Mas desde que apanhei brucelose no ano passado, minha audição nunca mais foi a mesma. – Após o que encarou o monarca, com uma expressão agora bastante vulgar em funcionários da previdência que fazem atendimento ao público.

Afonso correu com ele do aposento presenteando-o com um real pontapé nos andrajosos fundilhos, congratulando-se por não ter tido que degolar um tipo que até tinha bastante jeito para lhe arear a armadura (já naquela altura era difícil encontrar colaboradores competentes).

Vendo o bestunto salvo pela sua presença de espírito, Paio Anes passou esta experiência a seu filho António Ramalho, que adoptando o cognome “O Estático” fundou a Guilda dos Escudeiros Impassíveis; que mantém as suas secretas actividades ainda nestes dias modernos e conturbados.

Pelo que – ó meus queridos leitores – se virdes na rua dois homens que encolhem o pescoço enquanto seguram a orelha direita com dois dedos, lembrai-vos de Paio Anes (esse meu genial antepassado) e fazei uma reverência; pois estais na presença de dois honrados Escudeiros Impassíveis.

E agora vou almoçar que isto “a seco” não dá nada.

Música de Fundo
Overture To The Sun” - Terry Tucker

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

A Igreja do Imaculado Blog
- De como apesar de a nossa única Fé ser em Blog, nos preocupamos também um pouco com o bem-estar da concorrência; a quem alguns “originais” ainda fazem parecer pior do que é. –

Irmãos (e não me venham com a história do sexismo, pois estou a arengar num sentido lato)! Já estou careca de vos explicar que no princípio era o verbo e só mais tarde este se fez substantivo, aparecendo assim finalmente algo em que se pudesse ferrar o dente. Sendo assim que as coisas no início aconteceram.

A Igreja Católica foi a primeira a aparecer no local da ocorrência, e apropriando-se toda a matéria filosófica disponível no capítulo do “monoteísmo chato” (que devido à explosão se tinha espalhado por todo o local), fundou uma multinacional para venda de indulgências e cromos de gente com ar martirizado.

A partir daí seguiram-se uns quantos séculos de monopólio controlado pela Entidade Reguladora competente (o Santo Ofício), que evitava o aparecimento de outros negócios que lhe fizessem concorrência. Incendiando-lhes as frutarias, e cobrando “protecção” para que não viesse a ocorrer algum “lamentável acidente”.

Essa época de desregramento e corrupção, só veio a terminar quando Martinho Lutero à semelhança de Eliot Ness, criou uma força especial que utilizando métodos similares (os fins justificam os meios) acabou com o referido monopólio; proferindo a célebre frase – “Ou comemos todos, ou há moralidade…”.

Como sabem, a concorrência é daquelas coisas que acabam tarde ou cedo por incutir algum bom senso a nível empresarial; mesmo que estejamos a falar de construtores civis daqueles que ainda usam samarra.

E durante alguns anos a coisa funcionou lindamente, limitando-se estas organizações a alugar os seus serviços à alta finança, no sentido de convencer a massa trabalhadora que a mais valiosa recompensa para os seus sacrifícios, só seria adquirida após a morte (uma espécie de bónus anual, mas mais chorudo).

Vivia então a malta na paz de Deus, Blog, Alá e seus derivados (há quem diga que Blog é um derivado de Deus, mas isso não passa de uma vil atoarda. Blog é um pouco como Loki; um deus que goza com tudo e todos) quando por impossibilidade de criação de novos deuses (o Olimpo estava tão entupido quanto o Weblog), apareceram as seitas da idade moderna. Os chamados “Papagaios do Senhor”, pois empoleiravam-se no ombro da divindade e disparatavam imenso; tal como aquele que pertencia a Long John Silver.

Começavam todos com a frase favorita de Mário Soares (olhe que não…) a dizer que não era bem assim, e tal… e num abrir e fechar de olhos criavam uma variante, que não passava da religião original mas com alguns pormenores mais convenientes, ao interesse pessoal de cada um dos respectivos fundadores.

Até aqui tudo bem. O pessoal “fazia pela vida” acumulando sinais exteriores de riqueza à conta dos donativos; e ninguém se importava que o céu tivesse apenas 144.000 lugares sentados, ou se um tipo passava de vendedor de banana a bispo apenas por usar fato de três peças.

Foi quando apareceu o Apóstolo Maná.

Abro aqui um parêntesis para explicar que a Igreja do Imaculado Blog também tem um Apóstolo (que se chama Zé António e mora no rés-do-chão do meu prédio), mas que felizmente o nosso nada tem em comum com o referido personagem; pois nunca o vi (o nosso, claro) pedir dinheiro a alguém, ou tentar adulterar versículos da Bíblia (um pouco à semelhança dos modernos “plagiadores de Blog).

Dizia eu… Ah! Foi então que em 1984 (tal como previsto por Orwell) apareceu um engenheiro civil nascido em Moçambique para fundar a Igreja Maná. Ora maná é uma espécie de jackpot celeste em que em vez de moedas, chove sobre os fiéis uma pasta esbranquiçada que serve para estes se alimentarem (o que digamos pode levar os mais maliciosos de vós a equívocos sobre a natureza do que fazem em privado).

Um pouco descontente com a sensaboria dos textos bíblicos, que os missionários católicos lhe teriam quiçá impingido na sua juventude; e não contente por se auto-denominar Apóstolo (Sim! Que o nosso, fui eu que o nomeei), desatou a fazer revisões à Bíblia de modo a poder justificar a angariação de fundos para (entre outras coisas) a Maná Sat (TV por satélite só para fiéis com parabólica abençoada, e atochadinha de programas piedosos).

A provar essas “pequenas alterações”, segue como exemplo aquilo a que chamam a 13ª “convicção” da referida Igreja:

*

13 - FALSOS PROFETAS (SEITAS): Cremos no que Jesus disse dos falsos profetas (Mateus 7:15-23) que pelos seus frutos se conhecerão: em Nome de Deus levam o povo a fazer o que Deus proíbe (idolatria, bruxaria, consultar os mortos, etc.) ”

*

Nunca pensei que a construção civil fosse tão fértil em tipos imaginativos. E pelos vistos não tarda que tenhamos uma fila enorme de “patos bravos” à porta da Sociedade Portuguesa de Autores, para registarem as suas alterações favoritas, tipo: “Não terás outro afagador de tacos senão Balbino & Filhos, Lda.”.

Na verdade o referido versículo consta do seguinte:

*

(Mateus 7:15-23)

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.

E então lhes direi, abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.

*

Como podeis ler, trata-se de uma advertência sobre tipos que gostam de se vestir de ovelha. E que o autor (Mateus, neste caso) se vir na rua ou em algum encontro de bloggers, fingirá não conhecer. Não sendo nada parecido com todo aquele “voudu” do pretenso versículo descrito anteriormente.

Sem dúvida que é um ponto importante. Pois como sabeis, a fantasia de ovelha é um privilégio reservado à nossa irmã Vanus de Blog; obtido pela sua passagem ao círculo interior (ou Segundo Anel, tal como é conhecido pelos iniciados).

Mas já me estou a alargar na escrita, e de tanto martelar o teclado fiquei com uma unha partida (“Ao serviço de Blog estragarás as tuas unhas” - disse-me em tempos o defunto Profeta Malaquias, que tinha uma tasca em Cacilhas).

O fito inicial deste extenso post era apenas informativo. Pois pela fotografia acima (que tirei hoje a um cartaz colado no pilar de um viaduto) temos a prova cabal que as seitas já se lançaram igualmente na banca.

Tenho que ir ver isso. Pode ser que obtenha um melhor “spread” para o meu “Crédito à Habitação”…

Música de Fundo
Money” – Pink Floyd

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Presunção e Água Benta
- Um “Especial Cataclismos” da Igreja do Imaculado Blog, cuja sede social tem os mesmos problemas terrenos que qualquer roulotte de farturas –

Dizem as escrituras que “benta é a água tocada por Blog”. Não foi bem o que aconteceu hoje, mas tal como qualquer sacerdote da concorrência usurpei a autoridade, e fi-lo.

Para mais, não tive outra hipótese, pois quando entrei na sede da empresa fiquei imediatamente imerso no referido líquido até ao meio do cano das botas. E assim, acenei em volta ao bom estilo do “Papa Chanel”, e transformei aquela treta toda em água benta.

Só a empregada de limpeza que é agnóstica, não achou piada nenhuma e passou a manhã a resmungar e a salpicar-me vingativamente com a esfregona, como se tentasse abençoar-me.

É pois a esta hora tardia e um pouco à pressa que publico este texto, devido ao que anteriormente expliquei e também ao facto de ter tido que (por causa do estoiro que a UPS deu) trocar a fonte de alimentação do PC.

Esta era a parte da “Água Benta”.

Presumo pois, que antes de segunda-feira não me será possível publicar mais nada.

Esta era a parte da “Presunção”.

Por isso, agora que está salva a “Honra da Igreja”, só me resta desejar-vos um bom fim-de-semana.

Música de Fundo
Keep The Faith” – Bom Jovi

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Projecção Privada
- Ante-estreia do último Bond, acompanhada a bourbon e com a maledicência do costume. Pois ultimamente pouca coisa aparece que não mereça uma boa ferroada… -

Já o podia ter feito na semana passada; mas existem certas coisas para as quais é mesmo necessário estar “in the mood”, senão não funcionam como deve ser.

Enquanto as notícias passavam na TV, lobriguei um daqueles tipos que lêem coisas para a câmara (e que “presença”, também não tinha nenhuma), a debitar alguns factos curiosos relativamente ao último 007 hoje em estreia nacional no Casino do Estoril.

É claro que o facto mais importante (ou apenas mais peculiar) sobre o evento, mais uma vez passou em branco à nossa informação; que em termos profissionais parece apoiar-se em licenciaturas obtidas na Universidade das Galinheiras (carreira 108).

O casino onde mais tarde se deu a projecção do filme, é o mesmo que serviu de inspiração a Ian Fleming para escrever “Casino Royale”; devido à importância que teve no teatro da espionagem internacional durante a 2ª Guerra Mundial (na altura ainda a fachada não se parecia tanto com a do Continente de Badajoz). Época em que Lisboa era a capital de um país neutro, onde pululavam condessas russas nascidas em Bucareste e suíços com sotaque da Baviera.

Mas isso já seria pedir demasiado a um simples jornalista da SIC. Estação que por qualquer estranho fenómeno mimético, cada vez se começa a parecer mais com a TVI. Talvez tivesse sido melhor entregarem a apresentação da “peça” ao saudoso Lauro Dérmio…

Desliguei a TV e fui para o escritório pôr os pés em cima da secretária enquanto via o filme.

Pelas críticas e mexericos que durante os últimos meses têm aparecido aqui e ali; estava preparado para uma actuação ao nível do "On Her Majesty's Secret Service". Cuja única virtude foi ter sido rodado em Portugal; tendo como protagonista um macambúzio George Lazemby, senhor de uma representação que se colocava ao nível artístico de um prato de ensopado de borrego. Mas fiquei agradavelmente surpreendido.

Daniel Craig consegue bater Roger Moore e o seu característico aspecto de tia, Timothy Dalton e o seu habitual ar de “corno”, ou mesmo Pierce Bosnan com a sua pose cagona e descontraída.

Além de eu não fazer segredo de que o meu 007 favorito era Sean Connery, sempre achei que um agente secreto dado a poses e piadas teatrais, nunca viveria o suficiente para estrear a sua segunda muda de ceroulas com radar incorporado.

Quanto ao filme, é uma história simples contada de um modo complicado e temperada com adrenalina QB; interrompido algures pelas tradicionais cenas de cama, que fazem com que as senhoras se esforcem por aguentar o filme. Acabando de um modo imprevisto, no que se costuma chamar um “final em cascata”; ou seja, parece que acabou ali, mas não.

Diria que valerá a pena gastarem o dinheiro no bilhete. Mas confesso que mesmo assim, o meu favorito ainda é a versão não oficial de 1967 com David Niven, Orson Welles, Peter Sellers e Woody Allen (e claro, a incontornável Ursula Andress).

Música de Fundo
You Know My Name” – Chris Cornell


segunda-feira, 20 de novembro de 2006

A Operação Stop
- Este post não comemora nada excepto o espírito lusitano; que desde a fundação da nacionalidade até à data de hoje nos tem metido em diversas embrulhadas -

- Bruno Miguel!... Olha…

- Agora não, Kika.

- Bruno Miguel, olha a “brigada”.

- Rais’parta a mulher que é ainda pior que a mãe!!! Matraca do caraças…

- ‘Tou’tadezer Bruno Miguel; olha ali…

Na berma da estrada, um simpático agente da autoridade agitava a sua raquete com a convicção de quem iria passar às meias-finais. Contra-vontade o homem encostou a viatura à berma, e soltando uma profanidade ininteligível preparou-se para apresentar o livrete e a carta de condução. – Agora, por amor de deus vê se estás calada, Kika. E deixa-me tratar disto!

O representante da autoridade apresentou-se pela janela do lado esquerdo, e fazendo a saudação da praxe exigiu os documentos que examinou detalhadamente como se estivesse a tentar decifrar escrita cuneiforme sem os óculos de leitura. – O senhor sabe que é proibido falar ao telemóvel enquanto conduz? – Perguntou no tom de voz que alguns utilizam para falar com crianças, ou com cidadãos portadores de deficiência ao nível do discernimento (vulgo funcionários da EMEL).

- Desculpe-me senhor agente. Eu não estava a falar ao telemóvel mas sim a fazer a barba. – Respondeu o condutor com um daqueles sorrisos que só se endereçam a “strippers” bem dotadas, ou sogras que partem de férias para o Uzebequistão com duas malas enormes. – É que acordámos tarde; e como não queria chegar atrasado ao casamento de uma amiga nossa, aproveitei para fazer a barba pelo caminho.

- Você está a gozar comigo? – Inquiriu o agente da BT, a quem a finíssima camada de verniz se estilhaçara num tempo record. – Vi-o perfeitamente a falar ao telemóvel enquanto conduzia apenas com uma mão. Estou a prever que hoje vou dar imenso uso ao Multibanco…

- A sério. Juro! – Garantiu o outro enquanto lhe mostrava o aparelho. – Quer ver? É uma Braun de duas cabeças. Dá para ligar ao isqueiro do carro e tudo… - Carregando num botão deste; o que produziu um zumbido semelhante ao de um besouro que tivesse almoçado punaises, vindo de dois círculos situados numa das extremidades.

- Ok. É uma máquina de barbear. – Assentiu o cívico um pouco contrariado e já menos agressivo. – Mas também não pode andar por aí a fazer a barba enquanto dirige. A sua condução torna-se arriscada, pois pode distrair-se e qualquer segundo lhe pode ser fatal; tanto para si como para os outros utentes. – Pela sua expressão preocupada, via-se que temia pelo saldo contabilístico da operação. Passando de um só fôlego a debitar - Mas como sabe, o Artigo 84º do Código da Estrada proíbe o uso de aparelhos ou dispositivos que possam prejudicar as faculdades cognitivas.

- Ó “shô” guarda – Começou o condutor que já começava a estar farto da conversa – Você quando faz a barba (ou desfaz, ou lá o que você faz a isso) pensa nos pêlos, ou dá-lhe para ter diálogos filosóficos com a gilette? Não! Acho eu… Pensa sempre em qualquer outra coisa; como por exemplo no que vai fazer durante o dia, ou tenta decorar esses versículos todos numerados.

- Bem. – Disse em tom arrastado o agente da BT. – Lá isso é verdade mas…

- Olhe… - Exemplificou o outro – Ainda se fosse um leitor de MP3 ou o vibrador da minha mulher (cala-te Kika!), poderia considerar-se algo que acabasse por me distrair. Mas a barba… Você é homem, e sabe bem do que estou a falar. – Terminando com uma expressão cordata. – Seja um bacano e deixe-nos seguir. Que aquela com o feitio que tem, não deve conseguir casar mais nenhuma vez; e eu não queria perder o espectáculo por nada deste mundo.

Um pouco mais amolecido por aquela “conversa de ginásio”, o cívico devolveu-lhe os documentos e coçando a cabeça através do boné, mandou-o seguir com um aceno da prancheta das multas. – Vá lá. Mas não abuse da sorte. Que o próximo colega que o interpelar pode não ser tão razoável como eu.

O veículo afastou-se lentamente da berma para se incorporar no tráfego.

Suspirando de alívio o condutor pegou no aparelho premindo o botão duas vezes, o que fez com que este se abrisse como um bivalve. – André! – Chamou – Ainda estás aí? Desculpa pôr-te em espera mas estes gajos da brigada andam cada vez mais chatos. Tinhas razão. Esta ideia do telemóvel com máquina de barbear incorporada é mesmo genial! Acho que podemos mandar fazer aí uns cinco mil só para começar.

Após desligar, virou-se para a acompanhante que tinha afivelado uma expressão ofendida, rematando. – E mais tarde se a coisa correr bem, talvez arrisquemos fazê-los também em formato de vibrador. Realmente o meu pai tinha razão. A melhor altura para um tipo ter boas ideias é quando faz a barba.

Música de Fundo
Cellphone’s Dead” – Beck

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Operação “Loja dos Trezentos”
- Os nossos "escarumbas" favoritos são os chineses -

Com o post de hoje arrisco-me a duas coisas. A primeira é deixar “ficar mal” o Papo-Seco, que por alguma razão absolutamente insólita me incluiu na sua escolha de candidatos a “Melhor Blogger.

A outra é vir repetir algo que alguém já possa ter dito (embora este último caso apenas me coloque a par de alguns profissionais da “informação” que fazem vida disso).

A “Lavandaria Oriente” abriu há dias as portas ao público pela mão diligente da Polícia Judiciária, que parece ter um “dedo especial” para alcunhas. Até aqui, nada de especial.

Quem é que não viu já num qualquer filme americano, o chinês da lavandaria a barafustar como um periquito enquanto dizia na sua vozinha de desenho animado – “No tickeee, no shirtiii…”?

É claro que qualquer um se pode enganar; e eles nem sequer foram ao ponto de utilizar designações como “Operação Chinoca” ou “Raid ao Covil do Doutror Fu-Manchu”. Para mais, o facto de um tipo combater o crime não o proíbe de fazer uso do seu sentido de humor; embora o minorca a quem eu costumo comprar o incenso não tenha achado grande piada.

Apreciei sobretudo o modo como a SIC tratou o acontecimento. Foram buscar imagens de arquivo em que apareciam lojas chinesas, e as faces achatadas de alguns chineses de aspecto misterioso (será que nunca encontraram uma chinesa gira?); aproveitando para as passar em horário nobre.

Entretanto iam-nos revelando que a rede era composta por indianos e paquistaneses, alguns deles proprietários de unidades hoteleiras e lojas de móveis, que alegadamente estariam a patrocinar a Al-Qaeda (uma perigosa tríade chinesa, como todos sabemos).

Talvez por serem pequenos e consequentemente difíceis de encontrar, não apanharam nenhum chinês.

O que nos leva a reflectir um pouco na disparidade entre a escolha do nome para a “operação” (Ok! Foi engano, e a justiça não se engana poucas vezes), a escolha das imagens para a reportagem após serem conhecidas as origens étnicas dos “presumíveis inocentes”, e os “factos” que nos foram apresentados que nada tinham afinal a ver com o atrás descrito.

Para começar, essa treta de envolver uma comunidade inteira num escândalo protagonizado apenas por alguns, tem muito que se lhe diga. Pois considero que é uma generalização tão perversa quanto a de misturar o Imã Munir (que considero um tipo muito equilibrado e sensato) com os bombistas suicidas. Agora quando chegam ao ponto de confundir Mao Tse Tung com o Aga Khan; ou estão literalmente a gozar com o pagode ou trata-se pura e simplesmente de perseguição racial.

Não sei quem foi o estagiário a quem a redacção da SIC encarregou de ir procurar as imagens para preencher a peça; mas tenho a certeza que se me quisesse dar ao trabalho de o fazer, decerto encontraria o nome do idiota que as aprovou, editou e considerou boas para visualização.

A esse profissional da informação (que pelo nível de qualidade do seu trabalho, sem dúvida virá um dia abrir um blog entre nós para exibir o ego) venho aqui apresentar os meus votos, bem como os do magricela que tem uma loja perto da minha casa – “Cao ni zu zong shi ba dai, zhu tou!”.

Já agora aproveita e compra um dicionário de Mandarim.

Música de Fundo
Tian Hua Cuo” – Wang Lihong

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Galeria dos Super-Vilões Blogosféricos (1) – A Super-Traveca
- Num reino etéreo de simpáticos gnomos, ricas fadas e cronistas de esquina, existem também almas (de)penadas que erram em busca de amor, de justiça e principalmente de “encosto”. -

A existência das pessoas vulgares, que enchem os transportes públicos e se acotovelam nos centros comerciais, é de tal modo restritiva e limitada, que raramente alguém concebe existirem seres que embora sem se fazerem notados, andem entre nós seguindo um qualquer plano de acção incompreensível para o comum dos mortais: Os Super-vilões!

O super-vilão é como um troll mas com roupa interior mais colorida; porque muitas vezes tem que trocar de farpela em cabines telefónicas e outros locais muito frequentados; e onde não pode fazer má figura (para isso já basta alguns deles usarem as cuecas por cima das calças).

Uma das facetas mais importantes na vida de um super-vilão é a sua identidade secreta. Nalguns casos esta é tão secreta, que o dito vilão passa imenso tempo a “tentar encontrar-se”, o que é bastante limitativo para a sua actividade principal. Mas adiante que eu não tenho o dia todo, e logo pela manhã esta informação pode estar já desactualizada.

Adozinda tinha uma existência calma e cheia de benesses, repartida entre a sua ocupação de “Técnica de Higiene” numa repartição pública, e o seu passatempo pós-laboral em que brincava ás casinhas com o Eugénio; passando as noites a dar largas ao seu feitio exuberante, e a outras coisas que também alargam só que não podem ser aqui nomeadas.

Mas essa bucólica felicidade tarde ou cedo teria que acabar.

Um dia, durante uma demonstração (a pedido de uma amiga) da Bimby®, Eugénio perdeu-se de amores pela demonstradora e pela maravilhosa panela (sim, nós sabemos que a Bimby® não é uma panela; mas também não estávamos a falar disso).

Logo começaram a acontecer aquelas cenas macacas que se dão nestes casos. Tipo “negas”, o velho “ó filha estou cansado e olha os miúdos”; bem como o campeão de vendas “se não fosse por causa das crianças…”. E a sua vida transformou-se num doloroso calvário, que só terminou no dia em que o Eugénio saiu de casa em direcção ao emprego, e se esqueceu de vir jantar… bem como nos anos seguintes.

Despeitada (ela era “copa A) jurou vingança contra o mundo em geral e todas as gajas em particular; nomeadamente aquelas cuja predisposição as tornasse possíveis “desencaminhadoras de homens”.

Abro aqui um breve parêntesis, para esclarecer que as convicções expostas nesta história, não têm que necessariamente reflectir as do proprietário deste blog. Isto porque já conhecemos algumas “desencaminhadoras de homens”, sendo umas delas até bastante simpáticas; e outras (muito poucas) bastante “boas”. Pelo que não temos qualquer intenção de abdicar de tão “delicioso convívio”.

Continuemos então.

Ciente das suas limitações e da fraca capacidade dramática, decidiu transportar a sua vingança para o mundo virtual. Apoiando-se no vasto manancial de informação que são os motores de busca, e na ingenuidade dos habitantes que têm a mania que são mais espertos que os outros (aliás, tal como “lá fora)

Cedo a nossa vilã começou a fazer estragos nas hordas de “desencaminhadoras de homens”; fazendo-se passar alternadamente por militar na reserva e jovem “rapper” negro particularmente “bem aviado”. Escolhendo “nicks” sugestivos como “Major Sarmento”, “Teseu” e outros nomes tirados de telenovelas antigas.

A sua fama estendeu-se à blogosfera onde o personagem adquiriu foros de Casanova, correndo à boca cheia que se apropriava do coração das pobres incautas, e que depois destas se apaixonarem por “ele” as abandonava, passando para a seguinte. Uma coisa importante porém as suas vítimas se esqueciam de assinalar; é que não havia qualquer contacto físico (o que admitamos é natural pois como devem calcular daria mau resultado).

Quando o seu personagem principal deixava de produzir resultados, alternava para o secundário com que tentava junto das vítimas alcançar o que o primeiro não tinha conseguido.

- Então como termina esta história? – Perguntarão alguns leitores; bem como algumas preocupadas leitoras que possam já ter entrado em confidências com estranhos.

Bem, meus queridos. Não acaba.

A Super-Traveca continua por aí, sempre a tentar recolher o máximo de informação pessoal sobre cada um; enquanto prossegue a sua missão vingadora de quebrar os corações daquelas que julga serem “desencaminhadoras de homens”, mas que afinal não passam de vítimas da solidão a que nos condena esta desenfreada voragem em que vivemos.

Por isso caro/a blogger. Se foi ou pensa que está a ser vítima da trama urdida por esta super-vilã, não hesite em compartilhar com todos nós essa experiência, e coloque em evidência no seu blog o dístico “Sim! Eu também fui vítima da Super-Traveca”.

Assim ficaremos a saber que ela também já sabe tudo o que você sabia.

Lembrem-se que tal como a melhor forma de conhecer a Bimby® é ao vivo, com as pessoas passa-se algo igual.

A.D.C.V.C.F. - Por uma comunidade segura!
(Associação de Defesa contra os Conquistadores Virtuais que não se Chegam à Frente)

Música de Fundo
Substitute” – The Who

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Banalidades
- Como um magusto perfeitamente banal consegue manter-se assim durante imenso tempo, apesar das tentativas goradas para o transformar em algo mais que um quadro de Malhoa -

Ao entrar o portão, a primeira coisa em que reparei é que a piscina parecia o mar dos sargaços, ou pelo menos um panelão gigante de caldo verde (o que atendendo à festividade do dia até nem pareceria deslocado). Obviamente tinha chegado atrasado para a parte mais movimentada do evento.

Segui o trilho de relva arrancada e terra revolvida que saída da piscina, encaminhando-se pelo meio do jardim até ao moinho (sim, já vos disse que ele tinha um moinho) ornamental, que fica frente à magnífica garagem com lotação para sessenta convidados.

Felizmente alguém tinha lidado de modo correcto com a situação, e à minha frente encontravam-se em exposição algumas travessas de inox com entrecosto e entremeada. Aparentemente o animal teria sido composto por estas duas zonas apenas e pouco mais; embora mais tarde me tenham informado que a cabeça do bicho teria sido avistada durante a festa, no meio dos convidados.

Mas acho que isto foi apenas imaginação a mais. Pois embora tenha encontrado dois convidados a quem quase apetecia atirar bolotas, nenhum era parecido com o defunto a ponto de com ele se confundir.

Conforme mais tarde me contou o Tenente Figueiredo, tiveram que improvisar um bocado para dar conta do porco (que afinal não era preto) pois o sacana além de não querer colaborar, escapou-se do atrelado onde o tinham aprisionado até à altura do abate. E como não tinha sequer tido hipótese de tomar duche, entrou na piscina com um mergulho encarpado de costas, ficando ali a boiar placidamente como se tivesse toda a vida à sua frente.

Meu amo viu-se obrigado a tomar medidas anfíbias e lá teve que entrar na água até a cintura com o seu conjunto Sacoor (cuja perda o indispôs imenso), após o que ele e um vizinho conseguiram laçar o animal e arrastá-lo pela relva até à entrada da garagem (com lotação para sessenta convidados); onde para desgosto dos amigos dos animais e gáudio dos apreciadores de torresmos, despacharam o suíno à naifada no mais puro estilo da máfia napolitana.

Pessoalmente eu acho que teria tido muito melhor efeito cénico esfaqueá-lo dentro da piscina, e retratá-lo (à semelhança de Marat) empunhando uma pena e um caderno. Mas esta malta não beneficiou de uma educação clássica; pelo que assim se perdeu a oportunidade de obter uma boa foto que deliciasse as gerações futuras.

Infelizmente o resto da festa decorreu sem história.

Ninguém caiu à piscina (previdentemente, meu amo desta vez proibiu que apagássemos os holofotes) este ano, apesar de alguns dos convidados se moverem erraticamente como se andassem à deriva no cosmos. Mas as mesas encontravam-se no lado oposto do jardim; o que condicionou imenso qualquer probabilidade de isso vir a acontecer.

Talvez o ponto mais interessante dessa noite, tenha sido eu ter visto o amor acontecer (era mais borbulhas, mas já que há tanta coisa que passa por amor…) mais uma vez; para provar a minha teoria que tudo neste mundo não passa de uma enorme reprise do mesmo velho filme.

Estava eu na conversa com os putos do costume (conversar com os outros convidados mais velhos assemelha-se demasiado a trabalho), quando o mais novo deles chamou a atenção do irmão para uma miudeca que se encontrava entretida a um canto com o telemóvel. – Acho que andei com aquela no infantário – Foi isso que ele disse. E que eu fique já aqui ceguinho dos dois olhos se for mentira.

Dissemos-lhe que se deixasse de histórias e continuámos a conversa; aliás sem ligar muito, pois o tipo tem dezasseis anos e dá todo o aspecto de poder vir a morrer virgem.

Divertido foi o que aconteceu cerca de meia hora mais tarde. E a única explicação que consigo fornecer, é que à miúda se tenha acabado o dinheiro para as SMS.

A meio de uma discussão sobre as vantagens das versões “DVD Rip” sobre as “Telesync”, ela saiu-nos ao caminho e colocando-se bem em frente a ele inclinou a cabeça para o lado, piscou os olhos como se estivesse sob a luz de um projector de halogéneo e perguntou numa voz quase copiada da Betty Boop. – Olá. Lembras-te de mim?

O irmão preparava-se para emitir uma qualquer alarvidade quando o segurei pelo braço e arrastei para longe – Deixa lá o miúdo. É daquelas oportunidades de ouro que não se devem negar a ninguém.

- Mas tipo é um tosco – Respondeu o irmão que sendo mais velho, tinha uma tendência inata para se meter onde não devia. – Nem sabe o que há-de fazer…

- Deixa-o! – Insisti – Sem dúvida que ela está quilómetros à frente, mas se não for desta vai ser da próxima. De qualquer modo tenho para com ele uma dívida de gratidão. Se não fosse isto, não teria nada para escrever na segunda-feira.

Música de Fundo
“Põe a Mão no Ar”Mundo Secreto

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

É melhor Dada que receber
- Por alguma razão a primeira palavra proferida pela maior parte das crianças, é “Dada”… -

Têm decorrido neste blog os festejos da “Semana Dada”, iniciativa despoletada pela necessidade de dizer coisas sérias de modo idiota; o que convenhamos é muito melhor do que dizer coisas idiotas com um ar muito sério (algo que não é Dada, mas que influi notavelmente na minha selecção de leituras).

E sem dúvida que é a semana indicada para estas comemorações, pois para culminar todo este delirante frenesi editorial, realizar-se-á hoje o grandioso magusto na mansão de meu amo; o que como todos devem calcular, é um evento tão espectacular como o render da guarda no palácio de Buckingham mas sem os gorros de peluche.

Mas voltemos ao magusto que já se está (embora só comece lá para a noitinha) a revelar igualmente dadaísta.

Nós tínhamos um javali. Ou melhor, meu amo disse que iria ao Alentejo buscar um para servir ao jantar; e eu já me imaginava como nos livros do Asterix a dar bordoadas no bardo, enquanto os canalizadores chocalhavam as suas jardineiras debaixo da bola de espelho ao som dos Scissor Sisters (o “China” disse que ia levar o CD). Infelizmente como quase tudo na Construção Civil, a história sobre o javali foi substancialmente exagerada.

Nem sequer o mataram. E quando lhe poude dar uma mirada mais atenta, descobri que também não se tratava de um porco preto (- mas é arraçado de preto... – Disse meu amo, como se falasse de alguém conhecido); parecendo-me que as partes mais escuras eram apenas sujidade.

Como nisto do que se come não devemos ser muito esquisitos (a não ser que estejamos a falar de sexo), achei por bem não protestar demasiado e perguntar-lhe apenas como iríamos degustar o porco (arraçado de preto), encontrando-se este ainda vivo.

A resposta que recebi ultrapassou as minhas melhores expectativas. Pois segundo a informação que ele me deu, tencionam matar o animal durante o dia para o servir à noite; sendo a execução nos terrenos onde se vai realizar a festa (eu imagino as broncas que vão acontecer mesmo antes de eu lá chegar). O que dá tanto material para post, que a minha vontade era mandar o trabalho às urtigas e arrancar já para o evento.

Infelizmente tal não me será possível, mas mesmo assim penso que ainda se darão após eu chegar, acontecimentos insólitos suficientes para preencher o post de segunda-feira.

Nessa altura e se eu não estiver ainda em vinha-d’alhos, talvez me sinta suficientemente inspirado para proceder à entrega do troféu “Corno Patético 2006”; atribuído ao ser mais arrogante e que mais baixo tenha caído este ano.

Eu sei que se trata de uma competição bastante renhida mas é como no Highlander, “There can be only one”.

Bom fim-de-semana, malta!...

Música de Fundo
“Mr. Motherfucker”Murderdolls

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Poemeto Dadaísta do desejo reprimido, ou da falta de tesão se não tomar comprimido
- Uma breve incursão no mundo poético e alucinado dos Dadaístas, mas com um pé na realidade pois temos que estar sempre a pau (cada um agarra-se ao que tem) -

Chegou finalmente o dia
E o sol voltou a brilhar na sua melancolia
estavas tu a regressar
da casa da tua tia

Trouxeste contigo a brisa e o perfume do passado
Tiveste um pouco de azar
pois eu estava constipado e não te quis nem cheirar.

Faz-me falta o sol de outrora que te alumiava o traseiro
Tanta falta como a fome

A fome que te comia no meu olhar desvairado
Sendo tu um Bollycao
com o prazo ultrapassado

Mas tenho fome de ti
Do sorriso radiante… do farfalhudo pi-pi…
E da voz entediante que me afastava de ti

Tenho fome do instante
Quando sentavas aqui.

Vira-te!

Nota: Este poemeto (se assim lhe podemos chamar) é dedicado a todos os poetas da blogosfera. Aos que não são publicados, aos publicados e premiados, e mesmo áqueles que gastam um dinheirão para se publicarem a si próprios.

Música de Fundo
“Dinah-Moe Humm”
Frank Zappa


segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Segunda-feira. Dia 6
- Há algo de mágico nas segundas-feiras. O mais certo é ser sono… -

Quando cheguei à cafetaria da Dona Odete já todos festejavam a condenação de Saddam Hussein. Não porque a clientela tenha algo contra o iraquiano, mas porque o tipo é a cara chapada do chefe da família Maia aqui do bairro (é uma espécie de franchising para ciganos, pelo que me tentaram explicar uma vez).

Em conjunto com o “China” tentei acalmar os ânimos da populaça que se regozijava antecipadamente; havendo até um deles que já treinava “nós de marinheiro” com o atilho das calças do fato de treino (existem imensos desportistas aqui no bairro).

A Dona Odete declarou judiciosamente que o facto de o tipo fazer lembrar o “Rei da T-shirt”, não deveria pesar na avaliação do júri. Principalmente porque seguindo a tendência em voga por estes lados, ir-se-iam realizar os receios mais profundos da malta do Bairro Amarelo; que seria atribuírem a Saddam Hussein o rendimento mínimo em conjunto com a oferta de um T2 no bloco de apartamentos da zona oeste.

Sem dúvida que a manhã não começava sob os melhores auspícios. Mas também o que é que se pode exigir de uma chuvosa segunda-feira em Novembro?...

Entrei no gabinete e atirei o blusão para cima do estirador (que nunca uso pois está atafulhado com papelada que meu amo finge perder), dedicando-me de seguida a alimentar os peixes que no aquário já saltavam a pedir comida (não sei se é devido ao ritual ser cumprido com regularidade, mas cada vez que entro e acendo a luz eles saltam como se estivessem fartos de água).

Por momentos relaxei o espírito, enquanto me entregava à calmante tarefa de poluir o aquário com os nauseabundos flocos, que servem de alimentação aos meus peixes-mutantes (já vos falei deles há algum tempo); quando alguém se endereçou a mim numa voz sumida que vinha da sala de reuniões – Chefe, tem alguém aí consigo?

Da penumbra destacou-se a cara de Miss Entropia, suficientemente preenchida por equimoses e esfoladelas para servir de modelo ao cartaz do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. – Então? – perguntei – Foi desta que ele se cansou das suas piadinhas sobre canalizadores?

- Oh chefe… - Confessou a infeliz em voz chorosa – Coloquei ontem uma máscara de argila, mas adormeci a ver televisão; e pela manhã esta estava tão rija que tive que pedir ajuda a uma vizinha para a tirar.

Após um café e vários kleenex, lá consegui ter acesso à versão completa da história. Miss Entropia tendo o marido a trabalhar fora, aproveitou para seguir um regime de beleza no Domingo; e após um banho repousante colocou a máscara de argila, deitando-se de seguida no sofá da sala até que fosse altura de a retirar (o que segundo o verso do pacote, seriam aproximadamente dez minutos).

Só que não contou com a conotação sedativa inclusa no termo “sofá”.

Após lutar desesperadamente com a imagem semi-embriagada de Fernando Mendes que teimava em cambalear pelo ecrã afora, caiu num sono profundo e repousante do qual só acordou por volta das sete da manhã. Mas nessa altura já pouco havia a fazer para minorar os estragos.

Ainda tentou amolecer a máscara com água, mas o único resultado foi ficar a parecer-se com uma infeliz vítima das cheias; coisa que deveria ter refreado a sua tendência para pedir socorro à vizinha do lado.

Esta após um susto que quase a levou aos braços do Arcanjo Gabriel, lá conseguiu livrá-la da maior parte do barro; utilizando uma faca de sobremesa e um daqueles maços de madeira próprios para comer marisco. Mas a cútis de Miss Entropia iria ficar afectada pelo menos por alguns dias, pois apesar do de todo o cuidado e do creme gordo (da Barral) em doses maciças, a sua cara ficara a parecer-se com as daqueles exploradores que se perdem na Antártida e só são encontrados na Primavera.

Mas ainda ela me contava o resto da sua odisseia, e já o meu espírito vagueava por outras regiões.

Imaginei que Saddam Hussein por exigência da comunidade internacional, via a sua pena comutada em prisão perpétua. Mas os americanos não gostando de ser contrariados levavam-no para uma prisão de alta segurança, onde o obrigavam a usar uma máscara de argila para não ser reconhecido pelos outros reclusos.

Durante anos o ditador definharia na sua cela esquecido por todos. Comentando-se entre os guardas que o tipo da cela 23, deveria ter cometido algo particularmente horrendo para que o sujeitassem a tão cruel tortura. Anos após a sua morte ainda a cela teria fama de mal assombrada; pois quando a lua cheia incidia nas torres de Guantanamo, havia quem jurasse ouvir a voz sumida de Saddam Hussein suplicando por creme hidratante…

Hummmm… Será que eles aceitam sugestões?

Música de Fundo
Cream” – Prince

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

O Império do Chá…
- Um post sobre a falta de chá na história pátria, mas onde não falta acompanhamento; especialmente para quem apreciar bolo-rei –

No princípio era o rei.

Afonso Henriques comia com as mãos e arrotava que nem uma besta, mas sempre o desculpavam por causa dos territórios conquistados aos Mouros; e também porque o tipo além de ter a mão pesada, aguentara com a tal famosa “espada dos quatro homens” até se estabelecer por conta própria.

Corriam tempos bárbaros em que por “dá cá aquela palha” se cortava o nariz a qualquer um. O que até nem era mau, atendendo ao enorme fedor que eram os esgotos a céu aberto. Mas estava-se na época medieval e ninguém levava a mal (ou pelo menos ninguém sobreviveu para me contradizer).

Mas adiante.

Os tempos mudaram. E com essas mudanças vieram as benesses características do progresso; como o bitoque, os impostos e o massajador facial movido a pilhas alcalinas. O nosso país encarava o futuro com o optimismo ignorante de um militante do PC.

Sendo a felicidade mais difícil de agarrar que um porco ensebado, era garantido que a coisa havia de encalhar em algum sítio. E então quando começávamos a ficar verdadeiramente civilizados, aboliram a monarquia (e com ela “aboliram” também o rei; que naquela altura não eram tão estúpidos como os seus émulos de 1974).

Foi um descalabro, pois os republicanos além terem a mania de ir fazer barulho para o Largo dos Restauradores até altas horas, cuspiam para o chão e a maior parte deles até trabalhava nas obras (tal como aqui este vosso humilde narrador).

Só mais tarde quando Salazar subiu ao poder a nossa educação melhorou substancialmente. Porque além da política do “pobrezinhos mas ónéstos”, o seu maior cuidado foi contratar uns senhores muito dados à pedagogia e que usavam gabardina mesmo no Verão, para se poderem distinguir do inculto povo que era mantido no analfabetismo; evitando assim que tivessem vergonha da sua “labreguice”.

Infelizmente a perfeição não existe.

Vindo do Ministério da Marinha onde nem os contínuos o queriam aturar, o Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz (conhecido pela carinhosa alcunha de “cabeça de abóbora) logo cativou o coração do povo; pois na realidade parecia-se com um enorme nabo vestido de marujo, e nós na altura vivíamos num país de agricultores (agora é mais “os tomates).

Durante alguns anos fomos a piada favorita da comunidade internacional; mas ninguém se importava muito pois a malta aqui também se ria à brava, com as charlas e momices daquilo que na altura era conhecido como “Presidente da República”. Só os comunistas (e alguns socialistas) que eram uns tipos com muito pouco sentido de humor, não estavam a gostar nada da festa porque já nem em Moscovo nos levavam a sério.

Resolveram então fazer um golpe de estado; endrominando os militares com promessas de aumentos e pagamento de horas extraordinárias.

Mal o último avião abandonou a pista com o último industrial e a última mala cheia de notas, passámos a ser livres; mas continuávamos pobrezinhos e ainda um pouco mal-educados (quanto ao “ónéstos”… chapeau).

Estava-se na época do Copcon em que todos podiam usar camuflado, desde que fossem membros de um partido revolucionário; claro. E como épocas desesperadas exigem medidas desesperadas, colocou-se no poleiro um general histérico que nem uma corista, mas que tinha a vantagem de desviar a atenção de tudo o resto; inclusive a nossa “falta de chá”.

Passaram-se pouco mais de dez anos até chegar ao poder o primeiro “tecnocrata” (que como toda a gente sabe quer dizer “indivíduo igualmente inculto mas com uma pasta à diplomata). Nessa altura todos pensámos – “finalmente vamos ser um país bem-educado

Não poderíamos laborar em maior erro.

Apesar de ter "devorado" toda a vasta obra de Paula Bobone, a coisa não evoluía. As suas gaffes sucediam-se, desde divertidos deslizes verbais até a caretas dignas de um Rodney Dangerfield; e a situação ameaçava complicar-se.

Já em desespero de causa optou-se por uma solução menos radical que as anteriores. O que consistiu em enviar o sujeito novamente para a escola, onde sucessivas turmas de jovens da melhor extracção tentaram durante anos polir o diamante bruto; e inclusivamente adestrá-lo na nobre arte de comer bolo-rei.

Após algumas legislaturas de péssimos governantes mas com pouco peso no humorismo nacional, o povo que já não era tão mal-educado como antigamente (pois já tinha literatura light e blogues), decidiu dar-lhe uma nova oportunidade chamando-o à ribalta; após uma pequena inspecção, que incluiu dançar o corridinho sem entornar um pires de caracóis equilibrado na moleirinha.

Estava (pensávamos nós) lançada a fundação de um Portugal diferente; onde o exemplo mais marcante iria ser a transformação de um tipo que durante os discursos cuspia pelos cantos da boca, num serafim de olhar calmo e modos discretos. E assim foi durante um tempo, até ele descobrir a infanta “embaraçada”.

Foi por esta altura que eu comecei a ter saudades de D. Afonso Henriques…

Música de Fundo
“The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table”Rick Wakeman

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Ceci n’est pas un Post

A falta de assunto pode às vezes fazer-nos escrever coisas como “A angústia do blogger antes de um post”, ou “Quem sou? Para onde vou? Terei combustível que chegue?”; só que desde sempre tenho combatido a tendência para o que apenas ocupa espaço.

Hoje teria sido o dia ideal para escrever algo sobre os “meus mortos”, e de como gostaria de os homenagear à boa maneira mexicana (a minha favorita) com tequilla e caveiras feitas de açúcar colorido; mas eu não preciso deste dia ou de qualquer outro para me lembrar seja do que for.

Não verdade não me apetece escrever. Seria o desperdício de um bom feriado tê-lo ocupado a combater a inércia das palavras, ou a espremer a paciência até que algo eclodisse com a estranheza de um ovo de ornitorrinco.

Por isso saí, respirei o ar que se tornava cada vez mais húmido num prenúncio de chuva, e decidi reler “Viagem ao Fim da Noite” de Céline.

Vou deixar aos mortos, o seu dia… Eu estou vivo e vou jantar!

Música de Fundo
Turn Me On” – The Tubes

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