domingo, 28 de dezembro de 2008

O Último Aniversário do Ano
- Onde não se demonstra absolutamente nada sobre seja o que for; objectivo este alcançado por via do espírito natalício e outras filosofias fisicamente incapacitantes -

Hoje quando acordei não fazia a mínima ideia de qual o dia em que estava. Tentei concentrar-me e evocar acontecimentos que me situassem nas coordenadas temporais com que classificamos os dias, mas nada a fazer.

Estava perdido no tempo.

Normalmente esta é uma afirmação que é seguida de um enorme alarido, pânico e fuga em todas as direcções. Mas eu tinha acabado de acordar; e essa não é altura que permita grandes arranques ou tiradas extensas sobre a nossa periclitante situação na matriz do tempo.

Virei-me para o outro lado e dormi mais um pouco.

Ao acordar pela segunda vez, o meu subconsciente já se encontrava preparado. Abri o olho esquerdo que se encontrava directamente apontado para o minúsculo calendário do relógio de pulso, fechando-o logo de seguida para digerir a informação – 28. Estamos a dia 28.

Comecei a sentir-me invadir pela culpa, como um pano que a chuva vai encharcando. E quanto mais o tempo passava sem que eu o dissesse a mim próprio, mais encharcado em culpa me sentia. – Era dia 28 (e não 27 como eu poderia afirmar sob juramento) e ainda não tinha feito o post de aniversário para a Vanus de Blog.

Estava metido num lindo sarilho.

Para mais não me lembrava de nada que não fossem as ocas e gastas fórmulas de cortesia para estas ocasiões – Tu és para mim quem mais… (pois é, vindo do tipo que se esqueceu da data… até parece a sério).

Por isso creio, querida Vanus de Blog, que o post de aniversário este ano vai ser um pouco diferente. Não me vou alargar em rasgados elogios sobre a relação única que temos ou pela raridade que é encontrar alguém com quem se possa estar como connosco próprios.

Não vou sequer repetir (mais uma vez) que além de tudo o mais és também a minha melhor amiga. Vou apenas deixar-te os meus parabéns.

Sim. Porque nesta altura, só tu conseguirias fazer-me vir aqui para escrever um post.

Música de Fundo
The Killing Moon” – Echo and the Bunnymen
LINK para o clip

domingo, 21 de dezembro de 2008

A 51ª Contagem
- Porque é que os meus aniversários já não são o que eram antes… -

Nunca vi grande piada nos meus aniversários.

E apesar de em algumas fotos antiquíssimas se conseguir ver um miudinho de olhos brilhantes e maravilhados, a soprar as velas de um bolo na companhia de sorridentes convivas. Penso que esse sentimento seja algo que acaba por ficar para trás; juntamente com as pistolas de fulminantes e o famoso estetoscópio do Dr. Kildare.

Ah, o estetoscópio do Dr. Kildare… Desde essa altura que tenho consciência do papel importante que a medicina representa para a humanidade.

Ou que pelo menos representaria para a miúda do 5º andar; para quem apesar de sempre se ter recusado a brincar aos cowboys, bastou uma tarde mostrar o famoso estetoscópio recém-oferecido, para se transformar numa simpática “paciente” desejosa de colaborar com os “avanços da medicina”.

Mas exceptuando as minhas incursões no mundo do pó-de-talco, pouco posso abonar em favor dos meus aniversários (apesar de mais tarde ter algumas vezes recebido “prendas” similares que me agradaram imenso).

Talvez o episódio mais marcante relacionado com um aniversário meu, tenha sido o incidente Nº 18 passado em 20 de Dezembro de 1975. Morava eu já em Almada, essa bela localidade.

Era sem dúvida uma noite destinada a marcar uma época, e em que nada tinha sido deixado ao acaso. Excepto talvez o facto de ter fechado a janela da casa de banho pois era Inverno e estava um frio de rachar.

O velho esquentador Vaillant de 5L que tínhamos na casa de banho, parecia assim uma espécie de mochila de astronauta em exposição na parede de azulejo branco do Museu Guggenheim. Mas a metodologia para o fazer funcionar era assaz fácil; acendia-se um fósforo e abria-se a torneira por onde sairia a água quente. Uma espécie de inócua troca alquímica, aparentemente sem resíduos ou efeitos secundários.

Só que aparentemente estava escrito que eu não iria gastar nessa noite a embalagem de preservativos, que comprara à tarde na candonga.

Limpava-me eu calmamente à toalha turca e imerso em prazenteiras antecipações, quando comecei a sentir muito sono.

Correcção. Na verdade mal comecei a sentir sono já me encontrava em queda livre na direcção do chão; que à época era composto por uns horrorosos mosaicos verdes, onde uns tipos escuros e nus caçavam perus com lanças.

Pelo menos foi o que me pareceu. Mas poderia estar enganado, pois segundos depois perdi o conhecimento; exactamente na altura em que o meu cérebro descobriu, que aquilo que o sangue lhe levava não era oxigénio mas sim monóxido de carbono.

Eram quase horas de jantar, e a minha mãe ao chegar a casa estranhou que ainda me encontrasse entretido com os meus cuidados pessoais, em vez de ter desarvorado em direcção ao que quer que fosse que eu fazia até tão tarde (as mães têm um imaginário maravilhoso, mas um pouco limitado no que diz respeito ao que os filhos fazem).

Como se ensina a toda a gente desde tempos imemoriais, “em caso de emergência chama-se um vizinho”.

Calhou a vez ao Zé Manuel que vivia no rés do chão e trabalhava - tal como eu e o meu pai – na indústria naval. E que me prestou os primeiros socorros enquanto o meu irmão ia a correr chamar o marido da Dona Glória do prédio ao lado, para me transportar ao Hospital (velho) de Almada.

A noite do meu 18º aniversário ficou famosa na vizinhança pelo seu conteúdo dramático. Nomeadamente devido à imagem deste vosso narrador, transportado nu como Marat saído do banho para o banco traseiro do Opel Kapitän de 55, onde o Zé se afadigou na respiração boca a boca; enquanto a Rua Capitão Leitão era percorrida vertiginosamente por um bólide em formato de pão alentejano.

Acordei algumas horas mais tarde apenas coberto por um lençol e com um tubo enfiado no nariz, frente a uma sorridente enfermeira que me desejou feliz aniversário e me estendeu a roupa que os meus pais tinham trazido. Acabando por me aconselhar amávelmente - Beba leite, que ajuda a passar isso!...

Não sei se foi por ter perdido a bela noite que tinha preparada, ou por em vez disso ter sido transportado nu para um automóvel e beijado na boca por um metalúrgico. O certo é que desde essa altura, nunca mais achei a mesma piada aos meus aniversários.

Música de Fundo
20th Century BoyT. Rex

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Fobia dos Claustros
- Onde interrompo o meu Auto-Exílio administrativo, mas por uma boa razão… -

Francisco de Blog (o Metropolita de Lagos) festejou ontem mais um aniversário; e eu (talvez devido à minha provecta idade) não me apercebi do facto. Não fosse a nossa amiga comum Vanus a lembrar-me, e ainda aqui estaria em olímpico alheamento.

Não há muito a dizer quando duas pessoas se conhecem por meios electrónicos; especialmente porque tal veículo raramente dá uma percepção fiável sobre a pessoa ou avatar com quem lidamos.

Mas o Francisco é um dos meus leitores/comentadores/confrades mais assíduos, assim como possuidor de uma sensibilidade artística e um bom gosto invejáveis (não conheço mais ninguém que compartilhe a minha admiração por Edogawa Rampo). É difícil pois fazer votos para alguém que consideramos tão exigente e ao mesmo tempo tão merecedor como nós próprios.

Por isso, venho aqui apenas para te dizer - Parabéns Francisco!

Música de Fundo
Children of the Revolution” – T. Rex




segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma “Espetada” de Posts
- Sequencia de pequenos textos em rajada, com música de fundo e vídeo final. Ficando a simples advertência que dificilmente haverá mais durante cerca de duas semanas. Feliz Natal! -

1

L'Importance D'être La Palice
- As verdades são como os cus. Nem todas cheiram bem, mas tarde ou cedo acabam por assentar… -

Do mesmo modo que nos anos oitenta o jornal “O Diário” era (segundo o seu grito de guerra transcrito logo abaixo do título) a “verdade” a que os PC’s tinham direito, os deputados do PSD são actualmente aquilo que o partido e a sua direcção merecem.

No fundo, muitos deles concordam com o projecto-lei do PS sobre a avaliação dos docentes; e demonstraram-no ao se recusarem a votar contra, tendo-se “baldado” sub-repticiamente ao emprego nesse dia.

2

O Natal de Blog (The Beginning)
- A génese do Natal de Blog explicada às criancinhas; em formato de conto infantil. A transmitir aos Domingos, depois da missa da TVI onde aquelas senhoras de sobrancelhas grossas entoam cânticos com voz fininha -

A história da Virgem de Blog no tempo em que vivia com um senhor impotente. O que lhe permitiu ficar virgem até à chegada do Espírito Santo (que trabalhava num banco), e de como este cometeu o erro de se transformar em pombo sendo atingido a tiro de “flóber” pela virginal criatura que detestava “ratos com asas”.

É por isso que o crucifixo de Blog tem um pombo, em vez de um judeu barbudo com ar dorido… Quanto à ruptura da referida membrana, só é relatada no penúltimo episódio (para fazer render a fé).

3

Diálogos Cruéis
- Proposta para série de pequenos “sketches” a transmitir em horário nobre, de modo a contrariar o mau hábito que algumas pessoas têm de ver televisão durante as refeições –

Ela – Vocês homens são todos iguais!...

Ele – Ainda bem! Pelo menos em caso de engano sempre temos mais por onde escolher a seguir.

Música de Fundo
Tear You Apart” - She Wants Revenge
(LINK para video)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

(O mês de Dezembro é um dos mais atarefados no ramo da construção. Pois é altura de retribuir favores, oferecer lembranças e pagar subornos. Por isso, desculpem lá o mau jeito; mas aqui vai um repost de 2005 em homenagem ao congresso do PCP)

*

Piqueno Poema Pessoal (PPP-ML)
- “Passear por estes campos à beira das coisas, é um supremo bem que não se alcança, senão a caminho do nosso destino.” (Ruy Cinatti) –

Fui punk fui comunista
falei alto e baixei crista
abdiquei da liberdade
ao embarcar numa lista
mesmo assim perdi o tacho
pois não era um bom sacrista

Em Lisboa fui Pessoa
fui Pessanha quase em Espanha
e só não fui Sá-Carneiro
pois não gosto do Barreiro

Fui Ary no Piaui
fui Espanca em Vila Franca
até fui Gaspar Simões
apesar das comichões

Tive lutas sindicais
com empregadas lascivas
converti-me aos capitais
passei férias nas Maldivas

Do Mário Henrique Leiria
ficou-me o gosto pelo Gin
gritei com Almada Negreiros
“morra Dantas, morra pim…”

Quis ter uma livraria
queimei dinheiro em papel
mas conhecia poetas
e então abri um bordel

Música de Fundo
Last Good Day of The Year” – Cousteau

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Tecnocrata é a puta que o pariu!...
- Post de político Escárnio e Maldizer; ou o que diria o Pai Natal se lhe perguntassem sobre o PSD… -

Conheço esse PSD desde que nasceu e nunca foi boa rês. O pai dele (que já morreu; e que Deus o guarde, não vá ele ter ideia de voltar…) fez a sua última acção meritória naquele dia de 1973; em que juntamente com outros deputados liberais, abandonou a Assembleia Nacional numa ostensiva forma de protesto.

O meio e final dos anos 70 foram uma das melhores alturas para quem se quisesse fingir social-democrata. E foram esses (e não os 80, como sustentam alguns estudiosos da matéria) os anos dourados do PSD; em que todos acreditavam que aquela mania do cor-de-laranja reflectia modernidade e inovação; em vez da simples incapacidade para distinguir subtis diferenças cromáticas.

O PSD tinha pois nascido daltónico por uma cruel determinação genética; tendo à sua frente uma agreste existência pautada por penosas incapacidades e insuficiências, até que essa doença degenerativa que lhe dera o nome o devolvesse ao caldo bacteriológico de onde um dia saíra por puro capricho do caos.

Nos anos em que eclodiram alguns dos mais significativos surtos de PSD, deram-se também aparições de proeminentes figuras que revelariam com a sua existência, o conteúdo dessa verdadeira chamuça política; que temos deglutido sem qualquer interrogação sobre a qualidade dos seus ingredientes.

Deixem-me aqui abrir um parêntesis, para explicar esta teoria que tenho vindo a desenvolver desde os tempos da minha juventude.

Os políticos são como as borbulhas “de cabeça”, pois basta “espremê-los” um pouco para logo vermos esguichar toda aquela merda com que os enchem no seu local de origem (seja ele qual for). Mesmo os independentes evitam colocar-se em situações de excessiva pressão política; pois como devem calcular, ninguém gosta de mostrar aos outros a merda de que é feito.

Ainda me recordo da primeira leva de políticos do PSD, que em relação aos actuais tinha como grande vantagem, a aparência de possuir objectivos e planos para eventualmente os atingir.

O último político dessa classe foi Cavaco Silva. Que apesar de afectado por sérios atavismos (como a incapacidade para eliminar com rapidez migalhas de bolo-rei), logrou findar a sua existência nesse calmo “cemitério de elefantes” a que dão o nome de Presidência da República. Encerrando assim uma era de políticos completos (apesar do seu “recheio” duvidoso), e dando lugar à actual situação que mais se assemelha à Feira da Golegã; mas com cavalos mancos.

Aliás todos eles se encontram num estado tão lastimável / lastimoso, que seria um dever de caridade cristã (ficamos pois a aguardar a “boa obra” de algum Democrata-Cristão) abreviar misericordiosamente a sua existência política; e enviá-los para o “Céu dos Políticos” onde todos os dias são de reconhecimento, e todos têm um lugar de gestor em empresas participadas pelo estado.

Longa é a lista dos infectados, mas poucos deles são ainda recordados. Escapando talvez os mais mediáticos como o comentador Marcelo que (por “necessidades” de campanha eleitoral) decidiu um dia mergulhar no Tejo, acabando por provar para a ciência que a contaminação por coliformes fecais pode atingir o cérebro; isto se o órgão for de tamanho suficiente para despertar o interesse dos simpáticos microorganismos.

Na mesma classe de virulência temos o caso de “El Presidente”; um escorregadio animal político originário do MRPP que não confiando na solidez do cargo de Primeiro-Ministro, o trocou pela presidência da CE alegando incapacidade para o cumprimento das obrigações salariais por parte do país (que estava como ele dizia “de tanga”).

Na mesma categoria dos infectados mas sendo claramente mais popular, temos “O Eterno Sobrinho”. Também conhecido pelo carinhoso epíteto de “Menino Guerreiro”, o Eterno Sobrinho é um misto de irresponsável “ai Jesus” das tias, e simpático vigarista tão em voga nos filmes franceses dos anos setenta.

Não sabendo fazer contas, tem uma péssima memória que amiúde o coloca em situações caricatas; das quais apenas consegue escapar mercê da simpatia despertada nas velhinhas e nas debutantes, que são o seu principal público-alvo. Entre os aqui apresentados trata-se – pensamos – daquele que suscita mais simpatias, pois devido ao facto de não ter tomado qualquer iniciativa durante os seus mandatos políticos, dá a ilusão de ser alguém a quem não se conhecem insucessos ou fiascos de maior.

Para terminar esta galeria de estranho casos políticos temos a “soturna máscara da morte”; que ao contrário do que o nome possa sugerir, é apenas alguém possuidor de uma tímida alma poética e que no fundo apenas quer ser amada (o que começa a tornar-se cada vez mais difícil, à medida que vai soltando bujardas indiscriminadamente durante tudo o que é entrevista).

Este último caso cuja severidade se tem manifestado publicamente nos últimos tempos, tem sido agravado por cruéis ataques de coerência que em nada ajudam a paciente.

Esta instada a fornecer resposta para diversas interrogações, é compelida pela “condição mental” a verbalizar os seus verdadeiros pensamentos, coisa que a torna num sério risco para a restante comunidade; que encara aterrorizada a perspectiva de se espalhar esta infecção, e vir a generalizar-se um dia o hábito de dizer o que se pensa durante as entrevistas.

Sabemos que mesmo partidos cuja linha política pouco tem em comum com a do PSD, desenvolvem neste preciso momento investigações no sentido de debelar esta perigosa “afecção laranja”, que ficará para sempre conhecida como SFL (o síndroma Ferreira Leite), ombreando com flagelos tão conhecidos como a SIDA e o Crédito Mal Parado.

Por alguma razão desconhecida e para gáudio do PCP e BE, os partidos de esquerda não parecem ter sido afectados por esta compulsão para dizer o que pensam. Possivelmente um resultado de imensos anos de treino e “programas de vacinação”.

Agora desculpem, mas tenho que ir embora antes que comece a falar de Pacheco Pereira; que isso são logo mais outras três ou quatro páginas.


Música de Fundo
Cantiga para Pedir Dois Tostões” – José Mário Branco

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Insuspeito Post de Segunda-Feira
- Onde quase se demonstra que segunda-feira é o dia ideal para coisas novas, como maledicência política, reminiscências marotas e envio de parabéns. Ou seja, tal e qual como qualquer outro dia… -

Deveria ver aqui hoje a luz do dia, um post sobre os representantes do PSD através dos tempos; e de como algumas proeminentes figuras da actualidade lidaram no passado com situações de crise (tendo alguns deles inclusive, sido os causadores dessas mesmas situações de crise).

Mas como entretanto fui dar uma volta pela minha blogosfera habitual, cheguei à conclusão que o mundo já tem tristeza que chegue mesmo sem nos dedicarmos a desenterrar esqueletos da politiquice. E decidi assim dedicar-me a coisas mais alegres.

Há muito tempo não fazia um post de aniversário, e normalmente manteria o meu saudável mutismo em relação ao assunto se desta vez não se tratasse da Maria Árvore.

Ah, os aniversários… Todos nós termos escondido em qualquer recanto poeirento das nossas memórias, uma ou outra recordação de um aniversário inesquecível.

Quer seja aquele em que recebemos o “Conjunto Bonanza” com estrela de sheriff e fulminantes incluídos, ou o outro em que a prima Carminho decidiu finalmente que já seria altura de nos iniciar nos prazeres da carne… Bem, continuando. Qual de nós não tem boas recordações de um ou outro aniversário?

Os aniversários além do simbólico paralelismo que têm com o retorno ao conforto do útero materno, são acima de tudo a comemoração do júbilo que é estar vivo.

E é a alegria de estar vivo que venho hoje aqui festejar. A alegria com que a Maria Árvore diariamente gasta os trocos do seu tempo, naquela colossal Jukebox que é a vida (Sei que é um pensamento muito “rockabilly”, mas era isso ou Zen. E eu hoje não estou para aí virado.).

Por isso, depois deste pequeno salamaleque… Um beijo, e Feliz Aniversário, Maria Árvore.

(Como prova do meu apreço, envio-te igualmente a foto de um genuíno “Mocinho das Obras”)

Música de Fundo
She Wants to Move” – N.E.R.D.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Memórias encontradas num fogareiro
- Onde se descobre que o pó que anda pelos ares e em tudo pousa, são segundos amealhados e perdidos que esqueceram a sua utilidade -

Após vários anos de submersão no vasto oceano de tralhas que a minha mãe ainda insiste em guardar (… é uma recordação, filho. Daqui a uns anos, vais gostar de o ter guardado…) o velho Hipólito Nº 2 apareceu finalmente; como um submarino naufragado que ganha por fim a superfície, após várias décadas de frígido exílio nas profundezas do oblívio.

Trazendo com ele uma tripulação de memórias; quais marinheiros de olhar glauco e pele macilenta, libertos finalmente do seu encharcado limbo. Amortalhados na edição de sexta-feira dia 9 de Março de 1984 do igualmente defunto Diário de Lisboa.

Em “cross-reference” com o emergir do velho Hipólito, salta-me sempre aquela passagem de “A Morte é um Acto Solitário” de Ray Bradbury; em que o personagem principal ao manusear uma gaiola vazia, lê inadvertidamente no jornal que forra o fundo, a notícia da invasão da Abissínia por parte de Mussolini. Mas hoje em dia estas palavras de sonoridade estranha, apenas fazem lembrar uma qualquer marca de lasagna pré-congelada ou tortellini.

Voltando a Março de 1984; data em que Hipólito se torna finalmente “underground”.

Lembro-me bem desse ano porque teve coisas estúpidas e coisas excitantes; algumas delas com doses iguais de ambos atributos.

Lembro-me (embora não venha nesse número do DL que “apenas” custava vinte escudos) por exemplo, que o livro mais vendido nesse ano foi “mil novecentos e oitenta e quatro” de Orwell. Sem dúvida que não terá sido o mais lido, mas ficava bem ter na estante um livro que falasse do ano em que se estava. Se bem que, pelo que se vê, ninguém tenha dado muita importância à mensagem que ele tenta transmitir.

Apesar de tudo, na primeira página e em seguimento às acções que o governo previa tomar em relação à insegurança causada pelo caso FP25, o editor punha a seguinte interrogação – “Até que ponto, a pretexto da segurança pública, será vigiada e controlada a liberdade individual?

Tal como sabemos agora, até ponto nenhum!

Arno Mikola levava um segundo de vantagem sobre Markku Allen. Mas também, com um velho Audi Quattro não se podia esperar muito…

Numa pequena resenha sobre outras publicações (Pag. 2), O Diário capitalizava mais uma das inúmeras gaffes de Mário Soares. Desta vez em visita ao Vaticano.

Na página quatro “Eanes aprofunda relações com três países africanos”. Embora tenha lido isto em diagonal, deu para perceber que a ideia de Sócrates em pegar num avião, atafulhá-lo com empresários e ir passear à conta do erário nem sequer é original. Tal como também não é original a ausência de resultados práticos, dessas mesmas visitas.

Por sua vez, Mário Soares (Primeiro Ministro) iria ter um encontro com Perez de Cuellar para “uma abordagem da questão de Timor” (LoL).

Títulos Avulsos

- “Chirac quer ingleses fora da Europa agrícola

- “Crédito ao sector primário privilegiado em 1984 – Anuncia o Banco Pinto & Sotto-Mayor

- “Têxteis: mais de 10 mil despedimentos em 1983

(No Teatro de S. Luiz a Orquestra Sinfónica da RDP, interpretava às 17h. o Concerto Nº 20, K. 466 de Mozart. Assim… Só o apelido, como se fosse o Silva da Loja de Penhores; era o tu-cá-tu-lá com os compositores clássicos)

- “Preso do PRP já não come há 18 dias

- “As hemorróidas não são mais um problema. Com SPERTI’H, o inchaço, a dor e a comichão desaparecem” (Pag. 8)

Torres Couto no seu avatar de Lech Walesa meio diluído, dizia – “Não temos empresários à imagem da Europa” – Enquanto metade dos membros da Câmara do Comércio Luso-Alemã, cabeceava convulsivamente sobre as mesas; como alguém que tentasse sofregamente ler “Os Irmãos Karamazov” em tempo record.

Navios de guerra turcos no Norte do mar Egeu, dispararam sobre um navio da Marinha Nacional Grega; o “Panthir”.

No topo das preferências cinematográficas encontrava-se “Feliz Natal Mr. Lawrence”. “A Mulher em Chamas” de Robert Van Ackeren, estava há já três semanas no Quarteto. E representava-se “A Boa Pessoa de Setzuan” de Bertolt Brecht, no Teatro Aberto.

A TV então, era tão deprimente que me recuso a falar aqui nela. Talvez com excepção para “Yes Minister” que dava às quartas-feiras às 21 horas.

Isabel Lobinho expunha na Galeria Diário de Notícias, e Jorge Palma anunciava o lançamento de “Asas e Penas”; iniciando assim uma nova etapa no que quer que fosse que atravessava naquela altura.

Mário Castrim lá pela página 17, apelidava o futebol de “droga nacional”. Declarando num remate final – “Entre o imaginário carioca e o bestiário ianque, a RTP afasta-se de Portugal. E transforma-se em deserto habitado por fantasmas.” Era assim um bocado “à Pessoa”, mas fazia-se entender bem.

Estarrecido, descobri que metade das palavras cruzadas estavam preenchidas com a minha caligrafia. Sim, eu tivera esse tipo de hábitos.

A Casa da Sorte acabava de premiar os números 17.435, 50.939 e 19.792. Mas nunca foram o meu forte, os jogos de azar. Senão para que precisaria de sorte?

Ou era impressão minha, ou o pó do jornal começava a provocar-me alergia?...

Para o dia seguinte previa-se céu pouco nublado. Vento fraco ou moderado de Leste. Arrefecimento nocturno com ocorrência de geadas.


Música de Fundo
She's Lost Control” – Joy Division

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Olha o belo repost dois em um
- Traído pelos meus anti-corpos caio presa dos cruéis micróbios; que como todas as coisas pequenas, só mordem onde não devem… ( Desculpem o repost, mas a gripe não perdoa) -



Astronomia

Ás vezes anos-luz
medem-se em sorrisos.

E encurta-se o espaço
apenas com palavras.

Mas como tocar uma estrela
sem lhe ofuscar o brilho?

Ou sem ardermos nós em altas chamas…


*


Designações

O permanente dia de chuva que cobri com celofane colorido,
a quem chamo Verão;

O espírito batido pelo vento em exposta agorafobia,
a quem chamo Alma;

A muralha no caminho da erosão,
a quem chamo Corpo;

A parte de mim que morreu,
e por quem já não chamo…


Música de Fundo
Far From Me” – Nick Cave


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Reflexões em Queda Livre
- Todos os instantes são eternos. Mas a eternidade é relativa… -

Embora o mundo esteja (segundo alguns mais dados à arte dramática) à beira do caos, a vida segue aquele trajecto habitual que nunca me canso de observar; nem sei bem porquê.

Talvez inconscientemente eu sinta que assim, reforço com os outros uma ténue relação empática que me mantém humano. Ou então é apenas curiosidade… Mas eu nem sou gato a quem a curiosidade mate.

Enquanto muitos readquirem a serenidade na contemplação da natureza e seus prodígios, a mim basta-me a cidade. Pois não são os campos (criados talvez por um deus há muito falecido) que nos retratam, mas sim estas; construídas à semelhança de um desejo que na prática nunca resultará. Ou seja, a fiel imagem do espírito humano.

São este os pensamentos, que passam como farrapos de nuvens pelo meu cérebro semi-toldado por uma monstruosa constipação (pensamentos que escrevo “de memória”, é claro); enquanto acompanho distraidamente o evolucionar do miúdo “do Leste” no seu skate novo.

O miúdo é “do Leste” porque assim o decidi. Poderia ser até descendente de Afonso de Albuquerque, mas o facto de ser louro e de a mãe e a avó se parecerem respectivamente com Olga Korbut e Nikita Khrushchev é algo determinante no meu imaginário.

O outro ponto a favor da minha teoria é o carinho com que ele trata a prancha. Como se fosse uma “Alien Workshop Dyrdek Soldier”, e não algo que se compra por vinte euros já com capacete, cotoveleiras e joelheiras; dentro de um saco de plástico transparente. Ou então sou eu que sou preconceituoso e não se trata de nada disso.

Seja como for, estou-me nas tintas.

Os pombos de Blog, que passam o tempo a competir entre eles por migalhas de torradas, assustam-se com os meus espirros de ostentação desta espécie de gripe que adquiri sem saber onde ou como. Talvez seja apenas o sol, mas as ideias começam a fugir-me como ciclistas desgarrados por estradas secundárias.

Acabo a bica dupla e calço as luvas.

Do alto do selim consigo ver ao longe o Barreiro; e sobre ele um céu incrivelmente azul. Onde um qualquer passaroco incaracterístico estica as asas preguiçosamente, num possível treino para a próxima migração.

Contenho um espirro, coloco os óculos e inicio a descida da rampa em direcção aos meus destinos habituais. Novo espirro. O miúdo “do Leste” olha-me com uma expressão surpreendida.

Igualmente surpreendido estou eu. Porque o vejo a uma distância e altura em que não estava antes. Obviamente caí… E por um espirro…

Acho que ainda o ouvi dizer – “Na zdravie”.

Música de Fundo
Always the Sun” – The Stranglers

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Oito e meio
- O primeiro de uma série de posts absolutamente honestos; e que por isso mesmo só poderão ir sendo publicados muito esporadicamente. -

Adquiri há meses o hábito de não programar a escrita.

Assim, quando chega o dia em que tudo deveria estar editado e pronto a publicar, fico a olhar para a primeira frase plantada no topo da página, como um poste telefónico numa colina, e volto a perguntar a mim próprio qual a razão que me faz teimar em escrever como se tal me fosse mesmo necessário.

Já em miúdo era um puto teimoso; passando por via disso todo o tempo a meter-me em sarilhos. E embora possam pensar o contrário, isso foi uma coisa boa.

Não por causa dos sarilhos “per se”, mas devido à prática incessante de uma atitude que ultrapassando todas as leis e condicionalismos (excepto as “leis naturais”, que até nem são tantas assim), me conduz invariavelmente “à Solução”. Seja ela qual for, e doa a quem doer.

A certa altura em que me interessava pelas “Ciências Humanas/Sociais”, esse assunto preocupou-me meses a fio; e a possibilidade de ser um genuíno psicopata de pleno direito, era algo que não figurava entre as minhas principais aspirações na vida. Comecei pois a ter mais em consideração o “Factor Humano”.

Foi obviamente um erro que tive que emendar com carácter de urgência. Pois o “respeito”, a “civilidade” e a “consideração” eram (tal como hoje em dia) tomados como sinal de fraqueza de carácter; e visto que eu na altura estava apostado em ser um modelo de urbanidade, foi exactamente isso que acabou por me conduzir (após alguns episódios mais movimentados) de regresso ao modelo inicial que ainda hoje se mantém.

Mas o “modelo actual” sofre de algumas imperfeições praticamente incontornáveis. Uma das mais importantes manifesta-se quando algo que não tem qualquer objectivo ou utilidade, é no entanto mantido em actividade. Tal como este blog, que cada vez mais tenho a tendência de comparar ao invólucro de pele que alguns répteis vão deixando para trás, no seu sinuoso caminho para a eternidade.

Escrever sobre o blog é como escrever sobre escrever. - Uma espécie de “chover no molhado” que apenas serve para ir buscar outros assuntos; reminiscências de outros tempos, referências cruzadas ou apenas pequenos episódios de vidas já mortas.

A utilidade deste blog perdeu-se há muito. Na verdade apenas o escrevo (e continuarei a escrever) porque sou teimoso.

E se calhar, maluco também…

(Para a próxima vez, quem sabe, talvez vos conte uma linda história…)

Música de Fundo
Twisted Transistor” – Korn

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Onirolalia
- Afecção comportamental que consiste em um indivíduo não conseguir resistir ao impulso de falar dos seus sonhos a estranhos que frequentem os mesmos bares manhosos (Esta nova doença mental que acabei de inventar é totalmente “Royalty Free” para os leitores deste blog, que a poderão usar na sua vida quotidiana, ou mesmo para abrir um próspero consultório e viver disso) "–

Sonhei que o meu blog tinha morrido. Foi um choque! Para a idade até se encontrava numa forma bastante razoável e toda a gente lhe augurava um futuro promissor. Pois apesar de ser já um pouco entradote, ainda postava regularmente uma vez por semana.

Mas que querem? Nós (e os blogs) não somos nada…

Pelo menos era o que a malta não se cansava de repetir uns aos outros durante o velório como se fosse um mantra, ou um substituto para “Esta vida não é nada, acende mas é lá mais um bit…

Vieram blogs e bloggers de todos os cantos do país. Uns para prestarem a sua última homenagem a quem consideravam um autêntico modelo de virtudes e um pilar da comunidade, outros para se certificarem de que seria devidamente enterrado; em qualquer dos casos era generalizada a expressão compungida de todos os presentes.

Um dos momentos altos que quase nos levou todos às lágrimas, foi quando o Pipi (que descobrimos mais tarde ser um “alter ego” de José Saramago) momentaneamente regressado da reforma, lhe gabou o bom feitio e o fino recorte literário dos seus ditos de espírito. Tendo acabado por o comparar ao imortal Albino Forjaz de Sampaio; afirmando que à semelhança deste ficaria o seu nome famoso para sempre, embora ninguém viesse sequer a fazer a mais remota ideia sobre - “…who the fuck was TheOldMan?”.

E a tudo isto eu assistia lá de cima, impassivelmente, como se estivesse sentado na última fila do segundo balcão da Incrível Almadense e as minhas pipocas nunca mais acabassem.

Vi os restantes membros da IIB (Igreja do Imaculado Blog) receberem lacrimejantes condolências e palavras de conforto por parte de ilustres blogs, acenando com a cabeça de um modo fatalista; como quem tendo deixado escapar um táxi, sabe porém que é totalmente irrelevante a hora a que chegará.

A determinada altura notou-se um acentuado burburinho ao fundo do recinto do velório. Mas fora apenas Moita Flores que se tentara esgueirar para o interior com o fim de se misturar com a assistência e passar por blogger; mas foi prontamente imobilizado e devolvido ao exterior totalmente envolvido em fita gomada, da qual alguém tinha encontrado um rolo inteiro ao pé da urna.

O resto da noite foi passada entre pequenas sestas em cadeiras desconfortáveis, fugas ao bar de alterne ali perto para “carpir um copo” e pequenas sessões de má-língua ou de episódios caricatos sobre o defunto.

A manhã veio encontrar-nos a todos com uma negra mas risonha predisposição. Como se alguém tivesse finalmente descoberto que a vida não tem sentido, mas que em contrapartida tem imensa piada. Até o sol de Outono radiante mas frio, assegurava ser o dia ideal para um enterro de blog.

A areia semi-gelada estalava sob os nossos pés, à medida que transportávamos o caixão através da frígida manhã em direcção ao correspondente “Arquivo Morto”, onde ficaria indexado por toda a eternidade ou até se dissolver nos seus elementos-base (o que viesse primeiro).

Por esta altura o funeral animou momentaneamente à conta da banda de “dixieland” (os South River Band), que trouxe um pouco de calor à paisagem e à macia e enregelada pele das coxas de algumas bloggers, que as exibiam por debaixo das suas virtuais mini-saias. O Pastor tossicou.

Era um pastor a sério. Nada dessas merdas falsificadas e com sotaque estrangeiro que semanas antes estariam atrás do balcão de uma agência de viagens no Piauí.

Ora o pastor atirou para trás a aba do seu capote (era um pastor alentejano), e tirando do bolso um pequeno livro apoiou com o ar mais pio do mundo as mãos sobre este, iniciando uma leitura integral de “O Outono em Pequim” de Boris Vian; durante a qual me mantive misericordiosamente adormecido.

Mesmo para um sonho sobre blogues a coisa começava a tornar-se bastante “seca”. Alguns dos presentes fartaram-se do marasmo em que o acontecimento descambara, e dissolviam-se já na atmosfera em busca de melhores eventos, virtuais ou não.

Tomado de súbita decisão aproximei-me do fétreo onde a sorridente máscara funerária assegurava aos visitantes tratar-se de um blog com sentido de humor, e fechando a tampa declarei – A festa acabou!.

Virando-me para a multidão que me aguardava expectante, arenguei – Bloggers… cidadãos… emprestem-me os vossos ouvidos… - fui de imediato atingido por uma saraivada de orelhas de borracha, após o que continuei imperturbável – Vim aqui para enterrar o meu blog e não para fazer o seu elogio. Mas ao fazê-lo tive a premonição de que seria para mim estando vivo, ainda mais difícil conviver diariamente com o seu virtual cadáver. O que me recordaria constantemente esta literária insatisfação com que aparentemente nasci.

No fundo, eu nada tinha escrito que pudesse publicar hoje. Mas apesar de não me apetecer escrever, é-me bem mais difícil manter o silêncio do que de algum modo falar-vos da minha preguiça epistolar, do estado do tempo ou de todas as outras coisas que muitos outros já falaram anteriormente.

Porque é para isso que um blog existe; para falar.

Falar mesmo que ninguém nos ouça ou queira saber. Ou apenas para falar por falar, quando o que todos de nós esperam, é a enunciação do teorema que virá finalmente explicar o sentido de todas as coisas. Porque a blogosfera não é (ao contrário do que muitos pensam) um novo mundo, mas sim uma acéfala e cega anémona com milhões de bocas, por onde as palavras se repetem interminavelmente e até à exaustão.

Até que um dia como que por acaso, todas elas venham finalmente a fazer algum sentido para alguém.

(Convém informar que entretanto acordei. Mas não sei bem em que ponto foi ou quando; o que nos deixa a interrogação sobre quais os verdadeiros limites da realidade/sonho ou se vale realmente a pena andar a escrever todo este arrazoado de parvoíces. Mas isso será possivelmente assunto para um outro post.)


Música de Fundo
Crash” – The Primitives

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

“Eu gostava de ser aquele ciclista…”

… Era o que parecia pensar o miúdo que já passara três vezes em frente à esplanada; sempre com o dedo enfiado no nariz como se estivesse a tentar coçar o cérebro por dentro.

- É nova? – Perguntou detendo-se finalmente; enquanto mirava apreciativamente o quadro totalmente negro, os travões de disco, e os pedais brilhantes como uma moeda recém-cunhada – Eu tenho uma VILAR MTB 16 com suspensão – Continuou ufano – E a tua, que marca é?

- Não tem marca – Respondi por entre uma nuvem de migalhas de torrada. Não por má educação, mas apenas para marcar a informalidade do nosso diálogo; na qualidade de machos e ciclistas. – Vou chamar-lhe Grace Jones…

- Porquê? – Interrogou ele com uma certa intuição baseada no imaginário tele-novelesco – Gostas dela? Quem é?...

- São muito parecidas. E nem gostava muito … - Ri-me - Mas não deves conhecer, pois é de há muito tempo.

Esteve ali mais um pouco a digerir a informação. Mas provavelmente as “coisas de cótas” não seriam o seu assunto preferido. Pois que atirando um entrecortado “já venho” sumiu-se dando à perna com rapidez tal, que quase não dava para ver as peúgas de elástico lasso que lhe caíam para os tornozelos.

Reapareceu alguns minutos depois (bebia eu os últimos goles da bica dupla) trazendo à mão uma bicicleta amarela, já com algumas cicatrizes de batalhas contra a gravidade e os lancis inesperados. Espantosamente encontrava-se lubrificada e sem um grão de poeira, como se alguém a tratasse com o cuidado devido às coisas insubstituíveis.

Olhei melhor para ele e vi-lhe no olhar um brilho que me era familiar. O do entusiasmo de quem tem a sua primeira bicicleta; uma sensação que se sente apenas uma única vez.

Enquanto o ajudava a afinar o cabo do travão dianteiro, pensei que gostaria… Sim. Por breves momentos gostaria de ser aquele ciclista.

Música de Fundo
Let the Good Times Roll” – The Cars

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Igreja do Imaculado Blog
- Pecado é ser mau jornalista; ou… Quem sobe a um púlpito (seja ele qual for) deve lembrar-se que ao descer dele, encontrará muita gente que lhe poderá dizer coisas desagradáveis… -

Irmãos, irmãs (etc, etc, etc…)! Há já muito tempo que não dou aqui um sermão; mas a retórica é como o sexo oral. Uns gargarejos com Tantum Verde… e a vida continua.

Tenho evitado vir para aqui falar de política internacional, uma vez que a blogosfera está cheia de “analistas desempregados” que não se importam de gratuitamente dar o seu contributo, para aquilo que eu (tal como Jules Verne no Séc. XIX) considero as eleições mais animadas sobre a crosta terrestre.

É um confronto entre duas organizações bastante semelhantes, que competem pela simpatia do público americano numa espécie de “reality show”, que se assemelha substancialmente ao tão conhecido “Programa do Ratinho”.

Mas com o mal dos americanos posso eu bem. Que muitos deles são uns labregos (o país que não os tem, que atire o primeiro míssil) incapazes de apontar num mapa a maioria dos outros países, ou que quando se deslocam para o exterior se comportam bastas vezes como as claques do FCP.

O que me preocupa um pouco são algumas mirradas almas lusitanas, que em vez de tentarem sair da sua ignorância e escavar até à superfície do monte de merda em que o mundo se tem transformado ultimamente, optaram por se acomodar à sua pequenez e começaram a apreciar o aroma.

A última que vi foi novamente no CM, que à laia de celestial revelação nos dizia lá para as páginas do meio - “Irmão de Obama tem duas Mulheres”.

Por momentos assustei-me. Mas logo a seguir lembrei-me que o Marco Paulo não é preto e continuei a ler; “O meio-irmão do candidato democrata à presidência dos EUA, Barack Obama, vive num bairro pobre de Kogelo, Quénia, é polígamo e muçulmano e só fala aos jornalistas por dinheiro”.

Sem dúvida que não se referiam ao Correio da Manhã, senão seria “…não fala aos jornalistas nem por dinheiro”. Uma vez que são tipos que nem copiar sabem, e quando fazem textos apoiados nos já escritos por agências noticiosas, aproveitam para os apimentar com uns quantos adjectivos seleccionados e distorcer um pouco os factos.

Para começar (e que Blog me fulmine se minto) Nyangoma-Kogelo não tem bairros pobres, pela simples razão de ser uma aldeia com (muito) poucas centenas de habitantes. E que sim, é pobre como o são habitualmente as aldeias quenianas, e as de toda a África em geral.

Malik Obama nasceu em Nairobi, mas preferiu estabelecer-se no interior onde possui uma pequena loja de artigos eléctricos, trabalhando como consultor em Washington durante alguns meses por ano (o que é mais do que alguma vez se poderá dizer do tipo que escreveu o artigo). Tendo conhecido o seu meio-irmão Barack apenas em 1985, durante um desses períodos.

Tem (é verdade) duas esposas. Porque tal como Onyango Hussein Obama, o primeiro convertido de Nyangoma-Kogelo e antepassado daquela “Obamaria” toda; é muçulmano. E aqui quero abrir um parêntesis, para manifestar a minha simpatia por todos os irmãos do Islão que têm mais que uma mulher.

Se para uma já é muitas vezes difícil ter paciência, agora imaginem isso multiplicado por dois (e não me venham com a história do sexo, pois estamos a falar de casamento). É quase um bom motivo para conduzir um tipo ao ascetismo.

Se fosse Mórmon ainda podia despachá-las para a Europa com a desculpa de uma bolsa de estudo (ou angariar fiéis), e ir curtir para Kisumu com algumas “acompanhantes” de carnes mais firmes. Mas o tipo, ao contrário de todos os seus cinco irmãos e irmã (incluindo o tal Barack) que vivem nos Estados e na Inglaterra, decidiu estabelecer-se no seu país e ajudar a desenvolvê-lo. Pelo que, mesmo o dinheiro que saca aos ávidos repórteres ocidentais que lá aparecem em busca de pormenores “sumarentos” sobre a família do candidato democrata é aplicado em projectos da comunidade.

(Tudo isto saberia o dito jornalista, se tivesse feito o sacrifício de ler com atenção a reportagem de Tom Maliti da Associated Press; elaborada no já longínquo “anno domini 2004)

É claro que a religião islâmica tem a sua quota-parte de lunáticos, com uma estabilidade emocional semelhante à do Daffy Duck. Mas não nos esqueçamos dos exemplos de histeria e intolerância tantas vezes demonstrados pela cristandade; isto já para não contar com as inúmeras seitas chefiadas por “bispos”, que eram engenheiros civis ou vendedores da Toyota.

Algo está profundamente errado quando se começa a utilizar a fé de cada um como um insulto. Mas Blog é grande! E quem sabe… Talvez eu viva o suficiente para ver o dia em que para ofender alguém, bastará chamar-lhe… jornalista.

Posto isto, acho bem que o homem queira ser pago para aturar gente assim.

Música de Fundo
Serah Gathoni” – J. P. Muiruri

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Animação, só com o PCP!
“Quando eu estava na faculdade de jornalismo, ensinaram-me que um fait-divers era, entre outras coisas, um facto não necessariamente importante mas decididamente interessante. O conceito nunca me saiu da cabeça. A verdade é que, salvo raras excepções, o que é interessante não importa e o que importa não é interessante”
(Edson Athayde, in Diário de Notícias de 28/2/99)

Ainda o “Post Hip-Hop” de 1 de Setembro está visível ali para baixo, e já o CM regurgitou mais uma das suas pérolas de investigação “youtubiana”, que assentou como uma bota da tropa na já periclitante paz de espírito de todas as velhinhas da minha vizinhança.

"A máfia brasileira está entre nós!"
(deixem-me fazer aqui um pequeno intervalo, que eu não consigo rir e teclar ao mesmo tempo)

Logo após isto, a primeira coisa que me vem à ideia é a famosa frase de Jô Soares, no não menos famoso “Planeta dos Homens” - "Não manda máfia pro Brasil que esculhamba la máfia".

Não nos bastava já sermos conhecidos além-mar como “Maria e Manuel Padeiro” heróis de tantas anedotas e letras de canções, e aparece agora para aqui uma Tânia qualquer que acha que “jornalismo de investigação” é andar na Net a ver vídeos caseiros e construir a partir deles belas teorias da conspiração.

Se acreditar (‘tadinho de mim) nos artigos que ultimamente tenho lido para acompanhar a matinal torrada, encontro-me cercado de perigosos terroristas, traficantes, proxenetas e vendedores de banana importados de todos os cantos do globo.

Até poderia ser verdade, uma vez que o meu trabalho me coloca diáriamente na junção entre os bairros “Amarelo, Branco e Asilo”. Mas o maior risco que tenho corrido nos últimos tempos, é o de inadvertidamente pisar um daqueles gigantescos cagalhões de rottweiler, que juncam aquelas ruas esquecidas pelos Serviços de Higiene e Salubridade.

Quem começa a exultar com todo este estranho clima criado por informações mais que duvidosas, são os “patriotas do PNR”. Que a avaliar pelo que tenho lido em alguns fóruns, têm ideias muito próprias de como lidar com o fenómeno da imigração, e de como solucionar de uma vez por todas o problema do Odor Corporal Internacional (OCI), que os incomoda nos transportes públicos.

Por outro lado o “recém-formado PCP” vem despertar a justa indignação do nosso (salvo seja!) PCP (liderado pelo simpático Avô Jerónimo) que logo declarou à citada folha de couve – “… a actividade de um grupo criminoso que actua no distrito de Setúbal denominado por Primeiro Comando de Portugal não pode ser confundida com a sigla PCP. A designação desse grupo de crime organizado induz em lamentáveis e inaceitáveis equívocos entre o partido político que é o Partido Comunista Português, cuja sigla PCP lhe está desde sempre associada”.

Acho que aqueles brasileiros vão ter um problema de "copyright" parecido com o do Toni Carreira...

O mais curioso no meio de tudo isto, é que apesar da enorme distância que obviamente separa as duas organizações, ambas se encontram indignadas e assumem como verdadeiras as notícias do Correio da Manhã.

Coincidência esta, que talvez nos venha provar não ser a pobreza de espírito uma característica exclusiva da extrema-direita xenófoba e “trauliteira”, mas sim algo que se encontra espalhado por todos os quadrantes políticos, e que faz sim parte do imorredouro “espírito português” tão gabado por Pessoa.

Acho que quem tinha mesmo razão eram os “Mamonas”.


Música de Fundo
"Vira-vira" - Mamonas Assassinas
(Link)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Terabytes de Cibergajas…
- Interrogações legítimas sobre algumas virtuais particularidades do “eterno feminino” (por exemplo: “O que é isso do Eterno Feminino?”) que qualquer homem gostaria de ver clarificadas, pelo menos antes do Juízo Final (e do consequente “apresentar da conta”) –

Dificilmente alguém me ouvirá dizer que não compreendo as mulheres. O que normalmente acontece é que algumas vezes tento entender algo que elas querem que eu compreenda à “viva força” (nem sempre com sucesso); e em outras alturas não percebo absolutamente nada, especialmente se estiverem apostadas em “… não ser compreendidas por um determinado espaço de tempo…” (a famosa “Condicionante de Korotkov”, que quase o guindou ao Prémio Nobel).

Apesar já de saber desde tenra idade que homens e mulheres são diferentes (uma das mais gratificantes descobertas que fiz até hoje), também me foi ensinado que paradoxalmente somos construídos do mesmo modo. Ora tudo isto em vez de esclarecer ainda traz mais confusão ao assunto. Uma vez que, ambos os pressupostos apesar de certos se contradizem facilmente na prática. Levando-me a pensar se no meio de tudo isto há alguém que queira mesmo ser compreendido.

Nós (Os homens. E falo apenas pelos tipos que fazem parte do meu “círculo”.) pelo menos não temos qualquer interesse em ser compreendidos, pois isso só nos iria acarretar um sem-número de contratempos e obrigações adicionais, que complicariam ainda mais a “dança do acasalamento”; que já dá trabalho que chegue. Embora em “ambientes restritos” ainda se possa ocasionalmente ouvir um ou outro macho a dizer – “…ela não me compreende…” – mas como explicarei em qualquer outra altura, esta afirmação nunca é o que parece.

A meio de tudo isto aparece uma nova facção feminina, que julgo ter eclodido com o objectivo de lançar a confusão sobre aquilo que já se começava esperançosamente a chamar (sotto voce) “entendimento entre os sexos”: A “cibergaja”.

Para evitar mal-entendidos e “conversa a mais” sobre o assunto, passo a informar que o termo “cibergajanão descreve genericamente a mulher que utiliza a “net”, mas apenas um outro tipo de “entidade virtual” que se vem juntar aos “Trolls”, “Flamers”, “Lamers”, e ocupar o seu tão merecido nicho no panteão do nosso imaginário.

Para começar, a “cibergaja” não existe excepto no mundo virtual.

Aliás… Após algumas detalhadas descrições do fenómeno a machos “não informatizados”, foi exactamente isso que todos eles disseram – “Essa gaja não existe!” – E eu concordo com eles, não necessariamente pelas mesmas razões.

Ao contrário da mulher (modelo base) que segundo a tradição cristã terá sido invocada através de uma costela masculina, a “cibergaja” não só terá utilizado mais “material de enxertia” em relação a esta, como aparentemente o extraiu daquele segmento masculino que faz as delícias dos coleccionadores de “ditos de espírito” e dos fabricantes de “peúgas desportivas”. O conhecido “trolha”.

Apropriando-se dos comportamentos mais discutíveis desse “sub espécimen” masculino, a “cibergaja” manifesta-se uma “Uberfrau” de sexualidade voraz e irresistível, com uma prole super inteligente obtida por clonagem; e para a qual aparentemente homem algum contribuiu geneticamente. Uma vez que são geniais e saem invariavelmente à mãe.

A sua vida social/profissional é bastas vezes brilhante e sofisticada (mesmo que na vida real possa ser uma “técnica de higiene” com as varizes da diuturnidade), desmultiplicando-se em eventos glamourosos, e incondicionais conquistas que displicentemente ostenta como troféus de caça.

O que mais me fascina no portfolio da “cibergaja” é a sua intensa libido. Algo que se situa entre a rapacidade do “Demónio da Tansmânia” e o código de conduta de um Giacomo Casanova. Predicados estes, que lhes granjeiam a adoração dos machos e o ódio das fêmeas menos dotadas; que presas do demónio da inveja se refugiam em locais insuspeitos.

Curiosamente, ninguém faz ideia de onde se acoitam os milhares (estou a tentar ser um tipo porreiro) de espécimes femininos, periodicamente recusados por “desempenho insuficiente”. Talvez não venham para a net…

Há alturas em que eu próprio reflicto se parte das “cibergajas” não serão na realidade gajos, que devido a possíveis frustrações ou recalcamentos, tentem assim aviltar a imagem da mulher. Utilizando para tal um doentio imaginário, povoado com demónios onanistas de expressões contraídas e tensas.

Algo que parece fascinar a “cibergaja” de sobremaneira, é o corpo das outras mulheres. A ponto de insinuar frequentemente existência de uma profunda intimidade “entre gajas”, coisa que vai completamente contra a filosofia inicial. Senão, vejamos…

Homem que é homem não vai para o balneário do ginásio oferecer-se para passar creme hidratante nas coxas dos seus amiguinhos, pois não? Pois!.. Aparentemente a “cibergaja” não só faz isso, como produz comentários judiciosos sobre o cheiro, a textura e o bom aspecto das outras; criando assim entre elas um clima intimo e de confiança mútua. O que aqui para nós só conduz a uma conclusão. A pensar assim, só podem mesmo ser gajos!

Não acreditam?

Então digam-me qual é o tipo de mulher (hetero, claro) que tem prazer em…

*****

Após ter escrito estas duas folhas A4, reparei que me encontrava numa encruzilhada epistemológica. E que afinal, este era um post que não iria conseguir produzir qualquer resultado conclusivo sobre a natureza do fenómeno “cibergaja”. Pelo que embora fique o estudo incompleto, aqui deixo estas esparsas notas; para que algum outro colega mais paciente mas igualmente curioso quanto a esta “particularidade”, possa chegar eventualmente a alguma conclusão.
(e aproveitar para escrever um post)

Música de Fundo
You Fucking Love It” – Dirty Pretty Things

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A Suave Melodia...
- Uma inquietante viagem às abissais regiões onde a mente humana esconde as suas misérias, terrores e preferências musicais (as seen on TV)… -

Ele de algum modo pressentia que a sua condição mental se vinha deteriorando nos últimos tempos; a ponto de se sentir atacado tanto por alucinações visuais como olfactivas. Por exemplo, recentemente quase toda a gente que consigo se cruzava parecia usar “Lolita Lempicka”; o que evidentemente era demasiado exagerado para ser real e sintoma de que algo de estranho se passava ao nível da percepção.

Toda essa instabilidade era resultante de um acumular de situações equívocas, em que por uma emaranhada sucessão de acontecimentos se encontrara a certo ponto numa posição, em que lhe era completamente impossível recusar determinado pedido; mesmo que particularmente desagradável, penoso e/ou repugnante.

Ele não fazia qualquer ideia de há quanto tempo a teia vinha sendo urdida, mas fora no sábado que ela finalmente dissera aquilo.

Ao lembrar-se, sentiu nitidamente uma gota de suor soltar-se da base do pescoço, e iniciar uma descida controlada pelo tronco abaixo; como uma minúscula bola de neve que se preparasse para produzir uma monumental avalanche, sobre a tundra gelada em que o seu peito se transformava.

Tudo isso frio a mais para um único dia de verão.

Amargamente recordou todas as pequenas traições e falhas de carácter que durante os anos ela fora deixando escapar. Primeiro os “Boney M”, depois o Art Sullivan e por fim os Abba… Forçou-se a sorrir num esgar de diluído desconforto; enquanto a enxaqueca regressava, desta vez em força, acutilante e incómoda como uma broca de dentista.

A dor de cabeça emoldurava na sua memória a expressão perfeitamente natural com que ela declarara, peremptoriamente, como se explicasse a constante de Planck no “Clube Amigos Disney” – Vamos ver o “Mamma Mia”! Tem música dos Abba e entram a Meryl Streep e o Pierce Brosnan. Deu há pouco a apresentação no noticiário e pareceu-me muito divertido.

Felizmente sabia como fazer passar a dor… - Pensou, enquanto lhe agarrava o pescoço com ambas as mãos, apertando suave mas seguramente.

Contemplou-lhe atento o rosto que lentamente arroxeava e sorriu; começando muito baixinho a trautear – “…There was something in the air that night. The stars were bright, Fernando…

Música de Fundo
Fernando” – Abba
(Foi a pior de que me lembrei)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Post Hip-Hop
- Dedicado à “Dama Vanus” e extraído do imaginário neo-incoerente da cultura suburbana… -

“Kurto o m€tro de superfíX
ke tem ar kondiçionado
PrrrtPrrtPrrPrr… (onomatopaica para dar ritmo)
Tem pulas praEu katar
E os outros olhamPró lado …
Hutchprr-PrrPrr… (onomatopaica para dar ritmo)”


(poeta Basofe anónimo – Séc. XXI)

O imaginário colectivo é uma coisa prodigiosamente moldável. Basta um qualquer jornal com problemas editoriais apostar numa caçada a tigres de papel, e temos instalado o estado de emergência nas mentes dos pacíficos cidadãos; a quem notícias truncadas e descontextualizadas são impingidas como de factos provados se tratasse.

Não quer isto dizer que na periferia das cidades, nos tais guetos que as nossas consciências entorpecidas permitiram que fossem criados por sucessivos governos de incompetentes, não existam verdadeiros criminosos. Mas agora procurá-los no Hi5, é de uma debilidade mental digna do Inspector Clouseau (só que com muito menos piada).

Ora o Hi5 é bom para imensas coisas, como observar as últimas tendências da moda em Marvila, ver miudinhas a exibir aquilo que não têm, ou encetar tórridos (e virtuais) romances com “beldades” peritas em Photoshop.

Como em todas as comunidades, poderá eventualmente aparecer no Hi5 um verdadeiro criminoso cuja “Glock 23” não tenha sido comprada na “Loja Ling-Tiang” (os melhores alguidares em polímero de baixa densidade), ou como a minha, se trate de uma “Gamo Auto 45” que dispara bolinhas de chumbo impulsionadas por um gás inerte. E se o encontrarem lá é porque é estúpido.

Curioso após a leitura deste artigo que denunciava a existência de perigosos gangs armados que se acoitavam no Hi5, fiz uma pequena pesquisa sobre o assunto; o que me fez passar uma das tardes mais hilariantes dos últimos tempos. Não só pela quantidade de páginas em que putos se gabam de coisas que vêem nos clips de Hip-Hop, como por isso me ter conduzido ao Youtube.

Ah, o Youtube… Essa Hollywood dos tesos, onde se encontram verdadeiras pérolas artísticas à mistura com vídeos de férias, e recriações da Batalha de Ourique com figurantes de ténis e bonés da Nike.

É claro que já poucos se devem lembrar dos “Chuis do Hi5”.

E perante a crescente violência da criminalidade (que já existia antes do Verão), quase ninguém hoje em dia teria grande prurido em proferir um – “Ó xô guarda, dê-lhe mais umas arrochadas que o tipo usa fato de treino azul-petroleo…”. Mas é assim que se começa por justificar o cercear das liberdades em nome da segurança, e se acaba num estado policial, em que até para falar de certos assuntos em casa se tem que pôr a tocar um CD dos Iron Maiden. Não vá a vizinha do lado estar a ouvir tudo, com um copo encostado no outro lado da parede.

Não sou sociólogo, antropólogo ou qualquer dessas especialidades para as quais não é preciso ser bom a matemática, mas já tive a minha dose de grupos (que não “papo” nem um bocadinho). O que me ensinou a distinguir um comportamento individual, dos tiques grupais manifestados para obter aceitação.

No meio da nossa pacata vida quotidiana existem grupos (maioritariamente juvenis) que possuem nomes (e a quem os outros grupos chamam outros nomes), com calão próprio, indumentárias tipificadas e comportamentos miméticos; que espelham muitas vezes a realidade que os rodeia, ou as aspirações de vida que os pais, a TV e o cinema lhes inculcaram. Material este que em muito dos casos, serve para preencher um vazio que devia ter sido ocupado com educação e instrução.

Mas isto não é um sermão da “Igreja do Imaculado Blog”, e eu sou apenas um “Pula” (por antítese aos “Blacks”; também conhecidos em certos círculos como “seres basálticos”) de meia-idade que acha imensa piada àqueles que se encarniçam sobre tudo o que não compreendem.

É claro que uma grande percentagem da cultura suburbana é de mau gosto. Mas também o é uma grande parte da música dita “popular” (e mesmo da outra que a minha geração tanto gosta), da TV (especialmente aquelas novelas que dizem retratar a realidade) e da “literatura” portuguesa que se anda a vender por esses hipermercados afora. Isto já para não falar em blogs…

Não era minha intenção vir em defesa de miúdos que têm um gosto atroz em matéria de roupas, e escrevem como se estivessem na pré-primária. Mas enquanto anda tudo preocupado com os que se exibem e fazem grande alarido, outros mais circunspectos e bem armados vão preparando o próximo “trabalho”. E duvido muito que o executem a cantar Hip-Hop ou ajoujados com “amarras” de ouro falso.

Só para terminar e se quiserem passar um bom bocado, quando fizerem pesquisa de fotos, vídeos ou mesmo textos sobre o assunto, introduzam os termos: Basofes, Gunas, Xungas, Mitras ou Betos. Aí então decerto vão perceber o que eu queria dizer.

E curtir à brava, claro.

Música de Fundo
“Les Oiseaux dans la Charmille” – Patrícia Petibon
(Contos de Hoffmann – Jacques Offenbach)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

É a “rentrée”, estúpido… Não o sentes?...
- Quase no fim da estação mais “pimba” do ano, um post maldizente e verrinoso que me deu quase tanto prazer a escrever, como o daria espancar alguns políticos com um “Mashie Iron 4”. –

Sei que o subtítulo é um pouco “forte”. Mas que querem? Estive há pouco a ouvir Tony Carreira; e isso não é coisa que contribua para a minha boa disposição. Ok! Eu explico. Mas não nos adiantemos…

Já não me lembro bem quem foi, mas ainda há relativamente pouco tempo alguém vaticinou que este iria ser o Verão meteorologicamente mais quente dos últimos vinte e cinco anos.

Até aí nada demais. Vivemos num país onde são vulgares as afirmações bombásticas (e irreflectidas também) por parte da comunicação social e dos políticos, bem como algumas tiradas dramáticas que fariam inveja à saudosa Palmira Bastos.

Ora este estado de coisas conduz inegavelmente (por aversão) a uma incredulidade sistemática por parte da população. Exceptuando, é claro, aquela faixa (inquietantemente vasta) constituída pelos que sofrem do “Síndroma Cova da Iria”, que se manifesta numa aceitação bovina dos axiomas “tudo o que sai dos media é informação” e “o governo tem essa designação porque governa”.

Só que não é da habitual alienação que vou falar hoje, mas sim deste “Verão mais quente dos últimos vinte e cinco anos”; que se tem revelado uma fonte quase inesgotável de matéria para humoristas pouco inspirados, criminologistas de “Grupo Desportivo” (tipo “moita carrasco”), analistas políticos do "Fátima" e líderes de facções manhosas (como aquele político apeado que teima em perseguir a “Ugly Betty” do seu próprio partido).

Ok! Não tem sido muito quente (eu próprio há uns dias me constipei com um chuvisco); mas os cromos, malta… Há muito tempo que não se via uma coisa assim. Se eu não fosse tão preguiçoso, teria escrito um belo romance à conta de o Putin andar a brincar aos Estalines na Geórgia, o Obama a tentar imitar o JFK em Berlim e o Sócrates a fazer a sua "Rábula do Salazar”; que consiste em deixar o país mergulhar na merda, explicando às massas que é a única solução (porreira) para a crise.

Mas isso era se me desse para escrever. Na verdade não me consegui imaginar a despachar posts de empreitada, enquanto responsáveis cidadãos que acumularam oito ou mais créditos pessoais, se banhavam nas salsas ondas de Ibiza com o patrocínio da COFIDIS ou da CrediAgora.

Mas se me “fugisse a perninha para a dança”, um dos que decerto não me teriam escapado seria aquele velhinho parecido com o Padre Vítor Melícias, que se agarra ao comité olímpico como se este fosse a cura para o Alzheimer.

E bem precisa, pois se num dia choraminga que assim não brinca e promete demitir-se, bater a porta e apresentar contas; no seguinte já não se lembra de nada e ainda pede mais uns milhõezitos, pois os próximos jogos olímpicos serão realizados sem dúvida num país ainda mais longínquo do que a China.

Quanto aos atletas, salvaguardando algumas poucas e honrosas excepções, fizeram jus ao estado que os patrocinou; apresentando as piores desculpas que eu já vi em mais de quinze anos a lidar com directores de obra.

Valha-me Blog! O que eu ultimamente desperdicei de assunto para posts…

O melhor então foi a acusação (documentada) de plágio, que o blog “O Verdadeiro Tony” lançou sobre Tony Carreira. Que aparentemente teria andado a declarar como suas, composições de outros; registando-as inclusivamente em seu nome na Sociedade Portuguesa de Autores.

Após uma arrepiante meia hora em que me forcei a ouvir ambas as versões de vários êxitos do popular artista, e depois de algumas visitas à SPA, só pude chegar à conclusão que afinal é mesmo verdade. Com a agravante que ele conseguiu tornar as canções ainda mais pirosas (conseguiu mesmo, acreditem) que os originais.

Não me parece que o tipo desta vez se possa safar com a velha e “olímpica” (LoL) desculpa do “foi sem querer”. Ficanto toda a gente por fim a saber porque é que ele chamou à sua autobiografia - “A Vida Que Eu Escolhi”. Embora neste caso eu achasse mais apropriado - “A Vida Que Eu Copiei”.


Música de Fundo
Living in America” – James Brown

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Chuva Inoportuna
- Se por um lado tudo o que é bom acaba…
Também tudo o que existe é cíclico.
-

O estranho odor do asfalto humedecido pela poalha do estio desperta memórias pálidas de mundos esquecidos; e eu passo pelos vultos que apressados em busca de abrigo seguem alheados. Sempre imersos nas suas batalhas individuais entre a luz e as trevas.

Lembrei-me do sabor da chuva na minha infância. E de como deixava que esta me descesse pela cara até aos cantos dos lábios, traçando assim o mapa para a criação das rugas com que hoje sorrio.

Mas eu sempre sorri assim…

Tal como a chuva, e apesar de nunca ser o mesmo que fui antes sinto-me como se o fosse.

Um avatar de mim próprio, criado apenas pela mutabilidade das circunstâncias.

Penso isto enquanto pedalo pelo último dia das férias. Sentindo constantemente que a matéria dos sonhos continua a encontrar meios de se introduzir na minha realidade.

Voltei!

Música de Fundo
Rain” – The Cult

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Um Post Franco
- A franqueza é uma das principais condições que nos podem eventualmente habilitar a um bom linchamento à moda antiga… -

Cada vez que tenho a tentação de colocar pormenores da minha vida pessoal no blog, basta-me carregar no reset do computador, e logo o assunto fica instantaneamente resolvido.

Mas já que vou (novamente) de férias e este texto não vai focar coisas assim tão íntimas como o meu sinal down there em forma de dentada, ou o meu virtuosismo na confecção de ovos estrelados em margarina; here goes nothing

Ultimamente tenho publicado menos, pois não gosto de escrever como quem coça uma alergia ou uma camada de chatos.

Escrevo escutando um eco de mim próprio, enquanto por ele tento afinar o clavicórdio com que bato os textos. Desbravando uma selva de memórias, onde árvores (agora) abatidas que fui encontrando pelo caminho, se petrificam gradualmente até se transmutarem em carvão, e mais tarde, com um pouco de sorte, em diamantes.

Mas tenho tido imenso trabalho, e como devem calcular, nada disto é compatível com a actividade onde vou buscar os meus trocos.

Este blog não vai fechar para férias. Isso seria apenas mais uma prova de preguiça (que nada tem de criticável, mas enfim…), pois graças à tecnologia de comunicações móveis poderei vir aqui dar uma mirada ou mesmo deixar algo escrito, de modo a que o meu percurso nestas paragens mantenha o seu movimento. Embora num ritmo mais lento.

Talvez seja este o ano em que irei finalmente pôr de lado aquela webcam ranhosa. E comprar uma máquina com um mínimo de resolução, que não faça as paisagens parecerem-se com desenhos geométricos ou os retratos de grupo com naturezas mortas.

Depois se verá.

Entretanto, até já! And all that jazz

Música de Fundo
Bout To Wail” – Dizzy Gillespie

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Uma Questão de Bicos
- Um post que começa como quem não quer a coisa no Campo das Cebolas para acabar talvez na Defensores de Chaves… -

Este post nunca seria escrito se eu não tivesse passado centenas de vezes a mão por aquela estranha parede (e levado o consequente tabefe acompanhado por “agora se te apanho a pôr a mão na boca ou nos olhos, levas outro…”) num inconsciente impulso de através do contacto melhor compreender a sua génese.

Tal como o Chafariz d’El-Rei, o “tanque dos cavalos” do Chafariz de Dentro e tantos outros marcos de Alfama, a Casa dos Bicos (na altura reduzida a armazém de bacalhau) acompanhou os anos da minha infância; preenchida por tantos símbolos imutáveis…

Vendida em 1973 à CML pela família Albuquerque, foi reconstruída alguns anos (dez) depois durante o reinado de Krus Abecassis (o Pequeno Nero), pelo comissariado da XVII Exposição Europeia de Artes, Ciência e Cultura; tendo-lhe sido reposta a sua volumetria original e acrescentados os dois pisos que teriam ruído durante o terramoto de 1755.

Sempre gostei muito da Casa dos Bicos.

Por outro lado (e como devem ter já calculado todo este arrazoado se deve a uma certa polémica sobre fundações) o Centro Cultural de Belém nunca foi muito do meu agrado.

Com aquele estilo Neo-Babilónico sempre me pareceu mais indicado para as cerimónias da IURD, que para o fim inicialmente programado. Mas mesmo a falta de gosto tem pouco que discutir, pois devido à sua enorme difusão arrisco-me a estar aqui a “falar para a geral”.

Talvez por isso tivessem destinado o CCB a albergar as “economias” de Berardo; e apesar deste não se tratar do meu filantropo favorito, sempre foi melhor ele lá armazenar a colecçãozita do que continuar o local destinado à exibição do bizarro. Como foi o caso daquela desnuda senhora de meia-idade que fez alguns truques com bolas de ping-pong (até me fez lembrar a filipina do “Priscilla).

Mas se por um lado pagamos a manutenção (que não fica assim tão barata) da colecção da Fundação Berardo, por outro lado ajudamos a perpetuar (que Blog não o permita) o Soarismo com a Fundação Mário Soares. Que só entre Fevereiro de 2002 e Julho de 2005 recebeu (segundo a imprensa) 867.055,94 euros dos ministérios da Defesa, da Cultura, da Administração Interna; através do Governo Civil do Distrito de Leiria, das Actividades Económicas e do Trabalho, através do Instituto do Emprego e Formação Profissional, e da Presidência do Conselho de Ministros.

É por isso que eu nisto de fundações sou muito esquisito; para mais, vivendo num país em que a maioria delas em vez de dar algo à população, pelo contrário vive do erário público; que como muito bem sabemos é dinheiro de todos nós (excepto dos que não pagam impostos, claro).

Bem, a seguir temos José Saramago o nosso Nobel da Literatura (mas não o nosso “único” Nobel, como sustentam alguns bloggers “culturalmente deficitários) e que considero um bom escritor; apesar de ser apreciador de apenas uma parte da sua obra. Mas nesse aspecto também só posso dizer se gosto ou não; porque mais que isso seria o mesmo que a Margarida Rebelo Pinto “dar-se ares” de George Sand ou Virgínia Wolf.

José Saramago fala melhor que Berardo e escreve melhor (também não é difícil) que Soares; o que por si só já seria suficiente para lhe garantir uma comenda, quanto mais o apoio para a fundação.

Quanto à Casa dos Bicos, fica muito melhor entregue a alguém que tão bem representa a literatura portuguesa, do que a uma possível futura Fundação Isaltino de Morais (vade retro)…

Música de Fundo
Showgirl” – Slimmy

sexta-feira, 18 de julho de 2008

*

O meu amor é carne
como pedra erodida pela saliva do tempo
deus totem de um culto sanguinário cujos sacrifícios dão vida

O meu amor condena
como o perfumado hálito de amêndoas
cianídrico e embriagante eflúvio que mitiga a sede

O meu amor é fome
voragem canibal no carrossel das almas
antegozando em júbilo o teu suculento coração
*

Música de Fundo
Burning Alive” – AC/DC

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Parque Marginal
- Uma ideia que não ajuda a salvar o mundo, mas que se insere perfeitamente no que as pessoas esperam dele… -

É divertido o cuidado que os meios de informação têm com a fraseologia utilizada para comentar os acontecimentos do Bairro da Quinta da Fonte (não confundir com aquela zona de Paço D’Arcos onde estão a Ericsson, a Microsoft e o Holmes Place). Ele é a “comunidade africana” para aqui, os “cidadãos de etnia cigana” para ali, etc.

É um nunca acabar de teorias sociais sobre o porquê de se darem este tipo de acontecimentos, e de como a culpa do “homem branco” deve ser expiada através da atribuição de novas residências, subsídios, e quem sabe talvez até umas almoçaradas no “Nariz de Vinho Tinto”.

Mas se querem que vos diga (e mesmo que não queiram, aqui vai), não sinto culpa alguma seja do que for em relação às más condições de vida, analfabetismo, halitose e condilomas que possam afligir os habitantes de todos os “Bairros Amarelos” que foram sendo plantados na periferia das cidades nos últimos trinta anos.

Todo este recente cuidado com o tratamento dado às minorias é muito popularucho, melodramático e principalmente mediático; como convém para que seja servido em horário nobre, e digerido em conjunto com as sardinhas assadas ou os secretos de porco preto (por razões óbvias, não utilizámos aqui qualquer eufemismo).

Talvez poucos de vós compreendam o que eu vou tentar transmitir de seguida, mas tudo isto faz parte daquilo a que alguns escritores de FC começaram por chamar de “O Espectáculo” (o meu melhor exemplo é “Metrofago” de Richard Kadrey); uma variante da máxima “pane et circencis” mas sem o pão.

O Espectáculo” é um sistema governativo que funciona essencialmente a partir da manipulação de massas por parte dos “media”; quer através de campanhas de desinformação, quer pela redução de todo o caudal noticioso a uma contínua série de episódios de teor maniqueísta e com um conteúdo semântico direccionado às mentes mais simples.

Mantendo as necessárias distâncias é nisto basicamente que se apoiam grande parte dos governos ocidentais (só para não me dispersar mais ainda) de modo a conseguirem manter “na linha”, populações que teoricamente cada vez mais têm o acesso facilitado a todo o tipo de informação. Informação esta que dificilmente conseguirão utilizar em seu proveito; uma vez que apesar de lhes ter sido facultado o acesso, não lhes foi porém ensinado como a extrair do substrato turfoso em que esta se encontra à mistura com a ficção e “fait-divers”.

O Espectáculo” vive (estou a citar de memória) do eterno adversário. Seja ele externo como os iraquianos (e antes os chineses, e antes deles os mouros, etc) ou interno como os pretos, os ciganos, os chineses, os monhés, os alentejanos e os gajos que têm Twingos “verde-alface”. Seja como for, a atenção da população tem que ser desviada das más condições em que vivem e principalmente da pouca transparência com que o “Poder” os trata em todo este processo.

O advento de uma certa tolerância para com as antigas sociedades secretas bem como associações e guildas de natureza obscura, veio deslocar nos últimos anos a retícula para cima de alvos mais concretos. Pelo que se pode avaliar do que se passa à nossa volta, os culpados de tudo o que de mau acontece hoje em dia deixaram de ser os comunistas os mações ou os judeus; para passarem a ser os pretos, os ciganos e todos os que não gostem de Paulo Coelho ou Inês Pedrosa.

O inimigo do povo passou a ser o próprio povo, que assim não precisa de ir muito longe para salvar o mundo; bastando para tal sair de sua casa e ir assentar alguns sopapos no vizinho do lado.

Esta abordagem tornou-se necessária devido à dificuldade que existe em sustentar um sistema de “inimigo exterior”; posto que ou se trata de alguém (ou algo) com propriedades ubíquas (como a al-qaeda) ou acaba por ter que se combater directamente, inviabilizando muitas vezes a possibilidade de uma aliança num futuro próximo; o que pode ser prejudicial se existirem objectivos comuns a médio prazo.

Mas deixemos essas complicações políticas das altas esferas e passemos a coisas práticas.

Já há muito tempo que venho acarinhando esta ideia, que se tem desenvolvido meiga e lentamente em mim como um fofinho koala numa bolsa marsupial – O parque temático!...

Sim! Perceberam bem. Eu e os meus associados (que por modéstia insistem em se manter incógnitos), temos um plano para transformar o enorme complexo do PIA (Plano Integrado de Almada) numa gigantesca operação de entretenimento; que transformará os bairros Branco, Amarelo e Rosa na Disney World da Margem Sul. Local sem dúvida imbuído do espírito necessário ao “Parque Marginal”.

Fazendo-se a entrada principal pelo Bairro do Matadouro, os visitantes poderão utilizar não só todos os transportes públicos que servem a estação ferroviária como trazer o seu próprio veículo. Neste último caso, serão recebidos à entrada por vários monitores de raça africana que demonstrarão avançadas técnicas de “car jacking”, após o que lhes arrumarão o veículo em parte incerta em troca de uma senha numerada (que poderá eventualmente dar direito a um prémio por sorteio, ou mesmo à devolução da própria viatura).

Seguidamente os visitantes serão guiados (sob fogo cerrado de AK-47 e pistolas de alarme modificadas) até às bilheteiras blindadas, onde funcionárias de etnia cigana lhes extorquirão a quantia do ingresso; que será de importância variável consoante a cara de otário apresentada pelos visitantes.

De seguida serão levados por debaixo do pequeno viaduto da Fomega, onde serão espancados com tacos de baseball e tubos metálicos de diâmetros diversos. Tendo sido este local escolhido criteriosamente, pois a sua acústica permite uma maior limpidez e propagação aos gritos e gemidos; que mediante uma pequena tarifa, poderão ser gravados para exibir aos amigos e conhecidos ou ser usados como toque para telemóvel.

Para quebrar um pouco o ritmo alucinado das primeiras actividades, será dada ao público em geral uma “workshop” sobre “rótulos de marca e como os substituir sem deixar vestígios”; que ficará a cargo das mais talentosas artesãs ciganas, que amavelmente se prontificarão a tornar toda a roupa dos visitantes em “Jorgio Armando”, “Paco Rabão” ou “Ivo São Lourenço”.

Tudo isto enquanto jovens vestidas de Shakira, Britney ou Rihanna evolucionam coreograficamente ao som de Paco Bandeira, sob o olhar protector dos pais, tios, primos ou apenas conhecidos mas com responsabilidade de honra.

Para não me adiantar demasiado nem arruinar a surpresa a todos os que de vós se venham a aventurar neste parque temático, direi apenas que todas as actividades se encontram perfeitamente integradas no imaginário multicultural que é tão forte nestes bairros. E que além de pontos altos como o desfloramento ritual ou a cerimónia “morabeza” da cachupa colectiva, terminará a visita numa apoteose de fogo de artifício e gás lacrimogéneo, em que os visitantes serão resgatados por uma acção conjunta dos GOE e Corpo de Intervenção.

Por isso visite o Parque Marginal, e traga dinheiro, claro.

Música de Fundo
Os Meus Irmões Baterem-me” – Cebola Mol

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Riding By The Usual Path
- Um post sobre o prazer de pedalar, o adestramento de canídeos, e a teoria do reflexo condicionado. -

É quando pedalo que melhor reflicto sobre as coisas.

Podem os meus olhos encher-se de tudo o que por eles passem, mas a minha mente aproveita para deambular pelas ideias; pois estas não têm paisagem ou formas definidas. Sendo apenas a substância com que se moldam os sonhos, as pessoas ou mesmo os caminhos que antes disso e sem elas não existiriam.

E é por isso que pedalo sozinho. Porque navegar o pensamento é um acto solitário e pessoal, no qual não existe partilha antes de este se transformar num produto acabado. E aí, perde para mim um pouco do seu interesse, porque se torna nisso mesmo: um produto… acabado.

Mas adiante.

Sendo o ciclista (em boa parte dos casos) um solitário por opção, está pois sujeito a perigos que não afectam quem se desloca em grupo. E não vou agora falar daqueles que seguem em pelotão; principalmente porque o único pensamento que sobre isso me ocorre, é ser o pelotão um grupo de ciclistas que segue em “pelota”.

Se bem que o destino destas minhas viagens seja invariavelmente o mesmo (perfazendo o círculo), o caminho que percorro pode ser um de muitos à escolha. Pois tal como a vida não é uma auto-estrada; o sítio onde vivo é percorrido por uma multiplicidade de vias (nem sempre boas), assemelhando-se o local a uma bela coxa mas juncada por varizes poeirentas e com buracos no alcatrão das suas artérias (Almada está em obras. “Sorry”…).

Mas apesar destes pequenos contratempos, o que me chateava de sobremaneira quando me iniciei neste passatempo eram os cães.

Respeito os animais na medida em que lhes reconheço o direito à vida e ao uso de um determinado espaço. Mas esses sentimentos razoáveis e civilizados depressa se esfumam, quando estes não têm um instinto suficientemente apurado que os mantenha fora do meu caminho.

Ora os ciclistas, tal como os carteiros e as mulheres-a-dias eslovenas (um dia conto-vos esta), têm algo com que os cães (salvo honrosas excepções) embirram e que lhes provoca frenéticos ataques de fúria.

Ao longo do meu trajecto habitual costumo cruzar-me com diversos espécimes; mas como a maioria deles conduz um/a dono/a pela trela, normalmente não chateiam muito. Os piores são mesmo os desocupados, que não tendo o que fazer ou quem os passeie, criaram o hábito de sem meter com quem segue calmamente o seu caminho.

O primeiro digno de menção é um perdigueiro de nariz fendido que vive perto da minha casa. Mas esse desde que ficou com o focinho nessa configuração, deixou de se aproximar a menos de três metros.

Logo a seguir havia o rafeiro da Lisnave. Cuja designação se devia ao mau hábito de sair do depósito provisório dos autocarros dos TST (perto da ETAR), e me vir ladrar ás rodas; até alguém ter decidido mantê-lo preso aos fins-de-semana. Isto talvez se tenha devido ao facto de algumas das pedras que eu lhe atirava em resposta, falharem ás vezes o alvo indo acertar nos veículos estacionados (não há como um bom prejuízo para incutir um pouco de contenção).

O da Central de Mecânica Terra e Mar, Ldª (logo no início da Rua do Ginjal) cuja raça desconheço, após por diversas vezes ter provado alguns jactos de Isostar (ciclista que se preze nunca sai sem o seu “bidon”), decidiu que as bebidas isotónicas lhe faziam mal aos olhos. Pelo que quando por lá passo se encontra sempre num outro local qualquer; sem dúvida ocupado com importantes afazeres.

Ainda na mesma rua entre as ruínas da antiga SRN, Ldª e o “Atira-te ao Rio”, existem dois Huskies que são os meus favoritos, e moram num edifício arruinado juntamente com um monte de gente avulsa, caixotes de fruta e triciclos motorizados. Quando passo por eles a baixa velocidade (e sem deixar de os fitar, não vá o diabo tecê-las), encontram-se invariavelmente deitados no cais à sombra, fazendo sobressair os seus olhos claros de uma frieza filosófica.

Contemplam-me longamente enquanto passo por eles, voltando logo de seguida às suas meditações sobre o rio e os animais estranhos que passam montados em máquinas silenciosas. E eu aprecio a sua impassibilidade, como uma demonstração de alguém que suficientemente seguro de si, não sente necessidade de importunar os outros inutilmente.

São cães que podiam ser gente… se nascessem com outro invólucro, é claro…

A partir daí o meu trajecto encontra-se praticamente vazio de percalços. E só muito mais tarde quando percorro as ruas do Bairro Amarelo no Monte de Caparica, é que volto a encontrar uma chusma heterogénea de sacos de pulgas. Mas esses têm boa memória e ainda se devem recordar de encontros anteriores; pois mal lhes aceno com o punho fechado se põem de imediato em fuga.

É que um dos mais preciosos ensinamentos de Blog (no seu “Sermão aos Carteiros e Distribuidores de Publicidade”), diz que Nunca se deve ignorar um cão agressivo. Pois após meia dúzia de pedradas certeiras, basta mostrar-lhe a mão que as atirava. É remédio Santo.

Tenham pois uma boa semana.


Música de Fundo
"Kiss me Where it Smells Funny" – Bloodhound Gang

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O Post dos 50%
- Chegado o Verão vêm com ele as grandes promoções (dizem), as preocupações sobre o tom do “bronze”, e principalmente a vontade de não fazer nada que dê muito trabalho -

Como devem ter reparado este blog está com a produção editorial a 50% (resultados estatísticos obtidos pelo mesmo método que utilizam os nossos socráticos governantes), e não me parece que tenha melhoras antes de eu abandonar o calção de banho. Tal também não constitui calamidade de maior, pois à semelhança deste vosso humilde narrador, calculo que também vocês tenham mais que fazer nesta época tão propícia ao hedonismo e outros termos que quase só se encontram na Wikipédia.

Serve este arrazoado para explicar que este blog vai baixar (ainda mais) o nível de qualidade; e enquanto durar o Verão, possivelmente só terão para se entreter algumas fotos de qualidade duvidosa, e posts a relatar as notícias que já viram na televisão ou a embirrar com desconhecidos que ninguém (nem mesmo eu) conhece ao certo.

Outro divertido resultado desta mudança (felizmente) transitória, é a provável abertura ao público da “Galeria dos Super-Heróis”; onde guardo uma bela colecção de ficheiros “*.mht“ como prova de alguns interessantes episódios de plágio e/ou outro tipo de fraude, por parte de alguns “blogueiros impolutos(e particularmente palavrosos) que aparentemente não sabem o que significa o termo “Tecnologia da Informação”.

Por outro lado, a Igreja do Imaculado Blog (a religião onde nada é gratuito) irá abrir a sua época balnear com o habitual “Festival do Bivalve”, o que irá animar um pouco este marasmo que se instala sempre que o calor aperta (felizmente treinamos à sombra). E lá mais para o fim da época, teremos (mas apenas após decisão judicial) a segunda série da novela “Longa Vida À Junta Militar”; que (podemos adiantar) trará alguma acção, intriga e (já não era sem tempo) sexo a este blog.

Por agora continuamos assim, e… “domo arigato

Música de Fundo
Chocolate Salty Balls” – Isaac Hayes

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