sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Foto: Net



Um Tédio De Post
- Onde o autor começa por se mostrar aborrecido ao bom modo queirosiano de Dâmaso Salcede, dando depois a impressão que dissertará sobre um dos mais prementes debates da blogosfera, acabando por se pirar “à francesa” em direcção à noite que chegará breve -

Eu devia escrever aqui algo

Mas uma das coisas a que me habituei ultimamente, desde a minha desistência da “escrita pública” no princípio do ano, foi sublimar isso em relaxantes passeios ou na leitura de um livro.

Infelizmente neste momento não é o caso. Porque por muito que desejasse caminhar por entre as gentes, ou quase atropelar alguns com a bicicleta, um emprego é algo restritivo e embora goze de uma relativa liberdade, há sempre que manter uma certa auto-disciplina.

E como não posso pôr-me para aqui a ler como se estivesse confortavelmente em casa, escrevo. Escrevo o que me vem à cabeça e que possa aqui publicar sem ferir susceptibilidades. Mas tenho que confessar que esta coisa azul em que me estão a ler me entedia profundamente.

Por isso escrevo sobre sentimentos insignificantes, como o tédio, o enfado e uma comichão no mindinho que me leva a crer estar a começar a adivinhar alguma coisa (é o meu dedo adivinho).

Poderia escrever sobre o amor, a crise, o Natal, o sexo, ou apenas papaguear o que leio nos jornais e vejo na TV. Mas o meu projecto privado de escrita absorve todos os meus textos. E quanto ao resto tenho que manter um certo standard, se quero continuar a criticar os outros sobre esse mau hábito, que é insistir em publicar noticias (aqueles a quem chamo “Os Bloggers do Óbvio”) que outros já deram anteriormente.

Vou pois falar-vos da privacidade e do anonimato (mas só um “cadinho).

Já há tempo que venho a assistir ao aumento das guerrinhas entre anónimos, pseudo-anónimos e entidades reais. Sendo estas últimas bastante escassas devido a um dos principais motivos que trazem as pessoas para a blogosfera; dizer aqui algo que não podem ou não querem dizer noutro lado.

Não interessam agora para o caso os múltiplos possíveis motivos que possam mover cada um, mas basicamente esta é uma via de comunicação alternativa; e durante muito tempo utilizei-a para “medir o pulso” à minha escrita. Isto para não ter que fazer como Walt Whitman e impingi-la porta-a-porta.

Mas sou o que se chama “um indivíduo sob declarada identidade falsa”. Existem ainda “indivíduos sob identidade falsa não declarada” (os tais que juram por todos os santinhos que o seu nome é mesmo “de Ayres-Miguéis), os de “identidade delirante” (que dizem ser de outro sexo e talvez oriundos de uma galáxia distante) e finalmente uma escassa minoria composta por pessoas que são quem (embora nem sempre “aquilo) na verdade dizem ser.

Estes últimos dividem-se ainda entre três sub-espécies. Figuras públicas, cidadãos privados e “wannabes”. Sendo este último caso (para os que não se encontrem familiarizados com o termo) o de alguém que sendo cidadão privado, veio para aqui na mira de se tornar figura pública ou reforçar a sua imagem sem nada de concreto em que apoiar tal pretensão (e a quem eu acho mais divertido apelidar de “poseurs).

E é então entre esta babilónia de tipos e sub-tipos, que se tem travado uma guerra surda ao estilo das rapariguinhas da C+S. Com insultos, intrigas, cibernéticos puxões de cabelos, e os inevitáveis “Odeio-te! Odeio-te! Odeio-te!”. O que é divertidíssimo; pois a maior parte deles parecem ser homens já de uma certa idade.

Mas como já anteriormente vos disse (se a memória não me falha), tenho nos últimos meses achado o “mundo analógico” muito mais interessante e descomplicado. Coisa que não me motiva para longas dissertações blogosféricas sobre a privacidade (coisa em que a “Electronic Frontier Foundation” está bem mais informada que eu), ou seja lá sobre o que for.

De qualquer modo está na hora de terminar esta pequena pausa e voltar ao que estava a fazer, antes que fiquemos aqui todos a bocejar em coro.

E eu tenho que me manter desperto que hoje é sexta-feira (at last).


Música de Fundo
All The Right Moves” – One Republic




segunda-feira, 16 de novembro de 2009


Foto: Net



Vagueando pela mente numa chuvosa tarde de Outono

Descobri que é o desinteresse que me afasta.

O desinteresse pelas notícias mais que batidas, as “sintonias” estratégicas e de ocasião, ou as amargas e reptilárias lágrimas de um primeiro-ministro “falinhas mansas”.

Tudo coisas muito ao estilo de publicações cor-de-rosa para inocentes desmioladas.

(Que também as há para homem. Pois estava agora mesmo a ler a Maxim americana em formato *.pdf)

Nunca se transitará para um mundo novo, se os seus habitantes forem os do antigo.

Nunca a criação poderá ser transformada em “cultivo”, sem que por isso perca o seu nome.

Quando aqui comecei, o que mais gosto me dava era escrever.

Agora… rasgar.

Música de Fundo
Papillon” – The Editors


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Foto: Frame de Video


A Igreja do Imaculado Blog
- “As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras” -
Friedrich Wilhelm Nietzsche


Olá, malta.

Nestes últimos tempos tenho evitado escrever, porque independentemente do assunto sobre o qual de me debruce, invariavelmente dou por mim a dizer mal de algo ou alguém. O que como devem calcular é um péssimo marketing, além de ser espelho de conflitos internos e/ou frustrações não resolvidas.

Quanto a este último ponto a coisa é fácil de lidar; pois basta encontrar alguém que valha o trabalho. Não que me tenha tornado instantaneamente num “paradigma de irresistível atracção”, mas apenas porque as referidas frustrações não são da natureza que vocês estão neste momento para aí a pensar (suas alminhas depravadas).

É pois com repousante bonomia que me endereço a vocês nesta frígida e ventosa manhã de Outono, sem qualquer especial objectivo além de cavaquear (que Blog nos livre dos trocadilhos “à Herman”…) um pouco, e desperdiçar o vosso tempo.

A nossa igreja sempre foi conhecida pela sua abertura de espírito e brandura de costumes. Nunca alinhámos em suplícios (excepto talvez o uso de uma venda ou de umas algemas de vez em quando), guerras santas e corrupção infantil (que consiste em tentar “endrominá-los” à traição, enquanto se encontram desprevenidos numa sala de aula pensando que vão aprender algo).

Mas este plácido estado de coisas tarde ou cedo teria que acabar. E mais uma vez devido ás aspirações hegemónicas da “Santa Madre Igreja, Católica Cornuda e Apostilhónica” (SMICCA para me facilitar a escrita).

Como sabeis, desde tenra infância que a maioria das crianças ocidentais (e algumas orientais mais desprevenidas) bebem junto com o leite materno ou o dos refeitórios escolares, esse nefasto Nesquick propalado pela Bíblia. Que tal como foi admitido ultimamente por representantes da SMICCA, não pode nem deve ser encarada como factual ou mesmo tida em conta como referência histórica (Jesus deve estar “em brasa” com eles).

Isto sem quaisquer precauções ou assistência por parte de teólogos, que os guiem através daquela selva de metáforas, hipérboles, axiomas e outros animais perigosos - O axioma é particularmente perigoso. Porque é tão evidente que a maioria das pessoas tem tendência a ignorá-lo; normalmente com consequências nefastas (a tão conhecida “intoxicação pelo óbvio”).

A SMICCA nunca ficará conhecida pelo seu apreço ou apoio à ciência e ao progresso, uma vez que é exactamente dos antónimos que extrai aquilo com que se alimenta (Nietzsche é que os topava bem), e lhe permite perpetuar um confortável (para eles, claro) “statu quo”. Que o digam Galileu, Giordano Bruno, e mais uns quantos incautos que se viram a contas com a “única e verdadeira fé”.

- Mas com isto tudo, já nem sei bem onde ia… Ah! O condicionamento precoce.

Após cerca de dois mil anos de interpretações literais (pois é, parece que afinal Frei Tomás é um gajo muito conhecido) impingidas por padres, catequistas e professores/as mais ou menos beatos, o British Council decidiu fazer uma pesquisa em dez países (11.768 inquiridos entre África do Sul, Argentina, China, Egipto, Espanha, Estados Unidos, Grã Bretanha, Índia, México e Rússia) sobre o ensino das teorias evolutivas nas aulas de ciências.

Apenas 20% das pessoas concordaram, enquanto 53% defenderam o ensino do Criacionismo e do “Intelligent Design”. Como se a criação do mundo tal como o conhecemos pudesse constituir prova de inteligência em favor de alguém…

É realmente assustador quando uma percentagem tão grande de inquiridos se manifesta a favor de teorias apenas comparáveis à da “Terra Oca” ou dos “Antepassados Extra-terrestres(já ventiladas num meu post de 2006 “O Código da Treta”). Teorias estas, dignas de figurar em qualquer antologia humorística ou mesmo no extinto “Tal & Qual”, quando havia falta de assunto.

Mas tal como vos disse no início desta palestra, encontro-me numa disposição assaz prazenteira. O que quer dizer que talvez o próximo post seja sobre “O Criacionismo e a Verdadeira Criação, tal como vistos pela IIB”.

Até lá, agasalhem-se que vem aí o frio.

Música de Fundo
Black Jesus” – Everlast



domingo, 25 de outubro de 2009

Foto: Mail/Net


Comunicado


Venho aqui agradecer os amáveis convites que tenho recebido relativos a contactos de Facebook, Flixter, etc., mas esse tipo de comunicação é incompatível com o meu princípio rígido de não deixar à solta pela Net, qualquer informação pessoal que possa ser acedida indiscriminadamente.

As minhas mais sinceras desculpas.

TheOldMan


Música de Fundo
Folson Prison Blues” – Everlast




quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Foto: Net


A Igreja do Imaculado Blog
- Onde pára António da Costa de Albuquerque de Sousa Lara, 2º Conde de Guedes e cidadão honorário do Estado do Texas? –

Irmãos! Como já deveis ter reparado, não há fome que não dê em fartura. E nem sequer me estou a referir às chuvadas que têm caído nos últimos dois dias; mas sim ao facto de após seis meses de inactividade, aparecerem dois posts seguidos sobre a IIB.

Mas é uma inevitabilidade resultante dos bizarros tempos que atravessamos. Tempos em que os valores se têm modificado, reformulado e reposicionado (desculpem lá, mas se não falo de valores, começo a parecer mais novo do que na realidade sou).

Venho hoje falar-vos de Caim. Não particularmente sobre a natureza dos seus actos, mas sobre a piada que têm a maioria das opiniões (inclusive a minha) forjadas nos últimos tempos sobre o que terá escrito Saramago sobre o assunto.

Eu não li (e duvido que vá ler) “Caim”, tal como não o fará uma boa parte das pessoas que já se pronunciaram sobre o livro até agora.

Sobre Caim, basta-me a opinião de José Vilhena (in A História Universal da Pulhice Humana) que já li há muitos anos, e considero-me definitivamente informado sobre o assunto.

Sobre Saramago nada de especial tenho a dizer, excepto que as suas últimas obras me têm proporcionado inúmeras noites de sono calmo e reparador. Coisa pela qual o louvo, pois até sou um tipo “agradecido”.

Mas Dias Amaral, colunista no Correio da Manhã e director de uma revista cujo site é patrocinado por uma empresa que nutre um visível desprezo pelas regras ortográficas (Chama-se “Contato Direto), declara que Saramago é “o gajo mais chato e desagradável da Península Ibérica”.

E aqui eu não lhe perdoo, pois um tipo que é capaz de pôr fotos da Carolina Salgado (toda retocada a Photoshop) numa “revista para homens”, não merece a mínima confiança relativamente às suas capacidades cognitivas ou critério na atribuição de prémios.

Mas Blog é grande e a nossa fé não se alicerça sobre chacina, injustiça e maus costumes, como acontece com cristãos, muçulmanos e dirigentes desportivos. Embora os primeiros tenham feito ultimamente uma tentativa de “branqueamento”, com a edição da “Bíblia para Todos”. Assim uma espécie de “Guerra e Paz”, mas reescrito por Inês Pedrosa e publicado em versão condensada pelo “Reader’s Digest”.

Mas voltando à Bíblia e ao seu conteúdo tão ao gosto de gente pia, videntes e fãs de “O Senhor dos Anéis”. Já a li várias vezes (assim como muitos outros livros) e continuo a considerá-la um repositório de inspiração para textos humorísticos (a multiplicação dos pães, a “humilhação” de Dina, Lot oferecendo as suas duas filhas núbeis à populaça de Sodoma… um autêntico “buffet).

Agora a história de Caim, meus Irmãos, até que nem é nada de especial.

Qual de vós não conheceu na escola ou no emprego, um desses engraxadores e denunciantes sem espinha dorsal, que tudo fazem para cair nas boas graças do professor ou do chefe? E quantas vezes fizeram o agradável exercício de estilo que é imaginar os métodos e situações em que se poderia dar uma eventual retribuição?

E o filho pródigo? Essa então é demais… Especialmente porque o autor do referido texto (e de outros) ao nos tentar convencer que o “que está a dar” é levar uma vida de mortificação, sacrifício e resignação; acaba por pôr o “herói” do dito episódio a ser recompensado pelo contrário de tudo o que é ensinado. Retratando assim o “Altíssimo” e apaniguados, como uma espécie de “famiglia” tentando impor um domínio mundial alicerçado na produção eugénica de idiotas.

Mas chega de rebaixolice e natureza humana; que a vontade de escrever também não é muita.

Para terminar, o tom com que o tipo se refere constantemente ao “nosso Nobel” (como diria o “Cassete” Carvalhas), denota uma ponta de despeito, senão inveja, por algo que Saramago talvez tenha e ele não. Com franqueza não me interessa o que seja. Uma vez que Saramago para mim é “letra morta”, e ele… Bem. Ele serve-me exactamente para o mesmo fim que lhe serve o laureado; dizer mal apenas por dizer.

Mas o que eu não lhe perdoo mesmo, é ter publicado as fotos da Carolina Salgado. Este gajo é bem pior que o Sousa Lara …



Música de Fundo
The Cover of the Rolling Stone” - Dr. Hook & the Medicine Show
(videolink)



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Foto: Net









A Igreja do Imaculado Blog
- O tenebroso processo da bruxa Maitê –

Irmãos! Independentemente de a água benta começar já a ficar choca por estar guardada tanto tempo sem uso; era inevitável que a nossa Igreja se debruçaria convenientemente sobre o processo da bruxa Maitê. A famosa e insinuante mulher mundana que vinda do Brasil (local de onde antigamente importávamos quase todas as cartomantes), veio à nossa terra escarnecer o esoterismo, depreciar a hotelaria e cuspir nas nossas fontes.

Mas antes de lhe afinarmos a tíbias no potro, ou sondarmos as entranhas com uma tenaz aquecida em busca da verdade, devemos reflectir um pouco sobre o facto de a estupidez não constituir propriamente um crime quer aos olhos da Igreja (que dela prospera e se sustenta), quer do poder secular; cujo precioso “status quo” dela se aduba como se de um precioso monte de estrume se tratasse.

Confesso que vi o famoso vídeo na TV e não me fez uma impressão por aí além. Talvez por me lembrar um outro igualmente infeliz comentário, com que Caetano Veloso se saiu no princípio dos anos 80. Afirmando que uma coisa que lhe causava estranheza sobre Portugal, era ver todas as manhãs as “multidões de indivíduos endomingados saírem das suas casas velhas e em ruínas para irem trabalhar” (desculpem mas é apenas uma paráfrase).

É claro que assim que tomou consciência que tal iria ter uma influência desfavorável nos seus rendimentos em relação ao mercado português, logo “virou o bico ao prego” e se desculpou; um pouco à semelhança da “Maitêzinha”. Ou seja, “tapando o sol com a peneira”, e utilizando outras coloridas imagens de estilo tão caras ao imaginário brasileiro.

Mas dizia eu, ser estúpido não é crime. E quanto ao preconceito, também não é nada de novo pelos nossos lados. Pois se desde o século XIX os brasileiros nos designam pelo estereótipo: “O padeiro Manuel e sua mulher Maria”, protagonistas de inúmeras anedotas e canções populares de escárnio e maldizer; também das nossas mãos os "brasucas" não saem incólumes.

E nem me dou sequer ao trabalho de reproduzir aqui frases lapidares (que as há imensas) dos nossos compatriotas sobre os imigrantes brasileiros. Uma vez que a realidade é já por si tão confrangedora, que adicionar-lhe as habituais “frases famosas” seria apenas uma demonstração de extrema crueldade.

É necessário ter em conta o contexto em que aparece inserido o clip da Maitê. Situação esta que é perfeitamente ilustrada pelos tiques físicos e verbais, das restantes galinhas que se encontram naquele estúdio. É apenas um programa estúpido para gente idiota; o que é perfeitamente natural na espécie de terreno em que medram coisas como a "TV Record" e o “Programa do Ratinho”.

Mas nada disto é demasiado grave ou caso para se gastarem algumas caixas de fósforos e uns decilitros de água benta.

Irmãos. A estupidez paira pelo mundo espalhando os seus miasmas, como se fosse uma espécie de “influenzza”. Mas é nossa a responsabilidade de ingerir as necessárias e preventivas vitaminas.

Lembrai-vos. É fácil condenar a estupidez dos outros… Infelizmente é muito mais difícil negar que somos o país que tem a TVI, Alberto João Jardim e José Castelo Branco.

Música de Fundo
Who's Got A Match?“ – Biffy Clyro



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Foto: Net
Outono

Lembrei-me hoje dos teus olhos
e de como me falavas do Outono
prometendo que o sol raiaria
através de uma teia de folhas douradas

Lembrei-me também da voz…
a voz com que o dizias

E de como dizias milhares de outras coisas

Como se cada uma delas fosse tão importante
quanto o regresso do sol.

É novamente Outono

E o meu coração está cheio de folhas secas
que a chuva em breve varrerá para longe

A chuva matinal, do Outono em que te esqueceria…

Não fosse a voz com que então me falavas
Prometendo o regresso do Sol

Música de Fundo
"Days Go By" - Dirty Vegas


sexta-feira, 25 de setembro de 2009


Este Meu Fado
- Toda esta “marialvice” que se segue pode ser considerada “politicamente correcta”, porque além de ser sobre política, é também verdade (Que querem? À semelhança dos políticos, a língua portuguesa é muito traiçoeira) -

O tipo do bolo-rei ou está mesmo a cair da tripeça, ou faz parte de uma conspiração internacional para denegrir a imagem inteligente (e que tanto lhes custa a falsificar) dos chefes de estado de todo o mundo. O certo é que está a perder o toque; pois já nem uma insignificante intriga palaciana consegue controlar.

Mas gora deu-lhe para se antecipar (o que é uma quebra grave de protocolo) à Conferência Episcopal Portuguesa, e à semelhança de qualquer menino queixinhas da instrução primária, vir a correr a anunciar a próxima visita do Papa B-16 (também conhecido como “o bombardeiro do Senhor), sugerindo que tal se deveria apenas à sua “humilde” pessoa.

O facto de tal anúncio ter sido feito praticamente em cima das eleições, é uma manobra tão descarada que até os bispos o acharam pouco adequado. E vem contribuir tal como as sondagens tendenciosas e de resultados tão dispares entre si, para o aumento da confusão que já grassa no nosso pequeno quintal.

Como não tenho grande paciência para “partes gagas” (como costuma dizer o Apóstolo) fico-me hoje por aqui, mas dedico-lhe um fado.

Só que devido à minha proverbial preguiça, vou seguir o exemplo de um tipo aqui “ao lado” e “homenagear” Júlio de Sousa Olho, plagiando e assassinando em directo um seu famoso fado que costumava ser cantado por Toni de Matos.


Cavaco vai-te embora

Sempre que pago portagem
Tudo me fala de ti
Do dinheiro que perdi
Que ainda por cima era meu
Sim, a única verdade
Presente no teu governo
Era a massa que estoiravas
Do famoso apoio externo

Cavaco, vai-te embora
Deste país tão cansado
Que nestes muitos anos tens lixado
Ficou
Bem conhecido este chavão
Que à noite o SIS é um papão
Que os “Xuxas” usam sem piedade
Também
Vejo que sentes a saudade
Do tempo do “Cavaco Amigo…”
Mas acho que não era verdade

Vai… andor… dá-me essa alegria
Põe-te a andar; vai, por piedade
Pois só nos faltas ao respeito
Com essa falta de ombridade
Porque é que será que agora vens
Insultar a nossa inteligência
Porque será que agora vens tentar
Transformar a intriga numa ciência

Anda Pacheco!... (como dizia a “ti” Hermínia)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009


Isto das eleições é uma maçada.
- Não contentes por nos terem entalado nos últimos vinte e dois anos (desde que Cavaco foi 1º Ministro), agora ainda nos estragam um domingo e nos obrigam a ir colaborar com o inevitável -

Só de imaginar que vou ter que abdicar do meu ciclismo matinal no próximo domingo, para evitar que a Manuela se “abife” ao poder e que Sócrates obtenha a maioria, fico cheio de urticária como se tivesse comido uma lata inteira de anchovas com alcaparra.

Mas ao menos eu gosto de anchovas; ao contrário dessas duas iguarias de qualidade duvidosa.

Não que sejam os únicos a merecer o meu escárnio. Mas apenas eles se encontram em posição (há tantos anos que se encontram nessa posição, que já devem ter reumático) de ganhar as legislativas.

É claro que também acho imensa piada ás minorias. Como aquela senhora de pele oleosa que apareceu há uns dias na TV (não me lembro do nome do partido/movimento, mas acho que era azul ou por aí…) a dizer que a recuperação do país passava por um plano.

Por breves momentos parei, expectante, interrompendo a minha esporádica passagem pela sala. Mas afinal ela não tinha plano nenhum. Apenas achava que devia haver um plano.

Para nos brindarem com essa pérola do discernimento lusitano, mais valia terem passado uns anúncios; ou mesmo a saudosa mira técnica, que era bem mais interessante que o programa e objectivos de muita gente.

Seria um pouco monótono voltar a desfiar o rosário das minhas reclamações sobre os dois candidatos (Sim! Só existem dois candidatos. O resto é uma espécie de cintura de asteróides políticos que andam para ali ás voltas), pois nestes anos tenho-lhes arreado forte & feio em todas as ocasiões.

Mas não posso deixar de emitir uma ou duas observações sobre esta campanha:

1ª - MFL proferiu durante um dos seus últimos discursos, algumas das opiniões mais acertadas que já lhe ouvi. Afirmando que é tempo de ser competente, honesto e etc. É claro que se nos reportarmos aos governos a que o PSD presidiu, ficamos a saber bem o que ela quer dizer; pois pouco ou nada encontramos lá dessas tão propaladas virtudes.

E talvez fosse melhor o PSD não falar em asfixia democrática antes da morte de João Jardim. Que só sairá da “cadeira” do mesmo modo que Salazar.

2ª - As Eleições Autárquicas vão ser muito mais divertidas que estas. É que o PS ao fim deste tempo todo em que espalhou pela cidade cartazes com dizeres alusivos (democracia, competência… ad nauseam) ao referido sufrágio, finalmente ganhou coragem e lá apareceu com outros bem mais pequenos em que aparece o retrato de Paulo Pedroso a encimar a frase “É Almada que está em jogo!”.

Sempre quero ver a que é que ele vai querer jogar…

Mas é uma maçada. Ter que sacrificar um dia de merecido lazer, apenas para tentar evitar que a direita (PSD) ganhe e que a social-democracia (PS) perca; fugindo assim à responsabilidade sobre o buraco em que nos meteu.

Música de Fundo
Know Your Enemy” – Green Day

quarta-feira, 16 de setembro de 2009


O Regresso do Intrépido Explorador das Dúzias
- E a fantástica descoberta de mais um novo bicho, que irá enriquecer a já tão vasta fauna suburbana da Margem Sul -

Já perdi a conta aos posts sobre o regresso, profundos e cheios de significado, que escrevi para depois apagar. Nada disso tem mais sentido do que dizer apenas que resolvi aparecer. Não sei se por muito ou pouco tempo; mas a vida sem blog pode ser tão aborrecida quanto o ter que pensar em algo para publicar aqui regularmente.

Durante estes seis meses pouco se passou que seja digno de nota. Fiz praia, trabalhei, escondi-me um tempo na serra e ajudei a combater um incêndio durante o qual tive um episódio cósmico com um ouriço; o que me fez reavaliar um monte de outras coisas que nada tinham a ver com o assunto.

Mas estes primeiros tempos da “Segunda Vinda”, não deverão ser tão aborrecidos assim. Pois além de nos encontrarmos em plena época venatória no que diz respeito à classe política. Nenhum dos principais candidatos merece mais credibilidade que o seu colega do partido ao lado; o que na prática equivale a dizer que desta vez não existem espécies protegidas.

Irei também falar-vos mais em pormenor de uma nova idiossincrasia do mundo animal.

O “Decibélico Celular Ambulatório” é uma espécie cujo habitat pode ser estabelecido em qualquer zona mais “chunga”, embora eu os tenha observado principalmente na região do Bairro Amarelo (onde predominam as variantes “Africansis” e “Romani”) e a bordo do Grande Trem da Selva (também conhecido como MTS).

Mas uma vez que comecei a falar dele, o melhor é despachar já o assunto.

O Decibélico Celular Ambulatório (ou DCA) é uma ave canora que compensa a sua fraca plumagem com a exibição de dispositivos de alta tecnologia (normalmente um telemóvel), de onde emite os seus apelos de acasalamento e/ou de desafio territorial em tom “Techno”, “Kuduro ou “Kizomba”.

Devido à originalidade dos seus rituais e ao volume com que emite os seus chamamentos, o DCA começa já a ser alvo de caçadores furtivos e traficantes de animais raros; que normalmente operam disfarçados de revisores do MTS.

Hoje, por exemplo, seguia eu muito descansadinho no MTS em direcção à Selva Amarela (e rosa, e branca, etc.) quando fui surpreendido por um súbito “Huntzzz-huntzzz” que se ouvia cerca de dois bancos atrás de mim. Instantaneamente reconheci o canto característico do Decibélico Celular Ambulatório, na sua fase de desafio territorial.

Para os que ainda não tiveram a insólita experiência de encontrar um destes animais, aviso que a sua primeira tendência será a de se levantar, dar-lhe um par de tabefes e atirar a merda do telemóvel pela janela.

Mas não consideramos aconselhável esse tipo de abordagem; pois embora ainda não seja uma espécie protegida, é quase maioritariamente composta por espécimes muito jovens. O que normalmente desperta a piedade e subsequente repulsa sobre o agressor, por parte de todos os organismos de protecção ao ambiente e associações de pais.

De qualquer modo, as janelas do Grande Trem da Selva também não abrem. Isto talvez por causa das serpentes ou apenas devido a este ter ar condicionado.

Mas dizia eu… Ah!... Mal ouvi os primeiros trinados desta ave assaz irritante, olhei disfarçadamente o reflexo no vidro da janela; constatando que o espécime em causa era um jovem de cabelo oleoso (sem dúvida da variedade Romani), que exibia aos seus amigos um telemóvel de onde saia toda aquela cacofonia; tão ao gosto de antropólogos e assistentes sociais, Que julgam através dos sons assim emitidos, adivinhar a personalidade e estado de espírito da referida bicheza.

Mas entretanto a composição estava a chegar à estação onde normalmente saio. Um local semi-devastado por selvagens indígenas, que sistemática e regularmente vandalizam as cercanias. Tendo já partido o relógio e o quadro eléctrico dos horários; assim como os vidros do abrigo junto à bilheteira, que já foram substituído várias vezes.

Preparei-me para sair. Mas por alguma razão desconhecida as portas não se abriam.

Entretanto, logo atrás de mim, o DCA e os seus amigos um pouco alvoroçados, carregavam freneticamente no botão de abertura das portas; enquanto lançavam olhares inquietos para o outro extremo da composição.

Os meus sentidos treinados por inúmeros anos de permanência na selva (trabalho no Bairro Amarelo há 12 anos), fizeram-me notar um caçador furtivo disfarçado de revisor do MTS, que displicentemente encostado a um varão brincava com o leitor de cartões.

Passei por ele, e dirigi-me a outros dois que se encontravam a bloquear a única porta aberta no extremo da composição; a quem mostrei o passe enquanto saía para a rua.

Atrás de mim, o Decibélico Celular Ambulatório gaguejava algumas justificações que não evitaram o preenchimento do impresso de multa. Ficando desta vez provado, que além da fraca plumagem e do seu estridente sistema de comunicação, o DCA tem também o hábito de tentar andar nos transportes públicos sem bilhete.


Música de Fundo
Big Sur - The Thrills

sexta-feira, 11 de setembro de 2009



A ausência é uma morte reversível.
Voltei!...
*
Música de Fundo
"Lift Me Up" - Moby

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Mate!


Quando um blog se transforma num cavalo manco, a única solução é abatê-lo!

Obrigado a todos os que me acompanharam nestes cinco anos e meio.

Música de Fundo
Sooner or Later” – N.E.R.D.


domingo, 25 de janeiro de 2009

Na cama comigo próprio
- Apontamentos de um explorador perdido algures nas vastas cavernas do Planeta Flanela -

*

A provar que a vida não é mais que uma sucessão de eternas repetições, deparei mais uma vez com a Dr.ª Inês debruçando-se sobre mim como um benevolente “Ganesh”; cuja face radiante de bondade me transmitia calor e segurança. – Estamos a fazer muita febre; não estamos? – Proferiu no seu habitual tom de voz, que fazia lembrar salada de frutas polvilhada com canela.

Tentei focar bem a vista. Mas era como se regulasse um telescópio com as lentes embaciadas. Todas as imagens me apareciam distorcidas e com narizes descomunalmente bulbosos; assim uma espécie de instantâneo captado através de um óculo de porta.

Uma vez que não tenho feito ultimamente qualquer investimento no domínio das substâncias recreativas, concluí que estava doente e virei-me para o outro lado, enquanto soavam os primeiros acordes de “Should I Stay. Or Should I Go” dos Clash. As drogas que fizessem o seu trabalho.

*

São horas intermináveis em que vou sendo cozinhado pelas minhas fornalhas interiores. Rubras incineradoras, que de goelas abertas deixam escapar promessas de um inferno garantido. Não tão garantido assim, pois tempos depois acaba por sobrevir um frio penetrante e azulado que induz tremuras incontroláveis; tremuras estas que a serem bem aproveitadas, dariam para colher todos os frutos de uma ameixoeira de bom tamanho.

*

Palavras fungiformes encerradas em frascos de formol. Quase-silêncios roçagantes de uma beleza monocromática; envoltos num húmido véu de tule e febre. Relembro subitamente noites em que velhas rezavam, humedecendo trapos em água-de-rosas.

*

Profundos e sinuosos túneis onde fiadas de lábios rubros e aveludados protegem a entrada dos arquivos do sexo, onde o delirante explorador desprevenido se perde às vezes presa de uma húmida boca, umas coxas mornas ou umas nádegas frias (sempre achei que as nádegas frias são um bom sintoma; em certo aspecto equivalente aos perdigueiros terem o nariz húmido).

Como uma toupeira na sua febril semi-cegueira calcorreio os meus corredores subterrâneos, farejando factos, datas e pessoas que surgem como turfas saídas das húmidas paredes; com um odor pungente a folhas e passados afogados em névoa.

*

Não tem sentido a Primavera sem Inverno ou a vida sem morte.

É qualquer coisa que parece saída de uma das letras dos ABC, mas cheio de sentido na sua aparente superficialidade. Talvez seja daquelas ideias que se tem quando se apanha gripe; uma espécie de mensagem geneticamente impressa e transmitida pela simples presença do vírus. Um mecanismo que se alimenta de todo este calor húmido que paira entre as minhas orelhas como uma nuvem tépida e entorpecente.

*

Musica de saxofone e piano difunde-se a partir do nada; descendo lentamente por um fio de luz que o candeeiro projecta na almofada mesmo junto ao meu olho esquerdo. Os folhos do abat-jour fazem lembrar a cortina de um palco por onde a luz se escoa inundando o quarto numa aguarela azulada que se vai centrando caleidoscópica no tecto.

Nas raras vezes que caio à cama doente, acabo invariavelmente por me recordar de “O Detective Cantor” de Dennis Potter.

Imaginei-me há pouco a cantar “When Smokey Sings” com um casaco às riscas e chapéu de palha. Mas isso talvez seja do antibiótico que nada num caldo de cultura composto por mais quatro ou cinco drogas e um pouco de sumo de laranja. Sinto os olhos como ovos cozidos que deslizassem incomodamente em ângulos invulgares.

*

Sinto a boca seca mas não bebo. Quero saborear este deserto de onde se desprendem estranhos eflúvios em espiras vaporosas como vagarosos géisers expelidos por invisíveis cetáceos.

O mundo vítreo e aquoso que se esconde na minha febre é composto por biliões de minúsculas gotículas de suor que traçam na minha memória a posição de todas as rugas da minha cara. E me cobrem com uma película refrescante, que finalmente me faz deslizar para o sono.

*

Acordo às vezes. Interrogando-me sobre as horas ou se chove... apenas por hábito. Mas acho que estarei curado um dia destes…

Música de Fundo
Berlin” – Lou Reed

domingo, 4 de janeiro de 2009

Desejamos-lhe um Feliz Ano Morto!...
- Uma fábula politico-social imaginada no breve espaço de tempo em que tentava fotografar uma estranha estrutura metálica, e quase sendo simultaneamente atropelado por um autocarro dos TST… -

Lembro-me perfeitamente como tudo começou no primeiro fim-de-semana de 2009.

Estava a testar a máquina fotográfica do meu novel telemóvel (recebido no Natal) naquilo que passava como sendo “A Árvore de Natal da Cidade de Almada“ – uma gigantesca marquise cónica erigida numa das principais praças – quando ouvi os primeiros gritos.

A princípio não lhes dei muita importância, pois além de me encontrar um pouco atrasado e ainda ir apenas a meio do meu circuito matinal, os auscultadores do Walkman bombavam qualquer coisa bastante ruidosa, que não dava grande margem para atender a súplicas e/ou gritos horripilantes.

Mas entretanto os mortos tinham acordado. Bem… Nem todos.

A estranha singularidade que tinha proporcionado este inesperado despertar, soube-se mais tarde, só funcionara perante um conteúdo mínimo de massa muscular; pelo que todos os posteriores esforços feitos para ressuscitar alguns líderes políticos bem como apodrecidos barões da finança falecidos vários anos antes, não passaram de um enorme desperdício de tempo e recursos.

Finalmente após umas duas semanas de insano desvairo, sua ex-santidade João Paulo II apareceu à varanda papal na Praça de S. Pedro, pedindo ao mundo que tomasse um pouco de juízo; pois tudo o que acontece é vontade de Deus… e etc, ad infinitum. Só perdendo a embalagem, quando acabou por deslocar o maxilar com tanta conversa. Percalço este, logo sanado por um industrioso cardeal munido de uma caixa de clips e um alicate de manicure.

A grande surpresa é que, um ano que tinha de início sido vaticinado como o mais negro poço em que o país teria caído até à data, acabou por se transformar num marco de mudança e progresso.

Nunca, até ao acordar dos mortos, o país tinha estado tão vivo.

Não tardou muito até que os “regressados” (assim apelidados em prol do “politicamente correcto) decidissem dedicar-se à vida pública, e exigissem um estatuto que os equiparasse aos privilegiados vivos; que segundo eles, gozavam imerecidamente os frutos do esforço dispendido por aqueles que literalmente se tinham matado a trabalhar.

Face a esta nova realidade, e posto que em caso de confronto dificilmente se poderiam matar novamente os mortos, estes acabaram por prevalecer e integraram-se finalmente em todas as instituições e ramos da sociedade.

O seu primeiro objectivo foi o Governo da República. Mas tal não suscitou grandes protestos, porque os portugueses já nascem fartos do governo; seja ele qual for. Apenas tiveram alguma dificuldade quando chegaram à Presidência.

Aí foram obrigados a concluir que Cavaco Silva não se encontrava suficientemente vivo para ser substituído, pelo que permaneceu em funções; continuando a não fazer qualquer diferença para o caso.

De qualquer modo a troca era pobre. Pois pretendiam substitui-lo por Mário Soares, que de algum modo os tinha convencido encontrar-se já morto também.

Passaram dois anos.

Dois anos de prosperidade em que os mortos se infiltraram na CIP, na CAP, na CGTP, na UGT e em tudo o que era associação ou partido político; conduzindo assim o país numa via de competência e honestidade. O que até era bastante fácil; visto que os mortos poucas necessidades têm. Para além de um pouco de creme hidratante para evitar que se tornem demasiado “estaladiços”, e uns “trapinhos” para mitigar a “vaidade residual”.

Nesta nova política de honestidade, o governo começou por pagar as suas dívidas às empresas. Mas o dinheiro nem precisou de sair dos cofres, pois estas (geridas finalmente também por mortos) deixaram de fugir aos impostos e começaram a cumprir as suas obrigações atempadamente.

Cedo chegou a vez de os trabalhadores verem os seus lugares ocupados por mortos. Mas a maior parte (excepto aqueles que não têm vida própria, ou sejam… mortos) não se preocupou com isso, pois a nova ordem permitia a qualquer cidadão trabalhar ou não, conforme o desejasse. Embora as empresas preferissem os mortos; pois estes além de não precisarem de dormir (ou sequer descansar), não exigiam nada para si excepto o ordenado mínimo e o direito ao trabalho. O que, segundo diziam, os ajudava a sentirem-se mais vivos.

Reparando na prosperidade que a “República Zombie de Portugal” (como zombeteiramente lhe chamavam) gozava com base neste fenómeno localizado, os governos dos outros países onde tal não acontecera, começaram a tomar medidas para “atingir um equilíbrio de forças” como se costuma dizer no meio político.

Apesar da total integração da nova minoria e de todos os direitos de cidadania que lhe eram garantidos constitucionalmente, começou a notar-se uma diminuição da sua participação na vida nacional.

A princípio foram apenas algumas empresas que regressaram ao controlo dos vivos, com todo o seu cortejo de inconvenientes e desvantagens já sobejamente conhecidos. Mas depois tudo se precipitou, e as instituições começaram a emperrar e a entupir como nos velhos tempos “vivos” do PS e PSD.

O Primeiro Ministro Paulo Portas que se suicidara para ser eleito, veio ao canal de televisão do governo informar que o momento era grave e que o país se encontrava “de tanga”. Aproveitando para anunciar a sua demissão do governo Português para ir presidir à União Europeia em Bruxelas, onde um desconsolado Durão Barroso fazia já as malas para regressar de orelha murcha (ou nariz, tanto faz) a Portugal.

A economia entrou em recessão grave. E as pessoas na rua ostentavam todas elas expressões lúgubres; agravadas talvez pela maquilhagem zombie que se tornara moda. Mas os verdadeiros mortos, cada vez se tornavam mais difíceis de encontrar; correndo o boato que teriam a pouco e pouco fugido para o estrangeiro, aliciados pelos outros países da CEE e mesmo pelos Estados Unidos da América.

Assim, os vivos voltaram (mal ou bem) a ter que “fazer pela vida”; e esta acabou por continuar. Sendo segundo a minha opinião (e a da Bíblia também) a única coisa que a vida sabe fazer, que é continuar.

Imensas teorias se formalizaram sobre as razões da origem e do término deste fenómeno, mas nenhuma delas se provou suficientemente conclusiva.

Até que uma manhã no “Você na TV!”, Manuel Luís Goucha com a sua habitual vivacidade, esclareceu – Os portugueses tornaram-se num povo acomodado e sugestionável. E até os “nossos mortos” nos abandonaram, porque acabámos por chegar a um ponto em que não se notava a diferença entre estes e os vivos.”

Na sua simplicidade popularucha, o apresentador brindara-nos com uma “verdade básica”. Se há coisa insuportável para qualquer minoria, é a perda da diferença que a distingue.

Ou então (como outros sustentam) muito simplesmente os mortos acharam que “não valia a pena gastar cera com ruins defuntos”.

Música de Fundo
Open Your EyesGuano Apes

Creative Commons License
Todos os textos desta página estão protegidos por BLOG e por uma Licença Creative Commons.

theoldman.blogspot.com Webutation