quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Subitamente famosa devido ao seu "efeito", Babá tornou-se uma estrela internacional do cinema e da canção...


Foto: Net


O Efeito Streisand

- “The Streisand Effect”, para os apreciadores de coisas sonantes como frases lapidares, chocalhos e campainhas de porta… -

Surpreendido pelos acontecimentos a meio do meu “sprint” em direcção a 2011, não me vou pôr agora aqui a explicar o que significa o título (vão à Wikipédia que além de decerto o mencionar, também precisa muito da nossa ajuda), mas posso adiantar que tem muito a ver com o que se passou com a Jonasnuts.

A ENSITEL não é melhor nem pior que as outras empresas do género; mas nem por isso deixo de concordar com o “apertão virtual” que neste momento estão a levar nos seus virtuais e metafóricos testículos. Que coitados, já devem (a avaliar por este link) estar habituados a tão rude tratamento.

Sem dúvida que erraram e vão ter que o pagar de qualquer modo. Quer seja directa e em numerário, ou indirectamente devido a uma campanha de indignação motivada pela metodologia utilizada naquilo que pomposamente apelidam de “apoio ao cliente”.

Não se trata aqui de um caso isolado, ou de algo que não se passe quase diariamente não só ali como em outras empresas (ubíquas, como eu lhes chamo), cujos tentáculos são tantos e tão espalhados, que acaba por ser necessário cortar-lhes um ou dois para que o cérebro seja finalmente avisado de que algo não está bem.

Pelo que sei também se passa o mesmo com alguns bancos (serviços listados em contrato que não são disponibilizados e alterações contratuais arbitrárias e unilaterais), com a VOBIS (três expositores cheios com caixas vazias de um jogo que ainda não têm à venda, apenas para fazer os clientes entrar na loja), com a FNAC (um leitor de MP3 de marca manhosa que nasceu logo torto, e que só após três meses e diversas “árias de Wagner” cantadas na loja do Fórum Almada, foi amavelmente substituído por um ZEN da Creative). Sendo estas apenas as últimas três ocasiões de que me recordo neste momento.

Habituadas a tratar displicentemente as reclamações de qualquer anónimo consumidor, as cadeias de distribuição (neste momento não se trata já de “comércio”, mas apenas de uma política direccionada para a obtenção desenfreada de lucro; uma vez que nestes casos as regras básicas da relação comercial se encontram subvertidas) têm às vezes este tipo de surpresas; como foi o caso de tentarem afiar o dente na “responsável pelo sistema de blogs do Sapo”. Que, e muito bem, aproveitou os meios de que dispunha para rebater as tentativas de pressão e silenciamento que foi alvo.

É claro que uma marca/empresa que se aventura a criar página no Facebook (que nunca foi destinado a esse tipo de actividade), tem que ser mais casta e limpinha que a mulher de César (Calpurnia Pisonis). Embora eu possa concordar com alguns dos comentadores que li por essa Net afora, e alegam poder todo este imbróglio ser culpa de algum funcionário armado em “pequena autoridade”; mas isso não desculpa a empresa de tentar apagar o fogo com um balde cheio de advogados.

Este tipo de actuação dá sempre mau resultado. E apesar de o resultado ter o nome “Streisand Effect”, já antes do nascimento da nariguda e barulhenta actriz se tinha estudado a mecânica da situação (quando da tentativa de introdução da batata na Europa, recorreu-se ao método “deixa-me cá esconder isto, que não quero mesmo nada que alguém veja”; com os brilhantes resultados que tão bem conhecemos). Tendo esta (a já citada actriz) a duvidosa honra, de ser a primeira celebridade a fazer figura idiota (desse modo) na Internet.

2011 chegará inexoravelmente. E com ele iniciar-se-ão (se é que não começaram já) promoções e saldos nessas mesmas lojas que tão mal tratam os seus clientes. E a solução para este tipo de problemas não passa pelo abandono do consumo, como já ouvi proposto por alguns espíritos mais “peculiares”, mas sim por uma atitude pro-activa em relação a reclamações.

Por exemplo, o meu problema com o MP3 foi resolvido com recurso a um tom de voz “mais alto" – embora sem gritar – que granjeou as atenções de muitos e desprevenidos consumidores, que eventualmente estariam ali para gastar algum dinheiro. Podem crer que um dos maiores pesadelos de um gerente de loja, é uma reclamação que se consegue fazer ouvir por um grande número de possíveis clientes.

É que embora a maioria deles ainda desconheça o “Efeito Streisand”, decerto estão familiarizados com o “Consumer’s Rage” (para os apreciadores de coisas sonantes como frases lapidares, chocalhos e campainhas de porta…) que habita cada um de nós, pronto para tomar o controlo mal se proporcione a oportunidade.

Usem-no criteriosamente… E, Bom 2011!


Música de Fundo
Boooom Blast And RuinBiffy Clyro


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


O Bisavô Halley (quando era novo) e "acompanhante" sendo cumprimentados por Nixon; um famoso prestidigitador daquela época.

Foto: Net


Monólogos de Alzheimer – 1
- As Visitas de Natal do Bisavô Halley - Histórias sempre presentes num futuro quase sempre bem passado –

Eram 18h no mostrador analógico do relógio da cozinha, onde um sol composto por centenas de LEDs, atingia o ocaso através de um alvéolo de nuvens acrílicas lanosas como ovelhas. Seguindo a pré-programação, os colectores solares instalados no exterior do satélite, começaram a dobrar-se nas armações como asas de libélulas, e o frio começava a invadir todo o casco enquanto as vigias se cerravam automaticamente para compensar a perda de calor.

As crianças aproveitando a imponderabilidade, flutuavam por entre a fumegante tubagem dos sistemas de apoio como mosquitos num canavial. - Chiquinho! – Chamou a mãe – Vai outra vez lá dentro dar um chuto nos hidráulicos do bisavô, porque o exosqueleto está a fazer uma chiadeira infernal. Até parece a nora de um poço.

O miúdo mais novo aplicou a planta do pé na antepara, impulsionando-se em frente com a graça de um nadador olímpico, até à escotilha que dividia o módulo habitacional da secção de armazenamento. – Esqueceram-se outra vez das manutenções intercalares. Foi o que foi… - Lamentou-se o rapaz com um trejeito de desaprovação – Está ali com as luzes vermelhas todas ligadas. E podem apostar que não tem uma gota de líquido refrigerador nos depósitos.

Também para percorrer milhões de quilómetros sempre congelado – Retorquiu a mãe, retirando um peru semi-petrificado do contentor de vácuo na cozinha – bastava que lhe pusessem umas luzes de sinalização, e até o podíamos prender lá fora para não ocupar muito espaço no módulo de comando. Mas esse “bip bip” é que é irritante e mete-se pelos ouvidos adentro. Até parece uma daquelas sondas “beatnik”, que mandaram para o cosmos cheias de banda desenhada e música punk, para chatear os ET’s que fossem encontrando...

Ó mãe – disse finalmente a mais velha levantando o nariz de um jogo 3D, no qual um grupo de mulheres pouco vestidas e ar selvagem se digladiava com cutelos; no que parecia ser o primeiro dia da temporada de saldos nuns grandes armazéns – Acho que o bisavô descongelou. Ia jurar que o vi piscar o olho no meio de toda aquela condensação na viseira.

O bisavô acordou… - Cantarolou o mais novo tirando a ficha e o cabo presos na traseira do enorme dispositivo e pondo-o a recarregar como a um vulgar telemóvel – Acho que já podemos ligar-lhe os manipuladores e ainda vai ter tempo de ajudar a montar a árvore de Natal.

Feliz aniversário bisavô! – Disseram os miúdos em coro ao mesmo tempo que as luzes por detrás da viseira se acendiam sucessivamente, e um murmurar reconfortante era emitido pelos dispositivos de filtragem.

Olá malta! – Saudou uma voz aguda e ofegante, que se notava ser amplificada electronicamente – No ano passado por esta altura estavam a atravessar o mar de poeiras de Kandor; onde é que nos encontramos desta vez? E de quem é esta meia garrafa de vinho branco que puseram aqui a refrescar?

Estou farta de te dizer para não refrescares o vinho no sistema criogénico do bisavô – Disse a mãe dos miúdos para o marido que acabara de entrar - Ainda no ano passado foi uma despesa doida, quando gastaste as nossas reservas de nitrogénio líquido para gelar as minis durante o Campeonato Galáctico.

Ou era isso – Respondeu ele enquanto descalçava as botas magnéticas – ou ter que ir lá fora de cada vez que quisesse beber uma; e mesmo assim arriscava-me a que uma chuva de micro-asteroides me partisse as garrafas.

Mas era de borla! – Disse ela já um pouco agastada – Deus quando criou o universo decretou que “O frio quando nasce é para todos”. E assim é totalmente escusado gastar dinheiro a refrescar minis, quando basta pendurá-las num cordel e deixá-las do lado de fora da nave. Olha, vai mas é lavar as mãos que o jantar está quase pronto.

E vocês dois – Acrescentou para os filhos – Em vez de estarem aí a atazanar o bisavô, empurrem-lhe a consola até à mesa para poder participar na consoada. Que eu no fim deixo-o ficar ligado mais uns minutos para poder contar-vos uma história.

Isso… - Respondeu o "crio-ancião", por entre uma cacofonia de trinados causados por interferência na aparelhagem. – Contaram-me uma anedota sobre um frade capuchinho e uma rigeliana de tentáculos sugadores…

Nada de histórias porcas ao pé das crianças sua múmia espacial. – Atalhou a mãe falsamente escandalizada – Encoste-se à mesa e faça sair os colectores de abastecimento, que o jantar de hoje é peru assado e vai-me custar imenso a enfiar-lho pela tubagem acima. Caramba!... Bem podia ter instalado o modelo de alimentação por osmose. Com uma reforma dessas e a armar-se em pelintra… Ainda gostaria de saber o que é que você faz ao dinheiro.

Hesitante, o velho pilotou a enorme caixa de acrílico (parecida com uma incubadora para nascituros precoces) e titânio em direcção à mesa, e ajustou os adaptadores das mangueiras a um alimentador automático Braun; no qual as crianças já se encontravam a introduzir pernas e asas de peru. De mistura com puré de batata e ervilhas estufadas. – Desta vez não despejem molho, pois no ano passado vi-me aflito para expulsar o excedente de Sulfureto de Hidrogénio; e os tipos da manutenção dizem que deixa mau cheiro nos filtros do ar.

Já no fim da refeição os miúdos começaram a insistir para que ele contasse uma história. – Sim. Conta aquela que explica porque é que fazes anos no Natal. – Pediu a mais velha. - Nada disso! – Atalhou o miúdo. Conta-nos antes como era o Natal no teu tempo.

Lembro-me de muito pouca coisa. – Desculpou-se o ancião, pouco à-vontade. – Os Natais não eram como agora; e tínhamos o aquecimento global o que era muito chato, porque gastava-se um dinheirão em ar condicionado.

Mas ó “bizavô” conta lá – Insistia o miúdo com as bochechas cheias de açúcar e canela das rabanadas; o que o fazia parecer um “Senhor da Ferrugem” de Eridanus4. – É verdade que o Pai Natal entregava as prendas com um míssil intercontinental de ogiva múltipla.

É verdade – Confirmou o bisavô – O pai Natal vivia na Coreia do Norte com os seus ajudantes que eram uns minorcas macilentos e amarelados; assim uma espécie de duendes com hepatite e os olhos em bico. E os americanos fartavam-se de chatear o Pai Natal, por causa do excesso de CO² que os constantes testes de entrega de prendas enviavam para a atmosfera. Eram tempos conturbados…

Os miúdos com os olhos brilhantes de entusiasmo e a cara apoiada em ambas as mãos, ouviam as histórias do pretérito imperfeito. A mãe acabava por meter à força a última peça de louça na máquina de lavar; e o pai subia a escada do compartimento da propulsão auxiliar, empunhando uma preciosa garrafa de bagaço caseiro.

Entretanto o bisavô, prisioneiro da caixa de plástico e das suas recordações passadas encontrava-se lançado - Era no Natal que os miúdos costumavam ir ao Circo do Benfica…

Boa!... Gritaram os miúdos com entusiasmo – Conta-nos a história da Leopoldina.

Está bem. – Disse ele – Mas já me podem desligar da corrente, que o conversor taquiónico está devidamente calibrado e abastecido. E assim já posso ir passar a Páscoa com os vossos primos ás Nuvens de Magalhães. Mas onde é que eu ia?...

Ah, o Benfica… Bem. O Benfica era um circo onde os meninos gostavam muito de ir no Natal. Costumava-se até dizer que quando o Benfica ganhava era Natal. E tinham uma águia como mascote: a Leopoldina.

Leopoldina!... Leopoldinaaa!...

Chiu! Calem-se seus micróbios espaciais! – Agastou-se o bem acondicionado ancestral - A Leopoldina era filha da Ellen Degeneres (que tinha um programa no qual representava uma lésbica destrambelhada sem qualquer jeito para a comédia) e de um ASIMO que subitamente se curto-circuitara a meio de uma entrevista. E costumava ir muito ao estádio do Benfica, porque se alimentava dos frangos normalmente lá deixados pelas equipas visitantes; até que a contrataram como mascote e para figurar no presépio (a Babá Pitta recusou-se a fazer de Maria enquanto Eusébio fosse o S. José).

Nessa altura ainda não nos tínhamos espalhado pelo cosmos e todos os países tinham um governo. Era assim uma espécie de concurso de talentos, mas no qual nunca se eliminava ninguém; e com a agravante de também não abundar propriamente o talento por aqueles lados.

O último foi o Governo do Alegre. Presidido por um tipo que fizera fortuna com a importação de bacalhau, e mais tarde apareceu no famoso programa do Júlio Isidro; onde ganhou milhares em prémios.

O Alegre era conhecido pela sua risada arrepiante, que quando ouvida precedia sempre o desaparecimento de alguém ou algum “lamentável acidente”. Transformou-se assim o governo numa espécie de ditadura. Mas como éramos todos obrigados a andar alegres, não se notava muito e os turistas julgavam-nos um povo trabalhador e extremamente alegre (logo dois erros de uma vez) que tinha apenas um presidente para todos os portugueses.

Foi nessa altura que começou a Época dos Descobrimentos. Um adolescente de Fernão Ferro, que se encontrava certa noite agarrado ao telescópio então apontado para a casa de uma vizinha (uma jovem professora de educação física), por distracção olhou mais para o lado descobrindo o rasto de um cruzador Klingon, que fazia uma aterragem de emergência numa horta mesmo ao lado.

Os Klingon que eram seres pacíficos (parecidos com simpáticos Koalas de peluche cor-de-rosa) e vinham em paz, foram dominados pela claque do FCP que se encontrava no Hotel Orion do Seixal, a fazer um estágio de artes marciais para o Benfica-Porto que era daí a dois dias. Após isso adaptámos a sua tecnologia às nossas necessidades e todos os portugueses fugiram para o espaço, deixando os outros países perplexos com o acontecido; mas na posse de um belo rectângulo ajardinado mesmo ao lado da Espanha.

Nessa altura deu-se também a Revolução Paulina. Em que Paulo Portas juntamente com o seu irmão Miguel tomaram de assalto o transporte de vinhos (Miguel Portas nunca mais recuperou dessa) “Santa Maria”. Realizando assim um sonho antigo de serem os primeiros irmãos ginecologistas com consultório numa nave de transporte de vinho do porto (uma Rabela).

Os portugueses espalharam-se então pelo espaço sideral (assim chamado em homenagem à famosa bebida “Carbo Cidral”) levando a cruz a todos os planetas habitados deste lado da galáxia. – Mas ó “bizavô”… – Perguntou o miúdo – Porque é que tínhamos que levar a cruz a todos os planetas habitados.

Ah, isso é uma coisa dos católicos – Respondeu distraidamente o velho, enquanto os apêndices manipuladores iam abrindo as ligações dos colectores de abastecimento, e se começava a dirigir para a escotilha de saída – Como não gostam de sofrer sozinhos, teimaram que todas as espécies, raças e planetas haveriam de ter (por isso se diz “todos temos a nossa cruz”) a mesma religião que eles para não se ficarem a rir.

Já dentro da comporta estanque e pronto a ser impulsionado para o exterior, o bisavô Halley acenou prometendo – Agora tenho que ir para não perder a conjunção com Marte, ou vou ficar preso no trânsito.

No próximo Natal conto-vos o resto. - A escotilha exterior abriu-se finalmente, deixando sair a caixa que soltava finos rastos de vapor enquanto a escotilha se ia embaciando lentamente – A história de como Sócrates roubou o Natal, e foi perseguido por Durão Barroso o Vespão Verde e a Popota.

Ah, a Popota! Aquilo é que era uma mulher… Parecida com a Ferreira Leite, mas com mais carne… Adeus! – Despediu-se ele à medida que se ia perdendo no vazio pontilhado de estrelas – Se cá passar o tio Arménio peçam-lhe a morada da oficina a que ele costuma ir. Estes hidráulicos andam a fazer uma barulheira tal, que parecem a nora de um poço. Ou uma picota, ou assim…

Bom Natal, malta!...


Música de Fundo
Christmas Was Better In The 80’sFutureheads





sexta-feira, 17 de dezembro de 2010


As mulatas são doidas pela piroga do Cabral!...




Foto: Net (o que é que pensavam?)


Momento Cultural
- Onde o autor se gaba descaradamente da sua cultura “de algibeira”, acabando por ficar provado que apesar de uma boa memória, não possui qualquer sentido das conveniências -

O nosso imaginário é feito de referências cruzadas e associações. Quem nunca a meio de uma conversa, sentiu o espírito derivar para algo aparentemente não relacionado com o assunto, levado por uma palavra ou uma descrição mais colorida?

Há uns dias encontrava-me a meio de uma daquelas conversas entre machos, em que se referia o divórcio de um conhecido, com todo o consequente cortejo de conjecturas e insinuações que é costume nestes casos (Sim, meninas. Vocês e os homens não são tão diferentes assim), quando subitamente me recordei de uma lenda Índia, que me fora contada há muito tempo por um brasileiro de voz grave.

Trata-se de uma canção, que conta uma pungente lenda da selva amazónica. Um autêntico poema que fala dos índios, de uma história de amor e de uma enorme e cobiçada piroga…



A Lenda da Piroga de Cristal
(Música e Letra de Paulo Silvino)

Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar
Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar

Falado:

"Essa é a lenda da Piroga de Cristal. Uma história escrita num tempo muito remoto, quando o Brasil nem era Brasil: era Pindorama. As pirogas, como vocês sabem, são as canoas dos índios. E tem índio com piroga pequena, piroga grande, depende do tamanho das árvores que eles derrubam para esculpir no seu tronco a piroga. Essa lenda conta o caso do índio Boi Xavante que derrubou um enorme Jequitibá e fez uma piroga imensa que ele mantinha sempre envernizada com óleo de carnaúba. Ele era muito respeitado na tribo toda por causa disso, porque ele alimentava toda a tribo com aquela piroga. Voltava sempre da pesca com a piroga cheia de peixe, e de vez em quando vinha até um siri preso na piroga. Era uma loucura! Até que um dia…"


Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar
Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar

Boi Xavante, índio bravo
Com um enorme pirogão
Raptou a índia filha
Do cacique Gavião

Seu marido, Cão do Norte
Aliou-se ao Pajé
Procurando vingar com a morte
A desonra da mulher

Destruam a piroga dele
Botem fogo na piroga dele
Pulverizem a piroga dele
Acabem com a piroga dele

Mas, Jaci ouviu
As preces do casal
E transformou a embarcação do Boi Xavante
Numa bela piroga de cristal

Mas a índia estabanada
Foi dançar de empolgação
Deu com o pé na bola errada
E quebrou o pirogão

Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar
Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar

Destruam a piroga dele
Botem fogo na piroga dele
Pulverizem a piroga dele
Acabem com a piroga dele

Destruam a piroga dele
Botem fogo na piroga dele
Pulverizem a piroga dele
Acabem com a piroga dele

Mas, Jaci ouviu
As preces do casal
E transformou a embarcação do Boi Xavante
Numa bela piroga de cristal

Mas a índia estabanada
Foi dançar de empolgação
Deu com o pé na bola errada
E quebrou o pirogão

Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar
Como era grande a piroga dele
Descendo o rio, correndo pro mar

Para os mais apreciadores de recolha etnográfica, aqui fica um vídeo (link) com a declamação deste poema. A imagem não é grande coisa, mas o som vale pelo resto.

Sem música (já tem que chegue)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010




Imagem: Net


Electric Dreams
- Quando na meia-idade se vive parcialmente um futuro idealizado na juventude, é natural que tarde ou cedo se acabe por falar nisso. -

Que o passado (nomeadamente os anos oitenta) está de volta, já a maioria de nós sabia. Desde as reedições de antigas séries televisivas em DVD, até à questionável estética do vestuário futurista. Mas nem tudo se resume ao repescar de coisas já existentes e semi-esquecidas.

No próximo ano (espera-se) irão estrear nos cinemas três filmes que me interessam. Um deles é “TRON Legacy”, que chega aos cinemas em 13 de Janeiro; com realização de Joseph Kosinski. Um desconhecido que até agora só realizou um série de TV e clips para a Xbox 360.

Jeff Bridges aparece no filme para assegurar a continuidade do personagem (agora é o filho dele que se mete em sarilhos no ciberespaço) e pouco mais me interessa saber por enquanto. Uma vez quer o importante neste caso é o regresso a algo que aconteceu no passado; e o público-alvo sem dúvida será (embora se espere uma grande aceitação por parte das camadas mais jovens) composto pela maioria dos que em 1982 se perderam por 96 minutos, dentro de uma matriz de circuitos impressos e objectos cheios de ângulos agudos.

O segundo é “Neuromancer”. Baseado na mais conhecida obra de William Gibson, que além de ter inventado o termo “Ciberespaço” é um dos criadores da corrente “cyberpunk” da literatura de Ficção Científica, juntamente com Phil K. Dick, Bruce Sterling, Rudy Rucker e mais uns quantos que não me ocorrem de momento.

A ser bem realizado e com orçamento adequado, não tenho dúvida alguma que será algo tão marcante como “Blade Runner”, “Matrix” ou o infeliz “Dune” que quase foi destruído pelos estúdios na fase de pós-produção quando lhe tentaram reduzir o tempo de duração para quase dois terços (felizmente, encontra-se a circular pela net uma versão “fan edit” que põe um pouco mais de nexo naquela desgraça em que transformaram um dos melhores filmes de David Lynch).

Vincenzo Natali realizador de “Cube” e “Splice”, foi escolhido para dirigir este épico que vai desde Chiba City no Japão a Villa Straylight (uma estação espacial estacionada em órbita alta). No qual Case, um Hacker cujas capacidades foram “queimadas” por uma micotoxina administrada por um cliente vingativo, vai tentar recuperar a sua vida naquele lugar virtual; onde as inteligências artificiais trocam ideias nas suas suaves vozes binárias.

Por último o melhor (para mim, claro) de tudo. Finalmente alguém vai pegar no clássico de H. P. Lovecraft, “At The Mountains of Madness”. Um livro que, devido ao facto de eu ser um leitor precoce me pregou um cagaço enorme; que só passou quando descobri que o Necronomicon nunca existira. E que afinal (tal como o Mito de Cthulhu) fora inventado para apimentar uma série completa de romances de horror. Já não contando com o facto de entretanto se ter provado que não existem ruínas algumas no Pólo Sul.

Será realizado por Guillermo del Toro (“Hellboy” e “El Laberinto Del Fauno”) e produzido por James Cameron. Sendo este último a principal razão (não esquecendo o autor do livro, claro) para eu achar que finalmente vai aparecer um filme, que me fará sentar numa sala de cinema cheia de miúdos irrequietos aos pulos, e a limparem às cadeiras as mãos cheias de manteiga das pipocas.


Música de Fundo
Jump Around – House of Pain

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010




Foto: Scanned


A Catadela

“You and me baby ain’t nothin’ but mammals
So let’s do it like they do on the Discovery Channel”
Bloodhound Gang


No princípio era a catadela. Não seria bem como a Wendy O. aparentemente se prepara para catar aquele senhor em “fato de macaco” na capa de um single dos Plasmatics que ainda conservo; mas em tempos idos já era uma função social.

Quer fosse empoleirados num ramo, ou escondidos nos arbustos por causa de outros antropóides mais invejosos; os nossos antepassados já se catavam como se não houvesse amanhã. Mas na actualidade o ritual atingiu um nível de sofisticação bastante elevado. Existindo vários tipos e níveis de catadela.

A social. Que hoje em dia se manifesta nas trocas de piropos, elogios e recomendações, entre símios de grupos culturais restritos – “Tu elogias o meu último disco, e eu digo a todos que és um escritor muito dotado”.

A catadela económica. Em que os administradores dos bancos e das grandes empresas de construção catam o governo, que por sua vez lhes retribui. Muitas vezes com as verbas que “catou” aos contribuintes; que por sua vez não têm outra alternativa excepto catarem-se uns aos outros. Visto que o acto de catar (na sua vertente económica) é circunscrito aos patamares sociais, e na vertical apenas funciona num sentido.

E a catadela sexual. Que considero ser basicamente auto-explicativa e quiçá igualitária (a não ser que tenha fundamento social ou económico).

Haverão eventualmente outros tipos de catadela que não me ocorrem de momento, mas que sem dúvida alguns de vós se recordarão. Embora hoje eu venha apenas considerar a “catadela blogosférica”, de um modo ligeiro quase como que apenas aflorar o assunto.

Quando apareci por estes lados em Junho de 2003 (o post de 30 de Maio de 1970 não conta) já se encontrava implantado o “Sistema de Retribuição para bloggers” (SRB). Era de bom-tom retribuir a quem nos linkava, com o respectivo link no nosso blog, e visitar com regularidade deixando um eventual comentário nos blogs cujos utilizadores nos beneficiavam com a mesma cortesia.

É um sistema como qualquer outro, mas ainda assim um “sistema”. Coisa feita de regras não escritas com as consequentes obrigações e sanções sociais. E eu confesso que as “obrigações” sociais até não são o meu forte.

Sou péssimo a recordar-me de datas importantes (precisaria de uma assistente só para me recordar dos aniversários) e não sou grande aficionado de casamentos; que quanto a mim estão na mesma categoria dos funerais (principalmente porque em alguns dos casos existe muito pouca diferença).

Na segunda fase deste blog e após uma ausência de alguns meses, considerei por algum tempo a hipótese de o sistema ter perdido a sua importância inicial. Mas isso foi uma avaliação apressada (e talvez originada por uma enorme falta de tempo; que como todos sabem, é o nosso bem mais precioso), pois já os estrategas do Blogger me tinham brindado com uma colecção adicional de ícones atribuídos àquilo que convencionaram chamar de “seguidores”.

Eu sei que é uma designação criada para apelar à nossa vaidade, mas considero-a assaz redutora e talvez pouco lisongeira. O que conduziu a algumas infrutíferas tentativas da minha parte, para que no meu template fosse apresentada de outro modo.

Mas sou forçado a render-me à evidência. E uma vez que estando inserido numa comunidade tenho que respeitar minimamente os seus costumes; a partir de agora (e a pedido de um simpático “seguidor”) farei parte daqueles que penduram no seu blog todos os que os linkam. Um pouco à semelhança das medalhinhas na farda de gala do divertido Almirante Américo Thomaz.

Espero que na verdade funcione. É que, sabem? Eu tenho aqui uma comichão…


Música de Fundo
The Bad Touch (link) – Bloodhound Gang

terça-feira, 7 de dezembro de 2010




Imagem: Net

Por Toutatis!
- Ainda não foi desta que o céu nos caiu na cabeça -

Uma das razões pela qual não escrevo mais do que um ou dois posts por semana, é a aversão que tenho a “chover no molhado”. Ou seja, dedicar-me ao que dezenas ou centenas de “blogueiros” (estou a tentar não ser muito mauzinho) já fizeram ou estão a fazer: copiar notícias dos jornais e da televisão e despejá-las no blog; sem adicionar valor algum ao produto inicial.

É claro que cada um é livre de fazer o que lhe apetecer dentro dos limites da legalidade. E aqui para nós, ser redundante e repetitivo ainda não dá pena de prisão (embora às vezes dê um pouco de pena).

Gosto de Almada. É um sítio que apesar de ter problemas como qualquer outro, me faz sentir em casa. E sei que isto pode parecer um pouco idiota, posto que moro lá; mas existem muitas localidades incaracterísticas onde por muitos anos que lá se resida, dificilmente se consegue sentir alguma ligação com o local ou as pessoas que o habitam.

Adiante…

Mas ontem o céu ia-nos caindo na cabeça. Presumivelmente um avião da TAAG, deixou cair algumas peças metálicas que atingiram dois cidadãos e ainda produziram prejuízos avulsos em diversos automóveis e numa pastelaria que aparentemente a ASAE se esqueceu de fiscalizar (vocês viram na televisão aquele W.C. com o tecto em chapa tipo Lusalite?).

Ora tudo isto é passível de ser usado em piadas. Tal como se fez quando há uns anos um tipo aterrou numa horta aqui perto; saído directamente do compartimento do trem de aterragem de um avião onde se escondera. E na altura ninguém exigiu a remoção do Aeroporto da Portela por causa disso.

Mas é claro que tarde ou cedo alguém se haveria de lembrar de algo assim. O mais engraçado é que nenhum dos dois blogs em que li esse tipo de exigência, pertence a alguém que more sequer aqui perto. O que prova tratar-se de gente imbuída de altruísmo e talvez mesmo de outras qualidades igualmente difíceis de encontrar no seu estado natural.

Parece ser generalizado este hábito de se dar palpites sobre o que se passa longe; muitas vezes sem querer ligar ao que se passa escandalosamente ao lado. Acho que a Bíblia tem (era para admirar se não tivesse) uma citação adequada a isso, que fala em barrotes e farpas e olhos e etc, à sua maneira judaico-confusa. Mas que tem toda a razão.

Apesar das minhas reservas, há dias que me andava a roer uma excruciante ânsia de me manifestar sobre o que se passa nos Açores. Especialmente agora que para mitigar a desgraça das vítimas do mau tempo, vai ser necessário mexer naquele “fundo” que se encontrava reservado para compensar os funcionários públicos que ganham entre 1500€ e 2000€ (que para sabermos quais são, basta ir ao Diário da República e consultar os índices salariais para a Função Pública).

O meu coração sangra por todos esses técnicos, chefes de secção e sei lá mais o quê (± do nível 20 ao nível 31), que se têm sacrificado durante anos pelos ajudantes de obras, electricistas, canalizadores, auxiliares administrativos e toda essa corja. Pois são eles com o seu trabalho e apoio que permitem manter de pé esta administração de impoluta moralidade.

E toda esta confusão deve-se às políticas de César.

Ainda bem que aqui em Almada somos Gauleses.
(E também não temos telhados de vidro)

Música de Fundo
This TownFeeder


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


Imagem: Instituto de Meteorologia, IP


A Incerteza do Amanhã
- Devaneio matinal de um ciclista de fim-de-semana, com uma personalidade levemente obsessiva -

Sou como um agricultor. Em vésperas de fim-de-semana ou de feriado, podem ver-me à janela de nariz no ar a cheirar a humidade marítima vinda de Noroeste, ou a franzir o cenho a uns nimbos de configuração pouco recomendável.

À noite, devoro avidamente as fotografias da Península Ibérica tiradas pelo satélite meteorológico, e confiro-as com as existentes no site do Instituto de Meteorologia; não vão eles terem-se enganado na previsão para o dia seguinte.

Mas as minhas semelhanças com um agricultor são assaz limitadas.

A chuva não é minha amiga, e estou-me nas tintas para o orvalho e a geada (excepto literariamente; pois considero o orvalho e a geada algo quase tão sexy quanto o sabor salgado que fica nos lábios após um banho de mar), pois nada trazem de significativo à minha actividade velocipédica.

Mal acordo vou logo à janela ver que tempo faz.

Não raras vezes, constato agastado que a natureza não tem qualquer respeito pelo trabalho investido naquelas previsões em que eu tanto confio para enfrentar a estrada montado em algo feito de arames, alumínio e algumas tiras de borracha. Uma espécie de fisga.

A Natureza é uma daquelas gajas que querem ser amadas incondicionalmente, desde que não tenham que mexer uma palha ou preocupar-se com isso. Instável e mimada. Mas esta comparação termina logo que os automóveis deixam de se ouvir através do filtro sonoro dos auscultadores.

É algo inexplicável a sensação que se tem no cimo de uma falésia batida pelo vento ou ao pedalar por um carreiro bordejado de ramos baixos e gotejantes. Não há necessidade de música ou qualquer outro ruído (também por isso pedalo sempre sozinho), pois sentimo-nos preenchidos como se não houvesse mais espaço na nossa vida para o que quer que fosse.

Toda e qualquer comparação é inadequada, pois a natureza é mesmo assim e não se trata de nenhum número de teatro de revista.

Interrompo-me para olhar novamente a previsão para amanhã. Neste momento e na Estação de Observação de Superfície da Praia da Rainha existem 93% de humidade, temperatura 5º Celsius e vento de Nordeste com uma velocidade de 2,5Km/h.

Segundo a carta acima, amanhã pela madrugada as regiões do litoral Centro e Sul começarão a ser atingidas por uma superfície frontal de baixas pressões. O que em conjunto com a baixa temperatura e a descida da humidade relativa, talvez me dê margem para dar uma volta bem alargada até por volta das 14h.

Tenho já a mochila preparada com todas aquelas coisas que só fazem falta quando delas nos esquecemos. Remendos para câmara-de-ar, jogo de ferramentas, canivete suíço, barra de cereais vitaminados… e por aí adiante.

Ao seu lado e como se fosse o equipamento de um pára-quedista à espera de ser verificado, estão já dobrados os calções, o “hoodie” e as luvas…

Mas nada disto importa verdadeiramente, pois o que interessa é que eu sou como um agricultor. Pego na pasta e saio de casa com o nariz no ar a tentar detectar o aumento da percentagem de humidade, ou subtis alterações na temperatura e direcção do vento.

Observo judiciosamente os cirros, nimbos e cúmulos, como se fossem ovelhas numa pastagem e sigo carinhosamente o seu percurso enquanto aguardo a chegada do transporte. Agito o passe em frente ao sensor que me saúda com um trinado cordial acompanhado por uma piscadela do seu olho vermelho.

Isto do animismo é tudo uma questão de predisposição.

Talvez amanhã não chova…


Música de Fundo
Are You Gonna Be My GirlJet

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010




Foto: Net



Os Que Escrevem Histórias
- Um post sobre regresso, sem ter que entrar naquela conversa da treta do “eterno retorno”, ou mesmo cantar um fado sobre a saudade -

Além de ser o “Multimédia dos tesos”, a mente humana em si própria é também o derradeiro simulador no qual se podem criar e destruir mundos. E isto sem ter que se recorrer a coisas complicadas como hardware, software e crédito pessoal.

Beneficiando do estímulo correcto conseguem-se construir universos plausíveis, com as suas próprias leis físicas e habitantes; que serão absolutamente funcionais quer as suas morfologias nos pareçam plausíveis ou não.

É também nesse armazém uterino de universos embrionários, que ás vezes abrimos uma lata de sonhos ou de memórias passadas, e as projectamos nas janelas dos nossos olhos como filmes. Usando-as para fixar ao presente, cores passadas; como quem utilizasse reagentes químicos para impressionar uma imagem num pedaço de celulóide.

Contar uma história passa-se um pouco como no nascer do Sol. Que só é matinal porque raramente nos levantamos a tempo de o ver formar durante a noite. E mesmo que o façamos, quase nunca temos a mente relaxada ou acuidade visual suficiente para apreciar o fenómeno. E mesmo que apesar de tudo e por alguma inexplicável e bizarra ocorrência, o consigamos fazer…

Então, só alguns muito poucos conseguirão relatar adequadamente o que viram. Porque aos outros faltarão as palavras, a vontade, a paciência… ou o que quer que seja que normalmente falta a quem não consegue seja o que for.

Alguns desses serão ouvidos e mais tarde citados, e depois esquecidos. Outros falarão sozinhos e nada se perderá senão a mensagem.

Outros escreverão. E o que escreverem, embora possa ser apagado ou adulterado, fá-los-á viver mais um pouco em cada dia; pois alguém que escreve, só morre no dia em que o último papel onde escreveu, finalmente desapareça.

Entre outras coisas o Miguel também escreve, e regressou ontem com uma nova imagem do velho blog (09/07/2003). Aconselha-se por todas as razões, e também para aqueles que continuem a teimar numa busca por “A Origem do Amor”.



Música de Fundo
Mr. BrightsideThe Killers



segunda-feira, 29 de novembro de 2010



Foto: Net


A longa jornada para a noite
- Ou como imensa gente parece andar a dormir em pé.

A história tem tendência a repetir-se, não porque o karma seja algo tão circular como um alguidar de plástico, ou o destino algo tão certo como o próximo aumento de preço para os bens de 1ª necessidade. Mas a história repete-se, meus meninos (seus cábulas do caraças), porque as pessoas não aprendem.

E a provar isso está ali na ordem dos advogados a prova viva; olhando para nós com aquela expressão de auto-complacente esperteza saloia… Marinho Pinto está de volta como uma daquelas antigas maldições babilónicas, ou pior ainda, uma daquelas tias que não podem deixar de nos puxar com enlevo as bochechas, de cada vez que nos cumprimentam.

As pessoas (neste caso os advogados) nunca aprendem, e sem dúvida que pouco há de pior que uma tia apreciadora de bochechas. É claro que a Srª Meinecke estaria muito longe de pensar na situação da “Ordem”, quando naquela longínqua manhã de 19 de Agosto de 1934 confidenciava à porteira, enquanto recolhia o caixote do lixo para dentro do nº 31 da Potsdamer Platz - Se calhar não devíamos ter dado aqueles poderes todos ao Sr. Hitler. Ele até parece um rapaz atinado com aquele bigode tipo “selo de correio”; mas hoje em dia nunca se sabe…

Embora Adolfo se tenha revelado um problema mundial, acho que no caso de Marinho Pinto nos basta encolher os ombros e resmungar sub-repticiamente por entre um disfarçado sorriso – Se Deus existe, tarde ou cedo haveria de mandar algo para castigar os advogados.

O que me leva (por tabela) ao outro flagelo que está prestes a atingir os nossos irmãos mais dependentes da TV, que coitados, pouco discernimento e força de vontade têm que possam contrariar essa negra entidade.

É verdade. Manuela Moura Guedes, essa Lili Caneças das sirenes de bombeiros está em processo de regresso para afligir o éter (e outros fluidos menos recomendáveis) com a sua incómoda presença.

E abro aqui um dos meus famosos parêntesis para esclarecer sobre este “incómodo”. Não se deve tal ao melindre inerente aos assuntos ventilados ou mesmo ao critério com que se escolhem os entrevistados. O que me incomoda é não haver “nada” de substancial atrás daquele biombo de peles mal amanhadas.

Mas, se seria tão fácil voltar às antigas tradições das “pivot” bonitas e um pouco broncas; porque é que foram escolher alguém que parece o “Natureza Morta a Pastel e Fiambre de Perú” de Salvador Dali? Foi alguma coisa que nós dissemos?

Não tenho dúvida que em qualquer feira, Manuela fizesse boa carreira a impingir jogos de cama e edredons de pena de ganso canadiano; mas esses modos não pegam lá pela minha vizinhança. E (talvez seja da idade) preferimos algo menos espalhafatoso mas com um pouco mais de “mensagem”…

Sei lá… A Mariza Cruz?... Pode ser?

Música de Fundo
Disco 2000Pulp

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


Foto: Net



A Atracção Habitual

No que toca a recordações Beatriz sempre tinha sido assim. Desde tenra idade que à sua passagem soavam alarmes, lâmpadas estoiravam, e era muito difícil manter uma mesa bem posta na sua presença; uma vez que todos os talheres passavam automaticamente a indicar o norte.

Aparentemente esta condição era regulada pelo sistema hormonal. Tendo o seu apogeu nos dias de ovulação, em que os seus cabelos percorridos por finíssimos relâmpagos azulados, ao lhe contactarem com a pele transmitiam uma deliciosa e inexplicável sensação de prazer proibido.

Bem… Também não seria proibido, uma vez que para isso seria necessário que alguém o soubesse para posteriormente proibir. E Beatriz já tinha anos de experiência na ocultação de todos os indícios que pudessem despertar qualquer suspeita. Infelizmente isso traduzira-se numa vida de isolamento voluntário, e numa imagem exterior de aparente excentricidade.

Estado este ao qual o facto de usar luvas todo o ano não ajudava nada.

As luvas eram realmente o mais difícil. Mas desde que aos treze anos incendiara o quarto com o simples acto de se masturbar, não tivera outro remédio senão manter as extremidades bem isoladas. Embora em algumas noites de trovoada, saísse despida para a chuva deixando os rios de electricidade fluírem pelo seu corpo entre as nuvens e a terra; trespassando-a num gelado arrepio azul.

Aos trinta e nove anos a vida encontrava-a (embora se achasse que estivera sempre ali) a amassar barro sobre uma bancada de madeira, preparando-se para deixar que o bloco de argila revelasse a imagem que no seu interior lutava para transparecer (era assim que via a arte; nada mais que um meio para ajudar coisas a nascer).

Enquanto socava a massa dúctil e acastanhada, a sua mente derivou para o rosto que os seus dedos começavam a desenhar em pequenos sulcos, com o indicador e médio a vincar, enquanto o polegar imprimia as duas depressões destinadas aos olhos. Já há muito tempo que ele aparecia quase todas as tardes; tornando aquilo que ao princípio fora uma casual conversa, num hábito que começava a ganhar raízes em si numa suave ânsia que teimava em ignorar.
Mas as distracções podiam ficar caras. Pois ainda no dia anterior a meio de uma conversa com uma amiga, “fritara” o telemóvel com uma descarga estática causada pela excitação de o ver sair do automóvel e preparar-se para tocar à campainha.

Desenhou os sobrolhos com o polegar, e com a ponta da unha vincou as sobrancelhas um pouco hirsutas. O nariz tinha um pequeno alto que mal se notava, e era talvez um pouco grande demais para se considerar bonito – Vi-te atravessar a rua – disse ela para trás de si; enquanto ele acabava de percorrer o resto da distância que os separava, num perfeito silêncio graças às solas de borracha dos ténis.

Ela sentiu as mãos de palma um pouco áspera insinuando-se na pele do pescoço, com os dedos a estenderem-se por entre os cabelos e a moverem-lhe a cabeça em direcção aos lábios dele onde pequenas faíscas faziam ponte com a sua pele.

Com um sorriso olhou-o bem fundo nos olhos enquanto a sua mão explorava o espaço entre as calças e o estômago dele, guiando-o até as costas deste contactarem com a enorme mesa de madeira, onde o fez deitar iniciando a frenética actividade de o despir; e ele a puxava para cima de si sem qualquer cuidado com botões ou fechos.

Enquanto lhe chupava o bico de um seio ele passou a mão pelo interior macio das coxas dela, deslizando a ponta dos dedos pelo monte-de-vénus de onde saltaram estalejantes faíscas róseas – Raios à espera de serem libertados, fogo pronto a consumir-me num segundo… - disse-lhe ele enquanto lhe indicava as paredes chapeadas a ferro, cujas marcas enegrecidas indicavam uma actividade continuada. – É como cavalgar uma tempestade.

Não sejas melodramático! – contrapôs ela introduzindo-o dentro de si num movimento fluído das ancas – Sabes bem que em cima da mesa de madeira é um risco quase nulo. E já agora, dá é graças a Deus por não usares “pacemaker”.


Música de Fundo
ElectricityOrchestral Manoeuvres In The Dark



segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Foto: TheOldMan

A Vaidade Em Se Ser Modesto
- Um pouco de conversa leve e casual a uma qualquer segunda-feira -


É provável que deva um pedido de desculpas a alguns de vós, que preocupados me contactaram quando deixei de escrever no blog; e me pediram que os avisasse de um possível regresso.

Desculpem-me o não ter avisado quando resolvi voltar (embora nem saiba bem ao certo se voltei, ou se estarei a escrever isto de muito longe; como se o ditasse a uma secretária incrivelmente idosa e surda), mas é contra a minha natureza fazer alarido sobre coisas que não o justifiquem. Como o facto de estar novamente aqui.

Embora não chegue a tanto, faz-me lembrar um episódio que me contou um amigo (um bocado mais velho que eu, pois foi um dos mais destacados activistas na luta pela revogação da “Concordata”); que sendo tão circunspecto e avesso a dar nas vistas, uma vez quase morreu afogado em Oeiras porque se recusou a gritar por socorro.

- “E ali estava eu”… - Contava-me ele uns largos anos mais tarde e no meio de gargalhadas – “… com vergonha de gritar por ajuda e a engolir água salgada a torto e a direito. Se não calham a ver-me desaparecer da superfície, não estava hoje aqui.”

Bem. Eu não sofro de um caso assim tão agudo; mas basicamente deve ser a mesma doença. E é essa realmente a minha desculpa para não ter dito nada a ninguém.

Só de pensar nisso, vinham-me à memória aqueles insólitos anúncios que nos anos sessenta e setenta se conseguiam ler em certos jornais diários - “O senhor Antunes Quintão avisa toda a sua excelentíssima clientela e amigos, que a partir do fim do mês corrente deixará de trabalhar na “Ideal da Falagueira”; encontrando-se para servir vossas excelências na “Electro-Reparadora de Eleutério Cardoso"; onde vos aguarda com um vasto sortido de modernos electrodomésticos”.

Pois. Não faz bem o meu género.

Tarde ou cedo quem tiver que passar por aqui acabará por fazê-lo. E mesmo sem Sitemeter, não deixarei de me orgulhar (mas muito circunspectamente, é claro) de ter um local onde ás vezes, pessoas passam para ler o que escrevo. É assim que estas coisas se passam comigo. Calmamente andando.

Ou no meu caso particular… pedalando.


Música de Fundo
Moonlight DriveThe Doors

quarta-feira, 17 de novembro de 2010



Foto: John A. Alonzo


Crime no Lar! (Conto Gerontológico)
- Como não terei tempo até segunda para escrever um post, deixo-vos um conto mais ou menos policial escrito há sete anos e que poucos de vós conhecem; a menos que tenham andado a explorar os arquivos (mas como duvido que isso tenha acontecido, façam de conta que eu não disse nada) -

Um

Eram seis da tarde e a enfermeira Arlete passava-me os "santos óleos" pelas articulações ancilosadas, enquanto repuxava os tendões, tenazmente. No deck tocava uma velha cassete dos Tangerine Dream, misturando-se no ar com o odor a sândalo que se evolava de um pau de incenso.

Com um estrondo enorme, a porta bateu contra a parede quando o Chefe Aniceto catapultou as suas banhas para dentro da enfermaria.

Mataram a Alice costureira - comunicou o ex-chui - encontrei-a toda torcida, parece uma torta de Azeitão. Lá estás tu a pensar em comida - disse eu enquanto vestia as calças apressadamente - não tentaste por acaso pôr-te em cima dela? Era morte certa, coitada.

Despedi-me da enfermeira Arlete, dando-lhe uma terna fisgada com o cinto-de-ligas - Mais logo passo por cá para brincar aos médicos – e descemos as escadas fazendo gincana por entre dois ou três catatónicos, até ao piso de baixo onde nos dirigimos ao sector dos acamados.

Não era bonito de se ver. Acendi uma cigarrilha (contra todas as proibições da cabra da Dona Francisquinha) olhando em volta, não fosse o Pide Leontino estar nas redondezas e ir a correr fazer queixinhas.

Pobre Alice! Alguém lhe tinha esmagado o crânio com uma arrastadeira de aço inox, e roubado a preciosa colecção de dedais em porcelana de Sévres (Colecções Philae). A janela estava aberta. Encostei-me à ombreira aspirando o fumo. A rua estava húmida de chuva. Carros passavam sem destino.

Fui buscar a gabardina e o boné aos quadrados. Á confiança enchi o "pocket flask" com Jack Daniel's e saí... Já não ia brincar aos médicos nessa noite.

Dois

Almada, cidade ex-metalúrgica. Frente a Lisboa mas com um rio no meio. O próprio Cristo-Rei vira-lhe as costas, e abrindo os braços parece que se prepara para mergulhar e fugir a nado.

Percorri as ruas um pouco ao acaso, atravessando uma irritante chuvinha "molha tolos" enquanto ordenava as ideias. Não é fácil fazê-lo num lar. (A não ser que um tipo se feche no duche. Mas a última vez que o fiz, o sistema anti-acidente bloqueou acidentalmente e só me conseguiram desencarcerar horas depois).

Desemboquei no jardim do castelo, encostado ao dito e sobranceiro ao Tejo. Olhei o rio em baixo. Era uma queda e peras, cerca de 100 metros; só que eu não estava ali para atentar contra o equilíbrio ecológico do local. Também não sabia se valeria a caminhada, tinham passado demasiados anos.

Foi então que avistei o Bebé. Sei que é idiota chamar Bebé a um velho de 67 anos, mas ele tinha essa alcunha há 50, e nunca pensámos em arranjar-lhe outra. assentava-lhe como um fato de bom corte.

Cara redonda, cabelo ralo e espetado, olhos esbugalhados. Um "retrato robot" de qualquer criança há muito desaparecida. O luar inexistente mascarava os restantes pormenores, mas era ele. Ainda pensei em fazer-lhe a velha partida do assalto, mas parei a tempo. Já somos poucos, e eu não estava disposto a perder mais um por uma parvoíce qualquer.

Aproximava-me silenciosamente quando pressenti algo atrás de mim. O que me fez virar de repente, já com os dedos enfiados na velha "soqueira" de latão. Demasiado lento. ..

O coreto do jardim pareceu subitamente explodir na escuridão. Senti uma dor aguda por baixo da orelha direita, e foi tudo. Lembro-me de notar enquanto caía, duas pedrinhas pequenas e brancas que se aproximavam muito depressa.

Três

Tanta humidade ia dar-me conta do reumático. Ainda ouvi os passos arrastados de alguém que se afastava em direcção ás escadinhas do Ginjal; tentei levantar-me, mas o meu livro da 3ª classe estava errado. Querer não é poder (se não, escreviam-se do mesmo modo).

Cambaleei até ao muro do miradouro tentando focar a vista, enquanto à minha frente, as luzes de Lisboa evoluíam coreograficamente quais pirilampos bêbados. Num banco ao lado, um junkie olhava placidamente as águas, cambaleando igualmente mas por motivos diferentes.

Dando um golo rápido do frasco corri em direcção à escadaria, e desci para o Ginjal em direcção a Cacilhas; com uma incómoda dor de cabeça, e uma orelha que inchava ao ritmo da inflação. Saltitei evitando a maior parte das poças de água no cais, e precipitei-me para um Cacilheiro que partia.

Pela vazante corriam sargaços e restos de caixas de fruta. Ao nos aproximarmos da outra margem, reparei num cargueiro fundeado que descarregava sabe-se lá o quê. A Lua apareceu, mas agora não fazia falta nenhuma. Sacudindo a gabardina esperei que as portas abrissem. Os velhos espertos não saltam de barcos (reminiscências...).

Entrei no primeiro táxi de uma fila, e dirigimo-nos para o Largo da Graça. Estava na hora de reatar velhos conhecimentos.

Isaura a "Bruxa" (agora diz-se cartomante) habitava as águas furtadas de um edifício rococó em mau estado. A escada que já vira melhores dias, rangia como a cama de uma pensão de 3ª. Quando consegui chegar lá acima, pequenas gotas de luz desfilavam à minha frente. Na minha idade, subir cinco andares a correr já quase dá alucinações.

Fiz uma pausa para respirar, premindo de seguida o botão da campainha; o que desencadeou algo que me pareceu uma réplica dos carrilhões de Mafra. Era típico dela.

Isaura saltou-me ao pescoço, enquanto inúmeros gatos se apresentavam repuxando-me as calças. Iria mentir se dissesse que o tempo não parecia ter passado por ela. Mas disse-lho na mesma.

- Também tu continuas jovem e belo... - disse-me ela piscando o olho a gozar descaradamente a situação. Somos velhos cúmplices, e estas piadas caem sempre bem.

Não tive coragem para lhe contar da Alice. Nos loucos anos 70, tinham ambas vivido com o "Cara de Empadão" numa casa de praia na Caparica. Subsistindo com uma dieta de música, sexo e imensos charros (não necessariamente por esta ordem).

Sentei-me no sofá, e inventei um álibi para a orelha inchada. Declamei em bom estilo, um alexandrino que incluía uma janela e um golpe de vento. Mas não me sentia nada bem; o que afectava um pouco a minha capacidade ficcionista.

Em cima do aparador, o velho Satã - o patriarca da gataria - olhava fixamente, agora embalsamado; enquanto a sua descendência evolucionava pela sala de cauda no ar. Isaura chegou da cozinha com um saco de gelo e dois generosos gins. Sentando-se no braço do sofá colocou um LP no prato.

Quatro

A Renault 4L, titubeava pelas ruas de Lisboa como uma rameira em dia de festa. Isaura conduzia de Português Suave ao canto da boca, o que, juntamente com a boina azul no alto da cabeça, lhe dava o ar conspiratório e determinado de uma heroína da resistência. Por alguns momentos senti-me Marat/Lamballe (tenho que deixar de ler para adormecer), mas a realidade impunha-se dura, por entre qualquer imagem de estilo que eu construísse.

Ainda tens aquele emprego idiota? - inquiriu ela espalhando cinza pelo tablier - Que raio te havia de dar, para ires meter-te num sítio daqueles… Estás a tentar marcar lugar?

Não ia continuar uma discussão interrompida há anos. Dei-lhe um beijo no pescoço, e pedi-lhe para me deixar dois quarteirões adiante. Não protestou. Estava habituada à minha falta de explicações.

Meti as mãos nos bolsos e atravessei a rua. Estava no Conde Redondo, nas imediações do covil de JV "O Sonso".

JV era humorista. Não muito bom, é certo. Mas a ironia com que se atrevera a escrever durante o regime de Salazar (era assim tão velho), granjeara-lhe uma aura de herói, que ele tinha acabado por pôr a render. E aqui para nós... Não era só isso que ele tinha a render.

O meu estômago rosnava mal-humorado. O gin começava a fazer efeito, e já não me lembrava quando tinha comido a última refeição. Mais acima, um furgão de aba aberta comerciava comestíveis (ou não tanto...); onde os clientes da noite rasca, se abasteciam de hidratos de carbono e toxinas de duvidosa proveniência.

Mulheres deambulavam casualmente em serviço. Empunhando um Chipicao meio-comido, entrei no "Trombinhas" e dei o brinde ao porteiro - Toma! É um pião.

Enquanto ele ficava a olhar surpreendido para a mão, acerquei-me do bar e perguntei à ruiva de serviço onde encontrar o JV. Respondeu-me que não sabia; com um sotaque Moldavo e um abanar de cabeleira. Ali seguiam-se as tendências da moda.

Tomei rumo aos lavabos, e entrei na porta da arrecadação que ficava ao lado. Estava frio. O Bebé também... Frio e roxo.

Parecia que tinha sido apanhado a meio da sua última birra. Mas não lhe servira de nada pois só eu estava lá para o ver; e não queria demorar pois o roxo nunca me assentou bem.

Preparava-me para sair, quando ouvi vozes que se aproximavam. Agachei-me num recanto entre grades de Corona e caixas de espumante barato (lembrei-me de Tintim e o "Caranguejo das Tenazes de Ouro"). Entraram dois calmeirões indiferenciados, seguidos por JV. E ao lado deste... a enfermeira Arlete.

Cinco

- Tirem-me esse anjinho daí! - disse ele apontando para o Bebé, e logo de seguida para o local onde eu me escondia - E tu, ó metediço, vê lá se queres que mande o Huginho e o Zézinho trazerem-te ao colo.

Estava a descoberto e sem fuga possível. A Arlete sorria, trocista. Levantei-me sacudindo a poeira da roupa um pouco constrangido, e olhando-os ora a um, ora a outro.

- Que se segue agora? Vais entregar-me ás Ucranianas para me torturarem. Ou tentas matar-me de aborrecimento com as tuas anedotas?

- Não querias mais nada... - respondeu JV enfadado - Não são para o teu dente. Aqui a miúda explica-te o que tens que saber, e desandas assim que puderes. Já me deste chatices que cheguem para uma semana!

Arlete ficava tão bem sem farda como com ela. Aliás. Sem farda era bem melhor, embora perdesse um pouco do seu fetiche. - Anda! - disse-me - Temos que sair daqui antes que se comece a armar confusão; não é bom para o negócio.

- Porquê? Tens sociedade? – perguntei belicoso - Não! Ele é meu pai! – respondeu-me já de costas e saracoteando o traseiro em direcção à saída. Segui-a imediatamente. Não fosse o "Sonso" mudar de ideias e mandar atrás de mim os sobrinhos do pato Donald.

Esgueirando-nos pela sombra, saímos pelo acesso dos fornecedores e entrando logo de seguida edifício caquéctico. Uma espécie de relíquia do estado novo ainda com secretária para o porteiro, agora vazia. Era o "Matadouro", como lhe chamava o JV.

Longos corredores de tábuas centenárias, e quartos individuais distribuídos estrategicamente. Entrámos num deles, cheio de espelhos e almofadas num estilo Kitch (ou seja, de gosto duvidoso).

Ela ajudou-me a tirar a gabardina. Usava um perfume com um ligeiro toque de frutas. Por momentos, lembrei-me daquelas borrachas escolares que apetecia sempre morder. Ia dizê-lo, mas não foi preciso. Ela lia-o nos meus olhos... e eu esqueci imediatamente o que ia dizer, ocupado como estava em ajudá-la a despir-se.

Tinha a pele suave como a de um pêssego, provocando-me descargas de electricidade estática. Passei-lhe a língua pela curva dos seios, as ancas e as coxas. E introduzi-me; viajando nela como um comboio num túnel alpino, enquanto lhe dava pequenas e vorazes dentadas. A sua respiração caía brusca nos meus ouvidos, como rajadas de vento sopradas contra uma janela. O corpo oscilava, flectindo-se ao ritmo desse mesmo vento interior que a agitava.

Por fim rolámos pelas almofadas, vencidos pelo cansaço. Não ia estragar o momento com um cigarro. Por isso... adormeci.

Seis

Mas não por muito tempo, pois o quarto estava terrivelmente frio; e mal ela se levantou fiquei completamente desperto. Tomámos um duche rápido e saímos. A noite estava igual a antes; nós também.

Enquanto o táxi (este conto está a ficar-me caro em táxis) nos levava para a Margem Sul, contou-me finalmente algumas coisas que há muito eu desejava saber. E outras, que francamente bem poderia ter omitido. Certas visitas ao passado são uma autêntica exumação.

No final dos anos sessenta (nota-se que estes tipos, são quase todos um pouco mais velhos que eu) durante a "Primavera Marcelista", JV era tido como um tipo intratável mas de confiança, por parte de alguma esquerda.

Tinha então aberto um bar, onde caíam espécimes de todos os quadrantes à cata de sensações fortes; o Bebé era o barman. O "Sonso" aproveitava algumas inconfidências de homens do regime passando-as à oposição. E algumas delas, passava-as também à prensa em belos fascículos (nem sempre apreendidos), mas com os nomes dos personagens prudentemente alterados.

Um dia descobriu que o Bebé fazia o mesmo aos seus amigos democratas, elaborando lindas redacções para o Pide Leontino; e a coisa deu para o torto. O Bebé escorraçado e sem emprego, foi engrossar as hostes do Silva Pais. Tendo sido igualmente escorraçado do quarto da Alice Costureira, que na altura "alternava" no bar (ou seja, costurava para fora), e com quem vivia.

A Alice, embora analfabeta de pai e mãe, escondeu as cópias de todos os relatórios do Bebé. Bem como alguns outros roubados aos arquivos do JV, naquilo que pensava ser um Plano inovador de Poupança/Reforma. E tudo correu sem grandes alaridos, até que vinte anos depois, alguns excertos começaram a vir a lume num periódico independente.

Caiu o Carmo, a Trindade e a Portugália.

O JV conseguiu infiltrar a filha enfermeira por meio de cunhas (o que não é de estranhar), no Lar onde se encontravam hospedados, Alice, o Pide Leontino e outros jimbras sem interesse algum para esta história. Instituição essa onde o vosso narrador, coincidentemente prestava serviços de manutenção e segurança (beneficiando de magníficas massagens orientais, nas horas vagas).

A ideia base era subtrair toda a documentação comprometedora; antes que a Alice vendesse também os relatórios do "Sonso". Esses sim, muito mais sumarentos e comprometedores, porque alguns dos intervenientes ainda aparecem em "tempo de antena".

Mas as coisas não correram conforme planeado. Alguém tinha despachado a Alice para o céu das costureiras, e abandonado o Bebé (já roxo) à porta do "Trombinhas".

E eu voltara à estaca zero ainda mais confuso que antes. À porta do Lar, com uma orelha inchada e menos 30 euros no bolso. Maldito "fogareiro"... Entrámos.

Sete

As luzes de presença encontravam-se ligadas. Uma delas zumbia e piscava mensagens crípticas, como se transmitisse em linguagem de mosquito, pelos corredores vazios como túneis de Metro. Separámo-nos em direcções opostas após uma breve troca de sinais.

Abri a porta do quarto e acendi a luz. Sentado na minha cama, o Chefe Aniceto limpava nervosamente a sua Astra 6.35.

- Ia começar sem ti, Sabes? - Comentou ele do fundo dos seus 130 quilos de febras. Continuando - Andam em grandes manobras na zona do Centro de Dia. Objectos a cair, barulhos estranhos... Um autêntico carnaval!

- Dá cá isso, antes que me faças algum furo no calendário da Pirelli - retorqui enquanto o livrava do malicioso objecto. As armas são tão úteis como qualquer ferramenta, mas como estas, só se devem usar quando for estritamente necessário.

Pendurei a gabardina no busto de Nietzsche, guardei a automática no bolso e saí com o idoso à arreata; não fosse ele tomar alguma decisão de cariz policial.

Vogámos quase silenciosos pelos corredores. Algures um rádio murmurava lamentosamente. No quarto 36, o Major Nogueira lia Catulo com a porta entreaberta; cabeceando, é claro.

No Centro de Dia, os cadeirões encontravam-se completamente esventrados, como passados a sabre por um bando de irascíveis cossacos. Quadros caídos, livros rasgados no chão. Uma caixa de costura tombada revelava o seu conteúdo heterogéneo (é engraçado como memorizamos quase sempre esses pormenores insignificantes).

Comecei a temer por Arlete. Pedi ao Chefe Aniceto que a fosse avisar para ficar no quarto, e de seguida telefonar ao filho (igualmente membro da corporação) a pedir apoio logístico. Os indícios não auguravam nada de bom.

Cheguei pé ante pé ao gabinete da Administração no piso superior, e abri a porta de mansinho. Precaução inútil. O aposento encontrava-se deserto com excepção da cabra da Dona Francisquinha. Que jazia caída de nariz sobre a secretária, ostentando um enorme hematoma na têmpora. Felizmente para ela, a queda tinha sido amortecida pela sua velha boina do Movimento Nacional Feminino. As velhas recordações dão sempre jeito.

Não havia já muito onde procurar. A cozinha encontrava-se fechada, e tudo levava a crer que se tratava de um assalto feito a partir do exterior. Reparei então que a janela se encontrava entreaberta; ouvindo-se vindo de cima, um ruído de bater de asas como um bando de gaivotas em sobressalto.

Segurei-me à velha escada de emergência que levava ao telhado, e preparei-me para subir. Uma dor aguda mordeu-me o flanco esquerdo, cortante como uma garra. Consegui virar-me a tempo...

Oito

O Major Nogueira, empunhando um canivete suíço preparava-se para repetir a dose. Depositei-lhe uma patada certeira no nariz romano, o que o fez desfalecer sobre a cabra da velha. Faziam um belo par assim adormecidos.

Iniciei então a subida da decrépita e oxidada escada. A chuva que caía, incómoda, tinha revestido os telhados de um vidrado resplandecente. As luzes difusas da cidade, emprestavam sombras e cores aos edifícios incaracterísticos. Mas eu não podia dar-me ao luxo de poéticas distracções.

Fui-me equilibrando pelas telhas inclinadas e meio soltas em direcção ao pombal, situado junto ás águas furtadas do sótão. Um vulto encharcado semeava a confusão entre as aves, destruindo ruidosamente as divisórias de madeira.

Claro que só podia ser o Pide Leontino. Que empunhando a machadinha dos bifes, subtraída à sorrelfa da cozinha, partia metodicamente o soalho do pombal. Tinha já em seu poder dois embrulhos envolvidos em plástico, que cingia contra si com o braço esquerdo.

Por momentos perdi o equilíbrio e agarrei-me a uma gárgula de zinco, que se soltou da parede produzindo um som de vidro em ardósia. Um ruído persistente e irritante, que se propagou em redor .

Precipitei-me sobre o velho segurando-o num abraço; mas ele envergava um fato de oleado escorregadio e libertou-se facilmente. E aproveitando o momento em que tive que me agarrar à rede de arame para não cair, tentou atingir-me com a machadinha; o que quase conseguiu.

Recebi uma cotovelada na ferida aberta pelo canivete do Major (estava a tornar-se excessiva a facilidade com que toda a gente malhava em mim), o que me encheu de uma fúria irracional.

Ignorando momentaneamente a dor e machadinha, apliquei-lhe um pontapé no queixo, o que o projectou através da janela para dentro do sótão. Saltei logo atrás dele pronto para lhe arrear mais umas quantas, mas não era necessário.

O Pide Leontino participara na sua última missão. Jazendo placidamente de costas com os braços abertos, e envergando a capa roxa em oleado, assemelhava-se de um modo tragicómico ao velho Cardeal Cerejeira. Da órbita esquerda saía-lhe um pedaço de vidro pertencente à janela.

Peguei nos embrulhos. Eram papéis velhos escritos à mão em caligrafia miúda de burocrata. Transcrições de conversas, comentários e pareceres para posterior intervenção. Não tinham sido a "reforma" da Alice, mas talvez me viessem a servir de seguro de vida.

Enfiei-os dentro das calças por uma questão de segurança e abri a porta para a escada interior. No patamar, JV fumava calmamente um cigarro na companhia dos calmeirões do costume - Olá abelhudo! - saudou entredentes - Vi há pouco a cassete do quarto "egípcio". Ou não sabias que todos os quartos do "Matadouro" têm câmaras? Acho que temos muito que conversar...

Nove

Os dois encorpados mocinhos, preparavam-se já para elaborar uma complicada coreografia sobre a minha pessoa, quando se ouviu do fundo das escadas algo que lembrava levemente uma velha locomotiva a vapor.

Subindo a escadaria vinham dois agentes e um graduado da PSP, precedidos de um afogueado Chefe Aniceto, este já com falta de pressão na caldeira.

O "Sonso" demonstrando um considerável sangue frio, mandou recuar os manos Donald e anunciou ás forças da lei. - Não se apressem, cavalheiros! Aqui a situação já se encontra controlada. - após o que iniciou a descida não sem antes me dizer "sotto voce" - Não faças nada de que te possas vir a arrepender...

Finalmente descontraí-me. Á minha frente e visivelmente preocupado, um clone mais jovem do Chefe Aniceto (que eu calculei ser seu filho) fazia-me as perguntas da praxe.

- Deixa o homem, Alípio! Não vês que está ferido? - Admoestou-o o pensionista sem respeito pelo posto de subchefe. E depois para mim enquanto o outro se afastava - Viste!? Subchefe, e tudo. Diz lá que o rapaz não tem pinta.

Aproveitei para não responder pois traziam já o Pide Leontino; que envergava agora um saco cinzento com fecho de correr.

Dirigi-me à enfermaria pois necessitava de trabalho especializado.

Arlete suturava-me a ferida que afinal não passava de um pequeno corte. Aproveitando a acalmia, retirei a papelada das calças e fiz um embrulho que colei ao peito com duas tiras de adesivo. - Então? - perguntou ela - o que vais fazer com isso?

- Para já, nada. - respondi enquanto começava a vestir-me - Vou guardar os relatórios em lugar seguro, para serem divulgados caso me aconteça algum "lamentável acidente". Por mim, o caso morre aqui.

Quando voltei ao átrio a “ramona” levava o Major Nogueira, que sendo reformado não tinha direito a tratamento especial. E mal a sirene da polícia deixava de se ouvir já outra parecia ouvir-se. Mas era apenas a laringe da cabra da Dona Francisquinha, que fazia a sua imitação da Oberwatchtmeister Helga de Dachau.

- Tem alguma boa explicação para todo este contratempo? - Por acaso tinha, mas não lha ia dar. Virei costas e fui ao meu quarto fazer a mala. Deixei o busto e as cassetes, ensaquei alguma roupa e o "Pela Estrada Fora" de Kerouac, e desci para a garagem onde guardavam as cadeiras de rodas e o furgão dos “transportes especiais”.

Tirei a poeira à velha Kawasaki "sete-e-meio", pisei o pedal e saí pelo jardim. Vislumbrei fugazmente numa janela do primeiro andar, o rosto da Arlete apoiando-se contra o vidro.

Era já manhã. Fiz-me à estrada mas havia fila como de costume. Merda!!!!

Música de Fundo
Harlem NocturneThe Lounge Lizards


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