sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Spring Flowers by Norman Rockwell


Auld Lang Syne
(by Robert Burns)


Should old acquaintance be forgot,
and never brought to mind ?
Should old acquaintance be forgot,
and old lang syne ?

For auld lang syne, my dear,
for auld lang syne,
we'll take a cup of kindness yet,
for auld lang syne.

And surely you’ll buy your pint cup !
and surely I’ll buy mine !
And we'll take a cup o’ kindness yet,
for auld lang syne.

We two have run about the slopes,
and picked the daisies fine ;
But we’ve wandered many a weary foot,
since auld lang syne.

We two have paddled in the stream,
from morning sun till diner ;
But seas between us broad have roared
since auld lang syne.

And there’s a hand my trusty friend !
And give us a hand o’ thine !
And we’ll take a right good-will draught,
for auld lang syne.



E bom 2012 para todos!


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Mais um para o "Clube dos Ditadores Mortos"



Foto: Net

Como me encontro a meio de uma fase “não-produtiva” – e também porque Kim Jong-Il não merece um post – aqui vai o repost de um texto já com cinco anos. Escrito igualmente em Dezembro para assinalar o auspicioso desaparecimento de Augusto Pinochet.

A Patuscada

- Um reencontro de velhos amigos, um desfiar de reminiscências, uma celebração da amizade… -

Era uma fria manhã de Dezembro. Na velha cabana construída com musgosos troncos, nas escarpas inacessíveis de uma qualquer sinistra e anónima montanha; um velho de nariz adunco vigiava a frigideira onde fritava camarões.

Algures atrás de si, a porta ecoou duas sonoras pancadas como se fosse um gongo chinês, assustando as gralhas das árvores em volta; o que provocou um reboliço parecido com um congresso de bruxas em aceso debate.

Olhando de relance o calendário onde dois gatinhos assinalavam o mês de Dezembro, encaminhou-se para a fonte do ruído arrastando pelo chão as solas das botas de modelo italiano e resmungando entre dentes. Girou a chave quatro vezes para a esquerda na fechadura de aspecto moderno, e escancarando a porta contemplou o recém-chegado por cima dos óculos.

- Só te esperava para amanhã – Proferiu, dirigindo-se a um ancião de aspecto gorducho que transportava consigo duas garrafas de vinho branco – Até pensava que era o miúdo, pois mandei-o há pouco comprar malaguetas à vila…

- Despachei-me mais cedo. Aliás, a coisa estava a tornar-se aborrecida e decidi apanhar o transporte um dia antes – respondeu o interlocutor, entortando o bigode num sorriso quase imperceptível – Imaginas que aqueles pelintras, em vez de me oferecerem a festa de despedida com procissão e tudo como estava combinado, se limitaram a fazer-me um churrasquinho? – Depois um pouco mais calmo, continuou – Bem… Trouxe-te duas garrafas de “Santa Inés” branco para acompanhar os camarões. O tipo da alfândega queria deitar-lhes a luva, mas quando lhe disse que eram para ti acagaçou-se.

- Fizeste bem, Augusto – Respondeu o anfitrião – Esses gajos têm memória curta, e ás vezes é preciso refrescar-lha. Mas entra, que isso aí fora está um gelo que não se pode… Deixa as garrafas a refrescar na soleira, que aqui ninguém rouba nada.

Sempre a arrastar as botas pelo soalho, conduziu o visitante a um cadeirão perto da lareira. – Serve-te de um porto, que o miúdo deve estar aí a chegar e eu mando-o acender a lareira.

- Miúdo? Mas qual miúdo, António? – Perguntou finalmente o outro

- O Rosa Casaco. Lembras-te? Aquele que me fez o servicinho do general aviador e da secretária brasileira. – Respondeu o do nariz adunco – É um puto porreiro! Até emprestou umas fotos minhas ao Múrias, para este fazer um livro comemorativo do centenário. O Adolfo encontrou-o por aí e enviou-mo (o Casaco, claro). Tem sido uma grande ajuda, que eu nesta idade não posso fazer trabalhos pesados.

- O Adolfo? Não me digas que o Adolfo está cá. - Disse Augusto, surpreendido – Eu tinha uma admiração pelo gajo… Era doido como uma catatua, mas fazia uma “kartoffelsalat” de se lhe tirar o chapéu…

- Então não sabes? O Adolfo agora é Presidente da Junta. – Informou António com um sorriso maroto – Chamou para cá toda a malta dele, e estabeleceram-se com um negócio de montarias ao javali, para turistas. Trouxe o Heinrich, o Herman gordo…

- Quem? O Herman José?

- Não, pá! O Hermann Göring. Aquele tipo que andava agarrado ao pó, e usava o cinto pelos sovacos como o Obelix. – António, casquinhou uma risada escarninha; mais parecendo o som de um par de maracas – Ainda me lembro quando lhe trocámos a heroína por “fluorescente trifósforo”. O gajo durante um tempo quando saía à noite, até parecia um pirilampo gigante com aquela peida enorme a brilhar no escuro.

Augusto suspirou de alívio – Se eu soubesse que vocês se divertiam tanto, tinha vindo mais cedo. Ainda por cima, já estava a ficar com falta de desculpas para faltar às audiências. E ia metendo em sarilhos aquele rapaz do Supremo que me andava a fazer o jeito.

Entretanto a porta abriu-se intempestivamente, dando entrada a Rosa Casaco que afogueado se dirigiu ao fogão com expressão preocupada – O Professor Salazar desculpe a demora, mas eles não tinham malaguetas e só consegui trazer pimenta de cayenne. Espero que os camarões não se tenham queimado…

- O quê? - Berrou Oliveira Salazar na sua voz de velha – Não tinham piri-piri? Isto é uma choldra! Bem dizia o Américo Thomaz que esta merda aqui é um inferno. Só tenho coisas que me ralem…

Música de Fundo
Bang Bang You’re Dead” – Dirty Pretty Things (link)

  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011



Anjo de Aço

É contra mim que exerço esta violência em não escrever. Como se ao amordaçar-me punisse alguma transgressão eventualmente cometida.

Mas não sinto culpa alguma que justifique esse facto.

Culpa seria curiosamente desculpa para essa espécie de culpado silêncio, e logo por ela própria obviamente desculpado. Mas não.

Nada do que sinto é publicável. Nada do que escrevo é compreensível, senão para mim. E eu, compreendo-me perfeitamente sem qualquer necessidade de escrever seja o que for.

Sejam estas linhas, uma história divertida ou uma acesa diatribe contra qualquer um desses óbvios alvos, que facilmente se podem escolher entre todas as coisas que estão mal feitas neste mundo.

É este o meu modo de ser violento. Não falar, não escrever, não estar aqui.

Voltarei, novamente, quando a raiva voltar a adormecer... mais uma vez.

Até já.

 Música de Fundo
Vision (O Euchari In Leta Via) - Hildegard Von Bingen (link)


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Foto: NET



11 do 11 do 11
- Post feito de encomenda para este passatempo e que pressupostamente estaria já “Redigido & Publicado”, aí pelas 11 horas e onze minutos do dia 11 de Novembro de 2011 (Mas não… Azarucho!) –

Carta de amor a disfarçar à brava, mas na verdade a dar com os pés…

Meu amor, é tal a angústia que me aflige em relação ao que tenho para dizer que a única e aflitiva imagem que me vem à mente, é a do Duarte Lima a tocar órgão em ceroulas e utilizando uma máscara com o rosto do Marinho Pinto ao mais puro estilo do Fantasma da Ópera.

E é assim neste fatídico dia tão esperado pelos amantes da numerologia (pois é mais uma fonte de receita), que o grosso cabo que segurava o meu coração rompeu os últimos fios que o ligavam a algo tão belo que nunca o expressámos por palavras. Não fosse tal coisa quebrar o encantamento que envolvia o nosso mundo.

A confirmar as palavras de Ellie Crystal, uma blogueira que se apresenta como exploradora da metafísica do mundo ("Existe uma sincronia interessante no fato de que muitos eventos estão associados com o número 11"), venho anunciar-te que o nosso amor acabou.

Não acabou no convulsivo estertor de uma acutilante punhalada, mas definhou sim, como se uma insidiosa anemia o consumisse; fazendo-nos contemplar diariamente a sua pálida face. Num repetido prenúncio de morte.

É tão fácil desculparmo-nos com qualquer coisa insignificante (basta olhar para a frase da parva da Ellie), que não resisto ao fascínio da data (da hora não, pois já passa das 11h 11m) e às potencialidades que se apresentam às inúmeras actividades que poderão ser dinamizadas em determinados dias expressamente dedicados a isso.

Diz o jornal SOL (esse famoso blog pago e em papel) que hoje é o “dia dos solteiros, uma altura em que quem está sem par sai em busca do romance”. E como vês, daqui a pouco já é meio-dia e ainda não consegui terminar esta carta; de modo a poder iniciar a minha nova actividade de sair em busca de romance.

Infelizmente é um pouco como ir à caça. Pois quem sai em busca de romance, trá-lo para casa já morto como se fosse uma perdiz ou um pato-marreco (o que em alguns casos, pode ser assustadoramente similar).

Combinámos em tempos que se isto acontecesse, não usaríamos aqueles subterfúgios do tipo - “a culpa é toda minha”, “não é por causa de ti”, etc – Mas a verdade é que me estou nas tintas pois a nossa relação atingiu uma tal apatia, que a minha expressão apaixonada pode ser copiada por qualquer jogador de poker e usada por ele durante os campeonatos da modalidade.

O 11 do 11 do 11 é realmente um dia fatídico, mas apenas se não compartilhares comigo o infinito tédio que me provoca a nossa relação. Penso aliás que o tédio é o único sentimento que compartilhamos actualmente, e que devíamos apreciá-lo devidamente; pois é algo de belo que se for acarinhado, nos transformará (espero) em absolutos estranhos que não se reconhecerão ao se cruzarem um dia na rua.

Desejo-te então um feliz 11 do 11 do 11… Eu sei que vou ter.

Música de Fundo
Everybody’s Changing – Keane (link)


terça-feira, 1 de novembro de 2011

foto: NET


O Incomparável Mr. Tweety
- ESPECIAL “Dia de los Muertos” –

Mr. Tweety não morre!

Embora não seja exactamente eterno, o meu canário é como o “Duende que Caminha”. E renova a sua existência de cada vez que substituo uma bola de penas amarelas por outra exactamente igual, atribuindo-lhe a mesma designação (penso que este é o 4º). O que vai perpetuando a dinastia, assim como o nome que corre de boca em boca pelas varandas da vizinhança; tal como o do “Fantasma” pelos trilhos verdejantes da selva.

Mas chega de BD e vamos ao que interessa.

Há seis meses Mr. Tweety começou a morrer. Uma manhã aproximei-me da gaiola para lhe dar a dose diária de “vitaminas” (um eufemismo para frutose, dextrose e outros “speeds” naturais) que o ajuda a “aquecer os reactores”, e reparei que tinha uma pequena ferida no abdómen (se é que as aves têm disso); mesmo junto à junção com uma das patas.

Sem grandes preocupações agarrei-o, e com um “cotonette” apliquei mercurocromo sobre a lesão.

Aparentemente foi o mesmo que aplicar uma compressa quente na face exposta de um glaciar. Pois alguns dias depois a chaga tinha-se transformado num alto, que após duas ou três semanas se transformara numa esfera envolta em penas que se assemelhava a algo saído de um dos filmes da série “Alien”. A qualquer momento eu esperava que o sólido se cindisse, revelando uma criatura gritante e ameaçadora com duas, três, ou mesmo quatro fileiras de dentes assustadoramente afiados (tenho fotos para documentar o facto, mas garanto que são assaz repugnantes).

Mr. Tweety estava condenado!

A morte que eu lhe vaticinava, estava pois pendente dos caprichos da genética; sendo apenas uma questão de tempo.

Levado pela minha filosofia pessoal, ponderei durante algum tempo as hipóteses de:

a) Libertá-lo deixando a resolução de todo o caso nas mãos do cosmos.
b) Rapidamente e de modo indolor “abreviar-lhe” o sofrimento; ou
c) Deixar a natureza seguir o seu curso (a famosa “Lei do Menor Esforço”) e aguardar os consequentes resultados.

Ganhou a hipótese c). Reforçada pelo argumento de a presente condição não lhe estar (aparentemente) a provocar qualquer dor. Apenas o desconforto inerente a ter algo como uma bola de ping-pong a desestabilizar o precário equilíbrio sobre o seu poleiro favorito.

E os dias foram passando como nuvens sobre um campo de girassóis (homenagem a Inês Pedrosa), arrastando consigo a poeira do tempo e uma ténue nuvem de insignificantes realidades.

Começámos pois a preparar a sua sucessão.

Mas a morte não vinha. E Mr. Tweety continuava teimosamente a viver; tal como uma daquelas tias endinheiradas que todos os parentes esperam que morra, mas que de cada vez que eles abrem todas as janelas na esperança que ela apanhe uma pneumonia, apenas ganha mais vitalidade com o ar fresco da manhã.

Consequentemente as nossas atenções foram-se dispersando noutras direcções, até que uma manhã em que me debrucei sobre a gaiola para - como é hábito - assobiar alguns acordes da “Flauta Mágica” de Mozart (é uma das minhas experiências sobre “condicionamento animal”, mas os resultados são patéticos), descobri no fundo da gaiola uma indefinível massa de aspecto ignóbil, de onde despontavam trocistas algumas penas amarelas.

No seu poleiro habitual a um canto da gaiola, Mr. Tweety absolutamente incólume e escorreito, debicava com uma expressão “blasé” a orla do plástico que resguarda o seu habitat, para que não me encha a cozinha de alpista e outras merdas.

Debati com o meu filho a hipótese de dissecar aquela abominação que jazia inocentemente no fundo da gaiola como um ovo de serpente à espera de ser chocado. Mas o bom senso prevaleceu. E para evitar conviver com aquela repugnante incógnita, despachámo-lo lestamente pelo “túnel de porcelana”; não fosse o tal ovo eclodir e provar ser alguma espécie de embrião vudu que se apoderasse de todos nós durante o sono.

Mr. Tweety voltou ao seu velho hábito de titubear pelo poleiro ao som da música que ponho a tocar na cozinha enquanto preparo o jantar. Caindo ocasionalmente (já o fazia antes) no fundo da gaiola, e levantando-se bruscamente para aparentar um ar digno e imperturbável. Voltou também a acompanhar-me enquanto assobio a “Flauta Mágica” de Mozart ao pequeno-almoço. E pela parte que lhe toca, é como se todos os acontecimentos que decorreram nos últimos meses, tivessem acontecido a um qualquer outro canário que não ele.

Tudo isto vem reforçar a minha teoria de que Mr. Tweety não morre. Ele é o verdadeiro “Duende que Caminha”!

Feliz “Dia de los Muertos”.

Música de Fundo
Life at LastPaul Williams (Phantom of the Paradise - OST)


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Foto: TheOldMan


A Igreja do Imaculado Blog
- A Confissão de TheOldMan – “Sou o Prof. Marcelo do Bairro Amarelo” –

Irmãos! Mal seria se este sermão não começasse com uma “mentira parcial” (ou “meia-verdade”, como gostam de lhe chamar os adeptos do “copo meio-cheio”), pois é do conhecimento geral que em todas as religiões que se utilize a confissão (inclusive a famosa “auto-crítica” na extinta UDP), quem a ela normalmente recorre aproveita para confessar pecadilhos insignificantes ou informações que lhe dá jeito divulgar; deixando no silêncio os verdadeiros pecados “hardcore”, e aquelas coisas que o poderiam envergonhar frente ás catequistas (e escuteiras) da vizinhança.

Como já decerto concluíram, eu vou fazer exactamente o mesmo. Pois a nossa religião quer manter-se a par com as outras. E se tanto os católicos como os judeus ou os muçulmanos têm direito à hipocrisia, nós não somos menos que ninguém e reclamamos igualmente o direito de usufruir dessa benesse inerente a todas as religiões.

Mas isto é um sermão em novo formato, por isso não me posso deixar arrastar para as habituais divagações; embora aparentemente haja clientela para tudo.

Pois. Nos últimos tempos após ter abandonado os pequenos-almoços na cafetaria da D. Odete (Madame Salmonela para os amigos), e ter atravessado a rua em direcção à concorrência, deram-se acontecimentos prodigiosos.

Além de me terem oferecido uma assinatura gratuita (com validade de seis meses) do Jornal de Notícias; a clientela que no outro tugúrio era constituída por decrépitas pensionistas e um ou outro bêbado matinal. É no local onde agora desjejuo (valha-me Blog! Nunca pensei aqui escrever “desjejuo) maioritariamente composta por pessoas que se dirigem aos empregos (os que os conseguem ainda conservar), matinais apreciadores de moscatel e um ou outro desempregado adepto do “Sistema D”.

A presença deste cadinho de almas amalgamadas a “trouxe-mouxe”, em conjunção com a já citada oferta do JN, fundiu-se numa congregação de fiéis a BLOG (embora a maior parte deles só utilize a Net para ver pornografia ou para uma rápida “saltada” ao Facebook) que bebe os ensinamentos DELE, como se fossem o também já anteriormente citado moscatel.

Mas como todo o bom pregador, a determinada altura deixei-me tentar pelo lado negro (é claro que os que me conhecem, já estão neste momento a desfiar piadas sobre isto como se fossem as contas de um rosário) e sucumbi à tentação de utilizar aquelas almas sedentas da Palavra, para difundir ideias que contrariam a urbanidade, o bom-tom e a concórdia (que confesso, já agora que estamos em maré, não serem assim tão importantes para mim).

Ainda há poucos dias, encontrava-me eu a meio de uma divertida e inspirada homilia, sobre os motivos que levam alguém a interessar-se pela vida íntima de José Castelo Branco; quando na TV apareceu a característica carantonha do “Mussolini dos Carnavais”. E se começou a fazer ouvir o habitual chorrilho de imbecilidades, característico de uma mente perturbada não só pelo exercício continuado do poder despótico, como pelo consumo desregrado do álcool de cana.

Não pensem que isso despertou em mim ira ou maledicência. Até porque na nossa FÉ, fomos abençoados com uma tolerância desmedida para com os pobres espírito (que como sabeis, ganharão qualquer coisa não se sabe o quê, mas só lá mais para o fim…), os boçais, os incultos e aqueles que por infelicidade tenham contraído sífilis. E assim vejam destruídas as suas faculdades cognitivas; a ponto de por piedade os seus semelhantes (termo que como já repararam, neste caso pode ser insultuoso) terem imenso pejo em os desancar como na verdade ás vezes merecem.

Pedi ao Irmão David que mudasse o canal da TV para a SIC Mulher. Pois acho a Oprah muito mais divertida do que o referido emplastro, e a sua voz não me provoca a mesma sensação de um garfo de aço inox a raspar uma placa de vidro temperado. Mas o demo está em todo o lado para nos tentar. E que local seria melhor para isso do que o Bairro Amarelo?

A um canto o “calhordas” que já ia no sétimo “Favaíto”, levantou do Record os olhos míopes que brilhavam atrás de duas verdadeiras vigias de batíscafo, e inquiriu num tom insidioso que nunca alguém lhe ouvira (nessa altura eu deveria ter suspeitado que o demo se apoderara da sua mente calcinada por uma rigorosa dieta de moscatel e jornais desportivos) – E a Madeira? Afinal o que é que você fazia para resolver o problema da Madeira?

Logo no café se instalou um desconfortável silêncio, apenas interrompido pelos esporádicos estalidos provocados pelos mosquitos e melgas presentes, que desesperadamente corriam a suicidar-se no electrocutor suspenso no meio da sala.

Bem… – arenguei eu à congregação, adoptando o dialecto local imbuído de pitoresco coloquialismo – Vocês sabem o que o Daniel de Oliveira disse há uns dias sobre o possível resultado das Eleições Regionais… Aquela cena de os madeirenses ao porem novamente o tipo no poleiro, estarem a afirmar que aprovam todas aquelas trafulhices e que são cúmplices do gajo… – Um unânime e afirmativo aceno percorreu a massa de rostos sérios e expectantes – Pois eu acho que se o tipo ganhar as eleições, devemos alugar a Madeira aos Chineses!

Após esta bombástica declaração dediquei toda a minha atenção à bica dupla, enquanto se instalava um aceso debate cujo gradual vozear ultrapassava já as portas do estabelecimento; fazendo com que algumas curiosas (coscuvilheiras” não soaria tão bem, embora se aproximasse mais da verdade) vizinhas viessem alternadamente à janela. O que por momentos me fez lembrar aquele divertido jogo, em que se bate com um martelo em roedores que alternadamente saem do tampo de uma mesa.

- Hrrãmmm! – Pigarreei eu tentando captar a atenção dos fiéis, que mercê de uma prodigiosa imaginação viam já o “ajardinado” Funchal pejado de restaurantes chineses e lojas de “inutilidades”. – Escutem! Desde que ocupámos Macau em meados do séc. XVI que temos uma dívida de honra para com o “Celeste Império”. Dívida esta que agora temos possibilidade de saldar, regressando aos áureos dias do "Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português" que como todos vocês sabem (esta foi descaradamente para “ganhar” a audiência) só foi assinado 1887; após uma já longa e abusiva ocupação, por parte dos nossos mais manhosos mercadores.

Por esta altura quase todos eles escutavam de olhos luminosos (quem sabe, se do Favaíto…), e “abanos” oscilando como girassóis sob a brisa primaveril das minhas palavras (esta é para ti, Inês Pedrosa).

Continuei – O que proponho, é a cedência temporária do arquipélago da Madeira (com todo o recheio e electrodomésticos) aí por cerca de 400 anos apenas. Passando pois a chamar-se transitoriamente "Região Administrativa Especial da Madeira, da República Popular da China" (RAEM). Tudo isto pela módica quantia de €370,36 mil milhões; que a acreditar nos últimos relatórios é mais ou menos a soma da nossa dívida externa.

- Os Madeirenses que quisessem continuar em Território Nacional (embora muitos deles achem que o local onde actualmente vivem não é Território Nacional, mas sim uma espécie de propriedade privada cercada de água por todos os lados), seriam bem recebidos no Continente onde após “boa cobrança” do cheque chinês, talvez conseguissem arranjar emprego e habitação decentes; integrados no inevitável “boom económico” resultante do aluguer de uma pequena parcela do nosso território, que parece apenas produzir chatices e despesas mal justificadas.

- Os nossos amigos chineses, ficariam por seu lado na posse de um precioso “estaleiro de obra”, onde poderiam guardar os contentores destinados às inúmeras obras que têm na República Popular de Angola. Podendo até aos fins-de-semana convidar o simpático Presidente José Eduardo dos Santos a beber uma “poncha” com eles, e tentar “esfolá-lo” no Casino cuja exploração teríamos cedido ao nosso grande amigo Stanley Ho.

- Tudo isto serviria para acabar com os nossos problemas financeiros mais imediatos; e quem sabe até sair do Euro… O que devido à nossa posição (esquerda baixa) em relação ao resto da Europa, nos permitiria fechar facilmente as fronteiras e começar a cobrar entrada a todos os turistas que quisessem variar da arruinada Grécia, da caótica Espanha e da impotente (é mais o presidente) Itália. Elevando este “jardim (este e não o outro) à beira mar plantado” à glória de outras eras, realizando finalmente o destino do Império, do qual tanto falava Pessoa. E agora desculpem-me, porque tenho que ir trabalhar um bocado…

Com estrelas cintilando no olhar, a irmã da Tininha contemplou-me como se eu fosse um “double Big Mac” com queijo extra (infelizmente a antiga “Miss Traseiro Dourado” sucumbiu aos prazeres terrenos da “junk food”, matando cruelmente uma das minhas mais acarinhadas fantasias) e proferiu em voz maviosa. – Que bonito! Até parece o “Professor Marcelo do Bairro Amarelo”…

Foi nesse momento que o Demo me tentou; e em vez de negar com veemência, fiquei calado…

Sinto que a Fé de Blog se encontra ameaçada, pois a partir de agora dificilmente me levarão a sério por aquelas paragens...

Música de Fundo
Weapon of ChoiceFatboy Slim (link)


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Profeta Piçarra no início da sua auspiciosa carreira,  usando a característica "pochette das relíquias"
(Foto: Net)


As Profecias do Piçarra
- Quando um homem do passado ergue a sua luz bem alto, projectando o seu espírito no futuro; é porque em boa verdade algum ponto deve estar esgaçado no tão famoso “tecido do tempo” -

Foi cedo na minha juventude (e é por essas e por outras que costumo dizer que quase a desperdicei) que me interessei pelo hermetismo, o esoterismo e o oculto em geral. Felizmente antes de me transmutar no “Novo Homem” e desaparecer como Fulcanelli, tive uma crise galopante de hormonas. O que me fez abandonar uma brilhante carreira como alquimista, a favor de objectivos menos longínquos e mais (a)palpáveis.

Ficou-me porém um certo gosto pelo arcano. Especialmente pelas potencialidades humorísticas dos rituais e profecias, tão ao gosto de senhores de meia-idade que usam barbicha “à Frank Zappa”.

No fim-de-semana passado encontrava-me eu à beira-mar, lutando tenazmente (e com uma tenaz) para desvendar os interiores de um teimoso crustáceo, quando o meu olhar ocioso pousou momentaneamente sobre um documentário que passava na TV.

Tratava-se pois de um programa sobre “As Profecias” de Nostradamus. Um famoso vidente que além de epiléptico e cardíaco, devia ser também disléxico. Pois nos últimos quinhentos anos, milhares de pessoas têm gasto milhões de horas e rios de tinta, só para tentar desvendar o significado de uma enorme colecção de quadras, mais dúbias que as justificações do Alberto João Jardim sobre as contas da terra dele.

Isso fez-me lembrar que à semelhança de todas religiões, fraudulentas ou não, a Igreja do Imaculado Blog tem também um Profeta de nome Piçarra, nascido em Alfama tal como ELE (apesar de ímpios terem posto a circular o boato, que Blog não nasceu. Tendo sido sim, inventado).

Deixo-vos pois com um pequeno texto extraído do “Livro Negro de Blog”; e que nunca aqui foi publicado.

***

Venho falar-vos hoje de um famoso visionário e profeta de seu nome Piçarra. Amolador/fadista nascido num rés-do-chão da Rua da Adiça, e conhecido pelas suas premonições de cariz catastrófico.

Apesar da grande dificuldade que qualquer estudioso terá em interpretar os seus textos; pois além de ter uma caligrafia horrível, grande parte das suas visões eram obtidas “sob influência”. Alguns casos (que não este) são de uma arrepiante clareza que não deixa dúvidas.

Um flagrante exemplo que comprova a precisão das suas profecias, é o que seguidamente transcrevemos. Ocorrido no final dos anos setenta do século passado; e cuja trágica génese apenas foi compreendida há poucos anos.

Conta-se que Piçarra vinha um dia do Cais do Sodré onde tinha lanchado uns burriés empurrados a “penálti de branco”, quando ao passar pela rua de S. Julião decidiu aí parar no Arduíno “seboso” (na altura, um conceituado empresário do ramo hoteleiro e fornecedor de carvão), para acabar de atestar com uma das famosas bifanas molhadas “à seboso”; e assim ganhar lastro para empurrar o monociclo da ferramenta até à Praça da Figueira.

Ora, uma das primeiras coisas que qualquer Profeta aprende, é que se pode tornar perigoso misturar bebidas de natureza diferente.

Após deglutir a referida iguaria diluída numa malga de “verde tinto” contrabandeado da Galiza, Piçarra saiu da carvoaria um pouco periclitante e agarrando em ambos os punhos do monociclo, empurrou-o estoicamente pela Rua do Ouro adiante. Por entre as pragas e impropérios, dos automobilistas a quem obrigava a reduzir a velocidade.

Chegado por alturas da Rua de Santa Justa, Blog enviou-lhe um sinal.

Bem… Na verdade foi o “verdasco”, que começando a interagir com toda aquela confusão de ingredientes, acabou por produzir uma elevada concentração de hidrocarbonetos (a saber, CH4). Que ao repassarem as martirizadas carnes do Profeta, se escoaram em direcção à unidade de processamento central, provocando-lhe “visão dupla” acompanhada de uma relativa debilidade nos joelhos.

Piçarra, habituado a revelações, epifanias e outros estados alterados, olhou franzindo o cenho em direcção ao elevador de Santa Justa, que além de duplicado oscilava como uma corda de estendal e profetizou – São dois! São dois! Ai que eles caem os dois!...

Foi de espírito abalado que logrou chegar ao quiosque do Faustino na Praça da Figueira. Onde em frente a uma “Carvalhelhos”, anotou a visão num bilhete de eléctrico que ainda conservamos na nossa Igreja; junto às outras relíquias (mesmo ao lado do prepúcio de Frei Fialho).

Na verdade ignoramos quem foi o idiota que afirmou não ter dúvida que tal episódio profetizou a queda do World Trade Center em 11 de Setembro de 2001. Mas de uma coisa temos porém a certeza. Piçarra, nos muitos anos em que ainda perdurou na sua carreira de profeta e visionário (e também amolador), nunca mais misturou “verde” com “maduro”…

Música de Fundo
A TendinhaHermínia Silva (link)


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Foto: Net


A Mais Bela do Universo
- Um título inventado por alguém que nunca receberia o de “O Mais Assertivo de Santo António dos Cavaleiros” -

Embora nunca deixe de apreciar a beleza de uma mulher (ou a beleza em geral), não sou grande apreciador dos concursos subordinados ao tema. Compreendo, é claro, o apelo que tem esse tipo de desfile. Pois a tradição da exposição de “carne fresca” já tem milhares de anos. Embora noutros tempos existisse a possibilidade de a troco de algumas peças de ouro, levar para casa algo mais do que desejos insatisfeitos.

Não que eu faça a apologia da escravatura ou da predominância masculina sobre a mulher como objecto. Só que, fetiche é fetiche (lá estou eu armado em Gertrude Stein) e o “Mercado de Escravos” tem muito pouco em comum com as minhas preferências em “fantasias” e brincadeiras de alcova.

Quanto à motivação das mulheres que vêem aquilo, não estou muito certo. Mas penso, na minha cândida ignorância, que será aproximadamente pela mesma razão que eu vejo o “Top Gear”; embora não conduza nem possua um desses sorvedouros de dinheiro que designam por automóvel.

Mas não nos afastemos do assunto.

Segundo alguns “entendidos”, a beleza não é resultante da perfeição mas sim da particularidade. E com isto não tenho qualquer dificuldade em concordar; posto que ainda há poucos dias fiquei a olhar demoradamente uma jovem de tez cor chocolate (com mais de 70% de cacau), e possuidora de um nariz digno de Cleópatra.

Todo este anterior arrazoado tem a ver com o facto de hoje me terem mostrado a foto da vencedora do concurso Miss Universo, e… Foi uma desilusão!

Não me refiro a uma desilusão tipo derrota do Sporting, ou assim… Nada disso!

Acho que o impacto de tal sensação, só se compara com o que terá sentido o Arquiduque Francisco Ferdinando de Habsburgo-Lorena, quando naquela límpida manhã de Verão em Sarajevo saíra para beber um “expresso”; crente no amor e profunda devoção que os bósnios basbaques colocados à beira da estrada, alegadamente nutririam pela sua arquiducal pessoa.

O bom aspecto é sempre algo de bom. Mas proclamar como “A Mais Bela do Universo” uma quase-fotocópia a cores de Beyoncé Knowles (que embora bonita é igual a milhares de outras “african american), parece-me um pouco exagerado; isto só para não dizer, ridiculamente pretensioso.

Talvez eu não devesse conjecturar sobre a possibilidade de se tratar de um presente, que algum político ou novo-rico angolano tenha decidido dar-lhe. Isto já não contando com o facto de a sua eleição Miss Angola/Reino Unido ter decorrido em circunstâncias bastante duvidosas (segundo alguns tablóides britânicos e mesmo a Wikipedia).

Mas toda esta caldeirada me faz lembrar um divertido conto de Richard Matheson ("Miss Stardust" escrito em 1955) que li há muitos anos, e no qual a meio do concurso “Miss Stardust” realizado em plena “parolândia” dos Estados Unidos, aterra a nave espacial do “Homem-Couve”. Um irascível ET de aspecto inconcebível e aterrador; que afirmando-se possuidor dos direitos sobre o concurso para toda a galáxia conhecida, exige que o mesmo seja anulado ou comece a aceitar concorrentes do espaço exterior.

Entretanto as coisas começam a complicar-se porque as novas concorrentes vêm acompanhadas dos respectivos pais (qualquer deles tão irascível e inconcebível quanto o “Homem-Couve”) que ameaçam incinerar o nosso planeta, caso as suas respectivas filhas (tão aterradoras, irascíveis e inconcebíveis quanto os progenitores) não recebam o 1º Prémio.

Esqueci-me já de como o “xico esperto” do promotor do evento conseguiu resolver o assunto. Mas não tenho qualquer dúvida de que ele sentiria uma certa empatia (e quem sabe, talvez até sintonia…) para com a organização do concurso “Miss Universo”.

Agora quanto a mim, já que arranjaram o pretensioso título de “Miss Universo”, o mínimo que podem fazer é eleger alguém um pouco mais “único”. Porque a pobre rapariga é tão incaracterística como uma meia-de-leite servida em qualquer pastelaria manhosa da Trafaria.

Música de Fundo
Beauty ContestNo Doubt (link)


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Foto: IMDB


Cronenberg sempre foi um dos meus realizadores favoritos. É um tipo que sabe jogar com a carne, os medos inconscientes e o animal que espreita dentro de todos nós.

É por isso que “A Dangerous Method” faz parte da minha lista de filmes prioritários para os próximos tempos. Quanto mais não seja para confirmar a minha teoria sobre qual foi o tratamento prescrito para a histeria de Sabina Spielrein (no filme interpretada por Keira Knightley).

Enquanto o filme não se encontra disponível no meu circuito habitual, e por tal não o podendo comentar devidamente aqui; deixo-vos um repost de 28 de Abril de 2006. Que calculo será muito útil como base de entendimento para todos os que desejarem ver a película em questão.


Um Amigo Estranho
- Um post que fala das coisas simples da existência, das memórias perdidas no tempo, das salsichas de Viena e da psicopatologia da vida quotidiana -

Quando o conheci ele era apenas um miúdo borbulhento e complexado.

Ziggy (como gostava de ser chamado pela malta) era um tipo banal que admirava Aníbal (o cartaginês, não o Presidente), e projectava quando crescesse tornar-se general, e instaurar em todo o mundo uma ditadura benevolente e cuja filosofia principal se baseava no impulso sexual.

O “grupo do berlinde” constituído por mim, Eugen Bleuler e Sandor Ferenczi, tinha recebido a solene promessa de vir a constituir as futuras “tropas de choque” do regime. Mal podíamos esperar…

Infelizmente os seus projectos foram dificultados pelas inúmeras discussões com a mãe, que lhe dizia repetidamente – Se o que te seduz é a farda, podias ao menos ir para carteiro como o filho da senhora Shultz. Tem boas regalias, e até lhe dão um subsídio para os calções de cabedal…

Mas Scholomo era um frustrado. Uma das coisas que mais o apoquentava era o nome; que assim que pôde mudou de Scholomo Sigismund para Sigmund. O que conduziu a mais uma discussão desta vez com o pai, que o acusou de querer ter um nome mais catita que o dele (naquela altura em Viena, tipos chamados Jacob havia-os ao pontapé), tendo-lhe inclusivamente chamado histérico.

Mais tarde ao cursar a escola médica, Sigmund aproveitou este episódio para fazer um notável trabalho sobre a histeria, que deixou a maior parte dos catedráticos maravilhados, dando gritinhos agudos e arrepelando os cabelos.

Encontrei-o mais tarde em Bratislava, sempre insatisfeito com a sua profissão a que chamava – “Um poço de chatices onde só caem desequilibrados e doidos de toda a espécie…” – e confessou-me que estava farto de Viena. Recusando-se terminantemente a voltar ao consultório, onde a conta do gás já se encontrava por pagar há três meses.

Tentei chamá-lo à razão enumerando as grandes maravilhas de Viena, tal como o Cabaret da Madame Lola, os “pretzels” sempre quentinhos da padaria de Herr Reinman e as salsichas obviamente vienenses.

Mas o tipo alegou que as salsichas lhe faziam lembrar o pai, com quem se encontrava de relações cortadas e chateou-se igualmente comigo. Soube que mais tarde utilizou esta discussão para aperfeiçoar a sua teoria sobre a “inveja do pénis”; mas decidiu limitar a sua aplicação aos casos de pacientes femininos, por vergonha e medo que o acusassem de “efeminado”.

Foi por essa altura que deixou crescer a famosa barba “à Freud”, em formato de tigela para cereais.

Estudar os trabalhos de Leibniz ainda o deprimiu mais. E ao tentar mudar de leituras embrenhou-se na antiguidade clássica, constatando que sofria do mesmo complexo que Édipo; tendo logo aproveitado para publicar uma breve monografia sobre o assunto, a que muito originalmente chamou de “Complexo de Édipo”.

Felizmente ele era um tipo modesto, senão ainda acabaríamos por ter nos compêndios o famoso “Complexo de Freud”.

A última gota de fel na taça das nossas já fracas relações de amizade, foi ele ter utilizado as confidências que eu lhe fizera sobre a minha ligação amorosa com a contabilista da "Spanische Reitschule", publicando-as com o título de “A Interpretação dos Sonhos”; aproveitando para postular o novo modelo do inconsciente que considerava tanto a causa como o efeito da repressão.

E venham cá agora dizer-me que o tipo jogava com o baralho todo…

Insultei-o em pleno “Café Museum” na presença de Carl Jung e de Abrahams, que tinham aparecido para beber um Schnapps de mirtilo (era a especialidade da casa), acusando-o de ser um fingido e de ter um superego. Só parei de o insultar, porque aparentemente tudo o que eu dizia lhe ia servindo para edificar aquelas teorias estapafúrdias que os alienistas tanto gostam.

Apesar de ser a comemoração dos cento e cinquenta anos do seu nascimento, não posso deixar de afirmar que o tipo era um aldrabão, e que todas aquelas teorias eram baseadas nas conversas que tinha com os amigos e na sua própria vida sentimental. Pois como psicanalista era um nabo que mal conseguia hipnotizar uma galinha.

Deixo-vos com este artigo sobre o meu ex-amigo Sigmund Freud (esse ingrato) e vou-me preparar para a sessão de hidroterapia, que o enfermeiro Hans está farto de me abanar pelas fivelas do colete, pois tem o duche frio a correr já há um bom bocado…

Música de Fundo
Get Off The Couch” – Yellowcard

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


Foto by TheOldMan


Business as Usual ou
“O Fugitivo de Sagitário” (Subtítulo algo críptico que apenas fará sentido para um ou dois “iniciados”)

O regresso à “cela gradeada” é sempre uma ocasião memorável que me faz lembrar Camus ou da razão para alguém se tornar num simpático e metódico “serial killer”, que só escolha vítimas enfadonhas e de boçal índole.

Isto porque foi um dia calmo, dado que a minha “entidade empregadora” aproveitou não nos ter pago os subsídios (e mais uns trocos atrasados) para gozar ele próprio férias. Mas todos temos que viver; e eu compreendo que não haja nada mais triste que viver de aparências, especialmente quando se usa um Rolex falso.

Ora sendo eu um optimista quase tão indefectível quanto o Doutor Pangloss, ignorei o contratempo e segui em frente. Pelo que as minhas férias acabaram por se tornar algo entre divertido e alucinante, especialmente no que toca a divertimentos nocturnos; dos quais estou proibido de vos contar o mínimo pormenor. Pois tal relato poderia fazer perigar o bem-estar de alguns bons amigos (um deles tragicamente esposo de uma “kickboxer” não federada, mas com uns “Gastrocnemius” dignos do saudoso Joaquim Agostinho).

Embora rico em peripécias, este meu último período de férias terá que ficar arquivado junto a outros nebulosos segredos. Tais como o depoimento original da Irmã Lúcia ou a receita dos Pasteis de Belém.

E assim deixo-vos com a foto do único acidente aqui documentável, bem como algumas propostas de dísticos a afixar (conforme futuro projecto-lei) nas garrafas de bebidas com médio teor alcoólico. Estudo este resultante de uma minuciosa observação da natureza humana e do consumo de água tónica apenas com limão.

1º - AVISO – O consumo de álcool pode criar-lhe a ilusão de que é mais forte, mais inteligente, mais rápido/a e mais bonito/a que a maioria das pessoas.

2º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-lo/a crer que sabe cantar.

3º - AVISO – O consumo de álcool é um dos maiores responsáveis pelo facto de vestir essas incríveis calças vermelhas e saltar para a pista, aterrorizando a maioria das amigas da sua filha.

4º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-la interrogar-se sobre para onde terá ido a sua “lingerie”.

5º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazer com que ao acordar possa dar de caras com algo assustador.

6º - AVISO – O consumo de álcool poderá causar distúrbios no “continuum” espaço-tempo, impossibilitando-o/a de ter a percepção do que se terá passado durante várias horas.

7º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-lo acreditar ser o herdeiro dos misteriosos segredos do Kung-Fu, enquanto na verdade está a ser desancado por um porteiro borbulhento e com o crânio em forma de melão de Almeirim.

8º - AVISO – O consumo de álcool poderá provocar gravidez.

9º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-lo/a acreditar que consegue conversar com membros do sexo oposto sem os encher de “perdigotos”.

10º - AVISO – O consumo de álcool poderá fazê-la/o acreditar que está a falar muito baixinho.

11º - AVISO – O consumo de álcool poderá convencê-lo/a que ex-namoradas/os ou ex-amantes aguardam ansiosamente que lhes telefone às quatro da madrugada.

12º - AVISO – O com sumo dálcol pudrá darlha iluzão que xcreve muinta bain.

Música de Fundo
I Dont Want to Go to ChelseaElvis Costello (link)


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Foto: Net


O Marceneiro e o Mar
- Pequeno conto apresentado a concurso nos primeiros Jogos Florais das Instituições Psiquiátricas do Serviço Nacional de Saúde -

O armário ficara finalmente concluído, assemelhando-se a um mosaico de tempo. Um calendário retroactivo com todos os seus entalhes de marfim rectificados e polidos; encastrados num leito de ébano brilhante como a testa suada de um etíope.

Transportou o móvel cuidadosamente para a balsa, enrolado num cobertor para que não se riscasse contra a amurada. Após verificar a solidez do nó com que o amarrara, ligou o motor; esbatendo-se-lhe a imagem à medida que se embrenhava na névoa baixa que beijava timidamente as águas.

Duas milhas para lá da última bóia da barra parou. As águas límpidas da corrente oceânica revelavam um fundo de areia fina, em que alguns corais tentavam sobreviver agarrando-se desesperadamente a uma ou outra pedra poupada pela força das águas.

Dobrou o cobertor sobre o banco a seu lado e retesando os músculos, fez descer o armário verticalmente para a água, soltando a corda lentamente de modo a que este ficou assente no fundo com a dignidade de um relógio de sala. Dominando com o seu porte hirto as cercanias, onde surpreendidos peixes evolucionavam curiosamente em seu redor.

Ligou novamente o motor para regressar a terra. Por um momento pensou em todo o tempo que representava cada entalhe, cada peça de face, cada compartimento que compunha o armário. Todos esses momentos seriam trocados por algo mais duradouro.

Por cada pedaço de marfim que se soltasse, um coral criaria raiz no substrato da madeira. Alimentando-se desta enquanto se alicerçava para uma estadia de algumas centenas de anos. Por cada brecha aberta nos encaixes das tábuas, um peixe procuraria abrigo das águas revoltas no Inverno ou da luz demasiado brilhante no pino do Verão.

O tempo que gastara/perdera teria finalmente utilidade. E o armário seria apenas uma recordação oculta pelo pequeno recife que a partir dele se criaria.

Em vez de ser admirada e comentada por peritos, a sua arte desta vez serviria para algo muito melhor… Para dar vida.

Estava na altura de tirar umas férias.

Música de Fundo
Still LifeThe Horrors (link)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Foto: Net


A Banhos na Praia do CDS com o Apóstolo e Óculos Gay
- e também um ligeiro vislumbre sobre a tenebrosa conspiração dos amoladores -

Sinto-me um homem dividido!

O caso é que na maioria das ocasiões em que lido com qualquer situação mais específica, dou por mim a efectuar uma segunda análise a partir do exterior. Um pouco como se a meio de uma competição desportiva, descobrisse estar simultaneamente em campo e na bancada.

Esta reflexão semi-esquizofrénica, atinge-me subitamente enquanto gasto a última manhã das primeiras férias, caminhando pelo areal à conversa com o Apóstolo. Não que as nossas conversas sejam desinteressantes, pois versam sobre a natureza humana (o que é o mesmo que dizer “sobre a relatividade”) e o sentido das coisas. Mas é-me impossível evitar ser assolado por simultâneos pensamentos marginais; como um desprevenido átomo atingido traiçoeiramente por improváveis partículas de estranheza.

Acabo por lho confidenciar. Mas enquanto o faço interrogo-me, se isso é algo que se conte a alguém sem correr o risco de ser compulsivamente internado numa unidade psiquiátrica.

- Deve ter também as suas vantagens. - Tentou ele consolar-me – Imagino o jeito que isso deve dar durante o sexo; com as mudanças de ângulo e tudo…

- Só que infelizmente a coisa não funciona assim, Zé António. – Respondi-lhe – Isto não é a TV digital. É mais como tentar escrever um texto com um Revisor de Provas sentado no colo e a dar palpites.

Enquanto explico isto consigo ao mesmo tempo ver-nos a caminhar pelo areal, como se a imagem tivesse passado para o “carro de exteriores” da RTP na Volta a Portugal. A minha expressão concentrada, traduz alguma preocupação sobre o facto de cada vez mais aparecerem amoladores durante a época estival, numa flagrante tentativa de sabotar as nossas férias.

Como todos sabem segundo a consuetudinária crença, de cada vez que se avista um amolador e se ouve o som lamentoso da flauta de Pã, as nuvens começam a aglutinar-se resultando invariavelmente em chuva. Aquela coisa húmida que é a bênção dos agricultores e o terror dos banhistas (isto pode ser um exagero, porque já encontrei na praia coisas que teriam muito mais hipóteses de me assustar).

E ultimamente por algum estranho motivo, o número de “avistamentos” de amoladores tem aumentado de modo preocupante.

Paro ostensivamente para limpar as lentes dos óculos escuros, enquanto sussurro ao meu amigo – Olha! Está ali um com a bicicleta encostada ao Restaurante “O Barbas”.

- Estás a ver coisas, pah!... Deve ser desses óculos maricas que agora trazes para a praia…  – Responde sucintamente o apóstolo  – É apenas um tipo com a sua bicicleta. O facto de estar completamente vestido, não quer dizer nada.

(Embora me sinta “agradado & agradecido” pela oferta de uns Dolce & Gabanna com lentes “azul celeste”, a minha masculinidade ressente-se de cada vez que os uso; a não ser que esteja em calções de banho ou mesmo nu. O que quer dizer que só os uso na praia. Mas adiante…)

Em boa verdade até nem era uma visão assim tão alarmante, pois o que se encontrava numa pequena bagageira sobre a roda traseira poderia ser um saco desportivo em vez da inquietante “caixa da ferramenta”, e o tipo parecia mais interessado nos atributos estéticos das banhistas do que em perscrutar os céus na mira de nuvens negras.

Decidi abandonar o assunto, e continuámos a percorrer o areal imersos nos meandros das complicadas relações inter-pessoais; e debatendo a possibilidade de o Facebook, poder eventualmente vir a ser mais tarde (se é que não acontece já) usado como instrumento de espionagem para devassar a privacidade do cidadão comum.

Talvez impulsionado pela nossa animada conversa, o Sol chegou mais rápido ao ponto em que costumamos abandonar a praia. Dirigimo-nos ao topo do pontão e sentámo-nos num dos bancos existentes, aproveitando para sacudir a areia dos pés; minorando assim o já galopante desassoreamento daquelas praias.

Ao sentar-me senti que um qualquer objecto tentava espetar-se-me na perna através do tecido dos calções. Inclinando-me para um dos lados extraí debaixo de mim um pequeno objecto de plástico vermelho. Uma minúscula flauta de Pã, com todo o aspecto de vir como brinde na caixa de uma qualquer marca de cereais.

Olhei desconfiadamente em volta, mas nem rasto de qualquer amolador ou mesmo um ciclista mais vestido do que é hábito. As nuvens no céu, perseguiam-se mutuamente como um rebanho de brincalhonas ovelhas; não me parecia que viesse a chover.

No banco ao lado uma família executava a habitual tarefa de limpar a areia dos pés. Levantei-me para acompanhar o Apóstolo em direcção ao automóvel, e ao passar por eles ofereci o objecto a uma miúda de cerca de 12 anos que tentava calçar as sandálias e prender o cabelo simultaneamente (não me perguntem como, pois eu acho que é necessário ser uma miúda de 12 anos para conseguir realizar esse extraordinário feito).

Quando nos afastávamos ouvi-a explicar ao irmão a proveniência da flauta plástica – Foi aquele senhor ali… - Ao que o irmão confirmou casualmente – Ah! O dos óculos gay…

Felizmente é coisa que não me afecta. Especialmente vindo de alguém tão parecido com o Justin Bieber…

Música de Fundo
Play That Funky MusicWild Cherry (link)


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